MEDITAÇÕES - LIVRO 1: Os mentores de Marcus Aurelius

"Ele revelou-me a necessidade de uma avaliação desapaixonada da filosofia, do hábito das boas ações, da generosidade, de um temperamento cordial, e da confiança no afeto dos meus amigos."

Marcus Aurelius 


Qual a importância de ter um mentor?

    Ao longo de nossas vidas algumas pessoas passam por nossos caminhos e vão nos ensinando o que é bom, o que é ruim, e o que nem é bom nem ruim, apenas assim os são, seguindo a linha estoica.
    Alguns nos ensinam por palavras. Outros por gestos e ações.
    Alguns vão passar rápido, e as lições ficam no inconsciente. Outros chegam e ficam e nós nem imaginamos como poderia ser a nossa vida sem ele ou ela.
    Ter um mentor é fundamental, seja ele um professor direto ou alguém o no qual nos inspiramos, para nosso aprendizado, seja na vida pessoal, no trabalho. 

    Dentre os estoicos, Marco Aurélio é o filosofo que mais se aproximou de deixar claro a importância de termos um mentor.
    
    No livro 1 de Meditações de Marco Aurélio ele cita os que teriam sido, de certa forma, seus mentores, citando com quem e o que ele aprendeu.
As pessoas citadas por Marco são:
  • Seu Avô.
  • Sua Mãe.
  • Seu bisavô.
  • Diogneto, Pintor e Filosofo.
  • Rústico, professor estoico, foi tutor de leis e amigo de Marco.
  • Apolónio, professor de filosofia que veio da Calcedónia para Roma para ensinar Marco. 
  • Sexto, neto de Plutarco. Um dos primeiros professores de Marco.
  • Alexandre, o Gramático, Reputado erudito grego.
  • Fronto, Famoso advogado e professor que dava lições de retórica a Marco. 
  • Catulo, que além de estoico, era seu secretário. 
  • Severo, jocosamente chamado de irmão por Marco. 
  • Máximo, filosofo estoico. 
  • Seu pai adotivo, Imperador Antônio Pio. 
  • Seu irmão Lúcio Vero 
  • Os deuses

    No caso de Marco, a maioria de seus mentores eram de fato professores, mas também alguns familiares. Pessoas próximas, das quais, visívelmente, ele teria absorvido o que pode através apenas de sua convivência.

    Algumas das principais lições citadas por Marco são:

  • Cortesia e serenidade
  • Virilidade sem alardes
  • Piedade e generosidade
  • Ser comedido com os desejos
  • Não se envolver com trivialidades
  • Ser cético com relação a feiticeiros e milagreiros
  • Não ser presunçoso ou arrogante
  • Tomar decisões por si mesmo e  não depender de sorte ou acasos
  • Ser bondoso com as pessoas
  • Não corrigir as pessoas bruscamente
  • Não furtar-se às obrigações sociais devidas
  • Nunca menosprezar a a censura de um amigo
  • Amar aos familiares
  • Ter autocontrole, firmeza e disposição


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Leia na integra a parte 1 do livro Meditações de Marcus Aurelius

Meditações - Livro 1

    A cortesia e a serenidade, aprendi-as eu, primeiro, com o meu avô. 

    A virilidade sem alardes, aprendi-a com aquilo que ouvi dizer e recordo do meu pai. 

    A minha mãe deu-me um exemplo de piedade e generosidade, de como evitar a crueldade — não só nos atos, mas também em pensamento — e de uma simplicidade de vida completamente diferente daquilo que é habitual nos ricos. 

    Ao meu bisavô fiquei a dever o conselho de que dispensasse a educação da escola e, em vez disso, tivesse bons mestres em casa — e de que me capacitasse de que não se devem regatear quaisquer despesas para este fim. 

    Foi o meu tutor que me dissuadiu de apoiar o Verde ou o Azul, nas corridas, ou o Leve ou o Pesado, na arena; e me incentivou a não recear o trabalho, a ser comedido nos meus desejos, a tratar das minhas próprias necessidades, a meter-me na minha vida, e a nunca dar ouvidos à má-língua. 
    Graças a Diogneto aprendi a não me deixar absorver por atividades triviais; a ser céptico em relação a feiticeiros e milagreiros com as suas histórias de encantamentos, exorcismos e quejandos; a evitar as lutas de galos e outras distrações semelhantes; a não ficar ofendido com a franqueza; a familiarizar-me com a filosofia, começando por Bacchio e passando depois para Tandasis e Marciano; a redigir composições, logo em pequeno; a ser entusiasta do uso do leito de tábuas e pele, bem como de outros rigores da disciplina grega. 

