MEDITAÇÕES - LIVRO 2: Resiliência e a Aceitação na Vida Cotidiana



"Dificilmente encontrarás um homem a quem a indiferença pelas atividades de outra alma traga infelicidade; mas para aqueles que não prestam atenção aos movimentos da sua própria, a infelicidade é certamente a recompensa."

   Marcus Aurelius 

    Quão grande são os nossos desafios? Quão difícil é a nossa rotina e como reagimos as coisas que nos acontecem?

    Resiliência e aceitação são características de uma filosofia estoica necessária para nossa vida cotidiana.

    No livro 2 de Marcus Aurelius ele faz uma reflexão sobre enfrentar os desafios diários com uma mentalidade consciente e resiliente. Ele menciona que é provável que se depare com pessoas que se intrometem, são ingratos, insolentes, desleais, mal-intencionados e egoístas. No entanto, ele compreende a natureza do bem e do mal, bem como a natureza daqueles que agem de forma negativa, considerando-os seus semelhantes. Portanto, nada disso o ofende, pois ele não permite que se envolvam em comportamentos degradantes. Ele enfatiza que não deve ficar com raiva de seu semelhante ou entrar em conflito, pois todos devem trabalhar juntos, assim como as partes do corpo humano. Ele argumenta que criar dificuldades para os outros é contra as leis da natureza, e a irritação e a aversão são formas de criar tais dificuldades.
       
    Marcus Aurelius também faz uma reflexão sobre sua própria existência e a importância de direcionar sua atenção para a razão. Ele se desencoraja a depender excessivamente dos livros e a suspirar por conhecimento, pois a verdadeira sabedoria está em se concentrar na razão. Ele compara sua existência a um pouco de matéria, respiração e razão. Ele insta a não se fixar nos aspectos físicos e efêmeros da vida, como o corpo, que é mortal e composto por elementos biológicos, nem na respiração, que é apenas ar que entra e sai. Em vez disso, ele enfatiza que a razão é o aspecto mais importante a ser cultivado, especialmente com a idade avançada. Ele desencoraja a submissão da razão aos interesses pessoais e a irritação com o destino, encorajando a aceitação e a gratidão genuína.
    
    O imperador aborda a ideia de uma ordem divina permeada pela Providência. Ele afirma que até mesmo os caprichos do acaso têm seu lugar no esquema da natureza, sendo parte das disposições da Providência. A Providência é apresentada como a fonte de todas as coisas e está intrinsecamente ligada à Necessidade e ao bem-estar do universo. Ele argumenta que cada ser humano é parte do universo e que tudo o que é atribuído a ele pela Natureza é bom para sua existência. Além disso, ele destaca que a mudança é o que mantém o mundo em existência, tanto a mudança dos elementos básicos quanto a mudança das formações maiores. Ele aconselha a aceitar esses pensamentos como princípios e a abandonar o desejo por conhecimento superficial. Dessa forma, quando chegar o fim da vida, a pessoa deve encará-lo com boa vontade e verdadeira gratidão aos deuses.

Ouça o audiobook do Livro 2 de Marcus Aurelius



Leia na integra a parte 2 do livro Meditações de Marcus Aurelius

Meditações - Livro 2

Começa cada dia por dizer a ti próprio: Hoje vou deparar com a intromissão,

a ingratidão, a insolência, a deslealdade, a má-vontade e o egoísmo — todos

devidos à ignorância por parte do ofensor sobre o que é o bem e o mal. Mas,

pela minha parte, já há muito percebi a natureza do bem e a sua nobreza, a

natureza do mal e a sua mesquinhez, e também a natureza do próprio culpado,

que é meu irmão (não no sentido físico, mas como meu semelhante, igualmente

dotado de razão e de uma parcela do divino); portanto nenhuma destas coisas

me ofende, porque ninguém pode envolver-me naquilo que é degradante. Nem

eu posso ficar zangado com o meu irmão ou entrar em conflito com ele; porque

ele e eu nascemos para trabalhar juntos, como, de um homem, as duas mãos,

os dois pés, as duas pálpebras ou os dentes de cima e de baixo. Criar

dificuldades uns aos outros é contra as leis da Natureza — e o que é a irritação,

ou a aversão, senão uma forma de criar dificuldades aos outros?

