Mahabharata
Mahabharata - 12 - Santi Parva - Parte 1
Santi Parva do Mahabharata, parte 1: ensinamentos, di?logos e reflex?es sobre dever, paz, sabedoria e ordem moral ap?s a grande guerra.
O MAHABHARATA de Krishna-Dwaipayana Vyasa LIVRO 12 SANTI PARVA Traduzido para a Prosa inglesa do Texto Sânscrito Original por Kisari Mohan Ganguli [1883-1896] AVISO DE ATRIBUIÇÃO Escaneado em sacred-texts.com, 2004. Verificado por John Bruno Hare, Outubro 2004. Este texto é de domínio público. Estes arquivos podem ser usados para qualquer propósito não comercial, desde que este aviso de atribuição seja mantido intacto. Traduzido para o Português por Eleonora Meier. Capítulo Conteúdo Página 1 Pandavas vão para a cidade Kuru. Yudhishthira se dirige a Narada a respeito de Karna. 13 2 Narada relata propósito do nascimento de Karna. Como Karna obteve armas, e foi amaldiçoado por matar a vaca de um Brahmana. 15 3 Enquanto Rama está dormindo no colo de Karna, verme perfura coxa de Karna. Verme é libertado de maldição: Asura Dansa da era Krita. Rama então percebe que Karna é um Kshatriya, pois um Brahmana não poderia suportar a dor. Karna amaldiçoado a perder arma Brahma quando ele mais precisar dela. 16 4 Duryodhana rapta uma donzela de seu swayamvara. 18 5 Karna derrota Jarasandha em um combate único. Dá os brincos. 19 6 Yudhishthira amaldiçoa Kunti e mulheres a não manterem segredos no futuro. 19 7 Yudhishthira se queixa para Arjuna. Afirma que ele irá para as florestas. 20 8 Arjuna fala sobre riqueza. 22 9 Yudhishthira fala mais da vida de um mendicante. 24 10 Arjuna não leva em conta as palavras dele. 26 11 História de Sakra e Brahmanas tentando viver vida de mendicantes. 28 12 Nakula fala a respeito da vida familiar como o modo de vida mais elevado. 30 13 Sahadeva fala.
32 14 Draupadi fala. 33 15 Arjuna fala sobre segurar a vara de castigo. Quatro tipos de maneiras de punir pessoas (repreensão/sociedade, medo do mundo seguinte, vara de Yama, Reis – tirar posses, propriedade, trabalho pesado). 35 16 Bhima fala sobre saúde mental e física. Alegria e tristeza. 38 17 Yudhishthira responde afirmando o apego deles à riqueza. 39 18 Arjuna relata história de governante Videha repreendido por rainha. 41 19 Yudhishthira diz que Arjuna é incapaz de compreender. 44 20 Devasthana encoraja Yudhishthira a sacrificar. 45 21 Devasthana fala. 46 22 Arjuna fala. 47 23 Vyasa narra história do rei Sudyumna e dos irmãos Sankha e Likhita para Yudhishthira, a respeito da vara de castigo. 48 24 Vyasa fala mais sobre dever de um rei, história de Hayagriva. 50 25 Vyasa cita Senajit sobre felicidade e tristeza. Aqueles que são muito estúpidos e aqueles que são mestres de suas almas desfrutam de felicidade aqui. Aqueles, no entanto, que ocupam um lugar intermediário sofrem tristeza. 52 26 Yudhishthira fala para Arjuna a respeito de riqueza. 55 27 Yudhishthira se queixa de mais aflição. Vyasa fala duramente para ele em retorno. 56 28 Janaka questiona Asma. Dor, vida, companheiros como viajantes em uma hospedaria. 58 29 Krishna narra para Yudhishthira a história de Narada relatando para Srinjaya a morte de muitos grandes reis. 61 30 Narada se apaixona, e maldição de Parvata. 69 Narada relata história do filho morto de Srinjaya, e devolvido à vida. 71 32 Vyasa fala novamente. 73 33 Vyasa fala de eventos como curso do tempo. 74 34 Vyasa sobre atos que atraem pecado.
76 35 Vyasa sobre atos que atraem pecado. 76 36 Como se purificar do pecado: homens e mulheres. 78 37 Alimentos puros e impuros (Brahmana não come vacas; leite). 81 38 Yudhishthira avisado para ir até Bhishma. Eles partem. 84 39 Brahmanas usam o som Hun para matar Rakshasa Charvaka que deseja mal para Yudhishthira. 87 40 Krishna explica bênção de Charvaka na era Krita. 89 41 Yudhishthira é instalado no trono. 89 42 Designa deveres para os irmãos. 90 43 Doa riqueza em honra dos que foram mortos. 91 44 Yudhishthira louva Krishna (Yugas: Krita = Virtude e Conhecimento, Treta = Renúncia e Domínio, Dwapara = Prosperidade e fama). 92 45 Príncipes se retiram para respectivos palácios à noite. 93 46 Yudhishthira vai até Krishna. 94 47 Krishna meditando sobre Bhishma que está pensando nele. Krishna e Yudhishthira se preparam para ir até ele. 95 48 Bhishma adora Krishna. Krishna entra em sua alma. 97 49 Vão até a planície de Kurukshetra. Yudhishthira pergunta sobre Rama matando Kshatriyas. 104 50 Nascimento de Rama de Jamadagni. Destruição de Kshatriyas. 104 51 Krishna vai até Bhishma (56 dias para Bhishma – seu conhecimento irá com ele). 109 52 Krishna dá a Bhishma a bênção de falar sem dor, fadiga, etc. Noite. 111 53 No dia seguinte Yudhishthira vai até Bhishma. 113 54 Krishna pede a Bhishma para falar sobre moralidade. 114 55 Yudhishthira se aproxima de Bhishma com permissão para questionar. 116 56 Bhishma começa discurso sobre os deveres dos reis. 118 57 Mais sobre os deveres dos reis. Seis pessoas que todos devem evitar. 121 58 Mais sobre os deveres dos reis. Fim do dia.
123 59 Dia seguinte. Origem de Rajan, rei, da ciência de castigo entregue por Brahman (e resumida). 125 60 Deveres das quatro classes. 132 61 Quatro modos de vida (para Brahmanas). 136 62 Yudhishthira pergunta sobre pessoas comuns. 137 63 Bhishma descreve deveres de Sudras, Vaisyas, e Kshatriyas. 138 64 Rei Mandhatri pede a Indra por visão de Vishnu. 140 65 Discurso de Indra sobre deveres Kshatriya – principal de todas as classes. 142 66 Yudhishthira pergunta mais sobre deveres da realeza. 144 67 Deveres de um reino. O primeiro é coroar um rei. 147 68 Vrihaspati inspira Vasumanas, sobre como um rei é um deus. 149 69 Deveres especiais de um rei. Ciência de castigo. Reis e quatro eras. 152 70 36 virtudes. Yudhishthira desde aquele momento governa de acordo com o ensinamento. 157 Breve sumário de como o rei deve proteger seus súditos. 158 72 Sacerdote designado por um rei: relacionamento de Brahmana com Kshatriya. 160 73 Aila e Kasyapa sobre relação Kshatriya-Brahmana. 161 74 Rei Muchukunda e Vaisravana. 163 75 Yudhishthira pergunta sobre aquisição de mérito. 164 76 Brahmanas não engajados no dever. 166 77 Rakshasa tenta levar rei dos Kaikeyas, que era totalmente cumpridor dos deveres. 167 78 Desarranjos de deveres das classes. 169 79 Sacerdotes em sacrifícios. 172 80 Quatro tipos de amigos de um rei. 173 81 Narada e Krishna sobre ganhar corações de amigos e inimigos. 175 82 Rei de Kosala, Kalakavrikshiya e o corvo. 177 83 Atendentes de reis, cortesãos e consultas. 181 84 Amabilidade no falar. 184 85 Comportamento de um rei – não-confiança.
185 86 Cidade na qual um rei deve residir. 187 87 Consolidação do reino. 189 88 Como um rei recebe taxas do reino. 191 89 Direitos Brahmana, superioridade sobre outros. 193 90 Mandhatri e Utathya sobre justiça e dever dos reis. 195 91 Utathya sobre deveres reais. 197 92 Vamadeva para o rei Vasumanas sobre comportamento de reis. 200 93 (Idem). 201 94 (Idem). 203 95 Deveres Kshatriya em batalha. 204 96 O que um rei conquistador deve tomar. 205 97 Morte em batalha é meritória. 206 98 Sacrifício de Kshatriyas em batalha. 208 99 Janaka mostra céu e inferno para as tropas. 211 100 Dois tipos de sabedoria, empregados em organizar exércitos. 212 101 Disposição de tropas. 215 102 Presságios de sucesso. Conciliação com inimigo poderoso. 216 103 Vrihaspati para Indra sobre lidar com inimigos brandos e fortes. 219 104 Kshemadarsin e Kalakavrikshiya sobre renúncia e felicidade. Vida na floresta, ou... 222 105... como recuperar um reino por enfraquecer inimigo via tesouraria. 226 106 Unido com Janaka. 227 107 Como surge desunião entre Rei e Aristocracia. 229 108 Deveres com Pai, Mãe, Preceptor. 230 109 Verdade e falsidade. 232 110 Como os homens devem agir. 234 111 História do Tigre e do Chacal. 236 112 Camelo com pescoço longo. 241 113 Junco no rio como analogia sobre lidar com um inimigo poderoso. 242 114 Como lidar com os que insultam. 243 Yudhishthira pergunta como governar um reino com ministros e servos. 244 116 História de rishi transformando cão-leopardo-tigre. 246 117 A elefante, leão, Sarabha. Finalmente amaldiçoado a voltar a ser um cão.
247 118 Como o rei se comporta com servos. 248 119 Deveres com os servos. 250 120 Sumário dos deveres reais. 251 121 Castigo e Moralidade. 255 122 Ensinamento de Vasuhoma sobre castigo. 258 123 Virtude, riqueza e prazer. 261 124 Bhishma narra Dhritarashtra instruindo Duryodhana em comportamento virtuoso. Prahlada concede bênção de comportamento virtuoso para Indra: Justiça, Verdade, Bons atos, Poder, Prosperidade. 263 125 Esperança. Sumitra caçando veado. 267 126 Chega ao retiro ascético. Veado escapou. 268 127 Rei Viradyumna chega esperando encontrar seu filho. 269 128 Pouca esperança. Filho volta para Viradyumna. 270 129 Moralidade. 272 130 Dever do rei com tesouraria e reino esgotados. 272 131 Dever quanto atacado por rei injusto. 276 132 Ação quando nas piores circunstâncias. 277 133 Enchimento da tesouraria em tais épocas. 278 134 Kshatriya deve manter o dever. 280 135 Kayavya o ladrão. 281 136 Kshatriya recebendo riqueza. 282 137 História do peixe Sakula procrastinador. 283 138 História do gato e rato. 284 139 Confiança: Brahmadatta e ave Pujani cuja filha foi morta por filho de Brahmadatta. Ofensa entre amigos. Hostilidade: 1) Mulher (Krishna e Sisupala) 2) Terra (Kurus e Pandavas) 3) Palavras duras (Drona e Drupada) 4) Incompatibilidade natural (gato e rato) 5) Dano (ave e rei). Amigos naturais: conhecimento, coragem, inteligência, força, paciência. Secundários: casas, metais preciosos, terra, esposa, amigos. 295 140 Comportamento de um rei quando o Yuga cai em injustiça. Bharadwaja e Satrunjaya. Virtude, riqueza, prazer e suas quantidades apropriadas.
301 141 História de Viswamitra e carne de cachorro de Chandala. Seca e queda da era Treta para Dwapara. 305 142 A moralidade deve estar ligada ao juízo e à razão. 312 143 Mérito de alguém que cuida de um suplicante que anseia por proteção. História da pomba e do caçador perverso. 314 144 A esposa. 316 145 Pomba capturada se dirige a seu marido. 317 146 Pombo macho oferece homenagem ao caçador. Entra no fogo como alimento para o caçador. 318 147 Caçador se arrepende de seu comportamento. 319 148 Pomba fêmea também entra no fogo - ambos ascendem ao céu. 320 149 Caçador também alcança o céu. 320 150 Janamejaya (dos tempos passados) repreendido por Indrota por Brahmanicídio. 321 151 Janamejaya pede ajuda. 322 152 Instruído e purificado de pecados por Indrota. 324 153 Urubu e chacal – pessoa morta devolvida à vida. 326 154 Como pessoa de coração brando lida com inimigo poderoso. Conversa entre Salmali e Narada. 332 155 Salmali se gaba contra deus do vento para Narada. 333 156 Vento afirma que soprará sobre Salmali. 334 157 Salmali deixa cair seus ramos envergonhada diante da aproximação do vento. 335 158 Como o pecado vem da cobiça. 336 159 Ignorância, causa da miséria, relação com a cobiça. 338 160 Produtivo de mérito. O defeito do autocontrole é que ele é considerado fraqueza pelos homens. 339 161 Penitência – abstenção de alimento sendo o tipo mais elevado. 341 162 13 tipos de verdade: imparcialidade, autocontrole, clemência, modéstia, paciência, bondade, renúncia, contemplação, dignidade, constância, compaixão, abstenção de ferir.
342 163 13 tipos de inimigos: raiva, luxúria, tristeza, perda da razão, tendência para o mal, ciúmes, malícia, orgulho, inveja, calúnia, incapacidade de tolerar o bem, indelicadeza, medo. 343 164 Pessoas malevolentes. 345 165 Pecados e sua expiação. 345 166 Nakula pergunta sobre espada e a superioridade de armas. Resposta da criação do universo – espada usada por Rudra contra os Danavas. Principal das armas. 350 167 Retorno da noite. Yudhishthira questiona seus irmãos a respeito de virtude, lucro, prazer: Vidura - virtude; Arjuna, Sahadeva, Nakula - riqueza; Bhima - Desejo. Yudhishthira a favor da emancipação. 355 168 Amigos e história de Gautama entre ladrões. Parte quando endereçado por um velho amigo. 358 169 Vem a repousar como convidado de um Grou. 361 170 Grou o manda para a cidade do rei Rakshasa. 363 171 Recebe alimento e doações de sacrifício. Volta ao grou. 364 172 Mata o grou para alimentação. É recapturado pelo rei Rakshasa, cortado em pedaços. Comido por ninguém. 366 173 Ambos voltam à vida. Gautama volta para casa amaldiçoado. 367 Mokshadharma Parva 174 Rei Senajit recebe conselho que dissipa sua aflição. 369 175 Discurso de Medhavin sobre passagem de tempo, morte, e deveres apropriados. 373 176 Palavra de Sampaka sobre superioridade da renúncia sobre riqueza e soberania. 375 177 Manki sobre liberdade do desejo e sede por riqueza. Corvo e fruto de Palmeira. 377 178 Janaka e Yayati sobre tranquilidade de alma. 380 179 Brahmana para Prahlada sobre liberdade de tristeza. 381 Kasyapa endereçado por chacal (Indra) sobre razões para não desistir da vida.
383 181 Como sabedoria e felicidade são obtidas. 386 182 Bharadwaja obtém descrição de Bhrigu da criação do universo. 388 183 Como terra, fogo, água, ar surgem. 390 184 Elementos. Árvores têm cinco sentidos. Cheiro (9) agradável, desagradável, doce, pungente, que vai longe, variado, seco, indiferente. Gosto (6) doce, salgado, amargo, adstringente, azedo, pungente. Forma (16) curta, alta, grossa, quadrada, redonda, branca, preta, vermelha, azul, amarela, avermelhada, dura, brilhante, lisa, oleosa, macia, terrível. Toque (11) quente, frio, agradável, desagradável, indiferente, queimante, suave, macio, leve, pesado. Som (7) sete notas. 391 185 Fogo e ar dentro da cabeça. Ares surgem disto. Suas funções. 393 186 Bharadwaja pergunta sobre quando a vida se vai quando os elementos partem. 394 187 Vida existindo depois que o corpo morre. Transmigração da alma. 395 188 Quatro classes – a partir de Brahmanas que se desviaram da verdade. 397 189 Atos das quatro classes. 399 190 Verdade. Tristeza e felicidade. 400 191 Quatro modos de vida. 401 192 Reclusos na floresta. Aqueles que vivem no norte. Conversa de Bhrigu e Bharadwaja termina. 404 193 Conduta. 406 194 Qualidades da alma (pureza, paixão, ignorância) e transmigração depois da morte. 408 195 Meditação Yoga. 412 196 Meditação, e como ela é eventualmente abandonada por (recitadores de) Brahma. 414 197 Inferno para os recitadores que falham. 415 198 Semelhança de outras regiões celestes com o inferno quando comparadas com a Suprema. 417 199 História do narrador e Ikshavaku, com Tempo, Mrityu, Yama e desejo e ira.
Profundo debate moral. 417 200 Ambos alcançam Brahma. 425 201 Manu para Vrihaspati sobre conhecimento e frutos de ações. 427 202 Manu sobre espaço, alma, cinco elementos. 430 203 Alma – lua usada como alegoria. 432 204 Alma como separada da mente, compreensão, Supremo. 434 205 Manu continua sobre tristeza, apego aos sentidos. 435 206 Nove grandes elementos. Emancipação. 437 207 Criação do universo. Diferentes eras. 439 208 Nomes de grandes deuses e Rishis. 442 209 Krishna, e encarnação como javali. 443 210 Discípulo de Kasyapa instruído em Atman. 445 211 Alma separada do resto dos elementos. Verdadeira emancipação. 448 212 Pureza, paixão e ignorância. 450 213 Mulheres como Prakriti, homens como almas. Mulheres não devem ser perseguidas. 452 214 Ser livre de Paixão, não lançar olhar em mulheres. Ducto Manovaha. 454 215 Vida de ação controlada, sentidos controlados. 457 216 Sonhos surgindo da mente desconectada com sentidos cansados. 459 217 Conhecimento da alma levando à emancipação. 461 218 Rei Janadeva ouve preleção de Panchasikha sobre a alma. 464 219 Panchasikha fala de emancipação e renúncia. 469 220 Yudhishthira pergunta sobre felicidade e autocontrole. 473 221 Jejum, sacrifícios, vegetarianismo. 475 222 Prahlada para Sakra sobre resultados de atos bons e maus. 476 223 Exemplo de monarca privado de prosperidade. Indra questiona Vali naquele momento na forma de um asno. 478 224 Vali fala para Indra de suas ações, não se gabar. O Tempo é o maior governante. 480 225 Deusa da prosperidade deixa Vali por Indra.
484 226 Namuchi para Purandara (Sakra) sobre aguentar tristeza e calamidade. 486 227 Indra e Vali derrotado sobre superioridade do tempo. 488 228 Como Sree deixou os Asuras quando eles se envolveram em comportamento pecaminoso, por Indra e Narada. Oito deusas com Sree: Jaya e Esperança, Fé, Inteligência, Contentamento, Vitória, Progresso, Clemência. 495 229 Jaigishavya para Asita sobre caminho para alcançar Brahma. 500 230 Vasudeva explica virtudes de Narada. 502 231 Vyasa para Suka sobre tempo e criação. Extensões de tempo explicadas. 504 232 Elementos básicos, deveres nas diferentes eras. 506 233 Retraimento no fim do yuga. 509 234 Deveres, particularidade do chefe de família. 510 235 Como um Brahmana deve agir. 513 236 Estágios de um Yogin. 515 237 Aqueles familiarizados com o conhecimento. 518 238 Conhecimento e deveres nos diferentes yugas. 520 239 Suka pergunta qual conhecimento leva a Brahma. 522 240 Vyasa instrui Suka sobre ações a seguir (Yoga) – evitar desejo, ira, cupidez, medo, sono. 525 241 Suka se atos devem ser feitos ou abandonados. 527 242 Quatro modos de vida, de Brahmacharin. 529 243 Vida de um chefe de família. 531 244 Vyasa fala sobre terceiro e quarto modos de vida. 534 245 Modo de vida Brahmacharya. Descrição da alma como uma ave com explicação (ouro= chit, nascido do ovo = pertence ao Universo, dentro do ovo = no próprio coração, emplumado = membros presididos por divindades, asas = ausência de apego mais alegria e contentamento). 537 246 Alma. 540 247 Adhyatma – tópicos sobre alma.
27 tópicos usuais de discurso filosófico - 5 ação, 5 conhecimento, mente, Chitta, Buddhi, Manas, 5 ares, 5 elementos, Desejo, Atos, Avidya. 542 Posição da mente, discernimento, Alma. 544 249 Alma permanecendo separada de objetos, atividades. 546 250 O dever mais elevado – atravessar o rio da vida. Contemplação da Alma, daí ausência de renascimento. 547 251 Não apego aos objetos dos sentidos. 549 252 Resumidamente Adhyatma - elementos. 551 253 Alma, corpo sutil. 552 254 Analogia do desejo com uma árvore; corpo com uma cidade. 553 255 Bhishma fala sobre atributos de cada elemento. 555 256 Yudhishthira pergunta sobre morte. Bhishma narra história de Anukampaka, a quem Narada narrou história (na era Krita). Avô do Universo queimando-o no fogo. 556 257 Sthanu roga para o Avô parar. Morte (Dama) surge de Brahman. 557 258 Morte pratica austeridades. Brahma finalmente manda que Morte despache Desejo e Ira contra todas as criaturas. 558 259 Retidão – não fazer nada errado. 561 260 Yudhishthira fala sobre retidão, se referindo às diferentes eras. 563 261 Jajali e Tuladhara sobre retidão. Jajali cria aves sobre sua cabeça. 565 262 Taludhara sobre moralidade – contra escravidão e crueldade com animais (Todas as criaturas têm Surya, Chandramas, Brahman, Prana, Kratu, Yama. Cabra = Agni, Ovelha = Varuna, Cavalo = Surya, Terra = Virat, Vaca/Bezerro = Soma). 568 263 Sacrifícios, não ferir criaturas. 572 264 Fé. 576 265 Matança imprópria de animais em sacrifícios. 577 266 Homens levam um longo tempo para refletir sobre ações: filho de Gautama Chirakarin.
Mulheres são inocentes (mesmo na idade adulta só os homens são maculados). 579 267 Reis concedendo punição sem execução. 584 268 Syumarasmi para Kapila sobre sacrifício e deveres de um chefe de família e yogin. 586 269 Discurso sobre deveres de emancipação. 589 270 Os quatro modos de vida todos têm o mesmo fim. 596 271 História de Brahmana e nuvem Kundadhara para explicar como a virtude é melhor do que Religião, Lucro, Prazer. 601 272 Yudhishthira pergunta sobre sacrifícios que são somente para virtude. 604 273 Deveres que levam ao pecado, retidão, renúncia, emancipação. 605 274 Caminho da emancipação. 607 275 Narada e Asita-Devala sobre elementos primordiais e criação. 609 276 Apego à riqueza concernente à batalha. 612 277 Curso do tempo e morte. 613 278 Comportamento da vida de mendicante. 615 279 Yudhishthira pergunta quando sua ronda de nascimentos terminará. Usanas para Vritra depois da queda de Vritra do poder. 617 280 Sanatkumara discursa sobre caminho de Jiva. Seis cores. Caminho conforme a alma atravessa inferno, humanidade, divindades, etc. Pandavas destinados a Deuses, então de volta a homens. 620 Batalha entre Sakra e asura Vritra. 627 282 Purificação do pecado de Brahmanicídio de Indra. Quarta parte dada ao fogo, água, árvores, Apsaras. 630 283 Como a Febre se originou de Mahadeva. 633 284 Janamejaya questiona mais detalhadamente sobre como Mahadeva destruiu o sacrifício de Daksha. 636 285 Daksha louva Mahadeva integralmente. 641 286 Adhyatma – discussão sobre compreensão (pronome feminino). 650 287 Samanga para Narada sobre liberdade de tristeza e medo.
653 288 Narada sobre prática por alguém que duvida e não conhece as escrituras. 655 289 Arishtanemi para Sagara sobre atributos para evitar apego. 659 290 História de Usanas com Rudra furioso. 661 291 Parasara para Janaka sobre atos virtuosos. 664 292 (Idem). 666 293 Doações, se livrando dos débitos. 668 294 Cada casta cumprindo os respectivos deveres. 669 295 Queda de homens da retidão por causa dos Asuras. 671 296 Penitências como concernentes ao chefe de família. 673 297 Quatro raças originais (Angiras, Kasyapa, Vasishtha, Bhrigu). Atos. 675 298 Morte em batalha, corpo adquirido em novo nascimento. 678 299 Parasara para Janaka sobre caminho da emancipação. 681 300 Cisne e Sadhyas sobre verdade. 684 301 Diferença entre sistemas Sankhya e Yoga. Frutos das escrituras. Dieta de yogins. 688 302 Yudhishthira pergunta a respeito do sistema Sankhya. 10 propriedades de Sattwa... do começo ao fim... 1 propriedade de Sattwa. Também pergunta se há alguma recordação de vidas anteriores depois da morte. 691 303 Sábio Vasishtha para o rei Karala sobre deterioração e não deterioração no universo. 699 304 Vasishtha sobre alma se identificando, vagando. Prakriti e Purusha. 702 305 16 partes de Jiva. 25 de Alma-Mahat. Emancipação ou identificação. 705 306 Janaka compara Masculino e Feminino a Purusha e Prakriti. Kshara = variedade, Akshara = unidade, indestrutível. 706 307 Prática Yogin e filosofia Sankhya. Oito elementos chamados Prakriti, 16 modificações = 24. Purusha = Vigésimo quinto. 708 308 Jiva que percebe Brahma supremo, como oposto à identificação com Prakriti.
711 309 Vasishtha termina com discussão dos 25 e emancipação. 714 310 Rei Vasuman instruído a afastar a mente do desejo e buscar a retidão. 718 311 Yajnavalkya para o rei Daivarati sobre criação: números e elementos de criação. 720 312 Extensões das diferentes partes da criação. 721 313 Como o Universo é retraído. 722 314 Abhibhuta, Adhyatma, Adhidaidaivatum. Gunas. 723 315 Gunas. 725 316 Diferença entre Prakriti e Purusha. 726 317 Yoga – maneiras de praticar exercícios de respiração. 727 318 Regiões aonde Jiva vai depois da morte. Indicação de quanto tempo uma pessoa tem que viver. 729 319 Yajnavalkya explica como ele obteve seu conhecimento. Importância de distinguir Purusha e Prakriti. 730 320 Panchasikha para Janaka sobre decrepitude e morte. 738 321 Sulabha vai até Janaka mostrar a ele caminho da Emancipação. Longa conversa. 739 322 Vyasa para Suka e 25 anos de idade, procurar um professor para encontrar emancipação. 752 323 Ações dando resultados na próxima vida. 758 324 Nascimento de Suka, filho de Vyasa. 759 325 Suka recebe Vedas. Aceita o quarto modo de vida, emancipação. 760 326 Suka vai ao palácio do rei Janaka. 762 327 Suka pergunta a Janaka sobre emancipação, e necessidade dos três modos de vida. 764 328 Vyasa e Suka moram juntos em encosta de montanha. 767 329 Vyasa e Suka pedidos para narrar os Vedas. Sete ares. 770 330 Narada recita palavras de Sanatkumara para Suka; homem com conhecimento capaz de viver desapegado no mundo. 773 331 Narada sobre dissipar a tristeza. 777 332 Narada conclui sobre inevitabilidade da morte.
10 estágios da vida (velhice > 48). Suka coloca seu coração na emancipação. 780 333 Suka assume posição de Yoga. Começa jornada. 784 334 Vyasa se aflige, confortado por Siva. Suka se torna emancipado. 785 335 Yudhishthira pergunta quem é o mais elevado deus a ser venerado. História da era Krita de Nara e Narayana. 787 336 Criação dos Vedas – postos aos cuidados de Vrihaspati. 790 337 Sacrifício do rei Uparichara. Enfurecido ao não ver Narayana. Apaziguado com história de peregrinos. 794 338 Rei Uparichara cai do céu, e emancipação final. 798 339 Narada vai para a Ilha Branca em peregrinação. 800 340 Narada vê o Senhor Narayana. Narayana descreve como ele nasce através das eras. Yudhishthira pergunta quem é superior - Narayana está acima de Brahman. O Suta conclui esta declaração da história para Saunaka – considera muito esta passagem. 803 341 Saunaka pede a Sauti para descrever como Narayana é o fazedor e desfrutador de sacrifícios. Continua narrando Vaisampayana para Janamejaya depois de alguma questão. Vyasa responde a cinco discípulos (Sumanta, Jaimini, Paila, Vaisampayana, Suka). Criação do universo, lugar de Brahman e Vishnu. 811 342 Nomes de Krishna (Krishna para Arjuna) com significados. Quatro tipos de adoradores e o melhor. 818 343 Agni e Shoma; histórias de Sakra e Vishnu, batalha de Rudra com Nara e Narayana. 822 344 Saunaka continua com Narada que voltou depois de ver o Eu. 835 345 Narada devotado a Narayana, mora no Himavat com eles. 839 346 Criação de Pitris do lodo de presas de javali (Vishnu). 841 347 Saunaka completa narrando história de Narayana.
Janamejaya prosseguindo com Sacrifício de Cavalo. 843 Sauti para Saunaka sobre como Narayana tomou forma de cabeça equina. 844 349 Janamejaya questiona Vaisampayana a respeito de almas devotadas a Narayana. Resposta se referindo ao Gita. 850 350 Nascimento anterior de Vyasa. 855 351 Janamejaya pergunta a respeito de um ou muitos Purushas. Rudra faz a Brahman esta pergunta. 860 352 Brahma explica o único Purusha supremo. 861 353 Yudhishthira pergunta a Bhishma quais são os principais deveres daqueles em modos de vida. Narada para Indra. 863 354 Narada relata história de Brahmana questionando um convidado a respeito do maior dever do homem. 864 355 Avisado para ir até Padma, um grande Naga. 866 356 Convidado parte. Discute renúncia a noite inteira. 867 357 Brahmana chegado na casa descobre que o dono estava fora – espera na floresta. 868 358 Brahmana se abstém de alimento durante sua espera. 868 359 Chefe Naga retorna. Esposa narra deveres dos diferentes modos de vida. 869 360 Esposa relata propósito do Brahmana. Chefe Naga parte para vê-lo. 870 361 Questiona Padmanabha a respeito de alma Jiva. 872 362 Primeiro pergunta sobre Naga puxando a roda de Surya. Resposta a respeito de ser entrando em Surya nos tempos antigos. 873 363 O objeto é um Brahmana alcançando o céu. 874 365 Brahmana parte resolvendo seguir o voto Unccha. 874 Índice escrito por Duncan Watson. Traduzido por Eleonora Meier. (Rajadharmanusasana Parva) Om! Tendo reverenciado Narayana e Nara, o principal dos seres masculinos, como também a deusa Sarasvati, a palavra "Jaya" deve ser proferida.
"Vaisampayana disse, 'Tendo oferecido oblações de água a todos os seus amigos e parentes, os filhos de Pandu, Vidura, Dhritarashtra, e todas as senhoras Bharata continuaram a morar lá (nas margens do rio sagrado). Os filhos de Pandu desejaram passar o período de luto, que se estendia por um mês, fora da cidade Kuru. Depois de o rei Yudhishthira o justo ter realizado os ritos de água, muitos sábios de grande alma coroados com êxito ascético e muitos dos principais Rishis regenerados foram lá para ver o monarca. Entre eles estavam o Nascido na Ilha (Vyasa) e Narada, e o grande Rishi Devala, e Devasthana, e Kanwa. Todos eles estavam acompanhados por seus melhores pupilos. Muitos outros membros da ordem regenerada, possuidores de sabedoria e educados nos Vedas, levando vida familiar ou pertencentes à ordem Snataka, foram ver o rei Kuru. Aqueles de grande alma, quando chegaram, foram devidamente adorados por Yudhishthira. Os grandes Rishis então tomaram seus assentos em tapetes caros. Aceitando o culto adequado àquele período (de luto e impureza) que foi oferecido a eles, eles sentaram na devida ordem em volta do rei. Milhares de Brahmanas ofereceram consolo e conforto àquele rei de reis residindo nas margens sagradas do Bhagirathi com o coração extremamente agitado pela dor. Então Narada, depois de ter abordado os Rishis, o Nascido na Ilha por primeiro, no devido tempo, dirigiu- se a Yudhishthira, o filho de Dharma, dizendo, 'Pelo poder de teus braços e a graça de Madhava, toda a Terra, ó Yudhishthira, foi ganha justamente por ti.
Por boa sorte, tu escapaste com vida desta batalha terrível. Cumpridor como és dos deveres de um Kshatriya, tu não te regozijas, ó filho de Pandu? Tendo matado todos os teus inimigos, tu não gratificarás teus amigos, ó rei? Tendo obtido esta prosperidade, eu espero que a dor não te aflija ainda.'” "Yudhishthira disse, 'De fato a Terra inteira foi subjugada por mim por minha confiança no poder de Krishna, pela graça dos Brahmanas, e pela força de Bhima e Arjuna. Esta angústia pesada, no entanto, está sempre no meu coração, isto é, que por avareza eu causei esta carnificina terrível de parentes. Tendo causado a morte do filho querido de Subhadra, e dos filhos de Draupadi, esta vitória, ó santo, aparece para mim à luz de uma derrota. O que Subhadra da linhagem de Vrishni, aquela minha cunhada, dirá para mim? O que também dirão as pessoas residentes em Dwaraka ao matador de Madhu quando ele for para lá deste local? Esta Draupadi, também, que está sempre empenhada em fazer o que é agradável para nós, enlutada por filhos e parentes, está me atormentando extremamente. Há outro tópico, ó santo Narada, sobre o qual eu falarei contigo. Por Kunti ter mantido seu parecer oculto a respeito de uma questão muito importante, grande tem sido minha dor.
Aquele herói que tinha a força de dez mil elefantes, que neste mundo era um guerreiro em carro inigualável, que possuía um porte e orgulho leoninos, que era dotado de grande inteligência e compaixão, cuja generosidade era muito grande, que praticava muito votos superiores, que era o refúgio dos Dhartarashtras, que era sensível sobre sua honra, cuja bravura era irresistível, que estava sempre pronto para revidar todas as injúrias e era sempre colérico (em batalha), que nos derrotou em repetidos combates, que era rápido no uso de armas, conhecedor de todos os modos de guerra, possuidor de grande habilidade, e dotado de uma coragem extraordinária (aquele Karna) era um filho de Kunti, nascido secretamente dela, e portanto, um irmão nosso. Enquanto nós estávamos oferecendo oblações de água para os mortos, Kunti falou dele como o filho de Surya. Possuidora de todas as virtudes, aquela criança foi lançada à água. Tendo- o colocado em um cesto feito de materiais leves, Kunti confiou-o à corrente do Ganga. Ele que era considerado pelo mundo como um filho de Suta nascido de Radha era realmente o filho mais velho de Kunti e, portanto, nosso irmão. Ávido pelo reino, ai, eu involuntariamente fiz aquele meu irmão ser morto. É isto que está queimando meus membros como um fogo queimando uma pilha de algodão. Arjuna de corcéis brancos não o conhecia como um irmão. Nem eu, nem Bhima e nem os gêmeos o conhecíamos como tal. Ele, no entanto, de arco excelente, nos conhecia (como seus irmãos).
Nós soubemos que em uma ocasião Pritha foi até ele para procurar nosso bem e se dirigiu a ele, dizendo, 'Tu és meu filho!' Aquele herói ilustre, no entanto, se recusou a obedecer aos desejos de Pritha. Posteriormente, nós fomos informados, ele disse à sua mãe estas palavras, 'Eu não posso abandonar Duryodhana em batalha! Se eu fizesse isso, este seria um ato desonroso, cruel, e ingrato. Se, cedendo aos teus desejos, eu fizer as pazes com Yudhishthira, as pessoas dirão que eu tenho medo de Arjuna de corcéis brancos. Tendo vencido Arjuna com Kesava, portanto, em batalha, eu posteriormente farei as pazes com o filho de Dharma.' Estas foram as palavras dele como nós ouvimos. Assim respondida, Pritha dirigiu-se mais uma vez a seu filho de peito largo e disse, 'Lute com Phalguna então, mas poupe meus outros quatro filhos.' O inteligente Karna, com mãos unidas, então respondeu para sua mãe que tremia, dizendo, 'Se eu tiver teus outros quatro filhos sob meu poder, eu não os matarei. Sem dúvida, ó deusa, tu continuarás a ter cinco filhos. Se Karna for morto por Arjuna, tu terás cinco! Se, por outro lado, Arjuna for morto, tu também terás cinco, contando comigo.' Desejosa do bem de seus filhos, sua mãe lhe falou novamente, 'Vá, ó Karna, faça o bem àqueles teus irmãos cujo bem tu sempre procuraste.' Tendo dito estas palavras, Pritha se despediu e voltou para sua residência. Aquele herói foi morto por Arjuna, o irmão pelo irmão! Nem Pritha, nem ele alguma vez revelaram o segredo, ó senhor! Aquele grande herói e arqueiro foi morto portanto por Arjuna em batalha.
Posteriormente eu vim a saber, ó melhor dos regenerados, que ele era meu irmão. De fato, pelas palavras de Pritha eu soube que Karna era meu irmão mais velho! Tendo causado a morte de meu irmão, meu coração está queimando extremamente. Se eu tivesse ambos Karna e Arjuna para me ajudar eu poderia ter vencido o próprio Vasudeva. Enquanto eu era torturado no meio da assembleia pelos filhos de mente má de Dhritarashtra, minha cólera, subitamente provocada, se acalmou à visão de Karna. Mesmo enquanto eu estava escutando as palavras duras e amargas do próprio Karna naquela ocasião da nossa partida de dados, as palavras que Karna proferiu pelo desejo de fazer o que era agradável para Duryodhana, a minha ira esfriou à visão dos pés de Karna. Pareceu-me que os pés de Karna pareciam com os pés de nossa mãe Kunti. Desejoso de descobrir a razão daquela semelhança entre ele e nossa mãe, eu refleti por muito tempo. Mesmo com meus melhores esforços eu fracassei em encontrar a causa. Por que, de fato, a terra engoliu as rodas do carro dele na hora da batalha? Por que meu irmão foi amaldiçoado? Cabe a ti relatar tudo isso para mim. Eu desejo ouvir tudo de ti, ó santo! Tu estás familiarizado com tudo neste mundo e tu conheces o passado e o futuro!' 2 “Vaisampayana disse, ‘Aquele principal dos oradores, o sábio Narada, assim questionado, narrou tudo acerca da maneira pela qual aquele que se acreditava ser um filho de Suta foi amaldiçoado (nos tempos passados).’” "Narada disse, 'É exatamente assim, ó tu de braços poderosos, como tu disseste, ó Bharata!
Nada poderia resistir a Karna e Arjuna em batalha. Isto, ó impecável, que eu estou prestes a te dizer é desconhecido para os próprios deuses. Escute, ó poderoso, como isto aconteceu no passado. Como todos os Kshatriyas, purificados por meio de armas alcançariam regiões de bem- aventurança, era a questão. Por isto, uma criança foi concebida por Kunti em seus anos de virgindade, capaz de provocar uma guerra geral. Dotado de grande energia, aquele menino veio a ter a posição de um Suta. Ele posteriormente adquiriu a ciência de armas do preceptor (Drona), aquele principal descendente da linha de Angirasa. Pensando no poder de Bhimasena, na rapidez de Arjuna no uso de armas, na tua inteligência, ó rei, na humildade dos gêmeos, na amizade, desde a juventude, entre Vasudeva e o manejador do Gandiva, e na afeição do povo por vocês todos, aquele homem jovem queimava de inveja. Bem cedo ele fez amizade com o rei Duryodhana, levado por um acidente e sua própria natureza e o ódio que ele tinha por vocês todos. Vendo que Dhananjaya era superior a todos na ciência de armas, Karna um dia se aproximou de Drona em particular e disse estas palavras a ele, 'Eu desejo conhecer a arma Brahma, com todos os seus mantras e o poder de retirá-la, porque eu desejo lutar com Arjuna. Sem dúvida, a afeição que tu tens por cada um dos teus pupilos é igual àquela que tu tens por teu próprio filho.
Eu rogo que todos os mestres da ciência de armas possam, pela tua graça, me considerar como alguém aperfeiçoado no uso de armas!' Assim endereçado por ele, Drona, por predileção por Phalguna, como também por seu conhecimento da maldade de Karna, disse, 'Ninguém exceto um Brahmana, que tenha cumprido devidamente todos os votos, deve conhecer a arma Brahma, ou um Kshatriya que praticou penitências austeras, e nenhum outro.' Quando Drona respondeu dessa maneira, Karna, tendo-o reverenciado, obteve sua permissão, e procedeu sem demora até Rama então residindo nas montanhas Mahendra. Aproximando-se de Rama, ele curvou sua cabeça a ele e disse, 'Eu sou um Brahmana da linhagem de Bhrigu.' Isto conseguiu honra para ele. Com este conhecimento sobre seu nascimento e família, Rama o recebeu bondosamente e disse, 'Tu és bem vindo!' No que Karna ficou muito contente. Enquanto residia nas montanhas Mahendra que pareciam com o próprio céu, Karna encontrou e se misturou com muitos Gandharvas, Yakshas, e deuses. Residindo lá ele adquiriu todas as armas devidamente, e se tornou um grande favorito dos deuses, dos Gandharvas, e dos Rakshasas. Um dia ele vagava pelo litoral ao lado daquele retiro. De fato, o filho de Surya, armado com arco e espada, vagava sozinho. Naquele momento, ó Partha, ele matou inadvertidamente, sem premeditar, a vaca Homa de certo proferidor de Brahma, que realizava diariamente seu rito Agnihotra. Sabendo que tinha cometido aquele ato por inadvertência, ele informou o Brahmana disto.
De fato, Karna, com o objetivo de gratificar o dono, disse repetidamente, 'Ó santo, eu matei esta tua vaca sem ter a intenção. Perdoe-me a ação!' Cheio de cólera, o Brahmana, o repreendendo, disse estas palavras, 'Ó tu de má conduta, tu mereces ser morto. Que o fruto desta ação seja teu, ó tu de alma perversa. Enquanto lutando, ó canalha, com aquele a quem tu sempre desafiaste, e por cuja causa tu te esforças tanto todo dia, a terra engolirá a roda do teu carro! E quando a roda do teu carro for assim engolida pela terra, teu inimigo, mostrando sua destreza, cortará tua cabeça, tu mesmo estando perplexo naquele momento! Deixe-me, ó homem vil! Como tu mataste desatentamente esta minha vaca, da mesma forma teu inimigo cortará tua cabeça enquanto tu estiveres desatento!' Embora amaldiçoado, Karna ainda procurou gratificar aquele principal dos Brahmanas por lhe oferecer vacas e riquezas e pedras preciosas. O último, no entanto, mais uma vez respondeu a ele, 'Todas as palavras não conseguirão neutralizar as palavras faladas por mim! Vá embora ou permaneça, faça o que quiseres.' Assim endereçado pelo Brahmana, Karna, de cabeça baixa pelo desânimo, retornou timidamente para Rama, refletindo sobre aquela questão.'” 3 "Narada disse, 'Aquele tigre da raça Bhrigu (Rama), estava bem satisfeito com a força dos braços de Karna, sua afeição (por ele), seu autocontrole, e os serviços que ele fazia para seu preceptor.
Cumpridor de penitências ascéticas, Rama comunicou alegremente, de forma apropriada, para seu discípulo cumpridor de penitências, tudo acerca da arma Brahma com os mantras para retirá-la. Tendo adquirido o conhecimento daquela arma, Karna começou a passar seus dias alegremente no retiro de Bhrigu, e dotado de destreza extraordinária, ele se dedicou com grande ardor à ciência de armas. Um dia Rama de grande inteligência, enquanto passeava com Karna na vizinhança de seu retiro, sentiu muita fraqueza por causa dos jejuns que ele tinha feito. Por afeição gerada pela confiança, o cansado filho de Jamadagni colocando sua cabeça no colo de Karna dormiu profundamente. Enquanto seu preceptor estava assim dormindo (com a cabeça) em seu colo, um verme terrível, cuja mordida era muito dolorosa e que subsistia de muco e gordura e carne e sangue, se aproximou de Karna. Aquele verme sugador de sangue se aproximou da coxa de Karna e começou a perfurá- la. Por medo de (despertar) seu preceptor, Karna não podia jogar para longe ou matar aquele verme. Embora seu membro fosse atravessado de um lado a outro por aquele verme, ó Bharata, o filho de Surya, para que seu preceptor não despertasse, suportou isso para agradá-lo. Embora a dor fosse intolerável, Karna a suportou com paciência heróica, e continuou a segurar o filho de Bhrigu em seu colo, sem estremecer o mínimo e sem manifestar qualquer sinal de dor. Quando finalmente o sangue de Karna tocou o corpo de Rama de grande energia, o último despertou e disse estas palavras por medo, 'Ai, eu estou impuro! O que é que tu estás fazendo?
Me diga, sem medo, qual é a verdade neste caso!' Então Karna o informou da mordida daquele verme. Rama viu aquele verme que parecia com um porco em forma. Ele tinha oito pés e dentes muito afiados, e estava coberto com cerdas que eram todas pontudas como agulhas. Chamado pelo nome de Alarka, seus membros estavam então encolhidos (com medo). Logo que Rama lançou seu olhar nele, o verme abandonou seu ar vital, se fundindo naquele sangue que ele tinha chupado. Tudo isso parecia extraordinário. Então no firmamento foi visto um Rakshasa de forma terrível, de cor escura, com um pescoço vermelho, capaz de assumir qualquer forma, sobre as nuvens. Com seu objetivo cumprido, o Rakshasa, com mãos unidas, dirigiu-se a Rama, dizendo, 'Ó melhor dos ascetas, tu me resgataste deste inferno! Abençoado sejas tu, eu te reverencio, tu me fizeste bem!' Possuidor de grande energia, o poderoso filho de Jamadagni disse a ele, 'Quem és tu? E por que também tu caíste no inferno? Diga-me tudo sobre isto.' Ele respondeu, 'Antigamente eu era um grande Asura chamado Dansa. No período Krita, ó senhor, eu tinha a mesma idade que Bhrigu. Eu raptei a cônjuge ternamente amada daquele sábio. Pela maldição dele eu caí sobre a terra na forma de um verme. Com raiva teu antepassado disse a mim, 'Subsistindo de urina e muco, ó canalha, tu levarás uma vida de inferno.' Eu então supliquei a ele, dizendo, 'Quando, ó Brahmana, esta maldição terá fim?' Bhrigu me respondeu, 'Esta maldição terminará através de Rama da minha linhagem.’ Foi por isso que eu obtive tal curso de vida como alguém de alma impura.
Ó virtuoso, por ti, no entanto, eu fui resgatado daquela vida pecaminosa.' Tendo dito estas palavras, o grande Asura, curvando a sua cabeça a Rama, foi embora. Então Rama dirigiu-se colericamente a Karna, dizendo, 'Ó tolo, nenhum Brahmana poderia suportar tal agonia. Tua paciência é como aquela de um Kshatriya. Diga-me a verdade, sem medo.' Assim questionado, Karna, por medo de ser amaldiçoado, e procurando gratificá-lo disse estas palavras, 'Ó tu da linhagem de Bhrigu, saiba que eu sou um Suta, uma classe que surgiu da mistura de Brahmanas com Kshatriyas. As pessoas me chamam de Karna filho de Radha. Ó tu da linhagem de Bhrigu, fique satisfeito com minha pobre pessoa que agiu pelo desejo de obter armas. Não há dúvida de que um venerável preceptor nos Vedas e outros ramos de conhecimento é um pai. Foi por isso que eu me apresentei a ti como uma pessoa da tua própria linhagem.' Ao triste e trêmulo Karna, prostrado sobre a terra com mãos unidas, aquele principal da linhagem de Bhrigu, sorrindo embora cheio de ira, respondeu, 'Já que tu, pela cobiça de armas, te comportaste aqui com falsidade, portanto, ó infeliz, aquela arma Brahma não ficará na tua memória. Já que tu não és um Brahmana, realmente a arma Brahma, perto da hora da tua morte, não ficará contigo (tu a esquecerás ou ela não virá ao teu chamado) quando tu estiveres empenhado em combate com um guerreiro igual a ti! Vá embora, este não é um lugar para uma pessoa de comportamento falso como tu!
Sobre a terra, nenhum Kshatriya será teu igual em batalha.' Assim endereçado por Rama, Karna foi embora, tendo recebido a permissão dele devidamente. Chegando então diante de Duryodhana, ele o informou, dizendo, 'Eu tenho o domínio de todas as armas.'" 4 "Narada disse, 'Tendo assim obtido armas daquele da linhagem de Bhrigu, Karna começou a passar seus dias em grande alegria, na companhia de Duryodhana, ó touro da raça Bharata! Uma vez, ó monarca, muitos reis foram para uma escolha de marido na capital de Chitrangada, o soberano do país dos Kalingas. A cidade, ó Bharata, cheia de opulência, era conhecida pelo nome de Rajapura. Centenas de soberanos foram para lá para obter a mão da donzela. Sabendo que diversos reis estavam lá reunidos, Duryodhana também, em seu carro dourado, foi para lá, acompanhado por Karna. Quando as festas começaram naquela escolha de marido, diversos soberanos, ó melhor dos reis, foram para lá pela mão da moça. Entre eles estavam Sisupala e Jarasandha e Bhishmaka e Vakra, e Kapotaroman e Nila e Rukmi de destreza imperturbável, e Sringa que era soberano do reino feminino, e Asoka e Satadhanwan e o heróico soberano dos Bhojas. Além destes, muitos outros que moravam nos países do Sul, e muitos preceptores (em armas) das tribos mlechchas, e muitos soberanos do Leste e do Norte, ó Bharata, chegaram lá. Todos eles estavam enfeitados com Angadas dourados, e possuíam o esplendor do ouro puro. De corpos refulgentes, eles eram como tigres de bravura feroz.
Depois que aqueles reis tinham tomado seus assentos, ó Bharata, a donzela entrou na arena, acompanhada por sua acompanhante e uma guarda de eunucos. Enquanto era informada dos nomes dos reis (enquanto ela fazia sua rota), aquela moça das mais belas feições passou pelo filho de Dhritarashtra (como tinha passado por outros antes dele). Duryodhana, no entanto, da linhagem de Kuru, não pode suportar aquela rejeição. Desrespeitando todos os reis, ele mandou a moça parar. Embriagado com orgulho de energia, e confiando em Bhishma e Drona, o rei Duryodhana, colocando aquela moça em seu carro, a sequestrou à força. Armado com espada, vestido em cota de malha, e com seus dedos envolvidos em tiras de couro, Karna, aquele principal de todos os manejadores de armas, em seu carro, procedeu na retaguarda de Duryodhana. Um grande tumulto então ocorreu entre os reis, todos os quais foram incitados pelo desejo de lutar, 'Ponham suas cotas de malha! Que os carros sejam aprontados!' (Eram os sons que eram ouvidos). Cheios de cólera, eles perseguiram Karna e Duryodhana, despejando setas sobre eles como massas de nuvens despejando chuva sobre um par de colinas. Enquanto eles os perseguiam, Karna derrubava seus arcos e setas no chão, cada um com uma única seta. Entre eles alguns ficaram sem arcos, alguns avançavam com arco nas mãos, alguns estavam a ponto de atirar suas flechas, e alguns os perseguiam armados com dardos e maças. Possuidor de grande leveza de mãos, Karna, aquele principal de todos os batedores, afligiu eles todos.
Ele privou muitos reis de seus motoristas e assim venceu todos aqueles senhores de terra. Então eles mesmos pegaram as rédeas de seus corcéis, e dizendo, ‘Vamos embora!’, ‘Vamos embora!’, desistiram da batalha com corações desanimados. Protegido por Karna, Duryodhana também foi embora, com o coração alegre, levando com ele a donzela para a cidade chamada de elefante.' 5 "Narada disse, 'Sabendo da fama do poder de Karna, o soberano dos Magadhas, o rei Jarasandha, o desafiou para um combate. Como ambos eram conhecedores de armas celestes, uma batalha violenta ocorreu entre eles na qual eles atacaram um ao outro com diversas espécies de armas. Finalmente quando suas setas estavam esgotadas e arcos e espadas estavam quebrados e ambos ficaram sem carro, eles começaram, possuidores de força como eles eram, a lutar com braços nus. Enquanto envolvido com ele em combate mortal com braços nus, Karna estava prestes a separar as duas partes do corpo de seu oponente que tinham sido unidas por Jara. O rei (de Magadha), então depois de se sentir muito atormentado, abandonou todo o desejo de hostilidade e dirigiu-se a Karna, dizendo, 'Eu estou satisfeito'. Por amizade ele então deu para Karna a cidade Malini. Antes disto, aquele tigre entre homens e subjugador de todos os inimigos (Karna) era rei dos Angas somente, mas daquele tempo em diante aquele opressor de tropas hostis começou a governar sobre Champa também, em conformidade com os desejos de Duryodhana, como tu sabes. Assim Karna se tornou famoso sobre a terra pelo valor de seus braços.
Quando, para o teu bem, o Senhor dos celestiais pediu dele sua armadura e brincos (naturais), entorpecido pela ilusão celeste, ele deu aquelas posses preciosas. Privado de seus brincos e de sua armadura natural, ele foi morto por Arjuna na presença de Vasudeva. Por consequência da maldição de um Brahmana, como também da maldição do ilustre Rama, do benefício concedido à Kunti e da ilusão praticada sobre ele por Indra, de sua depreciação por Bhishma como somente meio guerreiro em carro, na contagem de Rathas e Atirathas, da destruição de sua energia causada por Salya (com suas palavras mordazes), da política de Vasudeva, e, por fim, das armas celestes obtidas por Arjuna de Rudra e Indra e Yama e Varuna e Kuvera e Drona e do ilustre Kripa, o manejador do Gandiva conseguiu matar o filho de Vikartana, Karna, de refulgência como aquela do próprio Surya. Dessa maneira teu irmão foi amaldiçoado e iludido por muitos. Como, no entanto, ele caiu em batalha, tu não deves te afligir por aquele tigre entre homens!'” 6 "Vaisampayana disse, 'Tendo dito estas palavras, o Rishi celeste Narada ficou silencioso. O sábio real Yudhishthira, cheio de dor, ficou mergulhado em meditação. Vendo aquele herói desanimado e abatido pela tristeza, suspirando como uma cobra e derramando lágrimas copiosas, Kunti, ela mesma cheia de angústia e quase privada de sua razão pela tristeza, dirigiu-se a ele nestas palavras gentis de significado importante e bem adequadas à ocasião, 'Ó Yudhishthira de braços poderosos, não cabe a ti ceder assim à tristeza.
Ó tu de grande sabedoria, mate esta tua dor, e escute o que eu digo. Eu tentei no passado informar Karna de sua irmandade contigo. O deus Surya também, ó principal de todas as pessoas justas, fez o mesmo. Tudo o que um amigo que deseja o bem, pelo desejo de bem, deve dizer a alguém foi dito para Karna por aquele deus em um sonho e mais uma vez na minha presença. Nem por aflição nem por argumentos Surya ou eu mesma conseguimos acalmá-lo ou induzi-lo a se unir a ti. Sucumbindo à influência do Tempo ele resolveu descarregar sua inimizade sobre ti. Como ele estava inclinado a ferir vocês todos eu desisti da tentativa.' Assim endereçado por sua mãe, o rei Yudhishthira, com olhos cheios de lágrimas e coração agitado pela dor, disse estas palavras, 'Por tu teres escondido este segredo esta grande aflição me alcançou!' Possuidor de grande energia, o rei virtuoso, então, em tristeza, amaldiçoou todas as mulheres do mundo, dizendo, 'De agora em diante nenhuma mulher conseguirá guardar um segredo!' O rei, então, se lembrando de seus filhos e netos e parentes e amigos, encheu-se de ansiedade e dor. Afligido pela tristeza, o rei inteligente, parecendo um fogo coberto com fumaça, foi dominado pelo desespero.” 7 Vaisampayana disse, "Yudhishthira de alma justa, com coração agitado e queimando de tristeza, começou a chorar por aquele poderoso guerreiro em carro, Karna.
Suspirando repetidamente, ele se dirigiu a Arjuna, dizendo, 'Se, ó Arjuna, nós tivéssemos levado uma vida de mendicância nas cidades dos Vrishnis e dos Andhakas, então este fim miserável não teria sido nosso por termos exterminado nossos parentes. Nossos inimigos, os Kurus, ganharam em prosperidade (pois tendo morrido em combate foram todos para o céu), enquanto nós ficamos privados de todos os objetos de vida, pois que frutos de virtude podem ser nossos quando nós somos culpados de autodestruição? Que vergonha para os costumes de Kshatriyas, para o poder e coragem, e para a ira, já que por causa destes tal calamidade nos alcançou. Abençoados são perdão, autocontrole, pureza, com renúncia e humildade, e abstenção de ferir, e veracidade de palavras em todas as ocasiões, que são todos praticados por reclusos das florestas. Cheios de orgulho e arrogância, nós, no entanto, pela avareza e tolice e desejo de desfrutar da soberania, caímos nesta situação. Vendo aqueles nossos parentes, que estavam resolvidos a obter a soberania do mundo, mortos sobre o campo de batalha, tal é a nossa dor que nós não poderíamos nos alegrar nem se ganhássemos a soberania dos três mundos. Ai, tendo matado, por causa da terra, tais senhores de terras que não mereciam ser mortos por nós, nós estamos suportando o peso da existência, carentes de amigos e privados dos próprios objetivos da vida. Como um matilha de cães lutando entre si por um pedaço de carne, um grande desastre nos alcançou! Aquele pedaço de carne não é mais caro para nós. Por outro lado, ele será jogado de lado.
Aqueles que estão mortos não deveriam ter sido mortos nem por toda a terra nem por montanhas de ouro, nem por todos os cavalos e vacas deste mundo. Cheios de inveja e de um desejo ardente por todos os objetos mundanos, e influenciados por ira e prazer, todos eles, dirigindo-se à estrada da Morte, foram para as regiões de Yama. Praticando ascetismo e Brahmacharya e verdade e renúncia, pais desejam filhos dotados de todos os tipos de prosperidade. Da mesma maneira, por jejuns e sacrifícios e votos e ritos sagrados e cerimônias auspiciosas as mães concebem. Elas então mantêm o feto por dez meses. Passando seu tempo em miséria e na expectativa de resultado, elas sempre se perguntam em ansiedade, 'Estes sairão do útero com segurança? Eles viverão depois do nascimento? Eles crescerão em poder e serão objetos de respeito sobre a terra? Eles serão capazes de nos dar felicidade neste e no outro mundo?' Ai, já que seus filhos, jovens e resplandecentes com brincos, foram todos mortos, portanto, aquelas esperanças delas foram tornadas inúteis, tendo sido abandonadas por elas. Sem terem desfrutado do prazer deste mundo, e sem terem pagado as dívidas que tinham com seus pais e com os deuses, eles foram para a residência de Yama. Ai, ó mãe, aqueles reis foram mortos justamente quando seus pais esperavam colher os frutos de seu poder e riqueza. Eles eram sempre cheios de inveja e de avidez pelos objetos terrestres, e eram extremamente sujeitos à alegria e à raiva. Por isto, não se podia esperar que eles desfrutassem em tempo algum e em lugar algum dos frutos da vitória.
Eu penso que aqueles entre os Panchalas e os Kurus que morreram (nesta batalha) estão perdidos, do contrário aquele que matou deveria, por aquela ação dele, obter todas as regiões de felicidade. (Isto é, todos os guerreiros que foram mortos nessa batalha pereceram, eles não alcançaram o céu; se, de fato, o céu fosse deles, então os matadores também alcançariam o céu, a ordenança escritural tendo dito isso. É impossível, no entanto, supor que os homens de ira que fizeram tais atos perversos tenham alcançado tais regiões de bem-aventurança após a morte.) Nós somos considerados como a causa da destruição que ocorreu no mundo. A culpa, no entanto, é realmente atribuível aos filhos de Dhritarashtra. O coração de Duryodhana estava sempre colocado na fraude. Sempre nutrindo malícia, ele era dedicado à fraude. Embora nós nunca o tenhamos ofendido ainda assim ele sempre se comportou falsamente conosco. Nós não conseguimos nosso objetivo, nem eles o deles. Nós não os vencemos, nem eles nos venceram. Os Dhartarashtras não podiam desfrutar desta terra, nem de mulheres e música. Eles não escutavam os conselhos de ministros e amigos e homens eruditos nas escrituras. Eles não podiam, de fato, desfrutar de suas jóias caras e da tesouraria bem abastecida e dos vastos territórios. Queimando com o ódio que tinham por nós, eles não podiam obter paz e felicidade. Vendo nosso engrandecimento, Duryodhana ficou sem cor, pálido e emaciado. O filho de Suvala informou o rei Dhritarashtra disto. Como um pai cheio de afeição por seu filho, Dhritarashtra tolerou a política má que seu filho adotou.
Sem dúvida, por desrespeitar Vidura e o filho de grande alma de Ganga, e por sua negligência em reprimir seu filho pecaminoso e avarento, totalmente governado pelas suas paixões, o rei encontrou com a destruição como minha pobre pessoa. Sem dúvida, Suyodhana, tendo causado a morte de seus irmãos e tendo deixado este casal em uma dor ardente, abandonou sua fama resplandecente. Queimando com o ódio que tinha por nós Duryodhana sempre teve um coração pecaminoso. Que outro parente de nascimento nobre poderia usar tal linguagem com outro parente, como ele, pelo desejo de batalha, realmente usou na presença de Krishna? Nós também, pelo erro de Duryodhana, estamos perdidos pela eternidade, como sóis queimando tudo ao redor deles com sua própria energia. Aquele indivíduo de alma vil, aquela encarnação da hostilidade, foi nossa estrela má. Ai, somente pelas ações de Duryodhana esta nossa classe foi exterminada. Tendo matado aqueles a quem nós nunca deveríamos ter matado, nós incorremos na desaprovação do mundo. O rei Dhritarashtra, tendo instalado aquele príncipe de alma vil e atos pecaminosos, aquele exterminador de sua família, na soberania, é obrigado a sofrer hoje. Nossos inimigos heróicos estão mortos. Nós cometemos pecado. Suas posses e reino se foram. Tendo-os matado, nossa ira foi acalmada. Mas a aflição está me entorpecendo. Ó Dhananjaya, um pecado cometido é expiado por ações auspiciosas, por proclamá-lo desenfreadamente, por arrependimento, por esmolas dadas, por penitências, por viagens a tirthas depois da renúncia de tudo, e por meditação constante nas escrituras.
De tudo isto, se acredita que aquele que praticou a renúncia é incapaz de cometer pecados de novo. Os Srutis declaram que quem pratica a renúncia escapa do nascimento e da morte, e seguindo o caminho correto, aquela pessoa de alma fixa alcança Brahma. Eu irei, portanto, ó Dhananjaya, para as florestas, com sua permissão, ó destruidor de inimigos, desconsiderando todos os pares de opostos, adotando o voto de taciturnidade, e trilhando o caminho indicado pelo conhecimento. Ó matador de inimigos, os Srutis declaram isto, e eu mesmo tenho visto com meus próprios olhos, que alguém que é apegado a esta terra nunca pode obter todo o tipo de mérito religioso. Desejoso de obter as coisas desta terra, eu cometi pecado, pelo qual, como os Srutis declaram, nascimento e morte são ocasionados. Abandonando todo o meu reino, portanto, e as coisas desta terra, eu irei para as florestas, escapando dos vínculos do mundo, livre da dor, e sem afeição por coisa alguma. Governe esta terra, na qual a paz foi restaurada, e que está privada de todos os seus espinhos. Ó melhor da família de Kuru, eu não necessito de reino ou de prazer.' Tendo dito estas palavras, o rei Yudhishthira, o justo, parou. Seu irmão mais novo Arjuna então dirigiu-se a ele nas seguintes palavras.” 8 Vaisampayana disse, "Como uma pessoa relutante em perdoar um insulto, Arjuna de palavras sagazes, e possuidor de energia e coragem, mostrando grande fúria e lambendo os cantos de sua boca, disse estas palavras de grande importância, sorrindo: 'Oh, quão doloroso, quão infeliz!
Eu sofro ao ver esta grande agitação do teu coração, já que tendo realizado tal façanha sobre-humana tu estás determinado a abandonar esta grande prosperidade. Tendo matado teus inimigos, e tendo adquirido a soberania da terra que foi ganha pela prática dos deveres da tua própria classe, por que tu deverias abandonar tudo por inconstância de coração? Onde sobre a terra um eunuco ou uma pessoa de procrastinação alguma vez adquiriu soberania? Por que então, insensato com raiva, tu mataste todos os reis da terra? Aquele que vive por mendicância não pode, por alguma ação dele, desfrutar das coisas boas da terra. Privado de prosperidade e sem recursos, ele nunca pode ganhar fama sobre a terra ou adquirir filhos e animais. Se, ó rei, abandonando este reino próspero, tu viveres na observância do modo de vida desprezível levado por um mendicante, o que o mundo dirá de ti? Por que tu dizes que, abandonando todas as coisas boas da terra, privado de prosperidade e de recursos, tu levarás uma vida de mendicância como uma pessoa comum? Tu nasceste nesta linhagem de reis. Tendo ganhado por conquista a terra inteira, tu desejas por tolice viver nas florestas depois de abandonar tudo de virtude e lucro? Se tu te retirares às florestas, na tua ausência, homens desonestos destruirão sacrifícios. Este pecado certamente te poluirá. O rei Nahusha, tendo feito muitas ações vis em um estado de pobreza, apregoou a vergonha daquele estado e disse que a pobreza é para reclusos. Não fazer provisões para o dia seguinte é uma prática que convém a Rishis. Tu sabes bem disso.
Aquela, no entanto, que é chamada de religião da realeza depende totalmente da riqueza. Alguém que rouba a riqueza de outro rouba a religião dele também. (Porque a riqueza capacita seu possuidor a praticar os ritos religiosos). Quem entre nós, portanto, ó rei, perdoaria um ato de espoliação praticado sobre nós? É visto que um homem pobre, mesmo quando ele se encontra perto, é acusado falsamente. Pobreza é um estado de pecaminosidade. Não cabe a ti elogiar a pobreza, portanto. O homem que é decaído, ó rei, se aflige, como também o que é pobre. Eu não vejo a diferença entre um homem decaído e um homem pobre. Todos os tipos de atos meritórios fluem da posse de grande riqueza como uma montanha. Da riqueza nascem todas as ações religiosas, todos os prazeres, e o próprio céu, ó rei! Sem riqueza, um homem não pode encontrar os próprios meios de manter sua vida. As ações de uma pessoa que, possuidora de pouca inteligência, se permite ser privada de riqueza, são todas secadas completamente como rios rasos no verão. Aquele que tem riqueza tem amigos. Aquele que tem riqueza tem parentes. Aquele que tem riqueza é considerado como um verdadeiro homem no mundo. Aquele que tem riqueza é considerado como um homem erudito. Se uma pessoa que não tem riqueza deseja realizar um propósito específico, ela encontra o fracasso. A riqueza ocasiona acessões de riqueza, como elefantes capturando elefantes (selvagens). Atos religiosos, prazeres, alegria, coragem, cólera, erudição, e senso de dignidade, todos esses procedem da riqueza, ó rei! Da riqueza se adquire honra familiar.
Da riqueza, o mérito religioso aumenta. Aquele que não tem riqueza não tem nem este mundo, nem o seguinte, ó melhor dos homens! O homem que não tem riqueza não tem sucesso em realizar atos religiosos, pois estes últimos vem da riqueza, como rios de uma montanha. Aquele que é magro em relação à (posse de) corcéis e vacas e empregados e convidados, é realmente magro e não aquele cujos membros somente são assim. Julgue realmente, ó rei, e olhe a conduta dos deuses e dos Danavas. Ó rei, os deuses alguma vez desejam qualquer coisa mais do que a morte de seus parentes (os Asuras)? Se a apropriação da riqueza pertencente a outros não é considerada como justa, como, ó monarca, reis praticarão a virtude nesta terra? Homens eruditos, nos Vedas, declararam esta conclusão. Os eruditos afirmaram que reis devem viver, recitando todo dia os três Vedas, procurando adquirir riqueza, e realizando sacrifícios cuidadosamente com a riqueza assim adquirida. Os deuses, através de disputas destrutivas (para ambos os lados), obtiveram posição no céu. Quando os próprios deuses ganharam sua prosperidade através de disputas mortais, que defeito pode haver em tais disputas? Os deuses, tu vês, agem dessa maneira. Os preceitos eternos dos Vedas também sancionam isto. Aprender, ensinar, sacrificar, e ajudar nos sacrifícios de outros, estes são nossos quatro deveres principais. A riqueza que reis tomam de outros se torna os meios de sua prosperidade. Nós nunca vemos riqueza que foi ganha sem fazer algum dano para outros. É assim mesmo que reis conquistam este mundo.
Tendo conquistado, eles chamam aquela riqueza deles, assim como filhos falam da riqueza de seus pais como deles. Os sábios nobres que foram para o céu declararam que este é o dever dos reis. Como água fluindo em todas as direções de um oceano cheio, aquela riqueza corre em todas as direções das tesourarias dos reis. Esta terra antigamente pertenceu ao rei Dilipa, Nahusha, Amvarisha, e Mandhatri. Ela agora pertence a ti! Um sacrifício grandioso, portanto, com presentes abundantes de todos os tipos e requerendo uma pilha vasta de produtos da terra, te espera. Se tu não realizares este sacrifício, ó rei, então todos os pecados deste reino serão teus. Os súditos cujo rei realiza um Sacrifício de Cavalo com presentes abundantes, se tornam todos limpos e santificados por contemplarem as abluções no fim do sacrifício. O próprio Mahadeva, de forma universal, em um grande sacrifício requerendo libações de todas as espécies de carne, despejou todas as criaturas como libações sacrificais e então sua própria pessoa. Eterno é este caminho auspicioso. Seus frutos nunca são destruídos. Este é o grande caminho chamado Dasaratha. Abandonando-o, ó rei, para que outro caminho tu te dirigirias?'” 9 "Yudhishthira disse, 'Por um momento, ó Arjuna, concentre tua atenção e fixe tua mente e audição na tua alma interna. Se tu ouvires as minhas palavras em tal estado de espírito, elas encontrarão tua aprovação. Abandonando todos os prazeres mundanos, eu me dirigirei àquele caminho que é trilhado pelos virtuosos. Eu, por tua causa, não seguirei o caminho que tu recomendaste.
Se tu me perguntares qual caminho é auspicioso que alguém deve trilhar sozinho, eu te direi. Se tu não desejares me perguntar, eu irei, ainda que não perguntado por ti, te falar disto. Abandonando os prazeres e observâncias dos homens do mundo, dedicado a realizar as mais austeras das penitências, eu vagarei na floresta, com os animais que têm sua casa lá, vivendo de frutas e raízes. Despejando libações no fogo nas horas devidas, e realizando abluções de manhã e à noite, eu me diminuirei por uma dieta reduzida, me cobrirei com peles, e terei cabelos emaranhados em minha cabeça. Suportando frio, vento, e calor como também fome e sede e fadiga, eu emaciarei meu corpo por meio de penitências como declarado nas ordenanças. Encantadoras para o coração e os ouvidos, eu irei diariamente escutar as melodias puras de aves alegres e animais que residem nas florestas. Eu desfrutarei da fragrância de árvores carregadas de flores e trepadeiras, e verei diversas espécies de produtos agradáveis que crescem na floresta. Eu também verei muitos reclusos excelentes da floresta. Eu não farei a menor injúria para alguma criatura, o que dizer então daqueles que moram nas aldeias e cidades? (Quando eu não ferirei os habitantes até da floresta há pouca chance de ferir algum homem do mundo). Levando uma vida retirada e me dedicando à contemplação, eu viverei de frutos maduros e verdes e gratificarei os Pitris e as divindades com oferendas de frutos selvagens e água de nascente e hinos agradecidos.
Observando dessa forma os regulamentos austeros de uma vida na floresta, eu passarei meus dias, esperando calmamente a dissolução do meu corpo. Ou, vivendo só e cumprindo o voto de taciturnidade, com minha cabeça raspada, eu derivarei meu sustento por esmolar cada dia de uma única árvore. (Há uma classe de reclusos que se mantêm por colher os frutos caídos de árvores. Tomando a árvore por uma pessoa viva, eles caminham sob sua sombra e pedem seus frutos. Aqueles frutos que caem em tais ocasiões são considerados como as esmolas concedidas pela árvore para seu convidado mendicante). Cobrindo meu corpo com cinzas, e aproveitando o abrigo de casas abandonadas, ou deitando na base de árvores, eu viverei, rejeitando todas as coisas queridas ou odiosas. Sem ceder à dor ou alegria, e considerando censuras e elogios, esperança e aflição, igualmente, e triunfando sobre todos os pares de opostos, eu viverei rejeitando as coisas do mundo. Sem conversar com ninguém, eu assumirei a forma externa de um idiota cego e surdo, enquanto vivendo em contentamento e derivando felicidade de minha própria alma. Sem fazer a menor injúria para as quatro espécies de criaturas móveis e imóveis, eu me comportarei igualmente com todas as criaturas, sejam elas conscientes de seus deveres ou seguindo somente dos ditames dos sentidos. Eu não zombarei de ninguém, nem olharei com censura para alguém. Reprimindo todos os meus sentidos, eu sempre terei um rosto alegre.
Sem perguntar a ninguém sobre o caminho, procedendo por qualquer rota que encontrar, eu irei em frente, sem considerar o país ou o ponto do horizonte para o qual ou pelo qual eu possa ir. Indiferente ao lugar para onde eu possa proceder, eu não olharei para atrás. Livrando-me do desejo e da ira, e voltando meu olhar para dentro, eu seguirei em frente, rejeitando o orgulho de alma e corpo. A natureza sempre segue adiante; então, comida e bebida de alguma maneira serão obtidas. Eu não pensarei naqueles pares de opostos que ficam no caminho de tal vida. Se alimento puro, mesmo em uma pequena quantidade, não for obtenível na primeira casa (à qual eu possa ir), eu o conseguirei por ir a outras casas. Se eu fracassar em obtê-lo mesmo em tal ronda, eu procederei a sete casas em sucessão e saciarei meu desejo. Quando a fumaça das casas cessar, o fogo de seus lares se extinguir, quando suas varas de descascar forem colocadas de lado, e todos os habitantes tiverem se alimentado, quando mendicantes e convidados pararem de vagar, eu escolherei um momento para minha ronda de mendicância e pedirei esmolas em duas, três, ou cinco casas no máximo. Eu vagarei sobre a terra, depois de quebrar os vínculos do desejo. Preservando equanimidade no sucesso e no fracasso, eu ganharei grande mérito ascético. Eu não me comportarei nem como alguém que é apegado à vida nem como alguém que está prestes a morrer. Eu não manifestarei alguma simpatia pela vida nem antipatia pela morte.
Se uma pessoa corta fora um braço meu e outra passa pasta de sândalo no outro braço, eu não desejarei mal a um ou bem ao outro. Descartando todos aqueles atos conducentes à prosperidade que alguém possa fazer na vida, as únicas ações que eu realizarei serão abrir e fechar meus olhos e aceitar comida e bebida apenas o suficiente para manter a vida. Sem ser vinculado à ação, e sempre reprimindo as funções dos sentidos, eu abandonarei todos os desejos e purificarei minha alma de todas as impurezas. Livre de todas as amarras e cortando todos os laços e vínculos, eu viverei livre como o vento. Vivendo em tal liberdade de afeições, o contentamento eterno será meu. Pelo desejo, eu, por ignorância, cometi grandes pecados. Certa classe de homens, fazendo atos auspiciosos e inauspiciosos aqui, mantêm suas esposas, filhos, e parentes, todos ligados a eles em relações de causa e efeito. (Todas as posses de um homem dependem dos atos de uma vida anterior. Esposas, filhos e parentes, portanto, como agentes de felicidade ou o contrário, dependem dos atos passados do homem. Eles são efeitos de causas preexistentes. Eles também podem ser causas de efeitos a serem manifestados na próxima vida, pois supõe-se que seus atos também afetam a vida seguinte daquele a quem eles pertencem.) Quando acaba o período da vida deles, abandonando seus corpos enfraquecidos, eles tomam sobre si mesmos todos os efeitos de suas ações pecaminosas, pois ninguém exceto o ator é sobrecarregado com as consequências de seus atos. (Isto é, aqueles por quem ele age não recebem as consequências dos atos dele).
Assim, dotadas de ações, as criaturas entram nesta roda da vida que está girando continuamente como a roda de um carro, e assim, vindo para cá, elas se reúnem com suas próximas. Quem, no entanto, abandona o curso de vida mundana, o qual é realmente uma ilusão fugaz embora pareça eterno, e que é afligido por nascimento, morte, decrepitude, doença, e dor, está certo de obter felicidade. Quando também, os próprios deuses caem do céu e grandes Rishis de suas respectivas posições de eminência quem, que seja familiarizado com as verdades das causas (e efeitos) desejaria ter até a prosperidade celestial? Reis insignificantes, tendo realizado diversas ações relativas aos diversos meios da arte de reinar (conhecidas pelos meios de conciliação, presentes, etc.) muitas vezes matam um rei por meio de algum artifício. Refletindo sobre estas circunstâncias, este néctar de sabedoria vem a mim. Tendo-o alcançado, eu desejo adquirir um lugar permanente, eterno e imutável (para mim mesmo). Sempre (me comportando) com tal sabedoria e agindo desta maneira, eu irei, por me dirigir àquele caminho de vida destemido, acabar com este corpo físico que está sujeito a nascimento, morte, decrepitude, doença, e dor.' “ 10 Bhimasena disse, "Tua mente, ó rei, se tornou cega para a verdade, como a de um tolo e ininteligente narrador do Veda por sua recitação repetida daquelas escrituras. Se criticando os deveres dos reis tu levares uma vida de ociosidade, então, ó touro da raça Bharata, esta destruição dos Dhartarashtras foi totalmente desnecessária.
Generosidade e compaixão e piedade e abstenção de ferir não são encontrados em alguém que anda pelo caminho das funções Kshatriya! Se nós soubéssemos que esta era tua intenção, nós então nunca teríamos tomado nossas armas e matado uma única criatura. Nós teríamos vivido por mendicância até a destruição deste corpo. Esta batalha terrível entre os soberanos da terra também nunca teria ocorrido. Os eruditos dizem que tudo isso que nós vemos é alimento para os fortes. De fato, este mundo móvel e imóvel é um objeto de prazer para a pessoa que é forte. Homens sábios conhecedores dos deveres Kshatriya, declaram que aqueles que ficam no caminho da pessoa que toma a soberania da terra devem ser mortos. Culpados dessa falha, aqueles que ficaram como inimigos do nosso reino foram todos mortos por nós. Tendo-os matado, ó Yudhishthira, governe justamente esta terra. Esta nossa ação (de recusar o reino) é como a de uma pessoa que, tendo cavado um poço para em seu trabalho antes de obter água e sobe sujo de lama. Ou, este nosso ato é como o de uma pessoa que tendo subido numa árvore alta e pegado mel lá encontra a morte antes de prová-lo. Ou, ele é como aquele de uma pessoa que tendo saído por um longo caminho volta em desespero sem ter alcançado seu destino. Ou, ele é como o de uma pessoa que tendo matado todos os seus inimigos, ó tu da linhagem e Kuru, morre ao final pela sua própria mão.
Ou, ele é como aquele de uma pessoa afligida pela fome, que tendo obtido alimento, se recusa a comê-lo, ou de um homem sob a influência do desejo, que tendo obtido uma mulher que corresponde à sua paixão se recusa a se unir com ela. Nós nos tornamos objetos de crítica, ó Bharata, porque, ó rei, nós seguimos a ti que és de intelecto fraco, por tu seres nosso irmão mais velho. Nós possuímos braços poderosos; nós somos aperfeiçoados em conhecimento e dotados de grande energia. Ainda assim nós obedecemos às palavras de um eunuco como se nós fôssemos totalmente impotentes. Nós somos o refúgio de todas as pessoas desamparadas. Contudo, quando as pessoas nos vêem assim, por que elas não diriam que em relação à conquista de nossos objetos nós somos totalmente impotentes? Reflita sobre isso que eu digo. É afirmado que (uma vida de) renúncia deve ser adotada somente em épocas de infortúnio, por reis vencidos pela decrepitude ou derrotados por inimigos. Homens de sabedoria, portanto, não aprovam a renúncia como o dever de um Kshatriya. Por outro lado, aqueles que são perspicazes pensam que a adoção daquele modo de vida (por um Kshatriya) envolve até a perda de virtude. Como podem aqueles que nasceram naquela classe, que são dedicados às práticas daquela classe, e que têm refúgio nelas, criticar aqueles deveres? De fato, se aqueles deveres são censuráveis, então por que o Ordenador Supremo não deveria ser criticado? (Como o Ordenador não pode ser criticado, então o que Ele ordenou para os Kshatriyas não pode ser merecedor de crítica).
São somente aquelas pessoas que são privadas de prosperidade e riqueza e infiéis que têm promulgado este preceito dos Vedas (sobre a adequação de um Kshatriya adotar uma vida de renúncia), como a verdade. Na verdade, no entanto, nunca é apropriado para um Kshatriya fazer isto. Aquele que é competente para sustentar a vida pela coragem, que pode se sustentar pelos seus próprios esforços, não vive, mas realmente se desvia de seu dever pela aparência hipócrita de uma vida de renúncia. O homem que é capaz de levar uma vida solitária de felicidade nas florestas é somente aquele que é incapaz de manter filhos e netos e as divindades e Rishis e convidados e Pitris. Como os veados e javalis e as aves (embora eles levem uma vida na floresta) não podem alcançar o céu, assim mesmo aqueles kshatriyas que são dotados de destreza porém não dispostos a fazerem bons serviços não podem alcançar o céu por levarem somente uma vida na floresta. Eles devem adquirir mérito religioso por outras maneiras. Se, ó rei, alguém obtivesse êxito da renúncia, então montanhas e árvores certamente o obteriam! Estes últimos são sempre vistos levando vidas de renúncia. Eles não ferem ninguém. Eles estão, também, sempre distantes de uma vida de mundanidade e são todos Brahmacharins. Se é verdade que o sucesso de uma pessoa depende de sua própria sina na vida e não da de outro, então (como uma pessoa nascida na classe Kshatriya) tu deves te dedicar à ação. Aquele que é desprovido de ação nunca pode ter sucesso.
Se aqueles que somente enchem seus próprios estômagos pudessem alcançar o sucesso, então todas as criaturas aquáticas o obteriam, pois estas não têm ninguém mais para sustentar exceto a si mesmas. Veja, o mundo se move, com todas as criaturas nele empenhadas em ações apropriadas à sua natureza. Portanto, uma pessoa deve se dirigir à ação. O homem sem ação nunca pode obter sucesso.'" 11 "Arjuna disse, 'Ligado a isto uma história antiga é citada, isto é, as palavras entre certos ascetas e Sakra, ó touro da raça Bharata! Diversos Brahmanas jovens, bem nascidos e de pouca inteligência, sem os pêlos distintivos da idade adulta, abandonando suas casas, foram para os bosques para levar uma vida na floresta. Considerando que aquilo era virtude, aqueles jovens de recursos abundantes ficaram desejosos de viver como Brahmacharins, tendo abandonado seus pais e irmãos. E então aconteceu que Indra se tornou compassivo para com eles. Assumindo a forma de uma ave dourada, o santo Sakra se dirigiu a eles, dizendo, 'Aquilo que é feito por pessoas que comem os restos de um sacrifício é o mais difícil dos atos que os homens podem realizar. (Isto é, aqueles que realizam sacrifícios e partilham do alimento sacrifical depois de oferecê-lo para deuses e convidados adquirem tal mérito religioso que igual a ele não pode ser adquirido por outros homens. Sacrifício, portanto, é o ato mais sublime na vida e o mais meritório que um homem pode fazer.) Tal ato é altamente meritório. As vidas de tais homens são dignas de todo louvor.
Tendo alcançado o objetivo da vida, aqueles homens, dedicados à virtude, obtém o fim mais sublime.' Ouvindo estas palavras, os Rishis disseram, 'Vejam, esta ave louva aqueles que subsistem dos restos de sacrifícios. Ele nos informa disto, pois nós vivemos de tais restos.' A ave então disse, 'Eu não louvo vocês. Vocês são posicionados com lodo e muito impuros. Vivendo de sobras, vocês são pecaminosos. Vocês não são pessoas que vivem de restos de sacrifícios.' Os Rishis disseram, 'Nós consideramos este nosso modo de vida como altamente abençoado. Nos diga, ó ave, o que é para o nosso bem. Tuas palavras nos inspiram com grande fé.' A ave disse, 'Se vocês não me recusam sua fé por se colocarem contra seus próprios interesses, então eu lhes direi palavras que são verdadeiras e benéficas.'” "Os Rishis disseram, 'Nós ouviremos tuas palavras, ó senhor, pois as diferentes linhas de conduta são todas conhecidas por ti. Ó tu de alma justa, nós desejamos também obedecer tuas ordens. Nos instrua agora.'” "A ave disse, 'Entre os quadrúpedes a vaca é o principal. Dos metais, o ouro é o principal. Das palavras, os mantras, e dos bípedes, os Brahmanas são os principais. Estes mantras regulam todos os ritos da vida de um Brahmana começando com aqueles concernentes ao nascimento e o período depois disto, e terminando com aqueles concernentes à morte e ao crematório. Estes ritos Védicos são seu céu, caminho, e principal dos sacrifícios. Se isso fosse de outra maneira, como eu poderia achar que as ações (de pessoas à procura do céu) se tornam bem sucedidas através de mantras?
Aquele que, neste mundo, adora sua alma, firmemente a considerando como uma divindade de um tipo específico, obtém sucesso compatível com a natureza daquela deidade particular. (Compatível com a maneira pela qual uma pessoa de convicção firme se aproxima da sua Alma é o sucesso que ela alcança.) Os períodos medidos pela metade dos meses levam ao Sol, à Lua, ou às Estrelas. Estes três tipos de sucesso, dependendo das ações, são desejados por todas as criaturas. (Aqueles que morrem durante as quinzenas iluminadas do solstício de verão alcançam as regiões solares de bem-aventurança. Aqueles que morrem durante as quinzenas escuras do solstício de inverno alcançam as regiões lunares. Estes últimos têm que retornar depois de passarem seus períodos designados de desfrute e felicidade, enquanto aqueles que estão livres de vínculos, qualquer que seja a época de sua morte, vão para as regiões estelares que são iguais àquelas de Brahma). O modo de vida familiar é muito superior e sagrado e é chamado de campo (para o cultivo) do sucesso. Por qual caminho vão aqueles homens que criticam a ação? De pouca compreensão e carentes de riqueza, eles incorrem em pecado. E já que aqueles homens de pouco entendimento vivem por abandonarem os caminhos eternos dos deuses, os caminhos dos Rishis, e os caminhos de Brahma, portanto, eles chegam aos caminhos desaprovados pelos Srutis.
(Sem alcançarem a companhia dos deuses e Pitris, e sem alcançarem Brahma, eles afundam na escala e existência e se tornam bichos e insetos.) Há uma ordenança nos mantras que diz, 'Ó sacrificador, realize o sacrifício representado por presentes de coisas de valor. Eu te darei felicidade representada por filhos, animais, e céu!' Vivam, portanto, de acordo com o que a ordenança diz que é o mais elevado ascetismo dos ascetas. Portanto, vocês devem realizar tais sacrifícios e penitências na forma de doações. O desempenho devido destes deveres eternos: o culto dos deuses, o estudo dos Vedas, e a satisfação dos Pitris, como também serviços respeitosos para os preceptores, estes são chamados de as mais austeras das penitências. Os deuses, por realizarem tais penitências extremamente difíceis, obtiveram a mais alta glória e poder. Eu, portanto, digo a vocês para levarem a carga muito pesada dos deveres da vida familiar. Sem dúvida, as penitências são as principais de todas as coisas e são a base de todas as criaturas. O ascetismo, no entanto, é para ser obtido por levar uma vida familiar, da qual depende tudo. Aqueles que comem os restos de banquetes, depois de repartirem devidamente a comida de manhã e à noite entre os parentes, alcança resultados que são extremamente difíceis de alcançar. São chamados de comedores de restos de banquetes aqueles que comem depois de terem servido os convidados e deuses e Rishis e parentes.
Portanto, as pessoas que são cumpridoras de seus próprios deveres praticam votos excelentes e são verdadeiras em palavras, se tornam objetos de grande respeito no mundo, com sua própria fé extremamente fortalecida. Livres de orgulho, aqueles realizadores das mais difíceis façanhas alcançam o céu e vivem por tempo interminável nas regiões de Sakra.'” "Arjuna continuou, 'Os ascetas então, ouvindo estas palavras que eram benéficas e repletas de retidão, abandonaram a religião da renúncia, dizendo, 'Não há nada nisto' e se dirigiram para uma vida familiar. Portanto, ó tu que estás familiarizado com a retidão, chamando para te ajudar aquela sabedoria eterna, governe o mundo vasto, ó monarca que está agora desprovido de inimigos.'” 12 "Vaisampayana disse, 'Ouvindo estas palavras de Arjuna, ó destruidor de inimigos, Nakula de braços poderosos e peito largo, moderado em palavras e possuidor de grande sabedoria, com um rosto cuja cor então parecia com aquela do cobre, olhou para o rei, aquela principal de todas as pessoas justas, e falou estas palavras, preocupando o coração de seu irmão (com justificação).'” "Nakula disse, 'Os próprios deuses estabeleceram seus fogos na região chamada Visakha-yupa. Saiba, portanto, ó rei, que os próprios deuses dependem dos frutos da ação. (Isto é, os próprios deuses se tornaram assim pela ação.) Os Pitris, que sustentam, (pela chuva), as vidas até de todos os descrentes, observando as ordenanças (do Criador como declarado nos Vedas), estão, ó rei, engajados em ação.
Conheça como rematados ateus aqueles que rejeitam a declaração dos Vedas (que inculca a ação). A pessoa que é erudita nos Vedas, por seguir suas declarações em todos os seus atos, alcança, ó Bharata, a mais elevada região do céu pelo caminho das divindades (o caminho pelo qual as divindades seguiram, a estrita observância dos ritos Védicos). Este (modo de vida familiar também) é considerado por todas as pessoas conhecedoras das verdades Védicas como superior a todos os (outros) modos de vida. Sabendo disto, ó rei, a pessoa que em sacrifícios dá sua riqueza justamente adquirida para aqueles Brahmanas que são familiarizados com os Vedas, e reprime sua alma, é, ó monarca, considerada como um verdadeiro renunciante. Aquele, no entanto, que, desconsiderando (uma vida familiar, que é) a fonte de muita felicidade, pula para o próximo modo de vida, aquele renunciador de si mesmo, ó monarca, é um renunciante trabalhando sob a qualidade de ignorância. (Renunciador de si mesmo porque ele seca seu próprio corpo por negar alimento para si mesmo.) Aquele homem que não tem lar, que vaga pelo mundo (em suas rondas de mendicância), que tem a base de uma árvore como seu abrigo, que pratica o voto de taciturnidade, nunca cozinha para si mesmo, e procura reprimir todas as funções de seus sentidos, é, ó Partha, um renunciante na observância do voto de mendicância. Aquele Brahmana que, desconsiderando ira e alegria, e especialmente a falsidade, sempre emprega seu tempo no estudo dos Vedas, é um renunciante na observância do voto de mendicância.
(Mas para um Kshatriya tal modo de vida seria pecaminoso). Os quatro diferentes modos de vida foram pesados na balança uma vez. Os sábios disseram, ó rei, que quando o modo de vida familiar foi colocado em um prato da balança, foi preciso que os três outros fossem colocados no outro para equilibrá-la. Vendo o resultado deste exame por pesagem, ó Partha, e vendo além disso, ó Bharata, que somente a vida familiar contém ambos o céu e o prazer, este se tornou o caminho dos grandes Rishis e o refúgio de todas as pessoas conhecedoras dos caminhos do mundo. Aquele, portanto, ó touro da raça Bharata, que segue para este modo de vida, pensando que este é seu dever e abandonando todo o desejo por resultados, é um verdadeiro renunciante, e não o homem de compreensão nublada que vai para as florestas, abandonando o lar e seus arredores. Uma pessoa, também, que sob o hipócrita traje de virtude fracassa em esquecer seus desejos (mesmo enquanto vivendo nas florestas), é atado pelo Rei lúgubre da morte com seus grilhões mortais ao redor do pescoço. É dito que aquelas ações que são feitas por vaidade não produzem frutos. Aqueles atos, por outro lado, ó monarca, que são feitos com um espírito de renúncia, sempre dão frutos abundantes. Tranquilidade, autocontrole, fortaleza, verdade, pureza, simplicidade, sacrifícios, perseverança, e retidão, estas são sempre consideradas como as virtudes recomendadas pelos Rishis. Na vida familiar, é dito, há ações planejadas para os Pitris, deuses, e convidados. Somente neste modo de vida, ó monarca, o alvo triplo (religião, prazer e lucro) é atingido.
O renunciante que adere rigidamente a este modo de vida, no qual uma pessoa está livre para fazer todas as ações, não tem que encontrar a ruína nem aqui nem no futuro. O impecável Senhor de todas as criaturas, de alma justa, criou as criaturas com a intenção de que elas o adorassem por meio de sacrifícios com presentes abundantes. Trepadeiras e árvores e ervas decíduas, e animais que são puros, e manteiga clarificada foram criados como ingredientes de sacrifício. Para alguém na observância da vida familiar o desempenho de sacrifícios é repleto de obstáculos. Por isto, aquele modo de vida é considerado extremamente difícil e inalcançável. As pessoas, portanto, na observância do modo de vida familiar que, possuidoras de riqueza e grãos e animais, não realizam sacrifícios, ganham, ó monarca, pecado eterno. Entre os Rishis, há alguns que consideram o estudo dos Vedas como um sacrifício, e alguns consideram que a contemplação é um grande sacrifício que eles realizam em suas mentes. Os próprios deuses, ó monarca, cobiçam a companhia de uma pessoa regenerada como esta, que por trilhar por tal caminho que consiste na concentração da mente se torna igual a Brahma. Por se recusar a gastar em sacrifício as diversas espécies de riqueza que tu tiraste dos teus inimigos, tu estás somente expondo tua falta de fé. Eu nunca vi, ó monarca, um rei na prática da vida familiar renunciando à sua riqueza de alguma outra maneira qualquer exceto no Rajasuya, no Astwamedha, e em outros tipos de sacrifícios.
