HISTÓRIA DA ÉTICA

Texto de Rosiane Follador Rocha Egg

HISTÓRIA DA ÉTICA

Fundamentos da ética 


O significado da palavra ética vem do Grego ethos, referente ao modo de ser do indivíduo, ou ao caráter do ser humano. Na Grécia Antiga, período que coincide com o século IV a.C., os filósofos gregos foram os primeiros a pensar o conceito de ética, associando a tal palavra a ideia de moral e cidadania. Precisavam de honestidade, fidelidade e harmonia entre seus cidadãos, porque suas cidades-Estado1 estavam em desenvolvimento. 

Sócrates



Sócrates, Platão e Aristóteles são os pensadores gregos mais estudados e citados no campo da ética. De um modo geral, afirmavam que a conduta do ser humano deveria ser pautada no equilíbrio, a fim de evitar a falta de ética. Pregavam a virtude, a estreiteza moral e outras atitudes voltadas para a ética. Sócrates nasceu em Atenas, provavelmente no ano de 470 a.C., e tornou-se um dos principais pensadores da Grécia Antiga. Aprendeu música e literatura, mas se dedicou à meditação e ao ensino filosófico. Desde jovem, Sócrates ficou conhecido pela sua coragem e pelo seu intelecto. Serviu no exército, desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. Desde a juventude, Sócrates tinha o hábito de debater e dialogar com as pessoas de sua região. Não fundou uma escola de pensamento, pois preferiu realizar seu trabalho em locais públicos, principalmente nas praças e ginásios. Costumava agir de forma descontraída e descompromissada, dialogando com todas as pessoas, o que fascinava jovens, mulheres e políticos de sua época Vázquez (1997, p. 231) esclarece com propriedade:
Resumindo, para Sócrates, bondade, conhecimento e felicidade se entrelaçam estreitamente. O homem age retamente quando conhece o bem e, conhecendo-o, não pode deixar de praticá-lo; por outro lado, aspirando ao bem, sente-se dono de si mesmo e, por conseguinte, é feliz.
Para Sócrates, virtude é sabedoria (sofia) e conhecimento. Já o vício é o resultado da ignorância. O saber fundamental é o saber a respeito do homem. Sobre essa ideia, o pensador teria dito suas frases mais conhecidas como: “Conhece-te a ti mesmo” e “Sei que nada sei” Sócrates, devido à sua liberdade de expressão e às fortes críticas que fazia à política da Grécia, foi acusado de corromper os jovens da época e foi condenado a beber cicuta2 . Morreu em 399 a.C.

Platão

Platão nasceu em Atenas, em 427 a.C. e morreu em 347 da mesma Era. Pertencia a uma família rica, da mais alta aristocracia grega. Foi discípulo e admirador de Sócrates. Platão retratou seu mestre em muitas de suas obras, segundo Natrielli (2003), em A República:
Platão descreve o diálogo no qual Sócrates pesquisa a natureza da justiça e da injustiça. Para isso, transferindo a análise do individual ao coletivo, procura a justiça “em letras grandes”, imaginando a constituição de uma cidade ideal. À medida que essa cidade vai sendo construída, desde sua forma mais primitiva até se tornar mais complexa, há a necessidade de uma especialização de tarefas cada vez maior. Essa cidade terá então uma classe de guardiões para defendê-la e estes deverão receber uma boa educação para que sejam, segundo Sócrates, “brandos para os compatriotas embora acerbos para os inimigos; caso contrário não terão de esperar que outros a destruam, mas eles mesmos se anteciparão a fazê-lo” (p. 375). Sendo assim, uma grande parte do diálogo se dedica a decidir qual seria a educação mais adequada para se formar homens “com uma certa natureza filosófica” que terão a função de proteger e governar essa cidade imaginada como perfeita e justa.
A descoberta da metafísica é atribuída à Platão, cujas reflexões filosóficas culminam para o mundo das ideias. Segundo a Teoria das Ideias de Platão, existem dois mundos; o primeiro mundo é composto por ideias imutáveis, eternas, invisíveis e diferentes das coisas concretas; o segundo, o mundo real, é constituído por réplicas das ideias (coisas sensíveis), cópias imperfeitas e mutáveis.

Ao contrário do que se pode pensar, o mundo das Ideias, de Platão, é o lugar das coisas verdadeiras enquanto o mundo real é o lugar onde reinam as aparências e as sombras. Segundo esta premissa, o homem não se pode deixar levar pelos sentidos, que sempre lhe passam uma percepção distorcida das coisas que o rodeiam. A verdadeira realidade só pode ser atingida e verdadeiramente compreendida por intermédio da razão.