 Um pouco de matéria, um pouco de respiração e uma Razão para tudo dirigir

— Isto sou eu. (Esquece os teus livros; deixa de suspirar por eles; não faziam

parte do teu equipamento.) Como alguém já à beira da morte, não penses na

primeira — no seu sangue viscoso, nos seus ossos, na sua teia de nervos e

veias e artérias. E a respiração, o que é? Uma lufada de ar; e nem sequer o

mesmo ar, mas, antes, sempre diferente a cada inspiração e expiração. Mas a

terceira, a Razão, a mestra — é nela que te deves concentrar. Agora que o teu

cabelo já está grisalho, não deixes mais que ela tenha um papel de escrava, que

se contorça, qual marioneta, a cada acesso de interesse pessoal; e deixa de te

exasperares com o destino, resmungando com o hoje e queixando-se do

amanhã.

 Toda a organização divina está impregnada da Providência. Mesmo os

caprichos do acaso têm o seu lugar no esquema da Natureza, isto é, no intricado

tecido das disposições da Providência. A Providência é a fonte donde fluem

todas as coisas; e a ela aliada, está a Necessidade, e o bem-estar do universo.

Tu próprio és parte do universo; e para qualquer das partes da natureza, aquilo

que lhe é atribuído pelo Mundo-Natureza, ou a ajuda a existir, é bom. Além

disso, o que mantém todo o mundo em existência é a Mudança: não meramente

a mudança dos elementos básicos, mas também a mudança das formações

maiores que elas compõem. Contenta-te com estes pensamentos, e considerados

sempre como princípios. Esquece a tua sede de livros, para que, quando o

teu fim chegar não resmungues, mas o encares com boa vontade e verdadeira

gratidão aos deuses.

 Pensa nos teus muitos anos de adiamento; como os deuses repetidamente te

proporcionaram mais períodos de graça que não aproveitaste. Está na altura de

te dares conta da natureza do universo a que pertences, e da daquele poder

controlador de que és filho; e de compreenderes que o teu tempo tem um limite.

Usa-o, portanto, para avançares no teu esclarecimento, senão ele vai-se e

nunca mais voltará a estar de novo em teu poder.

 Decide com firmeza, a todas as horas, como romano e como homem, fazer

tudo aquilo que te chegar às mãos com dignidade, e com humanidade,

independência e justiça. Liberta o espírito de todas as outras considerações. Isto

podes tu fazer se abordares cada ação como se fosse a última, pondo de lado

o pensamento indócil, o recuo emocional das ordens da razão, o desejo de

causar uma boa impressão, a admiração por ti próprio, a insatisfação pelo que te

calhou em sorte. Vê o pouco que um homem precisa de dominar para que os

seus dias fluam calma e devotadamente: ele apenas tem de observar estes

poucos conselhos, e os deuses nada mais lhe pedirão.

 Ó alma minha, que mal, que mal vós estais a fazer a vós própria; e muito em

breve vós já não tereis mais tempo para fazerdes justiça a vós própria. O homem

não tem senão uma vida; e a vossa está já próxima do fim, contudo, continuais a

não ter olhos para a vossa própria honra e estais a hipotecar a vossa felicidade

às almas de outros homens.16

 A tua atenção é desviada para preocupações exteriores? Então, concede-te

um espaço de sossego dentro do qual possas aumentar o conhecimento do bem

e aprender a refrear a tua inquietação. Defende-te também de outro tipo de erro:

a loucura daqueles que passam os seus dias com muita ocupação, mas carecem

de um qualquer objetivo em que concentrem todo o seu esforço, melhor, todo o

seu pensamento.

 Dificilmente encontrarás um homem a quem a indiferença pelas atividades

de outra alma traga infelicidade; mas para aqueles que não prestam atenção aos

movimentos da sua própria, a infelicidade é certamente a recompensa.