Como Sakra, o chefe dos celestiais, ó senhor, realize aqueles outros sacrifícios que são elogiados pelos Brahmanas. É dito do rei por cuja negligência os súditos são arrastados por ladrões, e que não oferece proteção àqueles a quem ele deve governar, que ele é a própria encarnação de Kali. Se, sem dar corcéis, e vacas, e escravas mulheres, e elefantes enfeitados com arreios ricamente enfeitados, e aldeias, e regiões populosas, e campos, e casas, aos Brahmanas, nós nos retirarmos para as florestas com corações não nutrindo sentimentos afetuosos pelos parentes, nós seremos, ó monarca, tais Kalis da classe real. Aqueles membros da ordem real que não praticam a caridade e nem dão proteção (aos outros) incorrem em pecado. A dor é sua sina no futuro e não felicidade. Se, ó senhor, sem realizar grandes sacrifícios nem os ritos em honra dos teus antepassados falecidos, e sem te banhar em águas sagradas, tu seguires uma vida errante, tu então encontrarás a destruição como uma nuvem pequena separada de uma massa e diluída pelos ventos. Tu então cairás de ambos os mundos e terás que tomar nascimento na classe Pisacha. Uma pessoa se torna um verdadeiro renunciante por rejeitar todas as atrações internas e externas, e não simplesmente por abandonar o lar para residir nas florestas. Um Brahmana que vive na prática destas ordenanças nas quais não há impedimentos, não cai deste ou do outro mundo.
Cumpridor dos deveres de sua própria ordem, deveres respeitados pelos antigos e praticados pelos melhores dos homens, o que há, ó Partha, para se afligir, ó rei, por ter matado em um instante em batalha seus inimigos cheios de prosperidade, como Sakra matando as forças armadas dos Daityas? Tendo na observância dos deveres Kshatriya subjugado o mundo pela ajuda da tua destreza, e tendo feito presentes para pessoas conhecedoras dos Vedas, tu podes, ó monarca, ir para regiões mais altas do que o céu. Não cabe a ti, ó Partha, te entregar à aflição." 13 "Sahadeva disse, 'Por rejeitar somente os objetos externos, ó Bharata, alguém não alcança o sucesso. Até por rejeitar as atrações mentais a obtenção de sucesso é incerta. Que aquele mérito religioso e aquela felicidade que são daquele que rejeitou os objetos externos mas cuja mente ainda os cobiça internamente seja a porção de nossos inimigos! Por outro lado, que o mérito religioso e a felicidade que são daquele que governa a terra, tendo rejeitado todas as ligações internas também, seja a porção de nossos amigos. A palavra mama (meu), consistindo em duas letras (no sânscrito as vogais estão ocultas), é a própria Morte; enquanto a palavra oposta na-mama (não meu), consistindo em três letras, é o eterno Brahma. (Tudo o que vem do egoísmo produz a morte, enquanto que tudo o que vem de um estado de mente oposto a este conduz à Brahma ou imortalidade). Brahma e morte, ó rei, entrando invisivelmente em cada alma, sem dúvida, fazem todas as criaturas agirem.
Se este ser, ó Bharata, que é chamado de Alma, nunca está sujeito à destruição, então por destruir os corpos das criaturas uma pessoa não pode ser culpada de matar. Se, por outro lado, a alma e o corpo de um ser são nascidos e destruídos juntos, e quando o corpo é destruído a alma também é destruída, então o caminho (prescrito nas escrituras) de ritos e ações seria inútil. Portanto, afastando todas as dúvidas acerca da imortalidade da alma, o homem de inteligência deve adotar o caminho que foi trilhado pelos virtuosos dos tempos antigos e mais antigos. É certamente inútil a vida do rei que tendo adquirido a terra inteira com suas criaturas móveis e imóveis não desfruta dela. Em relação ao homem que vive na floresta de frutas e raízes selvagens, mas cuja atração pelas coisas da terra não cessou, tal homem, ó rei, vive dentro das mandíbulas da Morte. Veja, ó Bharata, os corações e as formas externas de todas as criaturas como as tuas próprias manifestações. Aqueles que cuidam de todas as criaturas como de si mesmas escapam do grande medo (da destruição). Tu és meu rei, tu és meu protetor, tu és meu irmão, e tu és meu superior e preceptor. Cabe a ti, portanto, perdoar estas declarações incoerentes em tristeza de uma pessoa tomada pela angústia.
Verdadeiro ou falso, isto que foi proferido, ó senhor da terra, foi proferido por um devido respeito por ti, ó melhor dos Bharatas, que eu tenho!”’ 14 Vaisampayana disse, "Quando o filho de Kunti, o rei Yudhishthira, o justo, permaneceu silencioso depois de escutar seus irmãos que estavam dizendo estas verdades dos Vedas, aquela principal das mulheres, Draupadi, de olhos grandes e grande beleza, e descendência nobre, ó monarca, disse estas palavras àquele touro entre reis sentado no meio de seus irmãos que pareciam muitos leões e tigres, e como o líder no meio de uma manada de elefantes. Sempre expectante de saudações carinhosas de todos os seus maridos mas especialmente de Yudhishthira, ela era sempre tratada com afeição e indulgência pelo rei. Conhecedora dos deveres e cumpridora deles na prática, aquela dama de quadris largos, olhando para seu marido, desejou sua atenção em palavras calmantes e gentis e falou o seguinte. Draupadi disse, ‘Estes teus irmãos, ó Partha, estão chorando e secando seus palatos como chatakas mas tu não os alegras. Ó monarca, alegre estes teus irmãos, que parecem elefantes enfurecidos (em bravura), com palavras apropriadas, estes heróis que sempre beberam do cálice da miséria. Por que, ó rei, enquanto vivendo ao lado do lago Dwaita, tu disseste a estes teus irmãos então residindo contigo, e sofrendo com o frio e o vento e o sol, estas palavras: ‘Avançando para a batalha pelo desejo de vitória, nós mataremos Duryodhana e desfrutaremos da terra que é capaz de conceder todos os desejos.
Privando grandes guerreiros em carros de seus carros e matando elefantes enormes, e cobrindo o campo de batalha com os corpos de guerreiros em carros e cavaleiros e heróis, ó castigadores de inimigos, nós realizaremos sacrifícios grandiosos de diversos tipos com presentes em profusão. Todos estes sofrimentos, devido a uma vida de exílio nas florestas, então terminarão em felicidade.’ Ó principal de todos os praticantes de virtude, tendo tu mesmo então dito estas palavras para teus irmãos, por que, ó herói, tu deprimes nossos corações agora? Um eunuco nunca pode desfrutar de riqueza. Um eunuco nunca pode ter filhos assim como não pode haver um peixe em um lodo (desprovido de água). Um Kshatriya sem a vara de castigo nunca pode brilhar. Um Kshatriya sem a vara de castigo nunca pode desfrutar da terra. Os súditos de um rei que não tem a vara de castigo nunca podem ter felicidade. Amizade por todas as criaturas, caridade, estudo dos Vedas, penitências, estes constituem os deveres de um Brahmana e não de um rei, ó melhor dos reis! Reprimir os maus, apreciar os honestos, e nunca se retirar da batalha, estes são os maiores deveres dos reis. É considerado como conhecedor dos deveres aquele em quem há perdão e ira, doação e tomada, medo e destemor, e castigo e recompensa. Não foi por estudo, ou doação, ou mendicância que tu adquiriste a terra.
Aquele exército do inimigo, ó herói, preparado para irromper sobre ti com todo o seu poder, abundando com elefantes e cavalos e carros, forte com três tipos de força (a força que depende do mestre, aquela que depende de bons conselhos, e a que depende da força e coragem dos próprios homens), protegido por Drona e Karna e Aswatthaman e Kripa, foi derrotado e morto por ti, ó herói! É por isso que eu te peço para desfrutar da terra. Antigamente, ó poderoso, tu, ó monarca, dominaste com poder (literalmente: subjugaste com a vara de castigo), a região chamada Jambu, ó tigre entre homens, cheia de regiões populosas. Tu também, ó soberano de homens, dominaste com poder aquela outra região chamada Kraunchadwipa situada no oeste do grande Meru e igual ao próprio Jambu dwipa. Tu subjugaste com poder, ó rei, aquela outra região chamada Sakadwipa no leste do grande Meru e igual ao próprio Krauncha dwipa. A região chamada Bhadraswa, no norte do grande Meru e igual a Sakadwipa foi também dominada por ti, ó tigre entre homens! Tu até penetraste no oceano e dominaste outras regiões, também, ó herói, e as próprias ilhas cercadas pelo oceano e contendo muitas províncias populosas. Tendo, ó Bharata, realizado tais façanhas incomensuráveis, e tendo obtido (através delas) as adorações dos Brahmanas, como é que tua alma não está satisfeita? Vendo estes teus irmãos diante de ti, ó Bharata, estes heróis cheios de poder e parecendo com touros ou elefantes enfurecidos (em bravura), porque tu não te diriges a eles em palavras aprazíveis? Todos vocês são como celestiais.
Todos vocês são capazes de resistir a inimigos. Todos vocês são competentes para chamuscar seus inimigos. Se somente um de vocês tivesse se tornado meu marido, minha felicidade mesmo assim teria sido muito grande. O que eu preciso dizer então, ó tigres entre homens, quando todos vocês cinco são meus maridos, (e olham por mim) como os cinco sentidos inspirando o corpo físico? As palavras de minha sogra que é possuidora de grande conhecimento e previdência não podem ser falsas. Dirigindo-se a mim ela disse, ‘Ó princesa de Panchala, Yudhishthira sempre manterá você em felicidade, ó dama excelente!’ Tendo matado muitos milhares de reis possuidores de destreza ativa, eu vejo, ó monarca, que por tua insensatez tu estás prestes a tornar aquele feito inútil. Aqueles cujo irmão mais velho se torna louco, o seguem todos na loucura. Pela tua loucura, ó rei, todos os Pandavas estão prestes a ficarem loucos. Se, ó monarca, estes teus irmãos estivessem em seus juízos, eles teriam então te prendido com todos os incrédulos (em uma prisão) e tomado sobre si mesmos o governo da terra. A pessoa que por estupidez de intelecto age desta maneira nunca consegue ganhar prosperidade. O homem que trilha o caminho da loucura deve ser submetido a um tratamento médico pela ajuda de incenso e colírio, de remédios aplicados pelo nariz, e de outros medicamentos. Ó melhor dos Bharatas, eu sou a pior de todas aquelas do meu sexo, já que eu desejo continuar a viver embora eu esteja privada de meus filhos.
Tu não deves desconsiderar as palavras faladas por mim e por estes teus irmãos que estão se esforçando dessa maneira (para te dissuadir do teu propósito). De fato, abandonando a terra inteira, tu estás convidando adversidade e perigo a virem sobre ti. Tu brilhas agora, ó monarca, assim como aqueles dois melhores dos reis, Mandhatri e Amvarisha, respeitados por todos os senhores da terra, nos tempos passados. Protegendo teus súditos justamente, governe a deusa Terra com suas montanhas e florestas e ilhas. Não fique desanimado, ó rei. Adore os deuses em diversos sacrifícios. Lute com teus inimigos. Faça doações de riqueza e roupas e outros objetos de prazer para os Brahmanas, ó melhor dos reis!'” 15 Vaisampayana disse, "Ouvindo estas palavras da filha de Yajnasena, Arjuna falou mais uma vez, mostrando respeito apropriado por seu irmão mais velho de braços poderosos e glória imorredoura.’” "Arjuna disse, 'O homem armado com a vara de castigo governa todos os seus súditos e os protege. O vara de castigo está desperta quando tudo mais está adormecido. Por isto, os sábios caracterizaram a vara de castigo como a própria Justiça. A vara de castigo protege Justiça e Lucro. Ela protege também, ó rei! Por isto, a vara de castigo é identificada com o objetivo triplo da vida. Grãos e riquezas são ambos protegidos pela vara de castigo. Sabendo disto, ó tu que és possuidor de erudição, tome a vara de castigo e observe o rumo do mundo. Uma classe de homens pecaminosos desiste de pecar por medo da vara de castigo nas mãos do rei.
Outra classe desiste de ações parecidas por medo da vara de Yama, e ainda outra por medo do mundo seguinte. Outra classe de pessoas desiste das ações pecaminosas por medo da sociedade. Assim, ó rei, neste mundo, cujo curso é tal, tudo é dependente da vara de castigo. Há uma classe de pessoas que são impedidas de devorarem umas às outras somente pela vara de castigo. Se a vara de castigo não protegesse as pessoas, elas afundariam na escuridão do inferno. A vara de castigo (danda) foi assim nomeada pelos sábios porque ela reprime os indisciplinados e pune os maus. A punição de Brahmanas deve ser pela palavra da boca, (censura); de Kshatriyas, por dar a eles somente o alimento que baste o sustento da vida (tirando todas as suas posses); de Vaisyas, pela imposição de multas e confisco de propriedades, enquanto que para Sudras praticamente não há punição, (pois eles não possuem riquezas e a prestação de serviços já é seu dever, apesar disso, trabalho duro pode ser imposto a ele). Para manter os homens alertas (aos seus deveres) e para a proteção da propriedade, ordenanças, ó rei, foram estabelecidas no mundo, sob o nome de castigo (ou legislação punitiva). Onde o castigo, de cor escura e olhos vermelhos, permanece em uma atitude de prontidão (para atacar todo transgressor) e o rei tem uma visão correta, os súditos nunca esquecem eles mesmos. O Brahmacharin e o chefe de família, o recluso na floresta e o mendicante religioso, todos estes seguem seus respectivos caminhos somente pelo medo do castigo. Aquele que não tem nenhum medo, ó rei, nunca realiza um sacrifício.
Aquele que não tem medo nunca faz doações. O homem que não tem qualquer medo nunca deseja aderir a qualquer compromisso ou pacto. Sem perfurar os órgãos vitais de outros, sem realizar os feitos mais difíceis e sem matar criaturas como um pescador (matando peixes), nenhuma pessoa pode obter grande prosperidade. (Um pescador que não matasse peixes não teria alimento.) Sem matar, nenhum homem foi capaz de alcançar fama neste mundo ou adquirir riqueza ou súditos. O próprio Indra, por matar Vritra, se tornou o grande Indra. Aqueles entre os deuses que são dados a massacrar outros são muito mais adorados pelos homens. Rudra, Skanda, Sakra, Agni, Varuna, são todos matadores. Kala e Mrityu e Vayu e Kuvera e Surya, os Vasus, os Maruts, os Sadhyas, e os Viswadevas, ó Bharata, são todos matadores. Humilhadas por sua destreza, todas as pessoas se curvam àqueles deuses, mas não a Brahman ou Dhatri ou Pushan em qualquer tempo. Somente poucos homens que são de disposição nobre adoram em todas as suas ações aqueles entre os deuses que são dispostos igualmente para com todas as criaturas e são autocontrolados e pacíficos. Eu não vejo a criatura neste mundo que sustente a vida sem fazer qualquer ato de injúria para outros. Animais vivem de animais, os mais fortes dos mais fracos. O mangusto devora ratos; o gato devora o mangusto; o cachorro devora o gato; o cachorro é devorado pelo leopardo pintado. E todas as coisas são também devoradas pelo Destruidor quando ele chega! Este universo móvel e imóvel é alimento para as criaturas vivas. Isto foi ordenado pelos deuses.
O homem de conhecimento, portanto, nunca fica perplexo por isto. Cabe a ti, ó grande rei, te tornar aquilo que tu és por nascimento. Somente (Kshatriyas) tolos, reprimindo ira e alegria, se refugiam nas florestas. Os próprios ascetas não podem manter suas vidas sem matar criaturas. Na água, sobre a terra, e nas frutas, há inúmeras criaturas. Não é verdade que uma pessoa não as mata. Qual dever maior há do que manter a vida? (Se em manter a vida uma pessoa mata essas criaturas, ela de nenhuma maneira comete pecado.) Há muitas criaturas que são tão minúsculas que sua existência somente pode ser inferida. Com a queda das pálpebras somente, elas são destruídas. Há homens que, subjugando ira e orgulho se dirigem para rumos ascéticos de vida e deixando aldeias e cidades vão para as florestas. Chegados lá, aqueles homens podem ser vistos tão perplexos a ponto de adotarem o modo de vida familiar mais uma vez. Outros podem ser vistos, que (no cumprimento da vida familiar) cultivando a terra, arrancando ervas, cortando árvores e matando aves e animais, realizam sacrifícios e finalmente alcançam o céu. Ó filho de Kunti, eu não tenho dúvida de que as ações de todas as criaturas se tornam coroadas com sucesso somente quando a política do castigo é devidamente aplicada. Se o castigo fosse abolido do mundo, as criaturas logo seriam destruídas. Como peixes na água, animais mais fortes matam os mais fracos para servirem de alimento. Esta verdade foi antigamente falada pelo próprio Brahmana, isto é, que a punição devidamente aplicada mantém criaturas.
Veja, os próprios fogos, quando extinguidos, resplandecem novamente, em terror, quando soprados. Isto é devido ao medo da força ou castigo. Se não houvesse castigo no mundo distinguindo o bom do mau, então o mundo inteiro estaria envolvido em completa maldade e todas as coisas estariam confusas. Mesmo aqueles que são quebradores de regras, que são ateus e zombadores dos Vedas, afligidos pelo castigo, logo se tornam dispostos a cumprir as regras e restrições. Todos neste mundo são mantidos corretos pelo castigo. Uma pessoa naturalmente pura e justa é rara. Cedendo ao medo da punição, o homem se torna disposto a cumprir regras e restrições. O castigo foi ordenado pelo próprio Criador para proteger religião e lucro, para a felicidade de todas as quatro classes, e para fazê-las corretas e modestas. Se o castigo não pudesse inspirar medo, então corvos e animais predadores comeriam todos os outros animais e homens e a manteiga clarificada destinada para sacrifício. Se o castigo não sustentasse e protegesse, então ninguém estudaria os Vedas, ninguém ordenharia uma vaca leiteira, e nenhuma donzela se casaria (a vaca leiteira se permite ser ordenhada somente pelo medo do castigo, e donzelas também se casam, sem praticarem o amor livre, por medo do castigo pelo rei, sociedade, ou Yama no mundo seguinte). Se o castigo não sustentasse e protegesse, então devastação e confusão teriam se manifestado por todos os lados, e todas as barreiras teriam sido varridas, e a idéia de propriedade teria desaparecido.
Se o castigo não sustentasse e protegesse, o povo nunca realizaria devidamente sacrifícios anuais com grandes presentes. Se o castigo não sustentasse e protegesse, ninguém, qualquer que fosse o modo de vida ao qual pertencesse, cumpriria os deveres daquele modo como declarados (nas escrituras), e ninguém conseguia adquirir conhecimento. (Se isso não corresponde à grosseria da doutrina 'poupe a vara e arruíne a criança', pelo menos é evidente que o medo de ser considerado um burro e um tolo e incorrer no ridículo ou desagrado do tutor e condiscípulos induz uma pessoa a adquirir conhecimento.) Nem camelos, nem bois, nem cavalos, nem mulas, nem jumentos iriam, mesmo se atrelados, arrastar carros e carruagens, se o castigo não sustentasse e protegesse. Do castigo dependem todas as criaturas. Os eruditos, portanto, dizem que o castigo é a base de tudo. Do castigo depende o céu que os homens desejam, e dele depende este mundo também. Onde o castigo destruidor de inimigo é bem aplicado, nenhum pecado, nenhuma fraude, e nenhuma maldade é vista. Se a vara de castigo não fosse erguida, o cachorro lamberia a manteiga sacrifical. O corvo também levaria a primeira oferenda (sacrifical), se a vara não fosse mantida erguida. Justamente ou injustamente este reino agora se tornou nosso. Nosso dever agora é abandonar a aflição. Portanto, desfrute deste (reino) e realize sacrifícios. Homens que são afortunados, vivendo com suas queridas esposas (e filhos), comem boa comida, usam roupas excelentes, e adquirem virtude alegremente.
Todas as nossas ações, sem dúvida, dependem da riqueza; e aquela riqueza também é dependente do castigo. Veja, portanto, a importância do castigo. Os deveres foram declarados somente para a manutenção das relações do mundo. Há duas coisas aqui, isto é, abstenção de ferir e ferir incitado por motivos justos. Destes dois, é superior aquele pelo qual a virtude possa ser adquirida. (É melhor matar o tigre que invadiu o pasto do que permanecer quieto por medo de ferir aquele animal predador e cometer pecado. Pois naquela morte há mérito, porque se não fosse morto o animal mataria as vacas diante dos olhos do espectador e o último incorreria em pecado por testemunhar a visão passivamente. Para ser mais geral, Arjuna diz que é melhor ferir por motivos corretos do que não ferir por medo do pecado.) Não há ato que seja totalmente meritório, nem algum que seja totalmente mau. Certos ou errados, em todos os atos alguma coisa de ambos é vista. Submetendo animais à castração, seus chifres também são cortados. Eles são então obrigados a suportar pesos, são amarrados e castigados. Neste mundo que é insubstancial e decaído com abusos e tornado doloroso, ó monarca, pratique os antigos costumes dos homens, seguindo as regras e analogias citadas acima. Realize sacrifícios, dê esmolas, proteja teus súditos, e pratique a justiça. Mate teus inimigos, ó filho de Kunti, e proteja teus amigos. Que o desânimo não seja teu, ó rei, enquanto matando inimigos. Aquele que faz isso, ó Bharata, não incorre no menor pecado.
Aquele que pega uma arma e mata um inimigo armado avançando contra ele não incorre no pecado de matar um feto, pois é a ira do inimigo atacante que provoca a ira do matador. A alma interna de toda criatura não pode ser morta. Quando a alma não pode ser morta, como então alguém pode ser morto por outro? Como uma pessoa entra em uma casa nova, assim mesmo uma criatura entra em corpos sucessivos. Abandonando formas que estão desgastadas, uma criatura adquire novas formas. As pessoas capazes de ver a verdade consideram essa transformação como a morte.’” 16 Vaisampayana disse, "Depois da conclusão do discurso de Arjuna, Bhimasena de grande ira e energia, reunindo toda a sua paciência, disse estas palavras para seu irmão mais velho, 'Tu és, ó monarca, conhecedor de todos os deveres. Não há nada desconhecido para ti. Nós sempre desejamos imitar tua conduta, mas, ai, nós não podemos fazer isso! ‘Eu não direi nada! Eu não direi nada!’ Isso mesmo era o que eu desejava! Impelido, no entanto, por grande aflição eu sou obrigado a dizer alguma coisa. Escute estas minhas palavras, ó soberano de homens! Pela estupefação das tuas faculdades tudo está posto em perigo, e nós mesmos estamos ficando desanimados e fracos. Como é que tu que és o soberano do mundo, que és familiarizado com todos os ramos de conhecimento, permites que tua compreensão seja nublada pela tristeza, como um covarde? Os caminhos justos e injustos do mundo são conhecidos por ti. Não há nada pertencente ao futuro ou ao presente que seja também desconhecido para ti, ó poderoso!
Quando tal é o caso, ó monarca, eu indicarei, ó soberano de homens, as razões a favor de nós assumirmos a soberania. Ouça-me com total atenção. Há dois tipos de doenças, físicas e mentais. Uma surge da outra. Nenhuma delas pode ser vista existindo independentemente. Sem dúvida, doenças mentais surgem das físicas. Da mesma maneira doenças físicas provêm das mentais. Esta é a verdade. Aquele que se entrega a desgostos por causa de sofrimentos passados físicos ou mentais colhe dor da dor e sofre dor em dobro. Frio, calor, e vento, estes três são os atributos do corpo (de outra maneira chamados muco, bile, e gases). Sua existência em harmonia é sinal de saúde. Se um dos três prevalece sobre o resto, remédios são prescritos. O frio é controlado pelo calor, e o calor é controlado pelo frio. Bondade, paixão, e ignorância são os três atributos da mente. A existência destes três em harmonia é sinal de saúde (mental). Se um destes prevalece sobre o resto, remédios são prescritos. Aflição é controlada pela alegria, e alegria é controlada pela aflição. Uma pessoa, vivendo no atual desfrute de felicidade, deseja se lembrar de suas dores passadas. Outra, vivendo no presente sofrendo aflição, deseja se lembrar de sua felicidade passada. Tu, no entanto, nunca foste triste na dor ou contente na felicidade. (Isto é, tu foste sempre superior à alegria e aflição e nunca te permitiste ser jubiloso com alegria ou abatido pela tristeza). Tu não deves, portanto, usar tua memória para ficar triste durante tempos de felicidade, ou contente durante tempos de tristeza.
Parece que o Destino é todo poderoso. Ou, se esta for tua natureza, pela qual tu estás assim aflito, como é que tu não te lembras da visão que tiveste antes, de Krishna precariamente vestida sendo arrastada, em seu período, perante a assembleia? (Se é da tua natureza relembrar as angústias em tempos alegres, porque tu não te lembras do insulto à tua esposa? Esta lembrança te encherá de raiva e te convencerá de que ao matar teus inimigos, que a insultaram, tu agiste muito apropriadamente). Por que tu não te lembras da nossa expulsão da cidade (Kuru) e do nosso exílio (nas florestas), vestidos em camurças, como também da nossa vida nas grandes florestas? Por que tu te esqueceste das aflições infligidas por Jatasura, da batalha com Chitrasena, e da angústia sofrida nas mãos do rei Sindhu? Por que tu te esqueceste do chute recebido pela princesa Draupadi de Kichaka enquanto nós estávamos vivendo em segredo? Um batalha violenta, ó destruidor de inimigos, como aquela que tu lutaste com Bhishma e Drona está agora diante de ti, para ser lutada (no entanto) somente com tua mente. De fato, está agora à tua frente aquela batalha na qual não há necessidade de setas, de amigos, de parentes e partidários, mas a qual terá que ser lutada só com tua mente. Se tu abandonares teu ar vital antes de vencer nesta batalha, então, assumindo outro corpo, tu terás que lutar com estes mesmos inimigos novamente.
(Por teu abandono de prosperidade e reino e, portanto, dos meios de efetuar tua salvação por meio de sacrifícios e doações e outros atos de piedade, tu terás que renascer e recomeçar esta batalha mental com tuas dúvidas.) Portanto, lute esta batalha hoje mesmo, ó touro da raça Bharata, desconsiderando o que diz respeito ao teu corpo, e ajudado pelas tuas próprias ações, conquiste e te identifique com o inimigo da tua mente. (Yudhishthira deve se identificar com sua própria alma, pois é a alma que é seu inimigo e com a qual ele está lutando. Tal conquista e identificação implica na cessação da batalha e, daí, na obtenção de tranquilidade.) Se tu não podes vencer esta batalha, qual será tua condição? Por outro lado, ao vencê-la, ó monarca, tu terás alcançado o grande objetivo da vida. Aplicando teu intelecto a isto, e averiguando os caminhos corretos e errados das criaturas, siga o rumo adotado pelo teu pai antes de ti e governe teu reino apropriadamente. Por boa sorte, ó rei, o pecaminoso Duryodhana foi morto com todos os seus seguidores. Por boa sorte, tu também obtiveste a condição das madeixas de Draupadi. (Tu as restauraste à condição normal, pois ela tinha mantido os cabelos desgrenhados desde que eles haviam sido agarrados por Duhsasana. Depois da morte dos Kurus, aqueles cabelos foram amarrados para cima como antes, ou restaurados à sua condição normal.) Realize com os ritos devidos e presentes abundantes o Sacrifício de Cavalo.
Nós somos teus servos, ó filho de Pritha, como também Vasudeva de grande energia!'" 17 "Yudhishthira disse, 'Descontentamento, atração descuidada por bens mundanos, ausência de tranquilidade, poder, insensatez, vaidade, e ansiedade, afetado por estes pecados, ó Bhima, tu cobiças soberania. Livre do desejo, prevalecendo sobre alegria e tristeza e obtendo tranquilidade, te esforce para ser feliz. Aquele monarca sem igual que governará esta terra ilimitada terá somente um estômago. Por que então tu louvas este modo de vida? Os desejos de uma pessoa, ó touro da raça Bharata, não podem ser saciados em um dia, ou em muitos meses. O desejo, o qual é incapaz de ser satisfeito, não pode, de fato, ser saciado no curso de toda uma vida. O fogo, quando alimentado com combustível, se inflama; quando não assim alimentado, ele é extinto. Portanto, extinga com pouca comida o fogo no teu estômago quando ele aparece. Aquele que é privado de sabedoria procura muita comida para seu estômago. Conquiste teu estômago primeiro. (Tu então serás capaz de conquistar a Terra). A terra estando conquistada, aquilo que é para o teu bem permanente então será obtido por ti. Tu louvas desejos e prazeres e prosperidade. Aqueles, no entanto, que renunciaram a todos os prazeres e reduziram seus corpos por meio de penitências alcançam regiões de beatitude. A aquisição e conservação do reino estão ligadas à justiça e injustiça. O desejo por elas existe em ti. Liberte-se, no entanto, das tuas grandes cargas, e adote a renúncia. O tigre, para encher seu estômago, mata muitos animais.
Outros animais desprovidos de força e movidos pela cobiça vivem das presas do tigre. (O tigre de Bengala age como um pescador para animais e homens. Quando um tigre sai em uma expedição de pesca, o que ele usualmente faz é apanhar peixes grandes de rios rasos e jogá-los em direção à terra para longe da beira d'água. O pobre animal é muito frequentemente seguido, sem perceber, por animais carnívoros menores, e às vezes por bandos de pescadores. Eu tenho visto grandes peixes com as marcas das garras do tigre sobre eles expostos para venda em um mercado de aldeia.) Se reis, aceitando posses mundanas, praticarem a renúncia, eles nunca poderão ter contentamento. Veja a perda de discernimento que é visível neles. Na realidade, no entanto, aqueles que vivem de folhas de árvores, ou usam somente duas pedras ou seus dentes para descascar seus grãos, ou vivem só da água ou do ar, conseguem conquistar o inferno. (A menos que reis realizem tais penitências eles não podem escapar do inferno. Tais penitências, no entanto, são impossíveis para eles enquanto eles estiverem no meio de luxos. Aceitar riqueza e não usá-la, portanto, é impraticável.) O rei que governa esta terra ilimitada, e a pessoa que considera ouro e seixos igualmente, entre estes dois, o último é citado como o que alcançou o objetivo de sua vida e não o primeiro. Dependendo, portanto, daquilo que é o eterno refúgio de alegria neste mundo e após a morte, pare de agir e de ter expectativas com relação aos teus desejos e cesse de ter atração por eles. Quem desistiu do desejo e prazer nunca tem que sofrer.
Tu, no entanto, te afliges por prazeres. (Isto é, tu não estás livre do desejo). Rejeitando desejo e prazer, tu podes conseguir te libertar do falso discurso. (O falso discurso, neste caso, consiste em se declarar como realmente desapegado enquanto desfrutando de riqueza e poder, isto é, a declaração hipócrita de renúncia no meio de luxos. Como já dito por Yudhishthira, tal renúncia é impraticável.) Há dois caminhos bem conhecidos (por nós), o caminho dos Pitris e o caminho dos deuses. Aqueles que realizam sacrifícios vão pelo caminho dos Pitris, enquanto os que são pela salvação vão pelo caminho dos deuses. (O caminho dos Pitris significa o curso de ritos Védicos pelos quais uma pessoa obtém felicidade futuramente. O caminho dos deuses significa o abandono dos ritos religiosos por contemplação e conduta piedosa). Por penitências, por Brahmacharya, por estudo (dos Vedas), os grandes Rishis, abandonando seus corpos, procedem para regiões que estão acima do poder da Morte. Os prazeres mundanos têm sido intitulados como vínculos. Eles também são chamados de Ação. Livre daqueles dois pecados (vínculos e ação), uma pessoa alcança o fim mais sublime. É mencionado um verso cantado (nos tempos antigos) por Janaka que era livre dos pares de opostos, livre de desejo e prazeres, e praticante da religião de Moksha. O verso é assim: 'Meus tesouros são imensos, contudo eu não tenho nada!
Além disso se Mithila inteiro fosse queimado e reduzido a cinzas, nada meu seria queimado!' Como uma pessoa no topo de uma colina olha para baixo sobre os homens na planície, assim aquele que subiu no topo da mansão do conhecimento vê as pessoas se afligindo por coisas que não requerem aflição. Quem, no entanto, tem uma inteligência superficial, não vê isto. Aquele que, olhando para as coisas visíveis, realmente as vê, é citado como tendo visão e compreensão. A faculdade chamada de compreensão é assim chamada por causa do conhecimento e compreensão que ela dá de coisas desconhecidas e incompreensíveis. Aquele que conhece as palavras de pessoas que são eruditas, que são de almas purificadas, e que alcançaram a um estado de Brahma, conseguem obter honras grandiosas. Quando uma pessoa vê que criaturas de infinita diversidade são todas uma e a mesma, e que são somente emanações diversificadas da mesma essência, então ela é considerada como tendo alcançado Brahma. (O fato é, a unificação da variedade infinita e sua identificação com a Alma Suprema é obtenção de Brahma. Uma pessoa, portanto, que alcançou Brahma cessa de se considerar como separada do resto do universo. O Egoísmo, a fonte do pecado e injúria, desaparece dela.) Aqueles que alcançam este estado elevado de cultura alcançam aquele objetivo supremo e bem-aventurado, e não aqueles que não têm conhecimento, ou aqueles que têm almas pequenas e estreitas, ou que são desprovidos de discernimento, ou que não fazem penitências.
De fato, tudo depende da compreensão (desenvolvida)!'” 18 Vaisampayana disse, "Quando Yudhishthira, depois de dizer estas palavras, ficou silencioso, Arjuna, afligido por aquele discurso do rei, e queimando de tristeza e aflição, se dirigiu novamente a seu irmão mais velho, dizendo, 'O povo conta esta história antiga, ó Bharata, acerca da conversa entre o soberano dos Videhas e sua rainha. Aquela história se refere às palavras que a cônjuge aflitíssima do soberano dos Videhas disse para seu marido quando o último, abandonando seu reino, tinha resolvido levar uma vida de mendicância. Rejeitando riqueza e filhos e esposas e posses preciosas de várias espécies e o caminho consagrado para adquirir mérito religioso e o próprio fogo (isto é, sacrifício), o rei Janaka raspou sua cabeça (e assumiu o traje de um mendicante). Sua querida cônjuge o viu privado de riqueza, instalado na observância do voto de mendicância, resolvido a se abster de infligir qualquer tipo de dano a outros, livre de todos os tipos de vaidade, e disposto a subsistir de um punhado de cevada caído do caule e obtido por apanhar os grãos de fendas no campo. Aproximando- se de seu marido em uma hora quando ninguém estava com ele, a rainha, dotada de grande força mental, sem medo e em cólera, disse a ele estas palavras repletas de razão: 'Por que tu adotaste uma vida de mendicância, abandonando teu reino cheio de riqueza e grãos? Um punhado de cevada caída não pode ser apropriado para ti. Tua resolução não corresponde aos teus atos, já que abandonando teu grande reino tu cobiças, ó rei, um punhado de grãos!
Com este punhado de cevada, ó rei, tu conseguirás satisfazer teus convidados, deuses, Rishis e Pitris? Este teu trabalho, portanto, é inútil. Ai, abandonado por todos estes: deuses, convidados e Pitris, tu levas uma vida de mendicância errante, ó rei, tendo rejeitado toda a ação. Tu eras, antes disto, o sustentador de milhares de Brahmanas versados nos três Vedas e de muito mais além desses. Como tu podes desejar mendigar deles tua própria comida hoje? Abandonando tua prosperidade resplandecente, tu olhas em volta como um cachorro (em busca de seu alimento). Tua mãe foi hoje feita sem filhos por ti, e tua esposa, a princesa de Kosala, uma viúva. Estes Kshatriyas desamparados, expectantes de resultados e méritos religiosos, te servem, colocando todas as suas esperanças em ti. Por matar aquelas esperanças deles, para quais regiões tu irás, ó rei, especialmente quando a salvação é duvidosa e as criaturas dependem das ações? Pecaminoso como tu és, tu não tens nem este mundo nem o outro, já que tu desejas viver, tendo rejeitado tua esposa. ( Uma esposa é a companheira dos atos religiosos de um homem.) Por que, de fato, tu levas uma vida de mendicância errante, te abstendo de todas as ações, depois de ter abandonado guirlandas e perfumes e ornamentos e mantos de diversos tipos? Tendo sido, como tu eras, um grande e sagrado lago para todas as criaturas, tendo sido uma árvore imensa digna de adoração e concedendo seu abrigo a todos, ai, como tu podes servir e adorar outros?
Se até um elefante que desiste de todo o trabalho é comido inteiro por criaturas carnívoras vindo em bandos e inúmeros vermes, o que dizer de ti então que és tão fraco? (Tu não deves, portanto, abandonar a ação.) Como pode o teu coração se fixar neste modo de vida que recomenda uma panela de barro, e um bastão de três cabeças, e que força uma pessoa a abandonar suas próprias roupas e que permite a aceitação de somente um punhado de cevada depois do abandono de tudo? Se, além disso, tu dizes que o reino e um punhado de cevada são o mesmo para ti, então por que tu abandonaste o primeiro? Se, também, um punhado de cevada se torna um objeto de atração para ti, então tua decisão original (de abandonar tudo) cai por terra. Se tu ages de acordo com tua resolução de abandonar tudo, então quem sou eu para ti, quem és tu para mim, e qual pode ser tua graça para mim? (Se uma pessoa pode realmente agir de acordo com sua decisão de renúncia completa a tudo, então aquela pessoa permanece sozinha no meio do mundo, e ele é de ninguém, e ninguém é dele. Daí, ele não pode ficar satisfeito nem insatisfeito com alguém. O abandono do rei Janaka, portanto, de esposa e reino, é inconsistente com aquela renúncia perfeita ou retraimento do eu dentro do eu. Ele pode continuar a desfrutar de suas posses sem ser apegado ou afetado em absoluto por elas.) Se tu estás inclinado à graça, então governe esta Terra! Aqueles que são desejosos de felicidade mas são muito pobres e indigentes e abandonados por amigos podem adotar a renúncia.
Mas aquele que imita aqueles homens por abandonar mansões suntuosas e camas e veículos e mantos e ornamentos age impropriamente, de fato. Uma pessoa sempre aceita doações feitas por outras; outras sempre fazem doações. Tu conheces a diferença entre as duas. Quem, de fato, dessas duas deve ser considerada a superior? Se uma doação é feita para alguém que sempre aceita doações, ou para alguém que possua orgulho, aquela doação se torna inútil como a manteiga clarificada que é despejada sobre um incêndio florestal. (Tais libações, para serem eficazes, devem ser despejadas sobre fogos acesos apropriadamente com mantras). Como um fogo, ó rei, nunca morre até que tenha consumido tudo o que é jogado nele, assim mesmo um mendigo nunca pode ser silenciado até que receba um donativo. Neste mundo, o alimento que é dado por uma pessoa caridosa de fato sustenta os pios. Se, portanto, o rei não dá (alimento) aonde irão os pios que desejam a salvação? (Portanto, Janaka deve retomar seu reino e praticar caridade, do contrário, mendicantes religiosos seriam negligenciados.) Aqueles que têm alimento em suas casas são chefes de famílias. Os mendicantes são sustentados por eles. A vida flui do alimento. Portanto, o doador de alimento é doador de vida. Saindo dentre aqueles que levam um modo de vida familiar, os mendicantes dependem daquelas mesmas pessoas das quais eles vem. Aqueles homens autocontrolados, por fazerem isto, adquirem e desfrutam de fama e poder.
Alguém não é chamado de mendicante somente por ter renunciado às suas posses, ou por ter somente adotado uma vida de dependência de caridade. Aquele que renuncia às posses e prazeres do mundo em um estado de espírito sincero é para ser considerado um verdadeiro mendicante. (Tal homem pode até governar um reino sem perder sua posição de ser considerado um mendicante, pois ele pode governar sem apego.) Não apegado de coração, embora vinculado na aparência externa, permanecendo indiferente ao mundo, tendo rompido todos os seus laços, e considerando amigos e inimigos igualmente, tal homem, ó rei, é considerado emancipado! Tendo raspado suas cabeças e adotado as vestes marrons, homens podem ser vistos se dirigirem para uma vida de mendicância errante, embora atados por vários vínculos e sempre à procura de riqueza inútil. Aqueles que, rejeitando os três Vedas, suas ocupações usuais e filhos, adotam uma vida de mendicância por tomarem a muleta de três cabeças e a veste marrom, são realmente pessoas de pouca inteligência. Sem ter se livrado da raiva e outros defeitos, somente a adoção da veste marrom, saiba, ó rei, é devida ao desejo de ganhar os meios de sustento. Aquelas pessoas de cabeças raspadas que levantaram a bandeira da virtude, têm isto somente (a aquisição do sustento) como seu objetivo na vida. Portanto, ó rei, mantendo tuas paixões sob controle, ganhe regiões de bem- aventurança futuramente por manter aqueles que são realmente pios entre os homens de cabelos emaranhados ou cabeças raspadas, nus ou vestidos em trapos, peles ou vestes marrons.
Quem é mais virtuoso do que aquele que mantém seu fogo sagrado, que realiza sacrifícios com presentes de animais e Dakshina, e que pratica caridade dia e noite?'” "Arjuna continuou, 'O rei Janaka é considerado como uma pessoa conhecedora da verdade neste mundo. Até ele, nesta questão (da determinação do dever) se tornou estupefato. Não ceda à estupefação! Os deveres da vida familiar são cumpridos pelas pessoas praticando caridade. Pela abstenção de ofensas de todos os tipos, pelo abandono do desejo e da raiva, pela dedicação a proteger todas as criaturas, pelo cumprimento do excelente dever da caridade, e por fim pela apreciação dos superiores e pessoas de idade, nós conseguiremos alcançar tais regiões de bem-aventurança como nós queremos. Por gratificar devidamente os deuses, convidados, e todas as criaturas, por adorar os Brahmanas, e pela veracidade de palavras, nós certamente alcançaremos regiões desejáveis de beatitude.'" "Yudhishthira disse, 'Eu estou familiarizado com os Vedas e as escrituras que levam ao alcance de Brahma. Nos Vedas há preceitos de ambos os tipos, isto é, os que inculcam a ação e os que inculcam a renúncia à ação. As escrituras confundem e suas conclusões são baseadas sobre fundamentos. A verdade, no entanto, que está nos Mantras, é devidamente conhecida por mim. Tu estás familiarizado somente com armas e és cumpridor das práticas de heróis. Tu és incapaz de compreender realmente o sentido das escrituras.
Se tu fosses realmente conhecedor do dever, então tu poderias ter entendido que palavras tais como estas não deveriam ter sido endereçadas a mim mesmo por alguém possuidor de mais claro discernimento do significado das escrituras e conhecedor das verdades de religião. Aquilo, no entanto, que tu me disseste, induzido por afeto fraterno, foi adequado e apropriado, ó filho de Kunti! Eu estou, por isso, satisfeito contigo, ó Arjuna! Não há ninguém igual a ti nos três mundos em todos os deveres ligados à batalha e em habilidade com relação a diversos tipos de ações. Tu podes, portanto, falar das sutilezas ligadas com aqueles assuntos, sutilezas que são impenetráveis por outros. Não cabe a ti, no entanto, ó Dhananjaya, duvidar da minha inteligência. Tu és conhecedor da ciência de combate, mas tu nunca visitaste os idosos. Tu não conheces as conclusões chegadas por aqueles que têm estudado o assunto em resumo e detalhes. Esta é a conclusão de homens inteligentes cuja compreensão está inclinada a alcançar a salvação: que entre penitências ascéticas, renúncia, e conhecimento de Brahma, o segundo é superior ao primeiro, e o terceiro é superior ao segundo. Isto, no entanto, que tu pensas, isto é, que não há nada superior à riqueza, é um erro. Eu te convencerei disto, para que a riqueza não possa aparecer outra vez para ti neste aspecto. Todos os homens que são virtuosos são vistos serem dedicados a penitências ascéticas e ao estudo dos Vedas. Os Rishis também, que têm muitas regiões eternas para eles, têm o mérito de penitências.
Outros, possuidores de tranquilidade de alma, não tendo inimigos, e residindo nas florestas, têm, através de penitências e estudo dos Vedas, ido para o céu. Homens virtuosos, por reprimirem o desejo por posses mundanas, e rejeitando aquela ignorância que nasce da insensatez, procedem para o norte (isto é, por caminhos luminosos) para as regiões reservadas para os praticantes de renúncia. O caminho que se encontra ao sul e que leva para regiões de luz (isto é, regiões lunares), está reservado para homens dedicados à ação. Estes são alcançados por pessoas sujeitas a nascimento e morte. O fim, no entanto, que pessoas desejosas de salvação têm diante de seus olhos é indescritível. Yoga é a melhor maneira para alcançá-lo. Não é fácil explicar isso (para ti). Aqueles que são eruditos vivem, refletindo sobre as escrituras pelo desejo de descobrir o que é irreal. Eles são, no entanto, muitas vezes levados a isto e àquilo na crença de que o objetivo de sua busca existe nisto e naquilo. Tendo dominado, no entanto, os Vedas, os Aranyakas, e as outras escrituras, eles perdem o real, como homens falhando em encontrar madeira sólida em um pé de banana arrancado. Há alguns que, não acreditando em sua unidade, consideram a Alma, que habita neste corpo físico que consiste nos cinco elementos, como possuidora dos atributos de desejo e aversão (e outros).
(Isto se refere à bem conhecida definição da alma ou mente na filosofia Nyaya, a qual diz que ela é distinguida pelos atributos de desejo, aversão, vontade, prazer e dor, e as faculdades cognitivas.) Incapaz de ser vista pelo olho, extremamente sutil, e inexprimível por palavras, ela gira em uma ronda (de renascimentos) entre as criaturas da terra, mantendo diante dela aquilo que é a raiz da ação. (A alma, embora realmente desprovida de atributos, todavia gira em uma ronda entre as criaturas, isto é, entra em outros corpos após a dissolução daqueles previamente ocupados. A razão desta ronda ou jornada contínua é Avidya ou ilusão, aquela ausência de verdadeiro conhecimento pela qual os homens se engajam em ação. Quando a alma está livre deste Avidya, a ação cessa, e a alma se revela em sua verdadeira natureza, a qual consiste na ausência de todos os atributos.) Tendo feito a Alma avançar em direção a si mesma, que é a fonte de todo o tipo de bem-aventurança, tendo refreado todos os desejos da mente, e tendo abandonado todas as espécies de ação, uma pessoa pode se tornar perfeitamente independente e feliz. Quando há tal caminho que é trilhado pelos virtuosos e que é alcançável pelo Conhecimento, por que, ó Arjuna, tu louvas a riqueza que é cheia de todos os tipos de calamidade? Homens dos tempos antigos que eram familiarizados com as escrituras, ó Bharata, homens que estavam sempre empenhados em doações e sacrifícios e ações eram desta opinião. Ó Bharata!
Há alguns tolos que, talentosos na ciência da argumentação, negam a existência da Alma, por consequência da força de suas convicções de uma vida anterior. É muito difícil fazê-los aceitar esta verdade acerca da emancipação final. Aqueles homens pecaminosos, embora possuidores de grande erudição, viajam por toda a terra, fazendo discursos em assembléias, e desaprovando a doutrina verdadeira acerca da emancipação. Ó Partha, quem mais conseguirá compreender o que nós não entendemos? De fato, (como aqueles homens não podem entender o verdadeiro sentido das escrituras), similarmente eles não podem reconhecer aquelas pessoas sábias e virtuosas que são realmente grandiosas e têm um profundo conhecimento das escrituras. Ó filho de Kunti, homens conhecedores da verdade alcançam Brahma por meio de ascetismo e inteligência, e grande felicidade pela renúncia.'” 20 Vaisampayana disse, "Depois que Yudhishthira tinha parado, o grande asceta Devasthana, possuidor de eloquência, disse estas palavras, repletas de razão, ao rei." "Devasthana disse, 'Phalguna te disse que não há nada superior à riqueza. Eu te falarei sobre este assunto. Ouça-me com toda a atenção, ó Ajatasatru, tu que ganhaste a terra justamente. Tendo-a ganhado, não cabe a ti, ó rei, abandoná-la sem motivo. Quatro modos de vida são indicados nos Vedas. Passe por eles, ó rei, devidamente, um depois do outro. No momento tu deves, portanto, realizar grandes sacrifícios com presentes abundantes.
Entre os próprios Rishis, alguns são dedicados ao sacrifício representado pelo estudo Védico, e alguns àquele apresentado pelo conhecimento. Portanto, ó Bharata, tu deves saber que os próprios ascetas também são devotados à ação. Os Vaikhanasas, no entanto, pregam que quem não procura riqueza é superior ao que a procura. (Ao invés de realizar sacrifícios depois da aquisição de riqueza, é melhor não realizar sacrifícios se eles não podem ser realizados sem riqueza.) Eu penso que quem segue este preceito incorre em muitas falhas. Os homens reúnem diversas coisas (para a realização de sacrifícios) simplesmente por causa da ordenança (Védica). Aquele que, corrompido por sua própria compreensão, doa riqueza para uma pessoa não merecedora sem dá-la à merecedora, não sabe que ele incorre no pecado de matar um feto. (Tal pessoa incorre no pecado de matar um feto, porque este pecado procede de matar a si mesmo. Uso impróprio de riqueza é considerado como suicídio.) O exercício do dever da caridade depois de distinguir o merecedor do não merecedor não é fácil. O Ordenador Supremo criou a riqueza para o sacrifício, e Ele criou o homem também para cuidar daquela riqueza e para realizar sacrifícios. Por esta razão toda a riqueza de uma pessoa deve ser aplicada no sacrifício. Prazer proviria disto como uma consequência natural. Possuidor de energia abundante, Indra, pela realização de diversos sacrifícios com presentes abundantes de objetos de valor, superou todos os deuses. Tendo obtido sua chefia por estes meios, ele brilha no céu. Portanto, tudo deve ser aplicado em sacrifícios.
Vestido em camurças, Mahadeva de grande alma, tendo despejado a si mesmo como uma libação no sacrifício chamado Sarva, se tornou o primeiro dos deuses, e superando todas as criaturas no universo e prevalecendo sobre elas por meio daquela realização, brilha em resplendor. O rei Marutta, o filho de Avikshit, pela profusão de sua riqueza, superou o próprio Sakra, o chefe dos deuses. No grande sacrifício que ele realizou, todos os recipientes eram de ouro, e a própria Sree apareceu em pessoa. Tu soubeste que o grande rei Harischandra, tendo realizado sacrifícios, ganhou grande mérito e grande felicidade. Embora um homem, ele todavia derrotou Sakra por meio de sua riqueza. Por esta razão tudo deve ser aplicado em sacrifícios.'" 21 "Devasthana disse, 'Ligado a isto é citada uma antiga história, isto é, o discurso que Vrihaspati, pedido por Indra, proferiu para ele. Vrihaspati disse, 'O contentamento é o céu mais sublime, o contentamento é a maior bem- aventurança. Não há nada mais elevado do que o contentamento. O contentamento ocupa o lugar mais elevado. Quando alguém se afasta de todos os seus desejos como uma tartaruga recolhendo todos os seus membros, então a resplandecência natural de sua alma logo se manifesta. Quando uma pessoa não teme alguma criatura, nem é temida por alguma criatura, quando ela conquista seu desejo e aversão, então é dito que ela contempla a própria alma. É dito que quando alguém, de fato, em palavra e pensamento, não procura ferir ninguém e não nutre desejo, ele alcança Brahma.
Assim, ó filho de Kunti, qualquer que seja a religião seguida pelas criaturas, elas obtêm resultados correspondentes. Desperte a ti mesmo por esta consideração, ó Bharata! (Os Srutis declaram que aquele que amedronta é ele mesmo amedrontado; enquanto aquele que não amedronta não é amedrontado. Os resultados ganhos por uma pessoa correspondem às suas práticas. Yudhishthira é, portanto, exortado a aceitar a soberania, pois a soberania, virtuosamente exercida e sem apego, o coroará com bem-aventurança futuramente.) Alguns louvam a Quietude, uns louvam o Esforço; uns a Contemplação; e alguns louvam ambos, Quietude e Esforço. Uns louvam sacrifício; outros, a renúncia. Alguns louvam doações; outros, a aceitação. Alguns, abandonando tudo, vivem em meditação silenciosa. Uns louvam a soberania e a apreciação dos súditos, depois de matar, cortar e perfurar (inimigos). Alguns são a favor de passar seus dias em isolamento. Observando tudo isto, a conclusão dos eruditos é que aquela religião que consiste em não ferir alguma criatura é digna da aprovação dos justos. Abstenção de ferir, veracidade de palavras, justiça, compaixão, autocontrole, procriação (de descendência) nas próprias esposas, amabilidade, modéstia, paciência; a prática destes é a melhor das religiões como dito pelo próprio Manu autocriado. Portanto, ó filho de Kunti, pratique esta religião com cuidado.
O Kshatriya que, conhecedor das verdades ou deveres reais, toma a soberania sobre si mesmo, reprimindo sua alma em todos os momentos, considerando igualmente o que é caro e o que não é, e subsistindo dos restos de banquetes sacrificais, que é dedicado a reprimir os pecaminosos e apreciar os íntegros, que obriga seus súditos a trilharem o caminho da virtude e trilha ele mesmo aquele caminho, que finalmente transmite sua coroa para seu filho e se dirige para as florestas, e vive lá dos produtos da selva e age segundo as ordenanças ou os Vedas depois de ter se livrado de toda a preguiça, aquele Kshatriya que se comporta dessa maneira, correspondente em tudo aos bem conhecidos deveres dos reis, está certo de obter excelentes resultados neste mundo e no próximo. Aquela emancipação final, da qual tu falaste, é extremamente difícil de se obter, e sua busca está ligada a muitos obstáculos. Aqueles que adotam tais deveres e praticam caridade e penitências ascéticas, que são possuidores da qualidade de compaixão e estão livres do desejo e da raiva, que estão empenhados em governar seus súditos com justiça e lutando por causa de vacas e Brahmanas, alcançam um fim sublime após a morte. Pois os Rudras com os Vasus e os Adityas, ó opressor de inimigos, e os Sadhyas e hostes de reis adotam esta religião.
Praticando sem negligência os deveres inculcados por aquela religião, eles alcançam o céu através daqueles seus atos.'" 22 Vaisampayana disse, "Depois disto, Arjuna mais uma vez se dirigiu a seu irmão mais velho de glória imorredoura, o rei Yudhishthira de coração triste, e disse estas palavras: 'Ó tu que és conhecedor de todos os tipos de deveres, tendo pela prática dos deveres Kshatriya obtido a soberania que é muito difícil de adquirir, e tendo conquistado todos os teus inimigos, por que tu estás queimando de angústia? Ó rei, com relação aos Kshatriyas, a morte em batalha é considerada mais meritória para eles do que a realização de diversos sacrifícios. Isto é declarado na ordenança que declara os deveres de Kshatriyas. Penitências e Renúncia são os deveres de Brahmanas. Esta é a ordenança (concernente às duas classes) sobre o mundo seguinte. De fato, ó poderoso, a morte em batalha é declarada para Kshatriyas. Os deveres Kshatriyas são extremamente violentos e estão sempre ligados com o uso de armas, e é afirmado, ó chefe dos Bharatas, que eles devem, quando chega a hora, perecer por meio de armas no campo de batalha. Até a vida de um Brahmana, ó rei, que vive no cumprimento dos deveres Kshatriya não é censurável, pois Kshatriyas também nascem de Brahmana. Nem Renúncia, nem Sacrifícios, nem Penitências, nem dependência da riqueza de outros, ó soberano de homens, são ordenados para Kshatriyas. Tu és conhecedor de todos os deveres, e tu tens alma virtuosa, ó touro da raça Bharata! Tu és um rei sábio, hábil em todas as ações.
Tu podes distinguir o que é certo neste mundo do que é errado. Rejeitando este desânimo pelo arrependimento, dirija-te a ti mesmo com uma vontade forte de agir. O coração de um Kshatriya especialmente é duro como o trovão. Tendo pelo exercício dos deveres Kshatriya derrotado teus inimigos e adquirido o império sem um tormento do seu lado, conquiste tua alma, ó soberano de homens, e te dedique à realização de sacrifícios e à prática da caridade. O próprio Indra, embora um Brahmana, se tornou um Kshatriya em seus atos, e lutou com seus parentes pecaminosos por oitocentas e dez vezes. Aqueles atos dele, ó monarca, são adoráveis e dignos de louvor. Através deles ele obteve, como nós sabemos, a chefia dos deuses. Portanto, ó monarca, realize sacrifícios com presentes abundantes assim como Indra fez, ó soberano de homens, e assim livre-te da tua febre. Ó touro entre Kshatriyas, não sofra assim pelo que é passado. Aqueles que foram mortos alcançaram o mais fim mais sublime, santificados por armas e de acordo com as ordenanças da religião Kshatriya. Aquilo que aconteceu estava ordenado para acontecer. O destino, ó tigre entre reis, não pode ser resistido.'" 23 Vaisampayana disse, “Assim endereçado por Arjuna de cabelo ondulado, o rei Kuru nascido de Kunti permaneceu silencioso. Então o Nascido na Ilha (Vyasa) disse estas palavras.” "Vyasa disse, 'As palavras de Arjuna, ó amável Yudhishthira, são verdadeiras. A religião mais elevada, como declarado pelas escrituras, depende dos deveres da vida familiar. Tu és conhecedor de todos os deveres.
Pratique então devidamente os deveres prescritos para ti (isto é, os deveres da vida familiar). Uma vida de retiro nas florestas, rejeitando os deveres da vida familiar, não foi prescrita para ti. Os deuses, Pitris, convidados, e empregados, todos dependem (para seu sustento) da pessoa que leva uma vida familiar. Sustente então todos estes, ó senhor da terra! Aves e animais e várias outras criaturas, ó soberano de homens, são mantidos por homens que levam vidas familiares. Aquele, portanto, que pertence a este modo de vida é superior (a todos os outros). Uma vida familiar é o mais difícil de todos os quatro modos de vida. Pratique este modo de vida então, ó Partha, o qual é difícil de ser praticado por pessoas de sentidos descontrolados. Tu tens um bom conhecimento de todos os Vedas. Tu ganhaste grande mérito ascético. Cabe a ti, portanto, suportar como um boi a carga do teu reino ancestral. Penitências, sacrifícios, perdão, erudição, mendicância, manter os sentidos sob controle, contemplação, viver em solidão, contentamento, e conhecimento (de Brahma), devem, ó rei, ser buscados seriamente por Brahmanas com o melhor de sua habilidade para o alcance do sucesso. Eu agora te direi os deveres dos Kshatriyas. Eles não são desconhecidos para ti.
Sacrifício, erudição, esforço, ambição (literalmente, a ausência de contentamento com a prosperidade atual), empunhar a ‘vara de castigo’, ferocidade, proteção dos súditos, conhecimento dos Vedas, prática de todos os tipos de penitências, bondade de conduta, aquisição de riqueza, e doações para pessoas dignas; estes, ó rei, bem realizados e adquiridos por pessoas da ordem real, garantem para eles este mundo e o seguinte, como ouvido por nós. Entre estes, ó filho de Kunti, manejar a vara de castigo é citado como o principal. A força deve sempre residir em um Kshatriya, e da força depende a punição. Esses deveres que eu mencionei são, ó rei, os principais para os Kshatriyas e contribuem imensamente para seu sucesso. Vrihaspati, sobre isto, cantou este verso: 'Como uma cobra devorando um camundongo, a Terra devora um rei que é inclinado à paz e um Brahmana que é extremamente afeiçoado a uma vida familiar.' É sabido também que o sábio real Sudyumna, somente por manejar a vara de castigo, obteve o mais alto sucesso, como o próprio Daksha, o filho de Prachetas.' Yudhishthira disse, 'Ó santo, por quais ações Sudyumna, aquele senhor da terra, obter o mais alto sucesso? Eu desejo ouvir a história daquele rei!'” "Vyasa disse, 'Sobre isto é citada esta história antiga. Havia dois irmãos, Sankha e Likhita, de votos rígidos. Os dois irmãos tinham duas residências separadas e ambas eram belas. Situadas perto da margem do rio chamado Vahuda, ambas aquelas residências eram adornadas com árvores que estavam sempre carregadas com flores e frutos.
Uma vez Likhita foi à residência de seu irmão Sankha. Naquela hora, no entanto, Sankha tinha saído de seu retiro em nenhum propósito fixo. Chegando ao retiro de seu irmão, Likhita colheu muitas frutas maduras. Obtendo-as o regenerado Likhita começou a comê-las sem quaisquer escrúpulos. Enquanto ainda estava empenhado na ação de comer, Sankha voltou para seu retiro. Vendo-o comendo, Sankha se dirigiu a seu irmão, dizendo, 'De onde estas frutas foram obtidas e por que razão tu as estás comendo?' Aproximando-se de seu irmão mais velho e saudando-o, Likhita respondeu sorridente, dizendo, 'Eu as peguei deste retiro mesmo.' Cheio de grande raiva, Sankha disse a ele, 'Tu cometeste roubo por pegar estas frutas. Vá e se aproximando do rei confesse a ele o que tu fizeste. Diga a ele, ‘Ó melhor dos reis, eu cometi o delito de me aproximar do que não me foi dado. Sabendo que eu sou um ladrão e cumprindo o dever da tua classe, inflija logo sobre mim, ó soberano de homens, a punição de um ladrão.' Assim endereçado, o altamente abençoado Likhita de votos rígidos, por ordem de seu irmão, foi até o rei Sudyumna. Sabendo pelos guardas do portão que Likhita tinha chegado, o rei Sudyumna, com seus conselheiros, avançou (para receber o sábio). Encontrando- o, o rei se dirigiu àquela principal de todas as pessoas conhecedoras dos deveres, dizendo, 'Diga-me, ó venerável, a razão da tua vinda. Considere-a como já realizada.' Assim questionado, o sábio regenerado disse a Sudyumna, 'Prometa primeiro que tu a realizarás. Caberá então a ti, depois de me ouvir, realizar a promessa.
Ó touro entre homens, eu comi algumas frutas que não me foram dadas pelo meu irmão mais velho. Ó monarca, me puna por isto sem demora.' Sudyumna respondeu, 'Se o rei é considerado como competente para manejar a vara de castigo, ele deve ser considerado, ó touro entre Brahmanas, como igualmente competente para perdoar. Purificado em relação ao teu ato, ó tu de votos elevados, te considere como perdoado. Diga-me agora que outros desejos tu tens. Eu certamente realizarei aqueles teus comandos!'” "Vyasa continuou, 'Assim honrado pelo rei de grande alma, o sábio regenerado Likhita, no entanto, não lhe pediu qualquer outro favor. Então aquele soberano da terra fez as duas mãos de Likhita de grande alma serem cortadas, depois do que o último, suportando o castigo, foi embora. Voltando para seu irmão Sankha, Likhita, em grande afeição, disse, 'Cabe a ti agora perdoar este canalha que foi devidamente punido (pelo que fez).' Sankha disse, ‘Eu não estou zangado contigo, nem tu me ofendeste, ó principal de todas as pessoas conhecedoras dos deveres. Tua virtude, no entanto, tinha sofrido um abalo. Eu te resgatei daquela situação. Vá sem demora ao rio Vahuda e gratifique devidamente, com oblações de água, os deuses, Rishis e os Pitris, e nunca mais coloque teu coração no pecado.' Ouvindo estas palavras de Sankha, Likhita realizou suas abluções na corrente sagrada e preparou-se para começar o rito de água. Nisto, duas mãos, parecendo lotos, apareceram nas extremidades de seus tocos. Maravilhado ele voltou até seu irmão e mostrou a ele as duas mãos.
Sankha disse a ele, 'Tudo isso foi realizado por mim através das minhas penitências. Não fique surpreso por isto. A Providência foi o instrumento aqui.' Likhita respondeu, 'Ó tu de grande esplendor, por que tu não me purificaste a princípio, quando, ó melhor dos regenerados, tal era a energia de tuas penitências?' Sankha disse, 'Eu não deveria ter agido de outra maneira. Eu não sou teu castigador. Aquele monarca (que te puniu) foi ele mesmo purificado, como também tu mesmo, junto com os Pitris!' "Vyasa continuou, 'Aquele rei, ó filho mais velho de Pandu, se tornou eminente por este ato e obteve o mais elevado sucesso como o próprio senhor Daksha! Exatamente este é o dever dos Kshatriyas, isto é, o ato de governar os súditos. Qualquer outro, ó monarca, seria considerado como um caminho errado para eles. Não ceda à aflição. Ó melhor de todas as pessoas conhecedoras do dever, escute as palavras benéficas deste teu irmão. Manejar a vara de castigo, ó rei, é o dever dos reis e não a raspagem da cabeça.'" 24 Vaisampayana disse, "Uma vez mais o grande sábio Krishna-Dwaipayana disse estas palavras para Ajatasatru, o filho de Kunti: 'Deixe que estes grandes guerreiros em carros de abundante energia mental, ó monarca, que estes teus irmãos, ó Yudhishthira, ó chefe dos Bharatas, obtenham aqueles desejos deles que eles nutriram enquanto residiram nas florestas. Governe a terra, ó filho de Pritha, como (outro) Yayati, o filho de Nahusha. Antes de agora a miséria era sua enquanto vocês moravam na floresta na prática de penitências ascéticas.
Aquela miséria está terminada, ó tigre entre homens! Desfrute de felicidade, portanto, por algum tempo. Tendo ó Bharata, ganhado e desfrutado de mérito religioso e riqueza e prazer por algum tempo com teus irmãos, tu poderás então, ó rei, te retirar para as florestas. Seja livre primeiro, ó Bharata, da dívida que tens com as pessoas que possam mendigar de ti, os Pitris, e os deuses. Tu poderás então, ó filho de Kunti, praticar todos os outros modos de vida (que vem depois). Ó filho da linhagem de Kuru, realize os sacrifícios de Sarvamedha e Aswamedha. Tu então alcançarás, ó monarca, o fim mais sublime após a morte. Instalando teus irmãos também em sacrifícios grandiosos com presentes abundantes (para os Brahmanas), tu irás, ó filho de Pandu, obter grande fama. Há um ditado, ó tigre entre homens e melhor dos Kurus! Ouça-o, pois por agir segundo ele, ó rei, tu não te desviarás da virtude. Somente aqueles homens, ó Yudhishthira, cujas práticas parecem aquelas de ladrões, fazem um rei por seus conselhos fazer uma carreira de guerra e vitória. O rei que, guiado por considerações de hora e lugar e movido por uma compreensão baseada nas escrituras, perdoa até vários ladrões, não incorre em pecado. O rei que, realizando seu imposto de um sexto (da produção), não protege seu reino, recebe uma quarta parte dos pecados de seu reino. Escute também àquilo pelo qual um rei não pode se desviar da virtude. Por transgredir as escrituras (uma pessoa incorre em pecado), enquanto por obedecê-las pode-se viver destemidamente.
O rei que, guiado por uma compreensão baseada nas escrituras e desconsiderando luxúria e a ira se comporta imparcialmente, como um pai, para com todos os seus súditos, nunca incorre em pecado. Ó tu de esplendor grandioso, se um rei, afligido pelo destino, fracassa em realizar uma ação que ele deveria fazer, tal fracasso não será chamado de uma transgressão. Pela força e política o rei derruba seus inimigos. Ele não deve permitir que o pecado seja cometido em seu reino, mas deve fazer a virtude ser praticada. Homens valentes, aqueles que são respeitáveis em suas práticas, aqueles que são virtuosos em seus atos, aqueles que são possuidores de erudição, ó Yudhishthira, Brahmanas conhecedores dos textos e ritos Védicos, e homens de riqueza, devem ser especialmente protegidos. Em determinar litígios e realizar atos religiosos somente devem ser empregados aqueles de grande conhecimento. Um rei prudente nunca colocará sua confiança em um indivíduo, embora ilustre. O rei que não protege seus súditos, cujas paixões são desenfreadas, que é cheio de vaidade, que é maculado com arrogância e malícia, incorre em pecado e ganha a vergonha da tirania. Se os súditos de um rei, ó monarca, decaem por falta de proteção e são afligidos pelos deuses e oprimidos por ladrões, o pecado de todos estes mancha o próprio rei. Não há pecado, ó Yudhishthira, em fazer uma ação com amabilidade, depois de completa deliberação e consulta com homens capazes de oferecer bons conselhos. Nossas tarefas fracassam ou são bem sucedidas pelo destino. Se o esforço, no entanto, for aplicado, o pecado não toca o rei.
Eu narrarei para ti, ó tigre entre reis, a história do que aconteceu a um rei antigo de nome Hayagriva, ó filho de Pandu, a história do heróico Hayagriva de atos imaculados, que depois de ter matado um grande número de seus inimigos em batalha foi ele mesmo derrotado e morto enquanto não tinha um seguidor ao seu lado. Tendo realizado tudo o que deve ser feito para manter os inimigos sob controle, e adotado todas aquelas medidas principais pelas quais os homens podem ser protegidos, Hayagriva adquiriu grande fama das batalhas que ele lutou e está agora desfrutando de grande felicidade no céu. Mutilado por ladrões com armas, lutando audaciosamente com eles, e perdendo sua vida em batalha, Hayagriva de grande alma, sempre atento aos seus deveres (reais), realizou o objetivo de sua vida e está agora desfrutando de grande bem-aventurança no céu. O arco era sua estaca (sacrifical) e a corda do arco era a corta para atar as vítimas. Flechas constituíam a concha menor e a espada a grande, e sangue era a manteiga clarificada que ele despejava. O carro era o altar e a ira que ele sentia em batalha era o fogo, e os quatro principais dos corcéis unidos ao seu veículo eram os quatro Hotris. Tendo despejado seus inimigos naquele fogo sacrifical como libações e então sua própria vida na conclusão do sacrifício, aquele leão vigoroso entre reis, Hayagriva, ficou livre do pecado e está agora se divertindo nas regiões dos deuses.
Tendo protegido seu reino com política e inteligência, Hayagriva de grande alma e resignado (sem orgulho) e de grande força mental e acostumado à realização de sacrifícios encheu todos os mundos com sua fama e está agora se divertindo na região dos deuses. Tendo obtido o mérito que depende da realização de sacrifícios como também todos os tipos de méritos relacionados com assuntos humanos, ele manejou a vara de castigo e governou a Terra com vigor e sem orgulho. Pois este é o virtuoso Hayagriva de grande alma que está agora se divertindo na região dos deuses. Possuidor de conhecimento, praticando a renúncia, estimulado pela fé, e cheio de gratidão, aquele rei, tendo realizado diversas ações, deixou este mundo de homens e ganhou as regiões que estão reservadas para os inteligentes e os sábios e aqueles que são de costumes e comportamento aprovados e preparados para abandonar suas vidas em batalha. Tendo estudado bem os Vedas e as outras escrituras também, tendo governado seu reino devidamente e feito todas as quatro ordens aderirem às suas respectivas funções, Hayagriva de grande alma está passando seu tempo em alegria nas regiões dos deuses. Tendo vencido muitas batalhas e cuidado de seus súditos, tendo bebido o suco Soma em sacrifícios e gratificado os principais dos Brahmanas com presentes e manejado judiciosamente a vara de castigo sobre aqueles colocados sob seu domínio e finalmente perdendo sua vida em batalha, aquele rei está vivendo felizmente no céu. Sua vida foi digna de todo o louvor.
Homens eruditos e honestos o elogiam, merecedor como ele é de todos os louvores. Tendo ganhado o céu e adquirido as regiões reservadas para heróis, aquele monarca de grande alma e feitos virtuosos veio a ser coroado com sucesso.'” 25 Vaisampayana disse, "Ouvindo as palavras do Rishi Nascido na Ilha e vendo Dhananjaya enfurecido, Yudhishthira, o filho de Kunti, saudou Vyasa e deu a seguinte resposta.” "Yudhishthira disse, 'Esta soberania terrestre e os diversos prazeres (pertencentes a esta) fracassam em dar qualquer alegria ao meu coração. Por outro lado, esta dor pungente (consequente da perda de meus parentes) está corroendo seu âmago. Ouvindo as lamentações dessas mulheres que perderam seus maridos e filhos heróicos, eu fracasso em obter paz, ó sábio!'" Vaisampayana continuou, "Assim endereçado, o virtuoso Vyasa, aquela principal de todas as pessoas conhecedoras de Yoga, possuidor de grande sabedoria e intimamente familiarizado com os Vedas, disse a Yudhishthira (as palavras seguintes).” "Vyasa disse, 'Nenhum homem pode adquirir qualquer coisa por seus próprios atos ou por sacrifícios e culto. Nenhum homem pode dar qualquer coisa para um outro homem. O homem adquire tudo por meio do Tempo. O Ordenador Supremo fez do curso do Tempo os meios de aquisição. Por mera inteligência ou estudo das escrituras, os homens, se o Tempo for desfavorável, não podem adquirir qualquer posse mundana. Às vezes um tolo ignorante pode ter sucesso em ganhar riqueza. O Tempo é o meio eficaz para a realização de todas as ações.
Durante tempos de adversidade, nem ciência, nem encantamentos, nem drogas produzem quaisquer resultados. Em tempos, no entanto, de prosperidade, essas mesmas coisas, devidamente aplicadas, se tornam eficazes e dão sucesso. Pelo Tempo os ventos sopram violentamente; pelo Tempo as nuvens se tornam carregadas de chuva; pelo Tempo os tanques ficam adornados com lotos de diferentes espécies; pelo Tempo as árvores na floresta ficam decoradas com flores. Pelo Tempo as noites se tornam escuras ou iluminadas. Pelo Tempo a Lua se torna cheia. Se o Tempo para isto não chegasse, as árvores não dariam flores e frutos. Se o Tempo para isto não chegasse, as correntezas dos rios não se tornariam violentas. Aves e cobras e veados e elefantes e outros animais nunca ficam excitados quando o Tempo para isto não chega. Se o Tempo não viesse, as mulheres não conceberiam. É com o Tempo que o inverno, e o verão, e a estação chuvosa vem. Se o Tempo para isto não viesse, ninguém nasceria ou morreria. Se o Tempo não chegasse, a criança não adquiriria o poder de falar. Se o Tempo não chegasse, não se chegaria à juventude. É com o Tempo que a semente semeada estende seus brotos. Se o Tempo não chegasse, o Sol não apareceria acima do horizonte, nem, quando o Tempo para isto não vem, ele vai para as colinas Asta. Se o Tempo para isto não chegasse, a Lua não aumentaria nem diminuiria, nem o oceano, com suas grandes ondas, se ergueria e baixaria. Em relação a isto é citada como exemplo a história antiga narrada, ó Yudhishthira, pelo rei Senajit em aflição.
‘A irresistível passagem do Tempo afeta todos os mortais. Todas as coisas terrestres, amadurecidas pelo Tempo, sofrem destruição. Alguns, ó rei, matam alguns homens. Os assassinos, também, são mortos por outros. Esta é a linguagem do mundo. Realmente, no entanto, ninguém permanece e ninguém é morto. Alguns pensam que os homens matam (seus semelhantes). Outros pensam que os homens não matam. A verdade é que o nascimento e a destruição de todas as criaturas estão ordenados para acontecer por sua própria natureza. Pela perda da riqueza ou pela morte da esposa ou filho ou pai, um homem lamenta, exclamando 'Ai, que dor!' e insistindo naquela tristeza sempre a aumenta. Por que você, como uma pessoa tola, se entrega à dor? Por que você se aflige por aqueles que estão sujeitos à dor (e que, por sua morte, escaparam de toda a dor)? Veja, a dor é aumentada pela indulgência como o medo é por entregar-se a ele. Nem este corpo é meu. Nada nesta terra é meu. Ou, as coisas desta terra pertencem tanto aos outros quanto a mim. Os sábios, vendo isto, não se permitem ser iludidos. Há milhares de causas para a tristeza, e centenas de causas para a alegria. Estas todos os dias afetam os ignorantes somente, mas não aquele que é sábio. Estas, com o decorrer do Tempo, se tornam objetos de afeição ou aversão, e aparecendo como felicidade ou dor giram (como se em uma roda) para afetar as criaturas vivas. Há somente tristeza neste mundo mas não felicidade. É por isto que somente a tristeza é sentida.
De fato, a tristeza surge daquela aflição chamada desejo, e a felicidade surge da aflição chamada tristeza. A tristeza vem depois da felicidade, e a felicidade depois da tristeza. Ninguém sempre sofre de tristeza ou sempre desfruta de felicidade. Felicidade sempre termina em tristeza, e às vezes procede da própria tristeza. Aquele, portanto, que deseja a felicidade eterna deve abandonar ambas. Já que a tristeza deve surgir depois do término da felicidade, e a felicidade depois do término da tristeza, uma pessoa deve, por isso, rejeitar, como um membro (mordido por cobra) de seu corpo, aquilo por causa do qual ela sente tristeza ou aquele ressentimento que é nutrido pela tristeza ou aquilo que é a raiz da ansiedade. Seja felicidade ou tristeza, agradável ou desagradável, o que quer que venha deve ser tolerado com um coração impassível. Ó amável, se tu te abstiveres, mesmo em pequena medida, de fazer o que é agradável para tuas esposas e filhos, tu então saberás quem é de quem e por que é assim e para que. Aqueles que são muito estúpidos e aqueles que são mestres de suas almas desfrutam de felicidade aqui. Aqueles, no entanto, eu ocupam um lugar intermediário sofrem tristeza.’ Isto, ó Yudhishthira, é o que Senajit de grande sabedoria disse, aquela pessoa que era familiarizada com que é bom ou mau neste mundo, com os deveres, e com felicidade e tristeza. Aquele que se aflige pelas aflições de outras pessoas nunca pode ser feliz. Não há fim da tristeza, e a tristeza nasce da própria felicidade.
Felicidade e tristeza, prosperidade e adversidade, lucro e perda, morte e vida, em sua sucessão, visitam todas as criaturas. Por esta razão o homem sábio de alma tranquila não deve nem se rejubilar com alegria nem se deprimir com tristeza. É dito que se envolver em batalha é o Sacrifício para um rei; um cumprimento apropriado da ciência de castigo é seu Yoga; e a doação de riqueza em sacrifícios na forma de Dakshina é sua Renúncia. Todas estas devem ser consideradas como ações que o santificam. Por governar o reino com inteligência e política, abandonando o orgulho, realizando sacrifícios, e olhando para tudo e todas as pessoas com bondade e imparcialidade, um rei de grande alma, depois da morte, se diverte na região dos deuses. Por vencer batalhas, proteger seu reino, beber o suco Soma, ajudar seus súditos, manejar judiciosamente a vara de castigo, e abandonando seu corpo finalmente em luta, um rei desfruta de felicidade no céu. Tendo estudado devidamente todos os Vedas e as outras escrituras, tendo protegido o reino apropriadamente, e tendo feito todas as quatro classes se dedicarem às suas respectivas funções, um rei se torna santificado e ao final se diverte no céu. É o melhor dos reis aquele cuja conduta, mesmo depois de sua morte, é elogiada pelos habitantes da cidade e país e por seus conselheiros e amigos.
”’ Vaisampayana disse, "Em relação a isso, Yudhishthira de grande alma disse a Arjuna estas palavras repletas de razão: 'Tu achas, ó Partha, que não há nada superior à riqueza, e que o homem pobre não pode ter nem o céu, nem a felicidade, nem a aquisição de seus desejos. Isto, no entanto, não é verdade. São vistas muitas pessoas que foram coroadas com sucesso pelo sacrifício na forma de estudo Védico. São vistos muitos sábios que por dedicação a penitências alcançaram regiões eternas de felicidade. Aqueles, ó Dhananjaya, que sempre observam as práticas dos Rishis por se dedicarem a Brahmacharya e que se tornam familiarizados com todos dos deveres, são considerados pelos deuses como Brahmanas. Ó Dhananjaya, tu deves sempre considerar aqueles Rishis que são devotados ao estudo dos Vedas e dedicados à busca do conhecimento verdadeiro como pessoas que são realmente virtuosas. Ó filho de Pandu, todas as nossas ações dependem daqueles que são devotados à aquisição de conhecimento verdadeiro. (Verdadeiro conhecimento é conhecimento de Brahma. Nossa conduta deve ser moldada de acordo com a opinião das pessoas possuidoras deste conhecimento). Nós sabemos que esta é a opinião dos Vaikhanasas, ó poderoso! Os Ajas, os Prishnis, os Sikatas, ó Bharata, os Arunas, e os Kitavas, foram todos para o céu pelo mérito do estudo Védico. Por realizar aquelas ações, ó Dhananjaya, que são indicadas nos Vedas, isto é, batalha, estudo dos Vedas, sacrifícios, a restrição da emoção que é tão difícil, uma pessoa vai para o céu pelo caminho do sul do Sol (Dakshinayana).
Antes disto, eu te disse que aquelas mesmas regiões pertencem às pessoas que são praticantes de atos (Védicos). Tu verás, no entanto, que o caminho do norte (Uttarayana) é percorrido por aqueles que são dedicados a penitências Yoga. Aquelas regiões eternas e brilhantes às quais aquele caminho leva pertencem aos homens de Yoga. Destes dois, o caminho do norte é muito elogiado por aqueles conhecedores dos Puranas. Tu deves saber que se adquire o céu através do contentamento. Do contentamento surge grande felicidade. Não há nada superior ao contentamento. Para o Yogin que controlou a raiva e a alegria, o contentamento é seu alto louvor e sucesso. Em relação a isto é citado o discurso por Yayati antigamente. Ouvindo aquele discurso uma pessoa pode conseguir se afastar de todos os seus desejos como uma tartaruga recolhendo todos os seus membros. Quando não se tem medo de nada, quando não se é temido por nada, quando não se nutre desejo, quando não se sente ódio, então alcançou-se ao estado de Brahma. Daquele que não se comporta pecaminosamente para com qualquer criatura, em ações, pensamentos, ou palavras, é dito que alcançou Brahma. Quando uma pessoa controlou seu orgulho e insensatez, e se afastou de todos os afetos, é então que aquele homem pio de alma irradiada se torna apto para alcançar aquela salvação que consiste na aniquilação da existência separada. Ouça-me agora com atenção concentrada, ó filho de Pritha, enquanto eu te falo. Alguns desejam virtude; alguns, boa conduta; e alguns, riquezas. Uma pessoa pode desejar riqueza (como meio de aquisição de virtude).
O abandono, no entanto, de tal desejo seria melhor para ele. Há muitos erros ligados à riqueza e por conseguinte àqueles atos religiosos que são realizados com riqueza. Nós temos visto isto com nossos próprios olhos. Cabe a ti também ver isto. Aquele que deseja riqueza acha muito difícil abandonar aquilo que deve ser abandonado por todos os meios. Bons feitos são muito raros naqueles que acumulam riquezas. É dito que a riqueza nunca pode ser adquirida sem prejudicar outros, e essa, quando ganhada, traz numerosos distúrbios. Uma pessoa de alma estreita, desprezando o medo do arrependimento, comete atos de agressão a outros, tentada mesmo por pouca riqueza, inconsciente todo o tempo do pecado de Brahmanicídio em que incorre por seus atos. Obtendo riqueza a qual é de aquisição tão difícil, uma pessoa queima de aflição se ela tem que dar uma parte desta para seus empregados, com aflição que é igual àquela que alguém sentiria se fosse realmente roubado por saqueadores. Se, por outro lado, não se partilha com alguém a riqueza, a desonra se torna seu quinhão. No entanto, quem não tem riqueza nunca se torna assunto de censura. Afastada de todas as atrações, tal pessoa pode se tornar feliz em todas as circunstâncias por manter a vida com o pouco que ela possa obter como esmolas. Ninguém, no entanto, pode ser feliz pela aquisição de riqueza. Ligado a isto certos versos relativos a sacrifícios são recitados por pessoas conhecedoras das escrituras antigas.
A riqueza foi criada pelo Criador por causa de sacrifícios, e o homem foi criado por Ele para proteger aquela riqueza e realizar sacrifícios. Por isto, toda a riqueza deve ser aplicada em sacrifícios. Não é apropriado que ela seja gasta para a satisfação do desejo de prazer. O Criador então dá riqueza aos mortais por causa de sacrifícios. Saiba, ó filho de Kunti, que tu és a principal de todas as pessoas ricas! É por isto que os sábios pensam que a riqueza, sem dúvida, é de ninguém sobre a terra. Deve-se realizar sacrifícios com ela e doá-la com um coração confiante. Deve-se gastar (em doação) o que se adquiriu, e não perdê-la ou gastá-la na satisfação do desejo de divertimento. Que utilidade há em acumular riqueza quando existem tais objetos apropriados nos quais gastá-la? Aquelas pessoas de pouca compreensão que dão (riqueza) para homens que se desviaram dos deveres de sua classe têm que subsistir de excremento e sujeira futuramente por cem anos. Que homens doem aos não merecedores e se abstenham de doar aos merecedores é devido à inabilidade de discriminar entre o merecedor e o não merecedor. Por esta razão até a prática da virtude da caridade é difícil.
Estes são os dois erros ligados com a riqueza quando adquirida, isto é, doar para uma pessoa indigna e se abster de doar àquela que é digna.'" 27 "Yudhishthira disse, 'Pela morte do jovem Abhimanyu, dos filhos de Draupadi, de Dhrishtadyumna, de Virata, do rei Drupada, de Vasusena conhecedor de todos os deveres, do nobre Dhrishtaketu, e de diversos outros reis vindos de diversas regiões, em batalha, a dor não abandona minha pessoa pecaminosa, eu que sou um matador de parentes. De fato, eu sou desmedidamente cobiçoso de reino e sou um exterminador da minha própria linhagem. Ele sobre cujo peito e membros eu costumava rolar em divertimento, ai, aquele filho de Ganga foi morto por mim em batalha pela avidez de soberania. Quando eu vi aquele leão entre homens, nosso avô, atacado por Sikhandin e tremendo e cambaleando por causa das flechas de Partha que pareciam raios em energia, quando eu vi sua forma alta totalmente perfurada por setas brilhantes e ele mesmo se tornando fraco como um leão idoso, meu coração ficou profundamente aflito. Quando eu vi aquele que afligia carros hostis oscilar como um topo de montanha e cair sem forças no terraço de seu próprio veículo com seu rosto virado para o leste, meus sentidos ficaram entorpecidos.
Aquele descendente da linhagem de Kuru que, com arco e setas nas mãos, tinha lutado em combate violento por muitos dias com o próprio Rama da linha de Bhrigu no campo santificado por Kuru, aquele filho de Ganga, aquele herói, que, em Baranasi, por causa de noivas, em um único carro, desafiou para a batalha os Kshatriyas do mundo reunidos, ele que queimou pela energia de suas armas aquele irresistível e principal dos reis, isto é, Ugrayudha, ai, aquele herói foi morto em batalha por minha causa. Sabendo perfeitamente que Sikhandin, o príncipe de Panchala, era seu destruidor, aquele herói ainda se absteve de matar o príncipe com suas setas. Ai, tal guerreiro magnânimo foi morto por Arjuna. Ó melhor dos sábios, naquele momento quando eu contemplei o avô esticado na terra e coberto com sangue, uma febre violenta afligiu meu coração. Ele que nos protegeu e criou quando nós éramos crianças, ai, ele foi feito ser morto por minha pessoa pecaminosa, eu que sou cobiçoso de reino, que sou um assassino de superiores veneráveis, e um perfeito tolo, por causa da soberania que duraria somente uns poucos dias. Nosso preceptor, o grande arqueiro Drona, adorado por todos os reis, foi aproximado por mim e endereçado falsamente a respeito de seu filho. A memória daquela minha ação está queimando todos os meus membros. O preceptor me disse, ‘Diga-me verdadeiramente, ó rei, se meu filho ainda vive.’ Esperando veracidade de mim, o Brahmana perguntou a mim de todos os outros. Por proferir silenciosamente a palavra elefante, eu me comportei falsamente com ele.
Pecaminoso como sou e extremamente ávido pelo reino, e um assassino de meus superiores veneráveis, eu me comportei exatamente assim para com meu preceptor em batalha, me desfazendo do traje da verdade (o qual eu acreditava usar), pois eu disse a ele que Aswatthaman tinha sido morto quando, realmente, um elefante daquele nome fora morto. Para quais regiões eu irei (após a morte), tendo cometido tais atos infames? Eu causei também a morte de meu irmão mais velho Karna, aquele guerreiro terrível que nunca recuava da batalha. Quem há mais pecaminoso do que eu? Pela avareza eu fiz o jovem Abhimanyu, aquele herói que parecia um leão nascido nas colinas, penetrar no esquadrão que era protegido pelo próprio Drona. Eu sou como alguém culpado de infanticídio. Pecaminoso como eu sou, eu não tenho desde então sido capaz de olhar Arjuna ou Krishna de olhos de lótus no rosto. Eu sofro também por Draupadi, que está desprovida de seus cinco filhos como a Terra privada de suas cinco montanhas. Eu sou um grande criminoso, um grande pecador, e um destruidor da terra! Sem me levantar deste assento que eu agora ocupo, eu enfraquecerei meu corpo (por inanição) e encontrarei a morte. Conheçam a mim que sou o assassino de meu preceptor como alguém que sentou-se aqui na observância do voto Praya. Um exterminador da minha linhagem, eu devo fazer isso a fim de que eu não possa renascer em alguma das outras classes de seres! (Isto é, eu devo passar por tal penitência austera para que na minha próxima vida eu não possa nascer como algum animal inferior, mas consiga tomar nascimento entre homens).
Eu renunciarei a toda comida e bebida, e sem me mover deste local, ó grande asceta, secarei completamente meus ares vitais que são tão preciosos. Eu rogo a você com humildade, me conceda permissão para isto e vá para onde quer que lhe agrade. Que todos me concedam permissão. Eu rejeitarei este meu corpo.'” Vaisampayana continuou, "Refreando o filho de Pritha que, estupefato pela tristeza por causa de seus parentes, proferiu tais palavras, Vyasa, aquele melhor dos ascetas, falou como segue, dizendo primeiro a ele, 'Isto não pode ser!'” "Vyasa disse, 'Não cabe a ti, ó monarca, te entregar a tal dor pungente. Eu vou repetir o que eu disse uma vez. Tudo isto é Destino, ó pujante! Sem dúvida, todas as criaturas que nascem exibem a princípio uma união (de diversos materiais e forças). A dissolução, no entanto, as alcança no fim. Como bolhas na água elas surgem e desaparecem. Todas as coisas reunidas sem dúvida se desagregarão e todas as coisas que sobem devem cair. União termina em dissolução e vida termina em morte. A ociosidade, embora temporariamente agradável, termina em miséria, e trabalho com habilidade, embora temporariamente doloroso, termina em felicidade. Riqueza, Prosperidade, Modéstia, Contentamento, e Fama residem em trabalho e habilidade mas não em ociosidade. Amigos não podem conceder felicidade, nem inimigos podem infligir tristeza. Similarmente sabedoria não traz riqueza nem a riqueza traz felicidade. Ó filho de Kunti, tu foste criado pelo Criador para te engajar em Trabalho. O Sucesso surge do Trabalho.
Tu não és apto, ó rei, para evitar o Trabalho.'" 28 Vaisampayana disse, "Vyasa então dissipou a angústia do filho mais velho de Pandu, que, queimando de tristeza por causa da morte de seus parentes, tinha resolvido por um fim em si mesmo." Vyasa disse, 'Em relação a isto é citada a história antiga, ó tigre entre homens, que é conhecida pelo nome de discurso de Asma. Ouça-a, ó Yudhishthira! Janaka, o soberano dos Videhas, ó rei, cheio de tristeza e dor, questionou um Brahmana sábio de nome Asma para o esclarecimento de suas dúvidas.' "Janaka disse, 'Como um homem desejoso do seu próprio bem deve se comportar em ocasiões de acessão e de destruição de ambos, parentes e riqueza?'” "Asma disse, 'Imediatamente depois da formação do corpo de um homem, alegrias e tristezas se ligam a ele. Embora haja a possibilidade de um ou outro alcançar a pessoa, qualquer um dos dois que realmente a alcance rouba rapidamente sua razão como o vento afastando nuvens reunidas. (Em tempos de prosperidade) alguém pensa desta maneira: 'Eu sou nobre de nascimento! Eu posso fazer tudo o que eu quiser! Eu não sou um homem inferior!' Sua mente fica saturada com tal vaidade tripla. Viciado em todos os prazeres mundanos, ele começa a desperdiçar a riqueza acumulada por seus antepassados. Empobrecido com o passar do tempo, ele considera a apropriação do que pertence a outros como até louvável. Como um caçador perfurando um veado com suas setas, o rei então pune aquele indivíduo pecaminoso, aquele ladrão das posses de outras pessoas, aquele transgressor de leis e regras.
Sem alcançar os cem anos (o período usual de vida humana), tais homens mal vivem além de vinte ou trinta anos. Observando cuidadosamente o comportamento de todas as criaturas, um rei deve, pelo exercício de sua inteligência, aplicar remédios para aliviar as grandes tristezas de seus súditos. As causas de toda a tristeza mental são duas, isto é, a ilusão da mente e a acessão de infortúnio. Nenhuma terceira causa existe. Todas estas diversas espécies de angústias como também aquelas surgidas da atração pelos prazeres mundanos, que se apossam do homem, são tais, (isto é, surgem de tais causas). Velhice e Morte, como um par de lobos, devoram todas as criaturas, fortes ou fracas, baixas ou altas. Nenhum homem pode escapar da velhice e da morte, nem mesmo o subjugador da terra inteira cercada pelo mar. Seja felicidade ou tristeza o que venha sobre as criaturas, esta deve ser desfrutada ou suportada sem exaltação ou depressão. Não há método de escapar delas. Os males da vida, ó rei, alcançam as pessoas na juventude ou na meia idade ou na velhice. Eles nunca podem ser evitados, enquanto aquelas (fontes de felicidade) que são cobiçadas nunca vem. (O homem cobiça liberdade de decadência e imortalidade, mas, em vez de obter o que ele deseja, decadência e morte se tornam sua porção sobre a Terra). A ausência do que é agradável, a presença do que é desagradável, bem e mal, felicidade e dor, seguem o Destino. Similarmente, o nascimento das criaturas e sua morte, e as acessões de ganho e perda, estão todos pré-ordenados.
Assim como aroma, cor, gosto e toque surgem naturalmente, a felicidade e a tristeza resultam do que está pré-ordenado. Assentos e camas e veículos, prosperidade e bebida e comida, sempre se aproximam deixando as criaturas segundo o curso do Tempo. (Isto é, estes aparecem e desaparecem no decorrer do Tempo). Até os médicos ficam doentes. O forte se torna fraco. Aqueles que estão no desfrute de prosperidade perdem tudo e se tornam indigentes. O curso do Tempo é muito extraordinário. Nascimento nobre, saúde, beleza, prosperidade, e objetos de prazer, são todos obtidos através do Destino. Os indigentes, embora eles possam não desejar isto, têm muitos filhos. Os ricos por outro lado são vistos serem sem filhos. Admirável é o rumo do Destino. Os males causados por doença, fogo, água, armas, fome, veneno, febre, e morte, e quedas de lugares altos alcançam um homem de acordo com o Destino sob o qual ele é nascido. É visto neste mundo que alguém, sem ter pecado, sofre diversos males, enquanto outro, tendo pecado, não é abatido pelo peso da calamidade. É visto que alguém no desfrute de riqueza perece na juventude; enquanto alguém que é pobre arrasta sua existência, abatido pela decrepitude, por cem anos. Alguém nascido em uma linhagem ignóbil pode ter uma vida muito longa, enquanto alguém que nasceu em uma linhagem nobre perece logo como um inseto. Neste mundo, é muito comum que pessoas em circunstâncias opulentas não tenham apetite, enquanto os que são indigentes podem digerir até lascas de madeira.