Vale destacar que Platão também afirma que o bem é um molde sobre o qual deveria se processar toda a ação humana. Ele entendia que o elemento da vontade do homem deveria estar sempre voltado para o bem. Platão também encaminhou seus estudos para as áreas da política e da reforma social, em decorrência do seu envolvimento com a difícil situação de Atenas, após a Guerra do Peloponeso. Ele ainda entendia que a pólis é o próprio terreno da vida moral e que a ética necessariamente desemboca na política. Platão reconhecia como “classes superiores” as dos governantes e guerreiros, pelas suas atividades de contemplação, guerra e política. 

As “classes inferiores” eram as dos artesãos – devido ao desprezo do pensador pelo trabalho físico – e dos escravos – considerados pela sua sociedade como desprovidos de virtudes morais e de direitos cívicos. A ética de Platão dava-se de acordo com as ideias dominantes, a partir da realidade social e política daquela época. Seguindo suas ideias reformistas, Platão fundou a sua escola em Atenas, que denominou Academia, um estabelecimento destinado à educação de adultos, com aulas ministradas por vários professores.

Nesse estabelecimento, as mulheres eram aceitas com os mesmos direitos à educação que os homens, um fato curioso que não condizia com a cultura daquele contexto, em que elas eram consideradas inferiores física e intelectualmente. No entanto, para as mulheres frequentarem as salas de aula deveriam trajar-se tal qual os homens. A Academia foi fechada após nove séculos de atividade pelo imperador Justiniano, por ser considerada um reduto de “paganismo” do povo grego. Vale notar que, depois destes nove séculos, a cultura grega foi incorporada pelo Império Romano, que se dividiu em duas partes. A parte que coube ao imperador Justiniano, conhecida como Império Bizantino, adotou a religião cristã ortodoxa como oficial. Justiniano, durante seu governo (483 a 565 d.C.), buscou unir o Oriente e o Ocidente em torno de uma só religião. Autoritário, Justiniano combateu e perseguiu judeus, pagãos e heréticos, ao mesmo tempo que interveio em todos os negócios da Igreja, a fim de mantê-la como sustentáculo e sob controle.

As catedrais dos Santos Apóstolos e de Santa Sofia foram construídas durante seu governo, para mostrar ao povo a força da aliança que a Igreja tinha com o Estado. Para Platão, as virtudes se dividem em grupos, como consta a seguir:

A prudência ou sabedoria é a virtude da parte racional do homem, ou seja, a parte que corresponde à razão;

A fortaleza ou valentia é a virtude do entusiasmo, ou seja, dos impulsos de vontade e ânimo;
A temperança ou autodomínio, relaciona-se à parte do apetite, à vida impulsiva e instintiva, mas que freia os prazeres corporais e;

A justiça como o equilíbrio de todas as virtudes (VÁZQUEZ, 1997, p. 231). Platão associava cada parte da alma a uma determinada classe social própria de seu contexto.

Segundo ele, a razão era própria da classe dos governantes e filósofos, pois a prudência os guiava. Os guerreiros eram guiados pela valentia e entusiasmo, pois defendiam as cidades-estados. A temperança era característica da camada dos artesãos e comerciantes, motivados pelo apetite e pela moderação. A justiça social era a responsável pela harmonia entre todas as partes da sociedade grega da época. As principais obras de Platão são A República e Leis. Morreu em 348 a.C.

Aristóteles



Aristóteles nasceu na Macedônia, na cidade de Estagira, no ano de 384 a.C. Seu pai chamava-se Nicômaco e exercia a profissão de médico do rei da Macedônia. No ano de 367 a.C., quando Aristóteles tinha aproximadamente 17 anos, foi enviado a Atenas para completar sua educação, devido à intensa vida cultural daquela cidade que lhe acenara possibilidade de estudo. Ingressou na Academia de Platão e estudou ali até o ano da morte do mestre, quando consolidou sua vocação para filósofo. Em 343 ou 342 a.C., Aristóteles foi chamado para ser mestre do jovem Alexandre, o rei da Macedônia, quando este ainda tinha 13 anos. Posteriormente o filósofo voltou a Atenas, em 334 a.C., e fundou sua própria escola, o Liceu, cujos alunos eram chamados de peripatéticos. Morreu em 322 a.C.