 Tendo sempre em mente aquilo que o Mundo-Natureza é, e aquilo que a

minha própria natureza é, e o que uma é em relação à outra — uma fracção tão

pequena de um Todo tão vasto — lembra-te de que ninguém pode impedir-te de

concertar cada palavra e cada ação com a Natureza de que és parte.

 Quando Theophrasto compara os pecados — tanto quanto comummente se

reconhece que são comparáveis — ele afirma a verdade filosófica de que os

pecados do desejo são mais censuráveis do que os pecados da paixão. Porque

na paixão, o afastamento da razão parece trazer consigo, pelo menos, um certo

desconforto e uma impressão meio sentida de constrangimento; enquanto que

os pecados do desejo, entre os quais predomina o prazer, revelam um carácter

mais autoindulgente e mais feminino. Tanto a experiência como a filosofia

apoiam a alegação de que um pecado que dá prazer merece uma censura mais

grave do que aquele que faz sofrer. Num caso, o prevaricador é como um

homem amarrado a uma perda de controle involuntária; no outro, a ânsia de

satisfazer o seu desejo leva-o a fazer o mal de sua própria vontade.

 Em tudo o que fizeres, disseres ou pensares, lembra-te de que está sempre

na tua mão o poder de te retirares da vida. Se os deuses existem, não tens nada

a temer em te despedires da humanidade, pois eles não deixarão que te

aconteça qualquer mal. Mas se não há deuses, ou se eles não se metem nos

assuntos dos mortais, o que é a vida para mim, num mundo desprovido de

deuses ou desprovido da Providência? Os deuses, contudo, existem, e

preocupam-se com o mundo dos homens. Deram-nos o poder suficiente para

não cairmos em qualquer dos males absolutos; e se houvesse verdadeiro mal

nas outras experiências da vida, eles teriam providenciado nesse sentido

também, para que estivesse na mão de todos os homens evitá-lo. Mas quando

uma coisa não piora o próprio homem, como pode ela piorar a vida que ele vive?

O Mundo-Natureza não pode ter sido tão ignorante a ponto de descurar um risco

deste tipo, ou, dele conhecedor, não ser capaz de inventar uma salvaguarda ou

um remédio. Nem a falta de poder, nem a falta de competência poderiam ter

levado a Natureza a cair no erro de permitir que o bem e o mal visitassem

indiscriminadamente o justo e o pecador. Contudo, viver e morrer, fama e

descrédito, dor e prazer, riqueza e pobreza, e por aí adiante, são quotas- partes

que cabem igualmente aos homens bons e maus. Coisas como estas não

elevam nem aviltam; e, portanto, não são nem boas nem más.

 Os nossos poderes mentais deviam permitir-nos perceber a rapidez com

que todas as coisas se desvanecem; os corpos no mundo do espaço, e as

lembranças no mundo do tempo. Devíamos também observar todos os objetos

da percepção — particularmente aqueles que nos enchem de prazer ou nos

afligem com sofrimento, ou são clamorosamente impelidos até nós pela voz da

vaidade — a sua vulgaridade e baixeza, como são sórdidos, e como se

desvanecem e morrem rapidamente. Devíamos distinguir o verdadeiro

merecimento daqueles cuja palavra e opinião conferem reputação. Devíamos

apreender, também, a natureza da morte; e que basta contemplá-la fixamente e

dissecar as fantasias a ela mentalmente associadas, para acabarmos por pensar

nela como nada mais do que um processo natural (e só as crianças se assustam

com um processo natural) — ou melhor, como qualquer coisa mais do que um

processo natural, uma contribuição positiva para o bem-estar da natureza.

Também podemos aprender como o homem tem contacto com Deus, e com que

parte de si próprio esse contacto se mantém, e como essa parte se comporta

depois da sua remoção daqui.