Impelido pelo destino, quaisquer pecados que o homem de alma má, descontente com sua condição, cometa, dizendo, 'Eu sou o fazedor', ele considera ser tudo para o seu bem. Caça, dados, mulheres, vinho, brigas, são desaprovados pelos sábios. Muitas pessoas, no entanto, até as possuidoras de extenso conhecimento das escrituras são vistas serem viciadas neles. Os objetos, se cobiçados ou não, encontram as criaturas em consequência do curso do Tempo. Nenhuma outra causa pode ser traçada. Ar, espaço, fogo, lua, sol, dia, noite, os corpos luminosos (no firmamento), rios, e montanhas, quem os faz e quem os mantém? Frio, e calor, e chuva, vem um depois do outro em consequência da passagem do Tempo. É exatamente assim, ó touro entre homens, com a felicidade e a tristeza da humanidade. Nem remédios, nem encantamentos podem resgatar o homem atacado pela decrepitude ou pela morte. Como dois troncos de madeira, flutuando no grande oceano, se juntam e são novamente separados (quando chega a hora), assim mesmo as criaturas se unem e são novamente separadas (quanto chega a hora). O Tempo age igualmente para com aqueles homens que (estão em circunstâncias afluentes e que) desfrutam dos prazeres de música e dança na companhia de mulheres e para com aqueles homens desamparados que vivem do alimento que outros fornecem. Neste mundo mil espécies de relacionamento são contraídos, tais como mãe e pai e filho e mulher. Na verdade, no entanto, de quem são eles e de quem somos nós? Ninguém pode se tornar próprio de alguém, nem alguém pode se tornar próprio de alguém mais.
Nossa união aqui com esposas e parentes e benquerentes é como aquelas de viajantes em uma hospedaria do lado da estrada. Onde eu estou? Aonde irei? Quem sou eu? Como eu cheguei aqui? Por quê e por quem eu sofro? Refletindo sobre estas perguntas uma pessoa obtém tranquilidade. A Vida e seu meio ambiente estão girando constantemente como uma roda, e a companhia daqueles que são caros é transitória. A união com irmãos, mãe, pai, e amigos é como a de viajantes em uma hospedaria. Homens de conhecimento contemplam, como se com olhos corpóreos, o mundo seguinte que é invisível. Sem desconsiderar as escrituras, uma pessoa desejosa de conhecimento deve ter fé. Uma pessoa possuidora de conhecimento deve realizar os ritos prescritos em relação aos Pitris e aos deuses, praticar todos os deveres religiosos, realizar sacrifícios, procurar judiciosamente virtude, lucro, e prazer. Ai, ninguém compreende que o mundo está afundando no oceano do Tempo que é muito profundo e que está infestado com aqueles crocodilos enormes chamados de velhice e morte. Muitos médicos podem ser vistos afligidos com todos os membros de suas famílias, embora eles tenham estudado cuidadosamente a ciência de Medicina (literalmente, a ciência da Vida). Tomando medicamentos amargos e diversas espécies de remédios oleosos, eles não conseguem escapar da morte, como o oceano em ultrapassar seus continentes. Homens bem versados em química, apesar de compostos químicos aplicados judiciosamente, são vistos serem derrubados pela decrepitude como árvores derrubadas por elefantes.
Da mesma maneira, pessoas possuidoras de mérito ascético, dedicadas ao estudo dos Vedas, praticantes de caridade, e que realizam sacrifícios frequentemente, não têm êxito em escapar da velhice e da morte. Em relação a todas as criaturas que nasceram, nem anos, nem meses, nem quinzenas, nem dias, nem noites, uma vez passados, voltarão. O homem, cuja existência é tão transitória, é forçado, pela passagem do Tempo, ele deseje ou não, a percorrer este caminho inevitável e amplo (o caminho da Vida) que tem que ser trilhado por todas as criaturas. Se o corpo surge da criatura ou a criatura surge do corpo, a união no entanto, com esposas e outros amigos é como aquela de viajantes em uma estalagem. Não se pode obter uma companhia durável com alguém. Não se pode obter tal companhia com o próprio corpo. Como então esta pode ser tida com alguém mais? Onde, ó rei, está teu pai hoje e onde está teu avô? Tu não os vê hoje e eles não te vêem, ó impecável! Nenhuma pessoa pode ver o céu ou o inferno. As escrituras, no entanto, são os olhos dos virtuosos. Ó rei, modele tua conduta de acordo com as escrituras. De coração puro, deve-se praticar primeiro o voto de Brahmacharya e então gerar filhos e então realizar sacrifícios, para pagar a dívida que se tem com os Pitris, os deuses, e os homens. Realizando sacrifícios e empenhado em procriar (filhos), depois de ter primeiro cumprido o voto de Brahmacharya, alguém que tem a sabedoria como seus olhos, abandonando toda a ansiedade de coração, deve cortejar o céu, este mundo, e sua própria alma.
(Cortejar, isto é, procurar alcançar e desfrutar deles.) Aquele rei inclinado à prática de virtude que se esforça judiciosamente para adquirir o Céu e a Terra, e que pega dos bens mundanos apenas o que está ordenado (como a parte do rei) nas escrituras, ganha uma reputação que se espalha por todos os mundos e entre todas as criaturas, móveis e imóveis.’ O soberano dos Videhas, de compreensão clara, tendo ouvido estas palavras cheias de razão, ficou livre da aflição, e se despedindo de Asma procedeu em direção à sua residência. Ó tu de glória imorredoura, rejeite tua angústia e levante. Tu és igual ao próprio Sakra. Permita que tua alma seja alegrada. A terra foi ganha por ti no exercício dos deveres Kshatriya. Desfrute dela, ó filho de Kunti, e não desconsidere minhas palavras.'" 29 Vaisampayana disse, "Aquele principal dos reis, Yudhishthira, o filho de Dharma, ainda permanecendo silencioso, o filho de Pandu, Arjuna, se dirigiu a Krishna e falou o seguinte.” "Arjuna disse, 'Este opressor de inimigos, o filho de Dharma, está queimando de angústia por causa de seus parentes (mortos). Console-o, ó Madhava! Mais uma vez, ó Janardana, todos nós caímos em grande perigo. Cabe a ti, ó poderosamente armado, dissipar a aflição dele.'" Vaisampayana continuou, "Assim endereçado por Arjuna de grande alma, Govinda de olhos de lótus de glória imorredoura virou seu rosto em direção ao rei. Kesava não poderia de nenhuma maneira ser desconsiderado por Yudhishthira. Desde os primeiros anos Govinda era mais querido para Yudhishthira do que o próprio Arjuna.
Pegando a mão do rei enfeitada com pasta de sândalo e parecendo com uma coluna de mármore, Saurin de braços fortes começou a falar, alegrando (os corações de todos os que o ouviam). Seu rosto, ornado com dentes e olhos que eram muito belos, brilhava intensamente como um lótus totalmente desabrochado ao nascer do sol.” "Vasudeva disse, "Ó tigre entre homens, não te entregue a tal angústia que emacia teu corpo. Aqueles que foram mortos nesta batalha não voltarão em hipótese alguma. Aqueles Kshatriyas, ó rei, que morreram nesta grande batalha, são assim como objetos que alguém adquire em seus sonhos e que desaparecem quando ele desperta. Todos eles eram heróis e ornamentos de batalhas. Eles foram derrotados enquanto avançavam com os rostos em direção a seus inimigos. Nenhum dentre eles foi morto com ferimentos nas costas ou enquanto fugia. Todos eles, tendo lutado com heróis em grande batalha e tendo perdido suas vidas então, santificados por armas, procederam para o céu. Não cabe a ti sofrer por eles. Dedicados aos deveres de Kshatriyas, possuidores de coragem, perfeitamente familiarizados com os Vedas e seus ramos, todos eles alcançaram aquele fim bem-aventurado que é obtenível por heróis. Não cabe a ti te afligir por eles depois de ouvir a respeito daqueles senhores de grande alma da terra, dos tempos antigos, que partiram deste mundo. Com relação a isto é citado o velho discurso de Narada perante Srinjaya quando o último estava profundamente afligido pela tristeza por causa da morte de seu filho.
(Narada disse), ‘Sujeitos à felicidade e tristeza, eu mesmo, tu mesmo e todas as criaturas, ó Srinjaya, teremos que morrer. Que causa então há para tristeza? Ouça-me enquanto eu descrevo a grandiosa bem-aventurança de (alguns) reis antigos. Ouça-me com atenção concentrada. Tu irás então, ó rei, rejeitar tua aflição. Ouvindo a história daqueles senhores de grande alma da terra, diminua tua tristeza. Ó, ouça-me enquanto eu narro suas histórias para ti em detalhes. Por escutar as encantadoras e fascinantes histórias daqueles reis dos tempos antigos, estrelas malignas podem ser propiciadas e o período da vida de uma pessoa pode ser aumentado. Nós sabemos, ó Srinjaya, que houve um rei de nome Marutta que era filho de Avikshit. Mesmo ele caiu vítima da morte. Os deuses com Indra e Varuna e Vrihaspati em sua dianteira foram ao sacrifício, chamado Viswasrij (no qual o realizador partilha com todos sua riqueza), realizado por aquele monarca de grande alma. Desafiando Sakra, o chefe dos deuses, aquele rei o venceu em batalha. O erudito Vrihaspati, desejando fazer o bem para Indra, tinha se recusado a oficiar no sacrifício de Marutta. Então Samvarta, o irmão mais novo de Vrihaspati, concordou com o pedido do rei. Durante o governo daquele rei, ó melhor dos monarcas, a terra produzia colheitas sem ser cultivada e estava enfeitada com diversas espécies de ornamentos. No sacrifício daquele rei, os Viswedevas se sentaram como cortesãos, os Maruts agiam como distribuidores (de alimento e presentes) e os Sadhyas de grande alma também estavam presentes.
Naquele sacrifício de Marutta, os Maruts beberam Soma. Os presentes sacrificais que o rei fez superaram (em valor) até àqueles feitos pelos deuses, os Gandharvas, e homens. Como até aquele rei, ó Srinjaya, que te superava em mérito religioso, conhecimento, renúncia, e riqueza, e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho. Houve outro rei de nome Suhotra, o filho de Atithi. Nós sabemos, ó Srinjaya, que até ele caiu vítima da morte. Durante seu governo, Maghavat despejou ouro por um ano inteiro sobre seu reino. Obtendo aquele rei como seu senhor, a terra se tornou na verdade (e não somente em nome como antes) Vasumati (possuidora de riqueza). Os rios, durante o domínio daquele rei, tinham tartarugas, caranguejos, jacarés, tubarões, e golfinhos dourados, pois o adorável Indra, ó rei, tinha-os despejado sobre eles. Contemplando aqueles peixes e tubarões e tartarugas dourados às centenas e milhares, o filho de Atithi se encheu de admiração. Reunindo aquela vasta riqueza de ouro que cobria a terra, Suhotra realizou um sacrifício em Kurujangala e a deu para os Brahmanas. Quando aquele rei, ó Srinjaya, que te superava nos quatro atributos de mérito religioso, conhecimento, renúncia, e riqueza, e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho (que está morto). Teu filho nunca realizou um sacrifício e nunca fez doações. Sabendo disto, acalme tua mente e não te entregue à dor. Nós ouvimos também, ó Srinjaya, que Vrihadratha, o rei dos Angas, caiu vítima da morte. Ele doou cem mil corcéis.
Cem mil donzelas também, enfeitadas com ornamentos dourados, ele deu como presentes em um sacrifício que ele realizou. Cem mil elefantes também da melhor raça, ele deu como presentes em outro sacrifício realizado por ele. Cem milhões também de touros, adornados com correntes de ouro, com milhares de vacas acompanhado-os, ele deu como presentes sacrificais. Enquanto o rei de Anga realizava seu sacrifício perto da colina chamada Vishnupada, Indra ficou embriagado com o Soma que ele bebeu, e os Brahmanas com os presentes que eles receberam. Nos sacrifícios, ó monarca, numerando centenas, que aquele rei realizou antigamente, os presentes que ele fez superaram de longe aqueles sempre feitos pelos deuses, Gandharvas, e homens. Nenhum outro homem nasceu, ou nascerá, que deu ou dará tanta riqueza quanto a que foi dada pelo rei dos Angas nos sete sacrifícios que ele realizou, cada um dos quais era caracterizado pela consagração do Soma. (Aqueles sete sacrifícios eram o Agnishtoma, o Atyagnishtoma, o Ukthya, o Shodashi, o Vajapeya, o Atiratra, e o Aptoryama, cada um dos quais requeria a consagração do Soma). Quando, ó Srinjaya, até este Vrihadratha, que era superior a ti nos quatro atributos e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não te aflija por teu filho que está morto. Nós sabemos também, ó Srinjaya, que Sivi, o filho de Usinara, caiu vítima da morte. Aquele rei dominava a terra inteira como alguém domina a proteção de couro em sua mão.
Sobre um único carro que veio a ser vitorioso em todas as batalhas, o rei Sivi fez a terra inteira ressoar com o estrépito de suas rodas e subjugou todos os monarcas. (A expressão usada é ‘Ele fez somente um guarda- sol ser levantado’. O costume é bem conhecido que ninguém exceto reis podia fazer guarda-sóis serem mantidos sobre suas cabeças). O filho de Usinara, Sivi, deu, em um sacrifício, todo o gado e cavalos que ele tinha, domésticos e selvagens. O próprio Criador pensou que nenhum dentre os reis do passado ou do futuro teve ou teria a habilidade para suportar a carga, ó Srinjaya, que o filho de Usinara, Sivi, aquele principal dos reis, aquele herói que era possuidor de destreza igual àquela do próprio Indra, suportou. Não sofra, portanto, por teu filho que nunca realizou algum sacrifício nem fez alguma doação. De fato, ó Srinjaya, quando Sivi, que era muito superior a ti nos quatro atributos e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não chore por teu filho que está morto. Nós sabemos, ó Srinjaya, que Bharata de grande alma também, o filho de Dushmanta e Sakuntala, que tinha uma vasta tesouraria bem abastecida, caiu vítima da morte. Dedicando trezentos cavalos aos deuses nas margens do Yamuna, vinte nas margens do Saraswati, e catorze nas margens do Ganga, aquele rei de grande energia, nos tempos passados, realizou (nesta ordem) mil sacrifícios de cavalo e cem Rajasuyas. Nenhum entre os reis da terra pode imitar os grandes feitos de Bharata, assim como nenhum homem pode, pelo poder de seus braços, se elevar ao firmamento.
Erigindo numerosos altares sacrificais, ele deu inúmeros cavalos e riqueza incontável ao sábio Kanwa. (Kanwa tinha criado em seu retiro a mãe de Bharata, Sakuntala, que tinha sido abandonada, imediatamente após seu nascimento, por sua mãe, Menaka, e o próprio Bharata nasceu no retiro de Kanwa). Quando até ele, ó Srinjaya, que era muito superior a ti nos quatro atributos e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho que está morto. Nós sabemos, ó Srinjaya, que Rama também, o filho de Dasaratha, caiu vítima da morte. Ele sempre cuidou de seus súditos como se eles fossem seus próprios filhos. Em seus domínios não haviam viúvas e ninguém que estivesse desamparado. De fato, Rama em governar seu reino sempre agiu como seu pai Dasaratha. As nuvens, produzindo chuvas na época habilmente, faziam as colheitas crescerem abundantemente. Durante o período de seu reinado, o alimento era sempre abundante em seu reino. Nenhuma morte ocorreu por afogamento ou pelo fogo. Enquanto Rama o governou, não houve medo de qualquer doença em seu reino. Todo homem vivia por mil anos, e todo homem era abençoado com mil filhos. Durante o período do governo de Rama, todos os homens eram sadios e todos os homens obtinham a realização de seus desejos. As próprias mulheres não brigavam entre si, o que dizer então dos homens? Durante seu governo seus súditos estavam sempre dedicados à virtude.
Contentes, coroadas com realização em relação a todos os objetos de seu desejo, sem medo, livres, e dedicadas ao voto da veracidade eram todas as pessoas quando Rama governava o reino. As árvores sempre produziam flores e frutos e não estavam sujeitas a acidentes. Toda vaca produzia leite enchendo um drona até a borda. Tendo morado, na prática de penitências rígidas, por quatorze anos nas florestas, Rama realizou dez Sacrifícios de Cavalo de grande esplendor e a eles o acesso mais livre foi dado a todos. Possuidor de juventude, de uma cor escura, com olhos vermelhos, ele parecia com o líder de uma manada de elefantes. Com braços se estendendo até seus joelhos e de rosto belo, seus ombros eram como aqueles de um leão e a força de seus braços era grande. Ascendendo ao trono de Ayodhya, ele governou por onze mil anos. Quando ele, ó Srinjaya, que te superava nos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho que está morto. Nós sabemos, ó Srinjaya, que o rei Bhagiratha também morreu. Em um dos sacrifícios daquele rei, embriagado com o Soma que ele tinha bebido, Indra, o adorável castigador de Paka e o chefe dos deuses, derrotou, por aplicar o poder de seus braços, muitos milhares de Asuras. O rei Bhagiratha, em um dos sacrifícios que ele realizou, doou um milhão de donzelas enfeitadas com ornamentos de ouro. Cada uma daquelas moças estava sobre um carro e a cada carro estavam unidos quatro corcéis. Com cada carro haviam cem elefantes, todos da raça principal e enfeitados com correntes de ouro.
Atrás de cada elefante haviam mil corcéis, e atrás de cada corcel mil vacas, e atrás de cada vaca mil cabras e ovelhas. (A deusa-rio) Ganga, chamada (desde antes) Bhagirathi, sentou-se sobre o colo deste rei que morava perto (de sua corrente), e a partir deste incidente ela veio a ser chamada de Urvasi. (Ganga é nada mais do que a forma liquefeita de Vishnu. Por um tempo ela morou no cântaro (Kamandalu) de Brahman. Os ancestrais de Bhagiratha tendo perecido por causa da maldição de Kapila, Bhagiratha resolveu resgatar suas almas por chamar Ganga do céu e fazer suas águas sagradas passarem sobre o local onde as cinzas deles se encontravam. Ele conseguiu executar sua resolução depois de vencer muitas dificuldades. Urvasi literalmente significa alguém que senta no colo.) Ganga de curso triplo (uma corrente no céu, uma na terra, e uma nas regiões inferiores), concordou em ser a filha de Bhagiratha da linhagem de Ikshvaku, aquele monarca era sempre dedicado à realização de sacrifícios com presentes em profusão para os Brahmanas. Quando ele, ó Srinjaya, que te superava em relação aos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho. Nós ouvimos, ó Srinjaya, que Dilipa de grande alma também caiu vítima da morte. Os Brahmanas gostam muito de recitar seus feitos inumeráveis. Em um de seus grandes sacrifícios, aquele rei, com coração totalmente complacente, doou a terra inteira, cheia de riquezas, para os Brahmanas.
Em cada sacrifício realizado por ele, o sacerdote principal recebia como taxa sacrifical mil elefantes feitos de ouro. Em um de seus sacrifícios, a estaca (levantada para matar as vítimas) era feita de ouro e parecia extremamente bela. Cumprindo as funções atribuídas a eles, os deuses, tendo Sakra como seu chefe, costumavam procurar a proteção daquele rei. Sobre aquela estaca dourada possuidora de grande refulgência e decorada com um aro, seis mil Deuses e Gandharvas dançaram em alegria, e o próprio Viswavasu em seu meio tocou em sua Vina as sete notas segundo as regras que regulam suas combinações. Tal era a característica da música de Viswavasu que cada criatura (onde quer que ela pudesse estar) pensava que o grande Gandharva estava tocando somente para ela. Nenhum outro monarca poderia imitar esta realização do rei Dilipa. Os elefantes daquele rei, embriagados e adornados com mantas de ouro, costumavam deitar nas estradas. (Tal era a profusão da riqueza de Dilipa que nenhum cuidado era tomado para manter os elefantes enfeitados com ouro dentro de cercas protegidas.) Procederam para o céu aqueles homens que conseguiram obter mesmo uma visão do rei Dilipa de grande alma que era sempre verdadeiro em palavras e cujo arco podia resistir a cem inimigos iguais em energia a cem Anantas. Estes três sons nunca cessavam na residência de Dilipa, isto é, a voz de recitações Védicas, a vibração de arcos, e os gritos de ‘Que isto seja dado’.
Quando ele, ó Srinjaya, que te superava nos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não chore por teu filho que está morto. Mandhatri, o filho de Yuvanaswa também, ó Sanjaya, nós soubemos, caiu vítima da morte. As divindades chamadas Maruts extraíram aquela criança do estômago de seu pai através de um de seus lados. Surgido de uma quantidade de manteiga clarificada que tinha sido santificada por mantras (e que por engano tinha sido bebida por seu pai em vez da esposa de seu pai) Mandhatri nasceu do estômago de Yuvanaswa de grande alma. Possuidor de grande prosperidade, o rei Mandhatri conquistou os três mundos. Vendo aquela criança de beleza celestial deitada no colo de seu pai, os Deuses perguntaram uns aos outros, 'De quem esta criança irá mamar?' Então Indra se aproximou dele, dizendo, 'Ele irá mamar de mim!' A partir desta circunstância, as principais das divindades vieram a chamar a criança pelo nome de Mandhatri. (Literalmente: "A mim ele sugará".) Para a alimentação daquele filho de grande alma de Yuvanaswa, o dedo de Indra, colocado em sua boca, começou a produzir um jato de leite. Chupando o dedo de Indra, ele cresceu para um jovem vigoroso em cem dias. Em doze dias ele parecia com alguém de doze anos. A terra inteira em um dia veio a estar sob o domínio daquele rei virtuoso e corajoso e de grande alma que parecia com o próprio Indra por destreza em batalha. Ele derrotou o rei Angada, Marutta, Asita, Gaya, e Vrihadratha, o rei dos Angas.
Quando o filho de Yuvanaswa lutou em batalha com Angada, os deuses pensaram que o firmamento estava se partindo com a vibração de seu arco. A terra inteira desde onde o Sol se ergue até onde ele se põe é citada como o campo de Mandhatri. Tendo realizado Sacrifícios de Cavalo e cem Rajasuyas, ele deu para os Brahmanas muitos peixes Rohita. Aqueles peixes tinham cada um dez Yojanas de comprimento e um de largura. Aqueles que sobravam depois de satisfazer os Brahmanas eram divididos pelas outras classes entre elas mesmas. Quando ele, ó Srinjaya, que te superava em relação aos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho que está morto. Nós sabemos, ó Sanjaya, que Yayati, o filho de Nahusha, também caiu vítima da morte. Tendo subjugado o mundo todo com seus mares, ele viajou através dele, decorando-o com sucessivos altares sacrificais, os intervalos entre os quais eram medidos por arremessos de um pedaço pesado de madeira. (Yayati, tendo erigido um altar, pegava e arremessava um pedaço de madeira adiante, e sobre o local onde ele caía, erigia outro altar. Dessa maneira ele procedeu até que ele alcançou a própria beira-mar.) De fato, ele alcançou as próprias margens do oceano enquanto procedia realizando grandes sacrifícios (naqueles altares ao longo de seu caminho). Tendo realizado mil sacrifícios e cem Vajapeyas, ele gratificou os principais dos Brahmanas com três montanhas de ouro.
Tendo matado muitos Daityas e Danavas devidamente organizados em batalha, o filho de Nahusha, Yayati, dividiu toda a terra (entre seus filhos). Finalmente rejeitando seus outros filhos encabeçados por Yadu e Drahyu, ele instalou (seu filho mais novo) Puru, em seu trono e então entrou nas florestas acompanhado por sua esposa. Quando ele, ó Srinjaya, que te superava de longe nos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho que está morto. Nós ouvimos, ó Srinjaya, que Amvarisha também, o filho de Nabhaga, caiu vítima da morte. Aquele protetor (do mundo) e principal dos reis era considerado por seus súditos como a encarnação da virtude. Aquele monarca, em um de seus sacrifícios, designou para os Brahmanas, para servi-los, um milhão de reis que tinham eles mesmos realizado milhares de sacrifícios cada um. Homens de piedade louvaram Amvarisha, o filho de Nabhaga, dizendo que tais façanhas nunca tinham sido realizadas antes, nem que ações similares a elas seriam realizadas no futuro. Aquelas centenas e centenas e milhares e milhares de reis (que por ordem de Amvarisha serviram em seus sacrifícios os Brahmanas que tinham ido lá) se tornaram (pelos méritos de Amvarisha) coroados com os frutos do Sacrifício de Cavalo, e seguiram seu senhor pelo Caminho do Sul (para regiões de esplendor e felicidade). Quando ele, ó Srinjaya, que te superava de longe nos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho que está morto.
Nós ouvimos, ó Srinjaya, que Sasavindu também, o filho de Chitrasena, caiu vítima da morte. Aquele rei de grande alma tinha cem mil esposas, e um milhão de filhos. Todos eles costumavam vestir armaduras douradas e todos eles eram arqueiros excelentes. Cada um daqueles príncipes se casou com cem princesas, e cada princesa trouxe cem elefantes. Com cada um daqueles elefantes haviam cem carros. Com cada carro haviam cem corcéis, todos de boa raça e todos enfeitados com arreios de ouro. Com cada corcel haviam cem vacas, e com cada vaca haviam cem ovelhas e cabras. Esta riqueza incontável, ó monarca, Sasavindu doou, em um Sacrifício de Cavalo, para os Brahmanas. Quando ele, ó Srinjaya, que te superava de longe nos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho que está morto. Nós ouvimos, ó Srinjaya, que Gaya também, o filho de Amurtarayas, caiu vítima da morte. Por cem anos, aquele rei subsistiu dos restos de comida sacrifical. (Satisfeito com tal devoção) Agni desejou lhe dar bênçãos. As bênçãos pedidas por Gaya foram, 'Que minha riqueza seja inesgotável mesmo se eu doar incessantemente. Que meu respeito pela virtude exista para sempre. Que meu coração sempre tenha prazer na Verdade, pela tua graça, ó comedor de libações sacrificais.' Foi ouvido por nós que o rei Gaya obteve todos aqueles desejos de Agni. Nos dias da lua nova, naqueles da lua cheia, e em todo quarto mês, por mil anos, Gaya realizou repetidamente o Sacrifício de Cavalo.
Erguendo-se (no término de cada sacrifício) ele dava cem mil vacas e centenas de mulas (aos Brahmanas) durante este período. Aquele touro entre homens satisfazia os deuses com Soma, os Brahmanas com riqueza, os Pitris com Swadha, e as mulheres com a realização de todos os seus desejos. Em seu grande Sacrifício de Cavalo, o rei Gaya fez uma base dourada ser feita, medindo cem cúbitos de comprimento e cinquenta de largura, e a deu como a taxa sacrifical. Aquele principal dos homens, Gaya, o filho de Amurtarayas, doou tanto gado quanto os grãos de areia que há, ó rei, no rio Ganga. Quando ele, ó Srinjaya, que te superava de longe nos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho que está morto. Nós sabemos, ó Srinjaya que Rantideva o filho de Sankriti também caiu vítima da morte. Tendo praticado as mais rígidas das penitências e o adorado com grande reverência, ele obteve estes benefícios de Sakra, tendo-os solicitado, dizendo: 'Que nós tenhamos comida abundante e convidados numerosos. Que a minha fé não sofra diminuição, e que nós não tenhamos que pedir nada de alguma pessoa.' Os animais, domésticos e selvagens, mortos em seus sacrifícios, costumavam se aproximar dele, isto é, Rantideva de grande alma de votos rígidos e grande fama, por sua própria vontade. As secreções que fluíam das peles dos animais (mortos em seus sacrifícios), produziram um rio poderoso e célebre o qual até hoje é conhecido pelo nome de Charmanwati. O rei Rantideva costumava fazer doações para os Brahmanas em um extenso cercado.
Quando o rei dizia, 'Para ti eu dou cem nishkas! A ti eu dou cem,' os Brahmanas (sem aceitarem o que era oferecido) faziam um barulho (expressivo de recusa). Quando, no entanto, o rei dizia, 'Eu dou mil nishkas' as doações eram todas aceitas. Todos os recipientes e pratos, no palácio de Rantideva, para guardar alimento e outros artigos, todos os jarros e panelas, os potes e pratos e xícaras, eram de ouro. Naquelas noites durante as quais os convidados costumavam morar na residência de Rantideva, vinte mil e cem vacas tinham que ser mortas. Ainda em tais ocasiões, os cozinheiros, enfeitados com brincos, costumavam proclamar (entre aqueles que se sentavam para jantar): 'Há sopa abundante, tomem tanto quanto vocês desejem; mas de carne nós não temos tanto hoje quanto em ocasiões anteriores.' Quando ele, ó Srinjaya, que te superava de longe nos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho que está morto. Nós ouvimos, ó Srinjaya, que Sagara de grande alma também caiu vítima da morte. Ele era da linhagem de Ikshvaku, um tigre entre homens, e de destreza sobre-humana. Sessenta mil filhos costumavam andar atrás dele, como miríades e mais miríades de estrelas servindo a Lua no firmamento sem nuvens do outono. Seu domínio se estendia por sobre toda esta terra. (Literalmente: Não havia senão um guarda-sol aberto sobre a terra naquela época). Ele gratificou os deuses por realizar mil Sacrifícios de Cavalo.
Ele doava para Brahmanas dignos mansões suntuosas com colunas de ouro e (outras partes) feitas totalmente daquele metal precioso, contendo camas caras e grupos de damas belas com olhos parecendo pétalas de lótus, e diversos outros tipos de objetos valiosos. Por sua ordem, os Brahmanas dividiam aqueles presentes entre eles mesmos. Por raiva aquele rei fez a terra ser escavada depois do que ela veio a ter o oceano em sua superfície, e por isto, o oceano veio a ser chamado Sagara pelo seu nome. Quando ele, ó Srinjaya, que te superava de longe nos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não sofra por teu filho que está morto. Nós ouvimos, ó Srinjaya, que o rei Prithu também, o filho de Vena, caiu vítima da morte. Os grandes Rishis, reunindo-se na grande floresta, o instalaram na soberania da terra. E porque era pensado que ele melhoraria toda a humanidade, ele foi, por esta razão, chamado de Prithu (o que melhora). E porque também ele protegia o povo de injúrias (Kshata), ele foi, por esta razão, chamado de um Kshatriya (o que protege de injúrias). Contemplando Prithu, o filho de Vena, todas as criaturas da terra exclamavam, 'Nós somos afeiçoados carinhosamente a ele!' Por esta circunstância do apego carinhoso (a ele de todas as criaturas), ele veio a ser chamado de um Raja (alguém que pode inspirar afeto). A terra, durante seu domínio, produzia colheitas sem ser cultivada, cada folha que as árvores tinham portava mel; e cada vaca produzia um jarro cheio de leite.
Todos os homens eram vigorosos e todos os seus desejos costumavam ser coroados com realização. Eles não tinham medo de qualquer tipo. Eles costumavam viver, como lhes agradava, em campos ou em casas (protegidas). Quando Prithu desejava atravessar o oceano, as águas se tornavam solidificadas. Os rios também nunca aumentavam quando ele tinha que cruzá-los, mas permaneciam perfeitamente calmos. O estandarte sobre seu carro se movia livremente em todos os lugares (sem ser obstruído por algum obstáculo). O rei Prithu, em um de seus grandes Sacrifícios de Cavalo, deu para os Brahmanas vinte e uma montanhas de ouro, cada uma medindo três nalwas. (Cada nalwa mede quatrocentos cúbitos). Quando ele, ó Srinjaya, que te superava de longe nos quatro atributos principais e que era mais puro do que teu filho, caiu vítima da morte, não chore por teu filho que está morto. Sobre o que, ó Srinjaya, tu refletes em silêncio? Parece, ó rei, que tu não ouviste estas minhas palavras. Se tu não as ouviste, então este meu discurso foi uma rapsódia inútil, como remédios ou dieta para uma pessoa às portas da morte.'” "Srinjaya disse, 'Eu estou prestando atenção, ó Narada, a este teu discurso de significado excelente e perfumado como uma guirlanda de flores, este discurso sobre a conduta de sábios nobres de grande alma de atos meritórios e grande fama, que pode certamente dissipar a dor. Teu discurso, ó grande sábio, não foi uma rapsódia inútil. Eu estou livre da aflição na tua própria vista. Como alguém nunca saciado ao beber néctar, eu não estou saciado com tuas palavras.
Ó tu de visão verdadeira, se tu, ó senhor, estiveres inclinado a mostrar tua graça por esta pessoa queimando por causa da morte de seu filho, então aquele filho, por aquela tua graça, com certeza reviverá e se misturará mais uma vez comigo (nesta vida).’” "Narada disse, 'Eu devolverei para ti aquele teu filho, chamado Suvarnashthivin, que Parvata te deu e que foi privado de vida. Do esplendor do ouro, aquele filho terá mil anos.'" 30 "Yudhishthira disse, 'Como o filho de Srinjaya se tornou Suvarnashthivin? (Literalmente, alguém cujas fezes são ouro). Por que também Parvata deu a Srinjaya aquele filho? E por que ele morreu? Quando as vidas de todos os homens naqueles dias se estendia por mil anos, por que o filho de Srinjaya morreu na infância? Ou, ele era Suvarnashthivin em nome somente? Como também ele veio a ser assim? Eu desejo saber tudo isto.'” "Krishna disse, ‘Eu narrarei para ti, ó rei, os fatos como eles aconteceram. Há dois Rishis, os principais no mundo, chamados Narada e Parvata. Narada é o tio materno e Parvata é o filho de sua irmã. Com corações alegres, o tio Narada e o sobrinho Parvata, antigamente, ó rei, deixaram o céu para um passeio agradável na terra para experimentar manteiga clarificada e arroz. Ambos, possuidores de grande mérito ascético, vagaram sobre a terra, subsistindo do alimento comido por seres humanos.
Cheios de alegria e nutrindo grande afeição um pelo outro, eles fizeram um pacto que, qualquer desejo, bom ou mau, que fosse nutrido por um deveria ser revelado ao outro, mas no acontecimento de um deles agir de outra maneira ele estaria sujeito à maldição do outro. Concordando com aquele entendimento, aqueles dois grandes Rishis, adorados de todos os mundos, foram ao rei Srinjaya, o filho de Sitya, e disseram a ele, 'Nós dois, para o teu bem, moraremos contigo por uns poucos dias. Ó senhor da terra, atenda às nossas necessidades devidamente.' O rei, dizendo, ‘Assim seja’, se pôs ele mesmo a servi-los com hospitalidade. Depois de um tempo, um dia, o rei cheio de alegria apresentou para aqueles ilustres ascetas sua filha da aparência mais formosa, dizendo, ‘Esta minha filha servirá vocês. Brilhante como os filamentos do lótus, ela é bela e de membros impecáveis, talentosa e de modos gentis, e se chama Sukumari.’ ‘Muito bem’, disseram os Rishis em resposta, e então o rei se dirigiu à sua filha, dizendo, 'Ó filha, sirva estes dois Brahmanas como se tu estivesses servindo os deuses ou teu pai.' A princesa virtuosa, dizendo, 'Assim seja' começou a servi-los em obediência à ordem de seu pai. Seus serviços respeitosos e beleza inigualável logo inspiraram Narada com uma paixão carinhosa por ela. Aquele sentimento carinhoso começou a crescer no coração do santo ilustre como a lua crescendo gradualmente na acessão da quinzena iluminada. O virtuoso Narada, no entanto, dominado pela vergonha, não pode revelar aquela atração ardente para o filho de sua irmã, Parvata de grande alma.
Por meio de seu poder ascético, como também por sinais, Parvata compreendeu tudo. Inflamado com raiva, o último então resolveu amaldiçoar Narada angustiado de amor. E ele disse, 'Tendo por tua própria vontade feito um acordo comigo que, qualquer desejo, bom ou mau, que fosse nutrido um de nós deveria ser revelado ao outro, tu o violaste. Estas foram tuas próprias palavras. Ó Brahmana! É por isto que eu te amaldiçoarei. Tu não me disseste antes que teu coração tinha sido perfurado pelos encantos da donzela Sukumari! É por isto que eu te amaldiçoarei. Tu és um Brahmacharin. Tu és meu preceptor. Tu és um asceta e um Brahmana. Ainda assim tu quebraste o pacto que fizeste comigo. Cheio de raiva eu irei, por isto, te amaldiçoar. Ouça-me. Esta Sukumari irá, sem dúvida, se tornar tua esposa. Desde o momento do teu casamento, no entanto, ó poderoso, ela e todos os homens te verão um macaco, pois tuas verdadeiras feições terão desaparecido, e tu parecerás um macaco para todos.' Ouvindo estas palavras dele, o tio Narada, cheio de ira, amaldiçoou seu sobrinho Parvata em retorno, dizendo, 'Embora tu tenhas mérito ascético e Brahmacharya e verdade e autocontrole, e embora tu estejas sempre dedicado à virtude, tu ainda não conseguirás proceder para o céu.' Cheios de raiva e desejo de vingança, eles se amaldiçoaram e se inflamaram dessa maneira um contra o outro como um par de elefantes enfurecidos. Desde aquele tempo Parvata de grande alma começou a vagar sobre a terra, respeitado como ele merecia, ó Bharata, por sua própria energia.
Narada então, aquele principal dos Brahmanas, obteve segundo os ritos devidos a mão da filha de Srinjaya, a impecável Sukumari. A princesa, no entanto, viu Narada exatamente como a maldição havia dito. De fato, exatamente depois que o último dos mantras do casamento foi recitado, Sukumari viu que o Rishi celeste tinha um rosto como aquele de um macaco. Ela, no entanto, por causa daquilo, não desrespeitou seu marido. Por outro lado, ela dedicou seu amor a ele. De fato, a princesa, casta como ela era, se devotou totalmente a seu marido e em seu coração não desejou ninguém mais nem entre os deuses, Munis, e Yakshas, como marido. Um dia, quanto o ilustre Parvata, no decurso de suas vagueações, entrou em uma floresta solitária, ele viu Narada lá. Saudando-o, Parvata disse, 'Mostre tua graça para mim por me permitir ir para o céu, ó pujante.' Vendo o triste Parvata ajoelhado diante dele com mãos unidas, Narada, ele mesmo triste, disse a ele, 'Tu me amaldiçoaste primeiro, dizendo, 'Seja tu um macaco!' e depois que tu me disseste isto, eu te amaldiçoei de raiva, dizendo, 'Deste dia em diante tu não morará no céu.' Isto não foi certo de tua parte, já que tu és como um filho para mim.' Os dois santos então libertaram um ao outro das suas maldições mútuas. Vendo seu marido possuidor de forma celeste e resplandecente com beleza, Sukumari fugiu dele, tomando-o por alguém que não era seu marido. Vendo a bela princesa fugindo de seu marido, Parvata se dirigiu a ela, dizendo, 'Este é mesmo teu marido. Não tenha nenhum receio.
Este é o ilustre e poderoso Rishi Narada, este principal dos seres virtuosos. Ele é teu marido, de uma alma contigo. Não tenha qualquer dúvida.' Assegurada de diversas maneiras pelo ilustre Parvata e informada também da maldição sobre seu marido, a princesa recuperou sua equanimidade. Então Parvata procedeu para o céu e Narada para sua casa." "Vasudeva continuou, 'O ilustre Rishi Narada, que foi ele mesmo um ator neste caso, está aqui. Ó melhor dos homens, perguntado por ti, ele te dirá tudo o que aconteceu.'" Vaisampayana disse, "O nobre filho de Pandu então se dirigiu a Narada, dizendo, 'Ó santo, eu desejo saber sobre o nascimento da criança cujas fezes eram ouro.' Assim endereçado pelo rei Yudhishthira, o justo, o sábio Narada começou a narrar a ele tudo o que tinha ocorrido com relação àquela criança de fezes douradas.” "Narada disse, 'Foi exatamente assim, ó tu de braços poderosos, como Kesava aqui disse. Solicitado por ti eu agora narrarei a parte restante desta história. Eu mesmo, e o filho de minha irmã, o grande asceta Parvata, fomos (em uma ocasião) até Srinjaya, aquele principal de todos os reis vitoriosos, para residir com ele. Honrados por ele com os ritos devidos, e com todos os nossos desejos satisfeitos, nós tomamos nossa residência em seu domicílio. Depois que a estação das chuvas tinha passado, e quando chegou a hora da nossa partida, Parvata me disse estas palavras importantes e convenientes à hora: 'Nós, ó Brahmana, moramos na residência deste rei por algum tempo, muito honrados por ele.
Pense qual retribuição nós devemos dar.' Eu então, ó monarca, me dirigi a Parvata de aspecto abençoado, dizendo, 'Ó sobrinho, isto fica bem em ti, e, ó tu de grande poder, tudo isto depende de ti. Pelas tuas bênçãos que o rei seja feito feliz e que ele realize seus desejos. Ou, se tu escolheres, que ele seja coroado com sucesso pelo mérito ascético de nós dois.' Depois disto, Parvata chamou o rei Srinjaya, aquela principal das pessoas vitoriosas, e lhe disse estas palavras, ó touro da raça Kuru, 'Nós estamos muito satisfeitos, ó rei, com tuas atenções hospitaleiras dadas a nós com toda a sinceridade. Com a nossa permissão, ó principal dos homens, pense no benefício que tu desejas solicitar. Que o benefício, no entanto, seja tal que não possa implicar em inimizade para com os deuses ou destruição para os homens! Aceite então, ó rei, uma bênção, pois tu mereces uma como nós pensamos.' Ouvindo estas palavras, Srinjaya respondeu, 'Se vocês estão satisfeitos comigo, meu objetivo então foi alcançado, pois isso em si mesmo é o minha grande bênção e é considerado por mim como a realização de todos os meus desejos.' Para Srinjaya que falou dessa maneira, Parvata disse novamente, 'Solicite, ó rei, a realização daquele desejo que tu nutres no teu coração, por muito tempo.' Srinjaya respondeu, 'Eu desejo um filho que seja heróico e possuidor de grande energia, firme em seus votos e de vida longa, altamente abençoado e possuidor de esplendor igual ao do próprio Chefe das divindades.' Nisto, Parvata disse, 'Este teu desejo será realizado.
Teu filho, no entanto, não viverá muito tempo, pois teu desejo por tal filho é para predominar sobre o Chefe dos deuses. Teu filho será conhecido pelo nome de Suvarnashthivin. Ele será possuidor do esplendor como aquele do Chefe dos deuses, mas cuide de protegê-lo sempre daquela divindade.' Ouvindo estas palavras de Parvata de grande alma, Srinjaya começou a suplicar àquele santo para ordenar de outra maneira, dizendo, 'Que meu filho seja de vida longa, ó Muni, pelo teu mérito ascético.' Parvata, no entanto, não disse nada, por predileção por Indra. Vendo o rei muito triste, eu disse a ele, 'Pense em mim, ó rei, (na tua angústia), e eu prometo vir quando pensado por ti. Não sofra, ó senhor da terra! Eu te darei de volta aquele teu filho querido, mesmo se ele estiver morto, em sua forma viva.' Tendo dito isso àquele monarca, nós dois deixamos sua presença para irmos para onde nós desejávamos, e Srinjaya voltou para sua residência como lhe agradava. Depois que algum tempo tinha passado, nasceu para o sábio nobre Srinjaya um filho de grande destreza e brilhante com energia. A criança cresceu como um lótus grande em um lago, e se tornou Suvarnashthivin na verdade como em nome. Este fato extraordinário, ó melhor dos Kurus, logo se tornou amplamente conhecido pelo mundo. O Chefe dos deuses também veio a saber disto como o resultado da bênção de Parvata. Temendo humilhação (pelas mãos da criança quando ele crescesse), o matador de Vala e Vritra começou a vigiar o príncipe.
Ele comandou sua arma celeste Trovão, que estava perante ele em forma incorporada, dizendo, 'Vá, ó poderoso, e assumindo a forma de um tigre mate aquele príncipe. Quando crescer, este filho de Srinjaya pode, por suas realizações, me humilhar, ó Trovão, como Parvata disse.' Assim endereçado por Sakra, a arma celeste Trovão, aquele subjugador de cidades hostis, começou daquele dia em diante a vigiar constantemente o príncipe. Srinjaya, enquanto isso, tendo obtido aquele filho cujo esplendor parecia aquele do próprio Indra, se encheu de alegria. O rei, acompanhado por suas esposas, e as outras senhoras de sua família, foi residir no meio de uma floresta. Um dia, nas margens do Bhagirathi, o menino, acompanhado por sua babá, corria para lá e para cá em brincadeiras. Embora com somente cinco anos de idade, sua destreza, mesmo então, parecia aquela de um elefante poderoso. Enquanto assim empenhada, a criança encontrou um tigre poderoso que veio sobre ele repentinamente. O príncipe criança tremeu violentamente enquanto ele estava sendo esmagado pelo tigre e logo caiu sem vida sobre a terra. Ao ver isto a babá proferiu gritos altos de angústia. Tendo matado o príncipe, o tigre, pelos poderes de ilusão de Indra, desapareceu. Ouvindo a voz da babá que gritava, o rei, em grande ansiedade correu até o local. Ele viu seu filho lá, com seu sangue bebido, e jazendo sem vida sobre o solo como a lua caída do firmamento. Pegando no colo o menino coberto com sangue, o rei, com coração ferido pela dor, começou a prantear lamentavelmente.
As senhoras reais então, afligidas pela dor e chorando, correram rapidamente ao local onde o rei Srinjaya estava. Naquela situação o rei pensou em mim com atenção concentrada. Sabendo que o rei estava pensando em mim eu apareci perante ele. Tomado pela dor como o rei estava, eu recitei para ele todas aquelas histórias, ó monarca, que o herói da tribo Yadu já recitou para ti. Eu trouxe o filho de Srinjaya de volta à vida, com a permissão de Indra. Aquilo que está ordenado deve ocorrer. É impossível que isto seja de outra maneira. Depois disto, o príncipe Suvarnashthivin de grande fama e energia começou a encantar os corações de seus pais. De grande destreza, ele ascendeu ao trono de seu pai depois que o último foi para o céu, e governou por um período de mil e cem anos. Ele adorou os deuses em muitos sacrifícios grandiosos caracterizados por presentes abundantes. Possuidor de grande esplendor, ele gratificou os deuses e os Pitris. Tendo procriado muitos filhos, todos os quais por seus herdeiros multiplicaram a linhagem, ele seguiu pelo caminho de toda a natureza, ó rei, depois de muitos anos. Ó principal dos reis, dissipe esta angústia nascida no teu coração, assim como Kesava te aconselhou, como também Vyasa de penitências austeras.
Levante, ó rei, e carregue a responsabilidade deste teu reino ancestral, e realize sacrifícios excelentes e grandiosos para que tu possas obter (após a morte) quaisquer regiões que possam ser desejadas por ti!'" 32 Vaisampayana disse, "Ao rei Yudhishthira que ainda permanecia quieto e mergulhado na dor, Vyasa Nascido na Ilha, aquele grande asceta, conhecedor das verdades de religião, falou novamente." "Vyasa disse, 'Ó tu de olhos como pétalas de lótus, a proteção dos súditos é o dever de reis. Aqueles homens que são sempre praticantes do dever consideram o dever como todo-poderoso. Portanto, ó rei, siga os passos de teus ancestrais. Para os Brahmanas, as penitências são um dever. Esta é a ordenança eterna dos Vedas. Penitências, portanto, ó touro da raça Bharata, constituem o dever eterno dos Brahmanas. Um Kshatriya é o protetor de todas pessoas em relação aos seus deveres. (Quaisquer impedimentos que um Brahmana ou Vaisya possa encontrar no cumprimento de seus deveres devem ser removidos por um Kshatriya) O homem que, viciado nas posses mundanas, transgride restrições saudáveis, aquele ofensor contra a harmonia social, deve ser castigado com uma mão forte. A pessoa insensata que procura desobedecer a autoridade, seja ele um servidor, um filho, ou até um santo, de fato, todos os homens de tal natureza pecaminosa devem por todos meios ser castigados ou até mortos. O rei que se comporta de outra maneira incorre em pecado. Aquele que não protege a moralidade quando esta está sendo desrespeitada é ele mesmo um transgressor contra a moralidade.
Os Kauravas eram transgressores contra a moralidade. Eles, com seus seguidores, foram mortos por ti. Tu foste cumpridor dos deveres da tua própria classe. Por que então, ó filho de Pandu, tu te entregas a esta tristeza? O rei deve matar os que merecem a morte, fazer doações para pessoas merecedoras de caridade, e proteger seus súditos de acordo com a ordenança.'” "Yudhishthira disse, 'Eu não duvido das palavras que saem de teus lábios, ó tu de grande mérito ascético! Tudo concernente à moralidade e dever é bem conhecido por ti, ó principal de todas as pessoas conhecedoras da moralidade e do dever! Eu, no entanto, por causa do reino, causei a morte de muitas pessoas! Aqueles atos, ó Brahmana, estão me queimando e me consumindo!'” "Vyasa disse, 'Ó Bharata, é o Ser Supremo o fazedor, ou é o homem o fazedor? Tudo é o resultado de Acaso no mundo, ou são os resultados que nós desfrutamos ou sofremos, os resultados de ações (prévias)? Se o homem, ó Bharata, faz todas as ações, boas ou más, sendo incitado a isso pelo Ser Supremo, então os resultados daquelas ações devem se vincular ao próprio Ser Supremo. Se uma pessoa corta, com um machado, uma árvore em uma floresta, é a pessoa que incorre em pecado e não o machado. Ou, se é dito que, o machado sendo somente a causa material, a consequência da ação (de cortar) deve se ligar ao agente animado (e não à ferramenta inanimada), então o pecado pode ser dito como pertencente à pessoa que fez o machado. Isto, no entanto, dificilmente pode ser verdade.
Se não é razoável, ó filho de Kunti, que um homem deve incorrer na consequência de uma ação feita por outro, então, guiado por isto, tu deves jogar toda a responsabilidade sobre o Ser Supremo. (Isto é, tu deves pensar que as consequências de todos os atos devem se vincular ao Ser Supremo, ele sendo o incitador de todos nós.) Se, além disso, o homem for ele mesmo o agente de todas as suas ações virtuosas e pecaminosas, então não há Diretor Supremo, e, portanto, o que quer que tu tenhas feito não pode trazer más consequências sobre ti. Ninguém, ó rei, pode se desviar do que está destinado. Se, além disso, o Destino é o resultado das ações de vidas anteriores, então nenhum pecado pode se ligar a alguém nesta vida assim como o pecado de cortar uma árvore não pode tocar o fabricante do machado. (Ninguém sendo livre nesta vida, todos os atos de uma pessoa sendo o resultado de atos anteriores, não pode haver responsabilidade pelos atos nesta vida). Se tu pensas que é somente o acaso que age neste mundo, então tal ato de destruição nunca poderia acontecer nem acontecerá. (A maneira na qual esta grande batalha foi realizada mostra a evidência de um projeto e não mero acaso). Se é necessário averiguar o que é bom e o que é mau no mundo, preste atenção nas escrituras. Nas escrituras é afirmado que reis devem se manter com a vara de castigo erguida em suas mãos. Eu penso, ó Bharata, que os atos, bons e maus, estão girando continuamente aqui como uma roda, e os homens obtêm os resultados daqueles atos, bons ou maus, que eles fazem. Uma ação pecaminosa procede de outra.
Portanto, ó tigre entre reis, evite todas as ações más e não coloque teu coração na tristeza dessa maneira. Tu deves aderir, ó Bharata, aos deveres, mesmo que censuráveis, de tua própria classe. Esta autodestruição, ó rei, não fica bem em ti. Expiações, ó rei, são ordenadas para (más) ações. Quem está vivo pode realizá-las, mas quem morre fracassa em sua realização. Portanto, ó rei, sem sacrificar tua vida, realize aquelas ações expiatórias. Se tu não realizá-las tu poderás ter que te arrepender no mundo seguinte.'” 33 "Yudhishthira disse, 'Filhos e netos e irmãos e pais e sogros e preceptores e tios maternos e avôs, muitos Kshatriyas de grande alma, muitos parentes (por casamento), amigos, companheiros, filhos da irmã, e outros parentes, ó avô, e muitos dos principais dos homens vindos de diversos países, morreram. A morte de todos estes, ó avô, foi causada somente por mim, pelo desejo de reino. Tendo causado a morte de tantos reis heróicos que eram sempre dedicados à justiça e todos os quais tinham bebido Soma em sacrifícios, que fim eu obterei, ó grande asceta? Pensando que esta terra foi privada de muitos leões entre reis, todos os quais estavam desfrutando de grande prosperidade, eu queimo continuamente até agora. Tendo testemunhado aquele massacre de parentes e de milhões de outros homens, eu queimo de angústia, ó avô! Oh, qual será a situação daquelas principais das senhoras que estão privadas de filhos, de maridos, e de irmãos?
Repreendendo os Pandavas e os Vrishnis como assassinos cruéis, aquelas senhoras, com feições emaciadas e mergulhadas em sofrimento, se atirarão no chão! Não vendo seus pais e irmãos e maridos e filhos, aquelas senhoras, pela aflição, abandonando suas vidas, irão para a residência de Yama, ó principal dos Brahmanas! Eu não duvido disto. O rumo da moralidade é muito sutil. É evidente que nós seremos maculados pela culpa de matar mulheres por isto. Tendo matado nossos parentes e amigos e assim cometido um pecado inexpiável, nós teremos que cair no inferno com cabeças para baixo. Ó melhor dos homens, nós iremos, portanto, desgastar nossos membros com as mais austeras das penitências. Diga- me, ó avô, para que modo de vida eu devo me dirigir então.'" Vaisampayana continuou, "Ouvindo estas palavras de Yudhishthira, o Rishi Nascido na Ilha, tendo refletido agudamente por algum tempo, endereçou-se ao filho de Pandu dessa maneira: Vyasa disse, 'Lembrando dos deveres de um Kshatriya, ó rei, não ceda à dor. Todos aqueles Kshatriyas, ó touro entre Kshatriyas, morreram no cumprimento de seus próprios deveres. Em busca de grande prosperidade e de grande fama na terra, aqueles principais dos homens, todos os quais estavam sujeitos à morte, pereceram pela influência do Tempo. Tu não foste o matador deles, nem Bhima, nem Arjuna, nem os gêmeos. Foi o Tempo que levou a vitalidade deles segundo a grande lei de mudança. O Tempo não tem nem mãe, nem pai, nem alguém a quem ele esteja disposto a demonstrar qualquer favor. Ele é a testemunha das ações de todas as criaturas.
Por ele eles foram levados embora. Esta batalha, ó touro da raça Bharata, foi somente uma ocasião ordenada por ele. Ele faz todas as criaturas serem mortas pelo auxílio de criaturas. Esta é a maneira na qual ele aplica seu poder irresistível. Saiba que o Tempo (em seu intercâmbio com criaturas) é dependente do vínculo da ação e é a testemunha de todas as ações boas e más. É o Tempo que ocasiona os resultados, repletos de felicidade ou dor, das nossas ações. Pense, ó poderosamente armado, nas ações daqueles Kshatriyas que morreram. Aquelas ações foram as causas de sua destruição e foi por causa delas que eles pereceram. Pense também nos teus próprios atos consistindo em práticas de votos com alma controlada. E pense também em como tu foste forçado pelo Ordenador Supremo a fazer tal ato (como a matança de tantos seres humanos). Como uma arma feita por um ferreiro ou carpinteiro está sob o controle do homem que a está manipulando, e se move como ele a move, similarmente este universo, controlado por ações feitas no Tempo, se move como aquelas ações o movem. Vendo que os nascimentos e mortes de criaturas ocorrem sem alguma causa (determinável) e em perfeito desregramento, tristeza e alegria são totalmente desnecessárias. Embora esta confusão no teu coração seja uma mera ilusão, ainda, se isto te agrada, ó rei, realize ritos expiatórios (para te livrar do teu assim chamado pecado). Sabe-se, ó Partha, que os deuses e os Asuras lutaram uns com os outros. Os Asuras eram os mais velhos, e os deuses os irmãos mais jovens.
Cobiçosos de prosperidade, foi violenta a batalha travada entre eles. A luta durou por trinta e dois mil anos. Fazendo da terra uma vasta extensão de sangue, os deuses mataram os Daityas e ganharam a posse do céu. Tendo obtido a posse da terra, um (grande) número de Brahmanas, conhecedores dos Vedas, se armaram, estupefatos pelo orgulho, com os Danavas ajudá-los na luta. Eles eram conhecidos pelo nome de Salavrika e numeravam oitenta e oito mil. Todos eles, no entanto, foram mortos pelos deuses. Aquelas pessoas de alma pecaminosa que desejam a extinção da virtude e que espalham a pecaminosidade merecem ser mortas assim como os Daityas raivosos foram mortos pelos deuses. Se por matar um único indivíduo uma família puder ser salva, ou, se por matar uma única família o reino puder ser salvo, tal ação de matança não será uma transgressão. O pecado, ó rei, às vezes assume a forma de virtude, e a virtude às vezes assume a forma de pecado. Aqueles, no entanto, que são eruditos, sabem qual é qual. Portanto, console a ti mesmo, ó filho de Pandu, pois tu és bem versado nas escrituras. Tu, ó Bharata, somente seguiste o caminho antigamente trilhado pelos próprios deuses. Homens como vocês nunca vão para o inferno, ó touro da raça Pandu! Conforte estes teus irmãos e todos os teus amigos, ó opressor de inimigos! Quem deliberadamente se envolve em ações pecaminosas, e cometendo tais atos pecaminosos não sente vergonha mas continua o mesmo como antes, é chamado (na escritura) de um grande pecador. Não há expiação para ele e seus pecados não conhecem diminuição.
Tu és nascido em uma família nobre. Forçado pelas falhas de outros, tu fizeste isto muito a contragosto, e tendo- o feito tu te arrependeste. O Sacrifício de Cavalo, aquele rito formidável, é indicado como uma expiação para ti. Faça os preparativos para aquele sacrifício, ó monarca, e tu ficarás livre dos teus pecados. O divino castigador de Paka, tendo derrotado seus inimigos com a ajuda dos Maruts, gradualmente realizou cem sacrifícios e se tornou Satakratu (o realizador de cem sacrifícios). Livre do pecado, possuidor do céu, e tendo obtido muitas regiões de bem-aventurança e grande felicidade e prosperidade, Sakra, cercado pelos Maruts, está brilhando em beleza, e iluminando todos os quadrantes com seu esplendor. O marido de Sachi é adorado nos céus pelas Apsaras. Os Rishis e os outros deuses todos o adoram com reverência. Tu obtiveste a terra através da tua coragem. Todos os reis foram derrotados por ti, ó impecável, pela tua destreza. Procedendo com teus amigos para o reino deles, ó rei, instale seus irmãos, filhos, ou netos em seus tronos. Comportando-te com bondade até para com as crianças no útero, faça teus súditos contentes e felizes, e governe a terra. Instale em seus tronos as filhas daqueles que não tinham filhos. Mulheres gostam de prazer e poder. Por estes meios elas rejeitarão suas tristezas e ficarão felizes. Tendo confortado todo o império desta maneira, ó Bharata, adore os deuses em um Sacrifício de Cavalo como o virtuoso Indra fez no passado.
Não é apropriado para nós nos afligirmos por aqueles Kshatriyas de grande alma, ó touro da tua classe, (que morreram em batalha). Estupefatos pelo poder do destruidor, eles pereceram na observância dos deveres de sua própria classe. Tu cumpriste os deveres de um Kshatriya e obtiveste a terra sem um incômodo sobre ela. Cumpra agora tuas funções, ó filho de Kunti, pois então, ó Bharata, tu poderás obter felicidade no outro mundo.'" 34 - 35 “Yudhishthira disse, 'Depois de fazer quais ações um homem se torna sujeito a realizar expiação? E quais são os atos que ele deve fazer para ficar livre do pecado? Diga-me isto, ó avô.'” "Vyasa disse, 'Tendo deixado de fazer as ações que estão ordenadas, e feito aquelas que são proibidas, e tendo se comportado desonestamente, um homem se torna sujeito a realizar expiação. A pessoa na observância do voto Brahmacharya, que se levanta da cama depois de o sol ter nascido ou vai dormir enquanto o sol está se pondo, alguém que tem uma unha podre ou dentes pretos, alguém cujo irmão mais novo casa primeiro, alguém que casa antes de seu irmão mais velho estar casado, alguém culpado da morte de um Brahmana, que fala mal de outros, alguém que casa uma irmã mais jovem antes de a irmã mais velha estar casada, ou que casa uma irmã mais velha depois de ter casado uma mais nova, alguém que se desvia de um voto, que mata alguém das classes regeneradas, que dá um conhecimento dos Vedas para uma pessoa indigna disto, ou que não dá um conhecimento destes para uma pessoa que seja digna disto, alguém que tira muitas vidas, alguém que vende carne, que abandonou seu fogo (sagrado), que vende o conhecimento dos Vedas (isto é, que cobra taxas de seus pupilos para lhes ensinar as escrituras), alguém que mata seu preceptor ou uma mulher, alguém nascido em uma família pecaminosa, que mata um animal intencionalmente (isto é, não em um sacrifício), que incendeia uma casa habitada, que vive por meio de fraude, que age em oposição a seu preceptor, e que violou um acordo, estes todos são culpados de pecados que requerem expiação. Eu agora mencionarei outras ações que homens não devem fazer, isto é, ações que são proibidas pelo mundo e pelos Vedas. Ouça-me com atenção concentrada. A rejeição do próprio credo, a prática do credo de outras pessoas, ajudar no sacrifício ou nos ritos religiosos de alguém que não seja digno de tal ajuda, comer alimento que é proibido, abandonar alguém que anseia por proteção, negligenciar o sustendo dos empregados e dependentes, vender sal e melado (e outras substâncias similares), matar aves e animais, recusar, embora competente, a procriar com uma mulher que o solicita, omissão em ofertar os presentes diários (de punhados de grama para o gado e semelhantes), omissão em oferecer o dakshina, humilhar um Brahmana, estes todos são citados por pessoas familiarizadas com dever como atos que ninguém deve fazer. O filho que disputa com o pai, a pessoa que viola o leito de seu preceptor, o homem que deixa de produzir filhos em sua esposa, são todos pecaminosos, ó tigre entre homens! Eu agora declarei para ti, em resumo como também em detalhes, as ações e omissões pelas quais um homem se torna sujeito a realizar expiação. Escute agora as circunstâncias sob as quais os homens, mesmo por cometerem tais atos, não ficam manchados pelo pecado. Se um Brahmana bem familiarizado com os Vedas pega armas e avança contra ti em batalha para te matar, tu podes proceder contra ele para tirar a vida dele. Por tal ato o matador não se torna culpado de matar um Brahmana. Há um mantra nos Vedas, ó filho de Kunti, que afirma isto, eu declaro para ti somente aquelas práticas que são sancionadas pela autoridade dos Vedas. Alguém que mata um Brahmana que se desviou dos seus próprios deveres e que avança, com arma na mão, com a intenção de matar, não se torna realmente o assassino de um Brahmana. Em tal caso é a fúria do assassino que procede contra a fúria do assassinado. Uma pessoa por beber estimulantes alcoólicos em ignorância ou pelo conselho de um médico virtuoso quando sua vida está em perigo, deve ter as cerimônias regeneradoras realizadas mais uma vez em seu caso. Tudo o que eu te disse, ó filho de Kunti, sobre comer comida proibida, pode ser purificado por tais ritos expiatórios. Relações com a mulher do preceptor por ordem do preceptor não maculam o pupilo. O sábio Uddalaka fez seu filho Swetaketu ser gerado por um discípulo. Uma pessoa por cometer roubo por causa de seu preceptor em uma época de necessidade não é manchado pelo pecado. Uma pessoa, no entanto, que rouba para obter prazeres para si mesma se torna maculada. Uma pessoa não é maculada por roubar de outros que não Brahmanas (em uma época de miséria e por causa de seu preceptor). Somente alguém que rouba sob tais circunstâncias sem se apropriar de qualquer parte do roubo é intocado pelo pecado. Uma mentira pode ser contada para salvar a própria vida ou a de outro, ou por causa de seu preceptor, ou para satisfazer uma mulher, ou para ocasionar um casamento. O voto de Brahmacharya de um homem não é quebrado por ter sonhos molhados. Em tais casos a expiação prescrita consiste em despejar manteiga clarificada no fogo ardente. Se o irmão mais velho foi morto ou renunciou ao mundo, o irmão mais novo não incorre em pecado por se casar. Solicitado por uma mulher, relação com ela não destrói a virtude. Não se deve matar ou causar a morte de um animal exceto em um sacrifício. Os animais se tornaram sagrados (adequados para sacrifício) pela bondade manifestada em direção a eles pelo próprio Criador nas ordenanças prescritas por Ele. Por fazer uma doação em ignorância para um Brahmana não merecedor uma pessoa não incorre em pecado. A omissão (por ignorância) de se comportar com generosidade em direção a uma pessoa merecedora não leva ao pecado. Por se rejeitar uma esposa adúltera não se incorre em pecado. Por tal tratamento a própria mulher pode ser purificada enquanto o marido pode evitar o pecado. Alguém que conhece o uso verdadeiro do suco Soma (isto é, alguém que sabe que o suco Soma é usado em sacrifícios para satisfazer os deuses), não incorre em pecado por vendê-lo. Por despedir um empregado que é incompetente para prestar serviços não se é tocado pelo pecado. Eu agora te disse aqueles atos por fazer os quais uma pessoa não incorre em pecado. Eu agora te falarei da expiação em detalhes.'" 36 "Vyasa disse, 'Por penitências, ritos religiosos, e doações, ó Bharata, um homem pode se purificar de seus pecados se ele não cometê-los novamente. Por subsistir de uma única refeição por dia, e esta obtida por mendicância, por fazer todos os seus atos ele mesmo (sem contar com a ajuda de um empregado), por fazer sua ronda de mendicância com uma caveira humana em uma mão e um khattanga na outra, por se tornar um Brahmacharin e sempre pronto para o esforço, por abandonar toda a malícia, por dormir sobre a terra nua, por divulgar seu pecado para o mundo, por fazer tudo isto por doze anos completos, uma pessoa pode se limpar do pecado de ter matado um Brahmana. Por perecer por meio da arma de uma pessoa que vive pelo uso de armas, por vontade própria e pelo conselho de pessoas eruditas nas escrituras, ou por se jogar, por três vezes, de cabeça para baixo, sobre um fogo ardente, ou por andar cem Yojanas todo o tempo recitando os Vedas, ou por dar toda a sua propriedade para um Brahmana conhecedor dos Vedas, ou pelo menos tanto quanto possa lhe garantir meios suficientes para viver, ou uma casa devidamente mobiliada, e por proteger vacas e Brahmanas, alguém pode ser purificado do pecado de ter matado um Brahmana. Por viver da mais escassa refeição todos os dias por um espaço de seis anos, uma pessoa pode ser purificada daquele pecado. (A regra prescrita é que se deve comer de manhã nos primeiros três dias, à noite nos outros três, comer somente o que é conseguido sem pedir nos três dias seguintes, e jejuar completamente nos outros três. Isto é chamado de Krischara-bhojana. Cumprindo esta regra por seis anos uma pessoa pode se purificar do pecado de matar um Brahmana). Por praticar um voto mais difícil com relação à alimentação alguém pode se purificar em três anos. (Seguindo o mesmo esquema acima mas de sete em sete dias). Por viver de uma refeição em um mês uma pessoa pode se purificar no decurso de um ano somente. Por observar, além disso, um jejum absoluto, uma pessoa pode se purificar dentro de um muito tempo curto. Não há dúvida também de que se é purificado por um Sacrifício de Cavalo. Homens que são culpados de terem matado um Brahmana e que conseguiram tomar o banho final na conclusão do Sacrifício de Cavalo ficam limpos de todos os seus pecados. Esta é uma injunção de grande autoridade nos Srutis. Além disso, por sacrificar sua vida em uma batalha empreendida por causa de um Brahmana, um homem fica purificado do pecado de ter matado um Brahmana. Por dar cem mil vacas para pessoas merecedoras de doações uma pessoa vem a ser purificada do pecado de ter matado um Brahmana como também, de fato, de todos os seus pecados. Alguém que dá vinte e cinco mil vacas da espécie Kapila enquanto todas elas deram cria se torna limpo de todos os seus pecados. Quem, prestes a morrer, dá mil vacas com bezerros para pessoas pobres porém dignas fica livre do pecado. Aquele homem, ó rei, que doa cem corcéis da raça Kamvoja para Brahmanas de comportamento regulado se livra do pecado. Aquele homem, ó Bharata, que dá para uma pessoa tudo o que ela pede e que, tendo-o dado, não fala de sua ação para ninguém, fica livre do pecado. Se uma pessoa que uma vez tomou álcool bebe (como expiação) licor quente, ela santifica a si mesma agora e no futuro. Por cair do topo de uma montanha ou entrar em um fogo ardente, ou por sair em uma viagem eterna depois de renunciar ao mundo uma pessoa fica livre de todos os pecados. Por realizar o sacrifício prescrito por Vrihaspati, um Brahmana que bebe licores alcoólicos pode conseguir chegar à região de Brahman. Isto foi dito pelo próprio Brahman. Se uma pessoa, depois de ter bebido licor alcoólico, se torna humilde e faz uma doação de terra, e se abstém disto para sempre depois, ela se torna santificada e limpa. A pessoa que violou o leito de seu preceptor deve se deitar sobre um lençol de ferro tendo-o aquecido, e tendo cortado o emblema de seu sexo deve deixar o mundo por uma vida nas florestas, com olhos sempre virados para cima. Por rejeitar seu corpo alguém se purifica de todos os seus maus atos. Mulheres, por levarem uma vida regulada por um ano, se tornam limpas de todos os seus pecados. A pessoa que cumpre um voto muito rígido, ou doa toda a sua riqueza, ou perece em uma batalha lutada por causa de seu preceptor, se torna limpa de todos os seus pecados. Alguém que usa de mentira perante seu preceptor ou age em oposição a ele se purifica daquele pecado por fazer alguma coisa agradável para o preceptor. Alguém que se desviou do voto (de Brahmacharya), pode se purificar deste pecado por vestir a pele de uma vaca por seis meses e praticar as penitências prescritas no caso do assassinato de um Brahmana. Quem é culpado de adultério, ou de roubo, pode se purificar por cumprir votos rígidos por um ano. Quando se rouba a propriedade de alguém, se deve, por todos meios em seu poder, restituir para ele outra propriedade do valor daquela que foi roubada. Pode-se então ser limpo do pecado (de roubo). O irmão mais novo que se casou antes do casamento do irmão mais velho, como também o irmão mais velho cujo irmão mais jovem se casou antes dele, se purificam por cumprirem um voto rígido, com alma controlada, por doze noites. O irmão mais novo, no entanto, deve se casar novamente para resgatar seus antepassados falecidos. Após este segundo casamento, a primeira esposa se purifica e seu marido não incorre em pecado por tomá-la. Homens familiarizados com as escrituras declaram que mulheres podem ser purificadas até dos maiores pecados por praticarem o voto de chaturmasya, todo o tempo vivendo de comida escassa e limpa. Pessoas familiarizadas com as escrituras não levam em conta os pecados que as mulheres possam cometer por amor. Quaisquer que sejam seus pecados (desta descrição), elas são purificadas por seu curso menstrual como um prato metálico que é limpo com cinzas. Pratos (feitos de liga de metal e cobre) sujos por um Sudra que comeu deles, ou um recipiente do mesmo metal que foi cheirado por uma vaca, ou manchado pelo Gandusha de um Brahmana, podem ser limpos por meio das dez substâncias purificadoras. (Estes são os cinco produtos da vaca, além de terra, água, cinzas, ácidos e fogo.) É prescrito que um Brahmana deve adquirir e praticar toda a extensão da virtude. Para uma pessoa da classe nobre é prescrito que ela deve adquirir e praticar a extensão da virtude menos uma quarta parte. Assim, um Vaisya deve adquirir a medida menos uma quarta parte (do que a de um Kshatriya) e um Sudra menos uma quarta parte (do que a de um Vaisya). O peso ou a leveza de pecados (para propósitos de expiação) de cada uma das quatro classes deve ser determinado sobre este princípio. Tendo matado uma ave ou um animal, ou derrubado árvores vivas, uma pessoa deve divulgar seu pecado e jejuar por três noites. Por ter relações com alguém com quem relacão é proibida, a expiação é vagar em roupas molhadas e dormir em uma cama de cinzas. Estas, ó rei, são as expiações para ações pecaminosas, de acordo com a razão e precedentes e escrituras e ordenanças. Um Brahmana pode ser purificado de todos os pecados por recitar o Gayatri em um lugar sagrado, vivendo todo o tempo de alimentação frugal, abandonando a malícia, abandonando ira e ódio, indiferente a louvores e censuras, e se abstendo de falar. Ele deve durante o dia estar sob o abrigo do céu e deve se deitar à noite exatamente em tal lugar. Três vezes durante o dia, e três vezes durante a noite, ele deve também mergulhar com suas roupas em um rio ou lago para realizar suas abluções. Cumpridor de votos rígidos, ele deve se abster de falar com mulheres, Sudras, e pessoas decaídas. Um Brahmana por cumprir tais regulamentos pode ser purificado de todos os pecados cometidos inconscientemente por ele. Uma pessoa obtém no outro mundo os resultados, bons ou maus, das suas ações aqui, as quais são todas testemunhadas pelos elementos. Seja virtude ou vício, segundo a medida verdadeira que alguém adquire dos dois, ele desfruta ou sofre as consequências (aqui mesmo). Por conhecimento, por penitências, e por ações justas, portanto, alguém aumenta sua prosperidade (aqui mesmo). Alguém pode, portanto, da mesma maneira, aumentar sua miséria por cometer atos injustos. Deve-se, portanto, sempre realizar ações que são justas e se abster totalmente daquelas que são injustas. Eu agora indiquei quais são as expiações para os pecados que foram mencionados. Há expiação para todos os pecados exceto para os que são chamados Mahapatakas (pecados altamente hediondos). Com relação aos pecados a respeito de comida impura e semelhantes, e palavras impróprias, etc., eles são de duas classes, isto é, os cometidos conscientemente e os que são cometidos inconscientemente. Todos os pecados que são cometidos conscientemente são graves, enquanto os que são cometidos inconscientemente são triviais ou leves. Há expiação para ambos. De fato o pecado pode ser purificado pela (observância das) ordenanças citadas. Aquelas ordenanças, no entanto, são prescritas somente para os crentes (em Deus) e para os que têm fé. Elas não são para ateus ou para aqueles que não têm fé, ou para aqueles em quem o orgulho e a malícia predominam. Uma pessoa, ó tigre entre homens, que deseja prosperidade aqui e no futuro deve, ó principal dos homens virtuosos, recorrer a um comportamento virtuoso, a (conselhos de) homens que são honrados, e aos deveres que foram ordenados para ela. Portanto, pelas razões já explicadas (por mim), tu, ó rei, deves ser purificado de todos os teus pecados pois tu mataste teus inimigos na execução de teus deveres como um rei e para a proteção da tua vida e da tua herança. Ou, se apesar disto tu ainda te consideras pecaminoso, realize expiação. Não desperdice tua vida por causa de tal angústia que não é apropriada para um homem sábio.'” "Vaisampayana continuou, 'Assim endereçado pelo Rishi santo, o rei Yudhishthira, o justo, tendo refletido por um momento, disse estas palavras ao sábio.'" 37 "Yudhishthira disse, 'Diga-me, ó avô, qual comida é pura e qual é impura, qual doação é louvável, e quem deve ser considerado merecedor e quem não merecedor (de doações).'” "Vyasa disse, 'Com relação a isto é citado o antigo relato de uma conversa entre os ascetas e aquele senhor da criação, isto é, Manu. Na era Krita, um grupo de Rishis, de votos rígidos, tendo se aproximado do grande e poderoso senhor da criação, Manu, enquanto ele estava sentado comodamente, e pediram a ele para falar sobre os deveres, dizendo, 'Qual comida deve ser ingerida, qual pessoa deve ser considerada merecedora (de doações), quais doações devem ser feitas, como uma pessoa deve estudar, e quais penitências alguém deve realizar e como, e quais ações devem ser feitas e quais ações não devem ser feitas, ó senhor da criação, nos fale tudo sobre isto.' Assim endereçado por eles, o divino e auto- nascido Manu disse a eles, 'Ouçam-me enquanto eu explico os deveres em resumo e em detalhes. Em regiões que não foram proibidas, recitações silenciosas (de mantras sagrados, homa), jejuns, conhecimento do eu, rios sagrados, regiões habitadas por homens dedicados a atos pios, estes são citados como atos e objetos que são purificadores. Certas montanhas também são puras, como também comer ouro e banho em águas nas quais estão mergulhadas jóias e pedras preciosas. Permanência em lugares sagrados, e comer da manteiga santificada também, estes sem dúvida purificam depressa um homem. Nenhum homem será chamado de sábio se ele se entregou ao orgulho. Se ele deseja uma vida longa, ele deve por três noites beber água quente (como uma expiação por ter cedido ao orgulho). A recusa em se apropriar do que não é dado, doação, estudo (das escrituras), penitência, abstenção de ferir, veracidade, liberdade de ira, e culto aos deuses em sacrifícios, estas são as características da virtude. Também o que é virtude pode, segundo tempo e lugar, ser pecado. Assim a apropriação (do que pertence a outros), mentira, e injúria e assassinato, podem, sob circunstâncias especiais, se tornar virtudes, (apropriação, como no caso de um rei impondo multas aos transgressores e se apropriando delas para uso do estado; a mentira, como no caso de um servo ou seguidor leal para proteger a vida de seu mestre; e assassinato, como no caso de um criminoso pelo rei ou no exercício do direito de autodefesa). Com relação a pessoas capazes de julgar, as ações são de dois tipos, virtuosas e pecaminosas. Do ponto de vista mundano e do Védico, a virtude e o pecado são bons ou maus (de acordo com suas consequências). Do ponto de vista Védico, virtude e pecado (isto é, tudo o que um homem possa fazer ou não fazer), seria classificado sob ação e inação. Inação (abstenção dos ritos Védicos e adoção de uma vida de contemplação), leva à emancipação (do renascimento); enquanto as consequências da ação (prática dos ritos Védicos), são repetidas mortes e renascimentos. Do ponto de vista mundano, atos que são maus levam ao mal e as boas ações a consequências que são boas. Do ponto de vista mundano, portanto, virtude e pecado devem ser distinguidos pela boa ou má qualidade de suas consequências. Ações que são (aparentemente) más, quando empreendidas por considerações ligadas com os deuses, as escrituras, a própria vida, e os meios pelos quais a vida é mantida, produzem consequências que são boas. Quando uma ação é empreendida pela esperança, embora duvidosa, de que ela produzirá danos (para alguém) no futuro, ou quando uma ação é feita cuja consequência é visivelmente prejudicial, a expiação é prescrita. Quando uma ação é feita por raiva ou por um julgamento nublado, então a expiação deve ser realizada por causar dor ao corpo, guiado por precedente, por escrituras, e pela razão. Quando qualquer coisa, também, é feita para agradar ou desagradar a mente, o pecado surgido disto pode ser purificado por meio de alimentação santificada e pela recitação de mantras. O rei que põe de lado (em um caso específico) a vara de castigo, deve jejuar por uma noite. O sacerdote que (em um caso específico) se abstém de aconselhar o rei a infligir punição, deve jejuar por três noites como uma expiação. A pessoa que, por angústia, tenta cometer suicídio por meio de armas, deve jejuar por três noites. Não há expiação para quem abandona os deveres e práticas da sua ordem e classe, país, e família, e que abandona seu próprio credo. Quando surge uma ocasião de dúvida a respeito do que deve ser feito, deve ser considerado como a injunção das escrituras aquilo que dez pessoas versadas em escrituras Védicas ou três daquelas que as recitam frequentemente possam declarar. (Havia, como agora, pessoas para quem a leitura ou recitação das escrituras era uma profissão. As funções daqueles homens não eram diferentes daquelas dos rapsodistas da Grécia antiga.) O touro, terra, formigas pequenas, vermes gerados na sujeira, e veneno, não devem ser comidos por Brahmanas. Eles não devem também comer peixes que não têm escamas, e animais aquáticos de quatro patas como rãs e outros, exceto a tartaruga. Aves aquáticas chamadas Bhasas, patos, Suparnas, Chakravakas, patos mergulhadores, grous, corvos, shags, urubus, falcões, corujas, como também todos os animais carnívoros de quatro patas e que têm dentes longos e afiados, e aves, e animais que têm dois dentes e os que têm quatro dentes, como também o leite de ovelha, de jumento, de camelo, da vaca que recém pariu, de mulher e de veado, não devem ser tomados por um Brahmana. Além disto, a comida que foi oferecida a um homem, a qual foi cozida por uma mulher que deu à luz recentemente, e comida cozida por uma pessoa desconhecida, não deve ser comida. O leite também de uma vaca que pariu recentemente não deve ser tomado. Se um Brahmana come alimento que foi cozido por um Kshatriya, este diminui sua energia; se ele pega a comida fornecida por um Sudra, ela diminui seu esplendor Brahmânico; e se ele pega a comida fornecida por um ourives ou por uma mulher que não tem nem marido nem filhos ela diminui o período de sua vida. O alimento fornecido por um agiota é equivalente à sujeira, enquanto aquele fornecido por uma mulher que vive de prostituição é equivalente ao sêmen. A comida também fornecida por pessoas que toleram a não castidade de suas esposas, e por pessoas que são controladas por seus cônjuges, é proibida. A comida fornecida por uma pessoa selecionada (para receber doações) em certo estágio de um sacrifício, por alguém que não desfruta de sua riqueza nem faz donativos, fornecida por alguém que vende Soma, ou por um fabricante de sapatos, por uma mulher não casta, por um lavadeiro, por um médico, por pessoas servindo como vigias, por uma multidão de pessoas, por alguém que é apontado por toda uma aldeia, por alguém que tira seu sustento de manter garotas dançarinas, por pessoas casadas antes que seus irmãos mais velhos estejam casados, por bardos e panegiristas profissionais, e por aquelas que são jogadoras, a comida também que é trazida com a mão esquerda ou que é estragada, a comida que é misturada com álcool, a comida uma porção da qual já foi experimentada, e a comida que forma o resto de um banquete, não deve ser comida (por um Brahmana). Bolos, cana de açúcar, ervas cozidas mantidas como conserva e usadas como tempero, e arroz fervido em leite açucarado, se eles perderam seu sabor, não devem ser ingeridos. O pó de cevada frito e de outros tipos de grãos fritos, misturados com coalhos, se ficam envelhecidos pelo tempo, não devem ser ingeridos. Arroz fervido em leite açucarado, comida misturada com a semente tila, carne, e bolos, que não foram oferecidos aos deuses, não devem ser pegos por Brahmanas que levam um modo de vida familiar. Tendo primeiro satisfeito os deuses, Rishis, convidados, Pitris, e as divindades da família, um Brahmana que leva uma vida familiar deve então pegar seu alimento. Um chefe de família por viver assim em sua própria casa se torna como uma pessoa da classe Bhikshu que renunciou ao mundo. Um homem de tal comportamento, vivendo com suas esposas em vida familiar, ganha grande mérito religioso. Ninguém deve fazer uma doação para adquirir fama, ou por medo (de crítica ou semelhante) ou para um benfeitor. Um homem virtuoso não deve fazer doações para pessoas que vivem por cantar e dançar ou para aqueles que são gracejadores profissionais, ou para uma pessoa que está embriagada, ou para uma que é louca, ou para um ladrão, ou para um caluniador, ou para um idiota, ou para alguém que é de cor pálida, ou para alguém que é defeituoso de um membro, ou para um anão, ou para uma pessoa pecaminosa, ou para alguém nascido em uma família inferior e ruim, ou para alguém que não foi santificado pela prática de votos. Nenhum donativo deve ser feito para um Brahmana desprovido de conhecimento dos Vedas. Donativos devem ser feitos somente para quem é um Srotriya (isto é, alguém possuidor de um conhecimento dos Vedas). Uma doação imprópria e uma aceitação imprópria produzem más consequências para ambos, o doador e o recebedor. Como uma pessoa que procura cruzar o oceano com a ajuda de uma rocha ou de uma massa de catechu afunda junto com seu suporte, assim mesmo o doador e o recebedor (em tal caso) afundam juntos. Como um fogo que é coberto com combustível molhado não resplandece, assim mesmo o recebedor de uma doação que é desprovido de penitências e estudo e piedade não pode outorgar algum benefício (ao doador). Como água em uma (caveira humana) e leite em um saco feito de pele de cachorro se tornam impuros por causa da impureza dos recipientes nos quais eles são mantidos, assim mesmo os Vedas se tornam inúteis em uma pessoa que não tem um bom comportamento. Uma pessoa pode doar por compaixão para um Brahmana inferior que não tem mantras e votos, que é ignorante das escrituras e que nutre inveja. Alguém pode, por compaixão, doar para uma pessoa que é pobre ou afligida ou doente. Mas ele não deve doar para tal pessoa na crença de que ele derivará algum benefício (espiritual) disto ou ganhará qualquer mérito religioso por isto. Não há dúvida de que uma doação feita para um Brahmana privado dos Vedas se torna totalmente inútil por causa da imperfeição do recebedor. Como um elefante feito de madeira ou um antílope feito de couro, assim mesmo é um Brahmana que não estudou os Vedas. Todos os três têm apenas nomes. Como um eunuco é improdutivo com mulheres, como uma vaca é improdutiva com uma vaca, como uma ave que não tem penas vive em vão, assim mesmo é um Brahmana que não tem mantras. Como grão sem núcleo, como um poço sem água, como libações despejadas em cinzas, assim mesmo é um donativo para um Brahmana desprovido de erudição. Um Brahmana inculto é um inimigo (para todos) e é o destruidor do alimento que é oferecido para os deuses e Pitris. Uma doação feita para tal pessoa é em vão. Ele é, portanto, como um ladrão (da riqueza de outras pessoas). Ele nunca poderá conseguir alcançar regiões de bem-aventurança após a morte. Eu agora te disse em resumo, ó Yudhishthira, tudo o que foi dito (por Manu naquela ocasião). Este discurso excelente deve ser escutado por todos, ó touro da raça Bharata.'" 38 "Yudhishthira disse, 'Ó santo e grande asceta, eu desejo ouvir em detalhes quais são os deveres dos reis e quais são os deveres, integralmente, de todas as quatro classes. Eu desejo também ouvir, ó principal dos Brahmanas, qual comportamento deve ser adotado em épocas de infortúnio, e como eu posso subjugar o mundo por trilhar o caminho da moralidade. Este discurso sobre expiação, tratando (ao mesmo tempo) de jejuns e capaz de despertar grande curiosidade, me enche de alegria. A prática da virtude e o cumprimento dos deveres reais são sempre incompatíveis um com o outro. Por sempre pensar em como alguém pode conciliar os dois, minha mente fica constantemente perplexa.'” "Vaisampayana continuou, 'Então Vyasa, ó monarca, aquela principal de todas as pessoas familiarizadas com os Vedas, lançando seus olhos sobre aquela pessoa venerável e conhecedora de tudo, isto é, Narada, disse, ‘Se, ó rei, tu desejas ouvir sobre os deveres dos reis e moralidade integralmente, então peça a Bhishma, ó de braços fortes, aquele velho avô dos Kurus. Conhecedor de todos os deveres e possuidor de conhecimento universal, aquele filho de Bhagirathi removerá todas as dúvidas no teu coração sobre o assunto difícil dos deveres. Aquela deusa, isto é, o gênio do rio celestial de três cursos deu à luz ele. Ele viu com seus olhos físicos todos os deuses com Indra em sua dianteira. Tendo gratificado com seus serviços respeitosos os Rishis celestes encabeçados por Vrihaspati, ele adquiriu um conhecimento dos deveres dos reis. Aquele principal entre os Kurus obteve um conhecimento também daquela ciência, com suas interpretações, com Usanas e aquele regenerado que é o preceptor dos celestiais. Tendo praticado votos rígidos, aquele de braços fortes obteve um conhecimento de todos os Vedas e seus ramos, de Vasishtha e de Chyavana da linhagem de Bhrigu. Antigamente ele estudou sob o filho primogênito do próprio avô, isto é, Sanatkumara de esplendor refulgente, bom conhecedor das verdades da ciência mental e espiritual. Ele aprendeu integralmente os deveres dos Yatis dos lábios de Markandeya. O touro entre homens obteve todas as armas de Rama e Sakra. Embora nascido entre seres humanos, sua própria morte entretanto está sob seu controle. Embora sem filhos, ainda assim ele tem muitas regiões de bem- aventurança após a morte como ouvido por nós. Rishis regenerados de grande mérito sempre foram seus cortesãos. Não há nada entre os objetos que devem ser conhecidos que seja desconhecido para ele. Conhecedor de todos os deveres e de todas as verdades sutis de moralidade, ele mesmo irá discursar para ti sobre dever e moralidade. Vá até ele antes que ele abandone seu ar vital.’ Assim endereçado por ele, o filho de grande alma de Kunti, de grande sabedoria, disse as seguintes palavras ao filho de Satyavati, Vyasa, aquele principal dos homens eloquentes.'” "Yudhishthira disse, 'Tendo causado uma grande e horrenda carnificina de parentes, eu me tornei um pecador contra todos e um destruidor da terra. Tendo feito aquele próprio Bhishma, aquele guerreiro que sempre lutou honestamente, ser morto pela ajuda de fraude, como eu irei me aproximar para perguntar a ele (sobre deveres e moralidade)?'” "Vaisampayana continuou, 'Movido pelo desejo de beneficiar todas as quatro classes, o poderosamente armado e chefe de grande alma da tribo Yadu se dirigiu mais uma vez àquele principal dos reis (nas palavras seguintes).'” "Vasudeva disse, 'Não cabe a ti demonstrar tal persistência na aflição. Faça o que, ó melhor dos reis, o santo Vyasa disse. Os Brahmanas, ó de braços fortes, e estes teus irmãos de grande energia estão diante de ti de modo suplicante como pessoas suplicando a divindade das nuvens no fim do verão. Os restante dos reis que não foram mortos, reunidos, e as pessoas pertencentes a todas as quatro classes do teu reino de Kurujangala, ó rei, estão aqui. Para fazer o que é agradável para estes Brahmanas de grande alma, em obediência também à ordem do teu superior venerável Vyasa de energia incomensurável, e a pedido de nós mesmos que somos teus benquerentes, e de Draupadi, ó destruidor de inimigos, faça o que é agradável para nós, ó matador de inimigos, e o que é benéfico para o mundo.'” "Vaisampayana continuou, 'Assim endereçado por Krishna, o rei de grande alma (Yudhishthira) de olhos como pétalas de lótus, se levantou de seu assento para o bem do mundo inteiro. O tigre entre homens, Yudhishthira de grande fama, incitado pelo próprio Krishna, pelo Nascido na Ilha (Vyasa), por Devasthana, por Jishnu, por estes e muitos outros, rejeitou sua angústia e ansiedade. Totalmente conhecedor das declarações dos Srutis, da ciência que trata da interpretação daquelas declarações, e de todos aqueles homens normalmente ouvidos e todos os que merecem ser ouvidos, o filho de Pandu obteve paz mental e resolveu o que ele devia fazer em seguida. Cercado por todos eles como a lua pelas estrelas, o rei, colocando Dhritarashtra na dianteira da comitiva, partiu para entrar na cidade. Desejoso de entrar na cidade, o filho de Kunti, Yudhishthira, conhecedor de todo o dever, ofereceu culto aos deuses e a milhares de Brahmanas. Ele então subiu em um carro novo e branco coberto com cobertores e camurças, e ao qual estavam unidos dezesseis bois brancos possuidores de sinais auspiciosos, e que tinha sido santificado com mantras Védicos. Louvado por panegiristas e bardos, o rei subiu naquele carro como Soma subindo em seu próprio veículo ambrosíaco. Seu irmão Bhima de bravura terrível pegou as rédeas. Arjuna segurou sobre sua cabeça um guarda-sol branco de grande refulgência. Aquele guarda-sol branco mantido sobre o carro parecia belo como uma nuvem branca decorada com uma estrela no firmamento. Os dois filhos heróicos de Madri, Nakula e Sahadeva, pegaram dois rabos de iaque brancos como os raios da lua e ornados com pedras preciosas para abanar o rei. Os cinco irmãos enfeitados com ornamentos, tendo subido no carro, ó rei, pareciam com os cinco elementos (que entram na composição de todos). Subindo em outro carro branco ao qual estavam unidos corcéis velozes como o pensamento, Yuyutsu, ó rei, seguiu atrás do filho mais velho de Pandu. Sobre seu próprio carro brilhante de ouro que estava unido a Saivya e Sugriva, Krishna, com Satyaki, seguiu os Kurus. O tio mais velho do filho de Pritha, ó Bharata, acompanhado por Gandhari, procedeu na dianteira da comitiva, sobre um veículo carregado sobre os ombros de homens. As outras senhoras da família Kuru, como também Kunti e Krishna, todas procederam em veículos excelentes, encabeçadas por Vidura. Atrás seguia um grande número de carros e elefantes enfeitados com ornamentos, e soldados de infantaria e corcéis. Com seus louvores sendo cantados por panegiristas e bardos de voz suave, o rei procedeu em direção à cidade chamada de elefante. O progresso, ó de braços fortes, do rei Yudhishthira se tornou tão belo que seu semelhante nunca tinha havido sobre a terra. Cheio de homens saudáveis e alegres, o zumbido de incontáveis vozes ativas era ouvido lá. Durante o progresso do filho de Pritha, a cidade e suas ruas estavam adornadas com cidadãos alegres (todos os quais tinham saído para honrar o rei). Os locais pelos quais o rei passou foram decorados com festões de flores e inúmeras bandeiras. As ruas da cidade estavam perfumadas com incenso. O lugar estava coberto com perfumes em pó e flores e plantas fragrantes, e haviam guirlandas e coroas penduradas acima. Jarros metálicos novos, cheios de água até a borda, foram mantidos na porta de todas as casas, e grupos de belas moças da aparência mais formosa ficaram em locais específicos. Acompanhado por seus amigos, o filho de Pandu, adorado com palavras gentis, entrou na cidade pelo seu portão bem adornado.'" 