MEDITAÇÕES - LIVRO 3: A contemplação da vida


"Se a vida mortal te puder oferecer alguma coisa melhor do que a justiça e a verdade, o autodomínio e a coragem... aproveita-o com toda a tua alma e alegra-te com o prémio que encontraste."

Marcus Aurelius  

     

    O tempo nos traz uma deterioração da capacidade de compreensão e contemplação da vida à medida que a idade avança. É importante se apressar em aproveitar a vida antes que a capacidade de percepção e compreensão das coisas se vá.

    
    No livro 3 de Marcus Aurelius ele nos fala sobre o encanto e a fascinação das casualidades da natureza. A necessidade de cultivar intimidade com a natureza para apreciar sua beleza.
Exemplos de figuras históricas e suas mortes para enfatizar a transitoriedade da vida.
    A importância de focar em si mesmo, evitar fofocas e ser fiel ao "soberano governador" interno. O valor da retidão e da busca pela virtude.
    A ênfase na importância da razão e da conformidade com as leis da razão e a busca pela paz de espírito e pela tranquilidade interior, e uma real necessidade de escolher o caminho mais elevado e evitar as tentações e prazeres mundanos.
    Ser fiel ao próprio eu e à divindade interna, cultivar um espírito disciplinado, puro e livre de corrupção e formar opiniões corretas e buscar a conformidade com a vontade de Deus.
Marcos reflete também sobre a transitoriedade da vida humana e a insignificância da fama duradoura e a capacidade de examinar metodicamente as experiências da vida para compreender seu valor e seu lugar no universo.

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A consumição diária da vida, acompanhada da permanente redução do

remanescente, não é a única coisa que temos de ter em consideração. Porque,

mesmo que os anos de um homem se prolonguem, temos ainda assim de levar

em linha de conta que é duvidoso que o seu espírito continue a manter a sua

capacidade para a compreensão da atividade ou para o esforço contemplativo

necessário à apreensão das coisas divinas e humanas. O começo da senilidade pode não envolver qualquer perda dos poderes de respiração ou alimentação, ou das sensações, impulsos etc., contudo, a capacidade de usar plenamente as suas faculdades, de avaliar corretamente as exigências do dever, de coordenar todos os problemas que se lhe levantam, de ajuizar se chegou à altura de pôr fim aos seus dias na terra, ou de tomar qualquer outra das decisões que requerem o exercício de um intelecto experimentado, já está em declínio.

Devemos, pois, apressar-nos, não simplesmente porque a cada hora nos

aproximamos mais da morte, mas porque mesmo antes disso o nosso poder de

percepção e compreensão começam a deteriorar-se.

Outra coisa em que devemos reparar é no encanto e na fascinação que há

mesmo nas casualidades dos processos da Natureza. Quando um pão, por

exemplo, está no forno, começa a ficar com fendas aqui e ali; e estes defeitos,

não intencionais, na cozedura, têm um carácter próprio, e aguçam o apetite. Os

figos, também, quando maduros, abrem-se em fendas. Quando as azeitonas

estão para cair, a própria iminência do declínio acrescenta a sua beleza ao fruto.

Assim, também a cabeça caída de um pé de milho, a pele enrugada de um leão assanhado, o pingo de espuma caindo das mandíbulas de um urso selvagem, e muitas mais coisas deste tipo, não são nada belas se vistas em si próprias; contudo, como consequências de um outro processo da Natureza, elas dão a sua contribuição para o seu encanto e atracção.

Assim, a um homem de suficientemente profunda sensibilidade e capacidade

de penetração intelectual nas obras do universo, quase tudo, mesmo que mais

não seja do que um mero subproduto de qualquer outra coisa, parece

acrescentar o seu galardão de prazer adicional. Um homem assim olhará as

fauces escarninhas de um leão real com a mesma admiração com que olharia a sua representação plástica feita por um artista ou por um escultor; e o olhar de discernimento deixá-lo-á ver do mesmo modo o encanto maduro dos homens e mulheres de idade e a frescura sedutora da juventude. Coisas deste tipo não atraem toda a gente; só quem cultivou uma intimidade real com a Natureza e as suas obras fica impressionado com elas.