    De Rústico obtive a noção de que o meu carácter precisava de treino e cuidados, e que não me devia deixar perder no entusiasmo sofista de compor tratados especulativos, homilias edificantes, ou representações imaginárias de O Asceta ou de O Altruísta. Também me ensinou a evitar a retórica, a poesia, e as presunções verbais, os amaneiramentos no vestuário em casa, e outros lapsos de gosto deste género, e a imitar o estilo epistolar simples utilizado na sua própria carta a minha mãe, escrita em Sinuessa. Se alguém, depois de se zangar comigo num momento de mau humor, mostrasse sinais de querer fazer as pazes, devia mostrar-me logo disposto a ir ao encontro dos seus desejos. Também devia ser rigoroso nas minhas leituras, não me contentando com as meras ideias gerais do seu significado; e não me deixar convencer facilmente por pessoas de palavra fácil. Por ele, vim também a conhecer as Dissertações de Epiteto, das quais ele me deu uma cópia da sua biblioteca. 

    Apolónio convenceu-me da necessidade de tomar decisões por mim mesmo, em vez de depender dos acasos da sorte, e nunca, nem por um momento, perder de vista a razão. Também me instruiu no sentido de encarar os espasmos de uma dor aguda, a perda de um filho e o tédio de uma doença crónica sempre com a mesma inalterável compostura. Ele próprio era um exemplo vivo de que nem mesmo a energia mais impetuosa é incompatível com a capacidade de descansar. As suas exposições eram sempre um modelo de clareza; contudo, era claramente alguém para quem a experiência prática e aptidão para ensinar filosofia eram os talentos menos importantes. Foi ele, além disso, que me ensinou a aceitar os pretensos favores dos amigos sem me rebaixar ou dar a impressão de insensível indiferença. 

    As minhas dívidas para com Sexto incluem a bondade, a maneira como dirigir o pessoal da casa com autoridade paternal, o verdadeiro significado da Vida Natural, uma dignidade natural, uma intuitiva preocupação pelos interesses dos amigos, e uma paciência bem-disposta com os amadores e os visionários. A disponibilidade da sua delicadeza para com toda a gente emprestava à sua convivência um encanto superior a qualquer lisonja, e, contudo, ao mesmo tempo, impunha o completo respeito de todos os presentes. Também a maneira como ele precisava e sistematizava as regras essenciais da vida era tão ampla quanto metódica. Nunca mostrando sinais de zanga ou qualquer emoção, ele era, ao mesmo tempo, imperturbável e cheio de bondosa afeição. Quando manifestava a sua concordância, fazia-o sempre calma e abertamente, e nunca fazia alarde do seu saber enciclopédico. 

    Foi o crítico Alexandre que me pôs em guarda contra a crítica supérflua. Não devemos corrigir bruscamente as pessoas pelos seus erros gramaticais, provincialismos, ou má pronúncia; é melhor sugerir a expressão correta, apresentando-a nós próprios delicadamente, por exemplo, numa nossa resposta a uma pergunta, ou na concordância com as suas opiniões, ou numa conversa amigável sobre o próprio tema (não sobre a dicção), ou por qualquer outro tipo de advertência. 

    Ao meu conselheiro Fronto devo a percepção de que a maldade, a astúcia e a má-fé acompanham o poder absoluto; e que as nossas famílias patrícias tendem, na sua maior parte, a carecer de sentimentos de humanidade. 

    O Platonista Alexandre acautelou-me contra o uso frequente das palavras «Estou muito ocupado» na expressão oral ou na correspondência, exceto em casos de absoluta necessidade; dizendo que ninguém deve furtar-se às obrigações sociais devidas, com a desculpa de afazeres urgentes.  

    O estoico Catulo, aconselhou-me a nunca menosprezar a censura de um amigo, mesmo quando pouco razoável, mas em vez disso, fazer o possível por voltar a agradar-lhe; a falar pronta e abertamente em louvor dos meus instrutores, como se lê nas memórias de Domítio e Athenodoto; e a cultivar um genuíno afecto pelos meus filhos.  

    Com meu irmão Severo aprendi a amar os meus familiares, a amar a verdade e a justiça. Por ele tomei conhecimento de Thraseia, Catão, Helvidio, Dião e Bruto, e familiarizei-me com a ideia de uma comunidade baseada na igualdade e liberdade de expressão para todos, e de uma monarquia preocupada sobretudo em garantir a liberdade dos seus súbditos. Ele revelou-me a necessidade de uma avaliação desapaixonada da filosofia, do hábito das boas acções, da generosidade, de um temperamento cordial, e da confiança no afecto dos meus amigos. Recordo, também, a sua franqueza para com aqueles que mereciam a sua repreensão, e a maneira como ele não deixava dúvidas aos amigos sobre aquilo de que gostava ou que detestava, dizendo-lhe claramente.  