39 "Vaisampayana disse, 'No momento em que os Parthas entraram na cidade, milhares e milhares de cidadãos saíram para contemplar a visão. As ruas e praças bem enfeitadas, com a multidão aumentando a cada momento, pareciam belas como o oceano aumentando no nascer da lua. As mansões grandes que ficavam nos lados da rua, enfeitadas com todos os ornamentos e cheias de damas, pareciam balançar, ó Bharata, com seu peso. Com vozes suaves e modestas elas proferiam os louvores de Yudhishthira, de Bhima e Arjuna, e dos dois filhos de Madri. E elas disseram, 'Tu és digna de todos os louvores, ó abençoada princesa de Panchala, tu que ficas ao lado destes principais dos homens assim como Gautami ao lado dos (sete) Rishis. Teus atos e votos deram seus frutos, ó senhora!' Desta maneira, ó monarca, os damas louvaram a princesa Krishna. Em consequência daqueles louvores, ó Bharata, e de suas conversas umas com as outras, e dos gritos de alegria (proferidos pelos homens), a cidade se encheu de um grande tumulto. Tendo passado pelas ruas com tal comportamento como lhe era adequado, Yudhishthira então entrou no belo palácio (dos Kurus) enfeitado com todos os ornamentos. As pessoas pertencentes à cidade e às províncias, se aproximando do palácio, proferiram discursos que eram agradáveis para os ouvidos dele, 'Por boa sorte, ó principal dos reis, tu venceste teus inimigos, ó matador de inimigos! Por boa sorte, tu recuperaste teu reino através de tua virtude e coragem. Seja, ó principal dos reis, nosso monarca por cem anos, e proteja teus súditos virtuosamente como Indra protegendo os habitantes do céu.' Assim adorado no portão do palácio com discursos abençoados, e aceitando as bênçãos proferidas pelos Brahmanas de todos os lados, o rei, agraciado com a vitória e com as bênçãos do povo, entrou no palácio que parecia a mansão do próprio Indra, e então desceu de seu carro. Entrando nos apartamentos, o abençoado Yudhishthira se aproximou dos deuses do lar e os adorou com pedras preciosas e perfumes e coroas florais. Possuidor de grande fama e prosperidade, o rei saiu mais uma vez e contemplou uma multidão de Brahmanas esperando com artigos auspiciosos em suas mãos (para pronunciar bênçãos sobre ele). Cercado por aqueles Brahmanas desejosos de proferir bênçãos sobre ele, o rei parecia belo como a lua imaculada no meio das estrelas. Acompanhado por seu sacerdote Dhaumya e seu tio mais velho, o filho de Kunti adorou alegremente, com os ritos devidos, aqueles Brahmanas com (presentes de) doces, pedras preciosas, e ouro em profusão, e vacas e mantos, ó monarca, e com outros artigos diversos que cada um desejava. Então se ergueram altos gritos de ‘Este é um dia abençoado!’ enchendo todo o firmamento, ó Bharata. Encantador para os ouvidos, aquele som sagrado era muito agradável para os amigos e benquerentes (dos Pandavas). O rei ouviu aquele som proferido por aqueles Brahmanas eruditos e que era tão alto e claro como o som de um bando de cisnes. Ele escutou também os discursos, repletos de palavras melodiosas e de grande importância, daquelas pessoas bem familiarizadas com os Vedas. Então, ó rei, o clangor de baterias e o som encantador de conchas, indicativos de triunfo, se ergueram. Um pouco depois quando os Brahmanas tinham ficado silenciosos, um Rakshasa de nome Charvaka, que tinha se disfarçado como um Brahmana, se dirigiu ao rei. Ele era um amigo de Duryodhana e estava lá no traje de um mendicante religioso. Com um rosário, com um tufo de cabelo em sua cabeça, e com o bastão triplo em sua mão, ele ficou de pé orgulhosamente e sem medo no meio de todos aqueles Brahmanas que tinham ido lá pronunciar bênçãos (sobre o rei), contados aos milhares, ó rei, e todos os quais eram dedicados a penitências e votos. Aquele indivíduo pecaminoso, desejoso de mal para os Pandavas de grande alma e sem ter consultado aqueles Brahmanas, disse estas palavras ao rei.'” "Charvaka disse, 'Todos estes Brahmanas, me fazendo seu porta-voz, estão dizendo, 'Que vergonha para ti! Tu és um rei pecaminoso. Tu és um assassino de parentes. O que tu ganharás, ó filho de Kunti, por ter exterminado dessa forma a tua linhagem? Tendo matado também teus superiores e preceptor, é apropriado para ti abandonar tua vida!' Ouvindo estas palavras daquele Rakshasa perverso os Brahmanas ficaram profundamente agitados. Afligidos por este discurso, eles fizeram um grande tumulto. E todos eles, com o rei Yudhishthira, ó monarca, ficaram silenciosos de ansiedade e vergonha.' Yudhishthira disse, ‘Eu o reverencio e suplico humildemente, fique satisfeito comigo. Não cabe a você gritar vergonha para mim. Eu logo sacrificarei minha vida.’” "Vaisampayana continuou, 'Então todos aqueles Brahmanas, ó rei, disseram ruidosamente, 'Estas não são nossas palavras. Prosperidade para ti, ó monarca!' Aquelas pessoas de grande alma, conhecedoras dos Vedas, com a compreensão tornada clara por penitências, então descobriram o disfarce do orador por meio de sua visão espiritual. E eles disseram, 'Este é o Rakshasa Charvaka, o amigo de Duryodhana. Tendo colocado o traje de um mendicante religioso, ele procura o bem de seu amigo Duryodhana. Ó tu de alma justa, nós não dissemos qualquer coisa do tipo. Que tua ansiedade seja dissipada. Que a prosperidade esteja contigo e com teus irmãos.'” "Vaisampayana continuou, 'Aqueles Brahmanas então, insensíveis com raiva, proferiram o som Hun. Purificados de todos pecados, eles criticaram o Rakshasa pecaminoso e o mataram lá (com aquele próprio som). Consumido pela energia daqueles proferidores de Brahma, Charvaka caiu morto, como uma árvore com todos os seus rebentos destruída pelo trovão de Indra. Devidamente adorados, os Brahmanas foram embora, tendo alegrado o rei com suas bênçãos. O filho nobre de Pandu também, com todos os seus amigos, sentiu grande felicidade.’” "Vaisampayana disse, 'Então Devaki, o filho de Janardana, de conhecimento universal, se dirigiu ao rei Yudhishthira que lá estava com seus irmãos, dizendo, 'Neste mundo, ó majestade, Brahmanas são sempre objetos de culto por mim. Eles são deuses sobre a terra tendo veneno em suas palavras, e são extremamente fáceis de se gratificar. Antigamente, na era Krita, ó rei, um Rakshasa de nome Charvaka, ó poderosamente armado, realizou penitências rígidas por muitos anos em Vadari. Brahman repetidamente lhe solicitou para pedir bênçãos. Finalmente o Rakshasa pediu a bênção, ó Bharata, de imunidade de medo na mão de todos seres no universo. O Senhor do universo lhe deu aquele grande benefício de imunidade de medo nas mãos de todas as criaturas, sujeito à única limitação de que ele deveria ter cuidado para não ofender os Brahmanas. Tendo obtido aquele benefício, o Rakshasa pecaminoso e poderoso de feitos violentos e grande destreza começou a atormentar os deuses. Os deuses, perseguidos pelo poder do Rakshasa, reunidos, se aproximaram de Brahman, para planejar a destruição de seu inimigo. O deus eterno e imutável respondeu a eles, ó Bharata, dizendo, 'Eu já arranjei os meios pelos quais a morte deste Rakshasa possa ser ocasionada logo. Haverá um rei de nome Duryodhana. Entre os homens, ele será o amigo deste indivíduo. Compelido por afeição por ele, o Rakshasa insultará os Brahmanas. Afligidos pelo mal que ele infligirá a eles, os Brahmanas, cujo poder consiste nas palavras, irão em cólera criticá-lo, no que ele encontrará a destruição.’ Este mesmo Rakshasa Charvaka, ó principal dos reis, morto pela maldição dos Brahmanas, jaz lá sem vida. Ó touro da raça Bharata, não te entregue à angústia. Os parentes, ó rei, pereceram todos na observância dos deveres Kshatriya. Aqueles touros entre Kshatriyas, aqueles heróis de grande alma, foram todos para o céu. Desempenhe teus deveres agora. Ó tu de glória imorredoura, que nenhuma aflição seja tua. Mate teus inimigos, proteja teus súditos, e adore os Brahmanas.'" 41 "Vaisampayana disse, 'O filho nobre de Kunti, livre da tristeza e da febre de seu coração, tomou seu assento, com face para o leste, em assento excelente feito de ouro. Em outro assento, belo e resplandecente e feito de ouro, se sentaram com rostos em direção a ele aqueles dois castigadores de inimigos, isto é, Satyaki e Vasudeva. Colocando o rei em seu meio, em seus dois lados sentaram Bhima e Arjuna sobre dois assentos belos adornados com pedras preciosas. Sobre um trono branco de marfim, decorado com ouro, sentou Pritha com Sahadeva e Nakula. Sudharman (o sacerdote dos Kauravas) e Vidura, e Dhaumya, e o rei Kuru Dhritarashtra, cada um sentou separadamente em assentos separados que brilhavam com a refulgência do fogo. Yuyutsu e Sanjaya e Gandhari de grande fama, todos se sentaram onde o rei Dhritarashtra tinha tomado seu assento. O rei de alma justa, sentado lá, tocou as belas flores brancas, Suásticas, recipientes cheios de diversos artigos, terra, ouro, prata, e pedras preciosas, (que foram colocados diante dele). Então todos os súditos, encabeçados pelo sacerdote, foram ver o rei Yudhishthira, levando com eles diversos tipos de artigos auspiciosos. Então terra, e ouro, e muitas espécies de pedras preciosas, e todas as coisas em profusão que eram necessárias para a realização do rito de coroação, foram levados lá. Havia jarros dourados cheios até a borda (com água), e aqueles feitos de cobre e prata e barro, e flores, e arroz frito, e erva Kusa, e leite de vaca, e combustível (sacrifical) consistindo na madeira de Sami, Pippala, e Palasa, e mel e manteiga clarificada e conchas (sacrificais) feitas de Udumvara, e conchas enfeitadas com ouro. (Sami é a Acacia suma; Pippala é a Piper longum; e Palasa é a Butea frondosa. Udumvara é a Ficus glomerata.) Então o sacerdote Dhaumya, a pedido de Krishna, construiu, segundo o regulamento, um altar gradualmente se inclinando em direção ao leste e ao norte. Fazendo então o rei Yudhishthira de grande alma, com Krishna a filha de Drupada, se sentar sobre um assento vistoso, chamado Sarvatobhadra, com pés firmes e coberto com peles de tigre e brilhando com refulgência, ele começou a despejar libações de manteiga clarificada com os mantras apropriados (sobre o fogo sacrifical). Então ele da tribo de Dasaratha, erguendo-se de seu assento, pegou a concha santificada, e despejou a água que ela continha sobre a cabeça daquele senhor da terra, isto é, Yudhishthira, o filho de Kunti. O sábio real Dhritarashtra e todos os súditos também fizeram o mesmo a pedido de Krishna. O filho de Pandu então, com seus irmãos, assim banhado com a água santificada da concha, parecia muito belo. Então Panavas e Anakas e tambores foram tocados. O rei Yudhishthira o justo aceitou devidamente os presentes que lhe foram feitos pelos súditos. Sempre dando presentes em profusão em todos os seus sacrifícios, o rei honrou seus súditos em retribuição. Ele deu mil nishkas para os Brahmanas que proferiram bênçãos (especiais) sobre ele. Todos eles tinham estudado os Vedas e eram dotados de sabedoria e bom comportamento. Satisfeitos (com os presentes), os Brahmanas, ó rei, lhe desejaram prosperidade e vitória, e com vozes melodiosas como aquelas de cisnes proferiram seus louvores, dizendo, 'Ó Yudhishthira de braços poderosos, por boa sorte, ó filho de Pandu, a vitória foi tua. Por boa sorte, ó tu de grande esplendor, tu recuperaste tua posição por meio de bravura. Por boa sorte, o manejador do Gandiva, e Bhimasena, e tu mesmo, ó rei, e os dois filhos de Madri, estão todos bem, tendo matado seus inimigos e saído com vida da batalha, tão destrutiva de heróis. Ó Bharata, realize sem demora as ações que devem ser feitas em seguida.' Assim adorado por aqueles homens pios, o rei Yudhishthira, o justo, com seus amigos, foi instalado no trono de um grande reino, ó Bharata!'" 42 "Vaisampayana disse, 'Tendo ouvido aquelas palavras, apropriadas para hora e lugar, de seus súditos, o rei Yudhishthira respondeu a eles nas seguintes palavras, 'Notáveis devem ser os filhos de Pandu, cujos méritos, verdadeiros ou falsos, são assim recitados por tais principais dos Brahmanas reunidos. Sem dúvida, nós somos todos objetos de favor de vocês já vocês nos descrevem tão livremente como possuidores de tais atributos. O rei Dhritarashtra, no entanto, é nosso pai e deus. Se vocês desejam fazer o que é agradável para mim, sempre dêem sua obediência e o que é agradável para ele. Tendo matado todos os meus parentes, eu vivo por ele somente. Meu grande dever é sempre servi-lo em todas as circunstâncias com atenção. Se vocês, como também meus amigos, pensam que eu devo ser um objeto de favor de vocês e eles, me deixem então pedir a vocês todos para mostrarem o mesmo comportamento para com Dhritarashtra como vocês costumavam mostrar antes. Ele é o senhor do mundo, de vocês mesmos, e de mim mesmo. O mundo inteiro, com os Pandavas, pertence a ele. Vocês devem sempre manter estas minhas palavras em suas mentes.' O rei então lhes disse para irem para onde quer que eles desejassem. Tendo dispensado os cidadãos e o povo das províncias, o encantador dos Kurus nomeou seu irmão Bhimasena como Yuvaraja. E ele alegremente nomeou Vidura de grande inteligência para ajudá-lo com suas deliberações e para supervisionar as seis exigências do estado. (Estas são paz, guerra, marcha, parada, semeadura de dissenções, e a defesa do reino por procurar alianças e construir fortes, etc.) E ele nomeou o maduro Sanjaya possuidor de todos os talentos como diretor geral e supervisor das finanças. E o rei nomeou Nakula para a manutenção do registro das forças armadas, para lhes dar alimento e pagamento e para supervisar outros assuntos do exército. E o rei Yudhishthira nomeou Phalguna para resistir às forças hostis e castigar os pecaminosos. E ele nomeou Dhaumya, o principal dos sacerdotes, para se encarregar diariamente dos Brahmanas e de todos os ritos em honra dos deuses e outros atos religiosos. E ele nomeou Sahadeva para sempre permanecer ao seu lado, pois o rei pensava, ó monarca, que ele deveria sob todas as circunstâncias ser protegido por aquele seu irmão. E o rei alegremente empregou outros em outros atos de acordo com o que ele julgava adequado. Aquele matador de heróis hostis, o rei de alma justa Yudhishthira, sempre dedicado à virtude, ordenou Vidura e Yuyutsu de grande alma, dizendo, 'Vocês devem sempre fazer prontamente e com atenção tudo o que meu nobre pai Dhritarashthra desejar. O que quer que deva ser feito também a respeito dos cidadãos e dos residentes das províncias deve ser realizado por vocês em seus respectivos departamentos, depois de pegarem a permissão do rei.'" 43 "Vaisampayana disse, 'Depois disto o rei Yudhishthira de alma magnânima fez serem realizados os ritos Sraddha de todos os seus parentes mortos em batalha. O rei Dhritarashtra também de grande fama doou, para o bem de seus filhos no outro mundo, comida excelente, e vacas, e muita riqueza, e muitas pedras preciosas belas e caras (para os Brahmanas). Yudhishthira, acompanhado por Draupadi, doou muita riqueza por causa de Drona e Karna de grande alma, de Dhrishtadyumna e Abhimanyu, do Rakshasa Ghatotkacha, o filho de Hidimva, e de Virata, e de seus outros benquerentes que o tinham servido lealmente, e de Drupada e dos cinco filhos de Draupadi. Por cada um destes, o rei satisfez milhares de Brahmanas com presentes de riquezas e pedras preciosas, e vacas e roupas. O rei realizou o rito Sraddha, para o bem no mundo seguinte, de todos aqueles reis também que tinham morrido em batalha sem deixarem parentes ou amigos para trás. E o rei também, para o bem das almas de todos os seus amigos, fez casas serem construídas para a distribuição de alimento, e lugares para a distribuição de água, e tanques serem escavados em seus nomes. Pagando dessa maneira o débito que tinha com eles e evitando a chance de crítica no mundo, (pois se ele agisse de outra maneira ele seria chamado de ingrato), o rei ficou feliz e continuou a proteger seus súditos religiosamente. Ele mostrou o devido respeito, como antes, por Dhritarashtra, e Gandhari, e Vidura, e todos os Kauravas superiores e todos os oficiais. Cheio de bondade, o rei Kuru honrou e protegeu todas aquelas senhoras também que tinham, por consequência da batalha, sido privadas de seus maridos e filhos heróicos. O rei pujante, com grande compaixão, estendeu seus favores para os indigentes e os cegos e os desamparados por lhes dar alimento, roupas e abrigo. Livre de inimigos e tendo conquistado a Terra inteira, o rei Yudhishthira começou a desfrutar de grande felicidade.'" 44 "Vaisampayana disse, ‘Tendo obtido o reino de volta, o rei Yudhishthira de grande sabedoria e pureza, depois que a cerimônia de instalação tinha acabado, unindo suas mãos, se dirigiu a Krishna de olhos de lótus da tribo de Dasarha, dizendo, ‘Pela tua graça, ó Krishna, pela tua política e força e inteligência e destreza, ó tigre entre os Yadus, eu obtive de volta este meu reino ancestral. Ó tu de olhos como pétalas de lótus, eu te reverencio repetidamente, ó destruidor de inimigos! Tu tens sido chamado de o Ser único. É dito que tu és o refúgio de todos os devotos. Os regenerados te adoram sob inúmeros nomes. (O significado literal de Purusha, como aplicado ao Ser Supremo, é ‘Aquele que permeia todas as formas no universo’). Saudações a ti, ó Criador do Universo! Tu és a alma do Universo e o Universo surgiu de ti. Tu és Vishnu, tu és Jishnu, tu és Hari, tu és Krishna, tu és Vaikuntha, e tu és o principal de todos os seres. Tu, como dito nos Puranas, tomaste teu nascimento sete vezes no útero de Aditi. E foste tu que tomaste nascimento no útero de Prishni. (Isto é, Aditi e o eu de Aditi nascidos em diferentes formas em diferentes épocas). Os eruditos dizem que tu és os três Yugas. (Yugas podem significar as três eras, Krita, Treta e Dwapara, ou os três pares tais como Virtude e Conhecimento, Renúncia e Domínio, e Prosperidade e Fama). Todas as tuas realizações são sagradas. Tu és o senhor dos nossos sentidos. Tu és o grande Senhor adorado em sacrifícios. Tu és chamado de o grande cisne. Tu és Sambhu de três olhos. Tu és Único, embora conhecido como Vibhu e Damodara. Tu és o grande Javali, tu és Fogo, tu és o Sol, tu tens o touro como o emblema em teu estandarte, e tu tens Garuda também como teu emblema. Tu és o destruidor de hostes hostis, tu és o Ser que permeia todas as formas no universo e tu és de destreza irresistível. Tu és a principal de todas as coisas, tu és feroz, tu és o generalíssimo em batalha, tu és a Verdade, tu és o dador de alimento, e tu és Guha (o generalíssimo Celeste). Tu mesmo imperecível, tu fazes teus inimigos enfraqueceram e definharem. Tu és o Brahmana de sangue puro, e tu és aqueles que nasceram de mistura. Tu és grandioso. Tu caminhas no alto, tu és as montanhas, e tu és chamado Vrishadarbha e Vrishakapi. Tu és o Oceano, tu és sem atributos, tu tens três corcundas, tu tens três residências, e tu tomas formas humanas sobre a terra, descendo do céu. Tu és Imperador, tu és Virat, e tu és Swarat. (Virat é alguém superior a um Imperador e Swarat é alguém superior a um Virat). Tu és o Chefe dos celestiais, e tu és causa de onde o Universo surgiu. Tu és Onipotente, tu és existência em todas as formas, tu não tens forma, tu és Krishna, e tu és fogo. Tu és o Criador, tu és o pai dos médicos celestes, tu és (o sábio) Kapila, e tu és o Anão. (Vishnu, assumindo a forma de um anão, enganou o Asura Vali para lhe dar três mundos os quais ele em seguida devolveu para Indra). Tu és o Sacrifício incorporado, tu és Dhruva, (o filho de Uttanapada, que na era Krita tinha adorado Vishnu em uma idade muito prematura e obtido as bênçãos mais valiosas). Tu és Garuda, e tu és chamado Yajnasena. Tu és Sikhandin, tu és Nahusha, e tu és Vabhru. Tu és a constelação Punarvasu estendida no firmamento, tu és extremamente fulvo em cor, tu és o sacrifício conhecido pelo nome de Uktha, tu és Sushena, tu és o tambor (que envia o seu som para todos os lados). O rastro das rodas de teu carro é luz. Tu és o lótus da Prosperidade, tu és a nuvem chamada Pushkara, e tu estás ornado com coroas florais. Tu és opulento, tu és pujante, tu és o mais sutil, e és tu quem os Vedas descrevem. Tu és o grande receptáculo de águas, tu és Brahman, tu és o refúgio sagrado, e tu conheces as residências de todos. Tu és chamado de Hiranyagarbha, tu és os mantras sagrados swadha e swaha, tu és Kesava. Tu és a causa de onde tudo isto surgiu, e tu és sua dissolução. No início foste tu que criaste o universo. Este universo está sob teu controle, ó Criador do universo! Saudações a ti, ó manejador do Sarnga, disco e espada!' Assim louvado pelo rei Yudhishthira, o justo, no meio da corte, Krishna de olhos de lótus ficou satisfeito. Aquele principal dos Yadavas então começou a alegrar o filho mais velho de Pandu com muitas palavras agradáveis." 45 "Vaisampayana disse, 'O rei despediu todos os seus súditos, que, mandados pelo monarca, voltaram para suas respectivas casas. Confortando seus irmãos, Yudhishthira, brilhando com beleza, então se dirigiu a seus irmãos Bhima de destreza terrível e Arjuna e aos gêmeos, dizendo, 'Seus corpos foram, na grande batalha, mutilados com diversas espécies de armas pelo inimigo. Vocês estão imensamente cansados, e a dor e a raiva têm queimado seus corações. Por minha culpa, ó touros da raça Bharata, vocês sofreram as misérias de um exílio nas florestas como homens comuns. Em deleite e em tranquilidade feliz desfrutem desta vitória (que vocês ganharam). Depois de descansarem e recuperarem o uso completo de suas faculdades, me encontrem novamente pela manhã.' Depois disto, o poderoso Vrikodara, como Maghavat entrando em seu próprio belo templo, entrou no palácio de Duryodhana, que era adornado com muitas construções e dependências excelentes, adornado com pedras preciosas de diversos tipos, cheio de empregados, homens e mulheres, e que Yudhishthira designou para ele com a aprovação de Dhritarashtra. Arjuna de braços poderosos também, por ordem do rei, obteve o palácio de Dussasana que não era inferior ao de Duryodhana e que consistia em muitas estruturas excelentes e era adornado com um portão de ouro, e que abundava em riquezas e estava cheio de servidores de ambos os sexos. O palácio de Durmarshana era até superior ao de Dussasana. Parecendo com a mansão do próprio Kuvera, ele era ornado com ouro e todas as espécies de pedras preciosas. O rei Yudhishthira o deu alegremente para Nakula que bem o merecia e que tinha ficado emaciado (com as misérias de uma vida) na grande floresta. O principal dos palácios pertencentes a Durmukha era extremamente belo e adornado com ouro. Ele abundava em camas e mulheres belas, com olhos como pétalas de lótus. O rei o deu para Sahadeva que estava sempre empenhado em fazer o que era agradável para ele. Obtendo-o, Sahadeva ficou encantado como o Senhor dos tesouros ao obter Kailasa. Yuyutsu e Vidura e Sanjaya, ó monarca, e Sudharman e Dhaumya procederam para as residências que eles possuíam antes. (Sudharman era o sacerdote dos Kurus. Como Dhaumya, que era o sacerdote dos Pandavas, veio a ter desde antes uma residência na capital Kuru?) Como um tigre entrando em sua caverna nas colinas, aquele tigre entre homens, Saurin, acompanhado por Satyaki, entrou no palácio de Arjuna. Banqueteando-se com as iguarias e bebidas (que tinham sido mantidas prontas para eles), os príncipes passaram a noite alegremente. Despertando de manhã com corações satisfeitos, eles se apresentaram perante o rei Yudhishthira.'" 46 "Janamejaya disse, 'Cabe a ti, ó Brahmana erudito, me dizer o que foi feito em seguida por Yudhishthira, o poderoso filho de Dharma, depois que ele tinha recuperado seu reino. Cabe a ti me dizer também, ó Rishi, o que o heróico Hrishikesa, o mestre supremo dos três mundos, fez depois disto.'” "Vaisampayana disse, 'Ouça-me, ó rei, enquanto eu narro em detalhes, ó impecável, o que os Pandavas, encabeçados por Vasudeva, fizeram depois disto. Tendo obtido seu reino, ó monarca, o filho de Kunti, Yudhishthira, designou cada uma das quatro classes de homens para seus respectivos deveres. O filho (mais velho) de Pandu deu para mil Brahmanas de grande alma da classe Snataka mil Nishkas para cada um. Ele então gratificou os servos que eram dependentes dele e os convidados que foram até ele, incluindo pessoas que não eram merecedoras e aquelas que mantinham visões heterodoxas, por satisfazer seus desejos. Para seu sacerdote Dhaumya ele deu vacas às milhares e muita riqueza e ouro e prata e mantos de diversos tipos. Em direção a Kripa, ó monarca, o rei se comportou da maneira que alguém deveria se comportar com seu preceptor. Praticante de votos, o rei continuou a honrar Vidura imensamente. Aquele principal dos homens caridosos satisfez todas as pessoas com presentes de comida e bebida, e mantos de diversos tipos e camas e assentos. Tendo devolvido a paz a seu reino, o rei, ó melhor dos monarcas, possuidor de grande fama, prestou devida honra a Yuyutsu e Dhritarashtra. Colocando seu reino à disposição de Dhritarashtra, de Gandhari, e de Vidura, o rei Yudhishthira continuou a passar os seus dias em felicidade. Tendo gratificado a todos, incluindo os cidadãos, desta maneira, Yudhishthira, ó touro da raça Bharata, então procedeu com mãos unidas à presença de Vasudeva de grande alma. Ele contemplou Krishna, da cor de uma nuvem azul, sentado em um sofá grande adornado com ouro e pedras preciosas. Vestido em mantos amarelos de seda e enfeitado com ornamentos celestes, sua pessoa brilhava com esplendor como uma Jóia engastada em ouro. Seu peito adornado com a jóia Kaustubha, ele parecia com a montanha Udaya decorada com o sol nascente. Tão belo ele parecia que não há semelhante nos três mundos. Aproximando-se dele de grande alma que era o próprio Vishnu em forma encarnada, o rei Yudhishthira se dirigiu a ele gentilmente e sorridente, dizendo, 'Ó principal dos homens inteligentes, tu passaste a noite alegremente? Ó tu de glória imorredoura, todas as tuas faculdades estão em seu completo vigor? Ó principal das pessoas inteligentes, está tudo bem com tua mente? Nós obtivemos de volta nosso reino e a terra inteira está sob nosso controle, ó senhor divino, pela tua graça, ó refúgio dos três mundos e, ó tu de três passos, (por Krishna ter coberto os três mundos com três de seus passos para enganar o Asura Vali e privá-lo da soberania universal) pela tua graça nós obtivemos vitória e grande fama e não nos desviamos dos deveres da nossa classe!' Àquele destruidor de inimigos, o rei Yudhishthira, o justo, que tinha se dirigido a ele dessa maneira, o divino Krishna não disse uma palavra, pois ele estava então absorto em meditação." 47 "Yudhishthira disse, 'Quão maravilhoso é, ó tu de destreza incomensurável, que tu estejas absorto em meditação! Ó grande refúgio do universo, está tudo bem com os três mundos? Quando tu, ó Deus, te afastas (do mundo), tendo, ó touro entre homens, adotado o quarto estado, minha mente se enche de admirção. (Há três estados de consciência no caso dos homens comuns: acordado, de sonho e de sono profundo. O quarto estado, realizável somente por Yogins, é chamado de Turiya. Este é o estado de perfeita inconsciência deste mundo, quanto a alma, abstraída em si mesma, está fixa no Ser Supremo ou algum objeto único). Os cinco ares vitais que agem dentro do corpo foram controlados por ti até a tranquilidade. Teus sentidos encantados tu concentraste dentro da tua mente. Palavras e Mente, ó Govinda, estão concentradas dentro da tua Compreensão. Todos os teus sentidos, de fato, foram recolhidos dentro da tua alma. (O termo Mente, como geralmente usado na Filosofia Hindu, significa a base dos sentidos e dos sentimentos. Buddhi é a Compreensão ou as faculdades cognitivas da escola Kantista.) Os pêlos do teu corpo permanecem eretos. Tua mente e compreensão estão ambas imóveis. Tu estás tão imóvel agora, ó Madhava, como uma coluna de madeira ou uma pedra. Ó Deus ilustre, tu estás tão tranquilo quanto a chama de uma lâmpada queimando em um lugar não onde há vento. Tu estás tão imóvel quanto uma massa de rocha. Se eu for digno de saber a causa, se isto não for um segredo teu, dissipe, ó deus, minha dúvida, pois eu te suplico e te solicito isto como um favor. Tu és o Criador e tu és o Destruidor. Tu és destrutível e tu és indestrutível. Tu és sem início e tu és sem fim. Tu és o primeiro e o principal dos Seres. Ó principal das pessoas honradas, me diga a causa desta abstração (Yoga). Eu peço teu favor, e sou teu devotado adorador, e te reverencio, inclinando minha cabeça.' Assim endereçado, o ilustre irmão mais novo de Vasava, revocando sua mente, compreensão, e os sentidos para sua esfera usual, disse estas palavras com um sorriso suave.'” "Vasudeva disse, 'Aquele tigre entre homens, Bhishma, que está agora deitado em um leito de setas, e que é agora como um fogo prestes a se extinguir, está pensando em mim. Então minha mente também estava concentrada nele. Minha mente estava concentrada nele, cujo ressoar da corda do arco e o som de cujas palmas o próprio Indra não podia suportar. Eu estava pensando nele que tendo vencido em um instante todos os reis reunidos (na escolha de marido das filhas do rei de Kasi) sequestrou as três princesas para o casamento de seu irmão Vichitravirya. Eu estava pensando nele que lutou ininterruptamente por vinte e três e dias com o próprio Rama da linhagem de Bhrigu e a quem Rama foi incapaz de superar. Reunindo todos os seus sentidos e concentrando sua mente pela ajuda de sua compreensão, ele procurou minha proteção (por pensar em mim). Foi por isto que eu tinha centrado minha mente nele. Eu estava pensando nele a quem Ganga concebeu e deu à luz segundo leis humanas comuns e a quem Vasishtha aceitou como um pupilo. Eu estava pensando naquele herói de energia imensa e grande inteligência que possui um conhecimento de todas as armas celestes como também dos quatro Vedas com todos os seus ramos. Eu estava pensando nele, ó filho de Pandu, que é o discípulo favorito de Rama, o filho de Jamadagni, e que é o receptáculo das ciências. Eu estava pensando naquela principal de todas as pessoas conhecedoras de moralidade e do dever, nele, ó touro da raça Bharata, que conhece o Passado, o Futuro, e o Presente. Depois que aquele tigre entre reis tiver, em consequência de suas próprias realizações, ascendido para o céu, a terra, ó filho de Pritha, parecerá com uma noite sem lua. Portanto, ó Yudhishthira, te aproximando submissamente do filho de Ganga, isto é, Bhishma de destreza terrível, o questione acerca do que tu possas desejar aprender. Ó senhor da terra, pergunte a ele sobre os quatro ramos de conhecimento (a respeito de moralidade, lucro, prazer e salvação), sobre os sacrifícios e os ritos prescritos para as quatro classes, sobre os quatro modos de vida, e sobre os deveres reais integralmente. Quando Bhishma, aquele principal da linhagem de Kuru, desaparecer do mundo, todo o tipo de conhecimento desaparecerá com ele. É por isso que eu te incito (a ir até ele agora).' Ouvindo estas palavras benéficas de grande importância de Vasudeva, o justo Yudhishthira, com voz sufocada em lágrimas, respondeu a Janardana, dizendo, ‘O que tu disseste, ó Madhava, sobre a eminência de Bhishma, é perfeitamente verdadeiro. Eu não tenho a menor dúvida a respeito disto. De fato, eu tinha ouvido a respeito da bem-aventurança superior, como também da grandeza do ilustre Bhishma de Brahmanas de grande alma discorrendo sobre isto. Tu, ó matador de inimigos, és o Criador de todos os mundos. Não pode haver, portanto, ó alegrador dos Yadavas, a menor dúvida no que tu dizes. Se teu coração estiver inclinado a mostrar benevolência, ó Madhava, então nós iremos até Bhishma contigo mesmo em nossa dianteira. Quando o divino Surya se virar para o norte, Bhishma deixará (este mundo) para aquelas regiões de bem-aventurança que ele conquistou. Aquele descendente da linhagem de Kuru, portanto, ó tu de braços poderosos, merece ter uma visão de ti. (Se tu concederes minha súplica), Bhishma então obterá uma visão de ti que és o principal dos Deuses, de ti que és destrutível e indestrutível. De fato, ó senhor, és tu que és aquele vasto receptáculo de Brahma.'" "Vaisampayana continuou, 'Ouvindo estas palavras do rei Yudhishthira, o justo, o matador de Madhu se dirigiu a Satyaki que estava sentado ao lado dele, dizendo, 'Que meu carro seja atrelado'. Nisto, Satyaki deixou rapidamente a presença de Kesava e saindo, ordenou Daruka, dizendo, 'Que o carro de Krishna seja aprontado.' Ouvindo as palavras de Satyaki, Daruka atrelou depressa o carro de Krishna. Aquele principal dos veículos, adornado com ouro, decorado com uma profusão de esmeraldas, e pedras-da-lua e predras-do-sol, provido de rodas cobertas com ouro, possuidor de refulgência, veloz como o vento, engastado no meio com diversas outras espécies de pedras preciosas, belo como o sol da manhã, equipado com um belo estandarte coberto por Garuda, e alegre com bandeiras numerosas, tinha aqueles principais dos corcéis, velozes como o pensamento, Sugriva e Saivya e os outros dois, em arreios de ouro, unidos a ele. Tendo-o atrelado, ó tigre entre reis, Daruka, com mãos unidas, informou Krishna do fato.'” 48 "Janamejaya disse, 'Como o avô dos Bharatas, que jazia sobre um leito de flechas, abandonou seu corpo, e qual tipo de Yoga ele adotou?'” "Vaisampayana disse, 'Ouça, ó rei, com coração puro e atenção concentrada, como, ó tigre entre os Kurus, Bhishma de grande alma abandonou seu corpo. Logo que o Sol, passando o ponto solsticial, entrou em seu curso norte, Bhishma, com atenção concentrada, fez sua alma (como ligada com e independente do corpo), entrar em sua alma (em seu estado independente e absoluto). Cercado por muitos dos principais Brahmanas, aquele herói, seu corpo perfurado por inúmeras setas, resplandecia em grande beleza como o próprio Surya com seus inúmeros raios. Cercado por Vyasa conhecedor dos Vedas, pelo Rishi celeste Narada, por Devasthana, por Asmaka Sumantu, por Jaimini, por Paila de grande alma, por Sandilya, por Devarata, por Maitreya de grande inteligência, por Asita e Vasishtha e Kausika de grande alma, por Harita e Lomasa e o filho de Atri de grande inteligência, por Vrihaspati e Sukra e o grande sábio Chyavana, por Sanatkumara e Kapila e Valmiki e Tumvuru e Kuru, por Maudgalya e Rama da linhagem de Bhrigu, e o grande sábio Trinavindu, por Pippalada e Vayu e Samvarta e Pulaha e Katha, por Kasyapa e Pulastya e Kratu e Daksha e Parasara, por Marichi e Angiras e Kasmya e Gautama e o sábio Galava, por Dhaumya e Vibhanda e Mandavya e Dhaumra e Krishnanubhautika, por Uluka, aquele principal dos Brahmanas e o grande sábio Markandeya, por Bhaskari e Purana e Krishna e Suta, aquelas principais das pessoas virtuosas, circundado por estes e muitos outros sábios altamente abençoados de grandes almas e possuidores de fé e autocontrole e tranquilidade de mente, o herói Kuru parecia com a Lua no meio dos planetas e estrelas. Esticado em seu leito de flechas, aquele tigre entre homens, Bhishma, com coração puro e palmas unidas, pensou em Krishna em mente, palavra, e ação. Com uma voz alegre e forte ele cantou os louvores do matador de Madhu, aquele mestre de yoga, com o lótus em seu umbigo, aquele senhor do universo, chamado Vishnu e Jishnu. Com mãos unidas, aquele principal dos homens eloquentes, aquele ser poderoso, Bhishma de alma altamente virtuosa, louvou Vasudeva dessa maneira.’” "Bhishma disse, 'Ó Krishna, ó principal dos Seres, fique satisfeito com estas palavras que eu profiro, em resumo e em detalhes, pelo desejo de cantar teus louvores. Tu és puro e própria pureza. Tu transcendes tudo. Tu és o que as pessoas dizem que é AQUILO. (O Ser Supremo é chamado aqui e alhures de Hansa, isto é, cisne, porque como se supõe que o cisne supera todas as criaturas aladas no alcance de seu vôo, assim o Ser Supremo transcende todas as criaturas no universo. Ele é chamado de Aquilo, como na fórmula Védica de louvor: 'Tu és Aquilo,' significando 'Tu és inconcebível e incapaz de ser descrito em palavras.') Tu és o Senhor Supremo. Com todo o meu coração eu procuro tua proteção, ó Alma universal e Senhor de todas as criaturas! Tu és sem início e sem fim. Tu és o mais sublime dos sublimes e Brahma. Nem os deuses nem os Rishis te conhecem. Somente o divino Criador, chamado Narayana ou Hari, te conhece. Através de Narayana, os Rishis, os Siddhas, os grandes Nagas, os deuses, e os Rishis celestes conhecem um pouco de ti. Tu és o mais alto dos altos e não conheces deterioração. Os deuses, os Danavas, os Gandharvas, os Yakshas, os Pannagas não sabem quem tu és e de onde tu és. Todos os mundos e todas as coisas criadas vivem em ti, e entram em ti (quando chega a dissolução). Como pérolas enfiadas em um cordão, todas as coisas que têm atributos residem em ti, ó Senhor Supremo. (Coisas criadas têm atributos. É Brahma somente que não tem atributos, no sentido de que nenhum atributo com o qual nós estamos familiarizados pode ser afirmado dele.) Tendo o universo como teu trabalho e o universo como teus membros, este universo consistindo em mente e matéria reside na tua alma eterna e onipresente como várias flores encordoadas em um fio forte. Tu te chamas Hari, de mil cabeças, mil pés, mil olhos, mil braços, mil coroas, e mil faces de grande esplendor. Tu és chamado de Narayana, divindade, e o refúgio do universo. Tu és o mais sutil dos sutis, o mais denso dos densos, o mais pesado dos pesados e o mais alto dos altos. Nos Vaks, Anuvaks, Nishads, e Upanishads, tu és considerado como o Ser Supremo de força irresistível. No Samans também, cujas declarações são sempre verdadeiras, tu és considerado como a própria Verdade! (Os Vaks são os mantras, os Anuvaks são aquelas partes dos Vedas que são chamadas de Brahmanas, os Nishads são as partes do ritual Védico que levam a um conhecimento dos deuses, e os Upanishads são as partes que tratam exclusivamente do conhecimento da Alma). Tu és de alma quádrupla (Brahma, Jiva, Mente e Consciência). Tu és revelado somente na compreensão (de todas as criaturas). Tu és o Senhor daqueles que estão ligados a ti na fé. Ó Deus, tu és adorado (pelos fiéis) sob quatro nomes excelentes, sublimes, e secretos (Vasudeva, Sankarsana, Pradyumna, e Aniruddha). Penitências estão sempre presentes em ti. Realizadas (por outras criaturas para te satisfazer), as penitências vivem na tua forma. (Penitências estão sempre presentes em ti, no sentido de que tu nunca estás sem elas, penitências constituindo tua essência. Realizadas pelas criaturas, elas vivem em teus membros, no sentido de que as penitências realizadas nunca são perdidas.) Tu és a Alma Universal. Tu és de conhecimento universal. Tu és o universo. Tu és onisciente. Tu és o criador de tudo no universo. Como um par de gravetos gerando um fogo ardente, tu nasceste dos divinos Devaki e Vasudeva para a proteção de Brahma na terra. (Na Índia antiga, os Rishis vivendo nas florestas obtinham seu fogo por friccionar dois gravetos. Estes eles chamavam de Arani. Brahma sobre a terra significa os Vedas, os Brahmanas, e os Sacrifícios). Por esta salvação eterna, o devotado adorador, com mente afastada de tudo o mais e rejeitando todos os desejos, contempla a ti, ó Govinda, que és a Alma pura, em sua própria alma. Tu transcendes Surya em glória. Tu estás além do alcance dos sentidos e da compreensão. Ó Senhor de todas as criaturas, eu me coloco em tuas mãos. Nos Puranas tu foste falado como Purusha (o espírito que permeia tudo). Em ocasiões do começo dos Yugas tu és citado como Brahma, enquanto que em ocasiões de dissolução universal tu és citado como Sankarshana. Tu és Adorável, e portanto eu adoro a ti. Embora um, tu ainda nasceste em inúmeras formas. Tu tens tuas paixões sob completo controle. Teus devotos, realizando fielmente os ritos prescritos nas escrituras, sacrificam para ti, ó realizador de todo desejo! Tu és chamado de a bainha dentro da qual o universo jaz. Todas as coisas criadas vivem em ti. Como cisnes e patos nadando na água, todos os mundos que nós vemos flutuam em ti. Tu és Verdade. Tu és Um e não te deterioras. Tu és Brahma, Tu és Aquele que está além da Mente da Matéria. Tu não tens início, meio, e fim. Nem os deuses nem os Rishis te conhecem. Os deuses, os Asuras, os Gandharvas, os Siddhas, os Rishis, e os grandes Uragas com almas concentradas, sempre te adoram. Tu és a grande panacéia para toda a tristeza. Tu és sem nascimento e morte. Tu és Divino. Tu és autocriado. Tu és eterno. Tu és invisível e além da compreensão. Tu és chamado de Hari e Narayana, ó pujante. Os Vedas declaram que tu és o Criador do universo e o Senhor de tudo o que existe no universo. Tu és o protetor Supremo do universo. Tu não conheces deterioração e tu és aquilo que é chamado de o mais sublime. Tu és da cor do ouro. Tu és o matador dos Asuras. Embora Um, Aditi te deu à luz em doze formas (estes são os doze Adityas ou deuses principais). Saudações a ti que és a alma do Sol. Saudações a ti em tua forma de Soma que é citado como o principal de todos os regenerados e que satisfaz com néctar os deuses na quinzena iluminada e os Pitris na quinzena escura. Tu és o Ser Único de esplendor transcendente habitando no outro lado da densa escuridão. Conhecendo-te uma pessoa cessa de ter qualquer medo da morte. Saudações para ti naquela forma a qual é um objeto de conhecimento. (Tu és conhecimento puro e residente além da escuridão da ignorância. Eu te reverencio não em alguma daquelas formas nas quais tu és ordinariamente adorado, mas naquela forma de pura luz a qual somente Yogins podem contemplar por meio de visão espiritual.) No grande sacrifício Uktha, os Brahmanas te adoram como o grande Opulento. No grande sacrifício de fogo, eles cantam a ti como o principal Adhyaryu (sacerdote). Tu és a alma dos Vedas. Saudações a ti. Os Richs, os Yajus, e os Samans são tua residência. Tu és as cinco espécies de libações santificadas (usadas em sacrifícios). Tu és as sete tramas usadas nos Vedas. Saudações a ti na tua forma de Sacrifício. (As cinco libações são Dhana, Karambha, Parivapa, e água. As sete tramas são os sete mantras predominantes nos hinos Védicos, tais como Gayatri, etc.) Libações são despejadas no fogo Homa em acompanhamento com os dezessete sons monossilábicos. Tu és a alma do Homa. Saudações a ti! Tu és aquele Purusha que os Vedas cantam. Teu nome é Yajus. As métricas Védicas são teus membros. Os sacrifícios prescritos nos três Vedas são tuas três cabeças. O grande sacrifício chamado Rathantara é tua voz expressiva de satisfação. Saudações a ti na tua forma de hinos sagrados! Tu és o Rishi que apareceu no grande sacrifício que se estendeu por mil anos realizado pelos criadores do universo. (Os Prajapatis que são os criadores do universo realizaram um sacrifício que se extendeu por mil anos. O Ser Supremo apareceu naquele sacrifício como um ato de benevolência para os sacrificadores.) Tu és o grande cisne com asas de ouro. Saudações a ti na tua forma de um cisne. Raízes (de palavras) com todos os tipos de prefixos e sufixos são teus membros. Os Sandhis são tuas juntas. As consoantes e as vogais são teus ornamentos. Os Vedas declaram que tu és a palavra divina. Saudações a ti em tua forma como a palavra! (Sandhis são aquelas mudanças de vogais contínuas, em combinar duas palavras, que são requeridas pelas regras de eufonia.) Assumindo a forma de um javali cujos membros eram constituídos por sacrifício, tu ergueste a terra submersa para o benefício dos três mundos. Saudações a ti em tua forma de destreza infinita! Tu dormes em Yoga no teu sofá enfeitado com cobra constituído pelos mil capelos (do Naga). Saudações a ti em tua forma de sono! Tu constróis a ponte para os bons (atravessarem o mar da vida) com Verdade, com aqueles meios pelos quais a emancipação pode ser obtida, e com os meios pelos quais os sentidos podem ser controlados. Saudações a ti em tua forma de Verdade! Homens praticando diversos credos, incitados pelo desejo de diversos resultados te adoram com diversos ritos. Saudações a ti em tua forma de Credo! De ti todas as coisas surgiram. És tu que excitas todas as criaturas que têm corpos físicos contendo o princípio do desejo. Saudações a ti em tua forma de Excitamento. Os grandes Rishis procuram teu eu imanifesto dentro do manifesto. Chamado Kshetrajna, tu estás colocado em Kshetra. Saudações a ti em tua forma de Kshetra! (O manifesto é o corpo. Os Rishis procuram teu eu imanifesto dentro do corpo, em seus próprios corações. Kshetra é buddhi ou inteligência. O Ser Supremo é chamado de Kshetrajna porque ele conhece todas as mentes. Inteligência ou mente é uma de suas formas.) Tu sendo sempre consciente e presente, os Sankhyas ainda te descrevem como existindo nos três estados de vigília, sonho, e sono profundo. Eles além disso falam de ti como possuidor de dezesseis atributos e representando o número dezessete. Saudações a ti em tua forma como concebida pelos Sankhyas! (Os dezesseis atributos são os onze sentidos e os cinco elementos em suas formas sutis chamadas Mahabhutas. Somado a isto está o Infinito. O Ser Supremo, de acordo com a doutrina Sankhya, é dessa maneira a encarnação do número dezessete. Tua forma como concebida pelos Sankhyas, isto é, tua forma como Número.) Rejeitando o sono, retendo a respiração, retraídos dentro de si mesmos, Yogins de sentidos controlados te contemplam como luz eterna. Saudações a ti em tua forma Yoga! Sannyasins pacíficos, livres do medo do renascimento em consequência da destruição de todos os seus pecados e méritos, te alcançam. Saudações a ti em tua forma de emancipação! (Nos casos daqueles que renascem, há sempre um resíduo de pecado e mérito pelos quais eles têm, em sua vida terrena, que sofrer e desfrutar. No caso, no entanto, daqueles que se dirigiram para uma vida de renúncia o grande esforço é para esgotar este resíduo.) No fim de mil Yugas, tu assumes a forma de um fogo com chamas ardentes e consomes todas as criaturas. Saudações a ti em tua forma de ferocidade! Tendo consumido todas as criaturas e fazendo do universo uma vasta extensão de água, tu dormes sobre as águas na forma de uma criança. Saudações a ti em tua forma como Maya (ilusão)! Do umbigo do auto-nascido de olhos como pétalas de lótus, surge um lótus. Nesse lótus está estabelecido este universo. Saudações a ti em tua forma como lótus! Tu tens mil cabeças. Tu permeias tudo. Tu és de alma incomensurável. Tu subjugaste os quatro tipos de desejos que são tão vastos quanto os quatro oceanos. Saudações a ti em tua forma de sono de Yoga! As nuvens estão nos cabelos de tua cabeça. Os rios estão nas várias juntas de teus membros. Os quatro oceanos estão em teu estômago. Saudações a ti em tua forma como água! Nascimento e a mudança representada pela morte provêm de ti. Todas as coisas, novamente, na dissolução universal, se dissolvem em ti. Saudações a ti em tua forma como causa! Tu não dormes à noite. Tu estás ocupado durante o dia também. Tu observas as boas e más ações (de todos). Saudações a ti em tua forma de observador (universal)! Não há ato o qual tu não possas fazer. Tu estás sempre pronto para realizar atos que são justos. Saudações a ti em tua forma de Trabalho, isto é, a forma que é chamada de Vaikuntha! Em cólera tu, em batalha, exterminaste três vezes sete vezes os Kshatriyas que tinham calcado a virtude e a autoridade sob seus pés. Saudações a ti em tua forma de Crueldade! Dividindo a ti mesmo em cinco porções tu te tornaste os cinco ares vitais que agem dentro de todos e fazem todas as criaturas vivas se moverem. Saudações a ti em tua forma de ar! Tu apareces em cada Yuga na forma chamada mês e estação e meio-ano e ano, e és a causa da criação e da dissolução. Saudações a ti em tua forma de Tempo! Os Brahmanas são tua boca, os Kshatriyas são teus dois braços, os Vaisyas são teu estômago e coxas, e os Sudras vivem em teus pés. Saudações a ti em tua forma de casta! O fogo constitui tua boca. Os céus são a coroa de tua cabeça. O firmamento é teu umbigo. A terra é teus pés. O Sol é teu olho. Os pontos do horizonte são teus ouvidos. Saudações a ti em tua forma como os (três) mundos! Tu és superior ao Tempo. Tu és superior ao Sacrifício. Tu és mais sublime do que o mais sublime. Tu mesmo sem origem, tu és a origem do universo. Saudações a ti em tua forma como o Universo! Homens do mundo, segundo as qualidades atribuídas a ti pela teoria Vaiseshika, te consideram como o Protetor do mundo. Saudações a ti em tua forma de Protetor! Assumindo as formas de alimento, bebida, e combustível, tu aumentas os líquidos orgânicos e os ares vitais das criaturas e manténs a existência delas. Saudações a ti em tua forma de vida! Para manter os ares vitais tu comes os quatro tipos de alimento. (Isto é, aquele que é mastigado, aquele que é chupado, aquele que é lambido e aquele que é bebido). Assumindo também a forma de Agni dentro do estômago, tu digeres aquele alimento. Saudações a ti em tua forma de calor digestivo! Assumindo a forma de meio-homem e meio-leão, com olhos fulvos e crinas fulvas, com dentes e garras como tuas armas, tu tiraste a vida do chefe dos Asuras. Saudações a ti em tua forma de poder superior! Nem os deuses, nem os Gandharvas, nem os Daityas, nem os Danavas te conhecem realmente. Saudações a ti em tua forma de sutilidade excelente! Assumindo a forma do belo, ilustre, e pujante Ananta na região inferior, tu sustentas o mundo. Saudações a ti em tua forma de Poder! Tu estupefazes todas as criaturas pelos laços de amor e afeição para a continuação da criação. Saudações a ti em tua forma de estupefação! (Todas as criaturas são estupefatas pelo amor e afeição. O grande objetivo que os Yogins se propõe é romper aqueles laços se elevando acima de todas as atrações da carne para efetuar sua libertação ou emancipação do renascimento.) Considerando aquele conhecimento o qual está relacionado com os cinco elementos como o verdadeiro Autoconhecimento, (pelo qual os yogins se esforçam), as pessoas se aproximam de ti pelo conhecimento! Saudações a ti em tua forma de Conhecimento! Teu corpo é imensurável. Tua compreensão e olhos estão dedicados a tudo. Tu és infinito, estando além de todas as medidas. Saudações a ti em tua forma de vastidão! Tu assumiste a forma de um recluso com cabelos emaranhados na cabeça, bastão na mão, um longo abdome, e tendo tua tigela de mendicância por tua aljava. Saudações a ti em tua forma de Brahma. (Isto é, Brahmacharin). Tu portas o tridente, tu és o senhor dos celestiais, tu tens três olhos, e tu és de grande alma. Teu corpo está sempre sujo com cinzas, e teu emblema fálico está sempre virado para cima. Saudações a ti em tua forma de Rudra! A meia-lua forma o ornamento de tua testa. Tu tens cobras como o fio sagrado rodeando teu pescoço. Tu estás armado com Pinaka e tridente. Saudações à tua forma de Fúria. Tu és a alma de todas as criaturas. Tu és o Criador e o Destruidor de todas as criaturas. Tu não tens ira, nem inimizade, nem afeição. Saudações a ti em tua forma de Paz! Tudo está em ti. Tudo é de ti. Tu mesmo és Tudo. Tu estás em todos os lugares. Tu és sempre o Todo. Saudações a ti em tua forma como Tudo! Saudações a ti cujo trabalho é o universo, a ti que és a alma do universo, a ti de quem surgiu o universo, a ti que és a dissolução de todas as coisas, a ti que estás além dos cinco (elementos que constituem todas as coisas)! Saudações a ti que és os três mundos, a ti que estás acima dos três mundos! Saudações a ti que és todas as direções! Tu és tudo e tu és o único receptáculo de Tudo. Saudações a ti, ó Senhor divino, ó Vishnu, ó origem eterna de todos os mundos! Tu, ó Hrishikesa, és o Criador, tu és o Destruidor, e tu és invencível. Eu não posso contemplar aquela forma celestial na qual tu estás manifestado no Passado, Presente, e no Futuro. Eu posso, no entanto, contemplar realmente tua forma eterna (como manifestada em teus trabalhos). Tu preencheste o céu com tua cabeça, e a terra com teus pés, com tua destreza tu preencheste os três mundos. Tu és Eterno e permeias tudo no universo. As direções são teus braços, o Sol é teu olho, e destreza é teu fluido vital. Tu és o senhor de todas as criaturas. Tu permaneces fechando os sete caminhos do Vento cuja energia é incomensurável. Estão livres de todos os atos aqueles que adoram a ti, ó Govinda de destreza imperecível, a ti que estás vestido em mantos amarelos da cor da flor Atasi (Linum usitatissimun). Mesmo uma inclinação da cabeça para ti, ó Krishna, é igual à conclusão de dez Sacrifícios de Cavalo. O homem que realizou dez Sacrifícios de Cavalo não está livre da obrigação do renascimento. O homem, no entanto, que reverencia a Krishna escapa do renascimento. Aqueles que têm Krishna como seu voto, aqueles que pensam em Krishna à noite, e ao se levantarem do sono, podem ser citados como tendo Krishna como seu corpo. Aquelas pessoas (depois da morte) entram na natureza de Krishna assim como libações de manteiga clarificada santificadas com mantras entram no fogo ardente. Saudações a ti que dissipas o medo do inferno, a ti, ó Vishnu, que és um barco para aqueles que estão mergulhados em meio aos redemoinhos do oceano representado pela vida mundana! Saudações a ti, ó Deus, que és o próprio Brahmana, a ti que és o benfeitor de Brahmanas e vacas, a ti que és o benfeitor do universo, a ti que és Krishna e Govinda! As duas sílabas Hari constituem o estoque pecuniário daqueles que passam pela selva da vida e o remédio que cura efetivamente todas as predileções mundanas, além de serem os meios que aliviam tristeza e dor. (Samsara é o mundo ou a vida mundana caracterizada por diversos apegos. Reflexão sobre Hari liberta uma pessoa daqueles apegos. Ou, Samsara pode significar as repetidas mortes e nascimentos aos quais a alma não emancipada está sujeita. Contemplação do Ser divino pode evitar tais repetidos nascimentos e mortes por levar à emancipação.) Como a verdade é repleta de Vishnu, como o universo é repleto de Vishnu, como tudo é repleto de Vishnu, assim que minha alma seja repleta de Vishnu e que meus pecados sejam destruídos! Eu procuro tua proteção e sou devotado a ti, desejoso de obter um fim feliz. Ó tu de olhos como pétalas de lótus, ó melhor dos deuses, pense no que for para o meu bem! Tu mesmo sem origem, ó Vishnu, tu és a origem do Conhecimento e Penitências. Assim tu és louvado! Ó Janardana, adorado dessa maneira por mim no Sacrifício constituído por palavras (somente), fique, ó deus, satisfeito comigo! Os Vedas são dedicados a Narayana. Penitências são dedicadas a Narayana. Os deuses são dedicados a Narayana. Tudo é sempre Narayana!'" Vaisampayana continuou, "Tendo proferido estas palavras, Bhishma, com mente concentrada em Krishna, disse, 'Saudações a Krishna!' e o reverenciou. Sabendo por seus poderes de Yoga da devoção de Bhishma, Madhava, de outra maneira chamado Hari, (entrando em seu corpo) concedeu a ele conhecimento celeste abarcando o Passado, o Presente, e o Futuro, e partiu. Quando Bhishma ficou silencioso, aqueles proferidores de Brahma (que estavam sentados em volta dele), com vozes sufocadas em lágrimas, adoraram aquele chefe de grande alma dos Kurus em palavras excelentes. Aqueles principais dos Brahmanas proferiram os louvores de Krishna também, aquele principal dos Seres, e então continuaram em vozes suaves a elogiar Bhishma repetidamente. Sabendo (por seus poderes de Yoga) da devoção de Bhishma por ele, aquele principal dos Seres, Madhava, ergueu-se de repente de seu assento e subiu em seu carro. Kesava e Satyaki procederam em um carro. Em outro seguiram aqueles dois príncipes, ilustres Yudhishthira e Dhananjaya. Bhimasena e os gêmeos foram em um terceiro; enquanto aqueles touros entre homens, Kripa e Yuyutsu, e aquele destruidor de inimigos, Sanjaya da casta Suta, procederam em seus respectivos carros, cada um dos quais parecia com uma cidade. E todos eles procederam, fazendo a terra tremer com o ruído das rodas de suas carruagens. Aqueles principais dos homens, enquanto eles procediam, escutavam alegremente aos discursos, repletos de elogios, que eram proferidos pelos Brahmanas. O matador de Kesi, com coração satisfeito, saudou o povo que esperava (pelas ruas) com mãos unidas e cabeças inclinadas."’ 49 Vaisampayana disse, "Então Hrishikesa e o rei Yudhishthira, e todas aquelas pessoas encabeçadas por Kripa, e os quatro Pandavas, naqueles carros que pareciam com cidades fortificadas e decorados com estandartes e bandeiras, procederam rapidamente para Kurukshetra com a ajuda de seus corcéis velozes. Eles desceram sobre aquele campo que estava coberto com cabelo e medula e ossos e onde milhões de Kshatriyas de grande alma tinham perdido seus corpos. Ele abundava também com muitos montes formados dos corpos e ossos de elefantes e corcéis, e cabeças humanas e caveiras jaziam espalhadas sobre ele como conchas. Matizada com milhares de piras mortuárias e cheia de pilhas de armaduras e armas, a vasta planície parecia com o jardim de beber do próprio Destruidor usado e abandonado recentemente. Os poderosos guerreiros em carros procederam rapidamente, observando o campo de batalha assombrado por multidões de espíritos e apinhado de Rakshasas. Enquanto procediam, Kesava de braços fortes, aquele alegrador de todos os Yadavas, falou a Yudhishthira acerca da bravura do filho de Jamadagni, 'Lá, a uma distância, ó Partha, são vistos os cinco lagos de Rama! Lá Rama ofereceu oblações de sangue Kshatriya para os espíritos de seus antepassados. Foi de lá que o poderoso Rama, tendo livrado a terra de Kshatriyas por três vezes sete vezes, desistiu de sua tarefa." "Yudhishthira disse, 'Eu tenho grandes dúvidas no que tu dizes sobre Rama ter exterminado três vezes sete vezes os Kshatriyas antigamente. Quando a própria semente Kshatriya foi queimada por Rama, ó touro entre os Yadus, como a classe Kshatriya reviveu, ó tu de destreza incomensurável? Como, ó touro dos Yadus, a classe Kshatriya foi exterminada pelo ilustre Rama de grande alma, e como ela cresceu novamente? Em terríveis combates de carros milhões de Kshatriyas foram mortos. A terra, ó principal dos homens eloquentes, foi coberta com os cadáveres de Kshatriyas. Por que razão a classe Kshatriya foi assim exterminada nos tempos passados por Rama, o descendente de grande alma de Bhrigu, ó tigre entre os Yadus? Ó tu da tribo de Vrishni, remova esta minha dúvida, ó herói de bandeira de ave! Ó Krishna, ó irmão mais novo de Baladeva, o conhecimento mais elevado é de ti.'" Vaisampayana disse, "O poderoso irmão mais velho de Gada então narrou para Yudhishthira de destreza incomparável tudo o que aconteceu, com todos os detalhes, quanto a como a terra tinha se tornado repleta de Kshatriyas." 50 "Vasudeva disse, 'Ouça, ó filho de Kunti, a história da energia e poderes e nascimento de Rama como ouvidos por mim de grandes Rishis discursando sobre o assunto. Escute a história de como milhões de Kshatriyas foram mortos pelo filho de Jamadagni e como aqueles que nasceram novamente nas diversas linhagens reais em Bharata foram outra vez massacrados. Jadu teve um filho chamado Rajas. Rajas teve um filho chamado Valakaswa. O rei Valakaswa teve um filho chamado Kusika de comportamento virtuoso. Parecendo Indra de mil olhos sobre a terra, Kusika passou pelas penitências mais rígidas pelo desejo chegar ao chefe dos três mundos por um filho. Vendo-o dedicado às mais austeras das penitências e competente para gerar um filho, o próprio Purandara de mil olhos inspirou o rei (com sua força). O grande senhor dos três mundos, o castigador de Paka, ó rei, então se tornou o filho de Kusika conhecido pelo nome de Gadhi. Gadhi teve uma filha, ó monarca, de nome Satyavati. O poderoso Gadhi a deu (como esposa) para Richika, um descendente de Bhrigu. O marido dela da linhagem de Bhrigu, ó encantador dos Kurus, ficou muito satisfeito com ela pela pureza de seu comportamento. Ele cozinhou o alimento sacrifical consistindo em leite e arroz para dar a Gadhi (pai dela) um filho. Chamando sua esposa, Richika da linhagem de Bhrigu disse, 'Esta porção da comida santificada deve ser comida por ti, e esta (outra) porção por tua mãe. Um filho nascerá dela que brilhará com energia e será um touro entre os Kshatriyas. Invencível por Kshatriyas sobre a terra, ele será o matador dos principais dos Kshatriyas. Em relação a ti, ó dama abençoada, esta porção da comida te dará um filho de grande sabedoria, uma encarnação da tranquilidade, dotado de penitências ascéticas, e o principal dos Brahmanas.’ Tendo dito estas palavras para sua mulher, o abençoado Richika da linhagem de Bhrigu, colocando seu coração em penitências, procedeu para as florestas. Nesta época, o rei Gadhi, determinado a fazer uma peregrinação às águas sagradas, chegou com sua rainha ao retiro de Richika. Satyavati, após isto, ó rei, pegando as duas porções da comida santificada, alegremente e com grande pressa relatou as palavras de seu marido para sua mãe. A rainha-mãe, ó filho de Kunti, deu a porção planejada para ela mesma para sua filha, e ela mesma comeu por ignorância a porção planejada para a última. Após isto, Satyavati, seu corpo resplandecendo com brilho, concebeu uma criança de forma terrível que se tornaria o exterminador dos Kshatriyas. Vendo uma criança Brahmana dentro do útero dela, aquele tigre entre os Bhrigus disse para sua esposa de beleza celeste estas palavras: 'Tu foste enganada por tua mãe, ó dama abençoada, pela troca dos bocados santificados. Teu filho se tornará uma pessoa de atos cruéis e coração vingativo. Teu irmão por outro lado (nascido de tua mãe) será um Brahmana dedicado a penitências ascéticas. Dentro do alimento santificado destinado para ti foi colocada a semente do supremo e universal Brahma, enquanto na que era destinada para tua mãe foi colocada a soma total da energia Kshatriya. Por causa, no entanto, da troca das duas porções, ó dama abençoada, aquilo que tinha sido planejado não vai acontecer. Tua mãe obterá um filho Brahmana enquanto tu terás um filho que se tornará um Kshatriya.' Assim endereçada por seu marido, a altamente abençoada Satyavati se prostrou e colocando sua cabeça aos pés dele, tremendo, disse, 'Não cabe a ti, ó santo, falar tais palavras para mim, isto é, 'Tu terás um vilão entre Brahmanas (como teu filho).'” "Richika disse, 'Isto não foi planejado por mim, ó dama abençoada, em relação a ti. Um filho de atos violentos foi concebido por ti simplesmente por causa da troca dos bocados santificados.'” "Satyavati respondeu dizendo, 'Se tu desejares, ó sábio, tu podes criar outros mundos, o que dizer então de uma criança? Cabe a ti, ó poderoso, me dar um filho que seja virtuoso e dedicado à paz.'” "Richika disse, 'Nunca uma mentira foi falada por mim antes, ó dama abençoada, nem de brincadeira. O que dizer então de (tal ocasião solene como) preparar alimento santificado com a ajuda de fórmulas Védicas depois de acender o fogo? Isto foi ordenado pelo Destino, ó amável! Eu averiguei tudo isso pelas minhas penitências. Todos os descendentes de teu pai possuirão virtudes Brahmânicas.'” "Satyavati disse, 'Ó poderoso, que nosso neto seja assim, mas, ó principal dos ascetas, me deixe ter um filho de ocupações tranquilas.'” "Richika disse, 'Ó tu da mais bela cor, não há distinção, eu creio, entre um filho e um neto. Será, ó amável, como tu disseste.'” "Vasudeva continuou, ‘Então Satyavati deu à luz um filho na linhagem de Bhrigu que era dedicado a penitências e caracterizado por ocupações tranquilas, isto é, Jamadagni de votos regulados. O filho de Kusika, Gadhi, gerou um filho chamado Viswamitra. Possuidor de todos os atributos de um Brahmana, aquele filho (embora nascido na classe Kshatriya) era igual a um Brahmana. Richika (dessa forma) gerou Jamadagni, aquele oceano de penitências. Jamadagni gerou um filho de atos violentos. O mais importante dos homens, aquele filho dominou as ciências, inclusive a ciência de armas. Como um fogo ardente, aquele filho era Rama, o exterminador de Kshatriyas. Tendo gratificado Mahadeva nas montanhas de Gandhamadana, ele pediu armas daquele deus grandioso, especialmente o machado de energia feroz em suas mãos. Por causa daquele machado inigualável de esplendor ardente e corte irresistível, ele se tornou sem igual sobre a terra. Enquanto isso o filho poderoso de Kritavirya, isto é, Arjuna da classe Kshatriya e soberano dos Haihayas, dotado de grande energia, altamente virtuoso em comportamento, e possuidor de mil braços pela graça (do grande Rishi) Dattatreya, tendo subjugado em batalha, pela força de seus próprios braços, a terra inteira com suas montanhas e sete ilhas, se tornou um imperador muito poderoso e (finalmente) doou a terra aos Brahmanas em um Sacrifício de Cavalo. Em certa ocasião, solicitado pelo sedento deus do fogo, ó filho de Kunti, o monarca de mil braços e de grande destreza deu esmolas àquela divindade. Surgindo da ponta de suas flechas, o deus do fogo, possuidor de grande energia, desejoso de consumir (o que era oferecido), queimou aldeias e cidades e reinos e aldeolas de vaqueiros. Pela bravura daquele principal dos homens, isto é, Kritavirya de grande energia, o deus do fogo queimou montanhas e grandes florestas. Ajudado pelo rei dos Haihayas, o deus do fogo, feito pelo vento resplandecer com muita energia consumiu o inabitado mas encantador retiro de Apava de grande alma. Possuidor de grande energia, Apava, ó rei de braços fortes, vendo seu retiro destruído pelo poderoso Kshatriya, amaldiçoou aquele monarca em cólera, dizendo, ‘Já que, ó Arjuna, sem excetuar estas minhas florestas especiosas, tu as queimaste, portanto, Rama (da linhagem de Bhrigu) cortará teus (mil) braços.’ O poderoso Arjuna, no entanto, de grande destreza, sempre dedicado à paz, sempre respeitoso com os Brahmanas e disposto a conceder proteção (para todas as classes), e caridoso e corajoso, ó Bharata, não pensou naquela maldição pronunciada sobre si por aquele Rishi de grande alma. Seus filhos poderosos, sempre soberbos e cruéis, em consequência daquela maldição, se tornaram a causa indireta de sua morte. Os príncipes, ó touro da raça Bharata, agarraram e levaram o bezerro da vaca homa de Jamadagni, sem o conhecimento de Kritavirya, o soberano dos Haihayas. Por esta razão ocorreu uma disputa entre Jamadagni de grande alma (e os Haihayas). O poderoso Rama, o filho de Jamadagni, cheio de fúria, cortou os braços de Arjuna e levou de volta, ó monarca, o bezerro de seu pai que estava vagando dentro dos cercados internos do palácio do rei. Então os tolos filhos de Arjuna, indo juntos ao retiro de Jamadagni de grande alma, cortaram com as pontas de suas lanças, ó rei, a cabeça do Rishi de seu tronco enquanto o célebre Rama estava fora buscando combustível e ervas sagrados. Inflamado com cólera pela morte de seu pai e inspirado com vingança, Rama jurou livrar a terra de Kshatriyas e pegou armas. Então aquele tigre entre os Bhrigus, possuidor de grande energia, aplicando sua destreza, matou rapidamente todos os filhos e netos de Kritavirya. Massacrando milhares de Haihayas furiosamente, o descendente de Bhrigu, ó rei, fez a terra ficar lodosa com sangue. Possuidor de grande energia, ele rapidamente privou a terra de todos os Kshatriyas. Cheio então de compaixão, ele se retirou para as florestas. Depois, quando alguns milhares de anos tinham passado, o poderoso Rama, que era colérico por natureza, teve imputações (de covardia) lançadas sobre ele. O neto de Viswamitra e filho de Raivya, possuidor de grande mérito ascético, chamado de Paravasu, ó monarca, começou a lançar imputações sobre Rama em público, dizendo, 'Ó Rama, não eram aqueles homens virtuosos, isto é, Pratardana e outros, que estavam reunidos em um sacrifício no tempo da queda de Yayati, Kshatriyas por nascimento? Tu não és de votos verdadeiros, ó Rama! Tua é uma jactância vazia entre o povo. Por medo dos heróis Kshatriya tu te dirigiste às montanhas.’ O descendente de Bhrigu, ouvindo estas palavras de Paravasu, mais uma vez pegou armas e mais uma vez cobriu a terra com centenas de corpos de Kshatriyas. Aqueles Kshatriyas, no entanto, ó rei, contados às centenas, que foram poupados por Rama, se multiplicaram (com o tempo) e se tornaram monarcas poderosos sobre terra. Rama mais uma vez os massacrou rapidamente, não poupando nem as crianças, ó rei! De fato, a terra ficou novamente coberta com os corpos de crianças Kshatriya de nascimento prematuro. Logo que as crianças Kshatriya nasciam, Rama as matava. Algumas damas Kshatriya, no entanto, conseguiram proteger suas crianças (da fúria de Rama). Tendo feito a terra desprovida de Kshatriyas por três vezes sete vezes, o pujante Bhargava, na conclusão de um Sacrifício de Cavalo, doou a terra como presente sacrifical para Kasyapa. Para preservar o restante dos Kshatriyas, Kasyapa, ó rei, apontando com sua mão que ainda segurava a concha sacrifical, disse estas palavras, ‘Ó grande sábio, vá para as margens do oceano do sul. Não cabe a ti, ó Rama, residir dentro do (que é) meu domínio.' A estas palavras, o Oceano criou de repente para o filho de Jamadagni, em sua outra margem, uma região chamada Surparaka. Kasyapa também, ó monarca, tendo aceitado a terra em doação, e feito um presente dela para os Brahmanas, entrou na grande floresta. Então Sudras e Vaisyas, agindo muito obstinadamente, começaram a se unir, ó touro da raça Bharata, com as esposas de Brahmanas. Quando a anarquia se estabeleceu sobre a terra, os fracos eram oprimidos pelos fortes, e nenhum homem era dono de sua própria propriedade. Não protegida devidamente pelos Kshatriyas praticantes de virtude, e oprimida pelos maus por consequência daquela desordem, a terra afundou rapidamente para as mais baixas profundidades. Vendo a terra afundando por medo, Kasyapa de grande alma a segurou em seu colo; e já que o grande Rishi a segurou em seu colo (uru), a terra foi conhecida pelo nome de Urvi. A deusa terra, por proteção, gratificou Kasyapa e lhe pediu um rei.” "A Terra disse, 'Há, ó regenerado, alguns principais dos Kshatriyas escondidos por mim entre mulheres. Eles nasceram na linhagem de Haihayas. Que eles, ó sábio, me protejam. Há outra pessoa da linhagem de Puru, isto é, o filho de Viduratha, ó poderoso, que foi criado entre ursos nas montanhas Rikshavat. Outra, isto é, o filho de Saudasa, tem sido protegido, por compaixão, por Parasara de energia incomensurável e sempre engajado em sacrifícios. Embora nascido em uma das classes regeneradas, ainda assim, como um Sudra ele faz tudo para aquele Rishi e foi, portanto, chamado de Sarvakarman (empregado em todos os trabalhos). O filho de Sivi de grande energia, de nome Gopati, foi criado na floresta entre vacas. Que ele, ó sábio, me proteja. O filho de Pratardana, chamado Vatsa, de grande poder, foi criado entre bezerros em um curral. Que ele da classe real me proteja. O neto de Dadhivahana e filho de Diviratha foi escondido e protegido nas margens do Ganga pelo sábio Gautama. Seu nome é Vrihadratha. Possuidor de grande energia e adornado com numerosas qualidades abençoadas, aquele príncipe abençoado foi protegido por lobos e as montanhas de Gridhrakuta. Muitos Kshatriyas pertencentes à tribo de Maratta estão protegidos. Iguais ao senhor dos Maruts em energia, eles foram criados pelo Oceano. Estes filhos da classe Kshatriya são conhecidos como existentes em diferentes lugares. Eles estão vivendo entre artesãos e ourives. Se eles me protegem eu então ficarei inalterada. Seus pais e avôs foram mortos por minha causa por Rama de grande bravura. É meu dever, ó grande sábio, cuidar para que suas cerimônias fúnebres sejam devidamente realizadas. Eu não desejo ser protegida por meus soberanos atuais. Ó sábio, faça rapidamente tais arranjos para que eu possa viver (como antes).'” "Vasudeva continuou, 'O sábio Kasyapa então, procurando aqueles Kshatriyas de grande energia a quem a deusa tinha indicado, os instalou devidamente como reis (para protegê-la). Aquelas tribos Kshatriyas que são vastas agora são a progênie daqueles príncipes. Isso que tu me perguntaste, ó filho de Panda, aconteceu nos tempos passados dessa maneira.'” "Vaisampayana continuou, 'Conversando dessa maneira com Yudhishthira, aquela principal das pessoas justas, o herói Yadava de grande alma procedeu rapidamente naquele carro, iluminando todos os pontos do horizonte como o próprio Surya divino.'" "Vaisampayana disse, 'O rei Yudhishthira, ouvindo sobre aquelas façanhas de Rama, se encheu de admiração e disse a Janardana, ‘Ó tu da tribo de Vrishni, a destreza de Rama de grande alma, que em fúria tinha livrado a terra de Kshatriyas, era como aquela do próprio Sakra. Os descendentes dos Kshatriyas, atormentados com medo de Rama, foram escondidos (e criados) por vacas, Oceano, leopardos, ursos e macacos. Digno de todo o louvor é este mundo de homens e afortunados são aqueles que residem nele onde um feito, que era além disso tão justo, foi realizado por um Brahmana.’ Depois que esta conversa terminou, aquelas duas pessoas ilustres, Krishna de glória imorredoura e Yudhishthira, procederam para onde o pujante filho de Ganga jazia em seu leito de flechas. Eles então viram Bhishma esticado sobre sua cama de flechas e parecendo em esplendor com o Sol ao anoitecer coberto com seus próprios raios. O herói Kuru estava cercado por muitos ascetas como ele de cem sacrifícios pelas divindades do céu. O local sobre o qual ele estava era altamente sagrado, sendo situado nas margens do rio Oghavati. Contemplando-o de uma distância, Krishna e o filho real de Dharma, e os quatro Pandavas, e os outros encabeçados por Saradwat, desceram de seus veículos e acalmando suas mentes agitadas e concentrando todos os seus sentidos, se aproximaram dos grandes Rishis. Saudando aqueles principais dos Rishis encabeçados por Vyasa, Govinda e Satyaki e os outros se aproximaram do filho de Ganga. Contemplando o filho de Ganga de grande mérito ascético, os príncipes Yadu e Kuru, aqueles principais dos homens, tomaram seus assentos, circundando-o. Vendo Bhishma parecendo com um fogo prestes a desaparecer, Kesava com o coração um tanto triste se dirigiu a ele como segue.'” "Kesava disse, 'Tuas percepções agora estão claras como antes? Eu espero que tua compreensão, ó principal dos homens eloquentes, não esteja nublada. Eu espero que teus membros não sejam torturados pela dor resultante dos ferimentos por flechas. Pela dor mental também o corpo se torna fraco. Pela bênção concedida a ti por teu pai, o virtuoso Santanu, tua morte, ó herói pujante, depende da tua própria vontade. Eu mesmo não tenho aquele mérito pelo qual tu obtiveste este benefício. O alfinete mais miúdo (introduzido) dentro do corpo produz dor. O que dizer então, ó rei, das centenas de setas que te perfuraram? Certamente, não se pode dizer que a dor te aflige. Tu és competente, ó Bharata, para instruir os próprios deuses a respeito da origem e dissolução de criaturas vivas. Possuidor de grande conhecimento, tudo pertencente ao Passado, ao Futuro, e ao Presente, é bem conhecido por ti. A dissolução de seres criados e a recompensa da virtude são bem conhecidos por ti, ó tu de grande sabedoria, pois tu és um oceano de virtude e dever. Enquanto vivendo no desfrute da soberania em expansão, eu te vi abandonar relações com mulheres embora saudável de membros e perfeitamente são e embora estivesses cercado por companheiras mulheres. Exceto o filho de Santanu, Bhishma de grande energia e firmemente dedicado à virtude, possuidor de heroísmo e tendo a virtude como o único objeto de sua busca, nós nunca soubemos de alguma outra pessoa nos três mundos que pudesse, por seu poder ascético, embora jazendo em um leito de flechas e às portas da morte, ter ainda tal domínio completo sobre a morte (a ponto de mantê-la assim afastada). Nós nunca ouvimos de alguém mais que fosse tão dedicado à verdade, a penitências, a doações, à realização de sacrifícios, à ciência de armas, aos Vedas, e à proteção das pessoas que pedem proteção, e que fosse tão inofensivo para todas as criaturas, tão puro em comportamento, tão autocontrolado, e tão aplicado no bem de todas as criaturas, e que fosse também um grande guerreiro em carro como tu. Sem dúvida, tu és capaz de subjugar, em um único carro, os deuses, Gandharvas, Asuras, Yakshas, e Rakshasas. Ó Bhishma de braços fortes, tu és sempre citado pelos Brahmanas como o nono dos Vasus. Por tuas virtudes, no entanto, tu superaste todos eles e és igual ao próprio Vasava. Eu sei, ó melhor das pessoas, que tu és famoso por tua destreza, ó principal dos seres, até entre os próprios deuses. Entre os homens na terra, ó principal dos homens, nós nunca vimos nem ouvimos de algum que fosse possuidor de tais atributos como tu. Ó tu da classe real, tu superas os próprios deuses em relação a todos os atributos. Pelo teu poder ascético tu podes criar um universo de criaturas móveis e imóveis. O que dizer então de tu teres conquistado muitas regiões abençoadas por meio das tuas principais das virtudes? Dissipe agora a angústia do filho mais velho de Pandu que está queimando de tristeza por causa da morte de seus parentes. Todos os deveres que foram declarados em relação às quatro classes acerca dos quatro modos de vida são bem conhecidos por ti. Tudo também que é indicado nos quatro ramos de conhecimento, nos quatro Hotras, ó Bharata, como também aqueles deveres eternos que são prescritos nas filosofias Yoga e Sankhya, os deveres também das quatro ordens e aqueles deveres que não são inconsistentes com suas práticas declaradas, tudo isto, junto com suas interpretações, ó filho de Ganga, é conhecido por ti. Os deveres que foram prescritos para aqueles que nasceram de uma mistura das quatro classes e aqueles prescritos para países e tribos e famílias específicos, e aqueles declarados pelos Vedas e por homens de sabedoria, todos são bem conhecidos por ti. Os temas de histórias e dos Puranas são todos conhecidos por ti. Todas as escrituras que tratam do dever e prática residem na tua mente. Além de ti, ó touro entre homens, não há outra pessoa que possa remover as dúvidas que possam surgir a respeito daqueles assuntos de conhecimento que são estudados no mundo. Com a ajuda da tua inteligência, ó regente de homens, remova a tristeza sentida pelo filho de Pandu. Pessoas possuidoras de conhecimento tão grande e variado vivem somente para confortar homens cujas mentes foram entorpecidas.'” "Vaisampayana disse, 'Ouvindo estas palavras de Vasudeva de grande inteligência, Bhishma, erguendo um pouco sua cabeça, disse estas palavras com mãos unidas.'” "Bhishma disse, 'Saudações a ti, ó divino Krishna! Tu és a origem e tu és a dissolução de todos os mundos. Tu és o Criador e tu és o Destruidor. Tu, ó Hrishikesa, não podes ser vencido por alguém. O universo é tua obra. Tu és a alma do universo e o universo surgiu de ti. Saudações a ti! Tu és o fim de todas as coisas criadas. Tu estás acima dos cinco elementos. Saudações a ti que és os três mundos e que estás também acima dos três mundos. Ó senhor de Yogins, saudações a ti que és o refúgio de tudo. Ó principal dos seres, aquelas palavras que tu disseste a meu respeito me permitiram ver teus atributos divinos como manifestados nos três mundos. (Por aquela bondade), ó Govinda, eu também contemplo tua forma eterna. Tu permaneces fechando os sete caminhos do Vento possuidor de energia incomensurável. O firmamento é ocupado por tua cabeça, e a terra por teus pés. Os pontos do horizonte são teus dois braços, e o Sol é teu olho, e Sakra constitui tua destreza. Ó tu de glória imperecível, tua Pessoa, vestida em mantos amarelos que se assemelham com a cor da flor Atasi, parece para nós ser como uma nuvem carregada com lampejos de relâmpago. Considere aquilo, ó melhor dos deuses, que seria bom, ó tu de olhos de lótus, para minha pessoa humilde, que sou devotado a ti, que procuro tua proteção, e que estou desejoso de obter um fim bem-aventurado.'” "Vasudeva disse, 'Já que, ó touro entre homens, tua devoção a mim é muito grande, por isto, ó príncipe, eu mostrei minha forma celestial para ti. Ó principal dos reis, eu não me revelo para alguém que não é devotado a mim, ou para um devoto que não é sincero, ou para alguém, ó Bharata, que não seja de alma controlada. Tu és devotado a mim e és sempre praticante de virtude. De um coração puro, tu és sempre autocontrolado e sempre praticante de penitências e doações. Pelas tuas próprias penitências, ó Bhishma, tu és capaz de me contemplar. Aquelas regiões, ó rei, estão prontas para ti de onde não há retorno. (Isto é, quem vai para lá não está sujeito ao renascimento). Cinquenta e seis dias, ó principal da linhagem de Kuru, ainda te restam para viver! Abandonando teu corpo, tu então, ó Bhishma, obterás a abençoada recompensa de teus atos. Veja, aquelas divindades e os Vasus, todos dotados de formas de esplendor flamejante, em seus carros, estão esperando por ti invisivelmente até o momento da entrada do sol na direção norte. Sujeito ao tempo universal, quando o divino Surya virar para sua direção norte, ó principal dos homens, tu irás para aquelas regiões das quais nenhum homem de conhecimento volta para esta terra! Quando tu, ó Bhishma, deixares este mundo por aquele, todo o Conhecimento, ó herói, expirará contigo. É por isso que todas estas pessoas, reunidas, se aproximaram de ti para escutar discursos sobre dever e moralidade. Fale então palavras de verdade, repletas de moralidade e Yoga, para Yudhishthira que é firme em verdade mas cujo saber foi nublado pela angústia por causa da morte de seus parentes, e, por meio disto, dissipe rapidamente aquela tristeza dele!'” 52 “Vaisampayana disse, ‘Ouvindo estas palavras de Krishna repletas de Moralidade e bem, o filho de Santanu, Bhishma, respondeu a ele nas palavras seguintes.’” "Bhishma disse, 'Ó mestre de todos os mundos, ó poderosamente armado, ó Siva, ó Narayana, ó tu de glória imperecível, ouvindo as palavras faladas por ti eu estou cheio de alegria. Mas que palavras (de instrução), ó mestre do discurso, eu posso dizer na tua presença, especialmente quando todos os assuntos de discurso são tratados no discurso? (Os Vedas constituem o discurso do Ser Supremo. Tudo sobre moralidade se encontra neles.) O que quer que em qualquer mundo deva ser feito ou seja feito, procede da tua pessoa inteligente, ó deus! Aquela pessoa que é competente para discursar sobre o assunto do céu na presença do próprio chefe dos deuses é competente para discursar sobre a interpretação de moralidade e prazer e lucro e salvação na tua presença. Minha mente, ó matador de Madhu, está extremamente agitada pela dor dos ferimentos de flechas. Meus membros estão fracos. Minha compreensão não está clara. Eu estou tão atormentado, ó Govinda, por estas flechas parecendo veneno ou fogo, que eu não tenho poder para proferir qualquer coisa. Minha força está me abandonando. Meus ares vitais estão se apressando para me deixar. Os próprios órgãos vitais do meu corpo estão queimando. Minha compreensão está nublada. Por fraqueza minha pronúncia está se tornando indistinta. Como então eu posso ousar falar? Ó aumentador da (glória da) tribo de Dasarha, fique satisfeito comigo. Ó de braços fortes, eu não direi nada. Perdoe-me (pela minha má-vontade). O próprio mestre do discurso (Vrihaspati), em falar na tua presença, seria tomado pela hesitação. Eu não posso mais distinguir os pontos do horizonte, nem o céu da terra! Pela tua energia somente, ó matador de Madhu, eu mal e mal estou vivo. Portanto, fale tu mesmo para o bem do rei Yudhishthira o justo, pois tu és o ordenador de todas as ordenanças. Como, ó Krishna, quando tu, o criador eterno do universo, estás presente, pode alguém como eu falar (sobre tais assuntos) como um discípulo na presença do preceptor?'” "Vasudeva disse, 'As palavras faladas por ti são dignas de ti que és o principal da linhagem de Kuru, que és dotado de grande energia, que és de grande alma, e que és possuidor de grande paciência e conhecedor de todos os assuntos. Considerando o que tu me disseste sobre a dor dos teus ferimentos de setas, receba, ó Bhishma, este benefício que eu te concedo, ó pujante, pela minha graça. Desconforto e estupefação e queimação e dor e fome e sede, ó filho de Ganga, não te dominarão, ó tu de glória imperecível! Tuas percepções e memória, ó impecável, serão desanuviadas. (Literalmente, ‘Tudo o que tu conheces aparecerá para ti por luz interior’.) A compreensão não te falhará. A mente, ó Bhishma, livre das qualidades de paixão e ignorância, sempre estará sujeita à qualidade de bondade, como a lua saída das nuvens. Tua compreensão penetrará em qualquer assunto ligado com dever, moralidade, ou lucro, no qual tu possas pensar. Ó tigre entre reis, obtendo visão divina, tu irás, ó tu de destreza incomensurável, conseguir contemplar as quatro classes de coisas criadas. Dotado da visão do conhecimento, tu contemplarás, ó Bhishma, como peixes em um rio límpido, todas as coisas criadas que tu possas te esforçar para lembrar!'” "Vaisampayana continuou, 'Então aqueles grandes Rishis, com Vyasa entre eles, adoraram Krishna com hinos dos Richs, dos Yajuses, e dos Samans. Uma chuva celeste de flores pertencentes a todas as estações caiu sobre aquele local onde aquele da tribo de Vrishni, com o filho de Ganga e o filho de Pandu, estava. Instrumentos celestes de todos os tipos tocaram no firmamento e as tribos de Apsaras começaram a cantar. Nada de mau e nenhum mau presságio foi visto lá. Uma brisa auspiciosa, agradável e pura, portando todos os tipos de fragrâncias, começou a soprar. Todos os pontos do horizonte se tornaram claros e quietos, e todos os animais e aves começaram a vagar em paz. Logo depois, como um fogo na extremidade de uma grande floresta, o divino Surya de mil raios foi visto descer para o oeste. Os grandes Rishis então, se erguendo, saudaram Janardana e Bhishma e o rei Yudhishthira. Após isto, Kesava e os filhos de Pandu, e Satyaki, e Sanjaya, e Kripa o filho de Saradwata, se curvaram em reverência àqueles sábios. Dedicados à prática da virtude, aqueles sábios, assim adorados por Kesava e outros, foram rapidamente para suas respectivas residências, dizendo, 'Nós voltaremos amanhã'. Depois disto, Kesava e os Pandavas, saudando Bhishma e circungirando-o, subiram em seus carros vistosos. Aqueles heróis então procederam, acompanhados por muitos outros carros decorados com Kuvaras dourados, e elefantes enfurecidos parecidos com montanhas e corcéis velozes como Garudas, e soldados de infantaria armados com arcos e armas. Aquele exército, se movendo com grande velocidade, procedeu em duas divisões, uma na vanguarda e outra na retaguarda daqueles príncipes. A cena parecia com as duas correntes do grande rio Narmada no ponto onde ele é dividido pelas montanhas Rikshavat estendendo-se sobre ele. Alegrando aquela grande hoste, o divino Chandramas ergueu-se diante dela no firmamento, mais uma vez inspirando com umidade, pela sua própria força, as ervas e plantas terrestres cujo suco havia sido absorvido pelo Sol. Então aquele touro da raça Yadu e os filhos de Pandu, entrando na cidade (Kuru) cujo esplendor parecia com aquele da própria cidade de Indra, procederam para suas respectivas mansões como leões cansados procurando suas cavernas.'" 53 "Vaisampayana disse, 'O matador de Madhu, se retirando para sua cama, dormiu alegremente. Despertando quando metade de um Yama estava faltando para prenunciar o dia, ele se dirigiu para contemplação. Fixando todos os seus sentidos, ele meditou no eterno Brahma. Então um grupo de pessoas bem treinadas e de voz doce, conhecedoras de hinos e dos Puranas, começaram a proferir os louvores de Vasudeva, aquele senhor de todas as criaturas e criador do universo. Outras, marcando o tempo com palmas, começaram a recitar hinos encantadores, e vocalistas começaram a cantar. Conchas e baterias foram sopradas e batidas às milhares. O som agradável de Vinas, Panavas, e flautas de bambu era ouvido. A mansão espaçosa de Krishna, por isso, parecia rir com a música. No palácio do rei Yudhishthira também foram ouvidas vozes doces, proferindo desejos auspiciosos, e o som de canções também e instrumentos musicais. Então aquele da tribo de Dasarha realizou suas abluções. Unindo suas mãos, o poderoso herói de glória imperecível recitou silenciosamente seus mantras secretos, e acendendo um fogo despejou libações de manteiga clarificada sobre ele. Doando mil vacas para mil Brahmanas todos os quais eram totalmente conhecedores dos quatro Vedas, ele os fez proferirem bênçãos sobre ele. Tocando em seguida diversos tipos de artigos auspiciosos e se contemplando em um espelho límpido, Krishna se dirigiu a Satyaki, dizendo, 'Vá, ó descendente de Sini, e chegando à residência de Yudhishthira averigúe se aquele rei de grande energia está vestido para visitar Bhishma.' A estas palavras de Krishna, Satyaki, indo rapidamente até o filho nobre de Pandu, disse a ele, 'O principal dos carros, pertencente à Vasudeva de grande inteligência, está pronto, ó rei, pois Janardana irá ver o filho de Ganga. Ó rei justo de grande esplendor, ele está esperando por ti. Cabe a ti agora fazer o que deve ser feito em seguida.' Assim endereçado, o filho de Dharma, Yudhishthira, respondeu como segue.'” "Yudhishthira disse, 'Ó Phalguna de esplendor inigualável, que o principal dos meus carros seja aprontado. Nós não seremos acompanhados (hoje) pelos soldados, mas procederemos sós. Aquela principal das pessoas virtuosas, Bhishma, não deve ser contrariada. Que os guardas, portanto, ó Dhananjaya, parem hoje. Desse dia em diante o filho de Ganga falará de coisas que são grandes mistérios. Eu, portanto, ó filho de Kunti, não desejo que haja lá uma aglomeração variada (na presença de Bhishma).'” "Vaisampayana continuou, 'Ouvindo estas palavras do rei, o filho de Kunti, Dhananjaya, aquele principal dos homens (saindo e voltando), relatou para ele que o melhor dos seus carros estava pronto para ele. O rei Yudhishthira e os gêmeos, e Bhima e Arjuna, os cinco parecendo com os cinco elementos, então procederam na direção da residência de Krishna. Enquanto os Pandavas de grande alma estavam se aproximando, Krishna de grande inteligência, acompanhado pelo neto de Sini, subiu em seu carro. Saudando uns aos outros de seus carros e cada um perguntando ao outro se a noite tinha passado alegremente para ele, aqueles touros entre homens procederam, sem parar, naqueles principais dos carros cujo estrépito parecia o rugido das nuvens. Os corcéis de Krishna, isto é, Valahaka e Meghapushpa e Saivya e Sugriva eram incitados por Daruka. Os animais, incitados por ele, ó rei, procederam, denteando a terra com seus cascos. Dotados de grande força e grande velocidade, eles voaram para frente, devorando os próprios céus. Atravessando o campo sagrado de Kuru, os príncipes procederam para aquele local onde o pujante Bhishma estava deitado em seu leito de flechas, cercado por grandes Rishis, como o próprio Brahman no meio dos deuses. Então Govinda e Yudhishthira e Bhima e o manejador do Gandiva e os gêmeos e Satyaki, descendo de seus veículos, saudaram os Rishis por erguerem a mão direita. Cercado por eles, o rei Yudhishthira, como a lua no meio das estrelas, se aproximou do filho de Ganga como Vasava procedendo em direção a Brahman. Dominado pelo medo, o rei olhou timidamente para o herói de braços poderosos jazendo em sua cama de setas como o próprio Sol caído do firmamento.'" 54 "Janamejaya disse, 'Quando aquele tigre entre homens, de alma justa e grande energia, firmemente aderindo à verdade e com paixões sob completo controle, isto é, o filho de Santanu e Ganga, chamado Devavrata ou Bhishma de glória imperecível, estava deitado em um leito de herói com os filhos de Pandu sentados ao redor dele, me diga, ó grande sábio, que conversação se seguiu naquele encontro de heróis depois do massacre das tropas.'” "Vaisampayana disse, 'Quando Bhishma, aquele chefe dos Kurus, jazia em seu leito de setas, muitos Rishis e Siddhas, ó rei, encabeçados por Narada, foram àquele local. O restante não morto dos reis (reunidos), com Yudhishthira em sua dianteira, e Dhritarashtra e Krishna e Bhima e Arjuna e os gêmeos também foram lá. Aquelas pessoas de grande alma, se aproximando do avô dos Bharatas que parecia com o próprio Sol caído do firmamento, abandonaram-se em lamentações por ele. Então Narada de feições divinas, refletindo por um momento, se dirigiu a todos os Pandavas e ao restante dos reis dizendo, 'Chegou a hora, eu penso, de vocês questionarem Bhishma (sobre o assunto de moralidade e religião), pois o filho de Ganga está prestes a expirar como o Sol que está a ponto de se por. Ele está prestes a abandonar seus ares vitais. Vocês todos, portanto, peçam a ele para discursar para vocês. Ele conhece os variados deveres de todas as quatro classes. Velho em idade, depois de abandonar seu corpo ele alcançará regiões sublimes de bem-aventurança. Peçam a ele, portanto, sem demora, para esclarecer as dúvidas que existem em suas mentes.' Assim endereçados por Narada, aqueles príncipes se aproximaram de Bhishma, mas incapazes de lhe perguntar qualquer coisa, olharam uns para os outros. Então Yudhishthira, o filho de Pandu, se dirigindo a Hrishikesa, disse, ‘Não há ninguém mais além do filho de Devaki que possa questionar o avô. Ó principal da tribo de Yadu, tu, portanto, ó matador de Madhu, fale primeiro. Tu, ó senhor, és o principal dentre todos nós e tu estás familiarizado com todos os deveres e práticas.’ Assim endereçado pelo filho de Pandu, o ilustre Kesava de glória imperecível, se aproximando do inconquistável Bhishma, falou a ele o seguinte.'” "Vasudeva disse, 'Tu, ó melhor dos reis, passaste a noite tranquilamente? Tua compreensão se desanuviou? Teu conhecimento, ó impecável, brilha em ti por iluminação interior? Eu espero que o teu coração não sinta mais dor e que a tua mente não esteja mais agitada.'” "Bhishma disse, 'Queimação, estupefação, fadiga, exaustão, doença, e dor, pela tua graça, ó tu da tribo de Vrishni, todas me deixaram em um único dia. Ó tu de esplendor incomparável, tudo o que é passado, tudo o que é futuro, e tudo o que é presente, eu contemplo tão claramente como uma fruta colocada em minhas mãos. Todos os deveres declarados nos Vedas, todos aqueles prescritos nos Vedantas eu vejo claramente, ó tu de glória imperecível, pela bênção que tu me concedeste. Os deveres que foram declarados por pessoas de erudição e comportamento honrado vivem na minha lembrança. Eu sou conhecedor também, ó Janardana, dos deveres e práticas que predominam em países específicos e entre tribos e famílias específicas. Tudo também relacionado com os quatro modos de vida voltou à minha recordação. Eu estou familiarizado também, ó Kesava, com os deveres relativos à arte de reinar. O que quer que deva a qualquer hora ser dito, eu direi, ó Janardana! Pela tua graça, eu adquiri uma compreensão auspiciosa. Fortalecido pela meditação em ti, eu me sinto como se eu tivesse me tornado um homem jovem outra vez. Pelo teu favor, ó Janardana, eu me tornei capaz de discursar sobre o que é benéfico (para o mundo). Por que, no entanto, ó santo, tu não discursas tu mesmo para o filho de Pandu filho sobre tudo o que é bom? Que explicação tu tens a dar a respeito disto? Diga-me rapidamente, ó Madhava!'” "Vasudeva disse, 'Saiba, ó tu da linhagem de Kuru, que eu sou a origem da fama e de tudo o que leva ao bem. Todas as coisas, boas ou más, procedem de mim. Quem sobre a terra se admiraria se a lua fosse citada como sendo de raios frios? Do mesmo modo, quem se admiraria se eu fosse descrito como alguém possuidor de toda a fama? (Isto é, eu que já tenho a medida completa de fama mal posso aumentar minha fama por fazer ou dizer alguma coisa.) Eu, no entanto, resolvi aumentar tua fama, ó tu de grande esplendor! É por isso, ó Bhishma, que eu justamente te inspirei com grande inteligência. Ó senhor da terra, enquanto a terra durar, tua fama percorrerá todos os mundos com esplendor não diminuído. O que quer que, ó Bhishma, tu digas ao inquiridor filho de Pandu, será considerado na terra como tão autoritário quanto as declarações dos Vedas. A pessoa que se comportar aqui segundo a autoridade das tuas declarações, obterá após a morte a recompensa de todos os atos meritórios. Por esta razão, ó Bhishma, eu te dei compreensão celestial para que tua fama possa ser ressaltada sobre a terra. É dito que as realizações de um homem duram tanto tempo quanto a sua fama dura no mundo. O restante não morto dos reis (reunidos), estão sentados ao teu redor, desejosos de escutar aos teus discursos sobre moralidade e dever. Fale a eles, ó Bharata! Tu és idoso em idade e teu comportamento é compatível com as ordenanças dos Srutis. Tu conheces bem os deveres dos reis e todas as outras ciências de dever. Ninguém alguma vez notou a menor transgressão em ti desde o teu próprio nascimento. Todos os reis sabem que tu estás familiarizado com todas as ciências de moralidade e dever. Como um pai para seus filhos, portanto, ó rei, fale a eles sobre a moralidade superior. Tu sempre adoraste os Rishis e os deuses. É obrigatório para ti falar sobre estes assuntos em detalhes para pessoas desejosas de ouvir discursos sobre moralidade e dever. Uma pessoa erudita, especialmente quando solicitada pelos virtuosos, deve discursar sobre o mesmo. Os sábios declararam que isto é um dever. Ó pujante, se tu não falares sobre tais assuntos, tu incorrerás em pecado. Portanto, questionado por teus filhos e netos, ó erudito, acerca dos deveres eternos (dos homens), ó touro entre os Bharatas, discurse para eles sobre o assunto.'" 55 "Vaisampayana disse, 'Dotado de grande energia, o alegrador dos Kurus (Bhishma), disse, 'Eu discorrerei sobre o assunto do dever. Minha fala e mente se tornaram firmes pela tua graça, ó Govinda, já que tu és a alma eterna de todos os seres. Que Yudhishthira de alma justa me questione a respeito de moralidade e dever. Eu então ficarei muito satisfeito e falarei de todos os deveres. Que o filho de Pandu, aquele sábio nobre de alma grande e virtuosa, após cujo nascimento todos os Vrishnis se encheram de alegria, me questione. Que o filho de Pandu, que não tem igual entre todos os Kurus, entre todas as pessoas de comportamento honrado, e entre os homens de grande celebridade, faça perguntas para mim. Que o filho de Pandu, em quem há inteligência, autocontrole, Brahmacharya, generosidade, justiça, vigor mental e energia, faça perguntas a mim. Que o filho de Pandu, que sempre por seus bons ofícios honra seus parentes e convidados e empregados e outros que são dependentes dele, faça perguntas a mim. Que o filho de Pandu, em quem há verdade e caridade e penitência, heroísmo, quietude, inteligência, e destemor, faça perguntas a mim. Que o filho de alma justa de Pandu, que nunca cometeria um pecado influenciado pelo desejo de Prazer ou Lucro ou por medo faça perguntas para mim. Que o filho de Pandu, que é sempre dedicado à verdade, à benevolência, ao conhecimento e aos convidados, e que sempre faz doações para os virtuosos, faça perguntas a mim. Que o filho de Pandu, que está sempre empenhado em sacrifícios e estudo dos Vedas e na prática da moralidade e do dever, que é sempre pacífico e que ouviu todos os mistérios, faça perguntas para mim.'” "Vasudeva disse, 'O rei Yudhishthira o justo, dominado por grande vergonha e receoso da (tua) maldição, não ousa se aproximar de ti. Aquele senhor de terra, ó monarca, tendo causado um grande massacre, não ousa se aproximar por medo da (tua) maldição. Tendo perfurado com flechas aqueles que mereciam sua veneração, aqueles que eram devotados a ele, aqueles que eram seus preceptores, aqueles que eram seus parentes e aparentados e aqueles que eram dignos do seu maior respeito, ele não ousa se aproximar de ti.'” "Bhishma disse, 'Como o dever dos Brahmanas consiste na prática de caridade, estudo, e penitências, assim o dever dos Kshatriyas é perder seus corpos, ó Krishna, em batalha. Um Kshatriya deve matar pais e avôs e irmãos e preceptores e parentes e aparentados que possam se envolver com ele em uma batalha injusta. Este é seu dever declarado. O Kshatriya, ó Kesava, que é citado como conhecedor do seu dever é aquele que mata em batalha seus próprios preceptores se acontecer de eles serem pecaminosos e avarentos e negligentes com as restrições e votos. O Kshatriya que está familiarizado com seu dever é aquele que mata em batalha a pessoa que por cobiça desconsidera as barreiras eternas da virtude. (Literalmente, 'a ponte eterna de virtude.') É citado como conhecedor do dever aquele Kshatriya que em batalha faz da terra um lago de sangue, tendo o cabelo de guerreiros mortos como a grama e palha flutuando sobre ele, e tendo elefantes como suas rochas, e estandartes como as árvores em suas margens. Um Kshatriya, quando desafiado, deve sempre lutar em batalha, já que Manu disse que uma batalha justa (no caso de um Kshatriya) leva ao céu e à fama sobre a terra.'” "Vaisampayana continuou, 'Depois que Bhishma tinha falado dessa maneira, o filho de Dharma, Yudhishthira, com grande humildade, se aproximou do herói Kuru e ficou em sua visão. Ele pegou os pés de Bhishma que em retorno o alegrou com palavras afetuosas. Cheirando sua cabeça, Bhishma pediu a Yudhishthira para tomar seu assento. Então o filho de Ganga, aquele principal dos arqueiros, dirigiu- se a Yudhishthira, dizendo, 'Não tema, ó melhor dos Kurus! Questione-me, ó filho, sem qualquer ansiedade.'" Vaisampayana disse, 'Tendo reverenciado Hrishikesa, e saudado Bhishma, e recebido a permissão de todos os mais velhos lá reunidos, Yudhishthira começou a questionar Bhishma.' "Yudhishthira disse, 'Pessoas familiarizadas com dever e moralidade dizem que os deveres reais constituem a mais elevada ciência de dever. Eu também penso que a carga daqueles deveres é extremamente onerosa. Portanto, ó rei, discorra sobre aqueles deveres. Ó avô, fale em detalhes sobre os deveres dos reis. A ciência dos deveres reais é o refúgio do mundo inteiro de vida. Ó tu da linhagem de Kuru, Moralidade, Lucro, e Prazer dependem dos deveres reais. Está claro também que as práticas que levam à emancipação são igualmente dependentes deles. Como as rédeas para o corcel ou o gancho de ferro para o elefante, assim mesmo a ciência dos deveres da realeza constitui as rédeas para controlar o mundo. Se houvesse estupefação em relação aos deveres observados pelos sábios reais, a desordem se manifestaria na terra e tudo se tornaria confuso. Como o Sol, nascendo, dissipa a escuridão inauspiciosa, assim esta ciência destrói todo o tipo de má consequência em relação ao mundo. Portanto, ó avô, por minha causa, discurse sobre os deveres da realeza em primeiro lugar, pois tu, ó chefe dos Bharatas, és a principal de todas as pessoas conhecedoras dos deveres. Ó opressor de inimigos, Vasudeva te considera como a mais importante de todas as pessoas inteligentes. Portanto, todos nós esperamos o mais elevado conhecimento de ti.'” "Bhishma disse, 'Curvando-me a Dharma que é Supremo, a Krishna que é Brahma integralmente, e aos Brahmanas, eu discursarei sobre os eternos deveres (de homens). Ouça de mim, ó Yudhishthira, com atenção concentrada, a total extensão dos deveres dos reis descritos com detalhes exatos, e outros deveres que tu possas desejar saber. Em primeiro lugar, ó principal da linhagem e Kuru, o rei deve, pelo desejo de satisfazer (seus súditos), servir com humildade aos deuses e aos Brahmanas, sempre se comportando de acordo com as ordenanças. Por cultuar as divindades e os Brahmanas, ó perpetuador da família de Kuru, o rei quita seu débito com o dever e a moralidade, e recebe o respeito de seus súditos. Ó filho, tu deves sempre te esforçar com prontidão, ó Yudhishthira, pois sem prontidão de esforço o mero destino nunca realiza os objetivos nutridos pelos reis. Estes dois, isto é, esforço e destino, são iguais (em sua operação). Deles, eu considero o esforço como superior, pois o destino é determinado pelos resultados do que é começado com esforço. Não te entregue à angústia se o que é começado termina desastrosamente, pois tu deves então te esforçar na mesma ação com atenção redobrada. Este é o nobre dever de reis. Não há nada que contribua tanto para o sucesso dos reis quanto a Verdade. O rei que é dedicado à Verdade encontra felicidade aqui e após a morte. Com respeito aos Rishis também, ó rei, a Verdade é sua grande riqueza. Do mesmo modo, em relação aos reis, não há nada que inspire tanta confiança neles quanto a Verdade. O rei que é possuidor de todas as habilidades e bom comportamento, que é autocontrolado, humilde, e justo, que tem suas paixões sob controle, que é de aspecto belo e não muito inquiridor, (no sentido de ser generoso, um rei não deve perguntar tão minuciosamente o que é feito com as coisas que pertencem a ele), nunca perde a prosperidade. Por aplicar a justiça, por prestar atenção a estes três, isto é, escondimento de suas próprias fraquezas, averiguação das fraquezas de inimigos, e guarda de seus próprios planos, como também pela observância de uma conduta direta, o rei, ó encantador dos Kurus, obtém prosperidade. Se o rei se torna brando, todos o desrespeitam. Por outro lado, se ele se torna violento, seus súditos então ficam inquietos. Portanto, observe ambos os tipos de comportamento. Ó principal dos homens generosos, os Brahmanas nunca devem ser punidos por ti, pois o Brahmana, ó filho de Pandu, é o principal dos seres sobre a Terra. Manu de grande alma, ó rei de reis, cantou dois Slokas. Em relação aos teus deveres, ó tu da linhagem de Kuru, tu deves sempre mantê-los em mente. O Fogo surgiu da água, o Kshatriya do Brahmana, e o ferro da pedra. Os três (isto é, fogo, Kshatriya e ferro) podem exercer sua força sobre todas as outras coisas, mas entrando em contato com seus respectivos progenitores sua força é neutralizada. Quando o ferro golpeia a pedra, ou o fogo luta com a água, ou o Kshatriya nutre inimizade por um Brahmana, estes três logo se tornam fracos. Como isto é assim, ó monarca, (você verá que) os Brahmanas são dignos de culto. Aqueles que são os principais entre os Brahmanas são deuses na terra. Devidamente adorados, eles mantêm os Vedas e os Sacrifícios. Mas aqueles, ó tigre entre reis, que desejam ter tal honra embora eles possam ser obstáculos para os três mundos, devem ser sempre reprimidos pelo poder de tuas armas. O grande Rishi Usanas, ó filho, cantou dois Slokas nos tempos passados. Ouça-os, ó rei, com atenção concentrada. O Kshatriya justo, consciente de seus deveres, deve castigar um Brahmana que possa ser um verdadeiro mestre nos Vedas se ele avança para lutar com uma arma erguida. O Kshatriya, conhecedor dos deveres, que mantém a virtude quando ela é desrespeitada, por tal ação não se torna um pecador, pois a fúria do atacante justifica a fúria do castigador. Sujeitos a estas restrições, ó tigre entre reis, os Brahmanas devem ser protegidos. Se eles se tornam transgressores, eles devem então ser exilados para além dos teus domínios. Até quando merecedores de punição, tu deves, ó rei, lhes mostrar compaixão. Se um Brahmana se torna culpado de Brahmanicídio, ou de violar a cama de seu preceptor ou outro superior venerável, ou de causar aborto, ou de traição contra o rei, sua punição deve ser o banimento de teus domínios. Nenhum castigo corpóreo é prescrito para eles. Aquelas pessoas que demonstram respeito pelos Brahmanas devem ser favorecidas por ti (com cargos no estado). Não há tesouro mais valioso para reis do que aquele que consiste na seleção e reunião de empregados. Entre os seis tipos de fortaleza indicados nas escrituras, de fato entre todas as espécies de fortalezas, a que consiste (no pronto serviço e no amor dos) súditos é a mais invulnerável. Portanto, o rei que é possuidor de sabedoria deve sempre mostrar compaixão em direção às quatro classes de seus súditos. O rei que é de alma justa e palavras verdadeiras consegue satisfazer seus súditos. Tu não deves, entretanto, ó filho, sempre te comportar com benevolência para com todos, pois o rei que é brando é considerado como o pior de sua classe como um elefante que é desprovido de ferocidade. Nas escrituras compostas por Vrihaspati, havia um Sloka nos tempos passados aplicável à questão atual. Ouça-o, ó rei, enquanto eu o recito. 'Se acontece de o rei ser sempre benevolente, as pessoas mais inferiores prevalecem sobre ele, assim como o motorista que senta sobre a cabeça do elefante que ele guia.' O rei, portanto, não deve ser sempre brando. Nem ele deve ser sempre violento. Ele deve ser como o Sol primaveril, nem frio e nem tão quente a ponto de produzir transpiração. Pela evidência direta dos sentidos, por conjetura, por comparações, e pelas leis das escrituras, ó monarca, o rei deve estudar amigos e inimigos. Ó tu de grande generosidade, tu deves evitar todas aquelas práticas más que são chamadas de Vyasanas. Não é necessário que tu nunca cedas a elas. O que é preciso, no entanto, é que tu não tenhas atração por elas. Aquele que é afeiçoado àquelas práticas é dominado por todo mundo. O rei que não nutre amor por seu povo inspira o último com ansiedade. O rei deve sempre se comportar com seus súditos como uma mãe em direção à criança em seu útero. Ouça, ó monarca, a razão pela qual isto é desejável. Como a mãe, desconsiderando aqueles objetos que são muito apreciados por ela, procura somente o bem de seu filho, assim mesmo, sem dúvida, os reis devem se comportar (com seus súditos). O rei que é justo, ó principal da linhagem de Kuru, deve sempre se comportar de maneira a deixar aquilo que é caro para ele, para fazer aquilo que beneficiará seu povo. Tu nunca deves, ó filho de Pandu, abandonar a firmeza. O rei que é possuidor de firmeza, e que é conhecido por infligir punições aos malfeitores, não tem motivos para temer. Ó principal dos oradores, tu não deves te entregar a gracejos com teus empregados. Ó tigre entre reis, escute as falhas de tal conduta. Se o mestre se mistura tão livremente com eles, os dependentes começam a desrespeitá-lo. Eles esquecem sua própria posição e a maioria realmente excede àquela do mestre. Ordenados a fazer uma coisa, eles hesitam, e divulgam os segredos do mestre. Eles pedem coisas que não devem ser pedidas, e pegam o alimento que deve ser do mestre. Eles chegam ao ponto de mostrar sua raiva e procurar eclipsar o mestre. Eles até procuram predominar sobre o rei, e aceitando subornos e praticando fraudes, obstruem os negócios do estado. Eles fazem o estado se deteriorar com abusos por falsificações e mentiras. Eles fazem amor com os guardas femininos do palácio e se vestem do mesmo modo que seu mestre. Eles se tornam tão desavergonhados a ponto de arrotarem ou fazerem algo semelhante, e escarrar na própria presença de seu mestre, ó tigre entre reis, e eles não temem nem falar dele com leviandade perante outros. Se o rei se torna brando e disposto a gracejos, seus empregados, desrespeitando-o, passeiam em corcéis e elefantes e carros tão bons quanto os do rei (literalmente, 'dignos de serem usados pelo rei.'). Seus conselheiros, reunidos em corte, se entregam abertamente a discursos tais como: 'Isto está além do teu poder. Esta é uma tentativa má.' Se o rei fica zangado, eles dão risada; nem eles ficam alegres se favores são concedidos a eles, embora eles possam expressar alegria por outras razões. Eles revelam os planos secretos de seu mestre e espalham boatos sobre os maus atos dele. Sem a menor ansiedade eles desprezam as ordens do rei. Se as jóias do rei, ou alimento, ou as coisas necessárias para o seu banho, ou unguentos, não estiverem à mão, os empregados, na sua própria presença, não demonstram a menor preocupação. Eles não pegam o que legitimamente pertence a eles. Por outro lado, sem estarem contentes com o que é designado para eles, eles se apropriam do que pertence ao rei. Eles desejam se divertir com o rei como com uma ave amarrada com uma corda, e sempre dão a entender ao povo que o rei é muito íntimo deles e os ama afetuosamente. Se o rei se torna meigo e disposto a gracejar, ó Yudhishthira, estes e muitos outros males surgem disto.'" 57 "Bhishma disse, 'O rei, ó Yudhishthira, deve estar sempre pronto para a ação. O rei que não é digno de louvor é aquele que, como uma mulher, é desprovido de esforço. Com relação a isto, o santo Usanas cantou um Sloka, ó monarca. Escute com atenção, ó rei, enquanto eu o recito para ti: 'Como uma cobra engolindo ratos, a terra consome estes dois: o rei que é avesso à batalha e o Brahmana que é excessivamente ligado a esposas e filhos. (Literalmente, o Brahmana que não deixaria seu lar)’. Cabe a ti, ó tigre entre reis, manter isto sempre em teu coração. Faça as pazes com aqueles inimigos com quem (de acordo com a ordenança) a paz deve ser feita, e trave guerra com aqueles com quem guerra deve ser travada. Seja teu preceptor ou seja teu amigo, aquele que age hostilmente em direção ao teu reino consistindo em sete membros deve ser morto. (Os sete membros são o rei, exército, conselheiros, amigos, tesouraria, território, e fortes). Há um Sloka antigo cantado pelo rei Marutta, de acordo com a opinião de Vrihaspati, ó monarca, sobre o dever dos reis. Segundo a prescrição eterna, há castigo até para o preceptor se ele se tornar soberbo e negligente com o que deve ser feito e com o que não deve, e se ele transgride todas as restrições. O filho de Jadu, o rei Sagara, de grande inteligência, pelo desejo de fazer o bem para os cidadãos, exilou seu próprio filho mais velho Asamanjas. Asamanjas, ó rei, costumava afogar os filhos dos cidadãos no Sarayu. Seu pai, portanto, repreendeu-o e mandou-o para o exílio. O Rishi Uddalaka rejeitou seu filho favorito Swetaketu (depois) de penitências rígidas, porque o último costumava convidar Brahmanas com promessas enganadoras de entretenimento. A felicidade de seus súditos, a observância da verdade, e a sinceridade de comportamento são os deveres eternos dos reis. O rei não deve cobiçar a riqueza de outros. Ele deve em tempo dar o que dever ser dado. Se o rei se torna possuidor de destreza, sincero em palavras, e de temperamento benevolente, ele nunca se desviará da prosperidade. Com alma limpa de vícios, o rei deve ser capaz de governar sua ira, e todas as suas conclusões devem ser concordantes com as escrituras. Ele deve também sempre procurar moralidade e lucro e prazer e salvação (judiciosamente). O rei deve sempre ocultar seus planos em relação a estes três, (isto é moralidade, lucro, e prazer). Nenhum mal maior pode sobrevir ao rei do que a revelação de seus planos. Reis devem proteger as quatro classes no desempenho de seus deveres. É o dever eterno dos reis impedir uma confusão de deveres em relação às diferentes classes. O rei não deve depositar confiança (em outros exceto seus próprios empregados), nem deve depositar total confiança (mesmo em seus empregados). Ele deve, por sua própria inteligência, procurar os méritos e defeitos dos seis requisitos essenciais da soberania. (Estes seis são paz (com um inimigo que é mais forte), guerra (com um de força igual), marcha (para invadir os domínios de um que é mais fraco), parada, busca de proteção (se for fraco em sua própria fortaleza), e semeadura de dissensões (entre os oficiais principais do inimigo)). O rei que é observador das negligências de seus inimigos, e judicioso na busca de moralidade, lucro, e prazer, que designa espiões inteligentes para averiguar segredos e procura alienar os oficiais de seus inimigos por meio de presentes de riqueza, merece louvor. O rei deve administrar justiça como Yama e acumular riqueza como Kuvera. Ele deve também ser observador dos méritos e defeitos de suas próprias aquisições e perdas e de seus próprios domínios. Ele deve alimentar aqueles que não foram alimentados, e perguntar por aqueles que foram alimentados. Possuidor de fala gentil, ele deve falar com uma expressão sorridente (e não com uma expressão desagradável). Ele deve sempre servir aqueles que são idosos e subjugar a procrastinação. Ele nunca deve cobiçar o que pertence a outros. Ele deve seguir firmemente o comportamento dos virtuosos e, portanto, observar aquele comportamento cuidadosamente. Ele nunca deve tirar riqueza daqueles que são virtuosos. Tirando a riqueza daqueles que não são justos ele deve dá-la aos que são justos. O rei deve ser habilidoso em castigar. Ele deve praticar a generosidade. Ele deve ter sua alma sob controle. Ele deve se vestir com esplendor. Ele deve fazer doações nas épocas apropriadas e ser regular em suas refeições. Ele deve também ter bom comportamento. O rei desejoso de obter prosperidade deve sempre contratar para seu serviço homens que são corajosos, dedicados, incapazes de serem enganados por inimigos, bem nascidos, saudáveis, bem educados, e ligados com famílias que são bem educadas, respeitáveis, nunca inclinados a insultar outros, familiarizados com todas as ciências, possuidores de um conhecimento do mundo e seus assuntos, sem consideração pelo futuro estado de existência, sempre cumpridores de seus deveres, honestos, e firmes como montanhas. Não deve haver diferença entre ele e eles em relação a objetos de prazer. A única distinção deve consistir em seu guarda-sol e em seu poder de passar ordens. Sua conduta com relação a eles, pela frente ou por trás, deve ser a mesma. O rei que se comporta dessa maneira nunca é prejudicado. O rei desonesto e avarento que suspeita de todos e que cobra impostos de seus súditos pesadamente, é logo privado de vida por seus próprios empregados e parentes. O rei, no entanto, que é de comportamento justo e que está sempre empenhado em conquistar o coração de seu povo, nunca cai quando atacado por inimigos. Se vencido, ele logo recupera sua posição. Se o rei não é colérico, se ele não é dedicado a práticas más e não é severo em suas punições, se ele consegue manter suas paixões sob controle, ele então se torna um objeto de confiança para todos como as montanhas Himavat (para todas as criaturas). É o melhor dos reis aquele que tem sabedoria, que possui generosidade, que está preparado para tirar vantagem das negligências dos inimigos, que tem feições agradáveis, que sabe o que é mau para cada uma das quatro classes de seus súditos, que é rápido em ação, que tem sua raiva sob controle, que não é vingativo, que é magnânimo, que não é irascível por disposição, que é dedicado a sacrifícios e outras ações religiosas, que não é dado à jactância, e que prossegue vigorosamente até a conclusão todos os trabalhos começados por ele. É o melhor dos reis aquele em cujos domínios os homens vivem sem medo como filhos na casa dos pais. É o melhor dos reis aquele cujos súditos não tem que esconder sua riqueza e sabem o que é bom e o que é mau para eles. Ele, de fato, é um rei cujos súditos estão engajados em seus respectivos deveres e que não temem perder seus corpos quando o dever requer isto; cujo povo, protegido devidamente, é todo de comportamento pacífico, obediente, dócil, tratável, sem vontade de se envolver em disputas, e inclinado à generosidade. Ganha mérito eterno aquele rei em cujos domínios não há maldade e dissimulação e engano e inveja. Realmente merece governar o rei que honra o conhecimento, que é devotado às escrituras e ao bem de seu povo, que trilha o caminho dos justos, e que é generoso. Merece governar o rei cujos espiões e planos e atos, realizados e não realizados, permanecem desconhecidos para seus inimigos. O verso seguinte foi cantado antigamente por Usanas da linhagem de Bhrigu, na narrativa chamada Ramacharita, sobre o assunto, ó Bharata, dos deveres reais: 'Um homem primeiro deve escolher um rei (em cujos domínios viver). Então ele deve escolher uma esposa, e então ganhar riqueza. Se não houvesse rei, o que seria de sua esposa e aquisições?’ Com relação àqueles que desejam um reino, não há outro dever eterno mais obrigatório do que a proteção (de súditos). A proteção que o rei concede a seus súditos mantém o mundo. (No sentido de que sem a proteção real o mundo logo ruiria.) Manu, o filho de Prachetas, cantou estes dois versos sobre os deveres dos reis. Escute-os com atenção: 'Estas seis pessoas devem ser evitadas como um barco furado no mar: um preceptor que não fala, um sacerdote que não estudou as escrituras, um rei que não concede proteção, uma esposa que profere o que é desagradável, um vaqueiro que gosta de vagar dentro da aldeia, e um barbeiro desejoso de ir para as florestas.'" (Os deveres de um vaqueiro devem levá-lo para os campos. Se sem manifestar qualquer inclinação para ir para os campos ele gosta de se demorar dentro da aldeia ele não deve ser empregado. Similarmente os deveres do barbeiro requerem sua presença dentro da aldeia. Se sem estar presente lá ele gosta de vagar nos bosques, ele nunca deve ser empregado, pois pode ser então presumido que ele é desprovido daquela habilidade que a experiência e hábito trazem.) 58 "Bhishma disse, 'A proteção dos súditos, ó Yudhishthira, é o que mais convém dos deveres reais. O divino Vrihaspati não aprova qualquer outro dever (tanto quanto este). O divino Kavi (Usanas) de olhos grandes e penitências austeras, Indra de mil olhos, e Manu o filho de Prachetas, o divino Bharadwaja, e o sábio Gaurasiras, todos devotados a Brahma e proferidores de Brahma, compuseram tratados sobre os deveres de reis. Todo eles louvam o dever de proteção, ó principal das pessoas virtuosas, em relação aos reis. Ó tu de olhos como pétalas de lótus e da cor do cobre, escute aos meios pelos quais a proteção pode ser assegurada. Estes meios consistem no emprego de espiões e empregados, dando a eles seus direitos justos sem arrogância, a realização de impostos com consideração, nunca tomando nada (dos súditos) caprichosamente e sem causa, ó Yudhishthira, a seleção de homens honestos (para cumprir as funções administrativas), heroísmo, habilidade, e inteligência (nas transações de negócios), veracidade, procurar o bem do povo, produzir discórdia e desunião entre os inimigos por meios justos ou injustos, o reparo de construções que são antigas ou que estão prestes a cair, a imposição de castigos corporais e multas reguladas pela observância da ocasião, nunca abandonar os honestos, conceder emprego e proteção para pessoas de nascimento respeitável, o armazenamento do que deve ser armazenado, companhia com pessoas de inteligência, sempre gratificar as tropas, supervisão sobre os súditos, firmeza nas transações de negócios, encher a tesouraria, ausência de confiança cega nos guardas da cidade, produzir deslealdade entre os cidadãos de uma cidade hostil, procurar cuidadosamente os amigos e aliados que vivem no meio do país do inimigo, vigiar estritamente os empregados e oficiais do estado, observação pessoal da cidade, desconfiar dos empregados, confortar o inimigo com garantias, observar firmemente os ditames de política, presteza para ação, nunca desconsiderar um inimigo, e rejeitar aqueles que são vis. Presteza para o esforço nos reis é a base dos deveres reais. Isto foi dito por Vrihaspati. Escute aos versos cantados por ele: 'Pelo esforço o amrita foi obtido; pelo esforço os Asuras foram mortos, pelo esforço o próprio Indra obteve a soberania no céu e sobre a terra. O herói de esforço é superior ao herói de discurso. Os heróis de discurso gratificam e adoram os heróis de esforço. ' (Brahmanas eloquentes eruditos nas escrituras são heróis de discurso. Grandes reis Kshatriya são heróis de esforço). O rei que é desprovido de esforço, mesmo se possuidor de inteligência, é sempre vencido por inimigos como uma cobra que é privada de veneno. O rei, mesmo se possuidor de força, não deve desconsiderar um inimigo, embora fraco. Uma faísca de fogo pode produzir um incêndio e uma partícula de veneno pode matar. Com somente um tipo de tropa, um inimigo de dentro um forte pode afligir o país inteiro mesmo de um rei poderoso e próspero. Os discursos secretos de um rei, o acúmulo de tropas para obter a vitória, os propósitos desonestos em seu coração, intenções similares para realizar objetivos específicos, e as ações erradas que ele faça ou pretenda fazer, devem ser ocultadas por assumir uma aparência de franqueza. Ele deve agir corretamente para manter seu povo sob submissão. Pessoas de mentes desonestas não podem suportar a carga de império extenso. Um rei que é indulgente não pode obter posto superior, a aquisição do qual depende de trabalho. Um reino, cobiçado por todos como carne, nunca pode ser protegido por franqueza e simplicidade. Um rei, ó Yudhishthira, deve, portanto, sempre se portar com ambos, franqueza e desonestidade. Se em proteger seus súditos um rei cai em perigo, ele ganha grande mérito. Tal deve ser a conduta dos reis. Eu agora te disse somente uma parte dos deveres dos reis. Diga-me, ó melhor dos Kurus, o que mais você deseja saber." Vaisampayana continuou, "Os ilustres Vyasa e Devasthana e Aswa, e Vasudeva e Kripa e Satyaki e Sanjaya, cheios de alegria, e com rostos parecendo flores totalmente desabrochadas, disseram, 'Excelente! Excelente!' e cantaram os louvores daquele tigre entre homens, isto é, Bhishma, aquela principal das pessoas virtuosas. Então Yudhishthira, aquele chefe da linhagem de Kuru, com o coração triste e olhos banhados em lágrimas, tocou gentilmente os pés de Bhishma e disse, 'Ó avô, amanhã eu perguntarei sobre aqueles pontos sobre os quais eu tenho minhas dúvidas, pois hoje, o sol, tendo sugado a umidade de todos os objetos terrestres, está prestes a se por.' Então Kesava e Kripa e Yudhishthira e outros, saudando os Brahmanas (lá reunidos) e circungirando o filho do grande rio, subiram alegremente em seus carros. Todos eles cumpridores de votos excelentes então se banharam na corrente do Drishadwati. Tendo oferecido oblações de água para seus antepassados e recitado silenciosamente os mantras sagrados e feito outras ações auspiciosas, e tendo realizado a prece noturna com os ritos devidos, aqueles opressores de inimigos entraram na cidade chamada de elefante." 59 Vaisampayana disse, "Levantando-se de suas camas no dia seguinte e realizando os ritos matinais prescritos nas escrituras, os Pandavas e os Yadavas saíram (para o local onde Bhishma estava) em seus carros parecidos com cidades fortificadas. Procedendo para o campo de Kuru e se aproximando do impecável Bhishma, eles perguntaram para aquele principal dos guerreiros em carros se ele tinha passado a noite tranquilamente. Saudando todos os Rishis, e abençoados por eles em retorno, os príncipes tomaram seus assentos em volta de Bhishma. Então o rei Yudhishthira o justo, possuidor de grande energia, tendo adorado Bhishma devidamente, disse estas palavras com mãos unidas.” "Yudhishthira disse, 'De onde surgiu a palavra Rajan (Rei), que é usada, ó Bharata, sobre a terra? Diga-me isto, ó destruidor de inimigos! Possuidor de mãos e braços e pescoço como outros, tendo a compreensão e os sentidos como aqueles de outros, sujeitos como outros aos mesmos tipos de alegria e tristeza, dotados de costas, boca, e estômago similares àqueles do resto do mundo, tendo fluidos vitais e ossos e medula e carne e sangue similares àqueles do resto do mundo, inalando e exalando ares como outros, possuidor de ares vitais e corpo como outros homens, parecendo com outros em nascimento e morte, realmente, similar a outros em relação a todos os atributos de humanidade, por que razão um homem, isto é, o rei, governa o resto do mundo numerando muitos homens possuidores de grande inteligência e coragem? Por que motivo aquele único homem governa o mundo extenso cheio de homens corajosos e enérgicos e nobres de nascimento e bom comportamento? Por que todos os homens procuram obter seu favor? Por que é que se um homem fica satisfeito, o mundo inteiro fica satisfeito, e se um homem está preocupado o mundo inteiro fica preocupado? Eu desejo ouvir isso em detalhes, ó touro da raça Bharata! Ó principal dos oradores, discurse para mim sobre isso integralmente. Ó rei, não pode haver exceto uma grave razão para tudo isso já que é visto que o mundo inteiro se curva a um homem como a um deus.”” "Bhishma disse, 'Com atenção concentrada, ó tigre entre reis, ouça em detalhes como na era Krita a soberania primeiro começou. Inicialmente não havia soberania, nenhum rei, nenhum castigo, e nenhum castigador. Todos os homens costumavam proteger uns aos outros justamente. Como eles viviam dessa maneira, ó Bharata, protegendo virtuosamente uns aos outros, eles acharam que a tarefa (depois de algum tempo) era dolorosa. O erro então começou a assaltar seus corações. Tendo ficado sujeitos ao erro, as percepções dos homens, ó príncipe, vieram a ser nubladas, e por esta razão sua virtude começou a declinar. Quando suas percepções foram obscurecidas e quando os homens ficaram sujeitos ao erro, todos eles se tornaram cobiçosos, ó chefe dos Bharatas! E porque os homens procuraram obter objetos, os quais eles não possuíam, outra emoção chamada luxúria (de aquisição) os alcançou. Quando eles se tornaram sujeitos à luxúria, outra emoção, chamada raiva, logo os poluiu. Uma vez sujeitos à ira, eles perderam toda a consideração do que devia ser feito e do que não devia. Uma indulgência sexual desenfreada começou. Os homens começaram a proferir o que eles escolhiam. Todas as distinções entre alimentos puros e impuros e entre virtude e vício desapareceram. Quando essa confusão surgiu entre os homens, os Vedas desapareceram. Após o desaparecimento dos Vedas, a Justiça foi perdida. Quando os Vedas e a justiça estavam perdidos, os deuses foram possuídos pelo medo. Tomados pelo medo, ó tigre entre homens, eles procuraram a proteção de Brahman. Tendo gratificado o Avô divino do universo, os deuses, afligidos pela angústia, disseram a ele com mãos unidas, 'Ó deus, os Vedas eternos têm sido afligidos no mundo dos homens pela avareza e erro. Por isto, nós fomos tomados pelo medo. Pela perda dos Vedas, ó Senhor Supremo, a justiça também está perdida. Por isto, ó Senhor dos três mundos, nós estamos prestes a descer ao nível de seres humanos. Os homens costumavam despejar libações para cima enquanto nós costumávamos despejar chuva para baixo. (Os homens, por despejarem libações de manteiga clarificada nos fogos sacrificais alimentam os deuses. Os últimos, alimentados por aquelas libações, despejam chuva sobre a terra de onde os homens derivam seu sustento.) Por consequência, no entanto, da cessação de todos os ritos pios entre os homens, grande angústia será nossa sina. Então, ó Avô, pense naquilo que nos beneficiaria, para que esse universo, criado por teu poder, não possa encontrar a destruição.' Assim endereçado, o Senhor auto-nascido e divino disse para eles, 'Eu pensarei no que fará bem a todos. Ó principais dos deuses, que seus temores sejam dissipados!' O Avô então compôs por sua própria inteligência um tratado consistindo em cem mil capítulos. Nele eram tratados os assuntos de Virtude, Lucro, e Prazer. O qual o auto-nascido designou como o triplo agregado. Ele tratava de um quarto assunto chamado de Emancipação com significado e atributos opostos. O triplo agregado em relação à emancipação, isto é, os atributos de Bondade, Paixão, e Ignorância, e outro, (um quarto, isto é, a prática do dever sem esperança de felicidade ou recompensa neste ou no outro mundo), eram tratados nele. Outro agregado triplo ligado com Castigo: Conversação, Crescimento, e Destruição, era tratado nele. (Conversação em relação à riqueza de mercadores e comerciantes; Crescimento em relação às penitências de ascetas; e Destruição em relação aos ladrões e homens pecaminosos. Todos estes dependem do Castigo.) Outro agregado de seis consistindo nos corações de homens, lugar, hora, meios, ações explícitas, e alianças, e causas, era tratado nele. Os ritos religiosos prescritos nos três Vedas, conhecimento, e as ações necessárias para a sustentação da vida, (agricultura, comércio, etc.), ó touro da raça Bharata, e o ramo muito extenso de conhecimento chamado de legislação punitiva, eram prescritos nele. Os assuntos também de comportamento em direção aos conselheiros, de espiões, as indicações de príncipes, de agentes secretos possuidores de diversos meios, de enviados e agentes de outros tipos, conciliação, fomentação de discórdia, doações, e castigo, ó rei, com a tolerância como o quinto, eram tratados integralmente nele. Deliberação de todos os tipos, conselhos para produzir desunião, os erros de deliberação, os resultados do sucesso ou fracasso de planos, tratados de três tipos, isto é, maus, medianos, e bons, feitos por medo, bons ofícios, e presentes de riqueza, eram descritos em detalhes. As quatro espécies de épocas para fazer viagens, os detalhes do agregado de três, os três tipos de vitória, isto é, aquela assegurada justamente, aquela ganha por meio de riqueza, e aquela obtida por meios enganosos, eram descritos em detalhes. As três espécies de atributos, maus, medianos, e bons, do conjunto de cinco (isto é, conselheiros, reino, forte, exército, e tesouraria) eram também tratados nele. Punições de dois tipos, abertas e secretas, eram indicadas. As oito espécies de castigos abertos, como também as oito espécies de castigos secretos, eram tratadas em detalhes. Carros, elefantes, cavalos, e soldados de infantaria, ó filho de Pandu, operários recrutados, grupos de trabalhadores, e servidores remunerados (de exércitos), e guias pegos do país que é o assento de guerra, estes são os oito instrumentos, ó Kauravya, de castigo aberto ou forças agindo abertamente. O uso e administração de veneno móvel e imóvel eram também mencionados em relação às três espécies de coisas, isto é, vestuário, alimento, e encantamentos. Inimigos, aliados, e neutros, estes também eram descritos. As diversas características de estradas (a serem tomadas, como dependentes de estrelas e planetas, etc.), os atributos do solo (no qual acampar-se), auto-proteção, superintendência da construção de carros e outros utensílios de guerra e uso, os diversos meios de proteger e melhorar homens, elefantes, carros, e corcéis, as diversas espécies de formações de combate, estratégias, e manobras em guerra, conjunções planetárias pressagiando mal, provações calamitosas (tais como terremotos), métodos habilidosos de guerra e retirada, conhecimento de armas e sua manutenção apropriada, as desordens de tropas e como se livrar delas, os meios de inspirar o exército com alegria e confiança, doenças, tempos de infortúnio e perigo, conhecimento de guiar soldados de infantaria em batalha, os métodos de soar alarmes e comunicar ordens, inspirar medo no inimigo pela exposição de estandartes, os diversos métodos de afligir o reino do inimigo por meio de ladrões e tribos selvagens ferozes, e incendiários e envenenadores e falsificadores por produzir desunião entre os principais oficiais dos exércitos hostis, por derrubar colheitas e plantas, por destruir a eficiência dos elefantes do inimigo, por produzir alarmes, por honrar aqueles dentre os súditos do inimigo que são bem dispostos com relação ao invasor, e por inspirar o inimigo com confiança, a perda, crescimento, e harmonia dos sete requisitos essenciais da soberania, capacidade para trabalhos (projetados), os meios para realizá-los, os métodos de expandir o reino, os meios de conquistar pessoas residentes no território do inimigo, o castigo e destruição daquelas que são fortes, a administração exata de justiça, o extermínio dos vis, luta, tiro e lançamento e arremesso de armas, os métodos de fazer presentes e de armazenar coisas necessárias, alimentação dos não alimentados e supervisão sobre aqueles que foram alimentados, doações de riquezas em épocas apropriadas, liberdade dos vícios chamados Vyasanas, os atributos de reis, as qualificações de oficiais militares, as fontes dos agregados de três e seus méritos e falhas, as diversas espécies de más intenções, o comportamento de dependentes, suspeita contra todos, a evitação da negligência, a aquisição de objetos não alcançados, a melhoria dos objetos já adquiridos, presentes para pessoas merecedoras do que foi dessa forma melhorado, gastos de riqueza para propósitos pios, para adquirir objetos de desejo, e para dissipar o perigo e angústia, foram todos tratados naquele trabalho. Os vícios violentos, ó chefe dos Kurus, nascidos do temperamento, e aqueles nascidos da luxúria, ao todo de dez tipos, foram mencionados naquele tratado. As quatro espécies de vícios os quais os eruditos dizem serem nascidos da luxúria, isto é, caça, jogo, alcoolismo, e indulgência sexual, foram mencionados pelo Auto-nascido naquele trabalho. Grosseria em palavras, violência, severidade de punições, imposição de dor ao corpo, suicídio, e frustração dos próprios objetivos, estes são os seis tipos de falhas nascidas da ira, que também são mencionados. Diversas espécies de máquinas e suas ações são descritas lá. Devastação dos territórios do inimigo, ataques sobre inimigos, a destruição e remoção de marcos e outras indicações, a derrubada de árvores grandes (para privar o inimigo e os súditos do inimigo de sua sombra refrescante), cerco de fortes, supervisão da agricultura e outras operações úteis, o estoque de artigos necessários, mantos e trajes (de tropas), e os melhores meios de fabricá-los, foram todos descritos. As características e usos de Panavas, Anakas, conchas, e baterias, ó Yudhishthira, os seis tipos de artigos (isto é, pedras preciosas, animais, terras, mantos, escravas, e ouro) e os meios de adquiri-los (para si próprio) e de destruí-los (para prejudicar o inimigo), pacificação de territórios recém adquiridos, honrar os bons, cultivar amizade com os eruditos, conhecimento das regras em relação a doações e ritos religiosos tais como homa, o toque de artigos auspiciosos, atenção ao adorno do corpo, a maneira de preparar e de usar alimento, piedade de comportamento, o alcance de prosperidade por seguir em um caminho, veracidade de palavra, gentileza de palavra, observância de atos realizados em ocasiões de festividades e reuniões sociais e aqueles feitos dentro do lar, os atos abertos e secretos de pessoas em todos os lugares de reunião, a supervisão constante do comportamento de homens, a imunidade de Brahmanas de punição, a imposição de castigo razoável, honras prestadas a dependentes em consideração de parentesco e mérito, a proteção de súditos e os meios de estender o reino, os conselhos que um rei que vive no meio de uma dúzia de reis deve seguir a respeito dos quatro tipos de inimigos, os quatro tipos de aliados, e os quatro tipos de neutros, os setenta e dois atos prescritos em trabalhos médicos acerca da proteção, exercício, e melhoras do corpo, e as práticas de países, tribos, e famílias específicos, foram todos devidamente tratados naquele trabalho. Virtude, Lucro, e Prazer, e Emancipação, foram também descritos nele. Os diversos meios de aquisição, o desejo por diversos tipos de riqueza. A doação de presentes abundantes, os métodos de agricultura e outras operações que formam a principal fonte de renda, e os vários meios para produzir e aplicar ilusões, os métodos pelos quais água estagnada é tornada poluída, foram prescritos nele. Todos aqueles meios, ó tigre entre reis, pelos quais homens podem ser impedidos de se desviarem do caminho da retidão e honestidade, foram todos descritos nele. Tendo composto aquele tratado altamente benéfico, o Senhor divino disse alegremente às divindades tendo Indra como seu comandante, estas palavras: 'Para o bem do mundo e para estabelecer o triplo agregado (isto é, Virtude, Lucro, e Prazer), eu compus esta ciência representando o principal dos discursos. Ajudada pela punição, esta ciência protegerá o mundo. Tratando de recompensas e castigos, esta ciência operará entre homens. E porque homens são levados (à conquista dos objetivos de sua existência) pelo castigo, ou, em outras palavras, o castigo lidera ou governa tudo, portanto esta ciência será conhecida nos três mundos como Dandaniti (ciência de castigo). Contendo a essência de todos os atributos do agregado de seis, esta ciência sempre será muito considerada por todas as pessoas de grande alma. Virtude, Lucro, Prazer, e Salvação foram todos tratados nela.' Depois disto, o marido de Uma, o divino e multiforme Siva de olhos grandes, o Fonte de todas as bênçãos, primeiro a estudou e a dominou a fundo. Em vista, no entanto, da diminuição gradual do período de vida dos seres humanos, o divino Siva resumiu aquela ciência de grave importância compilada por Brahman. O resumo, chamado Vaisalakasha, consistindo em dez mil lições, foi então recebido por Indra devotado a Brahman e dotado de grande mérito ascético. O divino Indra também o resumiu para um tratado consistindo em cinco mil lições e chamou-o de Vahudantaka. Depois o pujante Vrihaspati, por meio de sua inteligência, resumiu mais o trabalho para um tratado consistindo em três mil lições e chamou-o de Varhaspatya. Em seguida, aquele preceptor de Yoga, de grande celebridade, isto é, Kavi de sabedoria incomensurável, o reduziu para um trabalho de mil lições. Em vista do período de vidas dos homens e do declínio geral (de tudo), os grandes Rishis, para beneficiar o mundo, resumiram dessa maneira aquela ciência. Os deuses então, se aproximando daquele senhor de criaturas, isto é, Vishnu, disseram a ele, 'Indique, ó deus, aquele entre os mortais que merece ter superioridade sobre o resto.' O divino e poderoso Narayana, refletindo um pouco, criou, por um decreto de sua vontade, um filho nascido de sua energia, chamado Virajas. O altamente abençoado Virajas, no entanto, não desejou soberania sobre a terra. Sua mente, ó filho de Pandu, se inclinou para uma vida de renúncia. Virajas teve um filho chamado Krittimat. Ele também renunciou ao prazer e divertimento. (Literalmente, ‘ergueu-se acima dos cinco’ no sentido de ter renunciado ao mundo.) Krittimat teve um filho chamado Kardama. Kardama também praticou austeridades severas. O senhor de criaturas, Kardama, gerou um filho chamado Ananga. Ananga se tornou um protetor de criaturas, pio em comportamento, e totalmente conhecedor da ciência de punição. Ananga gerou um filho chamado Ativala, bem versado em política. Obtendo um extenso império depois do falecimento de seu pai, ele se tornou um escravo de suas paixões. Mrityu, ó rei, tinha uma filha nascida de sua mente, chamada Sunita e famosa nos três mundos. Ela foi casada com Ativala e deu nascimento a um filho chamado Vena. Vena, um escravo da ira e malícia, se tornou injusto em sua conduta em direção a todas as criaturas. Os Rishis, aqueles proferidores de Brahma, o mataram com folhas Kusa (como sua arma) inspiradas com mantras. Proferindo mantras, aqueles Rishis perfuraram a coxa direita de Vena. Então, daquela coxa, saiu uma pessoa de membros curtos sobre a terra, parecendo com um pedaço de madeira queimada, com olhos da cor de sangue e cabelo preto. Aquele proferidores de Brahma disseram a ele, 'Nishida (sente) aqui!' Dele surgiram os Nishadas, aquelas tribos perversas que têm as colinas e as florestas como sua residência, como também aquelas centenas e milhares de outras chamadas Mlechchhas, residindo nas montanhas Vindhya. Os grandes Rishis então perfuraram o braço direito de Vena. De lá surgiu uma pessoa que era um segundo Indra em forma. Vestido em cota de malha, armado com cimitarras, arcos, e setas, e bem versado na ciência de armas, ele conhecia totalmente os Vedas e seus ramos. Todas as ordenanças da ciência de castigo, ó rei, (em suas formas incorporadas) se aproximaram daquele melhor dos homens. O filho de Vena então, com mãos unidas, disse àqueles grandes Rishis, 'Eu obtive uma compreensão que é muito aguçada e é observadora da justiça. Digam-me em detalhes o que eu devo fazer com ela. A tarefa útil que lhes agradar indicar eu realizarei sem hesitação.' Assim endereçados, os deuses que estavam presentes lá, como também os Rishis, disseram a ele, 'Realize destemidamente todas aquelas tarefas nas quais a justiça sempre reside. Desconsiderando o que é caro e o que não é, olhe para todas as criaturas com um olhar imparcial. Lançando à distância luxúria e ira e cobiça e honra, e, sempre observando os ditames da justiça, puna com tuas próprias mãos o homem, quem quer que ele possa ser, que se desviar do caminho do dever. Jure também que tu irás, em pensamentos, palavras, e ações, sempre manter a religião inculcada na terra pelos Vedas. Jure em seguida que tu manterás destemidamente os deveres prescritos nos Vedas com a ajuda da ciência de castigo, e que tu nunca agirás com inconstância. Ó pujante, saiba que Brahmanas estão isentos de castigo, e prometa além disso que tu protegerás o mundo de uma mistura de castas.' Assim endereçado, o filho de Vena respondeu para as divindades encabeçadas pelos Rishis, dizendo, 'Aqueles touros entre homens, isto é, os Brahmanas altamente abençoados, sempre serão adorados por mim.' Aqueles proferidores de Brahma então disseram a ele, 'Assim seja'. Então Sukra, aquele vasto receptáculo de Brahma, se tornou seu sacerdote. Os Valakhilyas se tornaram seus conselheiros, e os Saraswatas seus companheiros. O grande e ilustre Rishi Garga se tornou seu astrólogo. Esta declaração sublime dos Srutis é corrente entre os homens que Prithu é o oitavo de Vishnu. Um pouco antes, as duas pessoas chamadas Suta e Magadha tinham vindo à existência. Eles se tornaram seus bardos e panegiristas. Satisfeito, Prithu, o filho nobre de Vena, possuidor de grande destreza, deu para Suta a terra situada na costa, e para Magadha o país desde então conhecido como Magadha. Nós soubemos que a superfície da terra antes era muito irregular. Foi Prithu quem fez a superfície da terra nivelada. Em todo Manwantara, a terra se torna acidentada. (Um Manwantara é um período de tempo muito longo, não diferente de uma era geológica.) O filho de Vena removeu as rochas e massas rochosas que se encontravam por toda parte, ó monarca, com o corno de seu arco. Dessa maneira as colinas e montanhas foram aumentadas. Então Vishnu, e as divindades de Indra, e os Rishis, e os Regentes do mundo, e os Brahmanas, se reuniram para coroar Prithu (como o rei do mundo). A própria terra, ó filho de Pandu, em sua forma incorporada, foi até ele, com um tributo de jóias e pedras preciosas. O oceano, aquele senhor dos rios, e Himavat, o rei das montanhas, e Sakra, ó Yudhishthira, concederam a ele riqueza inesgotável. O grande Meru, aquela montanha de ouro, deu a ele pilhas daquele metal precioso. O divino Kuvera, carregado nos ombros de seres humanos, aquele senhor de Yakshas e Rakshasas, deu a ele riqueza suficiente para satisfazer as necessidades de religião, lucro, e prazer. Corcéis, carros, elefantes, e homens, aos milhões, ó filho de Pandu, começaram a viver logo que o filho de Vena pensou neles. Naquele tempo não havia nem decrepitude, nem fome, nem calamidades, nem doença (sobre a terra). Pela proteção proporcionada por aquele rei, ninguém tinha qualquer medo de répteis e ladrões ou de qualquer outra fonte. Quando ele procedia para o oceano, as águas costumavam ser solidificadas. As montanhas lhe davam caminho, e seu estandarte nunca era obstruído em algum lugar. Ele tirou da terra, como um leiteiro de uma vaca, dezessete tipos de colheitas para a alimentação de Yakshas, e Rakshasas, e Nagas, e outras criaturas. Aquele rei de grande alma fez todas as criaturas respeitarem a justiça como a principal de todas as coisas; e porque ele satisfez todas as pessoas, portanto, ele foi chamado de Rajan (rei). E porque ele também curou os ferimentos de Brahmanas, portanto, ele ganhou o nome de Kshatriya. E porque a terra (na região dele) se tornou célebre pela prática da virtude, portanto, ela veio a ser chamada por muitos como Prithvi. O próprio Vishnu eterno, ó Bharata, confirmou seu poder, dizendo a ele, 'Ninguém, ó rei, te superará.' O divino Vishnu entrou no corpo daquele monarca em consequência de suas penitências. Por esta razão, o universo inteiro ofereceu culto divino a Prithu, incluído entre deuses humanos (deuses humanos = reis). Ó rei, teu reino deve sempre ser protegido pela ajuda da ciência de castigo. Tu deves também, por observação cuidadosa feita através dos movimentos de teus espiões, protegê-lo de tal maneira que ninguém possa ser capaz de prejudicá-lo. Todas as boas ações, ó rei, levam ao bem (do monarca). A conduta de um rei deve ser regulada por sua própria inteligência, como também pelas oportunidades e meios que possam se oferecer por si mesmos. Que outra causa há pela qual a multidão vive em obediência a um, exceto a divindade do monarca? Naquele tempo um lótus dourado nasceu da fronte de Vishnu. A deusa Sree nasceu daquele lótus. Ela se tornou a esposa de Dharma de grande inteligência. Em Sree, ó filho de Pandu, Dharma gerou Artha. Todos os três, isto é, Dharma, e Artha e Sree, foram estabelecidos em soberania. Uma pessoa após o esgotamento de seus méritos desce do céu para a terra, e toma nascimento como um rei conhecedor da ciência de punição. Tal pessoa se torna dotada de grandeza e é realmente uma porção de Vishnu sobre a terra. Ele se torna possuidor de grande inteligência e obtém superioridade sobre outros. Estabelecido pelos deuses, ninguém o supera. É por esta razão que todos agem em obediência a um, e é por isto que o mundo não pode comandá-lo. Bons atos, ó rei, levam ao bem. É por isto que a multidão obedece suas palavras de comando, embora ele pertença ao mesmo mundo e seja possuidor de membros similares. Aquele que uma vez viu o rosto amável de Prithu se tornou obediente a ele. Desde então ele começou a considerá-lo como bonito, rico, e altamente abençoado. Pelo poder de seu cetro, a prática de moralidade e comportamento justo se tornou tão visível na terra. E é por esta razão que a terra se tornou coberta de virtude.'” "Assim, ó Yudhishthira, as histórias de todos os acontecimentos passados, a origem dos grandes Rishis, as águas sagradas, os planetas e estrelas e constelações, os deveres em relação aos quatro modos de vida, os quatro tipos de Homa, as características das quatro classes de homens, e os quatro ramos de aprendizagem, foram todos tratados naquele trabalho (do Avô). Quaisquer objetos ou coisas, ó filho de Pandu, que existam na terra, foram todos incluídos naquele tratado do Avô. Histórias e os Vedas e a ciência de Nyaya foram todos tratados nele, como também penitências, conhecimento, abstenção de injúria em relação a todas as criaturas, verdade, mentira, e moralidade superior. Culto de pessoas idosas, doações, pureza de comportamento, prontidão para esforço, e compaixão por todas as criaturas, foram totalmente descritos nele. Não há dúvida nisto. Desde aquele tempo, ó monarca, os eruditos começaram a dizer que não há diferença entre um deus e um rei. Eu agora te disse tudo sobre a grandeza dos reis. Qual outro assunto há, ó chefe dos Bharatas, sobre o qual eu terei que falar em seguida?"’ 60 Vaisampayana disse, "Depois disto, Yudhishthira saudou seu avô, o filho de Ganga, e com mãos unidas e atenção concentrada uma vez mais o questionou, dizendo, 'Quais são os deveres gerais das quatro classes de homens, e quais são os deveres especiais de cada classe? Qual modo de vida deve ser adotado por qual ordem? Quais deveres são especialmente chamados de deveres de reis? Por quais meios um reino cresce, e quais são aqueles meios pelos quais o próprio rei cresce? Como também, ó touro da raça Bharata, os cidadãos e os empregados do rei crescem? Quais tipos de tesourarias, punições, fortes, aliados, conselheiros, sacerdotes, e preceptores, um rei deve evitar? (A diferença entre um Ritwija e um Purohita é que o primeiro é contratado em ocasiões especiais, enquanto os serviços do último são permanentes e constantes.) Em quem o rei deve confiar em quais tipos de infortúnio e perigo? De quais males o rei deve se proteger firmemente? Diga-me tudo isto, ó avô!'” "Bhishma disse, 'Eu reverencio Dharma que é sublime, e Krishna que é Brahma. Tendo reverenciado também os Brahmanas (aqui reunidos), eu irei discorrer sobre deveres que são eternos. Supressão da ira, veracidade de palavra, justiça, perdão, geração de filhos nas próprias esposas, pureza de conduta, evitação de disputas, simplicidade, e sustento de dependentes, estes nove deveres pertencem a todas as quatro classes (igualmente). Aqueles deveres, no entanto, os quais pertencem unicamente aos Brahmanas, eu agora te direi. Autodomínio, ó rei, é declarado como o primeiro dever dos Brahmanas. Estudo dos Vedas, e paciência em passar por austeridades, (são também seus outros deveres). Por praticar estes dois, todos os seus atos são realizados. Se enquanto empenhados no cumprimento de seus próprios deveres, sem fazer alguma ação imprópria, a riqueza vem para um Brahmana pacífico possuidor de conhecimento, ele deve então se casar e procurar gerar filhos e deve também praticar caridade e realizar sacrifícios. É declarado pelos sábios que a riqueza assim obtida deve ser desfrutada por distribuí-la (entre pessoas merecedoras e parentes). Por seu estudo dos Vedas todas as ações pias (prescritas para o Brahmana) são realizadas. Se ele realiza ou não qualquer coisa a mais, se ele se dedica ao estudo dos Vedas, ele se torna (por isto) conhecido como um Brahmana ou o amigo de todas as criaturas. Eu também te direi, ó Bharata, quais são os deveres de um Kshatriya. Um Kshatriya, ó rei, deve dar mas não mendigar, deve ele mesmo realizar sacrifícios mas não oficiar como um sacerdote nos sacrifícios de outros. Ele nunca deve ensinar (os Vedas) mas estudá-los (com um preceptor Brahmana). Ele dever proteger as pessoas. Sempre se esforçando para a destruição de ladrões e pessoas vis, ele deve aplicar sua destreza em batalha. Aquele entre os soberanos Kshatriya que realiza sacrifícios grandiosos, que possui um conhecimento dos Vedas, e que ganha vitórias em batalha, se torna o principal daqueles que alcançam muitas regiões abençoadas após a morte por seu mérito. Pessoas conhecedoras das escrituras antigas não louvam o Kshatriya que retorna ileso da batalha. Esta é declarada como a conduta de um Kshatriya desprezível. (Isto é, retornar sem ferimentos da batalha.) Não há dever maior para ele do que a repressão de ladrões. Doações, estudo, e sacrifícios trazem prosperidade para os reis. Portanto, um rei que deseja adquirir mérito religioso deve se engajar em batalha. (Pois sem batalha, ele não pode expandir seu reino e obter riqueza para doar e pagar as despesas de sacrifícios.) Estabelecendo todos os seus súditos no cumprimento de seus respectivos deveres, o rei deve fazer todos eles fazerem tudo segundo os ditames de retidão. Ele faça ou não faça qualquer outro ato, se ele somente protege seus súditos, ele é considerado como tendo realizado todos os atos religiosos e é chamado de um Kshatriya e o principal dos homens. Eu agora te direi, ó Yudhishthira, quais são os deveres eternos do Vaisya. Um Vaisya deve fazer doações, estudar os Vedas, realizar sacrifícios, e adquirir riqueza por meios honestos. Com atenção apropriada ele deve também proteger e criar todos os animais (domésticos) como um pai protegendo seus filhos. Qualquer coisa a mais que ele fizer será considerada como imprópria para ele. Por proteger os animais (domésticos), ele obterá grande felicidade. O Criador, tendo criado os animais (domésticos), outorgou seu cuidado ao Vaisya. Ao Brahmana e ao Kshatriya ele conferiu (o cuidado de) todas as criaturas. Eu te direi qual é a profissão do Vaisya e como ele deve ganhar os meios de seu sustento. Se ele mantém (para outros) seis vacas, ele pode pegar o leite de uma vaca como sua remuneração; e se ele mantém (para outros) cem vacas, ele pode pegar um único par como tal taxa. Se ele comercia com a riqueza de outro, ele pode pegar uma sétima parte dos lucros (como sua parte). Um sétimo também é sua parte nos lucros resultantes do comércio de chifres, mas ele deve pegar uma décima sexta parte se o comércio for em cascos. Se ele se dedica ao cultivo com sementes fornecidas por outros, ele pode pegar uma sétima parte da produção. Esta deve ser sua remuneração anual. Um Vaisya nunca deve desejar não cuidar do gado. Se um Vaisya deseja cuidar do gado, ninguém mais deve ser empregado naquela tarefa. Eu devo te dizer, ó Bharata, quais são os deveres de um Sudra. O Criador destinou o Sudra para se tornar o servidor das outras três classes. Por isto, o serviço das três outras classes é o dever do Sudra. Por tal serviço das outras três, um Sudra pode obter grande felicidade. Ele deve servir as três outras classes de acordo com sua ordem de superioridade em idade. Um Sudra nunca deve acumular riqueza, a fim de ele que não faça, por meio de sua riqueza, os membros das três classes superiores obedientes a ele. Por isto ele incorreria em pecado. Com a permissão do rei, no entanto, um Sudra, para realizar ações religiosas, pode ganhar riqueza. Eu agora te direi a profissão que ele deve seguir e os meios pelos quais ele pode ganhar seu meio de vida. É dito que os Sudras devem certamente ser mantidos pelas outras (três) classes. Guarda-sóis usados, turbantes, camas e assentos, sapatos, e leques, devem ser dados aos empregados Sudra. Roupas rasgadas as quais não são mais adequadas para o uso, devem ser doadas pelas classes regeneradas para o Sudra. Estas são as aquisições legais do último. Homens conhecedores de moralidade dizem que se o Sudra se aproxima de alguém pertencente às três ordens regeneradas desejando prestar serviço, o último deve lhe atribuir um trabalho apropriado. Ao Sudra sem filhos seu mestre deve oferecer o bolo fúnebre. Os fracos e os velhos entre eles devem ser sustentados. O Sudra nunca deve abandonar seu mestre, qualquer que seja a natureza ou o grau do infortúnio no qual o último possa cair. Se o mestre perde sua riqueza, ele deve com zelo excessivo ser sustentado pelo empregado Sudra. Um Sudra não pode ter alguma riqueza própria. O que quer que ele possua pertence legalmente a seu patrão. O sacrifício é prescrito como um dever das outras três classes. Ele é ordenado para o Sudra também, ó Bharata! Um Sudra, no entanto, não é qualificado para proferir swaha e swadha ou algum outro mantra Védico. Por esta razão, o Sudra, sem observar os votos prescritos nos Vedas, deve adorar os deuses em sacrifícios menores chamados Paka-yajnas. A doação chamada Purna-patra é declarada como o Dakshina de tais sacrifícios. (Um Paka- yajna é um sacrifício menor, tal como a propiciação de um planeta pressagiando mal, ou culto oferecido para as divindades inferiores chamadas Viswadevas. Um Purnapatra é literalmente um prato grande ou cesta cheia de arroz. Ele deve consistir em 256 punhados. Além de um Purnapatra, o Sudra não deve dar qualquer outro Dakshina em qualquer sacrifício dele.) É sabido por nós que antigamente um Sudra de nome Paijavana deu um Dakshina (em um de seus sacrifícios) consistindo em cem mil Purnapatras, de acordo com a ordenança chamada Aindragni. (Essa ordenança declara que o Dakshina deve ser cem mil animais tais como vacas ou cavalos. No caso desse Sudra específico, aquela ordenança (sem seus mantras) foi seguida, e cem mil Purnapatras foram substituídos por vacas ou cavalos daquele número.) Sacrifício (como já foi dito), é prescrito tanto para o Sudra quanto para as outras três classes. De todos os sacrifícios, a devoção é declarada como o principal. (Consequentemente o Sudra, por devoção aos membros das três outras classes, pode ganhar o mérito de sacrifícios embora ele não seja qualificado para proferir mantras.) A Devoção é uma divindade sublime. Ela purifica todos os sacrificadores. Então também os Brahmanas são os principais dos deuses para seus respectivos servidores Sudra. Eles adoram os deuses em sacrifícios, para obter a realização de vários desejos. Os membros das outras três classes todos surgiram dos Brahmanas. (Por esta razão o Sudra ganha o mérito dos sacrifícios realizados por seus mestres e progenitores Brahmana.) Os Brahmanas são os deuses dos próprios deuses. O que quer que eles digam será para o teu maior bem. Portanto, todos os tipos de sacrifícios naturalmente concernem a todas as quatro classes. A obrigação não é uma cujo cumprimento seja opcional. O Brahmana, que está familiarizado com Richs, Yajuses, e Samans, deve sempre ser adorado como um deus. O Sudra, que não tem Richs e Yajuses e Samans, tem Prajapati como seu deus. (O Brahmana conhecedor dos Vedas é ele mesmo um deus. O Sudra, embora incompetente para ler os Vedas e proferir mantras Védicos, tem Prajapati como seu deus a quem ele pode cultuar com ritos a não ser aqueles declarados nos Vedas. Os Brahmanas têm Agni como seu deus, e os Kshatriyas, Indra.) Sacrifício mental, ó majestade, é prescrito para todas as classes, ó Bharata! Não é verdade que os deuses e outras pessoas (superiores) não manifestam um desejo de partilhar as oferendas em tais sacrifícios mesmo de um Sudra. (Sacrifícios são realizados pelo corpo, por palavras, e pela mente. O Brahmana pode realizar sacrifícios por meio de todos os três. O Kshatriya e o Vaisya não podem realizar sacrifícios por meio de seus corpos. Eles devem empregar Brahmanas em seus sacrifícios. Estas duas classes, no entanto, podem proferir mantras e realizar sacrifícios mentais. O Sudra somente não pode empregar seu corpo ou proferir mantras em sacrifícios. O sacrifício sagrado no caso dele é o sacrifício mental. Um sacrifício mental é uma resolução de doar em honra dos deuses ou para os deuses sem a ajuda do ritual Védico. A resolução deve ser seguida por doações reais.) Por esta razão, o sacrifício que consiste em devoção é prescrito para todas as classes. (Isto é, para o Sudra também.) O Brahmana é o principal dos deuses. Não é verdade que aqueles que pertencem àquela classe não realizam os sacrifícios das outras classes. O fogo chamado Vitana, embora obtido de Vaisyas e inspirado com mantras, ainda é inferior. (Todos os fogos sacrificais, como uma regra, são obtidos das casas de Vaisyas. O fogo sacrifical de um Sudra é chamado de Vitana.) O Brahmana é o realizador dos sacrifícios das três outras classes. Por esta razão todas as quatro classes são sagradas. Todas as classes têm umas com as outras uma relação de consanguinidade, através das classes intermediárias. Elas todas surgiram dos Brahmanas. Ao se averiguar (a prioridade ou subsequência de homens em relação à sua criação) aparecerá que entre todas as classes o Brahmana foi criado primeiro. Originalmente Saman era um; Yajus era um, e Rik era um. (Embora originalmente um, os Vedas se tornaram diversos. Similarmente, do Brahmana que foi criado primeiro, todo o resto surgiu.) Ligado a isto, pessoas conhecedoras das histórias antigas citam um verso, ó rei, cantado em louvor de sacrifício pelos Munis Vaikhanasa na ocasião da realização de um sacrifícios deles. Antes ou depois do nascer do sol uma pessoa de sentidos subjugados, com coração cheio de devoção, despeja libações no fogo (sacrifical) de acordo com a ordenança. A devoção é um agente poderoso. Com relação a homas também, aquela variedade que é chamada de skanna é a inicial, enquanto aquela que é chamada de askanna é a última (mas a principal em mérito). Sacrifícios são variados. Seus ritos e resultados também são variados. O Brahmana possuidor de devoção que, dotado de conhecimento das escrituras, que é familiarizado com todas elas, é competente para realizar sacrifícios. Aquele que deseja realizar um sacrifício é considerado como virtuoso mesmo que ocorra de ele ser um ladrão, um pecador, ou o pior dos pecadores. Os Rishis elogiam tal homem. Sem dúvida eles estão certos. Esta então é a conclusão que todas as classes devem sempre e por todos meios em seu poder realizar sacrifícios. Não há nada nos três mundos igual ao sacrifício. Portanto, é dito que cada um, com coração livre de malícia, deve realizar sacrifícios, ajudado pela devoção que é sagrada, da melhor maneira que possa e de acordo com o que lhe agrada.'" "Bhishma disse, 'Ó tu de braços poderosos, escute agora a mim, ó tu de destreza incapaz de ser frustrada, enquanto eu menciono os nomes dos quatro modos de vida e os deveres em relação a cada um. Os quatro modos são Vanaprastha, Bhaikshya, Garhasthya de grande mérito, e Brahmacharya que é adotado por Brahmanas. Passando pelo rito purificatório em relação a portar madeixas emaranhadas, depois de ter passado pelo rito de regeneração e realizado por algum tempo os ritos em relação ao fogo sagrado e estudado os Vedas, um homem deve, com alma purificada e sentidos sob controle, tendo primeiro realizado cuidadosamente todos os deveres do modo chamado Garhasthya, proceder, com ou sem sua esposa, para as florestas para a adoção do modo chamado Vanaprastha. Tendo estudado as escrituras chamadas Aranyakas, tendo retido seu fluido vital e tendo se afastado de todos os assuntos mundanos, o recluso virtuoso então pode alcançar uma absorção com a Alma eterna que não conhece decadência. Estas são as indicações de Munis que retiveram seu fluido vital. Um Brahmana erudito, ó rei, deve primeiro praticá-las e realizá-las. O Brahmana, ó rei, que deseja a emancipação, isto é bem conhecido, é capaz de adotar o modo de vida Bhaikshya depois de ter passado pelo modo chamado Brahmacharya. Dormindo naquele local (no decurso de suas andanças) onde a noite o alcança, sem desejo de melhorar sua situação, sem um lar, subsistindo de qualquer alimento que seja obtido (em caridade), dado à contemplação, praticando autodomínio, com os sentidos sob controle, sem desejo, considerando todas as criaturas igualmente, sem divertimentos, sem antipatia por qualquer coisa, o Brahmana possuidor de erudição, por adotar este modo de vida, alcança a absorção com a Alma eterna que sabe não conhece decadência. A pessoa que leva o modo de vida Garhasthya deve, depois de estudar os Vedas, realizar todas as ações religiosas prescritas para ela. Ele deve gerar filhos e desfrutar de prazeres e confortos. Com atenção cuidadosa ele deve cumprir todos os deveres deste modo de vida que é elogiado por ascetas e que é extremamente difícil de se atravessar (sem transgressões). Ele deve estar satisfeito com sua própria esposa e nunca deve se aproximar dela exceto na época apropriada. Ele deve cumprir as ordenanças das escrituras, não deve ser astuto e enganador. Ele dever ser moderado em dieta, devotado aos deuses, grato, meigo, desprovido de crueldade, e generoso. Ele deve ter o coração tranquilo, ser tratável e atento em fazer oferendas para os deuses e para os Pitris. Ele deve sempre ser hospitaleiro para os Brahmanas. Ele não deve ter orgulho, e sua caridade não deve ser limitada a algum único partido. Ele deve também ser sempre dedicado à realização dos ritos Védicos. Sobre isto, os ilustres e grandes Rishis citam um verso cantado pelo próprio Narayana, de grave significado e dotado de grande mérito ascético. Escute-me enquanto eu o repito. ‘Por verdade, simplicidade, culto de convidados, aquisição de moralidade e lucro, e desfrute das próprias esposas, um homem deve desfrutar de diversos tipos de felicidade aqui e no futuro.' Os grandes Rishis dizem que o sustento de filhos e esposas, e o estudo dos Vedas, formam os deveres daqueles que levam este modo de vida superior. O Brahmana que, sempre dedicado à realização de sacrifícios, pratica devidamente este modo de vida e cumpre apropriadamente todos os seus deveres, obtém recompensas abençoadas no céu. Após sua morte, as recompensas desejadas por ele se tornam imortais. De fato, estas o servem pela eternidade como criados sempre alertas para cumprir as ordens de seu patrão. (Literalmente, 'com olhos, cabeça, e rosto em todos os lados.') Sempre prestando atenção aos Vedas, recitando silenciosamente os mantras obtidos de seu preceptor, cultuando todas as divindades, ó Yudhishthira, cuidando e servindo respeitosamente seu preceptor com seu próprio corpo coberto com argila e sujeira, a pessoa levando o modo de vida Brahmacharya deve sempre cumprir votos rígidos e, com sentidos sob controle, deve sempre prestar atenção às instruções que tem recebido. Refletindo sobre os Vedas e cumprindo todos os deveres (em relação à contemplação e atos manifestos), ele deve viver, servindo respeitosamente seu preceptor e sempre o reverenciando. Não envolvido nos seis tipos de trabalho (tais como oficiar nos sacrifícios de outros), e nunca engajado com apego em algum tipo de ação, nunca mostrando predileção ou desagrado por alguém, fazendo o bem até para seus inimigos, estes, ó majestade, são os deveres declarados para um Brahmacharin!'” 62 "Yudhishthira disse, 'Fale sobre aqueles deveres em relação a pessoas como nós, os quais são auspiciosos, produtivos de felicidade no futuro, benévolos, aprovados por todos, aprazíveis e agradáveis.'” "Bhishma disse, 'Os quatro modos de vida, ó poderoso, foram declarados para o Brahmana. As outras três classes não os adotam, ó melhor dos Bharatas! Muitos atos, ó rei, que levam para o céu e especialmente adequados para a ordem real, já foram declarados. Aqueles, no entanto, não podem ser apresentados como resposta para tua pergunta atual, pois todos eles foram devidamente declarados para tais Kshatriyas que não são desinclinados à impiedade. O Brahmana que é afeito às práticas de Kshatriyas e Vaisyas e Sudras, atrai crítica neste mundo como uma pessoa de alma pecaminosa e vai para o inferno no mundo seguinte. Aqueles nomes os quais são aplicados entre homens para escravos e cães e lobos e (outros) animais, são aplicados, ó filho de Pandu, ao Brahmana que está empenhado em atividades que são impróprias para ele. Aquele Brahmana que, em todos os quatro modos de vida, está devidamente engajado nas seis ações (de regular a respiração, contemplação, etc.), que realiza todos os seus deveres, que não é impaciente, que tem suas paixões sob controle, cujo coração é puro e que está sempre dedicado a penitências, que não tem desejo de melhorar suas perspectivas, e que é caridoso, tem regiões inesgotáveis de bem-aventurança no outro mundo. Cada um deriva sua própria natureza da natureza de suas ações, em relação a suas circunstâncias, lugar, e meios e motivos. Tu deves, portanto, ó rei, considerar o estudo dos Vedas, o qual é repleto de tal mérito superior, como igual ao esforço do poder real, ou as atividades de agricultura, comércio, e caça. O mundo é posto em movimento pelo Tempo. Suas operações são determinadas pela passagem do Tempo. O homem faz todos os seus atos, bons, maus, e indiferentes, totalmente influenciado pelo Tempo. (Influenciado por atos passados cada um age em vidas subsequentes. Se ele é um caçador nesta vida, isto é porque a influência de muitos atos cruéis de uma vida passada o persegue mesmo nesta.) Aquelas entre as boas ações da vida passada de um homem que exercem a maior influência na próxima, estão sujeitas a se esgotarem. Os homens, no entanto, estão sempre engajados naquelas ações às quais suas propensões levam. Aquelas propensões, novamente, levam um ser vivo para todas as direções.'" (Os homens, portanto, não têm sempre saldo de boas ações para seu crédito. Eles são, no entanto, agentes livres; os novos atos que eles fazem determinam o caráter de suas próximas vidas.) 63 "Bhishma disse, 'Puxar a corda do arco, destruição de inimigos, agricultura, comércio, cuidar do gado, e servir aos outros por riqueza, estes são impróprios para um Brahmana. Um Brahmana inteligente, levando um modo de vida familiar, deve realizar devidamente as seis ações Védicas. A retirada de um Brahmana para as florestas, depois de ter cumprido devidamente todos os deveres do modo de vida familiar, é louvada. Um Brahmana deve evitar serviço do rei, riqueza obtida por agricultura, sustento derivado de comércio, todos os tipos de comportamento desonesto, companhia com alguém exceto suas esposas, e usura. O Brahmana desprezível que se desvia de seus deveres e cujo comportamento se torna pecaminoso, se torna, ó rei, um Sudra. O Brahmana que se casa com uma mulher Sudra, que se torna vil em conduta ou um dançarino ou um empregado em uma aldeia ou que faz outras ações impróprias, se torna um Sudra. Ele recite os Vedas ou não, ó rei, se ele faz tais ações impróprias, ele se torna igual a um Sudra, e em ocasiões de alimentação a ele deve ser designado um lugar entre Sudras. Tais Brahmanas se tornam iguais a Sudras, ó rei, e devem ser descartados em ocasiões de adoração aos Deuses. (Isto é, seus serviços como sacerdotes não devem ser aceitos.) Quaisquer doações de alimento oferecido aos deuses e aos Pitris feitas para Brahmanas que violaram todas as restrições, ou que se tornaram impuros em comportamento ou viciados em atividades pecaminosas e ações cruéis, ou que se desviaram de seus deveres legítimos, não conferem mérito (para o doador). Por esta razão, ó rei, autocontrole e pureza e simplicidade foram declarados como os deveres de um Brahmana. Além destes, ó monarca, todos os quatro modos de vida foram prescritos por Brahman para ele. Aquele que é autocontrolado, que tem bebido o Soma em sacrifícios, que é de bom comportamento, que tem compaixão por todas as criaturas e paciência para suportar tudo, que não tem desejo de melhorar sua posição por meio de aquisição de riqueza, que é franco e simples, gentil, livre de crueldade, e perdoador, é realmente um Brahmana e não aquele que é pecaminoso em ações. Homens desejosos de adquirir virtude procuram a assistência, ó rei, de Sudras e Vaisyas e Kshatriyas. Se, portanto, os membros destas (três) classes não adotam deveres pacíficos (assim como serem capazes de ajudar outros na aquisição de virtude), Vishnu, ó filho de Pandu, nunca estende sua graça a eles. Se Vishnu não está satisfeito, a felicidade de todos os homens no céu, o mérito proveniente dos deveres declarados para as quatro classes, as declarações dos Vedas, todos os tipos de sacrifícios, e todas as outras ações religiosas de homens, e todos os deveres em relação aos vários modos de vida, vem a ser perdidos.’” "'Ouça agora, ó filho de Pandu, àqueles deveres que devem ser cumpridos nos quatro modos de vida. Estes devem ser conhecidos pelo Kshatriya que deseja que os membros das outras (três) classes (em seu reino) adiram estritamente aos respectivos deveres daqueles modos. Para um Sudra que está desejoso de ouvir (tais escrituras que não são proibidas em seu caso), que tem cumprido seus deveres, que gerou um filho, entre quem e as classes superiores não há muita diferença por causa da pureza de sua conduta, todos os modos de vida foram declarados exceto a observância de calma total e autodomínio (os quais não são necessários para ele). Para um Sudra praticando todos estes deveres como também para um Vaisya, ó rei, e um Kshatriya, o modo de vida Bhikshu é declarado. Tendo cumprido os deveres de sua classe, e tendo também servido os parentes, um Vaisya de idade venerável, com a permissão do rei, pode se dirigir para outro modo de vida. Tendo estudado os Vedas devidamente e os tratados sobre os deveres de reis, ó impecável, tendo gerado filhos e realizado outras ações de natureza similar, tendo bebido o Soma e governado e protegido todos os seus súditos justamente, ó principal dos oradores, tendo realizado o Rajasuya, o Sacrifício de Cavalo, e outros grandes sacrifícios, tendo convidado Brahmanas eruditos para recitar as escrituras e feito presentes a eles de acordo com seus desejos, tendo obtido vitórias grandes ou pequenas em batalha, tendo colocado em seu trono seu filho ou algum Kshatriya de bom nascimento para a proteção dos súditos, tendo adorado os Pitris por realizar com os ritos devidos os sacrifícios prescritos para honrá-los, tendo adorado atentamente os deuses por realizar sacrifícios e os Rishis por estudar os Vedas, o Kshatriya que na velhice deseja outro modo de vida, pode, ó rei, adotá-lo por deixar aquele o qual imediatamente o precede, e dessa maneira ele com certeza obterá êxito (ascético). Um Kshatriya, para levar a vida de um Rishi, ó rei, pode adotar o modo de vida Bhikshu; mas ele nunca deve fazer isto para desfrutar dos prazeres do mundo. Tendo deixado o modo de vida familiar, ele pode adotar a vida de mendicância por pedir apenas o que sustente sua vida. Uma vida de mendicância não é obrigatória para as três classes (isto é, Kshatriyas, Vaisyas e Sudras), ó dador de presentes abundantes! Visto que, no entanto, eles o podem adotar se eles escolherem, este modo de vida, portanto, está aberto para as quatro classes. Entre homens, os mais elevados deveres são aqueles que são praticados pelos Kshatriyas. O mundo inteiro está sujeito ao poder de suas armas. Todos os deveres, principais e subordinados, das outras três classes, dependem (para sua observância) dos deveres do Kshatriya. Os Vedas declararam isto. Saiba que como as pegadas de todos os outros animais são engolfadas naquelas do elefante, assim mesmo os deveres das outras classes, sob todas as circunstâncias, são engolfados naqueles do Kshatriya. Homens conhecedores das escrituras dizem que os deveres das três outras classes fornecem pouco alívio ou proteção, e produzem recompensas pequenas. Os eruditos dizem que os deveres do Kshatriya fornecem grande alívio e produzem grandes recompensas. Todos os deveres têm os deveres reais como seus principais. Todas as classes são protegidas por eles. Todo o tipo de renúncia ocorre nos deveres da realeza, ó monarca, e a renúncia é citada como estando na virtude eterna e a principal todas. (O rei tem direito a um sexto dos méritos adquiridos por seus súditos. O mérito total, portanto, do rei, proveniente da renúncia, é muito grande. Além disso, o mérito de todo o tipo de renúncia pertence a ele dessa maneira.) Se a ciência de punição desaparecesse, os Vedas desapareceriam. Todas aquelas escrituras também que inculcam os deveres de homens se perderiam. De fato, se estes deveres antigos pertencentes aos Kshatriyas fossem abandonados, todos os deveres em relação a todos os modos de vida seriam perdidos. Todas as espécies de renúncia são vistas nos deveres reais; todos os tipos de iniciação ocorrem neles; todos os tipos saber estão relacionados com eles; e todos os tipos de comportamento mundano entram neles. Como animais, se mortos pelo vulgar, se tornam os meios de destruir a virtude e as ações religiosas dos matadores, assim mesmo todos os outros deveres, se privados da proteção dada pelos deveres reais, ficam sujeitos a ataques e destruição, e os homens, cheios de ansiedade, desrespeitam as práticas declaradas para eles.'" 64 "Bhishma disse, 'Os deveres em relação aos quatro modos de vida, aqueles de yatis, ó filho de Pandu, e os costumes relativos à conduta dos homens em geral, estão todos incluídos nos deveres reais. Todos estes atos, ó chefe dos Bharatas, ocorrem nos deveres Kshatriya. Se as funções da realeza são perturbadas, todas as criaturas são alcançadas pelo mal. Os deveres de homens não são óbvios. Eles têm, além disso, muitas saídas. (Isto é, para determinar se os deveres reais são superiores àqueles declarados para os vários outros modos de vida). Levados por muitos sistemas (falsos), sua natureza eterna é às vezes contrariada. Outros que fixam sua fé nas conclusões alcançadas por homens, sem realmente saberem qualquer coisa acerca das verdades sobre os deveres (como declaradas nas escrituras), se encontram finalmente aterrados e confundidos em crenças cujos últimos fins são desconhecidos. Os deveres impostos sobre Kshatriyas são claros, produtivos de grande felicidade, evidentes em relação aos seus resultados, livres de engano, e benéficos para o mundo inteiro. Como os deveres das três classes, como também de Brahmanas e daqueles que se retiraram do mundo, ó Yudhishthira, foram antes disso citados como estando todos incluídos dentro daquele modo de vida sagrado (chamado Garhasthya), assim mesmo, todo o mundo, com todas as boas ações, está sujeito aos deveres dos reis. Eu te disse, ó monarca, como muito bravos reis, nos tempos passados, foram até aquele senhor de todas as criaturas, isto é, o divino e pujante Vishnu de grande destreza, para resolver suas dúvidas sobre a ciência de castigo. Aqueles reis, conscientes das declarações das escrituras reforçadas por exemplos, visitaram Narayana no passado, depois de terem pesado cada um de seus atos contra os deveres de cada um dos modos de vida. Aquelas divindades, isto é, os Sadhyas, os Vasus, os Aswins, os Rudras, os Viswas, os Maruts, e os Siddhas, criados antigamente pelo primeiro dos deuses, são todos cumpridores dos deveres Kshatriya. Eu agora narrarei para ti uma história repleta de conclusões sobre moralidade e lucro. Antigamente, quando os Danavas tinham se multiplicado e varrido todas as barreiras e distinções (isto é, espalhado confusão sobre a terra), o poderoso Mandhatri, ó monarca, se tornou rei. Aquele soberano da terra, o rei Mandhatri, realizou um sacrifício grandioso pelo desejo de contemplar o pujante Narayana, aquele deus de deuses, sem início, meio, e fim. Naquele sacrifício ele adorou com humildade o sublime Vishnu. O Senhor Supremo, assumindo a forma de Indra, se mostrou para ele. Acompanhado por muitos bons reis ele ofereceu suas adorações para aquela divindade poderosa. Uma conversação excelente ocorreu entre aquele leão entre reis e aquele deus ilustre na forma de Indra, referente a Vishnu de grande refulgência.'” "Indra disse, 'Qual é teu objetivo, ó principal das pessoas virtuosas, em assim procurar contemplar o Antigo e Primeiro dos deuses, isto é, Narayana, de energia inconcebível, e ilusões infinitas? Nem eu mesmo, nem o próprio Brahman, podemos obter uma visão daquele deus de forma universal. Eu te concederei quaisquer outros objetos que possam estar no teu coração, pois tu és o principal dos mortais. Tua alma permanece na paz; tu és dedicado à justiça; tu tens teus sentidos sob controle; e tu és possuidor de heroísmo. Tu procuras destemidamente fazer o que é agradável para os deuses. Por causa também da tua inteligência, devoção, e grande fé, eu te concederei quaisquer bênçãos que possam ser desejadas por ti.'” "Mandhatri disse, ‘Eu inclino minha cabeça para te gratificar. Sem dúvida, no entanto, eu desejo ver o primeiro dos deuses, ó Senhor Divino! Rejeitando todos os desejos (terrenos), eu desejo ganhar mérito religioso, e seguir o principal modo de vida, aquele caminho dos bons, altamente respeitado por todos. Por exercer os deveres superiores de um Kshatriya, eu tenho ganhado muitas regiões de mérito inesgotável no outro mundo, e eu tenho também, através daqueles deveres, espalhado minha fama. Eu, no entanto, não sei como cumprir aqueles deveres, os principais no mundo, que fluíram do primeiro dos deuses.'” "Indra disse, 'Aqueles que não são reis, embora eles possam ser cumpridores de seus deveres, não podem facilmente obter as maiores recompensas do dever. Os deveres reais primeiro fluíram do deus original. Outros deveres fluíram depois de seu corpo. Infinitos eram os outros deveres, como aqueles do modo de vida Vanaprastha, que foram criados depois. Os frutos de todos eles são esgotáveis. Os deveres reais, no entanto, são eminentes sobre eles. Neles estão incluídos todos os outros deveres. Por esta razão os deveres Kshatriya são citados como os principais de todos. Nos tempos passados, Vishnu, por agir segundo os deveres Kshatriya, suprimiu e destruiu violentamente seus inimigos e assim concedeu alívio aos deuses e aos Rishis de energia incomensurável. Se o divino Vishnu de energia inconcebível não tivesse matado todos os seus inimigos entre os Asuras, então os Brahmanas, e (Brahman) o Criador dos mundos e deveres Kshatriya, e os deveres que primeiro fluíram da divindade Suprema, teriam sido todos destruídos. Se aquele primeiro e principal dos deuses, por empregar sua destreza, não tivesse subjugado a terra com todos os seus Asuras, então todos os deveres das quatro classes e todos os deveres em relação aos quatro modos de vida teriam sido todos destruídos em consequência da destruição de Brahmanas. Os deveres eternos (de homens) todos teriam sofrido destruição. Foi pelo exercício dos deveres Kshatriya que eles foram revividos. Em todo Yuga, os deveres de Brahmanas em relação a alcançar Brahma começaram primeiro. Estes, no entanto, são todos protegidos pelos deveres reais. Os últimos, por causa disto, são considerados como os principais. Abandonar a vida em batalha, compaixão por todas as criaturas, conhecimento dos assuntos do mundo, proteção de homens, resgatá-los do perigo, ajudar os afligidos e os oprimidos, todos estes ocorrem entre os deveres Kshatriya praticados por Reis. Pessoas que não respeitam restrições saudáveis e são governadas por luxúria e ira, não cometem atos públicos de pecado por medo dos reis. Outros que são dóceis e de comportamento virtuoso têm êxito, pela mesma influência, em realizar todos os seus deveres. Por esta razão os deveres Kshatriya são considerados justos. Sem dúvida, todas as criaturas vivem alegremente no mundo, protegidas por reis exercendo deveres Kshatriya como crianças protegidas por seus pais. Os deveres Kshatriya são os principais de todos os deveres. Aqueles deveres eternos, considerados como os mais importantes no mundo, abarcam a proteção de todas as criaturas. Eles mesmos eternos, eles levam à emancipação eterna.'" 