Hipócrates curou os males de muita gente, mas ele próprio adoeceu e

morreu. Os Caldeus previram a morte de muita gente, mas o destino apanhou-os também a eles. Alexandre, Pompeu e Júlio César devastaram e voltaram a

devastar cidades inteiras e abateram batalhões de cavalaria e infantaria em

combate, mas também a sua hora chegou. Heráclito especulava

interminavelmente sobre a destruição do mundo pelo fogo, mas no fim foi a água que lhe saturou o corpo e morreu num emplastro de excrementos. Demócrito

foi destruído por insetos; Sócrates por insetos de outro tipo. E a moral de

tudo isto? Esta. Embarca-se, faz-se a viagem, chega-se ao porto: desembarcasse,

então. Noutra vida? Há deuses por toda a parte, mesmo no além. Na

insensibilidade final? Então ficaremos fora do alcance da dor e do prazer, e já

não escravos desta embarcação terrena, tão incomensuravelmente mais

mesquinha do que o seu ministro assistente. Porque um é espírito e divindade; e o outro, apenas barro e corrupção.

Não desperdices o que resta da tua vida a especular sobre os teus vizinhos,

a não ser que tenhas em vista qualquer benefício mútuo. Interrogares-te sobre o que fulano está a fazer e por que, ou sobre o que ele está a dizer ou a pensar ou a planear — numa palavra, sobre qualquer coisa que te desvie da fidelidade ao soberano governador dentro de ti — significa uma perda de oportunidade para outra tarefa qualquer. Repara então que o fluir dos teus pensamentos está

liberto de fantasias ociosas ou casuais, particularmente daquelas de natureza

indiscreta ou maldizente. Um homem devia habituar-se de tal maneira a este

modo de pensar que, subitamente perguntado, «Em que estás a pensar neste

momento?» pudesse responder honestamente e sem hesitação, provando assim que todos os seus pensamentos eram simples e bondosos como convém a um ser social, sem o gosto pelos prazeres de imaginações sensuais, ciúmes, invejas, suspeitas ou quaisquer outros sentimentos que o fariam corar ao reconhecê-los em si próprio. Um homem assim, determinado aqui e agora a

aspirar às alturas, é, de facto, um pastor e ministro dos deuses; porque está a

usar plenamente aquele poder interior que pode manter um homem limpo de

prazeres, à prova da dor, indiferente ao insulto e impermeável ao mal. É um

concorrente ao maior dos concursos, a luta contra o domínio da paixão; fica

completamente impregnado de retidão, recebendo com sincera alegria o que

quer que seja que lhe caiba em sorte e raramente se perguntando sobre o que

os outros possam dizer, fazer ou pensar, exceto quando o interesse público o

exija. Limita as suas atividades àquilo que lhe diz respeito, deixando a sua

atenção presa ao seu particular fio da teia universal, procurando fazer com que

as suas acções sejam honradas, e na convicção de que tudo o que lhe possa

acontecer tem de ser para o melhor — porque o seu próprio destino está, ele

próprio, sob orientação superior. Não esquece a relação fraterna de todos os

seres racionais, nem que a preocupação por todos os homens é própria da

humanidade: e sabe que não são as opiniões do mundo que deve seguir, mas

apenas as dos homens cuja vida está confessadamente de acordo com a

Natureza. Quanto aos outros, cuja vida não está assim organizada, ele lembra

constantemente o carácter que eles mostram diariamente, dia e noite, em casa,

e cá fora, e o tipo de sociedade que eles frequentam; e a aprovação de tais

homens, que nem sequer se sentem bem consigo próprios, não tem, para ele,

qualquer valor.

Que haja nas tuas acções solicitude, sem deixares, porém, de ter em atenção

o interesse comum; ponderação, mas sem indecisão; e que nos teus

sentimentos não haja excesso pretensioso de refinamento. Evita a loquacidade,

evita a solicitude excessiva. O deus que há dentro de ti deve presidir sobre um

ser que seja viril e maduro, homem de estado, romano e soberano; um homem

que não ceda terreno, qual soldado à espera do sinal de retirada do campo de

batalha da vida, pronto a dar as boas-vindas ao seu alívio; um homem cuja

reputação não necessite de ser afirmada por si próprio, nem avalizada pelos

outros. Eis o segredo da alegria, de não depender da ajuda de fora, e de não

precisar de implorar a ninguém o favor da tranquilidade. Temos de nos pôr de pé por nós próprios, e não ser postos de pé.