    Máximo foi o meu modelo de autocontrole, firmeza de intenções e de boa disposição em situações de falta de saúde e de outros infortúnios. O seu carácter era uma mistura admirável de dignidade e encanto, e todos os deveres inerentes à sua condição eram cumpridos sem alardes. Deixava em toda a gente a convicção de que acreditava no que dizia e agia da maneira que lhe parecia a correta. Não conhecia o espanto ou a timidez; nunca mostrava pressa, nunca adiava; nunca se sentia perdido. Não se entregava ao desânimo nem a uma alegria forçada, nem sentia raiva ou inveja de qualquer poder acima dele. A bondade, a simpatia e a sinceridade, todas contribuíam para deixar a impressão de uma retidão que lhe era mais inata do que cultivada. Nunca se superiorizava a ninguém, e, contudo, ninguém se atrevia a desafiar a sua superioridade. Era, além disso, possuidor de um agradável sentido de humor.  

    As qualidades que eu admirava no meu pai eram a sua brandura, a sua firme recusa em se desviar de qualquer decisão a que tinha chegado, a sua completa indiferença às falsas honrarias; o seu esforço, a sua perseverança e vontade de ouvir atentamente qualquer projeto para o bem comum; a sua invariável insistência em que as recompensas devem depender do mérito; o seu hábil sentido de oportunidade para puxar ou soltar as rédeas; e os esforços que fazia para suprimir a pederastia. 

    Ele tinha consciência de que a vida social tem as suas exigências: os seus amigos não tinham qualquer obrigação de se sentarem à sua mesa ou de o acompanhar nas suas viagens oficiais, e quando eles eram disso impedidos por outros compromissos, isso não lhe fazia qualquer diferença. Todas as questões que lhe eram submetidas em conselho eram examinadas meticulosa e pacientemente; nunca ficava satisfeito em despachá-las apenas com uma primeira impressão apressada. As suas amizades eram duradouras; não eram caprichosas nem extravagantes. Estava sempre à altura das circunstâncias; alegre, mas com uma visão de alcance suficiente para mandar discretamente cumprir os seus planos até ao menor pormenor. Estava sempre atento às necessidades do império, conservando prudentemente os seus recursos e suportando as críticas daí resultantes. Não era supersticioso frente aos deuses; e frente aos seus concidadãos nunca se rebaixava para alcançar popularidade nem namorava as massas, mas prosseguia o seu caminho calma e firmemente, desprezando tudo o que lhe soasse a ostentação ou moda. Aceitava sem complacência ou compunção os bens materiais que a sorte pusera à sua disposição; quando estavam à mão aproveitava-os, e quando não estavam, não sentia qualquer mágoa. 

    Não lhe podiam ser apontados quaisquer vestígios dos sofismas dos casuístas, do atrevimento do adulador, ou do escrúpulo exagerado do pedante; todos os homens lhe reconheciam uma personalidade madura e acabada que era insensível à lisonja e perfeitamente capaz de se orientar a si próprio e aos outros. Além disso, tinha grande respeito por todos os filósofos genuínos; e embora abstendo-se de criticar os outros, preferia passar sem a sua orientação. Na convivência era afável e atencioso, mas sem exageros. Os cuidados que dispensava ao corpo eram razoáveis; não havia nele qualquer ansiosa preocupação de prolongar a existência, ou em embelezar a sua aparência, contudo estava muito longe de ser descuidado em relação a esta, e de facto cuidava tão bem de si próprio que raramente precisava de cuidados médicos ou de medicamentos. Não se notava nele o menor vestígio de inveja no seu pronto reconhecimento de qualidades notáveis, quer em discursos públicos, quer nos domínios da lei, da ética ou qualquer outro, e esforçava-se por dar a cada pessoa a oportunidade de conquistar reputação no seu próprio campo. Embora todas as suas acções fossem guiadas pelo respeito pelo precedente constitucional, nunca abandonava o seu caminho para buscar o reconhecimento público disso. Também não gostava da agitação e da mudança e tinha uma arreigada preferência sempre pelos mesmos lugares e sempre pelas mesmas atividades. Depois de uma das suas enxaquecas, voltava logo aos seus deveres sem perda de tempo, com novo vigor e completo domínio das suas capacidades. Os seus documentos secretos e confidenciais não eram muitos, e os raros temas neles tratados referiam-se exclusivamente a assuntos do estado. Revelava bom senso e comedimento na exibição de espetáculos, na construção de edifícios públicos, na distribuição de subsídios, etc., tendo sempre mais em vista a necessidade dessas medidas do que o aplauso que elas provocavam. Os seus banhos não eram a horas inconvenientes; não tinha a obsessão de construir; não era nada esquisito em relação à sua alimentação, nem ao corte e às cores das suas vestes, nem à apresentação daqueles que o rodeavam. As suas roupas eram-lhe enviadas da sua casa de campo em Lorium, e a maior parte das suas coisas eram de Lanuvium. A famosa maneira como ele tratou um inspector em Tusculum era típica do seu comportamento, pois a falta de cortesia, bem como a brusquidão ou a jactância, eram estranhas à sua natureza; nunca ficava encalorado, como diz o povo, ao ponto de transpirar; era seu hábito analisar e pesar todos os incidentes, devagar, calma, metódica, decisiva e consistentemente. Aquilo que se diz de Sócrates, não é menos aplicável a ele: que tinha a capacidade de se permitir ou negar a si próprio indulgências que a maioria das pessoas são incapazes de recusar por fraqueza, ou de apreciar, pelos seus excessos. Ser assim tão forte para, à sua vontade, se conter ou ceder revela uma alma perfeita e indómita — como Máximo também demonstrou no seu leito de doente. 
    