65 "Indra disse, 'Os deveres Kshatriya, ó rei, os quais são possuidores de tal energia, que incluem em seu exercício todos os outros deveres, e que são os principais de todos os deveres, devem ser observados por pessoas que são, assim como tu, de grande alma e muito empenhadas em procurar o bem do mundo. Se aqueles deveres não fossem cumpridos devidamente, todas as criaturas seriam alcançadas pela ruína. Os reis possuidores de compaixão por todas as criaturas devem considerar estes como os seus deveres principais: reclamação da terra para cultivo e fertilização dela, realização de grandes sacrifícios para se purificar, uma desconsideração por mendicância, e proteção de súditos. Renúncia (doação) é citada pelos sábios como a principal das virtudes. De todos os tipos de renúncia, além disso, aquela do corpo em batalha é a principal. Tu viste com teus olhos como os soberanos da terra, sempre cumpridores dos deveres Kshatriya, tendo servido devidamente seus preceptores e adquirido grande erudição, finalmente abandonaram seus corpos, envolvidos em batalhas uns com os outros. O Kshatriya, desejoso de adquirir mérito religioso, deve, depois de ter praticado o modo Brahmacharya, levar uma vida familiar que é sempre meritória. Em presidir sobre questões comuns de direito (entre seus súditos), ele deve ser totalmente imparcial. Por fazerem todas as classes serem cumpridoras de seus respectivos deveres, pela proteção que eles concedem a todos, pelos diversos instrumentos e meios e pela destreza e esforço (com os quais eles procuram a realização de seus objetivos), os deveres Kshatriya, os quais incluem todos os outros deveres dentro de seu âmbito, são considerados como os principais. As outras classes podem cumprir seus respectivos deveres em consequência dos deveres reais. Por esta razão os primeiros são citados como dependentes dos últimos em relação ao mérito que eles produzem. Os homens que desrespeitam todas as restrições saudáveis e que são muito ligados à perseguição de objetos mundanos são citados como sendo da natureza dos brutos. Eles são obrigados a agir com justiça pelo exercício dos deveres reais. Aqueles deveres, portanto, são considerados como os principais de todos. Aquela direção de conduta que foi prescrita para Brahmanas que seguem os três Vedas, e aqueles modos de vida que foram declarados para Brahmanas, devem, antes de tudo mais, ser cumpridos por todo Brahmana. Se um Brahmana age de outra maneira, ele deve ser punido como um Sudra. Os deveres dos quatro modos de vida e os rituais prescritos nos Vedas, ó rei, devem sempre ser seguidos por um Brahmana. Saiba que ele não tem outros deveres. Para um Brahmana agindo de outra maneira, um Kshatriya não deve fazer qualquer arranjo para sustento. Seu mérito religioso cresce por seus atos. Um Brahmana, de fato, é como o próprio Dharma. O Brahmana que está empenhado em ações que não são prescritas para ele não merece respeito. Se não engajado em seus atos apropriados, ele não é de confiança. Estes são os deveres que concernem às várias classes. Kshatriyas devem cuidar deles para que sua observância possa ser melhorada. Estes são os deveres dos Kshatriyas. Por estas razões também, os deveres reais e não outros são os principais de todos. Eles são, como eu creio, os deveres de heróis, e aqueles que são heróis são os principais em praticá-los.'” "Mandhatri disse, 'Que deveres devem ser realizados pelos Yavanas, os Kiratas, os Gandharvas, os Chinas, os Savaras, os Barbaras, os Sakas, os Tusharas, os Kankas, os Pathavas, os Andhras, os Madrakas, os Paundras, os Pulindas, os Ramathas, os Kamvojas, as várias castas que surgiram de Brahmanas e Kshatriyas, os Vaisyas, e os Sudras, que residem nos domínios dos reis (Arya)? Quais são os deveres também pela observância dos quais reis como nós devemos dominar aquelas tribos que subsistem por meio de roubo? Eu desejo saber tudo isso. Ó deus ilustre, me instrua. Ó chefe de todas as divindades, tu és o amigo de nós Kshatriyas.'” "Indra disse, 'Todas as tribos de ladrões devem servir seus pais e mães, seus preceptores e outros mais idosos, e reclusos vivendo nas florestas. Todas as tribos de ladrões devem também servir seus reis. Os deveres e ritos inculcados nos Vedas devem também ser seguidos por eles. Eles devem realizar sacrifícios em honra dos Pitris, cavar poços, (e dedicá-los para serviços gerais), dar água para viajantes com sede, doar camas e fazer outros presentes adequados para os Brahmanas. Abstenção de ferir, veracidade, supressão da raiva, sustento de Brahmanas e parentes por dar a eles o que lhes é de direito, sustento das esposas e filhos, pureza, calma, fazer doações para Brahmanas em sacrifícios de todos os tipos, são deveres que devem ser praticados por cada pessoa dessa classe que deseja sua própria prosperidade. Tal pessoa também deve realizar todos os tipos de Paka-yajnas com presentes caros de alimento e riquezas. Estes deveres e similares, ó impecável, foram declarados no passado para pessoas dessa classe. Todos estes atos, os quais foram prescritos para todas as outras, devem ser feitos também por pessoas da classe de ladrões, ó rei.'” "Mandhatri disse, 'No mundo de homens, tais homens pecaminosos são vistos vivendo disfarçados entre todas as quatro classes e em todos os quatro modos de vida.'” "Indra disse, 'Após o desaparecimento dos deveres reais e da ciência de punição, todas as criaturas ficaram extremamente aflitas, ó impecável, por causa da tirania dos reis. Depois do término dessa era Krita, uma confusão começará, em relação aos diferentes modos de vida, e inúmeros Bhikshus aparecerão com marcas sectárias de diferentes tipos. Desrespeitando os Puranas e as verdades superiores de religião, os homens, incitados por luxúria e ira, se desviarão para caminhos errados. Quando homens pecaminosos são refreados (de atos maus) por pessoas de grande alma com a ajuda da ciência de castigo, então a religião, que é superior a tudo e eterna, e que é a fonte de todo o bem, se torna firmemente estabelecida. As doações, e libações, e oferendas para os Pitris do homem que desrespeita o rei que é superior a todos, se tornam inúteis. Os próprios deuses não desconsideram um rei virtuoso que é realmente um deus eterno. O Senhor divino de todas as criaturas, tendo criado o universo, planejou o Kshatriya para governar homens com respeito a suas inclinações e desinclinações em relação aos deveres. Eu respeito e reverencio a pessoa que, ajudada por sua compreensão, vigia o rumo dos deveres realizados pelos homens. De tal supervisão dependem os deveres Kshatriya.'” "Bhishma continuou, 'Tendo dito estas palavras, o divino e poderoso Narayana na forma de Indra, acompanhado pelos Maruts, se dirigiu para sua residência eterna de felicidade inesgotável. Quando, ó impecável, deveres como praticados pelos bons tinham tal rumo nos tempos passados, qual homem de alma purificada e erudição desrespeitaria o Kshatriya? Como homens cegos perdidos no caminho, criaturas agindo e se abstendo injustamente encontram a destruição. Ó tigre entre homens, adira àquele círculo (de deveres) que foi estabelecido primeiro e ao qual os antigos recorreram. Eu sei, ó impecável, que tu és bastante competente para fazer isso.'” 66 "Yudhishthira disse, 'Tu me falaste sobre os quatro modos de vida humana. Eu desejo saber mais sobre eles. Discorra sobre eles em detalhes.'” "Bhishma disse, 'Ó Yudhishthira de braços poderosos, todos os deveres que são praticados pelos virtuosos neste mundo são tão conhecidos por ti quanto eles são conhecidos por mim. Ó principal das pessoas virtuosas, escute-me agora acerca do que tu perguntaste, isto é, o mérito (que um rei adquire) em consequência dos deveres praticados por outros que levam outros modos de vida. Todos os méritos, ó filho de Kunti, pertencentes às pessoas praticantes dos deveres dos quatro modos de vida se vinculam, ó principal dos homens, aos reis justos. Um rei que não é governado por luxúria e ódio, que governa com a ajuda da ciência de castigo, e que olha igualmente para todas as criaturas, ó Yudhishthira, atinge o objetivo do modo de vida Bhaikshya (Este objetivo é Brahma). O rei que é possuidor de conhecimento, que faz doações para pessoas merecedoras em ocasiões apropriadas, que sabe como favorecer e punir, que se comporta em todas as coisas de acordo com as injunções das escrituras, e que tem tranquilidade de alma, alcança o objetivo do modo de vida Garhasthya. O rei que sempre cultua aqueles que são dignos de culto por lhes dar o que é devido, alcança completamente, ó filho de Kunti, o objetivo do modo de vida Bhaikshya. Aquele rei, ó Yudhishthira, que salva do infortúnio, ao melhor de seu poder, seus parentes e amigos, alcança o objetivo do modo de vida Vanaprashtha. O rei que em todas as ocasiões honra aqueles que são os principais entre os homens e aqueles que são os principais entre Yatis, alcança, ó filho de Kunti, o objetivo do modo de vida Vanaprashtha. O rei, ó Partha, que diariamente faz oferendas aos Pitris e grandes oferendas a todas as criaturas vivas incluindo homens, alcança o objetivo do mesmo modo de vida. O rei, ó tigre entre homens, que oprime os reinos de outros para proteger os virtuosos, alcança o objetivo do mesmo modo de vida. Pela proteção de todas as criaturas como também da proteção apropriada de seu reino, um rei ganha o mérito de tantos sacrifícios quanto o número de criaturas protegidas, e consequentemente alcança o objetivo do modo de vida Sannyasa. Estudo dos Vedas todos os dias, benevolência, e culto de preceptores, e serviços prestados para o próprio professor, levam ao alcance do objetivo de Brahmacharya. O rei que recita seus mantras silenciosamente todos os dias e que sempre cultua os deuses de acordo com a ordenança, alcança, ó tigre entre homens, o objetivo do modo de vida Garhasthya. Aquele rei que se envolve em batalha com a resolução de proteger seu reino ou encontrar a morte, alcança o objetivo do modo de vida Vanaprastha. O rei que doa para pessoas que levam o modo de vida Vanaprastha e para Brahmanas versados nos três Vedas alcança o objetivo do modo de vida Vanaprastha. O rei que demonstra compaixão por todas as criaturas e se abstém totalmente da crueldade, alcança os objetivos de todos os modos de vida. O rei, ó Yudhishthira, que mostra compaixão pelos jovens e pelos velhos, ó filho de Kunti, sob todas as circunstâncias, alcança os objetivos de todos os modos de vida. Aquele rei, ó perpetuador da linhagem de Kuru, que concede alívio para todas as pessoas oprimidas que procuram sua proteção, alcança o objetivo do modo de vida Garhasthya. O rei que protege todas as criaturas móveis e imóveis, e honra as que merecem, alcança o objetivo do modo de vida Garhasthya. Conceder favores e infligir castigos sobre as esposas e irmãos, mais velhos e mais novos, e sobre seus filhos e netos, são os deveres familiares de um rei e constituem suas melhores penitências. Por honrar aqueles que são virtuosos e merecedores de culto e proteger aqueles que (por suas penitências) adquiriram o autoconhecimento, um rei, ó tigre entre homens, alcança o objetivo do modo de vida Garhasthya. Convidar para sua casa, ó Bharata, as pessoas que se dirigiram para o Vanaprastha e para outros modos de vida, e tratá-las com alimento, constituem os deveres domésticos de um rei. O rei que adere devidamente aos deveres declarados pelo Criador, obtém os méritos abençoados de todos os modos de vida. O rei, ó filho de Kunti, em quem nenhuma virtude está faltando, aquele principal dos homens, ó Yudhishthira, é citado pelos eruditos como sendo uma pessoa na observância do Vanaprastha e de todos os outros modos de vida. O rei que honra devidamente o ofício ou posto o qual merece honra, a linhagem ou família que merece honra, e os homens idosos que merecem honra é citado, ó Yudhishthira, como vivendo em todos os modos de vida. (Isto é, tal homem obtém os méritos de todos os modos de vida). Um rei, ó filho de Kunti, por cumprir os deveres de seu país e aqueles de sua família, obtém, ó tigre entre homens, os méritos de todos os modos de vida. O rei que em épocas apropriadas concede para pessoas virtuosas riquezas ou presentes de valor, ganha os méritos, ó rei, de todos os modos de vida. O rei, ó filho de Kunti, que enquanto dominado pelo perigo e medo ainda mantém seus olhos nos deveres de todos os homens (isto é, protege todos os homens na realização de seus deveres), ganha os méritos de todos os modos de vida. O rei obtém uma parte dos méritos ganhos sob sua proteção por pessoas justas em seus domínios. Por outro lado, se os reis, ó tigre entre homens, não protegem as pessoas justas dentro de seus domínios, eles então recebem os pecados das últimas (de omissão e comissão). Aqueles homens também, ó Yudhishthira, que ajudam os reis (na proteção de seus súditos), se tornam igualmente autorizados, ó impecável, a partilhar dos méritos ganhos por outros (em consequência daquela proteção). Os eruditos dizem que o Garhasthya, o qual nós temos adotado, é superior a todos os outros modos de vida. As conclusões a respeito disto são muito claras. Ele é certamente sagrado, ó tigre entre homens. O homem que respeita todas as criaturas como a si mesmo, que nunca faz algum mal e tem sua ira sob controle (que pune sem raiva), obtém grande felicidade neste e no outro mundo. Um rei pode cruzar facilmente o oceano do mundo, com os deveres reais como seu barco de grande velocidade, impulsionado pela brisa da caridade, tendo as escrituras como seu equipamento e inteligência como a força de seu timoneiro, e mantido à tona pelo poder da justiça. Quando o princípio de desejo em seu coração é afastado de todos os objetos terrestres, ele é então considerado como alguém que se apóia somente em sua compreensão. Neste estado ele logo alcança Brahma. Tornando-se contente pela meditação e por reprimir o desejo e outras paixões do coração, ó tigre entre homens, o rei, dedicado a cumprir o dever de proteção, consegue obter grande mérito. Portanto, ó Yudhishthira, te esforce cuidadosamente em proteger Brahmanas de atos pios e dedicados ao estudo dos Vedas, como também todos os outros homens. Por exercer o dever de proteção somente, ó Bharata, o rei ganha mérito que é cem vezes maior do que o que é obtido por reclusos em seus retiros dentro das florestas.' "Eu agora descrevi, ó filho mais velho de Pandu, os diversos deveres de homens. Adira aos deveres reais que são eternos e que são praticados por grandes homens desde os tempos passados. Se tu te dedicares com atenção concentrada ao dever de proteger (teus súditos), ó tigre entre homens, tu então poderás, ó filho de Pandu, obter os méritos de todos os quatro modos de vida e de todas as quatro classes de homens!" "Yudhishthira disse, 'Tu disseste quais são os deveres dos quatro modos de vida e das quatro classes. Diga-me agora, ó avô, quais são os principais deveres de um reino.'” "Bhishma disse, 'A (eleição e) coroação de um rei é o primeiro dever de um reino. Um reino no qual a anarquia prevalece se torna fraco e é logo afligido por ladrões. Em reinos divididos pela anarquia a justiça não pode habitar. Os habitantes devoram uns aos outros. Uma anarquia é o pior estado possível. Os Srutis declaram que ao coroar um rei, é Indra que é coroado (na pessoa do rei). Uma pessoa que deseja prosperidade deve adorar o rei como ela adoraria o próprio Indra. Ninguém deve morar em reinos divididos pela anarquia. Agni não transporta (para os deuses) as libações que são despejadas sobre ele em reinos onde a anarquia prevalece. Se um rei poderoso se aproxima de reinos enfraquecidos pela anarquia, pelo desejo de anexá-los a seus domínios, o povo deve se adiantar e receber o invasor com respeito. Tal conduta seria compatível com sábios conselhos. Não há mal maior do que a anarquia. Se o invasor poderoso for inclinado à equidade, tudo ficará certo. Se, por outro lado, ele se empenhar em combate, ele poderá exterminar todos. A vaca que não pode ser facilmente ordenhada tem que sofrer muita tortura. Por outro lado, a vaca que pode ser facilmente ordenhada não tem que sofrer nenhuma tortura. A madeira que se curva facilmente não requer ser aquecida. A árvore que se dobra facilmente não tem que sofrer qualquer tortura (nas mãos do jardineiro). Guiados por estes exemplos, ó herói, homens devem se curvar perante aqueles que são poderosos. O homem que curva sua cabeça para uma pessoa poderosa realmente curva sua cabeça para Indra. Por estas razões, homens desejosos de prosperidade devem (eleger e) coroar alguma pessoa como seu rei. Aqueles que vivem em países onde a anarquia prevalece não podem desfrutar de sua riqueza e esposas. Durante tempos de anarquia, os homens pecaminosos derivam grande prazer por roubar a riqueza de outras pessoas. Quando, no entanto, sua riqueza (mal adquirida) é arrebatada por outros, eles desejam um rei. É evidente, portanto, que em tempos de anarquia nem os próprios pecaminosos podem ser felizes. A riqueza de um é roubada por dois. A riqueza daqueles dois é roubada por muitos agindo juntos. Aquele que não é um escravo é feito um escravo. Mulheres, também, são sequestradas à força. Por estas razões os deuses criaram os reis para proteger as pessoas. Se não houvesse rei sobre a terra para manejar a vara de castigo, os fortes teriam então vitimado os fracos assim como peixes na água. Foi ouvido por nós que os homens, antigamente, por causa da anarquia, encontraram a destruição, devorando uns aos outros como peixes mais fortes devorando os mais fracos na água. Foi ouvido por nós que uns poucos entre eles então, se reunindo, fizeram certos acordos, dizendo, 'Aquele que se tornar rude em palavras, ou violento em temperamento, aquele que seduzir ou sequestrar as esposas de outros ou roubar a riqueza que pertence a outros, deve ser expulso por nós.' Para inspirar confiança entre todas as classes de pessoas, eles fizeram tal pacto e viveram por algum tempo. Reunindo-se depois de algum tempo eles foram em aflição até o Avô, dizendo, 'Sem um rei, ó senhor divino, nós estamos indo para a destruição. Nomeie alguém como nosso rei. Todos nós iremos adorá- lo e ele nos protegerá.' Assim solicitado, o Avô pediu a Manu. Manu, no entanto, não concordou com a proposta.’” "Manu disse, 'Eu temo todas as ações pecaminosas. Governar um reino é extremamente difícil, especialmente entre homens que são sempre falsos e enganadores em seu comportamento.'” "Bhishma continuou, 'Os habitantes da terra então disseram a ele, 'Não temas. Os pecados que os homens cometerem tocarão somente aqueles que os cometerem (sem te macular de modo algum). Para o aumento de tua tesouraria, nós te daremos uma quinquagésima parte de nossos animais e metais preciosos e uma décima parte de nossos grãos. Quando nossas donzelas também se tornarem desejosas de casar, nós iremos, quando a questão surgir, te dar as mais belas entre elas. Aqueles entre os homens que se tornarem os principais de todos no uso de armas e em guiar animais e dirigir veículos, procederão atrás de ti como as divindades atrás de Indra. Com tua força intensificada dessa maneira, e te tornando invencível e possuidor de grande destreza, tu serás nosso rei e nos protegerá tranquilamente como Kuvera protegendo os Yakshas e os Rakshasas. Uma quarta parte do mérito que os homens ganharem sob tua proteção será tua. Fortalecido por aquele mérito assim facilmente obtido por ti, nos proteja, ó rei, como Ele de cem sacrifícios protegendo as divindades. Como o Sol queimando tudo com seus raios, saia para ganhar vitórias. Esmague o orgulho de inimigos e deixe a justiça sempre triunfar (no mundo).' Assim endereçado por aqueles habitantes da terra, Manu, possuidor de grande energia, procedeu, acompanhado por uma grande tropa. De descendência nobre, ele parecia então resplandecer com destreza. Contemplando o poder de Manu, como os deuses olhando o poder de Indra, os habitantes da terra foram inspirados com medo e colocaram seus corações em seus respectivos deveres. Manu então fez sua ronda pelo mundo, controlando em todos os lugares todos os atos de maldade e designando todos os homens para seus respectivos deveres, como uma nuvem carregada de chuva (em sua missão de beneficência).'” "Ó Yudhishthira, os homens sobre a terra que desejam prosperidade devem primeiro eleger e coroar um rei para a proteção de todos. Como discípulos se humilhando na presença dos preceptores ou os deuses na presença de Indra, todos os homens devem se humilhar perante o rei. Alguém que é honrado por seu próprio povo se torna um objeto de respeito para seus inimigos também, enquanto alguém que é desrespeitado por seus próprios é dominado por inimigos. Se o rei for dominado por seus inimigos, todos os seus súditos se tornam infelizes. Portanto, guarda-sóis e veículos e ornamentos externos, e comestíveis, e bebidas, e mansões, e assentos, e camas, e todos os utensílios para uso e exibição, devem ser atribuídos ao rei. Por tais meios o rei conseguirá cumprir (da melhor maneira) seus deveres de proteção e se tornará irresistível. Ele deve falar com sorrisos. Endereçado suavemente por outros, ele deve se dirigir a outros gentilmente. Grato (àqueles que o servem), firmemente devotado (àqueles que merecem seu respeito), e com suas paixões sob controle, ele deve dar aos outros o que lhes é devido. Olhado com respeito por outros ele deve olhar para eles brandamente, gentilmente, e elegantemente.'” 68 "Yudhishthira disse, 'Por que, ó touro da raça Bharata, os Brahmanas dizem que o rei, aquele soberano de homens, é um deus?'” "Bhishma disse, 'Com relação a isto é citada a antiga história, ó Bharata, do discurso de Vrihaspati para Vasumanas. Havia um rei de Kosala possuidor de grande inteligência, chamado Vasumanas. Em certa ocasião ele questionou o grande sábio Vrihaspati de muita sabedoria. Familiarizado com os requisitos de humildade, o rei Vasumanas, sempre dedicado ao bem-estar de todos, tendo cumprido as humildades apropriadas e tendo circungirado o grande sábio e se curvado a ele devidamente, perguntou ao virtuoso Vrihaspati acerca das ordenanças em relação a um reino, movido pelo desejo de assegurar a felicidade dos homens.'” "Vasumanas disse, 'Por quais meios as criaturas crescem e por quais elas são destruídas? Ó tu de grande sabedoria, por adorar a quem elas conseguem obter felicidade eterna?' Assim questionado pelo rei Kosala de energia incomensurável, Vrihaspati de grande sabedoria falou a ele calmamente acerca do respeito que deve ser prestado aos reis.” "Vrihaspati disse, 'Os deveres de todos os homens, ó tu de grande sabedoria, podem ser vistos terem sua base no rei. É somente por medo do rei que os homens não devoram uns aos outros. É o rei que traz paz sobre a terra, pelo devido cumprimento de deveres, por controlar todo o desrespeito e todas as espécies de luxúria por meio de restrições salutares. Realizando isto, ele brilha em glória. Como, ó rei, todas as criaturas se tornam incapazes de verem umas às outras em total escuridão se o sol e a lua não nascem, como peixes em água rasa e aves em um local seguro de perigo voam e vagam como lhes agrada (por um tempo) e repetidamente atacam e oprimem umas às outras com força e então encontram com a destruição certa, assim mesmo os homens afundam em total escuridão e encontram a destruição se eles não têm um rei para protegê-los, como um rebanho de gado sem o vaqueiro para olhar por eles. Se o rei não exercesse o dever de proteção, os fortes se apropriariam à força das posses dos fracos, e se os últimos se recusassem a se render a eles com facilidade, suas próprias vidas seriam tiradas. Ninguém então, com referência a algum artigo em sua posse, poderia dizer 'Isto é meu'. Esposas, filhos, alimento, e outros tipos de propriedade, então não existiriam. A ruína tomaria conta de tudo se o rei não exercesse o dever de proteção. Homens perversos se apropriariam à força dos veículos e vestes e ornamentos e pedras preciosas e de outros tipos de propriedade pertencente a outros, se o rei não protegesse. Na ausência de proteção pelo rei, diversas espécies de armas cairiam sobre aqueles que são corretos em suas práticas, e a iniquidade seria adotada por todos. Na ausência de proteção real homens desrespeitariam ou até feririam seus próprios pais se idosos, seus próprios preceptores e convidados e superiores. Se o rei não protegesse, todas as pessoas possuidoras de riqueza teriam que enfrentar morte, prisão, e perseguição, e a própria idéia de propriedade desapareceria. Se o rei não protegesse, tudo seria exterminado prematuramente, e todas as partes do país seriam infestadas por ladrões, e todos cairiam em um inferno terrível. Se o rei não protegesse, todas as restrições sobre casamento e relações (devidos à consanguinidade e outras espécies de relacionamentos) cessariam; todos os assuntos relativos à agricultura e comércio cairiam em confusão, a moralidade decairia e seria perdida; e os três Vedas desapareceriam. Sacrifícios, devidamente completados com presentes de acordo com a ordenança, não seriam mais realizados; nenhum casamento ocorreria, a própria sociedade cessaria de existir, se o rei não exercesse o dever de proteção. Os próprios touros não cobririam vacas e jarros de leite não seriam batidos, e homens vivendo por criar gado encontrariam com a destruição, se o rei não exercesse o dever de proteção. Na ausência de proteção real, todas as coisas, inspiradas com medo e ansiedade e se tornando insensatas e proferindo gritos de aflição, encontrariam a destruição num abrir e fechar de olhos. Nenhum sacrifício se estendendo por um ano e completado com doações segundo as ordenanças ocorreria se o rei não exercesse o dever de proteção. Na ausência de proteção real Brahmanas nunca estudariam os quatro Vedas ou passariam por austeridades ou seriam purificados por conhecimento e votos rígidos. Na ausência de proteção real, o matador de uma pessoa culpada da morte de um Brahmana não obteria qualquer recompensa; por outro lado a pessoa culpada de Brahmanicídio desfrutaria de total imunidade. Na ausência de proteção real, homens roubariam as riquezas de outras pessoas das suas próprias mãos, e todas as barreiras saudáveis seriam varridas, e todos, inspirados com medo, procurariam segurança na fuga. Na ausência de proteção real, todos os tipos de injustiça se manifestariam; uma mistura de castas ocorreria, e a fome devastaria o reino. Por causa também da proteção real, homens podem dormir em todos os lugares destemidamente e em seu caso sem trancar suas casas e portas com ferrolhos e barras. Ninguém ouviria as más palavras de outros, muito menos ataques verdadeiros, se o rei protegesse justamente a terra. (Homens toleram pacientemente as injúrias infligidas sobre eles por outros, sem procurar fazer justiça eles mesmos pela força, porque eles podem invocar o rei para punir os ofensores. Se não houvesse reis, a vingança imediata até pelas menores ofensas seria a prática geral.) Se o rei exerce o dever de proteção, mulheres enfeitadas com ornamentos podem passear sem medo em todos os lugares sem parentes masculinos para cuidar delas. Os homens se tornam justos e sem ofender servem uns aos outros porque o rei exerce o dever de proteção. Pela proteção real os membros das três classes podem realizar sacrifícios excelentes e se dedicar à aquisição de conhecimento com atenção. O mundo depende de agricultura e comércio e é protegido pelos Vedas. Todos estes são devidamente protegidos pelo rei exercendo seu principal dever. Já que o rei, tomando uma grande responsabilidade sobre si mesmo, protege seus súditos com a ajuda de um exército poderoso, é por isto que as pessoas podem viver em felicidade. Quem não veneraria aquele em cuja existência as pessoas existem e em cuja destruição as pessoas são destruídas? A pessoa que faz o que é agradável e benéfico para o rei e que suporta (uma parte da) carga dos deveres reais que enchem todas as castas de medo, conquista este e o outro mundo. (Isto é, se tornando importante e feliz neste mundo, obtém bem-aventurança no mundo seguinte.) O homem que até pensa em fazer uma injúria para o rei, sem dúvida encontra aflição neste mundo e vai para o inferno após a morte. Ninguém deve desrespeitar o rei por tomá-lo por um homem, pois ele é realmente uma divindade superior em forma humana. O rei assume cinco formas diferentes de acordo com cinco ocasiões diferentes. Ele se torna Agni, Aditya, Mrityu, Vaisravana, e Yama. Quando o rei, enganado por falsidade, queima com sua energia feroz os ofensores pecaminosos diante dele, é dito que ele então assume a forma de Agni. Quando ele observa através de seus espiões as ações de todas as pessoas e faz o que é para o bem geral, é dito então que ele assume a forma de Aditya. Quando ele destrói em cólera centenas de homens pecaminosos com seus filhos, netos, e parentes, é dito então que ele assume a forma do Destruidor. Quando ele reprime os maus por infligir sobre eles castigos severos e favorece os justos por lhes conceder recompensas, é dito que ele assume a forma de Yama. Quando ele gratifica com presentes abundantes de riquezas aqueles que lhe prestaram serviços valiosos, e tira a riqueza e pedras preciosas daqueles que o ofenderam, de fato, quando ele concede prosperidade a alguns e a tira de outros, é dito então, ó rei, que ele assume a forma de Kuvera na terra. Nenhuma pessoa que possua inteligência, que seja capaz de trabalhar, que deseje a aquisição de virtude, e que seja livre de malícia, deve espalhar maus rumores acerca do rei. Nenhum homem, por agir contra o rei, pode se fazer feliz, mesmo que ocorra de ele ser o filho do rei ou irmão ou companheiro ou alguém a quem o rei considere como seu segundo eu. O fogo, tendo o vento como seu incitador, queimando (entre artigos que são inflamáveis), pode deixar um resto. (É dito que o Vento é o cocheiro do Fogo, porque onde quer que haja um incêndio, o Vento, aparecendo, ajuda a espalhá- lo.) A ira do rei, no entanto, não deixa nada para a pessoa que incorre nela. O que quer que pertença ao rei dever ser evitado à distância. (Isto é, ninguém deve cobiçar as posses do rei). Uma pessoa deve se desviar do que pertence ao rei como ela se desviaria da própria morte. Uma pessoa por se apropriar do que pertence ao rei encontra a destruição rapidamente como um veado após ingerir veneno. O homem de inteligência deve proteger como seu o que pertence ao rei. Aqueles que se apropriam da riqueza pertencente ao rei afundam sem sentidos em um inferno profundo de escuridão e infâmia eterna. Quem não adoraria o rei que é adorado por termos tais como alegrador do povo, concessor de felicidade, possuidor de prosperidade, o principal de todos, curador de ferimentos, senhor de terra, e protetor de homens? O homem, portanto, que deseja sua própria prosperidade, que cumpre todas as restrições saudáveis, que tem sua alma sob controle, que é o mestre de suas emoções, que é possuidor de inteligência e memória, e que é esperto (nas transações de negócios), deve sempre ser afeiçoado ao rei. O rei deve honrar devidamente o ministro que é grato, dotado de sabedoria, generoso, leal, possuidor de domínio sobre seus sentidos, virtuoso, e observador dos ditames de política. O rei deve entreter o homem que é leal, grato, virtuoso, possuidor de autocontrole, corajoso, magnânimo em suas ações, e competente para realizar tarefas sem a ajuda de outros. O conhecimento faz os homens orgulhosos. O rei faz os homens humildes. O homem que é afligido pelo rei nunca pode obter felicidade. Por outro lado, o homem que é favorecido pelo rei se torna feliz. O rei é o coração de seu povo; ele é seu grande refúgio; ele é sua glória; e ele é sua maior felicidade. Os homens, ó monarca, que são afeiçoados ao rei, conseguem conquistar este e o outro mundo. Tendo governado a terra com a ajuda das qualidades de autodomínio, veracidade, e amizade, e tendo adorado os deuses por meio de sacrifícios grandiosos, o rei, ganhando grande glória, obtém uma residência eterna no céu.' Aquele melhor dos monarcas, isto é, o heróico Vasumanas, soberano de Kosala, assim instruído por Vrihaspati o filho de Angiras, começou desde então a proteger seus súditos." 69 "Yudhishthira disse, 'Que outros deveres especiais restam para o rei cumprir? Como ele deve proteger seu reino e como ele deve subjugar seus inimigos? Como ele deve empregar seus espiões? Como ele deve inspirar confiança nas quatro classes de seus súditos, em seus próprios empregados, esposas, e filhos, ó Bharata?'” "Bhishma disse, 'Escute, ó monarca, com atenção aos diversos deveres dos reis, àqueles atos os quais o rei ou alguém que está na posição de um rei deve fazer primeiro. O rei deve primeiro subjugar a si mesmo e então procurar subjugar seus inimigos. Como um rei que não é capaz de conquistar a si mesmo pode conquistar seus inimigos? A conquista destes, isto é, o agregado de cinco, é considerada como a conquista de si mesmo. O rei que conseguiu subjugar seus sentidos é competente para resistir a seus inimigos. Ele deve colocar grupos de soldados de infantaria em seus fortes, fronteiras, cidades, parques, e jardins de divertimento, ó alegrador dos Kurus, como também em todos os locais aonde ele mesmo vai, e dentro de seu próprio palácio, ó tigre entre homens! Ele deve empregar como espiões homens que parecem com idiotas ou com aqueles que são cegos e surdos. Estes devem ser pessoas que tenham sido minuciosamente examinadas (em relação à sua habilidade), que possuam sabedoria, e que possam suportar fome e sede. Com atenção apropriada, o rei deve colocar seus espiões sobre todos os seus conselheiros e amigos e filhos, em sua cidade e províncias, e nos domínios dos dirigentes sob suas ordens. Seus espiões devem ser empregados de forma que eles não possam conhecer uns dos outros. Ele deve também, ó touro da raça Bharata, conhecer os espiões de seus inimigos por colocar ele mesmo espiões em lojas e lugares de diversão, e multidões de pessoas, entre mendigos, em seus jardins e parques de diversão, em reuniões e conclaves de eruditos, no campo, em lugares públicos, em lugares onde ele mantém sua própria corte, e nas casas dos cidadãos. O rei possuidor de inteligência pode assim averiguar os espiões despachados por seus inimigos. Se eles forem conhecidos, o rei pode derivar muito benefício, ó filho de Pandu! Quando o rei, por uma avaliação de si próprio, se percebe fraco, ele deve então, consultando com seus conselheiros, fazer as pazes com um inimigo que é mais forte. O rei que é sábio deve fazer rapidamente as pazes com um inimigo, mesmo quando ele sabe que ele não é fraco, se alguma vantagem puder ser derivada disto. Empenhado em proteger seu reino com justiça, o rei deve fazer as pazes com aqueles que são possuidores de todas as habilidades, capazes de grande esforço, virtuosos, e honestos. Quando o rei se encontra ameaçado pelo perigo e prestes a ser alcançado pela ruína, ele deve matar todos os ofensores a quem ele tinha negligenciado antes e todas as tais pessoas que são apontadas pelo povo. Um rei não deve ter nada a fazer com aquela pessoa que não pode nem beneficiá- lo nem feri-lo, ou com alguém que não pode resgatar ele mesmo do infortúnio. Em relação às operações militares, um rei que é seguro de sua própria força deve, na dianteira de uma grande tropa, alegremente e com coragem dar a ordem para marchar, sem proclamar seu destino contra alguém desprovido de aliados e amigos ou já em guerra com outro e (portanto) desatento (ao perigo vindo de outros quadrantes), ou um mais fraco do que ele mesmo, tendo primeiro feito arranjos para a proteção de sua própria capital. Um rei não deve viver sempre em submissão a outro possuidor de grande destreza. Embora fraco, ele deve procurar afligir o forte, e resolvido a respeito disto, continuar a governar seu próprio (reino). Ele deve afligir o reino do mais forte por meio de armas, fogo e aplicação de veneno. Ele deve também causar dissensões entre seus conselheiros e empregados. Vrihaspati disse que um rei possuidor de inteligência deve sempre evitar guerra para aquisição de território. A aquisição de domínio deve ser feita pelos três meios bem conhecidos (de conciliação, presentes, e desunião). O rei que possui sabedoria deve ficar satisfeito com aquelas aquisições que são feitas por meio de conciliação, presentes, e desunião. O rei, ó alegrador dos Kurus, deve pegar um sexto das rendas de seus súditos como tributo para pagar as despesas de protegê-los. Ele deve também tirar riqueza forçosamente, muito ou pouco (como o caso possa requerer), dos dez tipos de ofensores mencionados nas escrituras, para a proteção de seus súditos. Um rei deve, sem dúvida, considerar seus súditos como seus próprios filhos. Em decidir suas disputas, no entanto, ele não deve mostrar compaixão. Para ouvir as queixas e respostas de disputantes em casos judiciais, o rei deve sempre nomear pessoas possuidoras de sabedoria e de um conhecimento dos assuntos do mundo, pois o estado realmente se apóia sobre uma administração apropriada da justiça. O rei deve colocar homens honestos e dignos de confiança sobre suas minas, sal, grãos, embarcações, e grupos de elefantes. O rei que sempre maneja com propriedade a vara de castigo ganha grande mérito. O regulamento apropriado da punição é o grande dever dos reis e merece grandes louvores. O rei deve ser conhecedor dos Vedas e seus ramos, possuidor de sabedoria, engajado em penitências, caridoso, e dedicado à realização de sacrifícios. Todas estas qualidades devem residir permanentemente em um rei. Se o rei fracassa em administrar justiça, ele não pode ter nem céu nem fama. Se um rei é afligido por um mais forte, o primeiro, se possuidor de inteligência, deve procurar refúgio em uma fortaleza. Reunindo seus amigos para consulta, ele deve planejar medidas adequadas. Adotando a política de conciliação e de produzir desavenças, ele deve idear meios para empreender guerra com o atacante. Ele deve colocar os habitantes das florestas nas rodovias, e, se necessário, fazer aldeias inteiras serem removidas, transferindo todos os habitantes para cidades menores ou para os arredores de grandes cidades. Repetidamente encorajando seus súditos ricos e os principais oficiais do exército, ele deve fazer os habitantes do país desprotegido se refugiarem em fortes bem protegidos. Ele deve ele mesmo retirar todos os estoques de cereais (do país desprotegido para seus fortes). Se isso se torna impossível, ele deve destruí-los completamente pelo fogo. Ele deve colocar homens para destruírem as colheitas nos campos do inimigo (por produzir desavenças entre os súditos do inimigo). Fracassando em fazer isso, ele deve destruir aquelas colheitas por meio de suas próprias tropas. Ele deve destruir todas as pontes sobre os rios em seu reino. Ele deve retirar as águas de todos os tanques em seus domínios, ou, se incapaz de baldeá-las, fazê-las serem envenenadas. Desconsiderando o dever de proteger seus amigos, ele deve, em vista das circunstâncias presentes e futuras, procurar a proteção do soberano de outro reino que possa acontecer de ser o inimigo de seu inimigo e que possa ser competente para lidar com seu inimigo no campo de batalha. Ele deve destruir todos os fortes menores em seu reino. Ele deve também derrubar todas as árvores menores exceto aquelas que são chamadas Chaitya. (Árvores Chaitya são aquelas que são consideradas sagradas e para as quais é oferecido culto pelo povo.) Ele deve fazer os ramos de todas as árvores maiores serem cortados, mas ele não deve tocar nas próprias folhas daquelas chamadas Chaitya. Ele deve erguer defesas externas ao redor de seus fortes, com cercados nelas, e encher suas trincheiras com água, colocando estacas pontudas em seu fundo e enchendo-as com crocodilos e tubarões. Ele deve manter pequenas aberturas em seus muros para fazer ataques repentinos a partir de seu forte, e cuidadosamente fazer arranjos para a defesa deles como aquela dos portões maiores. Em todos os seus portões ele deve plantar mecanismos destrutivos. Ele deve plantar nas defesas (de seus fortes) Sataghnis e outras armas. Ele deve estocar madeira para combustível e cavar e consertar poços para fornecer água para a guarnição. Ele deve fazer todas as casas feitas de grama e palha serem cobertas com lama, e se for o mês de verão ele deve, por receio de fogo, retirar (para um local seguro) todos os suprimentos de grama e palha. Ele deve ordenar que todo o alimento seja cozido à noite. Nenhum fogo deve ser aceso durante o dia, exceto para o homa diário. Cuidado específico deve ser tomado com os fogos em forjas e quartos de resguardo. Fogos mantidos dentro das casas dos habitantes devem estar bem cobertos. Para a proteção eficaz da cidade, deve ser proclamado que um castigo merecido será dado à pessoa que acender fogos durante o dia. Durante tais épocas, todos os mendigos, eunucos, lunáticos, e mímicos, devem, ó principal dos homens, ser expulsos da cidade, pois se lhes for permitido permanecer, o mal se seguirá. Em lugares de reunião pública, em tirthas, em assembléias, e nas casas dos cidadãos, o rei deve colocar espiões competentes. (Os tirthas são dezoito em número, tais como a sala de conselho etc.) O rei deve fazer estradas amplas serem construídas e ordenar que lojas, e lugares para a distribuição de água, sejam abertos em localizações apropriadas. Depósitos (de diversos artigos necessários), arsenais, campos e quartéis para soldados, lugares para manter cavalos e elefantes, acampamentos de soldados, trincheiras, ruas e trilhas, casas e jardins para retiro e divertimento, devem ser ordenados de maneira que suas posições não possam ser conhecidas por outros, ó Yudhishthira. Um rei que é afligido por um exército hostil deve reunir riqueza, e estocar óleo e gordura e mel, e manteiga clarificada, e remédios de todas as espécies, e carvão e grama munja, folhas, setas, escribas e desenhistas, ervas, combustível, flechas envenenadas, armas de todos os tipos tais como dardos, espadas, lanças, e outros. O rei deve armazenar tais artigos. Ele deve especialmente manter remédios prontos de todas as espécies, raízes e frutas, os quatro tipos de médicos, atores e dançarinos, atletas, e pessoas capazes de assumir diversos disfarces. Ele deve enfeitar sua capital e alegrar todos os seus súditos. O rei não deve perder tempo em trazer sob seu controle as pessoas que possam inspirá-lo com receio, sejam elas seus empregados ou conselheiros ou cidadãos ou monarcas vizinhos. Depois de alguma tarefa do rei ter sido realizada, ele deve recompensar aqueles que ajudaram em sua realização com riquezas e outros presentes adequados e palavras agradecidas. É declarado nas escrituras, ó encantador dos Kurus, que um rei paga sua dívida (isto é, cumpre suas obrigações com os súditos), quando ele derrota seu inimigo ou o mata completamente. Um rei deve cuidar de sete coisas. Ouça-me enquanto eu as recito. Elas são sua própria pessoa, seus conselheiros, sua tesouraria, sua maquinaria para conceder castigos, seus amigos, suas províncias, e sua capital. Ele deve proteger com cuidado seu reino que consiste nestes sete membros. O rei, ó tigre entre homens, que está familiarizado com o agregado de seis, o agregado triplo, e o agregado superior de três, consegue ganhar a soberania da terra inteira. Escute, ó Yudhishthira, ao que tem sido chamado de agregado de seis. Estes são governar em paz depois da conclusão de um tratado (com o inimigo), marchar para a batalha, produzir desunião entre o inimigo, concentrar forças para inspirar medo no inimigo, prontidão para a guerra com disposição para a paz, e aliança com outros. Escute agora com atenção ao que tem sido chamado de agregado triplo. Eles são diminuição, manutenção de que há, e crescimento. O agregado superior de três consiste em Virtude, Lucro e Prazer. Estes devem ser buscados judiciosamente. Pela ajuda da virtude, um rei consegue governar a terra para sempre. Sobre este assunto, o filho de Angirasa, o próprio Vrihaspati, cantou dois versos. Abençoado sejas tu, ó filho de Devaki, cabe a ti ouvi-los. 'Tendo cumprido todos os seus deveres e tendo protegido a terra, e tendo também protegido suas cidades, um rei obtém grande felicidade no céu. O que são penitências para aquele rei que protege seu povo devidamente, e que necessidade ele tem de sacrifícios? Tal rei deve ser considerado como alguém conhecedor de toda a virtude!'” Yudhishthira disse, 'Há a ciência de punição, há o rei, e há os súditos. Diga-me, ó avô, que vantagem é derivada por um destes dos outros.' Bhishma disse, 'Ouça, ó rei, como eu descrevo, ó Bharata, a grande bem- aventurança da ciência de punição, em palavras sagradas de grave importância. A ciência de punição força todos os homens à observância dos deveres de suas respectivas classes. Devidamente administrada, ela força as pessoas a atos virtuosos. Quando as quatro classes se encarregam de suas respectivas funções, quando todas as barreiras salutares são mantidas, quando a paz e a felicidade são feitas fluírem da ciência de punição, quando as pessoas ficam livres de todo o medo, e as três classes superiores se esforçam, de acordo com seus respectivos deveres, para manter a harmonia, saiba que os homens se tornam realmente felizes em tais épocas. Se é o rei que faz a era, ou, se é a era que faz o rei, é uma questão sobre a qual tu não deves nutrir qualquer dúvida. A verdade é que o rei faz a era. Quando o rei governa com uma completa e rigorosa confiança na ciência de castigo, é dito que a principal das eras chamada Krita então inicia. A Justiça se estabelece na era Krita. Nada de injustiça existe então. Os corações dos homens pertencentes a todas as quatro classes não têm nenhum prazer na falta de retidão. Sem dúvida, todos os homens conseguem adquirir os objetos que eles desejam e preservar aqueles que foram adquiridos. Todos os ritos Védicos se tornam produtivos de mérito. Todas as estações se tornam prazerosas e livres do mal. A voz, pronúncia, e mentes de todos os homens se tornam claras e alegres. As doenças desaparecem e todos os homens vivem por muito tempo. Esposas não se tornam viúvas, e nenhuma pessoa se torna avarenta. A terra produz colheitas sem ser cultivada, e ervas e plantas crescem em exuberância. Cascas de árvores, folhas, frutas, e raízes se tornam vigorosas e abundantes. Nenhuma maldade é vista. Nada exceto a justiça existe. Saiba que estas são as características, ó Yudhishthira, da era Krita. Quando o rei confia em somente três das quatro partes da ciência de punição omitindo uma quarta, a era chamada Treta começa. Uma quarta parte de injustiça se segue à tal observância de três quartos (da grande ciência). A terra produz colheitas mas espera por cultivo. As ervas e plantas crescem (dependendo do cultivo). Quando o rei observa apenas a metade da grande ciência, omitindo a outra metade, então a era que começa se chama Dwapara. Uma metade de injustiça se segue à tal observância de metade da grande ciência. A terra requer cultivo e produz colheitas pela metade. Quando o rei, abandonando totalmente a grande ciência, oprime seus súditos por meio de medidas más de diversos tipos, a era que se estabelece é chamada Kali. Durante a era chamada Kali, a injustiça se torna plena e nada de justiça é visto. Os corações dos homens, de todas as classes, se desviam de seus respectivos deveres. Sudras vivem por adotar vidas de mendicância, e Brahmanas vivem por servir outros. Os homens fracassam em adquirir os objetos que desejam e em preservar aqueles já adquiridos. Ocorre uma mistura das quatro classes. Os ritos Védicos falham em produzir resultados. Todas as estações cessam de ser prazerosas e se tornam repletas de males. A voz, pronúncia, e mentes dos homens perdem vigor. Doenças aparecem, e homens morrem prematuramente. Esposas se tornam viúvas, e muitos homens cruéis são vistos. As nuvens não derramam chuvas de acordo com as estações, e as colheitas mínguam. Todas as espécies de umidade também são insuficientes, quando o rei não protege súditos com atenção apropriada à grande ciência. O rei é o criador da era Krita, da Treta, e da Dwapara. O rei é a causa da quarta era (chamada Kali). Se ele causa a era Krita, ele alcança o céu eterno. Se ele causa a era Treta, ele adquire o céu por um período que é limitado. Se ele causa a Dwapara, ele alcança a bem-aventurança no céu de acordo com a medida de seus méritos. Por causar a era Kali, o rei incorre em uma carga pesada de pecado. Maculado pela maldade, ele apodrece no inferno por incontáveis anos, pois afundando nos pecados de seus súditos, ele mesmo incorre em grande pecado e infâmia. Mantendo a grande ciência em sua vista, o Kshatriya possuidor de conhecimento deve se esforçar para adquirir aqueles objetos os quais ele deseja e proteger aqueles que já foram adquiridos. A ciência de castigo, que coloca todos os homens no cumprimento de seus respectivos deveres, que é o fundamento de todas as distinções salutares, e que realmente mantém o mundo e o põe em andamento, se devidamente administrada, protege todos os homens como a mãe e o pai protegendo seus filhos. Saiba, ó touro entre homens, que as próprias vidas das criaturas dependem disto. O mais alto mérito que um rei pode adquirir é ter o entendimento da ciência de castigo e administrá-la apropriadamente. Portanto, ó tu da linhagem de Kuru, proteja teus súditos justamente, com a ajuda daquela grande ciência. Por proteger os súditos e adotar tal conduta, tu certamente obterás tal bem-aventurança no céu que é de aquisição difícil." 70 "Yudhishthira disse, 'Por adotar aquela conduta, ó tu que estás familiarizado com todos os tipos de comportamento, um rei pode conseguir adquirir facilmente, aqui e após a morte, objetos produtivos de felicidade no fim?'” "Bhishma disse, 'Há estas trinta e seis virtudes (que um rei deve observar). Elas estão relacionadas com outras trinta e seis. Uma pessoa virtuosa, por atender estas qualidades, pode certamente adquirir grande mérito. O rei deve cumprir seus deveres sem ira e malícia. Ele não deve abandonar a bondade. Ele deve ter fé. Ele deve adquirir riqueza sem perseguição e crueldade. Ele deve procurar o prazer sem apegos. Ele deve, com alegria, proferir o que é agradável, e ser corajoso sem se gabar. Ele deve ser generoso mas não deve fazer doações para pessoas que são negligentes. Ele deve ter bravura sem crueldade. Ele deve fazer alianças, evitando aqueles que são pecaminosos. Ele não deve agir com hostilidade em direção a amigos. Ele nunca deve empregar pessoas que não são leais a ele como seus espiões e agentes secretos. Ele nunca deve realizar seus objetivos pela opressão. Ele nunca deve revelar seus propósitos perante pessoas que são más. Ele deve falar dos méritos de outros mas nunca dos seus próprios. Ele deve tirar riqueza de seus súditos, mas nunca daqueles que são bons. Ele nunca deve empregar ou receber a ajuda de pessoas que são perversas. Ele nunca deve infligir castigo sem uma investigação cuidadosa. Ele nunca deve revelar seus planos. Ele deve doar, mas não para pessoas que são cobiçosas. Ele deve depositar confiança em outros mas nunca naqueles que o ofenderam. Ele não deve nutrir malícia. Ele deve proteger suas esposas. Ele deve ser puro e não deve ser sempre comovido por compaixão. Ele não deve se viciar muito em companhia feminina. Ele deve ingerir alimento saudável e nunca aquele que não o é. Ele deve sem orgulho prestar honras àqueles que as merecem, e servir seus preceptores e mais velhos com sinceridade. Ele deve adorar os deuses sem orgulho. Ele deve procurar prosperidade, mas nunca fazer qualquer coisa que traga infâmia. Ele deve servir (seus superiores) com humildade. Ele deve ser inteligente nos negócios mas deve sempre esperar pela hora apropriada. Ele deve confortar homens e nunca os mandar embora com palavras vazias. Tendo favorecido uma pessoa, ele não deve abandoná-la. Ele nunca deve atacar em ignorância. Tendo matado seu inimigo ele nunca deve ceder à tristeza. Ele deve mostrar moderação, mas nunca deve fazer isto quando não há ocasião. Ele deve ser brando, mas nunca para aqueles que ofenderam. Te comporte dessa maneira enquanto governares teu reino se tu desejas ter prosperidade. O rei que se comporta de outra maneira incorre em grande perigo. Aquele rei que observa todas essas virtudes que eu mencionei colhe muitas bênçãos na terra e recompensas grandiosas no céu.'” "Vaisampayana continuou, 'Ouvindo estas palavras do filho de Santanu, o rei Yudhishthira, dócil em receber instruções, possuidor de grande inteligência, e protegido por Bhima e outros, então adorou seu avô e daquele tempo em diante começou a reinar de acordo com aquele ensinamento.'" 71 Yudhishthira disse, 'Diga-me, ó avô, de que maneira o rei deve proteger seus súditos de modo a poder evitar a aflição e a não pecar contra a justiça?'” "Bhishma disse, 'Eu recitarei, ó rei, aqueles deveres eternos em resumo, pois se eu fosse mencioná-los em detalhes, eu nunca alcançaria seu fim. Tu deves adorar aqueles Brahmanas que são dedicados a seus deveres, possuidores de conhecimento, constantes em cultuar os deuses, cumpridores de votos superiores, e dotados de outros talentos, quando eles chegam à tua residência, e empregá-los em oficiar em teus sacrifícios. Com teu sacerdote te acompanhando, te deves te levantar quando eles se aproximarem, e tocar e venerar seus pés, e fazer todos os outros atos que sejam necessários. Fazendo estas ações de piedade e cumprindo outras ações que são para o teu próprio bem, tu deves (por meio de presentes) fazer aqueles Brahmanas proferirem bênçãos sobre ti para o sucesso de teus propósitos. Dotado de sinceridade, e sabedoria e inteligência, ó Bharata, tu deves adotar a verdade e evitar luxúria e ira. Aquele rei tolo que busca Lucro sem se afastar da luxúria e da ira, fracassa em adquirir virtude e no final sacrifica o Lucro também. Nunca empregue aqueles que são cobiçosos e tolos em questões ligadas com Prazer e Lucro. Tu deves sempre empregar em todas as tuas ações aqueles que são livres de cobiça e possuidores de inteligência. Maculados com luxúria e ira e não hábeis nas transações de negócios, pessoas tolas, se investidas com autoridade em questões de Lucro, sempre oprimem o povo por meio de diversas ideias produtivas de prejuízos. Com uma sexta parte sobre justo cálculo, da produção da terra como seu tributo, com multas e confiscos arrecadados de transgressores, com os impostos, em conformidade com as escrituras, sobre comerciantes e negociantes em troca da proteção concedida a eles, um rei deve encher sua tesouraria. Efetuando este justo tributo e governando o reino apropriadamente o rei deve, com atenção, agir de tal maneira que seus súditos não possam sentir a opressão da pobreza. Os homens se tornam profundamente devotados àquele rei que cumpre o dever de proteção devidamente, que é dotado de generosidade, que é firme no cumprimento da justiça, que é vigilante, e que é livre de luxúria e ódio. Nunca deseje encher tua tesouraria por agir injustamente ou por avareza. O rei que não age de acordo com as escrituras fracassa em ganhar riqueza e mérito religioso. O rei que é consciente somente dos meios de adquirir riqueza nunca consegue obter mérito religioso e riqueza. A riqueza também que ele adquire (por tais meios) é vista ser desperdiçada em objetos indignos. (Se o rei presta atenção somente à aquisição de riqueza, ele pode conseguir obtê-la, mas ele não conseguirá ganhar mérito religioso.) É dito que aquele rei avarento que por insensatez oprime seus súditos por arrecadar impostos não sancionados pelas escrituras prejudica a si mesmo. Como uma pessoa desejosa de leite nunca obtém algum por cortar os úberes de uma vaca, similarmente um reino afligido por meios impróprios nunca produz algum lucro para o rei. (Literalmente, ‘nunca floresce.’) Aquele que trata uma vaca leiteira com ternura sempre obtém leite dela. Do mesmo modo, o rei que governa seu reino pela ajuda de meios apropriados colhe muitos frutos dele. Por proteger um reino devidamente e governando-o pela ajuda de meios judiciosos, um rei, ó Yudhishthira, pode conseguir sempre obter muita riqueza. A terra, bem protegida pelo rei, produz colheitas e ouro (para o governante e os governados) assim como uma mãe satisfeita produzindo leite para seu filho. Imite o exemplo, ó rei, do floricultor e não do fazedor de carvão. Se tornando assim e cumprindo o dever de proteção, tu poderás desfrutar da terra para sempre. (O produtor de carvão arranca plantas e árvores, e as queima para produzir seu estoque comercial. O floricultor, por outro lado, rega árvores e plantas, e colhe somente a produção delas). Se ao atacar o reino de um inimigo tua tesouraria se esgotar, tu podes reenchê-la por tirar riqueza de todos exceto Brahmanas. Que teu coração não seja movido, mesmo quando tu estiveres em grande infortúnio, ao ver Brahmanas possuidores de riqueza. Eu nem preciso falar então do que tu deves fazer quando estiveres em afluência. Tu deves dar a eles riqueza da melhor maneira que puderes e como eles merecem e protegê-los, confortando-os em todas as ocasiões. Por te comportares deste modo, tu poderás adquirir tais regiões após a morte que são da mais difícil aquisição. Adotando tal comportamento virtuoso, proteja teus súditos. Tu poderás então obter, ó encantador dos Kurus, fama que é eterna, superior, e pura. Proteja teus súditos justamente, ó filho de Pandu, pois nenhum arrependimento ou dor então serão teus. A proteção dos súditos é o maior dever de um rei, já que compaixão por todas as criaturas e protegê-las da injustiça são citados como o mérito mais elevado. Pessoas conhecedoras dos deveres consideram que o maior mérito do rei é quando, dedicado a proteger todas as criaturas, o rei mostra compaixão por elas. O pecado no qual um rei incorre por negligenciar por um único dia a proteção de seus súditos por medo é tal que ele não alcança o fim de seus sofrimentos (por isto) no inferno até depois de mil anos. O mérito que um rei ganha por proteger seus súditos virtuosamente por um único dia é tal que ele desfruta de sua recompensa no céu por dez mil anos. Todas aquelas regiões que são alcançadas pelas pessoas que seguem devidamente os modos de vida Garhasthya, Brahmacharya, e Vanaprastha, são logo alcançadas por um rei somente por proteger seus súditos corretamente. Ó filho de Kunti, cumpra com muito cuidado este dever (de proteção). Tu então obterás a recompensa da justiça e nenhuma dor ou angústia será tua. Ó filho de Pandu, tu obterás grande prosperidade no céu. Mérito como este é impossível de ser obtido por pessoas que não são reis. Uma pessoa, portanto, que é um rei, e nenhuma outra, pode conseguir ganhar tal recompensa de virtude. Possuidor de inteligência, tu obtiveste um reino. Proteja teus súditos honradamente. Gratifique Indra com oferendas de Soma e os amigos e benquerentes com os objetos de seus desejos.'" "Bhishma disse, 'Aquela pessoa, ó rei, que protegeria os bons e puniria os maus, deve ser nomeada como seu sacerdote pelo rei. Em relação a isto é citada a história antiga sobre a conversa entre Pururavas, o filho de Aila, e Matariswan.'” "Pururavas disse, 'De onde o Brahmana surgiu e de onde surgiram as três outras classes? Por que razão também o Brahmana se tornou o principal? Cabe a ti me dizer tudo isto.'” "Matariswan respondeu, 'O Brahmana, ó melhor dos reis, surgiu da boca de Brahman. O Kshatriya surgiu de seus dois braços, e o Vaisya de suas duas coxas. Para servir estas três classes, ó soberano de homens, uma quarta classe, isto é, a Sudra, surgiu, sendo criada dos pés (de Brahman). Originalmente criado dessa maneira, o Brahmana tomou nascimento sobre a terra como o senhor de todas as criaturas, seu dever sendo a manutenção dos Vedas e das outras escrituras. Então, para governar a terra e manejar a vara de castigo e proteger todas as criaturas, a segunda classe, isto é, a Kshatriya, foi criada. O Vaisya foi criado para sustentar as duas outras classes e a si mesmo por meio de cultivo e comércio, e finalmente, foi ordenado por Brahman que o Sudra deveria servir as três classes como um criado.'” "Pururavas disse, 'Diga-me realmente, ó deus dos Ventos, a quem esta terra pertence corretamente. Ela pertence ao Brahmana ou ao Kshatriya?'” "O deus dos Ventos disse, 'Tudo o que existe no universo pertence ao Brahmana por seu nascimento e precedência. Pessoas familiarizadas com moralidade dizem isto. O que o Brahmana come é dele. O local que ele habita é dele. O que ele doa é dele. Ele merece a veneração de todas as (outras) classes. Ele é o primogênito e o principal. Como uma mulher, na ausência de seu marido, aceita seu irmão mais novo em lugar dele, assim mesmo a terra, por causa da recusa do Brahmana, aceitou o que nasceu em seguida, isto é, o Kshatriya, como seu senhor. Esta é a primeira regra. Em épocas, no entanto, de infortúnio, há uma exceção nisto. Se tu procuras cumprir os deveres da classe e desejas obter o lugar mais alto no céu, então dê para o Brahmana toda a terra que tu possas conseguir conquistar, para ele que é possuidor de erudição e conduta virtuosa, que é conhecedor dos deveres e praticante de penitências, que está satisfeito com os deveres de sua classe e não é cobiçoso de riqueza. O Brahmana bem nascido, possuidor de sabedoria e humildade, guia o rei em todas as questões por sua própria grande inteligência. Por meio de conselhos sensatos ele faz o rei ganhar prosperidade. O Brahmana indica para o rei os deveres que o último deve cumprir. Enquanto um rei sábio, cumpridor dos deveres de sua classe, e desprovido de orgulho, estiver desejoso de escutar às instruções do Brahmana, ele será honrado e desfrutará de fama. O sacerdote do rei, portanto, tem uma parte no mérito que o rei adquire. Quando o rei se comporta dessa forma, todos os seus súditos, confiando nele, se tornam virtuosos em seu comportamento, atentos aos seus deveres, e livres de todo o medo. O rei obtém uma quarta parte daquelas ações virtuosas que seus súditos, devidamente protegidos por ele, realizam em seu reino. Os deuses, homens, Pitris, Gandharvas, Uragas, e Rakshasas, todos dependem de sacrifícios para seu sustento. Em um país desprovido de um rei não pode haver sacrifício. Os deuses e os Pitris subsistem das oferendas feitas em sacrifícios. Sacrifício, no entanto, depende do rei. Na estação do verão, homens desejam conforto da sombra de árvores, água fresca, e brisas frias. Na estação do inverno eles derivam conforto do fogo, roupas quentes, e do sol. O coração de um homem pode achar prazer no som, toque, gosto, visão, e aroma. O homem, no entanto, que está com medo, não encontra prazer em todas essas coisas. A pessoa que dissipa os temores de homens obtém grande mérito. Não há presente tão valioso nos três mundos quanto o presente da vida. O rei é Indra. O rei é Yama. O rei é Dharma. O rei assume formas diferentes. O rei sustenta e suporta tudo.'" 73 "Bhishma disse, 'O rei, com um olho em mérito religioso e lucro cujas considerações são muitas vezes muito complexas, deve, sem demora, nomear um sacerdote possuidor de erudição e conhecimento profundo dos Vedas e de (outras) escrituras. Aqueles reis que têm sacerdotes possuidores de almas virtuosas e familiarizados com política, e que são eles mesmo possuidores de tais atributos, desfrutam de prosperidade em todas as direções. Ambos, o sacerdote e o rei, devem ter qualidades que sejam dignas de respeito e devem ser cumpridores de votos e penitências. Eles então conseguirão sustentar e engrandecer os súditos e as divindades, os Pitris e os filhos. (Filhos é um eufemismo para súditos). É declarado que eles devem possuir corações parecidos e devem ser amigos um do outro. Por tal amizade entre Brahmana e Kshatriya, os súditos ficam felizes. Se eles não respeitassem um ao outro, a destruição alcançaria o povo. O Brahmana e o Kshatriya são citados como os progenitores de todos os homens. Em relação a isto é citada a antiga história da conversa entre o filho de Aila e Kasyapa. Escute-a, ó Yudhishthira.'” "Aila disse, 'Quando o Brahmana abandona o Kshatriya ou o Kshatriya abandona o Brahmana, quem entre eles deve ser considerado superior e em quem as outras classes confiam e se mantêm?'” "Kasyapa disse, 'A ruína toma conta do reino do Kshatriya quando os Brahmanas e Kshatriyas competem entre si. Ladrões infestam o reino no qual confusão prevalece, e todos os homens bons consideram o soberano como um Mlechcha. Seus bois não prosperam, nem seus filhos. Seus potes (de leite) não são batidos, e sacrifícios não são realizados lá. As crianças não estudam os Vedas em reinos onde Brahmanas abandonam Kshatriyas. Em suas casas a riqueza não aumenta. Seus filhos não se tornam bons e não estudam as escrituras nem realizam sacrifícios. Os kshatriyas que abandonam Brahmanas se tornam impuros em sangue e assumem a natureza de ladrões. Os Brahmanas e os Kshatriyas estão ligados uns aos outros naturalmente, e um protege o outro. O Kshatriya é a causa do crescimento do Brahmana e o Brahmana é a causa do crescimento do Kshatriya. Quando cada um ajuda o outro, ambos obtêm grande prosperidade. Se sua amizade, existindo desde os tempos antigos, se rompe, uma confusão se estabelece sobre tudo. Nenhuma pessoa desejosa de cruzar o oceano da vida tem sucesso em sua tarefa assim como um pequeno barco flutuando na superfície do oceano. As quatro classes de homens ficam confusas e a destruição toma conta de tudo. Se o Brahmana, que é como uma árvore, é protegido, ouro e mel são abundantes. Se, por outro lado, ele não é protegido, então lágrimas e pecados são abundantes. Quando Brahmanas se desviam dos Vedas e (na ausência de um soberano Kshatriya) procuram proteção das escrituras, então Indra não despeja chuva nas épocas apropriadas e diversos tipos de calamidades afligem o reino incessantemente. Quando um canalha pecaminoso tendo matado uma mulher ou um Brahmana não incorre em opróbrio em assembléias de homens e não tem medo do rei, então o perigo ameaça o soberano Kshatriya. Por causa dos pecados cometidos por homens pecaminosos, o deus Rudra aparece no reino. De fato, os pecaminosos por seus pecados trazem sobre eles aquele deus de vingança. Ele então destrói todos, tanto os honestos quanto os maus (sem fazer qualquer distinção).'” "Aila disse, 'De onde Rudra surgiu? Qual também é sua forma? Criaturas são vistas serem destruídas por criaturas. Diga-me tudo isto, ó Kasyapa! De onde o deus Rudra surge?'” "Kasyapa disse, 'Rudra existe nos corações dos homens. Ele destrói os próprios corpos nos quais ele habita como também os corpos de outros. Rudra é citado como as visitações atmosféricas e sua forma é como aquela dos deuses do vento.'” "Aila disse, 'O Vento, por soprar, não destrói visivelmente homens em todas as ocasiões, nem a divindade das nuvens faz isto por despejar chuva. Por outro lado, é visto entre homens que eles perdem a razão e são mortos por luxúria e malícia.'” "Kasyapa disse, 'O fogo, queimando em uma casa, queima todo um quarteirão ou uma aldeia inteira. Similarmente, essa divindade estupefaz os sentidos de alguns e então aquela estupefação atinge a todos, os honestos e os pecaminosos do mesmo modo, sem qualquer distinção.'” "Aila disse, 'Se o castigo toca a todos, isto é, os honestos e os maus da mesma maneira, em consequência dos pecados cometidos pelos pecaminosos, por que deveriam os homens, nesse caso, fazer boas ações? De fato, por que eles não deveriam realizar atos pecaminosos?'” "Kasyapa disse, 'Por evitar qualquer ligação com os pecaminosos, uma pessoa se torna pura e imaculada. No entanto, por se misturar como os pecaminosos, os impecáveis são alcançados pelo castigo. Madeira molhada, se misturada com madeira seca, é consumida pelo fogo por causa de tal co-existência. O impecável, portanto, nunca deve se misturar com o pecaminoso.'” "Aila disse, 'A terra mantém os honestos e os maus. O sol aquece os honestos e os maus. O vento sopra igualmente para eles. A água os limpa igualmente.'” "Kasyapa disse, 'Tal, de fato, é o andamento deste mundo, ó príncipe! Não é assim, no entanto, após a morte. No outro mundo, há grande diferença de condição entre a pessoa que age corretamente e aquela que age pecaminosamente. As regiões que homens meritórios alcançam são cheias de mel e possuidoras do esplendor do ouro ou de um fogo sobre o qual tem sido despejada manteiga clarificada. Aquelas regiões também são comparadas ao centro da ambrosia. A pessoa meritória desfruta de grande felicidade lá. Lá não há morte, velhice, nem tristeza. A região para os pecaminosos é o inferno. Escuridão e dor contínua existem lá, e ela é cheia de tristeza. Afundando em infâmia, o homem de atos pecaminosos se atormenta com remorso lá por muitos anos. Pela desunião entre Brahmanas e Kshatriyas, aflições insuportáveis afligem as pessoas. Sabendo disto, um rei deve nomear um sacerdote (Brahmana) possuidor de experiência e amplo conhecimento. Um rei deve primeiro instalar o sacerdote em seu ofício, e então fazer sua própria coroação. Isto é declarado nas ordenanças. As ordenanças declaram que o Brahmana é a mais importante de todas as criaturas. Homens familiarizados com os Vedas dizem que o Brahmana foi criado primeiro. Pela precedência de seu nascimento, todas as coisas que são boas neste mundo estão investidas nele. O dono legítimo de todas as melhores coisas que fluíram do Criador, o Brahmana é também, por tal precedência, digno do respeito e do culto de todas as criaturas. Um rei, embora poderoso, deve, segundo os ditames das escrituras, conceder ao Brahmana tudo o que é bom e notável acima das outras coisas. O Brahmana contribui para o engrandecimento do Kshatriya, e o Kshatriya para o engrandecimento do Brahmana. Brahmanas devem, portanto, ser especialmente e sempre adorados pelos reis.'" 74 "Bhishma disse, 'É dito que a conservação e o crescimento do reino dependem do rei. A conservação e o crescimento do rei dependem do sacerdote do rei. O reino desfruta de felicidade verdadeira quando os medos invisíveis dos súditos são dissipados pelo Brahmana e todos os medos visíveis são dissipados pelo rei com o poder de suas armas. Em relação a isto é citada a narrativa antiga da conversa entre o rei Muchukunda e Vaisravana. O rei Muchukunda, tendo subjugado a terra inteira, foi ao senhor de Alaka para testar sua força. O rei Vaisravana criou (por meio de poder ascético) uma grande tropa de Rakshasas. Estes oprimiram as tropas lideradas por Muchukunda. Vendo o massacre de seu exército, o rei Muchukunda, ó castigador de inimigos, começou a repreender seu próprio sacerdote erudito (Vasishtha). Então aquela principal das pessoas justas, isto é, Vasishtha, passou por penitências muito rígidas e, fazendo aqueles Rakshasas serem mortos, averiguou a verdadeira conduta à qual Muchukunda estava inclinado. Quando as tropas do rei Vaisravana estavam sendo massacradas, ele se mostrou para Muchukunda e disse estas palavras.'” "O Senhor dos tesouros disse, 'Muitos reis de antigamente, mais poderosos do que tu, ajudados por seus sacerdotes, nunca se aproximaram de mim dessa maneira. Todos eles eram hábeis com armas e todos eles eram possuidores de poder. Considerando-me como o concessor de bem-estar e miséria, eles se aproximaram de mim para oferecer culto. Na verdade, se tu tem poder de armas, cabe a ti mostrar isto. Por que tu ages tão orgulhosamente, ajudado pelo poder Brahmana?' Enfurecido por estas palavras, Muchukunda, sem orgulho e sem medo, disse para o senhor dos tesouros estas palavras repletas de razão e justiça, 'Brahman nascido por si mesmo criou o Brahmana e o Kshatriya. Eles têm uma origem comum. Se eles aplicarem suas forças separadamente, eles nunca serão capazes de sustentar o mundo. O poder de penitência e mantras foi concedido aos Brahmanas; a força de braços e de armas foi concedida aos Kshatriyas. Engrandecidos por ambos os tipos de poder, reis devem proteger seus súditos. Eu estou agindo dessa maneira. Por que tu, ó senhor de Alaka, me repreendes então?' Assim endereçado, Vaisravana disse a Muchukunda e a seu sacerdote, 'Eu nunca, sem ser ordenado pelo (auto-criado) concedo a soberania a alguém. Nem, sem ser ordenado, a tiro de alguém. Saiba disto, ó rei! Governe então a terra inteira sem fronteiras.' Assim endereçado, o rei Muchukunda respondeu, dizendo, 'Eu, ó rei, não desejo desfrutar da soberania obtida como presente de ti! Eu desejo desfrutar da soberania obtida pela força de meus próprios braços!'” "Bhishma continuou, 'A estas palavras de Muchukunda, Vaisravana, vendo o rei destemido no cumprimento dos deveres Kshatriya, ficou surpreso. O rei Muchukunda, dedicado aos deveres Kshatriya, continuou a governar a terra inteira obtida pelo poder de seus próprios braços. O rei virtuoso que governa seu reino, ajudado por e concedendo precedência ao Brahmana, consegue subjugar a terra inteira e obter fama grandiosa. O Brahmana deve todos os dias realizar seus ritos religiosos e o Kshatriya deve estar sempre armado com armas. Entre todos eles são os donos legítimos de tudo no mundo.'" 75 "Yudhishthira disse, 'Diga-me, ó avô, por qual conduta um rei consegue engrandecer seus súditos e alcançar regiões de felicidade no outro mundo.'” "Bhishma disse, 'O rei deve ser generoso e deve realizar sacrifícios, ó Bharata! Ele deve ser cumpridor de votos e penitências, e deve ser dedicado ao dever de proteger seus súditos. Protegendo justamente todos os seus súditos, ele deve honrar todas as pessoas virtuosas por se levantar quando elas se aproximam e por fazer presentes a elas. Se o rei a respeita, a virtude se torna respeitada em todos os lugares. Quaisquer atos e coisas que são apreciados pelo rei são apreciados por seus súditos. Para seus inimigos o rei deve ser sempre como a Morte, com a vara de castigo sempre erguida em suas mãos. Ele deve exterminar ladrões em todos os lugares em seu reino e nunca perdoar qualquer um por capricho. O rei, ó Bharata, ganha uma quarta parte do mérito que seus súditos ganham sob sua proteção. Somente por proteger seus súditos o rei adquire uma quarta parte do mérito que eles adquirem por meio de estudo, por donativos, por despejar libações, e por cultuar os deuses. O rei adquire uma quarta parte também do pecado que seus súditos cometem por causa de qualquer necessidade no reino resultante da negligência do rei em cumprir o dever de proteção. Alguns dizem que o rei ganha uma metade, e alguns dizem que ele ganha a medida inteira, de qualquer pecado que seja causado por ele se tornar cruel e falso em palavras. Escute agora aos meios pelos quais o rei pode ser purificado de tais pecados. Se o rei falha em restituir para um súdito a riqueza que foi roubada por ladrões, ele deve então indenizar o prejudicado a partir de sua própria tesouraria, ou, em caso de incapacidade, com riqueza obtida de seus dependentes. Todas as classes devem proteger a riqueza de um Brahmana assim como elas protegeriam o filho ou a vida de um Brahmana. A pessoa que peca contra Brahmanas deve ser exilada do reino. Tudo é protegido por proteger a riqueza do Brahmana. Pela graça do Brahmana, a qual pode ser assegurada dessa maneira, o rei se torna coroado com sucesso. Homens procuram a proteção de um rei competente assim como criaturas procurando alívio das nuvens ou aves procurando refúgio em uma árvore grande. Um rei cruel e cobiçoso, com alma lasciva e sempre procurando a satisfação de seu desejo nunca consegue proteger seus súditos.'” "Yudhishthira, disse, 'Eu não desejo, nem por um momento, a felicidade que a soberania concede ou a própria soberania por si mesma. Eu a desejo, no entanto, pelo mérito que se pode adquirir dela. Me parece que nenhum mérito é ligado a ela. Não há necessidade então da soberania pela qual nenhum mérito pode ser adquirido. Eu irei, portanto, me retirar para as florestas pelo desejo de ganhar mérito. Colocando de lado a vara de castigo, e subjugando meus sentidos, eu irei para as florestas que são sagradas e procurarei adquirir o mérito da virtude por me tornar um asceta subsistindo de frutas e raízes.'” "Bhishma disse, 'Eu sei, ó Yudhishthira, qual é a natureza do teu coração, e quão inofensiva é tua disposição. Tu não irás, no entanto, somente pela inofensividade, ter sucesso em governar teu reino. Teu coração é inclinado para a suavidade, tu és compassivo, e tu és extremamente justo. Tu és sem firmeza, e tu és virtuoso e cheio de piedade. O povo, portanto, não te respeita muito. Siga a conduta de teu pai e avô. Reis nunca devem adotar aquela conduta que tu desejas adotar. Nunca seja tocado por tal ansiedade (depois de fazer teu dever), e nunca adote tal inofensividade de conduta. Por te tornares assim, tu não conseguirás ganhar aquele mérito de justiça que provém de proteger os súditos. O comportamento que tu desejas adotar, impelido por tua própria inteligência e sabedoria, não é compatível com aquelas bênçãos as quais teu pai Pandu e tua mãe Kunti costumavam pedir para ti. Teu pai sempre pediu para ti coragem, poder, e veracidade. Kunti sempre pediu para ti magnanimidade e generosidade. As oferendas com Swaha e Swadha em Sraddhas e sacrifícios são sempre pedidos de filhos pelos Pitris e as divindades. Se caridade e estudo e sacrifícios e a proteção de súditos são meritórios ou pecaminosos, tu nasceste para praticá-los e realizá-los. A fama, ó filho de Kunti, nunca é deslustrada de homens que até fracassam em aguentar as cargas que são colocadas sobre eles e às quais eles estão unidos em vida. Até um cavalo, se devidamente treinado, consegue suportar, sem cair, uma carga. (O que dizer então de ti que és um ser humano?) Uma pessoa não incorre em crítica somente se seus atos e palavras forem apropriados, pois o sucesso é citado como dependente de ações (e palavras). Nenhuma pessoa, seja ele um homem seguindo virtuosamente o modo de vida familiar, ou seja ele um rei, ou seja ele um Brahmacharin, alguma vez conseguiu se conduzir sem dar passos curtos. É melhor fazer uma ação que é boa e na qual há um pequeno mérito do que se abster totalmente de todas as ações, pois a total abstenção de ações é muito pecaminosa. Quando uma pessoa justa e de nascimento nobre consegue obter riqueza, o rei então consegue obter prosperidade em todos os seus assuntos. Um rei virtuoso, tendo obtido um reino, deve procurar subjugar alguns por meio de presentes, alguns pela força, e alguns por palavras gentis. Não há ninguém mais virtuoso do que ele em quem pessoas eruditas e nobres de nascimento confiam por medo de perder seus meios de sustento e dependendo de quem eles vivem em contentamento.’” “Yudhishthira disse, ‘Quais atos, ó senhor, conduzem ao céu? Qual é a natureza da grande felicidade que é derivada deles? Qual também é a prosperidade superior que pode ser obtida disto? Diga-me tudo isso, se tu sabes.’” "Bhishma disse, 'O homem de quem uma pessoa afligida com medo obtém alívio mesmo que por um momento, é o mais digno do céu entre nós. Isto que eu te digo é realmente verdadeiro. Seja alegremente o rei dos Kurus, ó principal da linhagem de Kuru, alcance o céu, proteja os bons e mate os maus. Que teus amigos, junto com homens honestos, derivem seu sustento de ti, como todas as criaturas da divindade das nuvens e como aves de uma árvore grande com frutos deliciosos. Homens procuram a proteção daquele que é digno, corajoso, capaz de castigar, compassivo, com sentidos sob controle, afetuoso em direção a todos, equitativo, e justo.'" 76 "Yudhishthira disse, 'Ó avô, entre os Brahmanas alguns estão engajados nos deveres apropriados para sua classe, enquanto outros estão dedicados a outros deveres. Diga-me a diferença entre estas duas classes!'” "Bhishma disse, 'Aqueles Brahmanas, ó rei, que possuem conhecimento e caráter beneficente, e olham para todas as criaturas imparcialmente, são citados como sendo iguais a Brahma. Aqueles que são familiarizados com os Riks, os Yajuses e os Samans, e que estão dedicados às práticas de sua classe, são, ó rei, iguais aos próprios deuses. Aqueles, no entanto, entre eles que não são bem nascidos nem dedicados aos deveres de sua classe, e são, além disso, apegados a práticas más, são como Sudras. Um rei virtuoso deve cobrar tributo de e recrutar sem pagamento para o serviço público aqueles Brahmanas que não possuem saber Védico e que não têm seus próprios fogos para culto. Aqueles que são empregados em cortes de justiça para convocar pessoas, os que realizam culto para outros por uma taxa, os que realizam os sacrifícios de Vaisyas e Sudras, os que oficiam em sacrifícios em nome de uma aldeia inteira, e os que fazem viagens no oceano, estes cinco são considerados como Chandalas entre Brahmanas. Aqueles entre eles que se tornam Ritwikas (sacerdotes empregados em ocasiões especiais), Purohitas (que sempre agem como sacerdotes), conselheiros, enviados, e mensageiros, se tornam, ó rei, iguais a Kshatriyas. Aqueles entre eles que montam cavalos ou elefantes ou carros ou se tornam soldados de infantaria, se tornam, ó rei, iguais a Vaisyas. Se a tesouraria do rei não está cheia, ele pode cobrar tributos deles. Ao cobrar tributo, o rei, no entanto, deve excluir aqueles Brahmanas que são (por sua conduta) iguais aos deuses ou Brahma. Os Vedas dizem que o rei é o senhor da riqueza que pertence a todas as classes exceto Brahmanas. Ele pode pegar a riqueza daqueles Brahmanas também que se desviaram de seus deveres legítimos. O rei nunca deve ser indiferente em direção àqueles Brahmanas que não são cumpridores de seus deveres. Para fazer seu povo virtuoso, ele deve puni-los e separá-los de seus superiores. O rei, ó monarca, em cujos territórios um Brahmana se torna um ladrão, é considerado pelos eruditos como sendo o autor daquele delito. Pessoas conhecedoras dos Vedas declaram que se um Brahmana versado nos Vedas e praticante de votos se torna, por falta de sustento, um ladrão, é o dever do rei prover seu sustento. Se, depois do fornecimento para seu sustento ter sido feito, ele não se abstiver do roubo ele deve então, ó opressor de inimigos, ser banido do reino com todos os seus parentes.’” 77 "Yudhishthira disse, 'Da riqueza de quem, ó touro da raça Bharata, o rei deve ser considerado senhor? E qual conduta também o rei deve adotar? Discorra para mim sobre isto, ó avô.'” "Bhishma disse, 'Os Vedas declaram que o rei é senhor da riqueza que pertence a todas as pessoas exceto Brahmanas, como também daqueles Brahmanas que não são cumpridores de seus próprios deveres. O rei não deve poupar aqueles Brahmanas que não são cumpridores de suas funções. Os virtuosos dizem que este é o antigo costume dos reis. O rei, ó monarca, em cujo domínio um Brahmana se torna um ladrão, é considerado como o autor daquele delito. É o rei que se torna pecaminoso por causa disso. Por causa de tal circunstância, reis se consideram como merecedores de repreensão. Todos os reis justos, portanto, fornecem aos Brahmanas os meios de sustento. Em relação a isto é citada a antiga narrativa do discurso feito pelo rei dos Kaikeyas para um Rakshasa enquanto o último estava prestes a raptá-lo. De votos rígidos e possuidor de saber Védico, o rei dos Kaikeyas, ó monarca, enquanto vivia nas florestas, foi agarrado violentamente em certa ocasião por um Rakshasa.'” "O rei disse, 'Não há ladrão em meus territórios, nem qualquer pessoa de comportamento pecaminoso, nem alguém que bebe álcool. Não há ninguém em meus domínios que não tenha seu fogo sagrado ou que não realize sacrifícios. Como então tu podes possuir meu coração? Não há Brahmana em meus domínios que não possua erudição ou que não seja praticante de votos ou que não tenha bebido Soma. Não há ninguém que não tenha seu fogo sagrado ou que não realize sacrifícios. Como então tu podes possuir minha alma? Em meus domínios nenhum sacrifício é realizado sem completá-lo por meio de Dakshina. Ninguém em meus domínios que não é cumpridor de votos estuda os Vedas. Como então tu podes possuir minha alma? Os Brahmanas em meu reino ensinam, estudam, sacrificam, oficiam em sacrifícios de outros, dão e recebem doações. Todos eles são praticantes destes seis atos. Os Brahmanas em meu reino são todos dedicados à realização dos deveres de sua classe. Adorados e providos, eles são brandos, e sinceros em palavras. Como então tu podes possuir minha alma? Os Kshatriyas em meu reino são todos dedicados aos deveres de sua classe. Eles nunca mendigam, mas doam, e estão familiarizados com verdade e virtude. Eles nunca ensinam, mas estudam, e realizam sacrifícios mas nunca oficiam nos sacrifícios de outros. Eles protegem os Brahmanas e nunca fogem da batalha. Como então tu podes possuir minha alma? Os Vaisyas em meus domínios são todos cumpridores dos deveres de sua classe. Com simplicidade e sem fraude eles derivam seu sustento da agricultura, criação de gado, e comércio. Eles são todos cuidadosos, observadores de ritos religiosos e votos excelentes, e sinceros em palavras. Eles dão para convidados o que lhes é devido, e são autocontrolados, e puros, e afeiçoados a seus parentes amigos. Como então tu podes possuir meu coração? Os Sudras em meu reino, cumpridores das funções de sua classe, servem humildemente e devidamente as outras três classes sem nutrir qualquer malícia em direção a eles. Como então tu és capaz de possuir meu coração? Eu sustento os incapacitados e os idosos, os fracos, os doentes, e as mulheres (sem protetores), por fornecer a eles todos os artigos que lhes são necessários. Como então tu podes possuir meu coração? Eu nunca sou um exterminador dos costumes especiais de famílias e de países que existem devidamente desde os tempos antigos. Como então tu podes possuir meu coração? Os ascetas em meu reino são protegidos e reverenciados. Eles são sempre honrados e entretidos com alimentos. Como então tu podes possuir meu coração? Eu nunca como sem alimentar outros de meus pratos. Eu nunca vou às esposas de outros homens. Eu nunca me divirto ou passo o tempo sozinho. Como então tu podes possuir meu coração? Ninguém em meu reino que não seja um Brahmacharin mendiga sua comida, e ninguém que leva o modo de vida Bhikshu deseja ser um Brahmacharin. Ninguém que não seja um Ritwij despeja libações (de manteiga clarificada) sobre o fogo sacrifical. Como então tu podes possuir minha alma? Eu nunca desrespeitei os eruditos ou os idosos ou aqueles que são dedicados a penitências. Quando toda a população dorme, eu me mantenho acordado (para vigiar e proteger). Como então tu podes possuir meu coração? Meu sacerdote possui auto-conhecimento. Ele é dado a penitências, e está familiarizado com todos os deveres. Possuidor de grande inteligência, ele tem todo o poder sobre o meu reino. Por meio de doações eu desejo adquirir conhecimento, e pela verdade e proteção aos Brahmanas, eu desejo alcançar regiões de bem- aventurança no céu. Pelo serviço eu me uno a meus preceptores, eu não tenho medo de Rakshasas. Em meu reino não há viúvas, nem Brahmana maus, nenhum Brahmana que se desviou de seus deveres, nenhuma pessoa enganadora, nenhum ladrão, nenhum Brahmana que oficia nos sacrifícios de pessoas para quem ele nunca deve oficiar, e nenhum perpetrador de atos pecaminosos. Eu não tenho medo de Rakshasas. Não há espaço em meu corpo, nem da largura de dois dedos, que não tenha a cicatriz de um ferimento de arma. Eu sempre luto pela justiça. Como tu podes possuir meu coração? As pessoas do meu reino sempre invocam bênçãos sobre mim para que eu possa sempre proteger as vacas e os Brahmanas e realizar sacrifícios. Como então tu podes me possuir?'” "O Rakshasa disse, 'Já que tu és cumpridor dos deveres sob todas as circunstâncias, portanto, ó rei dos Kaikeyas, volte para tua residência. Abençoado sejas, eu te deixo. Aqueles, ó rei dos Kaikeyas, que protegem as vacas e os Brahmanas e todos os seus súditos não têm nada a temer de Rakshasas, e muito menos de pessoas pecaminosas. Os reis que dão a liderança para Brahmanas e cujo poder depende daquele dos Brahmanas, e cujos súditos cumprem os deveres de hospitalidade, sempre conseguem alcançar o céu.'” "Bhishma continuou, 'Tu deves, portanto, proteger os Brahmanas. Protegidos por ti, eles te protegerão em retorno. Suas bênçãos, ó rei, seguramente descem sobre reis de comportamento justo. Por causa da justiça, aqueles Brahmanas que não são cumpridores dos deveres de sua classe devem ser castigados e separados (em uma classe distinta) de seus superiores. Um rei que se comporta dessa maneira para com o povo de sua cidade e das províncias, obtém prosperidade aqui e residência no céu com Indra.'" 78 "Yudhishthira disse, 'É dito que em épocas de infortúnio um Brahmana pode se sustentar pela prática das funções Kshatriya. Ele pode, no entanto, em qualquer tempo, se sustentar pela prática das funções prescritas para os Vaisyas?'” "Bhishma disse, 'Quando um Brahmana perde seus meios de sustento e cai em infortúnio, ele pode certamente se dirigir às práticas de um Vaisya e derivar seu sustento por meio de agricultura e criação de gado, se, é claro, ele for incompetente para as funções Kshatriya.'” "Yudhishthira disse, 'Se um Brahmana, ó touro da raça Bharata, se dirige às funções de um Vaisya, quais artigos ele pode vender sem perder sua perspectiva de céu?'” "Bhishma disse, 'Vinhos, sal, sementes de gergelim, animais que têm crinas, touros, mel, carne, e alimentos cozidos, ó Yudhishthira, sob todas as circunstâncias, um Brahmana deve evitar. Um Brahmana, por vendê-los, cairia no inferno. Um Brahmana, por vender uma cabra, incorre no pecado de vender o deus do fogo; por vender uma ovelha, no pecado de vender o deus da água; por vender um cavalo, no pecado de vender o deus do sol; por vender alimento cozido, no pecado de vender terra; e por vender uma vaca, no pecado de vender sacrifício e o suco Soma. Estes, portanto, não devem ser vendidos (por um Brahmana). Aqueles que são bons não aprovam a compra de alimento não cozido por dar alimento cozido em troca. Alimento não cozido, no entanto, pode ser dado para obter alimento cozido, ó Bharata! 'Nós comeremos esta tua comida cozida. Tu podes cozinhar estas coisas cruas (que nós damos em troca).' Em um acordo deste tipo não há pecado. Escute, ó Yudhishthira, eu te falarei da prática eterna, existindo desde antigamente, de pessoas que se comportam segundo os costumes aprovados. 'Eu te dou isto. Dê-me esta outra coisa em troca.' Permuta por tal acordo é justa. Pegar coisas pela força, no entanto, é pecaminoso. Tal é o método do costume seguido pelos Rishis e outros. Sem dúvida, isto é justo.'” "Yudhishthira disse, 'Quando, ó senhor, todas as classes, abandonando seus respectivos deveres, pegam armas contra o rei, então, é claro, o poder do rei decresce. Por quais meios o rei então deve se tornar o protetor e o refúgio do povo? Resolva esta minha dúvida, ó rei, por me falar em detalhes.'” "Bhishma disse, 'Por donativos, por penitências, por sacrifícios, por quietude, e por autodomínio, todas as classes encabeçadas pelos Brahmanas devem, em tais ocasiões, buscar seu próprio bem. Aqueles entre eles que são dotados de força Védica, devem se erguer de todos os lados e como os deuses fortalecendo Indra contribuir (por meio de ritos Védicos) para aumentar a força do rei. Os Brahmanas são citados como o refúgio do rei quando seu poder sofre decadência. Um rei sábio procura o aumento de seu poder por meio do poder dos Brahmanas. Quando o rei, coroado com vitória, procura a restabelecimento da paz, todas as classes então se dirigem para seus respectivos deveres. Quando ladrões, quebrando todas as restrições, espalham a devastação, todas as classes podem pegar armas. Por fazer isso elas não incorrem em pecado, ó Yudhishthira!'” "Yudhishthira disse, 'Se todos os Kshatriyas se tornarem hostis em direção aos Brahmanas, quem então protegerá os Brahmanas e seus Vedas? Qual então deve ser o dever dos Brahmanas e quem será seu refúgio?'” "Bhishma disse, 'Por penitências, por Brahmacharya, por armas, e por força (física), aplicados com ou sem a ajuda de fraude, os Kshatriyas devem ser subjugados. Se os Kshatriyas se comportam impropriamente, especialmente com os Brahmanas, os próprios Vedas os derrotarão. Os Kshatriyas surgiram dos Brahmanas. O fogo surgiu da água; o Kshatriya do Brahmana; e o ferro da pedra. A energia do fogo, o Kshatriya, e o ferro, são irresistíveis. Mas quando eles entram em contato com as fontes de sua origem suas forças vem a ser neutralizadas. Quando o ferro golpeia a pedra, ou o fogo luta com a água, ou o Kshatriya se torna hostil ao Brahmana, então a força de cada daqueles três é destruída. Assim, ó Yudhishthira, energia e poder, por mais que sejam grandes e irresistíveis, dos Kshatriyas são suprimidos tão logo eles são dirigidos contra os Brahmanas. Quando a energia dos Brahmanas se abranda, quando a energia Kshatriya enfraquece, quando todos os homens se comportam mal em direção aos Brahmanas, aqueles que se envolvem em batalha então, abandonando todo o medo da morte, para proteger os Brahmanas, a moralidade, e a si mesmos, aquelas pessoas, movidas por justa indignação e possuidoras de grande força mental, conseguem ganhar regiões sublimes de bem-aventurança após a morte. Todas as pessoas devem pegar armas por causa dos Brahmanas. As pessoas corajosas que lutam pelos Brahmanas alcançam aquela região feliz no céu que é reservada para pessoas que sempre estudaram os Vedas com atenção, que realizaram as mais rígidas das penitências, e que, depois de jejuarem, abandonaram seus corpos em fogos ardentes. O Brahmana, por pegar armas pelas três classes, não incorre em pecado. As pessoas dizem que não há dever maior do que abandonar a vida sob tais circunstâncias. Eu os reverencio e abençoados sejam eles que sacrificaram suas vidas dessa maneira ao procurarem castigar os inimigos de Brahmanas. Que nós alcancemos aquela região que está planejada para eles. O próprio Manu disse que aqueles heróis vão para a região de Brahman. Como as pessoas ficam purificadas de todos os seus pecados por passarem pelo banho final em um Sacrifício de Cavalo, assim mesmo aqueles que morrem no fio de armas enquanto lutando com pessoas pecaminosas são purificados de seus pecados. A justiça se torna injustiça, e a injustiça se torna justiça, de acordo com hora e lugar. Tal é o poder da hora e lugar (em determinar o caráter de ações humanas). Os amigos da humanidade, mesmo por fazerem atos de crueldade, têm alcançado o céu sublime. Kshatriyas virtuosos, mesmo por fazerem ações pecaminosas, alcançaram fins abençoados. (A alusão é a homens tais como Utanka e Parasara, que embora tenham realizado atos cruéis como o Sacrifício de Cobras e o Sacrifício Rakshasa, tinham entretanto direito ao céu. Assim reis Kshatriya, por invadirem os reinos de seus inimigos e matarem milhares de homens e animais, são entretanto considerados virtuosos e no final das contas vão para o céu.) O Brahmana, por pegar armas nessas três ocasiões, não incorre em pecado, isto é, para proteger a si mesmo, para obrigar as outras classes a se dirigirem para seus deveres, e para castigar ladrões.'” "Yudhishthira disse, 'Se, quando ladrões erguem suas cabeças e uma mistura de classes começa a ocorrer por confusão, e os Kshatriyas se tornam incompetentes, alguma pessoa poderosa que não um Kshatriya procura subjugar aqueles ladrões para proteger o povo, de fato, ó melhor dos reis, se ocorre de aquela pessoa poderosa ser um Brahmana ou um Vaisya ou um Sudra, e se ele consegue proteger o povo por manejar justamente a vara de castigo, ele é justificado em fazer o que ele faz ou ele é impedido pelas ordenanças de realizar aquele dever? Parece que outros, quando os Kshatriyas demonstram ser tão desprezíveis, devem pegar em armas.'” "Bhishma disse, 'Seja ele um Sudra ou um membro de alguma outra classe, aquele que se torna uma balsa em uma corrente sem balsa, ou um meio de se atravessar onde não há nenhum, certamente merece respeito de todas as maneiras. A pessoa, ó rei, confiando em quem homens desamparados, oprimidos e feitos miseráveis por ladrões, vivem alegremente, merece ser adorada amavelmente por todos como se fosse um parente próximo. A pessoa, ó tu da linhagem de Kuru, que dissipa os temores de outros sempre merece respeito. Que necessidade há de touros que não carregam cargas, ou de vacas que não produzem leite, ou de uma esposa que é estéril? Similarmente, que necessidade há de um rei se ele não é competente para conceder proteção? Como um elefante feito de madeira, ou um veado feito de couro, como uma pessoa sem riqueza, ou alguém que é um eunuco, ou um campo que é estéril, assim mesmo é um Brahmana que é desprovido de conhecimento Védico e um rei incapaz de conceder proteção. Ambos são como uma nuvem que não despeja chuva. A pessoa que sempre protege os bons e reprime os maus merece se tornar um rei e governar o mundo.'" 