 Nada mais triste do que fazer o circuito de toda a criação, «esquadrinhando

as profundezas da terra», como diz o poeta, e espreitando curiosamente os

segredos das almas dos outros, sem por uma vez compreendermos que agarrar

firmemente o espírito divino que neles reside e servi-lo lealmente é tudo aquilo

de que precisamos. Tal serviço implica o mantê-lo livre da paixão, e da falta de

objetivos, e da insatisfação com a obra dos deuses ou dos homens; porque a

primeira merece o nosso respeito pela sua excelência; a segunda, a nossa boa vontade,

em nome da fraternidade, e por vezes também, a nossa piedade, por causa da ignorância dos homens a respeito do bem e do mal — uma fraqueza

tão mutiladora como a incapacidade de distinguir o preto do branco.

 Mesmo que vivesses três mil anos, ou até trinta mil, lembra-te que a única

vida que um homem pode perder é aquela que está a viver no momento; e mais,

que ele não pode ter qualquer outra vida a não ser aquela que ele perde. Isto

significa que uma vida mais longa ou mais curta vai dar ao mesmo. Porque o

minuto que passa é o bem igual de todos os homens, mas o que já passou não é nosso. A nossa perda, portanto, limita-se àquele momento fugaz, uma vez que

ninguém pode perder o que já passou, nem o que está ainda para vir — porque

como é que ele pode ser despojado daquilo que não tem? Assim, duas coisas

temos de ter em atenção. Primeiro, que todos os ciclos da criação, desde o

princípio do tempo, têm o mesmo padrão recorrente, de modo que não importa

que o mesmo espetáculo se observe durante cem anos ou durante duzentos,

ou para sempre. Segundo, que quando aqueles de nós que vivem mais, e os

que vivem menos, morrem, as suas perdas são perfeitamente iguais. Porque a

única coisa de que o homem pode ser despojado é o presente, uma vez que isso

é tudo o que ele possui, e ninguém pode perder o que não é seu.

 Há óbvias objecções à afirmação do cínico Mónimo de que «as coisas são

determinadas pelo que vemos nelas»; mas o valor do seu aforismo é igualmente

óbvio, se aceitarmos a sua substância até ao ponto de considerarmos que ela

contém uma verdade.

 Para uma alma humana, o maior dos males auto- infligidos é tornar-se

(podendo) uma espécie de tumor ou abcesso no universo; porque contender

com as circunstâncias é sempre uma rebelião contra a Natureza — e a Natureza inclui a natureza de cada parte individual. Outro mal é rejeitar um semelhante ou opor-se lhe com más intenções, como os homens fazem quando estão zangados. Um terceiro, render-se ao prazer ou à dor. Um quarto, dissimular e

mostrar insinceridade ou falsidade em palavras ou em atos. Um quinto, a alma

não dirigir os seus atos e esforços para um objetivo determinado, e gastar as

suas energias sem qualquer fim e sem o devido pensamento; porque mesmo a

mais insignificante das nossas atividades deve ter um fim em vista — e para

criaturas dotadas de razão, o fim é a conformidade com a razão e a lei da

Cidade e Comunidade originais.

 Na vida de um homem, o seu tempo é apenas um momento, o seu ser um

fluxo incessante, os sentidos uma vela mortiça, o corpo uma presa dos vermes,

a alma um turbilhão inquieto, o destino, negro, e a fama, duvidosa. Em resumo,

tudo o que é do corpo, é como água corrente, tudo o que é da alma, como

sonhos e vapores; a vida, uma guerra, uma curta estadia numa terra estranha; e depois da fama, o esquecimento. Onde, pois, poderá o homem encontrar o

poder de guiar e salvaguardar os seus passos? Numa e só numa coisa apenas:

a Filosofia. Ser filósofo é manter o espírito divino puro e incólume dentro de si,

para que ele transcenda todo o prazer e toda a dor, não empreenda nada sem um objetivo, ou com falsidade ou dissimulação, não fique na dependência das

acções ou inações dos outros, aceite todas e cada uma das prescrições como

vindas da mesma Fonte donde ele próprio veio — e final e principalmente, para

que espere a morte com dignidade, como nada mais do que a simples

dissolução dos elementos de que todo o organismo vivo é composto. Se esses

próprios elementos não se danificam com a incessante formação e reformação,

por que olhar com desconfiança a transformação e dissolução do todo? Trata-se apenas do curso da Natureza; e no curso da Natureza não se encontra mal

nenhum.

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