Se a vida mortal te puder oferecer alguma coisa melhor do que a justiça e a

verdade, o autodomínio e a coragem — isto é, paz de espírito na evidente

conformidade das tuas acções com as leis da razão, e paz de espírito nas

provações de um destino que não controlas — se, digamos, conseguires

discernir um ideal mais elevado, nesse caso, aproveita-o com toda a tua alma e

alegra-te com o prémio que encontraste. Mas se nada te parece melhor do que a divindade que mora dentro de ti, que orienta cada impulso, que pesa cada

impressão, que abjura (nas palavras de Sócrates) as tentações da carne, e que

confessa fidelidade aos deuses e compaixão pela humanidade; se, em

comparação, achares tudo o resto mesquinho e sem valor, então não abras em ti espaço a quaisquer outras causas. Porque se alguma vez hesitares e te

desviares, já não serás capaz de oferecer lealdade firme ao ideal que escolheste para ti próprio. Nenhumas ambições de outra natureza diferente podem disputar o título à bondade que pertence à razão e ao dever cívico; nem o aplauso do mundo, nem o poder, nem a riqueza, nem a alegria do prazer. À primeira vista, parece não haver incompatibilidade nestas coisas, mas logo elas levam a melhor e desequilibram o homem. Dir-te-ia, então, que escolhesses simples e espontaneamente o mais elevado e aderisses a ele. «Mas o melhor para mim é o mais elevado», dizes tu? Se é o melhor para ti como ser racional, segura-o bem; mas se o é meramente como animal, então diga abertamente e mantém o teu ponto de vista com a correspondente humildade — assegura-te apenas de que ponderaste bem o assunto.

Não prezes as vantagens advindas de qualquer coisa que envolva quebra da

fé, perda do respeito por ti próprio, ódio, suspeita, ou maldição dos outros,

insinceridade, ou desejo de qualquer coisa que tenha de estar dissimulado ou

escondido. Uma pessoa cuja principal atenção vai para o seu próprio espírito e

para a divindade que há dentro de si, bem como para servir a sua excelência,

não toma atitudes afetadas, não se queixa, e não suspira pela solidão nem tão

pouco por uma multidão. E o melhor de tudo é que a sua vida ficará livre de

contínuas buscas e esquivas. Não se preocupa se a alma dentro do seu corpo

mortal será sua por muitos ou poucos anos; se neste preciso momento for a

altura de partir, avançará tão prontamente como para desempenhar qualquer

outra ação que possa ser realizada de maneira digna e tranquila. Não tem outra preocupação na vida que não seja a de manter o espírito fora de caminhos incompatíveis com os de um ser social e inteligente.

Num espírito disciplinado e purificado não há sinal de corrupção, mancha por

limpar, nem ferida supurante. Nunca o destino poderá arrancar a tal homem a

vida por realizar, como se fosse um ator a deixar o palco no meio da

representação, antes da peça acabada. Não há nele nada de servil, nem tão

pouco de vaidoso; nem se encosta aos outros, nem se isola deles; e não fica

responsável por ninguém, mas também não culpado de evasão.

Respeita o teu poder de formar uma opinião. Só assim o timoneiro dentro de ti evita formar opiniões que estejam em desacordo com a natureza e com a constituição de um ser racional. A partir dela podes esperar obter a circunspecção, boas relações com os teus semelhantes, e conformidade com a vontade de Deus.

Renunciando a tudo o resto, apega-te às poucas verdades seguintes.

Lembra-te que o homem vive só no presente, neste momento fugaz: todo o resto da vida é ou passado e já ido, ou ainda não revelado. Esta vida mortal é uma pequena coisa, vivida num cantinho da terra; e pequena também é a mais duradoura fama — dependente, como é, de uma sucessão de pequenos homens de curta duração, desconhecedores das suas próprias pessoas, e muito mais ainda de uma outra já há muito morta e enterrada.