    Aos deuses devo os meus bons avós, os meus bons pais, uma boa irmã, e os professores, camaradas, parentes e amigos, todos bons, quase sem excepção; e ainda o facto de nunca ter tido qualquer zanga com eles, apesar de um temperamento que podia bem ter precipitado qualquer coisa desse tipo, se as circunstâncias não se tivessem providencialmente combinado para nunca me pôr à prova. A eles também devo o facto de a minha educação ter deixado, desde cedo, de estar a cargo da amante do meu avô e assim a minha inocência ter sido preservada; e também o facto de nunca ter sentido qualquer ânsia de me tornar adulto e me ter contentado com um lento desenvolvimento. Agradeço também ao céu que, sendo o meu pai o Imperador, eu tivesse ficado imune a todas as pompas, e me fizessem compreender que a vida na corte pode ser vivida sem escoltas reais, mantos reais, luminárias, estátuas e outros esplendores exteriores desse tipo, mas que o nosso modo de vida pode ser reduzido quase ao nível do cidadão comum, sem perder o prestígio e autoridade necessários quando as questões de estado requerem liderança. Os deuses deram-me também um irmão cujas qualidades naturais eram um desafio à minha própria autodisciplina, ao mesmo tempo que a sua afeição atenciosa me aquecia o coração; e filhos que não eram intelectualmente nada diminuídos, nem fisicamente deformados. Foram os deuses que limitaram a minha competência na retórica, na poesia e noutros estudos que me podiam ter tomado o tempo se eu tivesse encontrado menos dificuldade em progredir. Eles cuidaram de que eu, na primeira oportunidade, tivesse elevado os meus tutores à categoria que eu pensava que eles mereciam, em vez de adiar a questão com expectativas de futuras promoções, a pretexto da sua juventude. Aos deuses devo o conhecimento de Apolónio, Rústico e Máximo. A eles também devo a minha percepção vívida e recorrente da verdadeira espiritualidade da Vida Natural; na verdade, pela sua parte, os favores, ajudas e inspirações que recebi deixam sem desculpa o facto de eu não ter conseguido alcançar esta Vida Natural; e se eu estou ainda longe do objetivo, só eu próprio sou responsável por não ter tomado atenção aos sinais — melhor, às orientações virtuais — que recebi de cima. 
    
    Aos deuses deve ser atribuído o facto de a minha constituição ter sobrevivido tanto tempo a este tipo de vida; de nunca me ter envolvido com uma Benedicta, nem com uma Theodota, e também de ter saído incólume de outras relações subsequentes; e embora Rústico e eu tivéssemos frequentemente as nossas diferenças, nunca levei as coisas ao ponto de ter de me arrepender; e de os últimos anos de vida da minha mãe, antes da sua morte prematura, terem sido passados comigo. E mais, de em certas ocasiões, quando eu pensava ajudar alguém na sua pobreza ou desgraça, nunca me terem dito que eu não tinha os meios necessários; como também de mim próprio nunca ter estado em situação de pedir a alguém semelhante ajuda. E devo agradecer ao céu pela mulher que tenho, tão submissa, tão adorável, e tão despretensiosa; por ter sempre tutores competentes para os meus filhos; e pelos remédios que me eram prescritos em sonhos — especialmente nos casos dos escarros de sangue e das vertigens, como aconteceu em Caieta e Chrysa. Finalmente, o facto de, dada a minha inclinação para a filosofia, não ter ainda assim caído nas mãos de um qualquer sofista ou ter passado todo o meu tempo agarrado aos livros e às regras da lógica ou amarrado ao estudo das ciências naturais. Por todas estas coisas boas «o homem precisa da ajuda do Céu e do Destino». Entre os Quadi, no Rio Gran.



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