79 "Yudhishthira disse, 'Quais, ó avô, devem ser as ações e qual o comportamento das pessoas empregadas como sacerdotes em nossos sacrifícios? Que tipo de pessoas elas devem ser, ó rei? Diga-me tudo isto, ó principal dos oradores.'” "Bhishma disse, 'É declarado daqueles Brahmanas que são elegíveis como sacerdotes que eles devem estar familiarizados com os Chhandas inclusive os Samans, e todos os ritos inculcados nos Srutis, e que eles devem ser capazes de realizar todos os atos religiosos que levam à prosperidade do rei. Eles devem ser devotadamente leais e proferir palavras agradáveis ao se dirigirem aos reis. Eles devem também ser amigáveis uns com os outros, e olhar igualmente para todos. Eles devem ser desprovidos de crueldade, e verdadeiros em palavras. Eles nunca devem ser usurários, e devem sempre ser simples e sinceros. Um homem pacífico em temperamento, desprovido de vaidade, modesto, caridoso, autocontrolado, e contente, possuidor de inteligência, sincero, cumpridor de votos, e inofensivo para todas as criaturas, sem luxúria e malícia, e dotado das três qualidades excelentes, desprovido de inveja e possuidor de conhecimento, merece o assento do próprio Brahman. Pessoas com tais qualidades, ó majestade, são os melhores dos sacerdotes e merecem todo o respeito.'” "Yudhishthira disse, 'Há textos Védicos acerca da doação de Dakshina em sacrifícios. Não há ordenança, no entanto, que declara quanto deve ser dado. Esta ordenança (sobre a doação de Dakshina) não procedeu de motivos ligados à distribuição de riqueza. A ordem da ordenança, pela provisão em casos de incapacidade, é terrível. Aquela ordem é cega para a competência do sacrificador (Em casos de incapacidade de dar o Dakshina prescrito, o sacrificador é ordenado a dar tudo o que ele tem. Esta instrução ou ordem é certamente terrível, pois quem pode decidir se desfazer de toda a sua riqueza para terminar um sacrifício?) A audição ocorre nos Vedas que uma pessoa deve, com devoção, realizar um sacrifício. Mas o que pode a devoção fazer quando o sacrificador é maculado pela falsidade (ao encontrar substitutos para o Dakshina realmente prescrito)?’” (A falsidade consiste em encontrar substitutos para o Dakshina verdadeiramente prescrito. Eles são pedacinhos de alimento cozido por uma vaca viva, um grão de cevada por uma peça de roupa, uma moeda de cobre por ouro; etc.) "Bhishma disse, 'Nenhum homem obtém bem-aventurança ou mérito por desconsiderar os Vedas ou por engano ou mentira. Nunca pense que isto é de outra maneira. Dakshina constitui um dos membros do sacrifício e conduz ao sustento dos Vedas. Um sacrifício sem Dakshina nunca pode levar à salvação. A eficácia, no entanto, de um único Purnapatra (256 punhados de arroz) é igual àquela de qualquer Dakshina, embora rico. (O fato é que embora o sacrificador possa não ser capaz de dar o Dakshiva verdadeiramente declarado nos Vedas, contudo por dar seu substituto ele não perde qualquer mérito, pois um único Purnapatra é tão eficaz se dado com devoção quanto o mais rico Dakshina.) Portanto, ó majestade, todos os que pertencem às três classes devem realizar sacrifícios. Os Vedas determinaram que Soma é como o próprio rei para os Brahmanas. Contudo eles desejam vendê-lo para a realização de sacrifícios, embora eles nunca desejem vendê-lo para ganhar o sustento. Rishis de comportamento virtuoso têm declarado, em conformidade com os ditames de moralidade, que um sacrifício realizado com os produtos da venda de Soma serve para estender sacrifícios. (Isto é, tal sacrifício, em vez de não produzir mérito, se torna os meios de aumentar a causa de sacrifícios. Em outras palavras, tal sacrifício é repleto de mérito.) Estes três, isto é, uma pessoa, um sacrifício e Soma, devem ser de bom caráter. Uma pessoa de mau caráter não é nem para este nem para o outro mundo. Esta audição foi ouvida por que nós que o sacrifício o qual Brahmanas de grande alma realizam por meio de riqueza obtida por trabalho físico excessivo não é produtivo de grande mérito. Há uma declaração nos Vedas que penitências são mais elevadas do que sacrifícios. Eu agora te falarei sobre penitências. Ó príncipe erudito, ouça-me. Abstenção de ferir, veracidade, benevolência, compaixão, estes são considerados como penitências pelos sábios e não a emaciação do corpo. Desrespeito aos Vedas, desobediência aos ditames das escrituras, e violação de todas restrições salutares produzem autodestruição. Escute, ó filho de Pritha, ao que foi prescrito por aqueles que despejam dez libações sobre o fogo dez vezes ao dia. Para aqueles que realizam o sacrifício da penitência, o Yoga que eles se esforçam para realizar com Brahma é sua concha; o coração é sua manteiga clarificada; e conhecimento superior constitui seu Pavitra. (Um Pavitra é feito de um par de folhas de Kusa para espalhar manteiga clarificada sobre o fogo). Todas as espécies de maldade significam morte, e todas as espécies de sinceridade são chamadas Brahma. Isto constitui o assunto de conhecimento. As rapsódias dos construtores de crenças não podem afetar isto.'” 80 "Yudhishthira disse, 'A ação mais insignificante, ó avô, não pode ser realizada por algum homem sem auxílio. O que dizer então do rei (que tem que governar um reino)? Qual deve ser o comportamento e quais devem ser os atos do ministro do rei? Em quem o rei deve depositar confiança e em quem ele não deve?'” "Bhishma disse, 'Reis, ó monarca, têm quatro tipos de amigos. Eles são aquele que tem o mesmo objetivo, aquele que é devotado, aquele que é relacionado por nascimento, e aquele que foi conquistado (por doações e bondade). Uma pessoa de alma virtuosa, que serviria um e não ambos os lados, é a quinta na enumeração dos amigos do rei. Tal pessoa adota aquele lado no qual a justiça está, e consequentemente age justamente. Com relação a tal pessoa, o rei nunca deve revelar propósitos seus tais como os que não atrairiam sua aprovação. Reis desejosos de sucesso são obrigados a adotar ambos os tipos de caminhos, justos e injustos. Dos quatro tipos de amigos, o segundo e o terceiro são superiores, enquanto o primeiro e o quarto devem ser sempre considerados com suspeita. Em vista, no entanto, daquelas ações as quais o rei deve fazer pessoalmente, ele deve sempre considerar com suspeita todos os quatro. O rei nunca deve agir desatentamente na questão de vigiar seus amigos. Um rei descuidado é sempre dominado por outros. Um homem mau assume o traje de honestidade, e aquele que é honesto se torna o contrário. Um inimigo pode se tornar um amigo e um amigo pode se tornar um inimigo. Um homem não pode ser sempre da mesma opinião. Quem então confiaria completamente nele? Todos os atos principais, portanto, de um rei ele deve realizar em sua própria presença. Uma confiança total (em seus ministros) é destrutiva de moralidade e lucro. Uma falta de confiança em relação a todos porém, é pior do que a morte. Credulidade é morte prematura. Uma pessoa incorre em perigo pela credulidade. Se alguém confia em outro completamente, é dito que ele vive pela permissão da pessoa confiada. Por esta razão deve-se confiar como também desconfiar de todos. Esta regra eterna de política, ó senhor, deve ser mantida em vista. Deve-se sempre desconfiar daquela pessoa que, às custas do desejo de alguém, obtém riqueza dele. Os sábios declaram que tal pessoa é um inimigo. Uma pessoa cuja alegria não tem limites ao ver o engrandecimento do rei e que se sente miserável ao ver a decadência do rei, fornece as indicações de um dos melhores amigos do rei. Naquele cuja queda seria ocasionada pela tua queda, tu deves confiar completamente assim como tu confiarias em teu pai. Tu deves, da melhor maneira, engrandecê-lo assim como tu ganhas engrandecimento para ti mesmo. Alguém que, mesmo em teus ritos religiosos, procura te resgatar do mal, procuraria te salvar do caminho do mal em qualquer outro negócio. Tal pessoa deve ser considerada como teu melhor amigo. Aqueles, por outro lado, que desejam mal para alguém são inimigos daquela pessoa. É citado como sendo tua própria pessoa um amigo que é inspirado com medo quando a calamidade te alcança e com alegria quando a prosperidade brilha em ti. Uma pessoa possuidora de beleza, feições formosas, voz excelente, generosidade, benevolência, e bom nascimento, não pode ser tal amigo. Aquela pessoa que é possuidora de inteligência e memória, que é inteligente nas transações de negócios, que é naturalmente contrária à crueldade, que nunca cede à raiva, e que, sendo respeitada ou desrespeitada nunca está descontente, seja ele teu sacerdote ou preceptor ou um amigo honrado, deve sempre receber teu respeito se ele aceitar o cargo de teu conselheiro e residir em tua residência. Tal pessoa pode ser informada dos teus planos mais secretos e do verdadeiro estado de todos os teus assuntos religiosos ou relativos à questões de lucro. Tu podes confiar nele como em teu próprio pai. Uma pessoa deve ser designada para uma tarefa, e não duas ou três. Aquelas podem não tolerar umas às outras. É sempre visto que várias pessoas, se colocadas para uma tarefa, discordam umas das outras. A pessoa que alcança celebridade, que observa todas as restrições, que nunca sente ciúmes de outras que são capazes e competentes, que nunca faz algum ação má, que nunca abandona a virtude por luxúria ou medo ou cobiça ou ira, que é inteligente nas transações de negócios, e que possui palavras sábias e relevantes, deve ser o principal dos teus ministros. Pessoas possuidoras de bom nascimento e bom comportamento, que são generosas e que nunca se gabam, que são corajosas e respeitáveis, e eruditas e cheias de recursos, devem ser nomeadas como ministros para supervisionar todos os teus assuntos. Honrados por ti e gratificados com riquezas, eles agirão para o teu bem e serão de grande ajuda para ti. Nomeados para cargos ligados com lucros e outras questões importantes, eles sempre trazem grande prosperidade. Movidos por um sentimento de rivalidade saudável, eles cumprem todos os deveres ligados com lucro, consultando uns aos outros quando necessário. Tu deves temer teus parentes como a própria morte. Um parente nunca pode suportar a prosperidade de um parente assim como um dirigente feudatário não pode tolerar ver a prosperidade de seu senhor. Ninguém exceto um parente pode sentir alegria na destruição de um parente adornado com sinceridade, brandura, generosidade, modéstia, e veracidade. Aqueles, por outro lado, que não têm parentes, não podem ser felizes. Nenhum homem pode ser mais contemptível do que aquele que é desprovido de parentes. Uma pessoa que não tem parentes é facilmente dominada por inimigos. Os parentes constituem o amparo de alguém é afligido por outros homens, pois parentes nunca podem aguentar ver um parente afligido por outras pessoas. Quando um parente é perseguido mesmo por seus amigos, todos os parentes do perseguido consideram a ofensa como infligida sobre eles mesmos. Nos parentes, portanto, há méritos e defeitos. Uma pessoa desprovida de parentes nunca mostra predileção por alguém nem se humilha para alguém. Nos parentes, portanto, méritos e deméritos podem ser notados. Uma pessoa deve, por esta razão, sempre honrar e respeitar seus parentes em palavras e ações, e fazer coisas agradáveis para eles e nunca ofendê-los. Desconfiando deles no fundo, ela deve se comportar em direção a eles como se confiasse neles completamente. Refletindo sobre sua natureza, parece que eles não têm nem falhas nem méritos. Uma pessoa que age dessa maneira atentamente encontra seus verdadeiros inimigos desarmados de hostilidade e convertidos em amigos. Alguém que sempre se comporta dessa maneira em meio a amigos e parentes e se comporta assim em direção a amigos e inimigos, consegue ganhar fama eterna.'" 81 "Yudhishthira disse, 'Se alguém não consegue conquistar seus amigos e parentes (dessa maneira), aqueles que deveriam se tornar amigos viram inimigos. Como deve, então, se portar uma pessoa para que os corações de amigos e inimigos possam ser conquistados?'” "Bhishma disse, 'Em relação a isto é citada a antiga história de uma conversa entre Vasudeva e o sábio celeste Narada. Em certa ocasião Vasudeva disse, 'Nem um amigo iletrado e tolo, nem um amigo erudito de alma inconstante, merece, ó Narada, conhecer os planos secretos de alguém. Confiando em tua amizade por mim, eu te direi algo, ó sábio! Ó tu que podes ir para o céu à vontade, uma pessoa deve falar para outra se ela estiver convencida da inteligência daquela outra. Eu nunca me comporto com subserviência em direção a meus parentes por palavras aduradoras acerca de sua prosperidade. Eu dou a eles metade do que eu tenho, e perdôo suas palavras más. Como um galho de madeira é moído por uma pessoa desejosa de obter fogo, assim mesmo meu coração é oprimido por meus parentes com suas palavras cruéis. De fato, ó Rishi celeste, aquelas palavras cruéis queimam meu coração todos os dias. Poder reside em Sankarshana; brandura em Gada; e em relação a Pradyumna, ele supera até a mim mesmo em beleza pessoal. (Embora eu tenha todos estes ao meu lado) ainda assim eu estou desamparado, ó Narada! Muitos outros entre os Andhakas e os Vrishnis são possuidores de grande prosperidade e poder, e coragem e perseverança constante. Aquele em cujo lado eles não se colocam encontra destruição. Aquele, por outro lado, em cujo lado eles se colocam realiza tudo. Dissuadido (em alternação) por ambos (isto é, Ahuka e Akrura,) eu não tomo o partido de um ou outro. O que pode ser mais doloroso para uma pessoa do que ter Ahuka e Akrura ao seu lado? O que, também, pode ser mais doloroso para alguém do que não ter ambos ao seu lado? (O fato é que Ahuka e Akrura eram amargamente antagônicos um ao outro. Os dois, no entanto, amavam Krishna. Ahuka sempre avisava Krishna para afastar-se de Akrura, e Akrura sempre o avisava para evitar Ahuka. Krishna valorizava a amizade de ambos e dificilmente poderia dispensar um ou outro. O que ele diz aqui é que ter ambos é doloroso e não tê-los é igualmente doloroso.) Eu sou como a mãe de dois irmãos que jogam um contra o outro, invocando vitória para ambos. Eu sou, ó Narada, atormentado dessa maneira por ambos. Cabe a ti me dizer aquilo que é para o meu bem e de meus parentes.'” "Narada disse, 'As calamidades, ó Krishna, são de dois tipos, isto é, externas e internas. Elas surgem, ó tu da tribo de Vrishni, das próprias ações de uma pessoa ou das ações de outros. A calamidade que agora te alcançou é interna e nascida de tuas próprias ações. Valadeva e outros da tribo Bhoja são partidários de Akrura, e tomaram seu lado ou por causa de riqueza, ou mero capricho, ou movidos por palavras ou por ódio. Em relação a ti, tu doaste riqueza obtida por ti para outro. Embora possuidor de homens que devem ser teus amigos, tu, no entanto, por tua própria ação, trouxeste calamidade sobre tua cabeça. Tu não podes pegar de volta aquela riqueza, assim como alguém não pode engolir novamente o alimento que ele mesmo vomitou. O reino não pode ser pego de volta de Babhu e Ugrasena (a quem ele foi dado). Tu mesmo, ó Krishna, não pode, especialmente, pegá-lo de volta (deles) por medo de produzir desavenças internas. Supondo que o esforço tivesse sucesso, isso aconteceria depois de muito incômodo e depois da realização das façanhas mais difíceis. Uma grande carnificina e uma grande perda de riqueza se seguiria, talvez até a destruição total. Use então uma arma que não é feita de aço, que é muito suave e ainda assim capaz de perfurar todos os corações. Afiando e reafiando aquela arma corrija as línguas de teus parentes.'” "Vasudeva disse, 'Qual é a arma, ó sábio, que não é feita de aço, que é suave, que perfura todos os corações, e a qual eu devo usar para corrigir as línguas de meus parentes?'” "Narada disse, 'Doar alimento o melhor que puder, bondade, sinceridade, gentileza, e honra para quem honra é devida, estes constituem uma arma que não é feita de aço. Somente com palavras gentis desvie a raiva de parentes prestes a proferirem palavras cruéis, e pacifique seus corações e mentes e línguas caluniosas. Ninguém que não é um grande homem com alma purificada e possuidor de talentos e amigos pode suportar uma responsabilidade pesada. Pegue este grande peso (de governar os Vrishnis) e o carregue em teus ombros. Todos os bois podem carregar cargas pesadas em uma estrada nivelada. Só os mais fortes entre eles podem carregar tais cargas em uma estrada difícil. Da desunião surgirá a destruição que ceifará todos os Bhojas e os Vrishnis. Tu, ó Kesava, és o principal entre eles. Aja de tal maneira para que os Bhojas e os Vrishnis não possam encontrar a destruição. Inteligência e bondade, restrição dos sentidos, e generosidade só estão presentes em uma pessoa de sabedoria. Melhorar a própria linhagem é sempre louvável e glorioso e conducente à vida longa. Ó Krishna, aja de tal maneira que a destruição não possa alcançar teus parentes. Não há nada desconhecido para ti a respeito de política e da arte da guerra, ó Senhor! Os Yadavas, os Kukuras, os Bhojas, os Andhakas, e os Vrishnis, são todos dependentes de ti assim como todos os mundos e todos os regentes daqueles mundos, ó de braços fortes! Os Rishis, ó Madhava, sempre rezam pelo teu progresso. Tu és o senhor de todas as criaturas. Tu conheces o passado, o presente, e futuro. Tu és o principal de todos os Yadavas. Confiando em ti, eles esperam viver em felicidade.'" 82 "Bhishma disse, 'Esses que eu te disse constituem os primeiros meios. Ouça agora, ó Bharata, aos segundos meios. O homem que procura promover os interesses do rei deve sempre ser protegido pelo rei. Se uma pessoa, ó Yudhishthira, que é paga ou não paga, se aproxima de ti para te falar dos danos feitos à tua tesouraria quando seus recursos estão sendo desviados por um ministro, tu deves conceder a ele uma audiência em particular e protegê-lo também do ministro (acusado). Os ministros culpados de peculato procuram, ó Bharata, matar tais informantes. Aqueles que pilham a tesouraria real combinam juntos para se opor à pessoa que procura protegê-la, e se o último for deixado desprotegido, ele certamente será arruinado. Ligado a isto também uma antiga história é citada do que o sábio Kalakavrikshiya disse ao rei de Kosala. Foi ouvido por nós que uma vez o sábio Kalakavrikshiya se aproximou de Kshemadarsin que tinha ascendido ao trono do reino de Kosala. Desejoso de examinar a conduta de todos os oficiais de Kshemadarsin, o sábio, com um corvo mantido dentro de uma gaiola em sua mão, viajava repetidamente por todas as partes daqueles domínios do rei. E ele falava a todos os homens e dizia, 'Estudem a ciência dos corvos. Os corvos me dizem o presente, o passado, e o futuro.' Proclamando isto no reino, o sábio, acompanhado por um grande número de homens, começou a observar os delitos de todos os oficiais do rei. Tendo averiguado todos os assuntos em relação àquele reino, e tendo descoberto que todos os oficiais nomeados pelo rei eram culpados de má gerência da riqueza pública, o sábio, com seu corvo, foi ver o rei. De votos rígidos, ele disse ao rei, 'Eu sei tudo (sobre teu reino).' Chegado na presença do rei, ele disse para seu ministro adornado com as insígnias de seu cargo que ele tinha sido informado por seu corvo que o ministro tinha feito tal delito em tal local, e que tais e tais pessoas sabiam que ele tinha pilhado a tesouraria real. 'Meu corvo me diz isto. Admita ou prove a falsidade da acusação rapidamente.' O sábio então proclamou os nomes de outros oficiais que tinham similarmente sido culpados de desvio, somando: 'Meu corvo nunca diz nada que seja falso.' Assim acusados e ofendidos pelo sábio, todos os oficiais do rei, ó tu da linhagem de Kuru, (se uniram e) perfuraram seu corvo, enquanto o sábio dormia, à noite. Vendo seu corvo perfurado com uma flecha dentro da gaiola, o Rishi regenerado, indo até Kshemadarsin pela manhã, disse a ele, 'Ó rei, eu busco tua proteção. Tu és todo-poderoso e tu és o mestre das vidas e da riqueza de todos. Se eu receber tua ordem eu então poderei dizer o que é para o teu bem. Angustiado por causa de ti a quem eu considero como um amigo eu vim a ti, impelido por minha devoção e disposto a te servir com todo o meu coração. Tua riqueza está sendo roubada, eu vim a ti para revelar isto sem mostrar qualquer consideração pelos ladrões. Como um motorista que incita um bom corcel, eu vim para cá para alertar a ti a quem eu respeito como um amigo. Um amigo que é sensível aos seus próprios interesses e desejoso de sua própria prosperidade e engrandecimento, deve perdoar um amigo que se intromete impetuosamente, impelido por devoção e ira, para fazer o que é benéfico.' O rei respondeu a ele, dizendo, 'Por que eu não devo tolerar o que tu dirás, já que eu não sou cego ao que é para o meu bem? Eu te concedo permissão, ó regenerado! Diga-me o que quiseres, eu certamente obedecerei às instruções que tu me deres, ó Brahman!'” "O sábio disse, 'Averiguando os méritos e defeitos de teus empregados, como também os perigos que tu corres nas mãos deles, eu vim a ti, impelido pela minha devoção, para relatar tudo para ti. Os professores (da humanidade) declararam antigamente qual é o comportamento, ó rei, daqueles que servem outros. A sina daqueles que servem o rei é muito dolorosa e infeliz. Aquele que tem alguma ligação com reis é como se tivesse ligação com cobras de veneno virulento. Reis têm muitos amigos como também muitos inimigos. Aquele que serve os reis tem que ter medo de todos. A todo momento, também, ele tem que temer o próprio rei, ó monarca. Uma pessoa servindo o rei não pode (com impunidade) ser culpada de negligência em fazer o trabalho do rei. De fato, um empregado que deseja ganhar prosperidade nunca deve demonstrar desatenção no cumprimento de seus deveres. Sua negligência pode provocar a fúria do rei, e tal ira pode ocasionar a destruição (do empregado). Aprendendo cuidadosamente como se comportar, ele deve sentar na presença do rei como ele sentaria na presença de um fogo ardente. Preparado para sacrificar a própria vida a todo momento, ele deve servir ao rei atentamente, pois o rei é todo-poderoso e dono das vidas e da riqueza de todos, e portanto, como uma cobra de veneno virulento. Ele deve sempre temer entregar-se a más palavras perante o rei, ou sentar-se desanimadamente ou em posturas irreverentes, ou servir em atitudes de desrespeito ou andar desdenhosamente ou expor gestos insolentes e movimentos desrespeitosos dos membros. Se o rei fica satisfeito, ele pode derramar prosperidade como um deus. Se ele fica enfurecido, ele pode consumir até as próprias raízes como um fogo ardente. Isto, ó rei, foi dito por Yama. Sua verdade é vista nos assuntos do mundo. Eu irei agora (agindo segundo estes preceitos) fazer aquilo que aumentará tua prosperidade. Amigos como nós podemos dar a amigos como tu a ajuda de sua inteligência em épocas de perigo. Este meu corvo, ó rei, foi morto por fazer teu serviço. Eu não posso, no entanto, te culpar por isto. Tu não és amado por aqueles (que mataram esta ave). Averigúe quem são teus amigos e quem são teus inimigos. Faça tudo tu mesmo sem entregar tua inteligência para outros. Aqueles que estão em teu estabelecimento são todos peculadores. Eles não desejam o bem de teus súditos. Eu atraí a hostilidade deles. Conspirando com aqueles servos que têm acesso constante a ti eles cobiçam teu reino depois de ti por realizarem tua destruição. Os planos deles, no entanto, não tiveram sucesso por causa de circunstâncias imprevistas. Por medo daqueles homens, ó rei, eu deixarei este reino em busca de algum outro retiro. Eu não tenho desejo mundano, ainda assim aquelas pessoas de intenções desonestas dispararam esta flecha em meu corvo, e, ó senhor, despacharam a ave para a residência de Yama. Eu tenho visto isso, ó rei, com olhos cuja visão foi melhorada por meio de penitências. Com a ajuda deste único corvo eu cruzei esse teu reino que é como um rio cheio de jacarés e tubarões e crocodilos e baleias. De fato, com a ajuda desta ave, eu passei por teus domínios como por um vale Himalayan, impenetrável e inacessível por causa dos troncos de árvores (caídas) e rochas espalhadas e arbustos espinhosos e leões e tigres e outros animais predadores. Os eruditos dizem que uma região inacessível por causa da escuridão pode ser atravessada com a ajuda de uma luz, e um rio que não é vadeável pode ser cruzado por meio de um barco. Nenhum meio, no entanto, existe para se penetrar ou passar pelo labirinto dos negócios reais. Teu reino é como uma floresta inacessível envolvida em escuridão. Tu (que és o senhor dele) não podes confiar nele. Como então eu posso? Bem e mal são considerados aqui da mesma maneira. Residência aqui, portanto, não pode ser segura. Aqui uma pessoa de atos justos encontra com a morte, enquanto alguém de atos injustos não incorre em perigo. De acordo com os requisitos de justiça, uma pessoa de atos injustos deve ser morta mas nunca uma que é justa em suas ações. Não é apropriado, portanto, ficar por mais tempo nesse reino. Um homem inteligente deve deixar logo esse país. Há um rio, ó rei, de nome Sita. Barcos afundam nele. Esse teu reino é como aquele rio. Uma rede todo-destrutiva parece ter sido lançada em volta dele. Tu és como a queda que espera coletores de mel, ou como alimento atrativo contendo veneno. Tua natureza agora parece aquela de homens desonestos e não aquela dos bons. Tu és como uma cova, ó rei, cheia de cobras de veneno virulento. Tu pareces, ó rei, um rio cheio de água doce mas de acesso extremamente difícil, com margens íngremes cobertas com Kariras e juncos espinhosos. Tu és como um cisne no meio de cães, urubus e chacais. Parasitas gramíneos, derivando seu sustento de uma árvore imensa, se expandem em crescimento luxuriante, e finalmente cobrindo a própria árvore a obscurecem completamente. Um incêndio começa na floresta, e pegando aquelas plantas gramíneas primeiro, consome a árvore soberana com elas. Teus ministros, ó rei, parecem com aqueles parasitas gramíneos dos quais eu falo. Controle-os e corrija-os. Eles têm sido nutridos por ti. Mas conspirando contra ti, eles estão destruindo tua prosperidade. Ocultando (de ti) as falhas de teus empregados, eu estou vivendo na tua residência em medo constante do perigo, assim como uma pessoa vivendo em um quarto com uma cobra dentro dele ou como o amante da esposa de um herói. Meu objetivo é averiguar o comportamento do rei que me hospeda. Eu desejo saber se o rei tem suas emoções sob controle, se seus empregados o obedecem, se ele é amado por eles, e se ele ama seus súditos. Para o objetivo de averiguar todos esses pontos, ó melhor dos reis, eu vim a ti. Como alimento para uma pessoa faminta, tu te tornaste querido para mim. Eu antipatizo com teus ministros, no entanto, como uma pessoa cuja sede foi saciada tem aversão à bebida. Eles me criticam porque eu procuro o teu bem. Eu não tenho dúvida de que não há outra causa para aquela hostilidade deles por mim. Eu não nutro alguma intenção hostil em direção a eles. Eu somente estou empenhado em notar suas imperfeições. Como se deve temer uma cobra ferida, todos devem temer um inimigo de coração pecaminoso!'” (Ainda é corrente a crença que uma cobra ferida seguramente procurará vingança mesmo se a pessoa que a feriu colocar milhas de distância entre ela mesma e o réptil. As pessoas desse país, portanto, sempre matam uma cobra completamente e a queimam em fogo se elas alguma vez a capturam.) "O rei disse, 'Resida em meu palácio, ó Brahmana! Eu sempre te tratarei com respeito e honra, e sempre te cultuarei. Aqueles que antipatizarem contigo não morarão comigo. Faça tu mesmo o que deve ser feito em seguida para aquelas pessoas (das quais tu falaste). Cuide, ó santo, para que a vara de castigo seja manejada apropriadamente e para que tudo seja feito bem em meu reino. Refletindo sobre tudo, guie-me de tal modo que eu possa obter prosperidade.'” "O sábio disse, 'Fechando teus olhos em primeiro lugar a esse ataque deles (isto é, a morte do corvo), enfraqueça-os um por um. Prove as falhas deles então e os atinja um depois do outro. Quando muitas pessoas se tornam culpadas do mesmo delito, elas podem, por agirem juntas, amolecer as próprias pontas dos espinhos. Para que teus ministros (sendo suspeitados, não ajam contra ti e) revelem seus planos secretos, eu te aconselho a continuar com tal cautela. Em relação a nós, nós somos Brahmanas, naturalmente compassivos e sem vontade de causar dor a ninguém. Nós desejamos o teu bem como também o bem de outros, assim como nós desejamos o nosso bem. Eu falo de mim mesmo, ó rei! Eu sou teu amigo. Eu sou conhecido como o sábio Kalakavrikshiya. Eu sempre sou fiel à verdade. Teu pai me considerava amavelmente como seu amigo. Quando o infortúnio alcançou esse reino durante o reinado de teu pai, ó rei, eu realizei muitas penitências (para rechaçá-la), abandonando todos os outros assuntos. Pela minha afeição por ti eu te digo que tu não podes cometer novamente o erro (de depositar confiança em pessoas não merecedoras). Tu obtiveste um reino sem incômodos. Reflita sobre tudo ligado à sua prosperidade e miséria. Tu tens ministros em teu reino. Mas por que, ó rei, tu deves ser culpado de negligência?' Depois disto, o rei de Kosala escolheu um ministro da classe Kshatriya, e nomeou aquele touro entre Brahmanas (isto é, o sábio Kalakavrikshiya) como seu Purohita. Depois que estas mudanças tinham sido efetuadas, o rei de Kosala subjugou a terra inteira e obteve grande fama. O sábio Kalakavrikshiya cultuou os deuses em muitos sacrifícios grandiosos realizados para o rei. Tendo escutado aos seus conselhos benéficos, o rei de Kosala conquistou a terra inteira e se comportou em todas as circunstâncias como o sábio lhe indicou.'" 83 "Yudhishthira disse, 'Quais devem ser as características, ó avô, dos legisladores, dos ministros de guerra, dos cortesãos, dos generalíssimos, e dos conselheiros de um rei?'” "Bhishma disse, 'Pessoas possuidoras de modéstia, autodomínio, veracidade, sinceridade, e coragem para dizer o que é apropriado, devem ser teus legisladores. Aqueles que estão sempre do teu lado, que são possuidores de grande coragem, que são da casta regenerada, possuidores de grande erudição, bem satisfeitos contigo, e dotados de perseverança em todas as ações, devem, ó filho de Kunti, ser desejados por ti para se tornarem teus ministros de guerra em todas as épocas de infortúnio, ó Bharata! Alguém que é de descendência nobre, que, tratado com honra por ti, sempre exerce seus poderes ao máximo em teu nome, e que nunca te abandonará na prosperidade ou na miséria, doença ou morte, deve ser acolhido por ti como um cortesão. Aqueles que são de nascimento nobre, que são nascidos em teu reino, que têm sabedoria, beleza de forma e feições, grande erudição, e dignidade de comportamento, e que, além disso, são devotados a ti, devem ser empregados como oficiais do teu exército. Pessoas de baixa descendência e propensões cobiçosas, que são cruéis e sem vergonha te cortejariam, ó majestade, enquanto suas mãos permanecessem molhadas; (isto é, enquanto elas fossem pagas e tivessem em suas mãos o que lhes fosse dado). Aqueles que são de bom nascimento e bom comportamento, que podem ler todos os sinais e gestos, que são desprovidos de crueldade, que sabem quais são as necessidades de hora e lugar, que sempre procuram o bem de seu chefe em todos os atos, devem ser nomeados como ministros pelo rei em todos os seus assuntos. Aqueles que foram conquistados com presentes de riqueza, honras, recepções respeitosas, e meios de obter felicidade, e que por causa disto podem ser consideradas por ti como pessoas inclinadas a te beneficiarem em todos os teus negócios, devem sempre ser participantes da tua felicidade. Aqueles que são de conduta constante, possuidores de conhecimento e bom comportamento, observadores de votos excelentes, generosos, e verdadeiros em palavras, estarão sempre atentos aos teus negócios e nunca te abandonarão. Aqueles, por outro lado, que são desrespeitosos, que não são observadores de restrições, que são de almas pecaminosas, e que se desviaram das boas práticas, devem sempre ser compelidos por ti a observar todas as restrições salutares. Quando a pergunta é qual de dois lados deve ser adotado, tu não deves abandonar os muitos para adotar o lado de um. Quando, no entanto, aquela pessoa supera os muitos pela posse de muitos talentos, então tu deves, por aquele um, abandonar os muitos. Estas são consideradas como marcas de superioridade, isto é, coragem, dedicação a objetivos que tragam fama, e observância de restrições salutares. Aquele, também, que honra todas as pessoas possuidoras de habilidade, que nunca cede a sentimentos de rivalidade com pessoas não possuidoras de mérito, que nunca abandona a retidão por luxúria ou medo ou ira ou cobiça, que é adornado com humildade, que é sincero em palavras e bondoso em temperamento, que tem sua alma sob controle, que tem um senso de dignidade, e que tem sido testado em todas as situações, deve ser empregado por ti como teu conselheiro. Descendência nobre, pureza de sangue, bondade, inteligência, e pureza de alma, coragem, gratidão, e veracidade, são, ó filho de Pritha, marcas de superioridade e bondade. Um homem sábio que se comporta dessa maneira, (isto é, mostra estas virtudes em sua conduta), consegue desarmar seus próprios inimigos de sua hostilidade e convertê-los em amigos. Um rei que tem sua alma sob restrição, que possui sabedoria, e que deseja prosperidade, deve examinar cuidadosamente os méritos e deméritos de seus ministros. Um rei desejoso de prosperidade e de brilhar em meio a seus contemporâneos, deve ter como ministros homens ligados com seus amigos de confiança, possuidores de nascimento nobre e nascidos em seu próprio reino, incapazes de serem corrompidos, não maculados por adultério e vícios similares, bem testados, pertencentes a boas famílias, possuidores de erudição, nascidos de pais e avôs que ocuparam cargos parecidos, e adornados com humildade. O rei deve empregar para cuidar de seus negócios cinco dessas pessoas possuidoras de inteligência e não manchadas pelo orgulho, que tenham boa disposição, energia, paciência, bondade, pureza, lealdade, firmeza, e coragem, cujos méritos e defeitos tenham sido bem testados, de idade madura, capazes de arcar com responsabilidades, e que sejam livres de engano. Homens que são sábios em palavras, possuidores de heroísmo, cheios de recursos sob dificuldades, de nascimento nobre, sinceros, que podem ler sinais, que são livres de crueldade, familiarizados com os requisitos de hora e lugar, e que desejam o bem de seus mestres, devem ser empregados pelo rei como seus ministros em todos os assuntos do reino. Alguém que é desprovido de energia e que foi abandonado pelos amigos nunca pode trabalhar com perseverança. Tal homem, se empregado, fracassa em quase todos os serviços. Um ministro que possui pouca erudição, mesmo se abençoado com nascimento nobre e atento à virtude, lucro, e prazer, se torna incompetente em escolher rumos de ação apropriados. Similarmente, uma pessoa de descendência inferior, mesmo se possuidora de grande erudição, sempre erra, como um homem cego sem um guia, em todos os atos que requerem destreza e previdência. Uma pessoa, também, que não tem propósitos firmes, mesmo que possua inteligência e erudição, e mesmo que conheça os meios, não pode agir com sucesso por muito tempo. Um homem de coração pecaminoso e sem conhecimento pode colocar sua mão para trabalhar, mas ele falha em verificar quais serão os resultados de seu trabalho. Um rei nunca deve depositar confiança em um ministro que não é devotado a ele. Ele nunca deve, portanto, revelar seus planos para um ministro que não é dedicado a ele. Tal ministro vil, combinando com os outros ministros do rei, pode arruinar seu mestre, como um fogo consumindo uma árvore por entrar em suas entranhas através dos buracos em seu corpo com a ajuda do vento. Cedendo à ira, um mestre pode um dia remover um empregado de seu cargo ou reprová-lo, por raiva, em palavras duras, e recolocá-lo no poder novamente. Ninguém exceto um empregado dedicado a seu chefe pode tolerar e perdoar tal tratamento. Os ministros também ficam algumas vezes muito ofendidos com seus mestres reais. Aquele, no entanto, entre eles, que subjuga sua raiva pelo desejo de fazer bem para seu chefe, aquela pessoa que é um participante com o rei de sua prosperidade e infortúnio, deve ser consultada pelo rei em todos os seus negócios. Uma pessoa de coração desonesto, mesmo que seja devotada a seu mestre e possuidora de sabedoria e adornada com numerosas virtudes, nunca deve ser consultada pelo rei. Alguém que está aliado com inimigos e que não respeita os interesses dos súditos do rei, deve ser conhecido como um inimigo. O rei nunca deve deliberar com ele. Alguém que não possui conhecimento, que não é puro, que é manchado com orgulho, que corteja os inimigos do rei, que se gaba, que é antipático, colérico, e cobiçoso não deve ser consultado pelo rei. Um estrangeiro, mesmo que ele seja devotado ao rei e possuidor de grande erudição, pode ser honrado pelo rei e gratificado com a designação dos meios de sustento, mas o rei nunca deve consultá-lo em seus negócios. Uma pessoa cujo pai foi injustamente banido por decreto real não deve ser consultada pelo rei mesmo que o rei possa ter posteriormente lhe concedido honras e lhe atribuído os meios de sustento. Um benquerente cuja propriedade foi uma vez confiscada por uma transgressão leve, mesmo se ele for possuidor de todos os talentos não deve ainda ser consultado pelo rei. Uma pessoa possuidora de sabedoria, inteligência, e erudição, que é nascida dentro do reino, que é pura e justa em todos os seus atos, merece ser consultada pelo rei. Alguém que é dotado de conhecimento e sabedoria, que conhece as disposições de seus amigos e inimigos, que é amigo do rei de tal maneira quanto a ser sua segunda pessoa, merece ser consultado. Alguém que é verdadeiro em palavras e modesto e gentil e que é um empregado hereditário do rei, merece ser consultado. Alguém que é contente e honrado, que é sincero e digno, que odeia maldade e homens pecaminosos, que é familiarizado com política e os requisitos de tempo, e que é corajoso, merece ser consultado pelo rei. Alguém que é competente para conquistar todos os homens pela conciliação deve ser consultado, ó monarca, pelo rei que deseja governar segundo os ditames da ciência de castigo. Alguém em quem os habitantes da capital e das províncias depositam confiança por sua conduta honrada, que é competente para lutar e conhecedor das regras de política, merece ser consultado pelo rei. Portanto, homens possuidores de tais qualidades, homens conhecedores das disposições de todos e desejosos de realizar grandes ações, devem ser honrados pelo rei e feitos seus ministros. Seu número também não deve ser menor do que três (geralmente deve ser cinco). Os ministros devem ser empregados em observar as negligências de seus mestres, deles mesmos, dos súditos, e dos inimigos de seu mestre. O reino tem sua base nos conselhos de política que fluem dos ministros, e seu crescimento procede da mesma fonte. Os ministros devem agir de tal modo que os inimigos de seu chefe não possam detectar seus pontos fracos. Por outro lado, quando os pontos fracos deles se tornam visíveis, eles devem então ser atacados. Como a tartaruga protegendo seus membros por recolhê-los dentro de sua carapaça, os ministros devem proteger seus próprios planos. Eles devem, assim mesmo, ocultar seus próprios pontos fracos. Aqueles ministros de um reino que conseguem esconder seus conselhos são citados como possuidores de sabedoria. Conselhos constituem a armadura de um rei, e os membros de seus súditos e oficiais. Um reino é citado como tendo sua base em espiões e agentes secretos, e é dito que sua força se encontra em conselhos de política. Se chefes e ministros seguem uns aos outros para derivar apoio uns dos outros, subjugando orgulho e ira, e vaidade e inveja, eles podem então vir a ser felizes. Um rei deve também consultar com tais ministros que são livres dos cinco tipos de engano. Averiguando bem, em primeiro lugar, as diferentes opiniões dos três entre eles a quem ele consultou, o rei deve, para deliberação subsequente, ir até seu preceptor para informá-lo daquelas opiniões e da sua própria. Seu preceptor deve ser um Brahmana bem versado em todas as questões de virtude, lucro, e prazer. Indo até ele para tal deliberação subsequente, o rei deve, com mente serena, perguntar sua opinião. Quando chegar-se a uma decisão depois da deliberação com ele, o rei deve então, sem apego, realizá-la na prática. Aqueles que estão familiarizados com as conclusões da ciência de consulta dizem que reis devem sempre manter consultas dessa modo. Tendo feito planos dessa maneira, eles devem então colocá-los em prática, pois então eles serão capazes de conquistar todos os súditos. Não deve haver anões, nem pessoas corcundas, nem alguma de constituição emaciada, nem alguém que seja coxo ou cego, nem alguém que seja um idiota, nem uma mulher, e nem um eunuco, no local onde o rei mantém suas conferências. Nada deve se mover lá pela frente ou por trás, acima ou abaixo, ou em direções transversais. Subindo em um barco, ou indo a um espaço aberto desprovido de grama e arbustos gramíneos de onde o terreno circundante possa ser visto claramente, o rei deve manter conferências na hora apropriada, evitando falhas em palavras e gestos.'" 84 "'Bhishma disse, 'Em relação a isto, ó Yudhishthira, o antigo relato de uma conversa entre Vrihaspati e Sakra é citado.'” "Sakra disse, 'Qual é o único ato, ó regenerado, que por realizar o qual com cuidado, uma pessoa pode se tornar respeitada por todas as criaturas e adquirir grande celebridade?'” "Vrihaspati disse, 'Amabilidade de palavras, ó Sakra, é a única coisa por praticar a qual uma pessoa pode se tornar um objeto de respeito para todas as criaturas e adquirir grande celebridade. Esta é a única coisa, ó Sakra, que dá felicidade a todos. Por praticá-la, uma pessoa pode sempre obter o amor de todas as criaturas. A pessoa que não fala uma palavra e cujo rosto está sempre sulcado com expressões carrancudas se torna um objeto de ódio para todas as criaturas. Abstenção de palavras agradáveis a faz assim. Aquela pessoa que, ao ver outros, se dirige a eles primeiro e o faz com sorrisos, consegue fazer todos ficarem satisfeitos com ela. Até doações, se não feitas com palavras agradáveis, não alegram os recebedores, como arroz sem caril (curry, condimento apimentado). Se até as posses de homens, ó Sakra, forem tiradas com palavras gentis, tal gentileza de comportamento consegue pacificar os roubados. Um rei, portanto, mesmo desejoso de infligir castigo deve proferir palavras gentis. Gentileza de palavras nunca falha em seu propósito, enquanto que, ao mesmo tempo ela nunca fere algum coração. Uma pessoa de bons atos e palavras boas, gentis e agradáveis, não tem igual.'” "Bhishma continuou, 'Assim endereçado por seu sacerdote, Sakra começou a agir de acordo com aquelas instruções. Pratique também, ó filho de Kunti, esta virtude."' 85 "Yudhishthira disse, 'Ó principal dos reis, qual é aquele método pelo qual um rei governando seus súditos pode, em consequência dele, obter grande bem- aventurança e fama eterna?'” "Bhishma disse, 'Um rei de alma purificada e atento ao dever de proteger seus súditos ganha mérito e fama, neste mundo e no outro, por se comportar justamente.'” "Yudhishthira disse, 'Com quem o rei deve se comportar de que maneira? A meu pedido, ó tu de grande sabedoria, cabe a ti me dizer tudo devidamente. Aquelas virtudes das quais tu já falaste, em relação a uma pessoa, em minha opinião, não podem ser encontradas existindo em um único indivíduo.'” "Bhishma disse, 'Tu és dotado de grande inteligência, ó Yudhishthira! É assim mesmo como tu disseste. É muito rara a pessoa que é possuidora de todas aquelas boas qualidades. Para ser breve, a presença de todas as virtudes citadas é muito difícil de ser encontrada mesmo após busca cuidadosa. Eu irei, no entanto, te dizer quais tipos de ministros devem ser nomeados por ti. Quatro Brahmanas, eruditos nos Vedas, possuidores de um senso de dignidade, pertencentes à classe Snataka, e de comportamento puro, e oito Kshatriyas, todos os quais devem ser possuidores de força física e capazes de manejar armas, e vinte e um Vaisyas, todos os quais devem ser possuidores de riqueza, e três Sudras, todos os quais devem ser humildes e de conduta pura e dedicados aos seus deveres diários, e um homem da casta Suta, possuidor de um conhecimento dos Puranas e das oito virtudes principais, devem ser teus ministros. Todos eles devem ter cinquenta anos de idade, possuidores de um senso de dignidade, livres de inveja, familiarizados com os Srutis e os Smritis, humildes, imparciais, competentes para decidir prontamente entre disputantes recomendando diferentes rumos de ação, livres de cobiça e dos sete vícios terríveis chamados Vyasanas. O rei deve consultar com aqueles oito ministros e manter a liderança entre eles. Ele deve então publicar em seu reino, para a informação de seus súditos, os resultados de tal deliberação. Tu deves sempre, adotando tal conduta, zelar pelo teu povo. Tu nunca deves confiscar o que é depositado contigo ou te apropriar como tua da coisa cuja posse duas pessoas possam disputar. Tal conduta arruinaria a administração da justiça. Se a administração da justiça for assim prejudicada, o pecado te afligirá, e afligirá teu reino também, e inspirará teu povo com medo como aves pequenas à visão de um falcão. Teu reino então desaparecerá como um barco destruído no mar. Se um rei governa seus súditos com injustiça, o medo toma posse de seu coração e a porta do céu é fechada contra ele. Um reino, ó touro entre homens, tem sua base na justiça. Aquele ministro, ou filho do rei, que age injustamente, ocupando o assento de justiça, e aqueles oficiais que tendo aceitado o encargo dos negócios (de Estado), agem injustamente, movidos pelo egoísmo, caem todos no inferno junto com o próprio rei. Aqueles homens desamparados que são oprimidos pelos poderosos, e que por causa disto se abandonam em lamentações comoventes e copiosas, têm seu protetor no rei. Em casos de disputa entre dois partidos a decisão deve ser baseada na evidência de testemunhas. Se um dos disputantes não tem testemunhas e é desamparado, o rei deve dar ao caso sua melhor consideração. O rei deve fazer o castigo ser infligido aos ofensores de acordo com a extensão de suas ofensas. Os que são ricos devem ser punidos com multas e confiscos; e os que são pobres com perda de liberdade. Aqueles que são de uma conduta muito perversa devem ser punidos pelo rei até com castigos corpóreos. O rei deve apreciar todos os homens bons com palavras agradáveis e presentes de riqueza. Aquele que procura realizar a morte do rei deve ser punido com morte a ser efetuada por meios diversos. O mesmo deve ser o castigo de quem é culpado de incêndio criminoso ou roubo ou coabitação com mulheres de modo que possa levar a uma confusão de castas. Um rei, ó monarca, que inflige punições devidamente e conforme os ditames da ciência de castigo não incorre em pecado pela ação. Por outro lado, ele ganha mérito eterno. O rei tolo que inflige castigos caprichosamente ganha infâmia aqui e cai no inferno após a morte. Uma pessoa não deve ser punida pelo erro de outra. Refletindo bem sobre o código (criminal), uma pessoa deve ser condenada ou absolvida. Um rei nunca deve matar um enviado sob nenhuma circunstância. Aquele rei que mata um enviado cai no inferno com todos os seus ministros. O rei observador das práticas Kshatriya que mata um enviado que profere fielmente a mensagem da qual está incumbido, faz os espíritos de seus antepassados falecidos serem maculados pelo pecado de matar um feto. Um enviado deve possuir estas sete habilidades, isto é, ele deve ser nobre de nascimento, de uma boa família, eloquente, inteligente, de palavras amáveis, fiel em entregar a mensagem da qual está encarregado, e dotado de uma boa memória. O ajudante de campo do rei que protege sua pessoa deve ser dotado de qualidades similares. O oficial que protege sua capital ou fortaleza também deve possuir os mesmos talentos. O ministro do rei deve ser familiarizado com as conclusões das escrituras e competente em dirigir guerras e fazer tratados. Ele deve, além disso, ser inteligente, corajoso, modesto, e capaz de guardar segredos. Ele deve também ser nobre de nascimento e dotado de força mental, e puro em conduta. Se possuidor destas qualidades, ele deve ser considerado digno. O comandante das tropas do rei deve possuir talentos similares. Ele deve também conhecer os diferentes tipos de formações de combate e os usos de máquinas e armas. Ele deve ser capaz de suportar exposição à chuva, frio, calor, e vento, e vigilante dos pontos fracos de inimigos. O rei, ó monarca, deve ser capaz de acalmar seus inimigos com um senso de segurança. Ele não deve, no entanto, confiar em ninguém. Depositar confiança mesmo em seu próprio filho não é aprovado. Eu agora, ó impecável, declarei para ti quais são as conclusões das escrituras. Recusa em confiar em alguém é citada como um dos mais altos mistérios da arte de reinar.'" "Yudhishthira disse, 'Qual deve ser o tipo de cidade dentro da qual o próprio rei deve morar? Ele deve escolher uma já feita ou ele deve fazer uma ser especialmente construída? Diga-me isto, ó avô!'” "Bhishma disse, 'É apropriado, ó Bharata, perguntar sobre a conduta a ser seguida e as defesas que devem ser adotadas em relação à cidade na qual, ó filho de Kunti, um rei deve residir. Eu irei, portanto, discorrer para ti sobre o assunto, referente especialmente às defesas de fortalezas. Tendo me escutado, tu deves fazer os arranjos necessários e te comportar atentamente como indicado. Mantendo em vista os seis diferentes tipos de fortalezas, o rei deve construir suas cidades contendo todas as espécies de riquezas e todos os outros artigos de utilidade em abundância. Aquelas seis variedades são fortalezas na água, fortalezas na terra, fortalezas na colina, fortalezas humanas, fortalezas na lama, e fortalezas na floresta. (Fortalezas na água são aquelas que são cercadas por todos os lados por um rio ou rios, ou o oceano. Fortalezas na terra são aquelas que são construídas em planícies, guarnecidas com muros altos e totalmente rodeadas com trincheiras. Fortalezas humanas são cidades não fortificadas protegidas apropriadamente por guardas e uma população leal.) O rei, com seus ministros e o exército totalmente leal a ele, deve residir naquela cidade que é defendida por uma fortaleza que contém um estoque abundante de arroz e armas, que é protegida com muros impenetráveis e uma trincheira, que é cheia de elefantes e corcéis e carros, que é habitada por homens possuidores de conhecimento e versados nas artes mecânicas, onde mantimentos de todos os tipos são bem armazenados, cuja população é virtuosa em conduta e inteligente em negócios e que consiste em homens e animais fortes e energéticos, que é adornada com muitas praças abertas e fileiras de lojas, onde o comportamento de todas as pessoas é justo, onde a paz prevalece, onde nenhum perigo existe, que resplandece com beleza e ressoa com músicas e canções, onde as casas são todas espaçosas, onde os residentes numeram entre eles muitos indivíduos ricos e corajosos, que ecoa com o cântico de hinos Védicos, onde festividades e regozijos acontecem frequentemente, e onde as divindades são sempre adoradas. Residindo lá, o rei deve estar empenhado em encher sua tesouraria, aumentar suas tropas, aumentar o número de seus amigos, e estabelecer cortes de justiça. Ele deve reprimir todos os abusos e males em suas cidades e suas províncias. Ele deve se dedicar a reunir mantimentos de todos os tipos e a encher seus arsenais com cuidado. Ele deve também aumentar seus suprimentos de arroz e outros grãos, e fortalecer seus conselhos (com sabedoria). Ele deve em seguida aumentar seus estoques de combustível, ferro, resíduos de cereais, carvão, madeira, cornos, ossos, bambus, polpas, óleos e ghee, gordura, mel, remédios, linho, exsudações resinosas, arroz, armas, flechas, couro categute (para cordas de arco), transportes, e barbantes e cordas feitas de erva munja e outras plantas e trepadeiras. Ele deve também aumentar o número de tanques e poços, contendo grandes quantidades de água, e deve proteger todas as árvores suculentas. (Tais como figueira-de-bengala, figueira-dos-pagodes, etc. Estas fornecem sombra refrescante para viajantes queimados pelo sol.) Ele deve entreter com respeito e atenção preceptores (de diferentes ciências), Ritwijas, e sacerdotes, arqueiros poderosos, pessoas hábeis em arquitetura, astrônomos e astrólogos, e médicos, como também todos os homens possuidores de sabedoria e inteligência e autodomínio e habilidade e coragem e erudição e nascimento nobre e energia mental, e capazes de aplicação precisa em todos os tipos de trabalho. O rei deve honrar os justos e castigar os injustos. Ele deve, agindo com resolução, designar as várias classes para seus respectivos deveres. Averiguando apropriadamente, por meio de espiões, o comportamento externo e o estado de espírito dos habitantes de sua cidade e províncias, ele deve adotar aquelas medidas que possam ser necessárias. O rei deve supervisionar ele mesmo seus espiões e conselhos, sua tesouraria, e as agências para infligir punições. Pode-se dizer que tudo depende destes. Com espiões constituindo sua visão, o rei deve averiguar todas as ações e intenções de seus inimigos, amigos, e neutros. Ele deve então, com atenção, planejar suas próprias medidas, honrando aqueles que são leais a ele e punindo aqueles que são hostis. O rei deve sempre adorar os deuses em sacrifícios e fazer doações sem causar sofrimento a ninguém. Ele deve proteger seus súditos, nunca fazendo qualquer coisa que possa obstruir ou impedir a justiça. Ele deve sempre manter e proteger os desamparados, os abandonados, os idosos, e as mulheres que são viúvas. O rei deve sempre honrar os ascetas e fazes doações para eles, em épocas apropriadas, de tecidos e recipientes e alimento. O rei deve, com cuidado atento, informar os ascetas (dentro de seus domínios) do estado de sua própria pessoa, de todas as suas medidas, e do reino, e deve sempre se comportar com humildade na presença deles. Quando ele vir ascetas nobres de nascimento e grande erudição que abandonaram todos os objetos mundanos, ele deve honrá-los com doações de camas e assentos e comida. Qualquer que seja a natureza da desgraça na qual ele possa cair, ele deve confiar em um asceta. Os próprios ladrões depositam confiança em pessoas daquele caráter. O rei deve colocar sua riqueza a cargo de ascetas e deve receber sabedoria deles (isto é, consultar com eles). Ele não deve, no entanto, sempre visitá-los ou cultuá-los em todas as ocasiões. (Para que ladrões não possam matá-los, suspeitando que eles são os depositários da riqueza do rei.) Dentre aqueles residentes em seu próprio reino, ele deve escolher um para amizade. Similarmente, ele deve escolher outro dentre aqueles que residem no reino de seu inimigo. Ele deve escolher um terceiro dentre aqueles que residem nas florestas, e um quarto dentre aqueles que residem nos reinos que pagam tributo a ele. Ele deve mostrar hospitalidade e conceder honras a eles e lhes atribuir os meios de sustento. Ele deve se comportar em direção aos ascetas que residem nos reinos de inimigos e nas florestas da mesma maneira como em direção àqueles que residem em seu próprio reino. Engajados em penitências e de votos rígidos, se a calamidade alcançar o rei e se ele solicitar proteção, eles concederão a ele o que ele quiser. Eu agora te disse em síntese as indicações da cidade na qual o rei deve residir.'" "Yudhishthira disse, 'Como, ó rei, um reino pode ser consolidado e protegido? Eu desejo saber isso. Diga-me tudo isso, ó touro da raça Bharata!' "Bhishma disse, 'Ouça-me com atenção concentrada. Eu te direi como um reino pode ser consolidado, e como também ele pode ser protegido. Um líder deve ser selecionado para cada aldeia. Sobre dez aldeias (ou dez líderes) deve haver um superintendente. Sobre dois tais superintendentes deve haver um oficial (tendo o controle, portanto, de vinte aldeias). Sobre os últimos devem ser nomeadas pessoas sob cada uma das quais deve haver uma centena de aldeias; e sobre o último tipo de oficiais, devem ser nomeados homens cada um dos quais deve ter mil aldeias sob seu controle. O líder deve averiguar as características de todas as pessoas na aldeia e todas as falhas também que precisam de correção. Ele deve relatar tudo para o oficial (que está acima dele e) a cargo de dez aldeias. O último, também, deve relatar o mesmo ao oficial (que está acima dele e) a cargo de vinte aldeias. O último, por sua vez, deve relatar a conduta de todas as pessoas dentro de seu domínio ao oficial (que está acima dele e) a cargo de cem aldeias. O chefe da aldeia deve ter controle sobre toda a produção e as posses da aldeia. Cada líder deve contribuir com sua parte para manter o senhor de dez aldeias, e o último deve fazer o mesmo para manter o senhor de vinte aldeias. O senhor de cem aldeias deve receber toda a honra do rei e deve ter para o seu sustento uma aldeia grande, ó chefe dos Bharatas, populosa e cheia de riqueza. Tal aldeia, assim atribuída a um senhor de cem aldeias, deve estar, no entanto, dentro do controle do senhor de mil aldeias. Aquele oficial superior, também, isto é, o senhor de mil aldeias, deve ter uma cidade menor para seu sustento. Ele deve desfrutar dos grãos e ouro e outras posses deriváveis dela. Ele deve realizar todos os deveres de suas guerras e outros assuntos internos concernentes a ela. Algum ministro virtuoso, com caráter colérico, deve exercer supervisão sobre os assuntos administrativos e relações mútuas daqueles oficiais. Em cada cidade, também, deve haver um oficial para se encarregar de todas as questões relativas à sua jurisdição. Como um planeta de forma terrível se movendo sobre todas as constelações abaixo, o oficial (com plenos poderes) mencionado por último deve se mover e agir sobre todos os oficiais subordinados a ele. Tal oficial deve averiguar a conduta daqueles sob ele através de seus espiões. Tais altos oficiais devem proteger o povo de todas as pessoas de tendências homicidas, de todos homens de atos pecaminosos, de todos os que roubam as riquezas de outras pessoas, de todos os que são cheios de falsidade, e de todos os que são considerados como possuídos pelo Gênio do mal. Tomando nota das vendas e das compras, do estado das estradas, da alimentação e vestuário, e dos estoques e lucros daqueles que são dedicados ao comércio, o rei deve arrecadar impostos deles. Averiguando em todas as ocasiões a extensão das fabricações, as receitas e despesas daqueles que são encarregados delas, e o estado das artes, o rei deve arrecadar impostos dos artesãos em relação à profissão que eles seguem. O rei, ó Yudhishthira, pode cobrar impostos altos, mas ele nunca deve arrecadar tal quantidade de impostos que possa enfraquecer seu povo. Nenhum tributo deve ser arrecadado sem averiguar o rendimento e a quantidade de trabalho que foi necessária para produzi-lo. Ninguém trabalharia ou buscaria rendimentos sem causa suficiente. (Se uma margem de lucro suficiente, capaz de manter uma pessoa com conforto, não fosse deixada, ela se absteria totalmente do trabalho. O rei, portanto, ao taxar os rendimentos do trabalho, deve deixar tal margem de lucro para os produtores.) O rei deve, depois de reflexão, arrecadar impostos de tal modo que ele e a pessoa que trabalha para produzir o artigo tributado possam ambos partilhar o valor. O rei não deve, por sua sede, destruir seus próprios alicerces como também aqueles de outros. Ele deve sempre evitar aquelas ações pelas quais ele possa se tornar um objeto de ódio para seu povo. De fato, por agir dessa maneira ele pode conseguir ganhar popularidade. Os súditos odeiam o rei que ganha notoriedade pela voracidade de apetite (na questão de taxas e impostos). Como pode ter prosperidade um rei que se torna um objeto de ódio? Tal rei nunca pode obter o que é para o seu bem. Um rei que tem uma boa inteligência deve ordenhar seu reino como na seguinte analogia de (homens agindo na questão dos) bezerros. Se ao bezerro for permitido mamar ele cresce forte, ó Bharata, e suporta cargas pesadas. Se, por outro lado, ó Yudhishthira, a vaca for ordenhada demais, o bezerro fica magro e falha em fazer muito serviço para o dono. Similarmente, se o reino for muito drenado, os súditos fracassam em realizar qualquer ato que seja grande. O rei que protege seu reino ele mesmo e mostra generosidade para seus súditos (na questão de taxas e impostos) e se sustenta do que é facilmente obtido, consegue obter resultados muitos grandes. O rei então não obtém riqueza suficiente para lhe permitir poder com suas necessidades? (Os súditos então, em ocasiões de necessidade de seu soberano, se apressam a colocar seus recursos à disposição dele.) O reino inteiro, naquele caso, se torna para ele sua tesouraria, enquanto aquela que é sua tesouraria se torna seu quarto de dormir. Se os habitantes das cidades e das províncias forem pobres, o rei deve, se eles dependem dele imediatamente ou mediatamente, lhes mostrar compaixão da melhor maneira que puder. Castigando todos os ladrões que infestam os arredores, o rei deve proteger o povo de suas aldeias e fazê-los felizes. Os súditos, nesse caso, se tornando participantes da prosperidade e do infortúnio do rei, se sentem extremamente satisfeitos com ele. Pensando, em primeiro lugar, em reunir riqueza, o rei deve ir aos principais centros de seu reino um depois do outro e se esforçar para inspirar seu povo com pavor. Ele deve dizer a eles, ‘Agora, a calamidade nos ameaça. Um grande perigo surgiu por causa das ações do inimigo. Há todas as razões, no entanto, para termos esperança de que o perigo passará, pois o inimigo, como um bambu que floresceu, logo encontrará a destruição. Muitos inimigos meus, tendo se levantado e combinado com um grande número de ladrões, desejam colocar nosso reino em dificuldades, para encontrar com a destruição eles mesmos. Em vista dessa grande calamidade repleta de perigo terrível, eu peço sua riqueza para planejar os meios de sua proteção. Quando o perigo passar, eu lhes darei o que eu agora recebo. Nossos inimigos, no entanto, não irão devolver o que eles (se não forem resistidos) pegarem de vocês à força. Por outro lado (se não resistidos), eles irão até matar todos os seus parentes começando com seus próprios cônjuges. Vocês certamente desejam riqueza por causa de seus filhos e esposas. Eu estou feliz com sua prosperidade, e eu suplico a vocês como eu faria com meus próprios filhos. Eu levarei de vocês somente o que estiver dentro do seu poder me dar. Eu não desejo causar sofrimento a ninguém. Em tempos de calamidade, você devem, como touros fortes, suportar tais cargas. Em épocas de infortúnio, a riqueza não deve ser tão cara a vocês.’ Um rei familiarizado com as considerações relativas ao Tempo deve, com tais palavras agradáveis, gentis, e corteses, enviar seus agentes e coletar impostos de seu povo. Mostrando para eles a necessidade de consertar suas fortificações e de custear as despesas de seu estabelecimento e de outras coisas importantes, inspirando-os com o temor de uma invasão estrangeira, e impressionando-os com a necessidade que existe de protegê-los e de lhes permitir assegurar os meios de viver em paz, o rei deve arrecadar impostos dos Vaisyas de seu reino. Se o rei desconsidera os Vaisyas, eles se tornam perdidos para ele, e abandonando seus domínios eles se mudam para as florestas. O rei deve, portanto, se comportar com indulgência em direção a eles. O rei, ó filho de Pritha, deve sempre conciliar e proteger os Vaisyas, adotar medidas para lhes dar um senso de segurança e para protegê-los no desfrute de suas posses, e sempre fazer o for agradável para eles. O rei, ó Bharata, deve sempre agir de tal maneira em direção aos Vaisyas que seus poderes produtivos possam ser aumentados. Os Vaisyas aumentam a força de um reino, melhoram sua agricultura, e desenvolvem seu comércio. Um rei sábio, portanto, deve sempre gratificá-los. Agindo com atenção e indulgência, ele deve arrecadar impostos moderados deles. É sempre fácil se comportar com bondade em direção aos Vaisyas. Não há nada que produza um bem maior para um reino, ó Yudhishthira, do que a adoção de tal comportamento para com os Vaisyas do reino.'" 88 "Yudhishthira disse: 'Diga-me, ó avô, como o rei deve se comportar se, apesar da sua grande riqueza, ele desejar mais.'” "Bhishma disse, 'Um rei, desejoso de ganhar mérito religioso deve se dedicar ao bem de seus súditos e protegê-los de acordo com considerações de tempo e lugar e com o melhor de sua inteligência e poder. Ele deve, em seus domínios, adotar todas as medidas que em sua avaliação possam assegurar o bem deles com também o dele próprio. Um rei deve ordenhar seu reino como uma abelha coletando mel das plantas. (Isto é, sem prejudicar a fonte.) Ele deve agir como o dono de uma vaca que tira leite dela sem furar seus úberes e sem fazer o bezerro passar fome. O rei deve (na questão das taxas) agir como a sanguessuga tirando sangue brandamente. Ele deve agir com seus súditos como uma tigresa na questão de carregar seus filhotes, tocando-os com seus dentes mas nunca perfurando-os com eles. Ele deve se comportar como um camundongo que embora possua dentes afiados e pontudos ainda corta os pés de animais adormecidos de tal maneira que eles não se tornam em absoluto conscientes disto. Pouco a pouco deve ser tirado de um súdito em crescimento e dessa maneira ele deve ser tosquiado. A demanda deve então ser aumentada gradualmente até que o que é tirado assuma uma proporção justa. O rei deve aumentar a carga de seus súditos gradualmente como uma pessoa aumentando gradualmente as cargas de um boi jovem. Agindo com cuidado e suavidade, ele deve finalmente por as rédeas neles. Se as rédeas são assim colocadas, eles não se tornam intratáveis. De fato, medidas adequadas devem ser empregadas para fazê-los obedientes. Meros rogos para reduzi-los à submissão não o farão. É impossível se comportar igualmente para com todos os homens. Conciliando aquelas que são principais, as pessoas comuns devem ser reduzidas à obediência. Produzindo desunião (através da ação de seus líderes) entre as pessoas comuns que devem suportar as cargas, o rei deve ele mesmo apresentar- se para conciliá-las e então desfrutar em felicidade do que ele conseguir tirar delas. O rei nunca deve impor taxas inadequadamente e sobre pessoas incapazes de arcar com elas. Ele deve impô-las gradualmente e com conciliação, em tempos apropriados e segundo as formas devidas. Estes artifícios que eu declaro para ti são meios legítimos da arte de reinar. Eles não são considerados como métodos repletos de falsidade. Alguém que procura governar corcéis por métodos impróprios somente os deixa furiosos. Bares, mulheres públicas, cafetões, atores, jogadores e donos de casas de jogo, e outras pessoas deste tipo, que são fontes de desordem para o estado, devem todas ser controladas. Residindo dentro do reino, elas afligem e prejudicam as melhores classes de súditos. Ninguém deve pedir nada de ninguém quando não há necessidade. O próprio Manu antigamente declarou esta injunção em relação a todos os homens. Se todos os homens fossem viver por pedir ou mendigar e se abstivessem de trabalhar, o mundo sem dúvida acabaria. Somente o rei é competente para reprimir e controlar. O rei que não reprime seus súditos (de pecar) ganha uma quarta parte dos pecados cometidos pelo seu povo (por causa da ausência de proteção real). Esta é a declaração dos Srutis. Já que o rei partilha dos pecados e dos méritos de seus súditos ele deve, portanto, ó monarca, reprimir aqueles seus súditos que são pecaminosos. O rei que negligencia a restrição se torna ele mesmo pecaminoso. Ele ganha (como já foi dito) uma quarta parte dos pecados deles assim como uma quarta parte de seus méritos. As seguintes falhas das quais eu falo devem ser controladas. Elas empobrecem a todos. Qual ato pecaminoso há que uma pessoa governada pela paixão não faça? Uma pessoa governada pela paixão se vicia em estimulantes e carne, e se apropria das esposas e da riqueza de outras pessoas, e estabelece um mau exemplo (para ser imitado por outros). Aqueles que não vivem de esmolas podem mendigar em épocas de miséria. O rei deve, observador de justiça, fazer doações a eles por compaixão mas não por medo. Que não aja mendigos em teu reino, nem ladrões. São os ladrões (e não homens virtuosos) que doam para mendigos. Tais doadores não são verdadeiros benfeitores de homens. Que residam em teus domínios homens que auxiliem os interesses de outros e que lhes façam bem, mas não aqueles que exterminam outros. Aqueles oficiais, ó rei, que pegam dos súditos mais do que é devido devem ser punidos. Tu deves então nomear outros que pegarão somente o que é devido. Agricultura, criação de gado, comércio e outras ações de natureza similar, devem ser feitos serem exercidos por muitas pessoas sobre o princípio da divisão de trabalho. Se uma pessoa dedicada à agricultura, criação de gado, ou comércio, se torna inspirada com um senso de insegurança (por causa de ladrões e oficiais tirânicos), o rei, como uma consequência, incorre em infâmia. O rei deve sempre honrar aqueles seus súditos que são ricos e deve dizer a eles, 'Juntos, favoreçamos os interesses do povo.' Em todos os reinos, aqueles que são ricos constituem um patrimônio no reino. Sem dúvida, uma pessoa rica é o principal dos homens. Aquele que é sábio, ou corajoso, ou rico ou influente, ou justo, ou dedicado a penitências, ou verdadeiro em palavras, ou dotado de inteligência, ajuda na proteção (dos súditos seus companheiros). Por essas razões, ó monarca, ame todas as criaturas, e mostre as qualidades de honestidade, sinceridade, ausência de ira, e abstenção de ferir! Tu deves assim manejar a vara de castigo, e aumentar tua tesouraria e auxiliar teus amigos e consolidar teu reino dessa maneira, praticando as qualidades de veracidade e sinceridade e apoiado por teus amigos, tesouraria e tropas!'" 89 "Bhishma disse, 'Que as árvores que produzem frutos comestíveis são sejam derrubadas em teus domínios. Frutas e raízes constituem a propriedade dos Brahmanas. Os sábios declaram que esta é uma ordenança de religião. O excedente, depois de sustentar os Brahmanas, deve ir para o sustento de outras pessoas. Ninguém deve pegar qualquer coisa por fazer uma injúria para os Brahmanas. (Isto é, antes de eles estarem satisfeitos). Se um Brahmana, afligido por falta de sustento, deseja abandonar um reino para obter o meio de vida (em outro lugar), o rei, ó monarca, deve, com afeição e respeito, conceder a ele os meios de sustento. Se ele ainda não desistir (de deixar o reino), o rei deve ir para uma assembleia de Brahmanas e dizer, 'Tal Brahmana está deixando o reino. Em quem meu povo então encontrará uma autoridade para guiá-lo?' (Os Brahmanas são autoridades para guiar outros homens. Quando, portanto, um Brahmana específico deixa o reino, o povo perde nele um amigo, professor, e guia.) Se depois disso ele não desistir de sua intenção de ir embora, e dizer qualquer coisa, o rei deve dizer a ele, 'Esqueça o passado'. (Isto é, se a pessoa que pretende partir se refere a uma negligência anterior do rei, o rei deve pedir perdão e, é claro, atribuir a ele os meios de sustento.) Este, ó filho de Kunti, é o caminho eterno do dever real. O rei deve em seguida dizer a ele, 'De fato, ó Brahmana, as pessoas dizem que deve ser concedido para um Brahmana apenas o suficiente para mantê-lo. Eu, no entanto, não aceito aquela opinião. Por outro lado, eu penso que se um Brahmana procura deixar um reino por causa da negligência do rei em lhe fornecer os meios de sustento, tais meios devem ser atribuídos a ele, e, em seguida, se ele pretende dar aquele passo para obter os meios de luxo, a ele ainda deve ser pedido para ficar e ser suprido até com aqueles meios.’ Agricultura, criação de gado, e comércio, fornecem para todos os homens os meios de vida. Um conhecimento dos Vedas, no entanto, fornece a eles os meios de alcançar o céu. Aqueles, portanto, que obstruem o estudo dos Vedas e a causa de práticas Védicas devem ser considerados como inimigos da sociedade. É para o extermínio destes que Brahman criou os Kshatriyas. Subjugue teus inimigos, proteja teus súditos, adore as divindades em sacrifícios, e lute batalhas com coragem, ó alegrador dos Kurus! Um rei deve proteger aqueles que merecem proteção. O rei que faz isso é o melhor dos soberanos. Os reis que não exercem o dever de proteção vivem uma vida inútil. Para o benefício de todos os seus súditos o rei deve sempre procurar averiguar as ações e pensamentos de todos, ó Yudhishthira; e por essa razão deve colocar espiões e agentes secretos. Protegendo outros de ti mesmo, e tu mesmo de outros, como também outros de outros, e tu de ti mesmo, sempre cuide do teu povo. Protegendo sua própria pessoa de todos primeiro, o rei deve proteger a terra. Homens de conhecimento dizem que tudo tem sua base na própria pessoa. O rei deve sempre refletir sobre estes, isto é, quais são seus pontos fracos, em quais maus hábitos ele é viciado, quais são as fontes de sua fraqueza, e quais são as fontes de seus erros. O rei deve fazer agentes secretos e de confiança vagarem pelo reino para averiguar se sua conduta como exposta no dia anterior encontrou ou não a aprovação do povo. De fato, ele deve averiguar se sua conduta é ou não é geralmente elogiada, ou, se ela é ou não aceitável para o povo das províncias, e se ele tem ou não tem conseguido ganhar um bom nome em seu reino. Entre aqueles que são virtuosos e possuidores de sabedoria, aqueles que nunca se retiram da batalha, e aqueles que não residem em teu reino, aqueles que são dependentes de ti, e aqueles que são teus ministros, assim como os que são independentes de partido, aqueles que te louvam ou te culpam nunca devem ser objetos de desconsideração por ti, ó Yudhishthira! (Isto é, tu deves te interessar por tal opinião, sem ficar zangado com aqueles que te criticam ou te acusam.) Nenhum homem, ó majestade, pode conseguir ganhar a boa opinião de todas pessoas no mundo. Todas as pessoas têm amigos, inimigos, e neutros, ó Bharata!'” "Yudhishthira disse, 'Entre pessoas todas as quais são iguais em poder de armas e talentos, de onde uma adquire superioridade sobre todo o resto, e por qual motivo ela consegue o domínio sobre elas?'” "Bhishma disse, 'Criaturas que são móveis devoram coisas que são imóveis; animais que têm dentes devoram aqueles que não têm dentes; cobras coléricas de veneno virulento devoram as menores de sua própria espécie. (Conforme este princípio), entre os seres humanos também, o rei que é forte vitima aqueles que são fracos. O rei, ó Yudhishthira, deve sempre estar atento aos seus súditos como também aos seus inimigos. Se ele se torna descuidado, eles caem sobre ele como urubus (sobre carniça). Cuide, ó rei, para que os comerciantes em teu reino que compram artigos a preços altos e baixos (para venda), e que no decurso de suas viagens têm que dormir ou descansar em florestas e regiões inacessíveis, não sejam afligidos pela imposição de impostos pesados. (Isto é, aqueles que têm que passar por tais privações em exercer sua ocupação proveitosa não devem ser taxados pesadamente.) Não deixe que os agricultores do teu reino o deixem por causa de opressão; eles, que carregam as cargas do rei, também sustentam os outros residentes do reino. As doações feitas por ti neste mundo sustentam os deuses, Pitris, homens, Nagas, Rakshasas, aves, e animais. Esses, ó Bharata, são os meios de governar um reino e de proteger seus soberanos. Eu te falarei novamente sobre o assunto, ó filho de Pandu!'" "Bhishma disse, 'Aquela principal de todas as pessoas conhecedoras dos Vedas, Utathya da linhagem de Angirasa, falou alegremente (em uma ocasião passada) para o filho de Yuvanaswa, Mandhatri. Eu irei agora, ó Yudhishthira, narrar para ti tudo o que Utathya, aquela principal de todas as pessoas familiarizadas com os Vedas, disse para aquele rei.'” "Utathya disse, 'Alguém se torna um rei para agir nos interesses da justiça e não para se comportar caprichosamente. Saiba disto, ó Mandhatri; o rei é, de fato, o protetor do mundo. Se o rei age justamente, ele alcança a posição de um deus (isto é, vai para o céu). Por outro lado, se ele age injustamente, ele cai no inferno. Todas as criaturas se apóiam na justiça. A justiça, por sua vez, se apóia no rei. O rei, portanto, que mantém a justiça, é realmente um rei. Aquele rei que é dotado de uma alma justa e com todos os tipos de graça é citado como uma encarnação da virtude. Se um rei fracassa em castigar a injustiça, os deuses abandonam sua mansão e ele incorre na desonra entre homens. Os esforços de homens que cumprem seus próprios deveres são sempre coroados com sucesso. Por essa razão todos os homens procuram obedecer aos ditames de justiça que é produtiva de prosperidade. Quando a pecaminosidade não é reprimida, o comportamento justo chega ao fim e o comportamento injusto aumenta imensamente. Quando a pecaminosidade não é reprimida, ninguém pode, segundo os direitos de propriedade como declarado nas escrituras, dizer, 'Esta coisa é minha e esta não é minha'. Quando a pecaminosidade prevalece no mundo, os homens não podem possuir e desfrutar de suas próprias esposas e animais e campos e casas. As divindades não recebem culto, os Pitris nenhuma oferenda em Sraddhas, e os convidados nenhuma hospitalidade, quando a pecaminosidade não é reprimida. As classes regeneradas não estudam os Vedas, ou cumprem votos superiores, ou expandem sacrifícios, quando a pecaminosidade não é reprimida. As mentes dos homens, ó rei, se tornam fracas e confusas como aquelas de pessoas feridas por armas, quando a pecaminosidade não é reprimida. Lançando seus olhos em ambos os mundos, os Rishis fizeram o rei, aquele ser superior, planejando que ele seria a encarnação da justiça sobre a terra. (Bhishma diz que este discurso é muito antigo. Provavelmente este verso se refere à idéia do escritor dos motivos que impeliram os Rishis de Brahmavarta quando eles decidiram para sua colônia indiana a forma de governo real.) É chamado de Rajan aquele em quem a justiça brilha. O rei em quem não há justiça é chamado de Vrishala. (Este verso dá a etimologia da palavra Rajan e Vrishala. Ele em quem a justiça, brilha (rajate) é um Rajan; e ele em quem a justiça, chamada Vrisha, desaparece, é um Vrishala.) O divino Dharma (justiça) tem outro nome, isto é, Vrisha. Aquele que enfraquece Vrisha é chamado pelo nome de Vrishala. Um rei deve, portanto, promover a causa da justiça. Todas as criaturas crescem no crescimento da justiça, e decaem com a decadência dela. À justiça, portanto, nunca deve ser permitido decair. A justiça é chamada de Dharma porque ela ajuda a aquisição e conservação de riqueza (Dhana). Os sábios, ó rei, declaram que Dharma reprime e coloca limites em todos os maus atos dos homens. O nascido por si mesmo (Brahman) criou Dharma para o avanço e crescimento das criaturas. Por esta razão, um rei deve agir segundo os ditames de Dharma para beneficiar seus súditos. Por esta razão também, ó tigre entre reis, Dharma é citado como a principal de todas as coisas. Aquele principal dos homens que governa seus súditos justamente é chamado de rei. Desconsiderando luxúria e ira, cumpra os ditames de justiça. Entre todas as coisas, ó chefe da linhagem de Bharata, que levam à prosperidade dos reis, a justiça é a principal. Dharma, além disso, surgiu do Brahmana. Por esta razão, o Brahmana deve sempre ser adorado. Tu deves, ó Mandhatri, satisfazer com humildade os desejos de Brahmanas. Por negligenciar satisfazer os desejos dos Brahmanas, o rei traz perigo sobre si mesmo. Por tal omissão, ele fracassa em obter alguma adesão de amigos enquanto seus inimigos aumentam em número. Em consequência de malícia em direção aos Brahmanas, surgida de sua tolice, a deusa da prosperidade, que tinha antigamente morado com ele, ficou enfurecida e abandonou o Asura Vali, o filho de Virochana. Abandonando o Asura ela foi até Indra, o chefe das divindades. Vendo a deusa vivendo com Purandara, Vali se entregou a muitos arrependimentos inúteis. Esses, ó poderoso, são os resultados da malícia e do orgulho. Fique vigilante, ó Mandhatri, para que a deusa da prosperidade não te abandone enfurecida. Os Srutis declaram que a Injustiça gerou um filho chamado Orgulho na deusa da prosperidade. Este Orgulho, ó rei, levou muitos dentre os deuses e os Asuras à ruína. Muitos sábios reais também foram destruídos por causa dele. Esteja, portanto, atento, ó rei! Aquele que o consegue conquistar se torna um rei. Aquele, por outro lado, que permite a si mesmo ser conquistado por ele, se torna um escravo. Se, ó Mandhatri, tu desejas uma vida eterna (de felicidade), viva como um rei que não se entrega a estes dois, isto é, Orgulho e Injustiça! Abstenha-te da companhia daquele que está embriagado (com orgulho), daquele que é desatento (aos ditames de honestidade), daquele que zomba da religião, daquele que é insensato, e te abstenha de cortejar a todos eles quando unidos. Mantenha tua pessoa afastada da companhia dos ministros a quem tu puniste uma vez e especialmente de mulheres, como também de montanhas e terras acidentadas e fortalezas inacessíveis e elefantes e cavalos e répteis (nocivos). Tu deves também desistir de vagar durante a noite, e evitar os defeitos de mesquinhez e vaidade e jactância e ira. Tu nunca deves ter relacionamento com mulheres desconhecidas, ou com aquelas de sexo equívoco, ou aquelas que são lascivas, ou aquelas que são esposas de outros homens, ou aquelas que são virgens. Quando o rei não reprime o vício, uma confusão de castas se segue, e Rakshasas pecaminosos, e pessoas de sexo neutro, e crianças desprovidas de membros ou possuidoras de línguas grossas, e idiotas, começam a nascer até em famílias respeitáveis. Portanto, o rei deve ter um cuidado especial em agir justamente, para o benefício de seus súditos. Se um rei age negligentemente, um grande mal se torna a consequência. A injustiça aumenta causando uma confusão de castas. O frio se manifesta durante os meses de verão, e desaparece quando sua estação apropriada chega. Secas e enchentes e pestilências afligem o povo. Estrelas ameaçadoras surgem e cometas ameaçadores aparecem em tais ocasiões. Diversos outros presságios, indicando a destruição do reino, aparecem. Se o rei não toma medidas para a sua própria segurança e não protege seus súditos, os últimos primeiro encontram a destruição e então a destruição apanha o próprio rei. Duas pessoas combinam de roubarem juntas a riqueza de alguém, e muitas agindo em acordo roubam as duas. Donzelas são defloradas. Tal estado de coisas é citado como resultante das falhas do rei. Todos os direitos de propriedade acabam entre os homens, quando o rei, abandonando a justiça, age negligentemente.'" 91 "Utathya disse, 'Se a divindade das nuvens despeja chuva na estação apropriada e o rei age virtuosamente, a prosperidade que se segue mantém os súditos em felicidade. O lavadeiro que não sabe como lavar a sujeira do tecido sem tirar sua tintura é muito inábil em sua profissão. A pessoa entre os Brahmanas ou Kshatriyas ou Vaisyas que, tendo abandonado os deveres apropriados de sua classe, se torna um Sudra, é realmente para ser comparado com tal lavadeiro. Serviço humilde se atribui ao Sudra; agricultura ao Vaisya; a ciência de punição ao Kshatriya, e Brahmacharya, penitências, mantras, e honestidade, ao Brahmana. O Kshatriya que sabe como corrigir os erros de comportamento das outras classes e removê-los como um lavadeiro é realmente o pai delas e merece ser seu rei. As respectivas eras chamadas Krita, Treta, Dwapara e Kali, ó touro da raça Bharata, dependem todas da conduta do rei. É o rei que constitui a era. (Pois se ele age justamente, a era que inicia é Krita, se, por outro lado, ele age pecaminosamente, ele faz a era Kali começar.) As quatro classes, os Vedas e os deveres em relação aos quatro modos de vida ficam todos confusos e enfraquecidos quando o rei se torna negligente. Os três tipos de Fogo, os três Vedas, e sacrifícios com Dakshina, todos se perdem quando o rei se torna negligente. O rei é o criador de todas as criaturas, e o rei é seu destruidor. O rei que é de alma justa é considerado como o criador, enquanto aquele que é pecaminoso é considerado como o destruidor. As esposas do rei, filhos, parentes, e amigos, se tornam todos infelizes e sofrem quando o rei é negligente. Elefantes e corcéis e vacas e camelos e mulas e jumentos e outros animais todos perdem seu vigor quando o rei se torna injusto. É dito, ó Mandhatri, que o Criador criou o Poder (representado pelo rei) para o objetivo de proteger a Fraqueza. A Fraqueza é, de fato, um grande ser, pois tudo depende dela. (Aquele que protege a Fraqueza ganha o céu, enquanto aquele que a persegue vai para o inferno. A Fraqueza, dessa maneira, é uma grande coisa. Seu poder, por assim dizer, é tal que ela pode levar para o céu e inferno todos com os quais ela possa entrar em contato.) Todas as criaturas adoram o rei. Todas as criaturas são os filhos do rei. Se, portanto, ó monarca, o rei se torna injusto, todas as criaturas são prejudicadas. Os olhares do fraco, do Muni, e da cobra de veneno virulento, devem ser considerados como insuportáveis. Não entre, portanto, em contato (hostil) com os fracos. Tu deves considerar os fracos como sempre sujeitos à humilhação. Tome cuidado para que os olhares dos fracos não queimem a ti com teus parentes. Em uma família chamuscada pelos olhares dos fracos, nenhuma criança nasce. Tais olhares queimam a linhagem até suas próprias raízes. Não entre, portanto, em contato (hostil) com os fracos. A Fraqueza é mais poderosa até do que o maior Poder, pois aquele Poder que é queimado pela Fraqueza vem a ser exterminado totalmente. Se uma pessoa, que foi humilhada ou golpeada, fracassa, enquanto gritando por ajuda, em obter um protetor, o castigo divino alcança o rei e causa sua destruição. Ó majestade, enquanto no desfrute do Poder, não tire a riqueza daqueles que são Fracos. Tome cuidado para que os olhares dos Fracos não te queimem como um fogo ardente. As lágrimas derramadas por homens atormentados pelas mentiras matam os filhos e animais daqueles que proferiram tais mentiras. Como uma vaca uma ação pecaminosa cometida não produz resultados imediatos. (O dono de uma vaca tem que esperar pelos bezerros para obter leite). Se o resultado não é visto no próprio perpetrador, ele é visto em seu filho ou no filho de seu filho, ou filho da filha. Quando uma pessoa fraca não encontra um salvador, a grande vara de castigo divino cai (sobre o rei). Quando todos os súditos de um rei (são obrigados pela pobreza) a viver como Brahmanas, por mendicância, tal mendicância traz destruição sobre o rei. Quando todos os oficiais do rei postados nas províncias se unem e agem com injustiça, é dito então que o rei ocasiona um estado de mal genuíno em seu reino. Quando os oficiais do rei extorquem riqueza, por meios injustos ou agindo por luxúria ou avareza, de pessoas que pedem piedade deploravelmente, é certo que uma grande destruição alcançará o rei. Uma árvore imensa, nascendo, cresce até grandes proporções. Numerosas criaturas então se aproximam e procuram sua proteção. Quando, no entanto, ela é derrubada ou consumida em uma conflagração, aqueles que recorreram a ela para se abrigarem ficam todos sem lar. Quando os residentes de um reino realizam atos de justiça e todos os ritos religiosos, e elogiam as boas qualidades do rei, o último colhe um aumento de riqueza. Quando, por outro lado, os residentes, movidos pela ignorância, abandonam a justiça e agem incorretamente, o rei é surpreendido pela miséria. Quando homens pecaminosos cujos atos são conhecidos são permitidos se moverem entre os justos (sem serem punidos por seus delitos), Kali então surpreende os soberanos daqueles reinos. Quando o rei faz com que todas as pessoas pecaminosas sejam punidas, seu reino viceja em prosperidade. Certamente prospera o reino daquele rei que presta honras apropriadas a seus ministros e os emprega em medidas de política e em batalhas. Tal soberano desfruta da vasta terra para sempre. O rei que honra devidamente todas as boas ações e boas palavras consegue ganhar grande mérito. O desfrute de coisas boas depois de dividi-las com outros, a prestação honras apropriadas aos ministros, e a subjugação de pessoas embriagadas com força, constituem o grande dever de um rei. Proteger todos os homens por meio de palavras, exército, e ações, e nunca perdoar seu próprio filho (se ele transgrediu), constituem o grande dever do rei. O sustento daqueles que são fracos por dividir com eles as coisas que ele tem, e assim aumentar a força deles constitui o dever do rei. Proteção do reino, extermínio de ladrões, e conquista em batalha, constituem o dever do rei. Nunca perdoar uma pessoa embora querida, se ela cometeu um delito por ação ou palavra, constitui o dever do rei. Proteger aqueles que pedem asilo, como ele protegeria seus próprios filhos, e nunca privar alguém das honras às quais ele tem direito constituem o dever do rei. Adorar as divindades, com um coração devotado, em sacrifícios completados por presentes, e subjugar luxúria e inveja, constituem o dever do rei. Secar as lágrimas dos afligidos, dos desamparados, e dos idosos, e inspirá-los com alegria, constituem o dever do rei. Engrandecer amigos, enfraquecer inimigos, e honrar os bons, constituem o dever do rei. Cumprir alegremente as obrigações de veracidade, sempre fazer doações de terra, entreter convidados, e manter dependentes, constituem o dever do rei. Aquele rei que favorece aqueles que merecem favores e castiga aqueles que merecem punição ganha grande mérito neste mundo e após a morte. O rei é o próprio Yama. Ele é, ó Mandhatri, o deus (encarnado) para todos aqueles que são corretos. (O rei é Deus encarnado para todos os homens corretos porque eles podem esperar tudo dele.) Por subjugar seus sentidos ele consegue adquirir grande afluência. Por não subjugá-los ele incorre em pecado. Prestar honras devidas a Ritwijas e sacerdotes e preceptores, e fazer bons préstimos para eles constituem o dever do rei. Yama governa todas as criaturas sem observar distinções. O rei deve imitá-lo em seu comportamento por controlar todos os seus súditos devidamente. É dito que o rei parece com Aquele de Mil Olhos (Indra) em todos os aspectos. Ó touro entre homens, deve ser considerado como justiça aquilo que é considerado como tal por ele. Tu deves, sem ser negligente, cultivar bondade, inteligência, paciência, e o amor de todas as criaturas. Tu deves também averiguar a força e a fraqueza de todos os homens e aprender a distinguir entre certo e errado. Tu deves agir com retidão para com todas as criaturas, fazer caridade, e proferir palavras agradáveis e gentis. Tu deves manter os residentes da tua cidade e das províncias em alegria. Um rei que não é inteligente nunca consegue proteger seus súditos. A soberania, ó majestade, é uma responsabilidade muito feliz para se arcar. Somente o rei que é possuidor de sabedoria e coragem, e que é conhecedor da ciência de castigo, pode proteger um reino. Aquele, por outro lado, que não tem energia e inteligência, e que não é versado na grande ciência, é incompetente para arcar com a responsabilidade da soberania. Ajudado por ministros de belo aspecto e bom nascimento, inteligentes em negócios, dedicados ao seu mestre, e possuidores de grande erudição, tu deves examinar os corações e ações de todos os homens incluindo os próprios ascetas nas florestas. Agindo dessa maneira, tu serás capaz de descobrir os deveres de todas as classes de homens. Isto te ajudará a cumprir os teus próprios deveres, quando tu estiveres no teu país ou quando tu fores para outros reinos. Entre estes três objetivos, isto é, Virtude, Lucro, e Prazer, a Virtude é o principal. Aquele que é de alma virtuosa obtém grande felicidade nesta vida e após a morte. Se os homens forem tratados com honra, eles podem até abandonar (por causa da honra que tu possas dar a eles) suas próprias esposas e filhos. Por ligar bons homens a ele mesmo (por fazer bons préstimos a eles), por meio de presentes, palavras gentis, atenção e pureza de comportamento, um rei pode ganhar grande prosperidade. Portanto, ó Mandhatri, não seja negligente a estas qualidades e ações. O rei nunca deve ser negligente em procurar seus próprios pontos fracos, como também aqueles de seus inimigos. Ele deve agir de tal maneira que seus inimigos não possam descobrir seus pontos fracos, e ele deve atacá-los quando os deles estiverem visíveis. Essa é a maneira na qual Vasava, e Yama, e Varuna, e todos os grandes sábios reais têm agido. Observe a mesma conduta. Ó grande rei, adote esse comportamento que foi seguido por aqueles sábios reais. Ó touro da raça Bharata, adote logo essa estrada celestial. Os deuses, os Rishis, os Pitris, e os Gandharvas, possuidores de grande energia, cantam os louvores, nesta vida e após a morte, do rei cuja conduta é justa.'” "Bhishma continuou, 'Assim endereçado por Utathya, ó Bharata, Mandhatri agiu sem hesitar como ele tinha sido instruído, e se tornou o único senhor da terra extensa. Aja tu também, ó rei, justamente como Mandhatri. Tu irás então, depois de governar a terra, obter uma residência no céu.'" 92 "Yudhishthira disse, 'Como deve um rei virtuoso, que deseja aderir a um procedimento de justiça, se comportar? Eu te pergunto isto, ó principal dos homens! Responda-me, ó avô!'” "Bhishma disse, 'Em relação a isto é citada a antiga história do que Vamadeva dotado de grande inteligência e conhecedor da verdadeira significação de tudo cantou em um tempo antigo. Uma vez, o rei Vasumanas, possuidor de conhecimento e fortaleza e pureza de comportamento, pediu ao grande Rishi Vamadeva de grande mérito ascético, dizendo, 'Instrua-me, ó santo, em palavras repletas de retidão e de grave importância, quanto à conduta a ser observada por mim para que eu não possa me desviar dos deveres prescritos para mim.' A ele de uma cor dourada e sentado comodamente como Yayati, filho de Nahusha, aquele principal dos ascetas, isto é, Vamadeva, de grande energia, falou o seguinte: "Vamadeva disse, 'Aja justamente. Não há nada superior à justiça. Aqueles reis que são observadores da justiça conseguem conquistar a terra inteira. O rei que considera a justiça como o meio mais eficaz para realizar seus objetivos, e que age de acordo com os conselhos daqueles que são justos, resplandece com justiça. Aquele rei que desconsidera a virtude e deseja agir com força bruta logo abandona a justiça e perde a Virtude e o Lucro. O rei que age segundo os conselhos de um ministro violento e pecaminoso se torna um destruidor da justiça e merece ser morto por seus súditos com toda a sua família. De fato, ele logo encontra a destruição. O rei que é incompetente para cumprir os deveres da arte de governar, que é governado pelo capricho em todas as suas ações, e que se vangloria, logo encontra a destruição mesmo que ocorra de ele ser soberano da terra inteira. Aquele rei, por outro lado, que deseja prosperidade, que é livre de malícia, que tem seus sentidos sob controle, e que é dotado de inteligência, prospera em afluência como o oceano aumentando com as águas descarregadas nele por cem rios. Ele nunca deve considerar que tem virtude, prazeres, riqueza, inteligência, e amigos suficientes. Destes depende a conduta do mundo. Por escutar a esses conselhos, um rei obtém fama, realizações, prosperidade, e súditos. Dedicado à virtude, o rei que procura a aquisição de virtude e riqueza por tais meios, e que inicia todas as suas medidas depois de refletir sobre seus objetivos, tem êxito em obter grande prosperidade. O rei que é mesquinho e sem afeição, que aflige seus súditos por meio de castigos indevidos, e que é estouvado em seus atos, logo encontra a destruição. Aquele rei que não é dotado de inteligência fracassa em ver suas próprias falhas. Coberto de infâmia nesta vida, ele cai no inferno após a morte. Se o rei dá honra apropriada para aqueles que a merecem, faz caridade, e reconhece o valor de palavras gentis por si mesmo proferindo-as em todas as ocasiões, seus súditos então dissipam as calamidades que o surpreendem, como se elas tivessem caído sobre eles mesmos. O rei que não tem instrutor nos caminhos da justiça e que nunca pede conselhos a outros, e que procura adquirir riqueza pelos meios que o capricho sugere, nunca consegue desfrutar de felicidade por muito tempo. Aquele rei, por outro lado, que ouve as instruções de seus preceptores em questões ligadas com virtude, que supervisiona ele mesmo os negócios de seu reino, e que em todas as suas aquisições é guiado por considerações de virtude, consegue desfrutar de felicidade por um longo tempo.'" 