Aristóteles, refletindo sobre como o homem poderia viver uma boa vida, afirmava que a felicidade era a finalidade de todo homem e a plena realização humana era a contemplação do exercício da razão humana. Ele ensinava que há três formas de alcançar a felicidade: pela virtude, pela sabedoria e pelo prazer. Escreveu aproximadamente uma centena de obras, mas muitos de seus livros perderam-se por terem sido proibidos pela Igreja Católica, no final da Idade Média.

O pensamento moral de Aristóteles está exposto em obras como Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo e A Grande Ética. As suas obras foram das mais discutidas e comentadas da Antiguidade, deixando uma importante herança para a história da cultura e da filosofia.

Ética ao longo da história

Ética romana e Cícero 

Entre os filósofos romanos da Antiguidade, podemos citar Marco Túlio Cícero, que nasceu em 106 a.C. e morreu em 43 a.C. Além de filósofo, foi também orador, escritor, advogado e político romano. Quando Júlio César desencadeou a guerra que o levaria a dominar todo o império, tratou de eliminar seus últimos adversários. Entre estes estava Cícero, que, na época, era senador e figura proeminente da política romana. Vendo-se obrigado a deixar a vida pública, Cícero recolheu-se à vida privada e retomou a meditação filosófica. Discutiu diferentes doutrinas gregas sem, no entanto, vincular-se inteiramente a nenhuma. Seu conhecimento sobre a filosofia grega fora decorrente do período em que estudou em Atenas. Uma de suas frases mais célebres diz que “a filosofia é o melhor remédio para a mente.” Os filósofos romanos dessa época, de um modo geral, convergiam para a mesma preocupação com a conduta humana, com o caráter do indivíduo e com seus costumes. Todos esses aspectos em conjunto recebem o nome de moral. Esses filósofos também acreditavam que o principal objetivo das ações humanas está na própria virtude, pela sua retidão ou honestidade.

A moral foi para os romanos um conjunto de deveres que a natureza impôs ao homem, seja pelo respeito a si próprio, seja pela relação com os outros homens. 

Ética cristã na Idade Média

Por volta do século III a.C., o Império Romano passou por uma enorme crise econômica e política. A corrupção instalada no Senado e os gastos exorbitantes com artigos de luxo escassearam os recursos a serem investidos no exército romano, fato que atingiu negativamente o Império. Com o enfraquecimento da instituição militar romana, somado à crise política avassaladora, no ano de 395 a.C., o imperador Teodósio resolveu dividir os limites de seu império. Dava-se, com isso, o fim da Antiguidade e o início da Idade Média. 

Nessa época, a religião cristã assumiu o papel de determinar os valores morais e éticos a serem seguidos por boa parte do Ocidente. Ganham ênfase as revelações dos livros sagrados traduzidos pelo clero e, a partir deles, passam a ser determinadas as regras de conduta sociais. A figura messiânica de Jesus de Nazaré tornou-se o grande arauto de uma nova ética: a do amor ao próximo. A Igreja Católica e seus dogmas se mantiveram por longos anos.

São Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino (1225-1274) foi um frade dominicano. Era responsável pela orientação e proteção religiosa da sociedade. Seu maior mérito foi aplicar a visão aristotélica na doutrina cristã, fato que colaborou com o surgimento da Escolástica. De acordo com Aquino, era a união do corpo com a alma que formava a identidade e dignidade de uma pessoa. O autor também acreditava que somente por meio do exercício da razão humana aliado à revelação divina o homem poderia atingir a perfeição das virtudes. Essa vertente afirma que Deus era o legislador, e os padres, os intérpretes da lei.

Para Tomás de Aquino, a fé e a razão estavam unidas e não poderia haver contradição entre ambas, pois estavam sempre dirigidas rumo a Deus. Esse pensador também afirma que toda a criação é boa, tudo o que existe é bom quando se está sob a orientação dos mandamentos de Deus. Ele também afirmou que o mal é a ausência de uma perfeição divina.

Idade Moderna

A partir do século XVI, durante a transição da Idade Média para a Moderna, a Igreja Católica começou a cair no descrédito da população devido ao protestantismo e a outros movimentos que eclodiram com a Reforma Religiosa do século XVII. 

Destaca-se dentro desse contexto a figura de Martinho Lutero, monge que viveu entre os anos de 1483 a 1546 e lutou pela reforma da Igreja Católica. Questionou a falta de ética na venda das indulgências e de relíquias sagradas, como pedaços do manto de Jesus Cristo e de minúsculos fragmentos da sua cruz. 