A estas máximas acrescenta ainda uma outra. Quando um objeto se apresenta à tua percepção, arranja uma definição mental para ela, ou pelo menos traça-lhe um perfil, para lhe discernires o carácter essencial, para nela penetrares para além dos seus atributos separados e obteres uma visão distinta da nudez do seu todo, e para identificares tanto o próprio objeto como os elementos de que é formado e em que de novo se dissolverá. Não há nada que mais dilate o espírito do que esta capacidade de examinar metódica e rigorosamente cada uma das experiências da vida, com vista a determinar a sua classificação, os fins que serve, o seu valor para o universo, e o seu valor para os homens, como membros da Cidade suprema em que todas as outras cidades são como pessoas de casa. Vejamos, por exemplo, aquilo que está a produzir uma impressão sobre mim neste momento. O que é? De que é formado? Quanto tempo está destinado a viver? Que reação moral espera de mim; docilidade, força moral, franqueza, boa-fé, sinceridade, autoconfiança, ou alguma outra qualidade? Em todos os casos, aprende a dizer:

Isto vem de Deus; ou, Isto é uma das disposições do Destino, um fio da complexa teia, uma conjunção de casualidades; ou ainda, Isto é obra de um homem da mesma cepa, criação e irmandade que eu, mas que não sabe aquilo que a Natureza exige dele. Eu próprio, contudo, não posso alegar tal ignorância e, portanto, de acordo com a lei natural da fraternidade, tenho de tratá-lo justa e amigavelmente — embora ao mesmo tempo, se uma questão de bem ou mal não estiver envolvida, deva apontar as minhas lanças ao merecimento do caso.

Se cumprires a tarefa que tens diante de ti aderindo sempre ao rigor da razão com zelo e energia, mas também com humanidade, desprezando todos os fins menores e mantendo pura e vertical a divindade dentro de ti, como se mesmo agora fosses enfrentar o seu chamamento — se te ativeres firmemente a isto, sem te deteres para nada, nem te esquivares de nada, procurando apenas em cada ação que passa a conformidade com a natureza e em cada palavra e afirmação a verdade intrépida, então a vida sã será tua. E neste caminho ninguém tem o poder de te deter.

Assim como os cirurgiões têm sempre à mão as lancetas e bisturis para as súbitas urgências da sua arte, também tu deves ter os teus princípios sempre prontos para a compreensão das coisas, tanto as humanas como as divinas, nunca esquecendo, mesmo na mais trivial das acções, como as duas estão tão intimamente ligadas. Porque nada de humano pode ser feito com acerto sem referência ao divino, e reciprocamente.

Não te enganes mais; já não lerás mais estas notas, nem os anais dos passados romanos e gregos, nem aquela seleção de escritos que guardaste para a tua velhice. Continua com vigor até ao fim; afasta esperanças vãs; e se te interessas pelo teu eu, zela pela tua própria segurança enquanto ainda podes.

Eles não sabem tudo o que palavras como “roubar”, “semear”, “adquirir”, “estar em paz”, “zelar pelos nossos deveres” significam; isto requer uma visão diferente da dos olhos.

Corpo, alma e mente: o corpo para a sensação, a alma para fonte da ação, a mente para os princípios. Contudo, a capacidade de sentir também a tem o boi no estábulo; não há besta selvagem, homossexual, Nero ou Phalaris que não obedeça aos impulsos do instinto; e mesmo os homens que negam os deuses, ou traem o seu país, ou cometem todo o tipo de vilanias por detrás de portas fechadas, têm mentes para os guiar no claro caminho do dever. Vendo então que tudo o resto é herança comum de tais espécies, a única singularidade do homem bom reside na sua aceitação de bom grado de todas as experiências que o Destino lhe teceu, na sua recusa em manchar a divindade que se senta no seu peito, ou perturbá-la com impressões desordenadas, e na sua decisão em mantê-la em serenidade e digna obediência a Deus, não admitindo qualquer deslealdade para com a verdade, nas palavras, e para com a justiça, nos atos.

Mesmo que todo o mundo desconfie dele por viver numa felicidade simples e auto respeitadora, não se ofende com nada, e continua a pisar, sem vacilar, a estrada em direção ao fim da vida, onde o dever o manda chegar em pureza e em paz, sem relutância em partir, em harmonia perfeita e voluntária com o rateio do destino.

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