Lutero foi a Roma e lá presenciou o comportamento antiético de alguns membros da Igreja. Percebeu que a venda de indulgências poderia confundir as pessoas e levá-las a confiar apenas nas indulgências, deixando de lado a confissão e o arrependimento verdadeiros. 

Além dessa questão, Lutero criticava o fato de a Bíblia ser pouco acessível à população geral, pois poucos conheciam o idioma em que estava escrita (Latim), e os poucos exemplares do livro sagrado que existiam encontravam-se fechados nos conventos e igrejas. Ao contrário de uma elite eclesiástica, a grande maioria da população não conhecia a Bíblia.

Lutero, no seu movimento reformista, promoveu a educação para todos, inclusive para camponeses e mulheres. Traduziu a Bíblia do Latim para o Alemão, dando a oportunidade para que todos a conhecessem. O aperfeiçoamento da imprensa por Gutenberg11 também ajudou a divulgar a sagrada escritura dos cristãos. Na Idade Moderna, foram consideráveis as transformações de ordem social, econômica e política, como as viagens às Índias e às Américas e a revolução científica, proporcionada por Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Newton, entre outros. 

A partir desse contexto, alguns filósofos modernos resgataram aspectos do pensamento filosófico greco-romano no tocante à necessidade de toda a humanidade alcançar a sabedoria e a felicidade, principalmente pautando-se no equilíbrio e na razão.

Immanuel Kant (1724-1804) foi um filósofo prussiano, considerado o último grande filósofo dos princípios da Era Moderna. Kant teve um grande impacto no Romantismo alemão e nas filosofias idealistas do século XIX. Para Kant, a ética é autônoma, ou seja, corresponde à lei ditada pela própria consciência moral. Esse filósofo deu prosseguimento à construção da própria ideia moral, afirmando que aquilo que o homem procura está dentro dele mesmo. Muitos foram os filósofos que seguiram Kant. Relação da ética com outras ciências 

Ética e política

Estão relacionadas pela natureza do poder. Se pensarmos em democracia12, como nos ensina Zajdsznajder (1994, p. 96), a grande preocupação das pessoas que elegem o político refere-se ao uso indevido do poder, quando o eleito coloca seus interesses particulares acima dos interesses do povo, desviando os recursos em benefício próprio ou para pagar promessas feitas durante a campanha eleitoral. 

É uma das questões éticas mais relevantes no campo da política. 

Bioética

Bioética enfoca as questões referentes à vida humana e às melhorias na qualidade de vida do homem. É composta por estudos multidisciplinares na área da Biologia, da Medicina e da Filosofia. Com o notável avanço da Medicina, em especial na pesquisa genética, surgiram grandes preocupações no campo da ética. A clonagem humana e a fecundação artificial são novas práticas genéticas que vêm alterar conceitos e realidades da sociedade de hoje. 

Por exemplo, com as descobertas da biociência, passou-se a questionar muitos pilares sobre os quais a família moderna está baseada. Tem-se por família o resultado da união de uma mulher e um homem. No entanto, notícias como as veiculadas no jornal O Globo de 12/01/2003 (Caderno da Família, p. 2), tratam exatamente de um novo conceito familiar. Vejamos:
Uma clínica na Austrália mantém dois embriões congelados de um casal de milionários morto num acidente de carro em 1983. Ao saber da fortuna em jogo, numerosas mulheres ofereceram-se para gerar os bebês. Mas a justiça da Austrália decidiu manter os embriões congelados.

Ética e Sociologia

Estão estreitamente ligadas, pois a sociologia trata das leis que regem o desenvolvimento e a estrutura das sociedades humanas. Além disso, estuda o indivíduo inserido no meio social, de quem se espera um comportamento ético para o bem coletivo. As transformações sofridas nos tempos modernos atingem o homem em sociedade. A evolução das máquinas no campo e na indústria causam o alto índice de desemprego, a evasão rural e a superpopulação nas cidades. A Sociologia, por sua vez, está cada vez mais próxima da ética para encontrar soluções para esses problemas presentes na vida do indivíduo contemporâneo. 

Ética e Direito

A relação entre essas áreas refere-se ao próprio fato de que o homem está sujeito às normas que regulamentam as condutas sociais. Os homens necessitam das leis e de sanções para manterem a ordem na sociedade. A exemplo disso, tem-se o Código de Trânsito Brasileiro. A sociedade também precisa de estatutos para determinar regras de convívio, deveres e direitos, como o que está disposto nos estatutos da Criança e do Adolescente e do Idoso, todos da década de 1990.

--------------------------------------------------------------------------------------
Fonte:
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br

Comentários