93 "Vamadeva continuou, 'Quando o rei, que é poderoso, age injustamente em direção aos fracos, aqueles que nascem em sua linhagem imitam a mesma conduta. Outros, também, imitam aquele canalha que espalha o pecado. Tal imitação do homem não controlado por restrições logo traz a destruição sobre o reino. A conduta de um rei que é cumpridor dos seus próprios deveres, é aceita pelos homens em geral como um modelo para imitação. A conduta, no entanto, de um rei que abandona seus deveres, não é tolerada nem pelos seus próprios parentes. O rei imprudente que, desconsiderando as injunções declaradas nas escrituras, age com arrogância em seu reino, logo encontra a destruição. Aquele Kshatriya que não segue a conduta observada desde os tempos antigos por outros Kshatriyas, vencido ou vencedor, é citado como tendo abandonado os deveres Kshatriya. Tendo capturado em batalha um inimigo nobre que fez algum bem ao conquistador em uma ocasião anterior, o rei que, estimulado pela malícia, não lhe presta honras, se desvia dos deveres Kshatriya. O rei deve mostrar seu poder, viver alegremente, e fazer o que for necessário em épocas de perigo. Tal soberano se torna querido para todas as criaturas e nunca perde a prosperidade. Se tu fizeres desserviço para alguma pessoa, tu deves, quando chegar a ocasião, fazer serviço a ela. Alguém que não é amado vira um objeto de amor, se ele faz que é agradável. Palavras falsas devem ser evitadas. Tu deves fazer o bem a outros sem ser solicitado. Tu nunca deves abandonar a justiça por luxúria ou ira ou malícia. Não dê respostas rudes quando questionado por alguém. Não profira palavras indignas. Nunca tenha pressa em fazer alguma coisa. Nunca te entregue à malícia. Por tais meios um inimigo é conquistado. Não ceda à alegria excessiva quando qualquer coisa agradável ocorrer, nem te permita ser dominado pela tristeza quando qualquer coisa desagradável ocorrer. Nunca te entregue à angústia quando teus recursos pecuniários estiverem esgotados, e sempre lembre do dever de fazer o bem para teus súditos. O rei que sempre faz o que é agradável em virtude de sua disposição alcança o sucesso em todas as suas medidas e nunca perde a prosperidade. O rei deve sempre, com atenção, apreciar aquele empregado devotado que se abstém de fazer o que é prejudicial para seu chefe e que sempre faz o que é para o seu bem. Ele deve designar em todos os grandes negócios pessoas que tenham subjugado seus sentidos, que sejam devotadamente leais e de comportamento puro, e possuidoras de habilidade. Aquela pessoa, que pela posse de tais qualificações agrada ao rei e que nunca é negligente em cuidar dos interesses de seu mestre deve ser nomeada pelo rei nos negócios de seu reino. Por outro lado, o rei fica desprovido de prosperidade por nomear para trabalhos importantes homens que são tolos e escravos de seus sentidos, que são cobiçosos e de conduta não respeitável, que são enganadores e hipócritas, maliciosos, de alma pecaminosa, e ignorantes, de mente baixa, e viciados em bebida, jogo, mulheres, e caça. O rei que, primeiro protegendo a si mesmo, protege outros que merecem proteção, sente a satisfação de encontrar seus súditos crescendo em prosperidade. Tal rei sucede também em obter grandeza. Um rei deve, por meio de agentes secretos que sejam dedicados a ele, observar a conduta e ações de outros reis. Por tais meios ele pode obter superioridade. Tendo ofendido um rei poderoso, ele não deve se acomodar com o pensamento de que ele (o ofensor) vive a uma grande distância do ofendido. Tal rei quando ofendido cai sobre o ofensor como o falcão se lançando sobre sua presa, em momentos de descuido. Um rei cujo poder foi consolidado e que confia em sua própria força, deve atacar um vizinho que é mais fraco do que ele mesmo mas nunca um que é mais forte. Um rei que é dedicado à virtude, tendo obtido a soberania da terra por meio de coragem, deve proteger seus súditos justamente e matar inimigos em batalha. Tudo pertencente a este mundo está destinado à destruição. Nada aqui é durável. Por esta razão, o rei, aderindo à justiça, deve proteger seus súditos justamente. A defesa dos fortes, batalha, administração da justiça, consultas sobre questões de política, e manter os súditos em felicidade, estas cinco ações contribuem para aumentar os domínios de um rei. O rei que cuida apropriadamente destes é considerado o melhor dos reis. Por sempre se encarregar disto, um rei consegue proteger seu reino. É impossível, no entanto, para um homem supervisionar todos esses assuntos todo o tempo. Transferindo tal supervisão para seus ministros, um rei pode governar a terra para sempre. O povo faz seu rei uma pessoa que é generosa, que compartilha todos os objetos de prazer com os outros, que possui uma tendência branda, que tem comportamento puro, e que nunca abandonará seus súditos. É obedecido no mundo aquele que, tendo ouvido conselhos de sabedoria, os aceita, abandonando suas próprias opiniões. O rei que não tolera os conselhos de um benquerente por causa de sua oposição aos seus próprios pontos de vista, que escuta com inatenção o que lhe é dito em oposição às suas opiniões, e que nem sempre segue a conduta de pessoas superiores e nobres, vencido ou não vencido, é citado como tendo abandonado os deveres Kshatriyas. De ministros que foram uma vez castigados, de mulheres em especial, de montanhas e regiões inacessíveis, de elefantes e cavalos e répteis, o rei deve sempre, com cuidado, se proteger. (O rei não deve montar elefantes e cavalos indóceis, deve se proteger contra répteis venenosos e os artifícios de mulheres, e deve tomar cuidado especial enquanto subindo montanhas ou entrando em regiões inacessíveis tais como florestas e vales arborizados.) Aquele rei que, abandonando seus principais ministros, faz seus favoritos pessoas inferiores, logo cai em desgraça, e nunca consegue realizar os fins (planejados) de suas medidas. O rei de alma instável, que, cedendo à influência da ira e malícia, não ama e honra aqueles entre seus parentes que possuem boas qualidades, é citado como vivendo à beira da destruição. O rei que se liga a pessoas ilustres por lhes fazer o bem, mesmo que ele possa não gostar delas no fundo, consegue desfrutar de fama para sempre. Tu nunca deves impor impostos fora de época. Tu não deves sofrer pela ocorrência de algo desagradável, nem te regozijar extremamente por algo agradável. Tu deves sempre te dedicar à realização de atos bons. Quais entre os que dependem do rei são realmente dedicados a ti, e quais são leais a ti por medo, e quais entre eles têm defeitos, deve sempre ser averiguado por ti. O rei, mesmo se ele for poderoso, não deve confiar naqueles que são fracos, pois em momentos de descuido os fracos podem atacar o poderoso como um bando de urubus agarrando sua presa. Um homem de alma pecaminosa procura prejudicar seu mestre mesmo que o último seja de palavras gentis e possua todas as habilidades. Não coloque, portanto, tua confiança em tais homens. Yayati, o filho de Nahusha, ao declarar os mistérios da arte de reinar, disse que uma pessoa dedicada a governar homens deve matar até inimigos que são desprezíveis.'" 94 "Vamadeva disse, 'O rei deve ganhar vitórias sem batalhas. Os sábios não falam em termos elogiosos de vitórias alcançadas por meio de batalhas, ó monarca. Quando o próprio poder do soberano não está confirmado, ele não deve procurar fazer novas aquisições. Não é apropriado que um rei cujo poder não foi consolidado procure fazer tais aquisições. O poder de um rei cujos domínios são amplos e cheios de riqueza, cujos súditos são leais e contentes, e que tem um grande número de oficiais, é citado como confirmado. Aquele rei cuja classe militar é contente, satisfeita (com pagamentos e prêmios), e competente para enganar inimigos, pode até com uma pequena tropa subjugar a terra inteira. O poder do rei cujos súditos, pertencentes às cidades ou às províncias, têm compaixão por todas as criaturas, e possuem riquezas e grãos, é citado como confirmado. Quando o rei pensa que seu poder é maior do que aquele de um inimigo, ele deve então, ajudado por sua inteligência, procurar adquirir a riqueza e territórios do último. Um rei cujos recursos estão aumentando, que é compassivo para todas as criaturas, que nunca perde tempo por procrastinação, e que é cuidadoso em proteger a si mesmo, consegue ganhar avanço. Aquele rei que se comporta enganadoramente em direção ao seu próprio povo que não tem sido culpado de qualquer falha, ceifa a si mesmo como uma pessoa derrubando uma floresta com um machado. Se o rei nem sempre se encarrega da tarefa de matar seus inimigos, os últimos não diminuem. O rei que sabe como matar seu próprio temperamento não encontra inimigos. Se o rei for possuidor de sabedoria, ele nunca fará alguma ação que seja desaprovada por bons homens. Ele irá, por outro lado, sempre se dedicar a tais atos que levem ao seu próprio benefício assim como o de outros. O rei que, tendo realizado todos os seus deveres, se torna feliz pela aprovação da sua própria consciência, nunca incorre na repreensão de outros nem se entrega a arrependimentos. O rei que observa tal conduta em direção a homens consegue subjugar ambos os mundos e desfrutar dos frutos da vitória.'” "Bhishma continuou, 'Assim endereçado por Vamadeva, o rei Vasumana fez como ele foi instruído. Sem dúvida, tu também, seguindo esses conselhos, conseguirás conquistar ambos os mundos.'" 95 "Yudhishthira disse, 'Se um Kshatriya deseja subjugar outro Kshatriya em batalha, como deve o primeiro agir na questão daquela vitória? Questionado por mim, responda isto.'” "Bhishma disse, 'O rei, com ou sem um exército em sua retaguarda, entrando nos domínios do rei que ele irá subjugar, deve dizer a todas as pessoas, 'Eu sou seu rei. Eu sempre protegerei vocês. Dêem-me o justo tributo ou me enfrentem em batalha.' Se o povo aceitá-lo como seu rei, não há necessidade de luta. Se, sem serem Kshatriyas por nascimento, eles mostrarem sinais de hostilidade, eles devem então, observadores como eles são de práticas não prescritas para eles, ser reprimidos por todos os meios. Pessoas das outras classes pegam armas (para resistir ao invasor) se elas vêem o Kshatriya desarmado para lutar, incapaz de proteger a si mesmo, e fazendo muito do inimigo.'” "Yudhishthira disse 'Diga-me, ó avô, como o rei Kshatriya deve se comportar em luta ao avançar contra outro rei Kshatriya.'” "Bhishma disse, 'Um Kshatriya não deve colocar armadura para lutar com um Kshatriya sem armadura. Um deve lutar com um, e abandonar o oponente quando o último se tornar inabilitado. Se o inimigo se aproxima envolvido em cota de malha, seu adversário também deve por cota de malha. Se o inimigo avança apoiado por um exército, deve-se, apoiado por um exército, desafiá-lo para a batalha. Se o inimigo luta ajudado por truques, ele deve ser combatido com a ajuda de truques. Se, por outro lado, ele luta honestamente, ele deve ser resistido com meios honestos. Não se deve proceder a cavalo contra um guerreiro em carro. Um guerreiro em carro deve proceder contra um guerreiro em carro. Quando um antagonista caiu em desgraça, (isto é, ficou sem seu cavalo ou seu carro ou suas armas, etc.) ele não deve ser golpeado; nem alguém que está apavorado, e nem alguém que foi derrotado. Nem flechas envenenadas nem flechas farpadas devem ser usadas. Estas são as armas dos perversos. Deve-se lutar justamente, sem se entregar à fúria ou desejar matar. Um homem fraco ou ferido não deve ser morto, ou um que está sem filhos; ou um cuja arma foi quebrada; ou um que caiu em desgraça; ou um cuja corda do arco foi cortada; ou um que perdeu seu veículo. Um adversário ferido deve ser enviado para sua própria casa, ou, se levado para os alojamentos do vencedor, deve ter seus ferimentos tratados por cirurgiões habilidosos. Quando, por causa de uma disputa entre reis justos, um guerreiro honrado cair em desgraça, (seus ferimentos devem ser tratados e) quando curado ele deve ser posto em liberdade. Este é o dever eterno. O próprio Manu, o filho do Nascido por Si Mesmo (Brahman), disse que as batalhas devem ser lutadas justamente. Os justos devem sempre agir corretamente em direção àqueles que são justos. Ele deve sempre aderir à justiça sem destruí-la. Se um Kshatriya, cujo dever é lutar justamente, ganha uma vitória por meios injustos, ele se torna pecaminoso. De conduta fraudulenta, é dito que tal pessoa mata a si mesma. Tal é a prática daqueles que são perversos. Mesmo aqueles que são perversos devem ser subjugados por meios justos. É melhor perder a própria vida no cumprimento da justiça do que obter vitória por meios pecaminosos. Como uma vaca, ó rei, o pecado cometido não produz seus frutos imediatamente. Aquele pecado subjuga o perpetrador depois de consumir suas raízes e ramos. Uma pessoa pecaminosa, adquirindo riqueza por meios pecaminosos, se regozija imensamente. Mas o pecador, ganhando vantagem por meios pecaminosos, se torna unido ao pecado. Pensando que a virtude não tem eficácia, ele zomba dos homens de comportamento correto. Não acreditando em virtude, ele finalmente encontra a destruição. Embora enredado no laço de Varuna, ele ainda se considera imortal. Como um grande saco de couro inflado com vento, o pecador se dissocia totalmente da virtude. Logo, no entanto, ele desaparece como uma árvore na beira do rio arrastada com suas próprias raízes. Então o povo, vendo-o parecer como um recipiente de terra quebrado em uma superfície pedregosa, fala dele como ele merece. O rei deve, portanto, buscar vitória e o aumento de seus recursos por meios justos.'" 96 "Bhishma disse, 'Um rei nunca deve desejar subjugar a terra por meios injustos, mesmo que tal conquista fizesse dele o soberano da terra inteira. Qual rei se regozijaria depois de obter vitória por meios injustos? Uma vitória manchada pela injustiça é incerta e nunca leva ao céu. Tal vitória, ó touro da raça Bharata, enfraquece ambos o rei e a terra. Um guerreiro cuja armadura caiu, ou que pede por piedade, dizendo, 'Eu sou teu' ou que une suas mãos, ou que pôs de lado suas armas, pode simplesmente ser apanhado mas nunca morto. Se um rei hostil for vencido pelas tropas do invasor, o último não deve lutar ele mesmo com o inimigo derrotado. Por outro lado, ele deve levá-lo para seu palácio e persuadi-lo a dizer por um ano inteiro, 'Eu sou teu escravo'. Se ele disser isto ou não, o inimigo vencido, por viver por um ano na casa de seu vencedor, ganha uma vida nova. Se um rei consegue trazer pela força uma donzela da casa de seu inimigo derrotado, ele deve mantê-la por um ano e perguntar se ela se casaria com ele ou com algum outro. Se ela não concordar, ela deve então ser mandada de volta. Ele deve se comportar similarmente em relação a todos os outros tipos de riquezas (tais como escravos) que são obtidos pela força. O rei nunca deve ser apropriar da riqueza confiscada de ladrões e outros esperando execução. As vacas tiradas do inimigo pela força devem ser doadas aos Brahmanas para que eles possam beber o leite daqueles animais. Os touros pegos do inimigo devem ser empregados em trabalhos de agricultura ou devolvidos ao inimigo. É declarado que um rei deve lutar com um rei. Quem não é um rei nunca deve golpear um rei. Se um Brahmana, desejoso de paz, se coloca destemidamente no meio de dois exércitos oponentes, ambos devem imediatamente se abster de lutar. Quebraria uma regra eterna aquele que matasse ou ferisse um Brahmana. Se algum Kshatriya quebrasse esta regra, ele se tornaria um canalha de sua classe. Além disto, o Kshatriya que destrói a justiça e ultrapassa todas as barreiras salutares não merece ser reconhecido como um Kshatriya e deve ser expulso da sociedade. Um rei desejoso de obter vitória nunca deve seguir tal conduta. Qual lucro pode ser maior do que a vitória ganha justamente? As classes excitáveis (de um reino conquistado recentemente) devem, sem demora, ser conciliadas com discursos calmantes e doações. Esta é uma boa política para o rei adotar. Se em vez de fazer isso se procurar governar estes homens sem diplomacia, eles então deixarão o reino e tomarão o partido de inimigos (do vencedor) e esperarão pela acessão de calamidades (para que eles possam então enfrentar o vencedor). Homens descontentes, esperando pelas calamidades do rei, tomam prontamente o partido dos inimigos do último, ó monarca, em épocas de perigo. Um inimigo não deve ser enganado por meios injustos, nem deve ser ferido mortalmente. Pois, se golpeado mortalmente, sua própria vida pode findar. (Em lutar com a ajuda de fraude o inimigo não deve ser morto completamente, tal ato de matar sendo pecaminoso. Matar um inimigo, no entanto, em luta justa é meritório.) Se um rei possuidor de poucos recursos estiver satisfeito com isso, ele considerará que somente a vida é o bastante. O rei cujos domínios são extensos e cheios de riquezas, cujos súditos são leais, cujos empregados e oficiais são todos contentes, é considerado como tendo bases firmes. O rei cujos Ritwijas e sacerdotes e preceptores e outros ao redor dele que são bem versados nas escrituras e merecedores de honras são devidamente respeitados, é considerado familiarizado com os caminhos do mundo. Foi por tal comportamento que Indra obteve a soberania do mundo. É por este comportamento que reis terrestres conseguem obter a posição de Indra. O rei Pratardana, subjugando seus inimigos em uma grande batalha, pegou toda a riqueza deles, inclusive seus próprios grãos e ervas medicinais, mas deixou sua terra intocada. O rei Divodasa, depois de subjugar seus inimigos, levou os próprios restos de seus fogos sacrificais, sua manteiga clarificada (destinada para libações), e seu alimento. Por esta razão ele foi privado do mérito de suas conquistas. (O rei Pratardana pegou o que deveria ser pego e então não incorreu em pecado. O rei Divodasa, no entanto, por pegar o que não deveria ser pego, perdeu todo o mérito de suas conquistas.) O rei Nabhaga (depois de suas conquistas) deu reinos inteiros com seus soberanos como presentes sacrificais para os Brahmanas, exceto a riqueza de Brahmanas e ascetas eruditos. O comportamento, ó Yudhishthira, de todos os reis justos de antigamente era excelente, e eu o aprovo totalmente. Aquele rei que deseja sua própria prosperidade deve procurar conquistar pela ajuda de todos os tipos de excelência mas nunca com fraude ou com orgulho.'" 97 "Yudhishthira disse. 'Não há práticas, ó rei, mais pecaminosas do que as dos Kshatriyas. Em marcha ou em batalha, o rei mata grandes multidões. Por quais ações então o rei ganha regiões de felicidade? Ó touro da raça Bharata, fale, ó erudito, para mim o que eu desejo saber.'” "Bhishma disse, 'Por punir os maus, por atrair e apreciar os bons, por sacrifícios e doações, os reis se tornam puros e limpos. É verdade, reis desejosos de vitória afligem muitas criaturas, mas depois da vitória eles auxiliam e engrandecem a todos. Pelo poder da caridade, sacrifícios, e penitências, eles destroem seus pecados, e seu mérito aumenta a fim de que eles possam fazer o bem para todas as criaturas. Aquele que cultiva um campo, para recuperá-lo, arranca folhas de arroz e ervas daninhas. Sua ação, no entanto, em vez de destruir o arrozal, o faz crescer mais vigorosamente. Aqueles que manejam armas destroem muitos que merecem destruição. Tal destruição extensa, no entanto, causa o crescimento e avanço daqueles que permanecem. Aquele que protege as pessoas de saque, morte, e aflição, por proteger dessa maneira suas vidas de ladrões, vem a ser considerado como o doador de riqueza, de vida, e de alimento. O rei, portanto, por adorar as divindades por meio de uma união de todos os sacrifícios cujo Dakshina é o dissipador dos temores de todos, desfruta de todos os tipos de felicidade aqui e obtém uma residência no céu de Indra após a morte. (A proteção de súditos é comparada aqui à realização de um sacrifício que tem o mérito de todos os sacrifícios. O presente final naquele sacrifício é a dissipação dos temores de todos.) O rei que, partindo, luta com seus inimigos em batalhas que surgiram por causa de Brahmanas e sacrifica sua vida, vem a ser considerado como a encarnação de um sacrifício com presentes ilimitados. Se um rei, com suas aljavas cheias de flechas, as atira destemidamente em seus inimigos, os próprios deuses não vêem ninguém sobre a terra que seja superior a ele. Em tal caso, igual ao número de flechas com as quais ele perfura os corpos de seus inimigos, é o número de regiões que ele desfruta, eternas e capazes de realizar todos os desejos. O sangue que flui de seu corpo o purifica de todos os seus pecados junto com a própria dor que ele sente na ocasião. Pessoas conhecedoras das escrituras dizem que as dores que um Kshatriya sofre em batalha operam como penitências para aumentar seu mérito. Pessoas justas, inspiradas com medo, ficam na retaguarda, solicitando vida de heróis que avançaram para a batalha, assim como homens solicitam chuva das nuvens. Se aqueles heróis, sem permitirem que os suplicantes incorram nos perigos da batalha, os mantêm atrás de si mesmos enfrentando aqueles perigos e os defendendo naquela hora de medo, grande se torna seu mérito. Se, também, aquelas pessoas tímidas, apreciando aquele feito de coragem, sempre respeitam aqueles defensores, elas fazem o que é apropriado e justo. Por agirem de outra maneira elas não podem se livrar do medo. Há uma grande diferença entre homens aparentemente iguais. Alguns avançam para a batalha, em meio ao seu rumor terrível, contra tropas armadas de inimigos. De fato, o herói avança contra multidões de inimigos, adotando a estrada para o céu. Aqueles, no entanto, que são inspirados com medo covarde, procuram segurança na fuga, abandonando seus camaradas em perigo. Que tais canalhas entre homens não nasçam na tua linhagem. Os próprios deuses com Indra encabeçando-os enviam calamidades àqueles que abandonam seus camaradas em luta e saem com membros ilesos. Aquele que deseja salvar sua própria vida por abandonar seus camaradas deve ser morto com paus ou pedras ou enrolado em uma esteira de grama seca para ser queimado até a morte. Aqueles entre os kshatriyas que são culpados de tal conduta devem ser mortos da mesma forma que animais. (Isto é, não no fio de arma, mas de outra maneira). Morte em uma cama de repouso, depois de ejetar muco e urina e proferir gritos lastimáveis, é pecaminosa para um Kshatriya. Pessoas familiarizadas com as escrituras não aprovam a morte de um Kshatriya com corpo ileso. A morte de um Kshatriya, ó majestade, em casa não é louvável. Eles são heróis. Qualquer ato não heróico deles é pecaminoso e inglório. Em doença, alguém pode ser ouvido gritar, dizendo, 'Que tristeza! Quão doloroso! Eu devo ser um grande pecador!' Com rosto emaciado e fedor saindo de seu corpo e roupas, o homem doente mergulha seus parentes em aflição. Cobiçando a condição daqueles que estão com saúde, tal homem (em meio a suas torturas) repetidamente deseja a própria morte. Um herói, tendo dignidade e orgulho, não merece tal morte inglória. Cercado por parentes e massacrando seus inimigos em batalha, um Kshatriya deve morrer pelo fio de armas afiadas. Movido pelo desejo de prazer e cheio de raiva, um herói luta com fúria e não sente os ferimentos infligidos em seus membros por inimigos. Encontrando a morte em batalha, ele ganha aquele mérito sublime repleto de fama e respeito do mundo o qual pertence a ele ou ela e no final obtém uma residência no céu de Indra. O herói, por não mostrar suas costas em luta e combatendo por todos os meios em seu poder, em completa negligência da própria vida, na vanguarda da batalha, obtém a companhia de Indra. Onde quer que o herói encontre a morte no meio de inimigos sem mostrar medo ignóbil ou desânimo, ele consegue ganhar regiões bem-aventurança eterna após a morte.'" 98 "Yudhishthira disse, 'Diga-me, ó avô, quais regiões são alcançadas pelos heróis que não retornam por encontrarem a morte em batalha." "Bhishma, dito, 'Em relação a isto, ó Yudhishthira, é citada a antiga história da conversa entre Amvarisha e Indra. Amvarisha, o filho de Nabhaga, tendo ido para o céu que é de aquisição tão difícil, viu seu próprio generalíssimo naquelas regiões celestes na companhia de Indra. O rei viu seu general poderoso resplandecendo com todos os tipos de energia, dotado de forma celestial, sentado em um carro muito belo, e viajando (naquele veículo) sempre mais alto em direção a regiões ainda mais elevadas. Contemplando a prosperidade de seu general Sudeva, e observando como ele atravessava regiões que eram ainda mais altas, Amvarisha de grande alma, cheio de surpresa, se dirigiu a Vasava, nas seguintes palavras.'” "Amvarisha disse, 'Tendo governado devidamente a terra inteira limitada pelos mares, tendo pelo desejo de ganhar mérito religioso praticado todos os deveres que são comuns às quatro classes como declarados pelas escrituras, tendo praticado com austeridade rígida todos os deveres do modo Brahmacharya, tendo servido com obediência respeitosa meus preceptores e outros superiores veneráveis, tendo estudado com as devidas observâncias os Vedas e as escrituras sobre os deveres reais, tendo satisfeito convidados com alimento e bebida, os Pitris com oferendas em Sraddhas, os Rishis com estudo atento das escrituras e com iniciação (sob formas apropriadas nos mistérios de religião), e os deuses com muitos sacrifícios grandes e excelentes, tendo cumprido devidamente os deveres Kshatriya de acordo com as injunções das escrituras, tendo olhado destemidamente para as tropas hostis, eu ganhei muitas vitórias em batalha, ó Vasava! Este Sudeva, ó chefe das divindades, era antigamente o generalíssimo dos meus exércitos. Isto é verdade. Ele era um guerreiro de alma tranquila. Por que razão, no entanto, ele conseguiu me superar? Ele nunca adorou os deuses em sacrifícios grandiosos e superiores. Ele nunca gratificou os Brahmanas (por meio de presentes caros e frequentes) em conformidade com as ordenanças. Por que razão, então, ele conseguiu me superar?'” "Indra disse, 'Em relação a Sudeva, ó majestade, o grande sacrifício de batalha muitas vezes foi expandido por ele. O mesmo é o caso de todos os outros homens que se dedicam à luta. Cada guerreiro em armadura, por avançar contra inimigos em formação de combate, se torna instalado naquele sacrifício. De fato, é uma conclusão segura que tal pessoa, por agir dessa maneira, vem a ser considerada como a realizadora do sacrifício de batalha.'” "Amvarisha disse, 'O que compõe as libações naquele sacrifício? Quais são suas oferendas líquidas? Qual é o seu Dakshina? Quem, além disso, são considerados seus Ritwijas? Diga-me tudo isso, ó realizador de cem sacrifícios.'” "Indra disse, 'Elefantes constituem os Ritwijas daquele sacrifício, e corcéis são seus Audharyus. A carne de inimigos constitui suas libações, e o sangue é a sua oferenda líquida. Chacais e urubus e corvos, como também flechas aladas, constituem seus Sadasyas. Estes bebem os restos deixados da oferenda líquida daquele sacrifício e comem os restos de suas libações. Pilhas de lanças e arpões, de espadas e dardos e machados brilhantes, afiados, e bem temperados, constituem as conchas do sacrificador. Flechas retas, afiadas, e bem temperadas, com pontas penetrantes e capazes de perfurar os corpos de inimigos, impelidas de arcos bem esticados, constituem suas grandes conchas de boca dupla. Envolvidas em bainhas feitas de pele de tigre e equipadas com cabos feitos de marfim, e capazes de cortar a tromba de um elefante, as espadas formam os Sphises daquele sacrifício; (Sphis é o bastão de madeira com o qual linhas são desenhadas na plataforma sacrifical.) Os golpes infligidos com lanças e dardos e espadas e machados brilhantes e afiados, todos feitos de ferro rígido, constituem sua riqueza abundante obtida das pessoas respeitáveis por acordo em relação a quantia e limite. O sangue que corre sobre o campo em consequência da fúria do ataque, constitui a libação final, repleta de grande mérito e capaz de conceder todos os desejos, no Homa daquele sacrifício. ‘Corte’, ‘Fure’, e outros sons semelhantes, que são ouvidos linhas de frente do exército, constituem os Samans cantados por seus cantores Védicos na residência de Yama. As fileiras frontais do exército do inimigo constituem o recipiente para guardar suas libações. A multidão de elefantes e corcéis e homens equipados com escudos é considerada o fogo Syenachit daquele sacrifício. Os troncos sem cabeça que se erguem depois de milhares terem sido massacrados constituem a estaca octogonal, feita de madeira Khadira, para o herói que realiza aquele sacrifício. Os gritos que elefantes proferem quando incitados adiante com laços, constituem seus mantras Ida. Os timbales, com as batidas de palmas formando os Vashats, ó rei, são seu Trisaman Udgatri. Quando a propriedade de um Brahmana está sendo roubada, aquele que perde seu corpo que é tão precioso para proteger aquela propriedade, por aquela ação de auto-sacrifício, adquire o mérito de um sacrifício com presentes infinitos. Aquele herói que, por causa de seu mestre, demonstra coragem na vanguarda da formação de combate e não mostra suas costas por medo, ganha aquelas regiões de felicidade que são minhas. Aquele que esparge o altar do sacrifício constituído pela batalha, com espadas envolvidas em bainhas azuis e braços cortados parecendo clavas pesadas, consegue alcançar regiões de felicidade como as minhas. O guerreiro que, decidido a obter vitória, penetra no meio das tropas do inimigo sem esperar por qualquer ajuda, consegue ganhar regiões de felicidade como as minhas. É dito que o guerreiro que, em batalha, faz fluir um rio de sangue, terrível e difícil de atravessar, tendo timbales como suas rãs e tartarugas, os ossos de heróis como suas areias, sangue e carne como sua lama, espadas e escudos como suas balsas, o cabelo de guerreiros mortos como as algas e musgo flutuantes, as multidões de corcéis e elefantes e carros como suas pontes, estandartes e bandeiras como suas moitas de junco, os corpos de elefantes mortos como seus barcos e jacarés enormes, espadas e cimitarras como seus barcos maiores, urubus e Kankas e corvos como balsas que flutuam sobre ele, aquele guerreiro que produz tal rio, difícil de ser cruzado até por aqueles que possuem coragem e força e que inspiram todos os homens tímidos com medo, completa o sacrifício por realizar as abluções finais. O herói cujo altar (em tal sacrifício) é coberto com cabeças (cortadas) de inimigos, de corcéis, e de elefantes, obtém regiões de felicidade como as minhas. Os sábios dizem que aquele guerreiro que considera a vanguarda do exército hostil como os quartos de suas esposas, que olha para a dianteira de seu próprio exército como o recipiente para manter a oferenda sacrifical, que toma os combatentes que ficam ao seu sul como seus Sadasyas e aqueles ao norte como seus Agnidhras, e que considera as tropas hostis como sua esposa, consegue ganhar todas as regiões de felicidade. (A vanguarda do exército hostil é a residência de suas esposas, pois ele vai para lá tão alegremente quanto ele vai para tal mansão. Agnidhras são aqueles sacerdotes de tomam conta dos fogos celestiais.) O espaço aberto entre as duas hostes alinhadas para lutar constitui o altar de tal sacrificador, e os três Vedas são seus três fogos sacrificais. Sobre aquele altar, ajudado pela recordação dos Vedas, ele realiza seu sacrifício. O guerreiro inglório que, se desviando da batalha por medo, é morto por inimigos, cai no inferno. Não há dúvida nisto. O guerreiro, por outro lado, cujo sangue encharca o altar sacrifical já coberto com cabelo e carne e ossos, seguramente consegue alcançar um fim sublime. O guerreiro poderoso que, tendo matado o comandante do exército hostil, sobe no veículo de seu adversário morto, vem a ser considerado como possuidor da destreza do próprio Vishnu e da inteligência de Vrihaspati, o preceptor dos celestiais. Aquele guerreiro que apanha vivo o comandante do exército hostil ou seu filho ou algum outro líder respeitado, consegue alcançar regiões de felicidade como as minhas. Não se deve nunca lamentar por um herói morto em batalha. Um herói morto, se ninguém se aflige por ele, vai para o céu e ganha o respeito de seus habitantes. Homens não desejam oferecer (para a salvação dele) alimento e bebida. Nem eles se banham (depois de receberem a informação), nem entram em luto por ele. Ouça-me enquanto eu enumero a felicidade que está armazenada para tal pessoa. As mais importantes das Apsaras, contadas às milhares, saem com grande velocidade (para receber o espírito do herói morto) cobiçando-o como seu esposo. O Kshatriya que cumpre devidamente seu dever em batalha, obtém por aquela ação o mérito de penitências e de virtude. De fato, tal conduta de sua parte está de acordo com o caminho eterno do dever. Tal homem obtém os méritos de todos os quatro modos de vida. Os idosos e as crianças não devem ser mortos; nem as mulheres; nem os que estão fugindo; nem alguém que segura uma palha em seus lábios, (pegar uma palha e segurá-la entre os lábios é uma indicação de rendição incondicional); nem alguém que diz 'Eu sou teu'. Tendo matado em batalha Jambha, Vritra, Vala, Paka, Satamaya, Virochana, o irresistível Namuchi, Samvara de ilusões incontáveis, Viprachitti, todos esses filhos de Diti e Danu, como também Prahlada, eu mesmo me tornei o chefe dos celestiais.'” “Bhishma continuou, ‘Ouvindo essas palavras de Sakra e aprovando-as, o rei Amvarisha compreendeu como os guerreiros conseguem, (por meio de batalha) alcançar sucesso para si mesmos (em relação a ganhar regiões de beatitude no céu).’” 99 "Bhishma disse, 'Em relação a isto é citada a história antiga da batalha entre Pratardana e o soberano de Mithila. O soberano de Mithila, Janaka, depois da instalação no sacrifício da batalha, alegrou todas as suas tropas (na véspera da luta). Ouça-me, enquanto eu narro a história. Janaka, o rei de grande alma de Mithila, conhecedor da verdade de tudo, mostrou o céu e o inferno para seus próprios guerreiros. Ele se dirigiu a eles, dizendo, 'Vejam, aquelas são as regiões, dotadas de grande esplendor, para aqueles que lutam destemidamente. Cheias de moças Gandharva, aquelas regiões são eternas e capazes de conceder todos os desejos. Lá, do outro lado, estão as regiões de inferno, destinadas para aqueles que fogem da batalha. Eles têm que apodrecer lá pela eternidade em vergonha eterna. Resolvidos a sacrificar suas próprias vidas, vençam seus inimigos. Não caiam no inferno inglório. O sacrifício da vida (em batalha) constitui, em relação aos heróis, sua alegre porta do céu.' Assim endereçados por seu rei, ó subjugador de cidades hostis, os guerreiros de Mithila, alegrando seu soberano, venceram seus inimigos em batalha. Aqueles que têm almas resolutas devem se colocar à frente da batalha. Os guerreiros em carros devem ser colocados no meio de elefantes. Atrás dos guerreiros em carros devem ficar os cavaleiros. Atrás dos últimos devem estar os soldados de infantaria todos vestidos em armadura. O rei que forma seu exército dessa maneira sempre consegue derrotar seus inimigos. Portanto, ó Yudhishthira, a ordem de batalha deve sempre ser formada assim. Cheios de fúria, os heróis desejam a bem-aventurança no céu por lutarem honestamente. Como Makaras agitando o oceano, eles agitam as tropas do inimigo. Encorajando uns aos outros, eles devem alegrar aqueles (entre eles) que estiverem desanimados. O vencedor deve proteger a terra recém conquistada (de atos de agressão). Ele não deve fazer suas tropas perseguirem demais o inimigo derrotado. O ataque é irresistível de pessoas que se reagrupam depois da derrota e que, desesperadas de segurança, atacam seus perseguidores. Por esta razão, ó rei, tu não deves fazer tuas tropas perseguirem muito o inimigo derrotado. Guerreiros de coragem não desejam atacar aqueles que fogem com velocidade. Esta é outra razão pela qual o inimigo derrotado não deve ser perseguido ardentemente. Coisas imóveis são devoradas por aquelas que são móveis; criaturas desdentadas são devoradas pelas que têm dentes; água é bebida pelos sedentos; covardes são devorados por heróis. Covardes sofrem derrota embora eles tenham, como os vencedores, costas e estômagos e braços e pernas similares. Aqueles que estão afligidos pelo medo baixam suas cabeças e unem suas mãos e ficam perante aqueles que possuem coragem. Este mundo repousa nos braços de heróis como um filho naqueles de seu pai. Aquele, portanto, que é um herói, merece respeito sob todas as circunstâncias. Não há nada mais sublime nos três mundos do que o heroísmo. O herói protege e cuida de todos, e todas as coisas dependem do herói.'" 100 "Yudhishthira disse, 'Diga-me, ó avô, como os reis desejosos de vitória devem, ó touro da raça Bharata, liderar suas tropas para lutar mesmo por ofender ligeiramente as regras de justiça!'” "Bhishma disse: 'Alguns dizem que a justiça é feita estável pela verdade (isto é, as ordenanças em relação aos deveres Kshatriya); alguns, por raciocínio (ou conclusão, indicando uma desconsideração pela vida, pois aquelas ordenanças não levam a outra conclusão), alguns, por bom comportamento (encorajar os soldados, falar gentilmente para eles, promover os corajosos, etc.); e alguns, pela aplicação de medidas e artifícios (punir deserção e covardia, etc. Batalhas, as quais, é claro, são planejadas para a proteção da justiça, se tornam possíveis em consequência dessas quatro causas.) Eu agora te direi quais são os meios e artifícios produtivos de resultados imediatos. Ladrões, ultrapassando todos os limites salutares, muito frequentemente se tornam destruidores de propriedade e mérito religioso. Para resistir e reprimir a eles, eu te direi quais são as medidas, como indicadas nas escrituras. Ouça-me enquanto eu falo daqueles meios para o sucesso de todas as ações. Ambos os tipos de sabedoria, honesta e desonesta, devem estar ao alcance do rei. Embora sabendo disso, ele não deve aplicar a sabedoria que é desonesta (para prejudicar outros). Ele pode usá-la para resistir aos perigos que possam ameaçá-lo. Inimigos frequentemente prejudicam um rei por produzirem desunião (entre seus ministros ou tropas ou aliados ou súditos). O rei, conhecedor de truques, pode, pela ajuda deles, neutralizar aqueles inimigos. Armadura de couro para proteger os corpos de elefantes, armadura do mesmo material para touros, ossos, espinhos, e armas de pontas afiadas feitas de ferro, cotas de malha, caudas de iaque, armas afiadas e bem temperadas, todos os tipos de armaduras, amarelas e vermelhas, bandeiras e estandartes de cores diversas, espadas, e lanças e cimitarras afiadíssimas e machados de batalha, e lanças e escudos, devem ser fabricados e estocados em abundância. As armas devem estar todas devidamente afiadas. Os soldados devem estar inspirados com coragem e resolução. É apropriado colocar as tropas em movimento no mês de Chaitra ou Agrahayana. As colheitas maduras nessa época e a água também não se tornam escassas. Essa época do ano, ó Bharata, não é nem muito fria nem muito quente. As tropas devem, portanto, ser movidas nesse tempo. Se o inimigo, no entanto, estiver em uma situação difícil, as tropas devem ser postas em movimento imediatamente (sem esperar por tal época favorável). Essas (duas) são as melhores ocasiões para o movimento das tropas com o objetivo de subjugar inimigos. A estrada ao longo da qual há abundância de água e grama, que é nivelada e fácil de marchar, deve ser adotada (em mover as tropas). As regiões perto da estrada (de ambos os lados) devem ser anteriormente bem verificadas por espiões habilidosos e que tenham conhecimento íntimo das florestas. As tropas não devem, como animais, marchar através de regiões cheias de mato. Reis desejosos de vitória devem, portanto, adotar boas estradas para a marcha de suas tropas. Na dianteira deve ser colocada uma divisão de homens valentes, dotados de força e nascimento nobre. Em relação a fortalezas, aquela que tem muros e uma trincheira cheia de água por todos os lados e somente uma entrada, é digna de louvor. A respeito de inimigos invasores, pode-se oferecer resistência de dentro dela. Ao montar o acampamento, uma região perto de florestas é considerada muito melhor do que uma sob o céu aberto por homens familiarizados com a guerra e possuidores de habilidades militares. O acampamento deve ser montado para as tropas não muito longe de tal floresta. Montar acampamento em tal local, colocar os soldados de infantaria em uma posição de segurança, e enfrentar o inimigo tão logo ele chegue, são os meios para se precaver do perigo e da desgraça. Mantendo a constelação chamada Ursa Maior (cujas sete estrelas são os sete grandes Rishis, isto é, Marichi, Atri, Angira, Pulastya, Pulaha, Kratu, e Vasishtha) atrás delas, as tropas devem lutar tomando suas posições como colinas. Por estes meios, pode-se vencer até inimigos que são irresistíveis. As tropas devem ser colocadas em tal posição que o vento, o sol, e o planeta Sukra (Vênus) sopre e brilhe atrás delas. Como meio para conseguir a vitória o vento é superior ao Sol, e o Sol é superior a Sukra, ó Yudhishthira. Homens familiarizados com a guerra aprovam uma região que não é lamacenta, nem aquosa, nem acidentada, e nem cheia de tijolos e pedras, como bem adequada para as operações de cavalaria. Um campo livre de lama e buracos é adequada para guerreiros em carros. Uma região que é coberta com arbustos e árvores grandes e que é submersa é adequada para guerreiros em elefantes. Uma região que tem muitos locais inacessíveis, que é coberta com árvores grandes e tufos de moitas de junco, como também uma área montanhosa ou arborizada, é adequada para operações de infantaria. Um exército, ó Bharata, que tem uma grande tropa de infantaria, é considerado muito forte. Um exército no qual carros e cavaleiros predominam é considerado muito eficaz em um dia claro (não chuvoso). Um exército no qual soldados a pé e elefantes predominam é efetivo na estação chuvosa. Tendo tratado desses pontos (acerca da qualidade dos diferentes tipos de tropas e da maneira de marchar, acampar, e guiar), o rei deve focar sua atenção nas características de tempo e lugar. O rei que tendo prestado atenção a todas estas considerações, parte sob uma constelação apropriada e em uma lunação auspiciosa, sempre consegue obter vitória por conduzir devidamente suas tropas. Ninguém deve matar aqueles que estão adormecidos ou sedentos ou fatigados, ou aqueles cujos equipamentos caíram, ou alguém que colocou seu coração na emancipação final, (como Bhurisravas no campo de Kurukshetra) ou que está fugindo, ou alguém que está andando (despreparado) por uma estrada, ou alguém que está ocupado comendo ou bebendo, ou um louco, ou um insano, ou alguém ferido mortalmente, ou extremamente enfraquecido por seus ferimentos, ou que está parado confiantemente, ou que começou qualquer tarefa sem poder completá-la (como alguém que começou um sacrifício que se estende por um longo período) ou alguém que é hábil em uma arte especial (como exploração de minas, etc.), ou que está em desgraça, ou que sai do acampamento para obter forragem, ou homens que levantam acampamentos ou que são vivandeiros, ou aqueles que esperam nos portões do rei ou de seus ministros, ou que fazem serviços humildes (para os chefes do exército), ou aqueles que são chefes de tais empregados. Aqueles entre teus guerreiros que rompem as fileiras de inimigos, ou reagrupam tuas tropas em retirada, devem ter seu pagamento dobrado e devem ser honrados por ti com alimento, bebida, e assentos iguais aos teus próprios. Aqueles entre estes que são chefes de dez soldados devem ser feitos chefes de cem. Também aquele herói atento (entre eles) que é chefe de cem soldados deve ser feito chefe de mil. Reunindo os principais guerreiros, eles devem ser endereçados assim: 'Juremos conquistar, e nunca abandonar uns aos outros. Que aqueles que estão com medo fiquem aqui. Que fiquem aqui também aqueles que causariam a morte de seus chefes por eles mesmos negligenciarem agir heroicamente na pressão da batalha. Que venham os homens que nunca fugiriam da batalha ou fariam seus próprios camaradas serem mortos. Protegendo a si mesmos como também seus companheiros, eles certamente matarão o inimigo em combate. As consequências da fuga da batalha são perda de riqueza, morte, infâmia, e repreensão. Palavras desagradáveis e cortantes têm que ser ouvidas por aquele homem que foge da luta, que perde seus lábios e dentes (uma forma de expressão significando falta de vergonha), que joga longe todas as suas armas, ou que se permite ser apanhado como um cativo pelo inimigo. Que tais más consequências sempre alcancem os guerreiros de nossos inimigos. Aqueles que fogem da batalha são patifes entre homens. Eles simplesmente aumentam o número de seres humanos sobre a terra. Pois humanidade verdadeira, no entanto, eles não são nem aqui nem após a morte. Inimigos vitoriosos, ó majestade, procedem alegremente. Seus louvores são recitados por bardos, em perseguição aos combatentes fugitivos. Quando inimigos, vindo para a batalha, mancham a fama de uma pessoa, a tristeza que a última sente é mais dolorosa, eu penso, do que a própria morte. Saiba que a vitória é a base do mérito religioso e de todos os tipos de felicidade. Aquilo que é considerado como a maior miséria pelos covardes (morte e dor física) é suportado alegremente por aqueles que são heróis. Decididos a alcançar o céu, nós devemos lutar, indiferentes à própria vida, e resolvidos a conquistar ou morrer, e alcançar um fim abençoado no céu. Tendo prestado tal juramento, e preparados para perder a própria vida, heróis devem avançar corajosamente contra as tropas do inimigo. Na dianteira deve ser colocada uma divisão de homens armados com espadas e escudos. Na retaguarda deve ser colocada a divisão de carros. No espaço intermediário devem ser colocadas outras classes de combatentes. Este deve ser o arranjo feito para atacar o inimigo. Os combatentes no exército que são veteranos devem lutar na dianteira. Eles protegerão seus companheiros atrás deles. Aqueles do exército que são considerados como os mais importantes por força e coragem devem ser colocados na vanguarda. Os outros devem ficar atrás deles. Aqueles que sentem medo devem, com cuidado, ser confortados e encorajados. Os combatentes mais fracos devem ser colocados no campo (sem serem afastados) para pelo menos mostrar o número do exército (para o inimigo). Se as tropas são poucas, elas devem ser colocadas juntas para lutar. Às vezes, se seu líder desejar, a formação de combate cerrada pode ser estendida. Quando um pequeno número de tropas têm que lutar com um grande exército, a formação chamada Suchimukha deve ser formada, (isto é, os soldados devem ser alinhados para formar uma aparência de cunha com uma parte frontal estreita). Quando uma pequena tropa está envolvida em combate com uma grande, o líder da primeira pode apertar a mão de seus homens e proferir gritos para causar efeito, 'O inimigo se dividiu! O inimigo se dividiu!' Aqueles entre eles que são dotados de força devem resistir ao inimigo, gritando ruidosamente para seus companheiros, 'Chegaram novos amigos! Ataquem seus inimigos sem medo!' Aqueles que estão à frente do resto devem proferir gritos altos e fazer diversos tipos de barulhos, e devem soprar e bater Krakachas, chifres de vaca, baterias, pratos, e timbales.'" 101 "Yudhishthira disse, 'De que disposição, de que comportamento, de que forma, equipados como, e armados de que maneira os combatentes devem estar a fim de que eles possam ser competentes para lutar?'” "Bhishma disse, 'É apropriado que (grupos específicos de combatentes) adotem armas e veículos com os quais eles se tornaram familiarizados pela prática. Soldados valentes, adotando aquelas armas e veículos, se envolvem em batalha. Os Gandharvas, os Sindhus, e os Sauviras lutam melhor com suas unhas e lanças. Eles são corajosos e dotados de grande força. Seus exércitos são capazes de derrotar todas as tropas. Os Usinaras possuem grande força e são habilidosos em todas as espécies de armas. Os habitantes do leste são hábeis em lutar das costas de elefantes e conhecem todos os modos de luta injusta. Os Yavanas, os Kamvojas, e aqueles que moram em volta de Mathura são bem habilidosos em lutar com braços nus. Os habitantes do sul são hábeis em lutar com espada na mão. É bem conhecido que pessoas que possuem grande força e coragem nascem em quase todos os países. Ouça-me enquanto eu descrevo suas indicações. Aqueles que têm vozes e olhos como aqueles do leão ou do tigre, aqueles que têm um modo de andar como aquele do leão e do tigre, e aqueles que têm olhos como aqueles do pombo ou da cobra, são todos heróis capazes de oprimir fileiras hostis. Aqueles que têm uma voz como (aquela do) veado, e olhos como aqueles do leopardo ou do touro, são possuidores de grande energia. Aqueles cuja voz parece com aquela de sinos são excitáveis, maus, e coléricos. Aqueles que têm uma voz profunda como aquela das nuvens, um rosto colérico, ou rostos como os dos camelos, que tem narizes e línguas curvos, possuem grande velocidade e podem atirar ou arremessar suas armas a uma grande distância. Aqueles que têm corpos arqueados como aquele do gato, e pouco cabelo e pele fina, se tornam dotados de grande velocidade e agitação e quase invencíveis em batalha. Alguns que possuem olhos fechados como aqueles da iguana, temperamento brando, e velocidade e voz como os cavalos, são competentes para lutar com todos os inimigos. Aqueles que têm corpos bem formados, vigorosos e simétricos, e peitos largos, que ficam zangados ao ouvirem o tambor ou trombeta do inimigo, que se deleitam em desordens de todos os tipos, aqueles que têm olhos que indicam seriedade, ou olhos que parecem disparar, ou olhos que são verdes, aqueles que tem rostos obscurecidos com expressões carrancudas, ou olhos como os do mangusto, são todos corajosos e capazes de perder suas vidas em batalha. Aqueles que têm olhos tortos e testas largas e ossos molares não cobertos com carne e braços fortes como raios e dedos portando marcas circulares, e que são magros com artérias e nervos que são visíveis, avançam com grande velocidade quando ocorre a colisão da batalha. Parecendo com elefantes enfurecidos, eles se tornam irresistíveis. Aqueles que têm cabelo esverdeado terminado em cachos, que têm flancos, bochechas, e rostos gordos e cheios de carne, ombros elevados e pescoços largos, que têm aparências temíveis e panturrilhas carnudas, que são impetuosos como Sugriva (o cavalo de Vasudeva) ou como a prole de Garuda, o filho de Vinata, que têm cabeças redondas, bocas grandes, rostos como aqueles de gatos, voz aguda e temperamento colérico, que avançam para a batalha, guiados por seu ruído, que são maus em comportamento e cheios de arrogância, de expressões terríveis, e que vivem nas regiões afastadas, são todos descuidados com suas vidas e nunca fogem da batalha. Tais tropas devem sempre ser colocadas na dianteira. Eles sempre matam seus inimigos em luta e se permitem serem mortos sem retroceder. De comportamento pecaminoso e modos grotescos, eles consideram palavras gentis como indicações de derrota. Se tratados com suavidade, eles sempre demonstram ira contra seu soberano.'" 102 "Yudhishthira disse. 'Quais são as indicações bem conhecidas, ó touro da raça Bharata, do (futuro) sucesso de um exército? Eu desejo conhecê-las.'” "Bhishma disse, 'Eu te direi, ó touro da raça Bharata, todas as indicações conhecidas do (futuro) sucesso de um exército. Quando os deuses se tornam zangados e inertes sendo incitados pelo destino, pessoas de conhecimento, contemplando tudo com a visão do conhecimento celestial, realizam diversas ações auspiciosas e ritos expiatórios incluindo homa e a recitação silenciosa de mantras, e assim atenuam todos os males. (Um astrólogo erudito e um sacerdote instruído são meios certos de obter vitórias por desviar todas as calamidades causadas por destino não auspicioso e pela ira dos deuses.) O exército no qual as tropas e os animais são todos vigorosos e alegres, ó Bharata, é certo de ganhar uma vitória categórica. O vento sopra favoravelmente de trás de tais tropas. Arco- íris aparecem no céu. As nuvens lançam suas sombras sobre eles e às vezes o sol brilha sobre eles. Os chacais se tornam auspiciosos para eles, e corvos e urubus também. Quando estes mostram tal respeito pelo exército, grande sucesso com certeza será alcançado por ele. Seus fogos (sacrificais) resplandecem com um esplendor puro, a luz indo para cima e as chamas sem fumaça se curvam ligeiramente para o sul. As libações despejadas sobre eles emitem uma fragrância agradável. Estas são citadas como as indicações de sucesso futuro. As conchas e baterias, sopradas e batidas, produzem sons altos e profundos. Os combatentes ficam cheios de entusiasmo. Estas são citadas como indicações de sucesso futuro. Se veados e outros quadrúpedes são vistos atrás ou à esquerda daqueles que já saíram para a batalha ou daqueles que estão prestes a sair, eles são considerados auspiciosos. Se eles aparecem à direita dos guerreiros enquanto prestes a se engajarem em matança, isto é considerado como uma indicação de sucesso. Se, no entanto, eles fazem seu aparecimento na frente de tais pessoas, eles indicam desastre e derrota. Se estas aves, isto é, cisnes e grous e Satapatras e Chashas proferem gritos auspiciosos, e todos os combatentes saudáveis ficam alegres, estas são consideradas como indicações de sucesso futuro. Aqueles cujo exército brilha com esplendor e se torna terrível de se olhar por causa do brilho de suas armas, máquinas, armaduras, e estandartes como também da cor radiante dos rostos dos homens vigorosos que estão dentro dele, sempre conseguem derrotar seus inimigos. Se os combatentes de uma hoste são de comportamento puro e postura modesta e auxiliam uns aos outros com bondade, isso é considerado como uma indicação de sucesso futuro. Se sons agradáveis e ordem e sensação de tato prevalecem, e se os combatentes estão inspirados com gratidão e paciência, isto é considerado como a base do sucesso. O corvo à esquerda de uma pessoa envolvida em batalha e à direita daquele que está prestes a se envolver nela é considerado auspicioso. Aparecendo às costas, ele indica não cumprimento dos objetivos em vista, enquanto seu aparecimento na frente pressagia perigo. Mesmo depois de alistar um exército grande consistindo nos quatro tipos de tropas, tu deves, ó Yudhishthira, primeiro te comportar pacificamente. Se teus esforços pela paz fracassarem, então tu podes te envolver em combate. A vitória, ó Bharata, que alguém adquire por meio de batalha é muito inferior. A vitória em batalha, parece, depende do capricho ou destino. Quando um exército grande se rompe e as tropas começam a fugir, é extremamente difícil deter sua fuga. A impetuosidade da fuga parece aquela de uma poderosa corrente de água ou de um bando de veados assustados. Alguns se dividiram. Por isto, sem causa adequada, outros se dividem, até aqueles que são corajosos e habilidosos em luta. Um exército grande, consistindo mesmo em soldados valentes, é como um bando grande de veados Ruru. (Se um único veado se assusta e corre em uma direção específica, o bando inteiro o segue sem causa adequada. O símile é particularmente apropriado no caso de grandes exércitos, especialmente de hostes Asiáticas, se uma única divisão se põe em fuga, o resto a segue. O medo é muito contagioso.) Às vezes também pode ser visto que mesmo cinquenta homens, resolutos e confiando uns nos outros, alegres e preparados para sacrificar suas vidas, conseguem oprimir inimigos numericamente muito superiores. Às vezes até cinco, ou seis, ou sete homens, resolutos e posicionados juntos, de descendência nobre e desfrutando da estima daqueles que os conhecem, derrotam inimigos muito superiores a eles em número. A colisão da batalha não é desejável, contanto que possa ser evitada. A política de conciliação, ou de produzir desunião, e fazer presentes devem ser tentados primeiro, a batalha, é dito, deve vir depois destes. À própria visão de uma tropa (hostil) o medo paralisa os medrosos, assim como à visão de um raio brilhante no céu eles perguntam, 'Oh, sobre o que ele irá cair?' Tendo averiguado que uma batalha está intensa, os membros daqueles que vão se unir a ela, como também daquele que está vencendo, transpiram profusamente. O país inteiro, ó rei, (que é a sede da guerra), fica agitado e atormentado com toda a sua população móvel e imóvel. A própria essência das criaturas incorporadas chamuscada com o calor de armas, enlanguesce com o tormento. Um rei deve, portanto, em todas as ocasiões, aplicar as artes de conciliação, misturando-as com medidas de severidade. (Isto é, o rei deve tentar conciliação, enviando ao mesmo tempo uma tropa invasora, ou fazendo uma demonstração armada. Tais medidas políticas têm êxito em ocasionar paz.) Quando as pessoas são afligidas por inimigos, elas sempre mostram uma disposição de chegar a um acordo. Agentes secretos devem ser enviados para produzir desunião entre os aliados do inimigo. Tendo produzido desunião, é muito desejável que as pazes então sejam feitas com o rei que aconteça de ser mais poderoso do que o inimigo (ao qual se procura esmagar). Se o invasor não procede dessa maneira, ele pode nunca conseguir esmagar completamente seu inimigo. Ao tratar com o inimigo, deve-se tomar cuidado para cercá-lo de todos os lados. A bondade sempre vem para aqueles que são bons, nunca para aqueles que são maus. Escute agora, ó Partha, aos usos do perdão e da severidade. A fama de um rei que demonstra bondade depois da conquista se expande amplamente. Os próprios inimigos de uma pessoa que tem uma disposição clemente confiam nele até quando ele se torna culpado de uma transgressão grave. Samvara disse que tendo afligido um inimigo primeiro, bondade deve ser mostrada posteriormente, pois um poste de madeira, se feito reto sem a aplicação de calor em primeiro lugar, logo assume seu estado anterior. Pessoas hábeis nas escrituras, de qualquer modo, não aprovam isto. Nem elas consideram isto como uma indicação de um bom rei. Por outro lado, eles dizem que um inimigo deve ser subjugado e controlado, como um pai subjugando e controlando um filho, sem raiva e sem destruí-lo. Se, ó Yudhishthira, um rei é severo, ele se torna um objeto de ódio para todas as criaturas. Se, por outro lado, ele é brando, ele é desrespeitado por todos. Portanto, pratique a severidade e a suavidade. Antes de derrotar, ó Bharata, e enquanto derrotando, profira palavras gentis; e tendo derrotado, mostre compaixão por eles e deixe eles entenderem que tu estás sofrendo e lamentando por eles. Tendo vencido um exército, o rei deve se dirigir ao sobreviventes dizendo, 'Eu não estou contente em absoluto que tantos tenham sido mortos por minhas tropas. Ai, as últimas, embora repetidamente dissuadidas por mim, não obedeceram minha ordem. Eu queria que aqueles (que estão mortos) estivessem todos vivos. Eles não mereciam tal morte. Eles eram todos homens bons e verdadeiros, que não recuavam da batalha. Tais homens, de fato, são raros. Aquele que matou tal herói em batalha certamente não fez o que era agradável para mim.' Tendo proferido tais palavras diante dos sobreviventes do inimigo vencido, o rei deve em segredo honrar aqueles entre suas próprias tropas que bravamente mataram o inimigo. Para acalmar os matadores feridos por seus sofrimentos na mão do inimigo, o rei, desejoso afeiçoá-los a si mesmo, deve até chorar, agarrando suas mãos afetuosamente. O rei deve assim, sob todas as circunstâncias, se comportar com conciliação. Um rei que é destemido e virtuoso se torna amado por todas as criaturas. Todas as criaturas, também, ó Bharata, confiam em tal soberano. Ganhando sua confiança, ele consegue desfrutar da terra como lhe agrada. O rei deve, portanto, por abandonar a falsidade, procurar obter a confiança de todas as criaturas. Ele deve também procurar proteger seus súditos de todos os temores se ele procura desfrutar da terra.'" 103 "Yudhishthira disse, 'Diga-me, ó avô, como o rei deve se comportar com um inimigo que é brando, com um que é violento, e com um que tem muitos aliados e uma grande força militar.'” "Bhishma disse, 'Em relação a isto é citada, ó Yudhishthira, a antiga narrativa da conversa entre Vrihaspati e Indra. Uma vez, aquele matador de heróis hostis, Vasava, o chefe dos celestiais, unindo suas mãos, se aproximou de Vrihaspati, e saudando-o, disse estas palavras.' "Indra disse, 'Como, ó regenerado, eu devo me comportar com meus inimigos? Como eu devo subjugá-los por meio de artifícios, sem exterminá-los? Em uma colisão entre dois exércitos, a vitória pode ser ganha por qualquer lado. De que maneira eu devo me comportar para que essa prosperidade resplandecente que eu ganhei e que chamusca todos os meus inimigos não possa me abandonar?' Assim endereçado, Vrihaspati, hábil em Virtude, Lucro, e Prazer, possuidor de um conhecimento dos deveres reais, e dotado de grande inteligência, respondeu a Indra nas seguintes palavras.'” "Vrihaspati disse, 'Uma pessoa nunca deve desejar subjugar seus inimigos por meio de disputa. Excitados com raiva e privados de bondade, somente garotos procuram briga. Alguém que deseja a destruição de um inimigo não deve por aquele inimigo em guarda. Por outro lado, ele nunca deve revelar sua ira ou medo ou alegria. Ele deve esconder estes dentro de seu próprio peito. Sem confiar de verdade no inimigo, ele deve se comportar como se ele confiasse nele completamente. Ele deve sempre falar palavras gentis para o inimigo e nunca fazer nada que seja desagradável. Ele deve se abster de atos inúteis de hostilidade como também de palavras insolentes. Como um caçador de aves selvagens, cuidadosamente proferindo gritos similares àqueles das aves que ele deseja capturar ou matar, as captura e as traz sob seu poder, assim mesmo deve um rei, ó Purandara, trazer seus inimigos sob submissão e então matá-los se ele quiser. Tendo vencido seus inimigos, uma pessoa não deve dormir tranquilamente. Um inimigo que é perverso ergue sua cabeça novamente como um fogo apagado de modo descuidado faz seu aparecimento outra vez. Quando a vitória pode ser obtida por qualquer um dos lados, uma colisão hostil de armas deve ser evitada. Tendo acalmado um inimigo em segurança, deve-se reduzi-lo à submissão e alcançar seu objetivo. Tendo consultado com seus ministros e com pessoas inteligentes versadas em política, um inimigo que é desconsiderado e negligenciado, sendo todo o tempo não subjugado no fundo, ataca na época apropriada, especialmente quando o inimigo dá um passo em falso. Por empregar seus próprios agentes de confiança, tal inimigo também tornará as forças do outro ineficientes por produzir desunião. Averiguando o início, o meio e o fim de seus inimigos, (isto é, averiguando tudo sobre eles), um rei deve em segredo nutrir sentimentos de hostilidade em direção a eles. Ele deve corromper as forças armadas de seu inimigo, averiguando tudo por meio de comprovação positiva, usando as artes de produzir discórdias, fazendo presentes, e aplicando veneno. Um rei nunca deve viver na companhia de seus inimigos. Um rei deve esperar um longo tempo e então matar seus inimigos. De fato, ele deve aguardar, esperando a oportunidade, para que ele possa cair sobre seu inimigo em uma hora quando o último menos esperar. Um rei nunca deve matar um grande número das tropas de seu inimigo, embora ele deva certamente fazer aquilo que fará decisiva sua vitória. O rei nunca deve fazer uma injúria para seu inimigo que cause ressentimento no coração dele. Nem ele deve causar ferimentos por meio de flechas e dardos verbais. Se a oportunidade vier, ele deve golpeá-lo, sem deixá-la escapar. Tal, ó chefe dos deuses, deve ser a conduta de um rei desejoso de matar seus inimigos em direção àqueles que são seus inimigos. Se uma oportunidade, em relação ao homem que a espera, passa uma vez, ela pode nunca ser tida novamente pela pessoa desejosa de agir. Agindo de acordo com as opiniões dos sábios somente, um rei deve romper a força de seu inimigo. Ele nunca deve, quando a oportunidade não for favorável, procurar realizar seus objetivos. Nem ele deve, quando a oportunidade estiver à mão, perseguir seu inimigo (isto é, arruiná-lo completamente). Abandonando luxúria, ira e orgulho, o rei deve, agindo com atenção, vigiar constantemente os pontos fracos de seus inimigos. Sua própria indulgência, a severidade de seus castigos, sua inatividade e negligências, ó chefe dos deuses, e os artifícios enganadores bem aplicados (por seus inimigos), arruínam um soberano tolo. Aquele rei que pode vencer estas quatro falhas e neutralizar os truques enganadores de seus inimigos consegue, sem dúvida, derrotar todos eles. Quando somente um ministro (sem precisar de alguma ajuda) for competente para realizar um objetivo secreto (do rei), o rei deve consultar somente com aquele único ministro a respeito de tal objetivo. Muitos ministros, se consultados, se esforçam para jogar a responsabilidade da tarefa sobre os ombros uns dos outros e até dão publicidade àquele objetivo que deve ser mantido em segredo. Somente se a consulta com um não for apropriada, o rei então deve consultar com muitos. Quando inimigos não são vistos, o castigo divino deve ser invocado sobre eles; quando vistos, o exército, consistindo em quatro tipos de tropas, deve ser movido. (Quando inimigos não são vistos, isto é, quando eles estão a uma distância, o rei deve empregar seu sacerdote para realizar os ritos do Atharvan para levar destruição sobre eles. No caso, no entanto, de inimigos sendo vistos, isto é, quando eles estão perto, ele deve mover suas tropas sem depender dos ritos Atharvan.) O rei deve primeiro usar as artes de produzir desunião, como também aquelas de conciliação. Quando chega a hora para cada meio específico, aqueles meios específicos devem ser aplicados. Às vezes, o rei deve até se prostrar perante um inimigo poderoso. É também desejável que, agindo atentamente, ele procure realizar a destruição do vencedor quando o último ficar desatento. Por se prostrar, por dar doação de tributo, por proferir palavras gentis, ele deve se humilhar diante de um rei mais poderoso. Ele nunca se deve, (quando chega a ocasião para tais ações) fazer qualquer coisa que possa despertar as suspeitas de um inimigo poderoso. O soberano mais fraco deve, sob tais circunstâncias, evitar cuidadosamente todas as ações que possam levantar suspeitas. Um rei vitorioso, também, não deve confiar em seus inimigos derrotados, pois aqueles que são vencidos permanecem sempre vigilantes. Não há nada, ó melhor dos reis, que seja de realização mais difícil do que a aquisição de prosperidade, ó soberano dos imortais, por pessoas de temperamento impaciente. A própria existência de pessoas de disposição agitada é repleta de perigo. Reis devem, portanto, com atenção concentrada, averiguar seus amigos e inimigos. Se um rei se torna brando, ele é desconsiderado. Se ele se torna violento, ele inspira medo nas pessoas. Portanto, não seja feroz, mas também não seja suave. Seja violento e gentil. Como uma corrente rápida derruba incessantemente a margem alta e causa grandes deslizamentos de terra, assim mesmo negligências e erros causam a ruína de um reino. Nunca ataque muitos inimigos ao mesmo tempo. Por aplicar as artes de conciliação, ou presentes, ou produção de desunião, ó Purandara, eles devem ser derrotados um por um. Com relação ao restante, (sendo poucos em número) o vencedor pode se comportar pacificamente para com eles. Um rei inteligente, mesmo se competente para isto, não deve começar a oprimir todos (os seus inimigos) de uma vez. Quando acontece de um rei ter um exército grande consistindo nos seis tipos de forças (isto é, infantaria, cavalos, elefantes, carros, tesouraria e comerciantes que seguem o acampamento) e cheio de cavalos, elefantes, carros, infantaria, e máquinas, todos dedicados a ele, quando ele se acha superior ao seu inimigo em muitos aspectos após uma comparação justa, então ele deve atingir abertamente o inimigo sem hesitação. Se o inimigo for forte, a adoção de uma política de conciliação (com ele) não é digna de aprovação. Por outro lado, o castigo por meios secretos é a política que deve ser adotada. Nem gentileza de comportamento deve ser adotada com tais inimigos, nem repetidas campanhas militares, para perda de colheitas, envenenamento de poços e tanques, e suspeitas em relação aos sete ramos de administração, devem ser evitados. (Perda de colheitas, etc. são as consequências inevitáveis de campanhas militares. O rei, em tais ocasiões, é obrigado também a tomar cuidado especial dos sete ramos de administração. Todos estes são desagradáveis, eles devem ser evitados.) O rei deve, em tais ocasiões, aplicar diversos tipos de fraude, diversos artifícios para colocar seus inimigos uns contra os outros, e diferentes tipos de comportamento hipócrita. Ele deve também, através de agentes de confiança, averiguar os feitos de seus inimigos em suas cidades e províncias. Reis, ó matador de Vala e Vritra, perseguindo seus inimigos e entrando em suas fortalezas, pegam e se apropriam das melhores coisas obteníveis lá, e planejam medidas apropriadas de política em suas próprias cidades e domínios. Fazendo presentes de riqueza a eles em particular, e confiscando suas posses publicamente, sem, no entanto, prejudicá-los materialmente, e proclamando que eles são todos homens perversos que têm sofrido por seus próprios delitos, reis devem enviar seus agentes para as cidades e províncias de seus inimigos. Ao mesmo tempo, em suas próprias cidades, eles devem, através de outras pessoas conhecedoras das escrituras, adornadas com todas as habilidades, familiarizadas com as ordenanças dos livros sagrados e possuidoras de erudição, fazer encantamentos e ritos matadores de inimigos serem realizados.'” "Indra disse, 'Quais são as indicações, ó melhor dos regenerados, de uma pessoa má? Questionado por mim, me diga como eu devo conhecer aquele que é mau.'” "Vrihaspati disse, ‘Uma pessoa má é aquela que proclama as falhas de outros às suas costas, que é inspirada com inveja pelas habilidades de outros, e que fica calada quando os méritos de outras pessoas são proclamados em sua presença, sentindo uma relutância em se unir ao coro. Mero silêncio em tais ocasiões não é indicação de maldade. Uma pessoa má, no entanto, em tais horas respira pesadamente, morde seus lábios, e sacode sua cabeça. Tal pessoa sempre se mistura em sociedade e fala de modo irrelevante (isto é, inicia assuntos de conversa que não surgem naturalmente, pois aquilo que ela tem em vista é proclamar os defeitos de outras pessoas, um tópico no qual somente ela está interessada e não seus ouvintes.) Tal homem nunca faz o que promete, quando os olhos da pessoa a quem ele deu a garantia não estão sobre ele. Quando os olhos da pessoa assegurada estão nele, o homem pecaminoso nem alude ao assunto. O homem malvado come sozinho (e não com outros na mesma mesa), e encontra defeito na comida colocada perante ele, dizendo, 'Tudo não está bem hoje como nos outros dias'. Sua disposição se revela em circunstâncias ligadas com seu modo de sentar, deitar, e cavalgar. Entristecer-se em ocasiões de tristeza e se regozijar em ocasiões de alegria, são as indicações de um amigo. Um comportamento oposto fornece indicações de um inimigo. Mantenha em teu coração esses ditados, ó soberano dos deuses! A disposição de homens perversos nunca pode ser ocultada. Eu então te disse, ó principal das divindades, quais são as indicações de uma pessoa má. Tendo escutado às verdades declaradas nas escrituras, siga-as devidamente, ó soberano dos celestiais!'” "Bhishma continuou, 'Tendo ouvido essas palavras de Vrihaspati, Purandara, empenhado em subjugar seus inimigos, agiu estritamente de acordo com elas. Decidido a vencer, aquele matador de inimigos, quando chegou a oportunidade, obedeceu essas instruções e reduziu todos os seus inimigos à submissão.'" 104 "Yudhishthira disse, 'Como deve um rei justo, que é contrariado por seus próprios oficiais, cuja tesouraria e exército não estão mais sob seu controle, e que não tem riqueza, se comportar para adquirir felicidade?'” "Bhishma disse, 'Em relação a isto, a história de Kshemadarsin é muitas vezes recitada. Eu narrarei aquela história para ti. Ouça-a, ó Yudhishthira! Foi ouvido por nós que nos tempos passados, quando o príncipe Kshemadarsin ficou enfraquecido e caiu em grande infortúnio, ele foi até o sábio Kalakavrikshiya, e saudando-o humildemente, disse a ele estas palavras.'” "O rei disse, 'O que deve fazer uma pessoa como eu que merece riqueza mas que, depois de repetidos esforços, fracassou em recuperar seu reino, ó Brahmana, exceto suicídio, furto e roubo, aceitação de proteção de outros, e outros atos de mesquinharia de um tipo parecido? Ó melhor dos homens, me diga isto. Alguém como tu que és familiarizado com moralidade e cheio de gratidão é o amparo de uma pessoa afligida pela doença, mental ou física. O homem deve abandonar seus desejos. Por agir dessa maneira, por abandonar alegria e tristeza, e ganhando a riqueza do conhecimento, ele consegue obter felicidade. Eu me aflijo por aqueles que aderem à felicidade mundana como dependente da riqueza. Tudo aquilo, no entanto, desaparece como um sonho. Aqueles que podem abandonar uma vasta riqueza realizam uma façanha muito difícil. Em relação a nós mesmos, nós somos incapazes de abandonar aquela riqueza a qual nem é mais existente (isto é, embora despojado de meu reino, eu ainda não posso abandonar a esperança de recuperá-lo). Eu estou privado de prosperidade e caí em uma situação miserável e triste. Instrua-me, ó Brahmana, por qual felicidade eu ainda posso me esforçar.' Assim endereçado pelo inteligente príncipe de Kosala, o sábio Kalakavrikshiya de grande esplendor deu a seguinte resposta.'” "O sábio disse, 'Parece que tu já compreendeste isto. Possuidor de conhecimento como tu és, tu deves agir como tu pensas. Tua opinião está correta, isto é, tudo isso que eu vejo é instável, eu mesmo como também tudo o que eu tenho. Saiba, ó príncipe, que aquelas coisas as quais tu consideras como existentes são na realidade inexistentes. O homem de sabedoria sabe disto, e consequentemente nunca é atormentado qualquer que seja a angústia que possa oprimi-lo. O que quer que tenha ocorrido e o que quer que ocorrerá é tudo irreal. Quando tu souberes disto que deve ser conhecido por todos, tu estarás livre da injustiça. Quaisquer coisas que tenham sido ganhas e adquiridas por aqueles que vieram antes, e as coisas que foram ganhas e adquiridas por aqueles que os sucederam, todas pereceram. Refletindo sobre isto, quem se entregaria à aflição? As coisas que eram, não são mais. As coisas que são, não serão novamente. A tristeza não tem o poder de restaurá-las. Não se deve, portanto, se entregar ao sofrimento. Onde, ó rei, está teu pai hoje, e onde está teu avô? Tu não os vês hoje, nem eles te vêem agora. Refletindo sobre tua própria instabilidade, por que tu te afliges por eles? Reflita com a ajuda de tua inteligência, e tu compreenderás que realmente tu cessarás de existir. Eu mesmo, tu, ó rei, teus amigos, e teus inimigos, iremos, sem dúvida, cessar de existir. De fato, tudo cessará de ser. Aqueles homens que estão agora com vinte ou trinta anos de idade, sem dúvida, irão todos morrer dentro dos próximos cem anos. Se um homem não puder ter a coragem para desistir de suas vastas posses, ele então deve se esforçar para pensar em suas posses como não suas e por estes meios procurar fazer o bem para si mesmo. (Isto é, ele deve pensar que sua riqueza foi dada a ele por causa de amigos e parentes e outros. Ele então conseguirá praticar caridade.) Uma pessoa não deve considerar aquisições que são futuras como suas. Aquisições que desapareceram também não devem ser consideradas como suas por alguém. O Destino deve ser considerado como todo-poderoso. Aqueles que pensam dessa maneira são considerados como possuidores de sabedoria. Tal hábito de olhar as coisas é um atributo dos bons. Muitas pessoas que são iguais ou superiores a ti em inteligência e esforço, embora desprovidas de riquezas, não somente estão vivas mas nunca estão governando reinos. Elas não são como tu. Elas não se entregam ao sofrimento como tu. Portanto, pare de sofrer dessa maneira. Tu não és superior àqueles homens, ou pelo menos igual a eles em inteligência e esforço?' O rei disse, 'Eu considero que o reino que eu tive com todos os seus anexos foi ganho por mim sem qualquer esforço. O Tempo todo-poderoso, no entanto, ó regenerado, o levou embora. A consequência, no entanto, que eu vejo, de meu reino ter sido varrido pelo Tempo como por um rio, é que eu sou obrigado a me sustentar do que quer que eu obtenha (por caridade).'” "O sábio disse, 'Movido pelo conhecimento do que é verdadeiro (na vida) uma pessoa nunca se deve sofrer pelo passado nem pelo futuro. Tenha tal estado de espírito, ó príncipe de Kosala, em relação todos os casos que possam atrair tua atenção. Desejando obter somente o que é obtenível e não o que é inalcançável, desfrute de tuas posses atuais e nunca sofra por aquilo que está ausente. Fique alegre, ó príncipe de Kosala, com o que quer que tu consigas ganhar com facilidade. Mesmo privado de prosperidade, não te angustie por isso mas procure preservar uma disposição pura. Somente um homem infeliz que é de uma compreensão superficial, quando desprovido da prosperidade antiga, critica o Ordenador supremo, sem estar contente com suas posses atuais. Tal pessoa considera outros, embora não merecedores, como homens abençoados com prosperidade. Por esta razão, aqueles que possuem malícia e vaidade e cheios de um senso de sua própria importância sofrem ainda mais miséria. Tu, no entanto, ó rei, não és manchado por tais vícios. Aguente a prosperidade de outros embora tu estejas desprovido de prosperidade. Aqueles que possuem sagacidade conseguem desfrutar da prosperidade que é conferida a outros. A prosperidade deixa a pessoa que odeia outras. Homens possuidores de comportamento justo e sabedoria e conhecedores dos deveres de Yoga renunciam à prosperidade e filhos e netos por sua própria vontade. Outros, considerando a riqueza terrestre extremamente instável e inalcançável, dependente como ela é de ação e esforço contínuos, são vistos também renunciarem a ela. Tu pareces possuir sabedoria. Por que tu então sofres tão lastimavelmente, desejando coisas que não devem ser desejadas, que são instáveis, e que dependem de outros? Tu desejas perguntar sobre aquele estado de espírito específico (o qual irá te permitir desfrutar de felicidade apesar da perda de tuas posses). O conselho que eu te dou é renunciar a todos aqueles objetos de desejo. Objetos que devem ser evitados surgem na aparência daqueles pelos quais se deve lutar, enquanto aqueles pelos quais se deve lutar surgem na aparência de objetos que devem ser evitados. Alguns perdem sua riqueza na busca de riqueza. Outros consideram a riqueza como a base da felicidade infinita, e, portanto, a perseguem avidamente. Alguns também, encantados pela riqueza, acham que não há nada superior a ela. Em seu desejo ávido pela aquisição de riqueza, tal pessoa perde todos os outros objetos da vida. Se, ó príncipe de Kosala, uma pessoa perde aquela riqueza que foi obtida com dificuldade e a qual era proporcional aos seus desejos, ela então, dominada pela inércia do desespero, desiste de todos os desejos de riqueza. Algumas pessoas de almas honradas e nascimento nobre se dedicam à aquisição de virtude. Estas renunciam a todos os tipos de felicidade mundana pelo desejo ganhar felicidade no outro mundo. Algumas pessoas sacrificam a própria vida, movidas pelo desejo de adquirir riqueza. Estas pensam que a vida não tem nenhuma utilidade se dissociada de riqueza. Veja sua condição deplorável. Contemple sua tolice. Quando a vida é tão curta e incerta, aqueles homens, movidos pela ignorância, fixam seus olhos na riqueza. Quem colocaria seu coração no acúmulo quando a destruição é seu fim, na vida quando a morte é seu fim, e na união quando a separação é seu fim? Às vezes o homem renuncia à riqueza, e às vezes a riqueza renuncia ao homem. Que homem possuidor de conhecimento se sentiria angustiado pela perda de riqueza? Há muitas outras pessoas no mundo que perdem riquezas e amigos. Contemple, ó rei, com tua inteligência, e tu entenderás que as calamidades que surpreendem os homens são todas devido à conduta dos próprios homens. Portanto, (como um remédio), reprima teus sentidos e mente e palavras. Pois, se estes se tornam fracos e produtivos de mal não há homem que possa se manter livre da tentação de objetos externos pelos quais ele sempre está cercado. Como ninguém pode formar uma idéia adequada do passado nem pode prever o futuro, havendo muitos intervalos de tempo e lugar, uma pessoa como tu, que és possuidor de tal sabedoria e destreza, nunca se entrega à angústia por causa de união e separação, por bem ou mal. Um pessoa de tal brandura de disposição, de alma bem controlada, conclusões firmes e observadora dos votos Brahmacharya, nunca se entrega ao sofrimento e nunca fica inquieta pelo desejo de adquirir ou medo de perder qualquer coisa de pouco valor. Não é adequado que tal homem adote uma vida enganadora de mendicância, uma vida que é pecaminosa e má e cruel e digna somente de um patife entre homens. Vá para a grande floresta e leve uma vida de felicidade lá, completamente só e subsistindo de frutas e raízes, reprimindo a palavra e a alma, e cheio de compaixão por todas as criaturas. Aquele que leva alegremente tal vida na floresta, com elefantes de grandes presas como companheiros, com nenhum ser humano a seu lado, e contente com os produtos da selva, é citado como agindo da maneira dos sábios. Um lago grande, quando fica turvo, retoma sua tranquilidade por si mesmo. Da mesma maneira, um homem de sabedoria, quando perturbado em tais questões, fica tranquilo por si mesmo. Eu vejo que uma pessoa que caiu em tal situação difícil como a tua pode viver alegremente exatamente assim. Quando a tua prosperidade é quase impossível de se recuperar, e quando tu não tem ministros e conselheiros, tal rota está aberta para ti. Tu esperas colher algum benefício por depender do destino?'" "O sábio disse, 'Se, por outro lado, ó Kshatriya, tu ainda achas que tens alguma destreza, eu discorrerei para ti acerca da linha de política que tu podes adotar para recuperar teu reino. Se tu puderes seguir aquela linha de política e procurar te empenhar, tu ainda podes recuperar tua prosperidade. Escute atentamente a tudo o que eu vou te dizer em detalhes. Se tu puderes agir de acordo com aqueles conselhos, tu poderás ainda obter uma vasta riqueza, de fato, teu reino e poder real e grande prosperidade. Se tu quiseres isto, ó rei, diga-me, porque então eu te falarei sobre aquela política.'” "O rei disse, 'Diga-me, ó santo, o que tu desejares dizer. Eu desejo ouvir e agir segundo os teus conselhos. Que este meu encontro contigo hoje seja produtivo de consequências (para mim).'” "O sábio disse, 'Renunciando ao orgulho e desejo e ira e alegria e medo, sirva teus próprios inimigos, te humilhando e unindo tuas mãos. Sirva Janaka, o soberano de Mithila, sempre realizando atos bons e puros. Firmemente devotado à verdade, o rei de Videha certamente te dará grande riqueza. Tu então te tornarás o braço direito daquele rei e obterás a confiança de todas as pessoas. Como uma consequência disto, tu então conseguirás obter muitos aliados possuidores de coragem e perseverança, puros em comportamento, e livres dos sete principais defeitos. Um pessoa de alma dominada e tendo seus sentidos sob controle, por aderir aos seus deveres, consegue se elevar e alegrar outros. Honrado por Janaka possuidor de inteligência e prosperidade, tu certamente te tornarás o braço direito daquele soberano e desfrutarás da confiança de todos. Tendo então reunido uma grande tropa e mantendo consultas com bons ministros, cause desunião entre teus inimigos e, colocando-os uns contra os outros, quebre todos eles como uma pessoa quebrando um vilwa com um vilwa. (O Vilwa é o fruto do Aegle marmelos.) Ou, fazendo as pazes com os inimigos de teu inimigo, destrua o poder do último. Tu então farás teu inimigo ser atraído para coisas boas que não são facilmente alcançáveis, para belas mulheres e tecidos, camas e assentos e veículos, todos dos tipos muito valiosos, e casas, e aves e animais de diversas espécies, e sucos e perfumes e frutas, para que teu inimigo possa se arruinar por si mesmo. (Isto é, por fazer teu inimigo se apegar a estas coisas, a tesouraria dele provavelmente se esgotará. Se isso puder ser ocasionado, teu inimigo logo será arruinado.) Se um inimigo for assim manobrado, ou se indiferença é para ser mostrada por ele, alguém que deseja agir segundo a boa política nunca deve permitir que aquele inimigo saiba disso em absoluto. Seguindo o comportamento que é aprovado pelos sábios, desfrute de todos os tipos de prazer nos domínios de teu inimigo, e imitando a conduta do cachorro, do veado, e do corvo, te comporte, com amizade aparente, em direção a teus inimigos. Faça eles empreenderem realizações que são imensas e difíceis de se realizar. Procure também que eles se envolvam em hostilidades com inimigos poderosos. Atraindo a atenção deles para jardins agradáveis e camas e assentos caros, por oferecer tais objetos de prazer, drene a tesouraria do inimigo. Aconselhando teu inimigo a realizar sacrifícios e fazer doações, gratifique os Brahmanas. Os últimos, (tendo recebido aqueles presentes através das tuas mãos), farão o bem para ti em retribuição (por realizarem penitências e ritos Védicos), e devorarão teus inimigos como lobos. Sem dúvida, uma pessoa de atos virtuosos obtém um fim excelente. Por tais feitos os homens conseguem ganhar regiões de muita felicidade no céu. Se a tesouraria de teus inimigos for esgotada (por feitos justos ou injustos), todos eles, ó príncipe de Kosala, podem ser reduzidos à submissão. A tesouraria é a base da felicidade no céu e da vitória sobre a terra. É por causa de suas tesourarias que os inimigos desfrutam de tal felicidade. A tesouraria, portanto, deve ser drenada por todos os meios. Não elogie o Esforço na presença de teu inimigo mas fale elogiosamente do Destino. Sem dúvida, o homem que confia demais em atos concernentes ao culto dos deuses logo encontra a destruição. Faça teu inimigo realizar o grande sacrifício chamado Viswajit e dessa maneira despoje-o de todas as suas posses. Através disso teu objetivo será cumprido. Tu podes então informar teu inimigo do fato que os melhores homens em seu reino estão sendo oprimidos (com exigências para reencher a tesouraria esgotada), e indicar algum asceta eminente conhecedor dos deveres de Yoga (que desapegará teu inimigo de todas as posses mundanas). O inimigo então desejará adotar a renúncia e se retirará para as florestas, desejoso de salvação. Tu irás então, com a ajuda de drogas preparadas pela fervura de ervas e plantas altamente eficazes, e de sais artificiais, destruir os elefantes e corcéis e homens (dos domínios de teu inimigo). Estes e muitos outros esquemas bem planejados são acessíveis, todos relacionados com fraude. Uma pessoa inteligente pode destruir dessa maneira a população de um reino hostil com veneno.'" 106 "O rei disse, 'Eu não desejo, ó Brahmana, manter a vida por meio de engano ou fraude. Eu não desejo a riqueza, embora grande, que deva ser obtida por meios injustos. No próprio início da nossa conversa atual eu excluí estes meios. Somente pela adoção de meios que não levem à crítica, de meios que me beneficiariam em todos os aspectos, somente por praticar atos que não sejam prejudiciais em suas consequências, eu desejo viver neste mundo. Eu sou incapaz de adotar esses métodos que tu me mostraste. De fato, essas instruções não ficam bem em ti.'” "O sábio disse, 'Estas palavras, ó Kshatriya, que tu falaste indicam que tu possuis sentimentos honrados. De fato, tu és correto em disposição e compreensão, ó tu de grande experiência. Eu me esforçarei pelo bem de ambos, isto é, por ti mesmo e por ele (o soberano de Videhas). Eu farei com que uma união, eterna e incapaz de se romper ocorra entre ti e aquele rei. Quem não gostaria de ter um ministro como tu que és nascido em uma linhagem nobre, que te abstém de todas as ações de injustiça e crueldade, que és possuidor de grande erudição, e que és bem versado na arte de governar e de conciliar todas as pessoas? Eu digo isto porque, ó Kshatriya, embora desprovido de reino e mergulhado em grande miséria, tu ainda desejas viver seguindo um comportamento que é correto. O soberano dos Videhas, firmemente fiel à verdade, virá logo à minha residência. Sem dúvida, ele fará o que eu recomendar fazer.'” "Bhishma continuou, "O sábio, depois disso, convidou o soberano dos Videhas, e disse estas palavras a ele: 'Esta pessoa é de nascimento nobre. Eu conheço o coração dele. Sua alma é tão pura como a superfície do espelho ou o disco da lua outonal. Ele foi examinado por mim de todas as maneiras. Eu não vejo algum defeito nele. Que aja amizade entre ele e tu. Deposite confiança nele como em mim mesmo. Um rei que não tem um ministro (competente) não pode governar seu reino mesmo por três dias. O ministro deve ser corajoso como também possuidor de grande inteligência. Por estas duas qualidades alguém pode conquistar ambos os mundos. Veja, ó rei, estas duas qualidades são necessárias para governar um reino. Reis virtuosos não têm tal amparo como um ministro possuidor de tais atributos. Esta pessoa de grande alma é de descendência real. Ele anda pelo caminho dos justos. Este que sempre mantém a virtude em vista é uma aquisição valiosa. Se tratado por ti com honra, ele reduzirá todos os teus inimigos à submissão. Se ele se envolver em combate contigo, ele fará o que como um Kshatriya ele deve fazer. De fato, se seguindo a maneira de seus pais e avôs ele lutar para te derrotar, será teu dever lutar com ele, cumpridor como tu és do dever Kshatriya de subjugar adversários. Sem te envolver em batalha, no entanto, por minha ordem, o empregue sob ti pelo desejo de te beneficiar. Lance teu olhar na virtude, desistindo da avareza que é imprópria. Não cabe a ti abandonar os deveres da tua classe por luxúria ou desejo de batalha. A vitória, ó majestade, não é certa. A derrota também não é certa. Lembrando disso, as pazes devem ser feitas com um inimigo por lhe dar alimento e outros artigos de prazer. Uma pessoa pode ver vitória e derrota em seu próprio caso. Aqueles que procuram exterminar um inimigo são às vezes eles mesmos exterminados no decurso de seus esforços.' Assim endereçado, o rei Janaka, saudando e honrando aquele devidamente touro entre Brahmanas que merecia todas as honras, respondeu a ele, dizendo, 'Tu tens grande erudição e grande sabedoria. Isso que tu disseste pelo desejo de nos beneficiar é certamente vantajoso para nós dois. Tal rumo de conduta é altamente benéfico (para nós). Eu não hesito em dizer isto.’ O soberano de Videha então, se dirigindo ao príncipe de Kosala, disse estas palavras: 'No cumprimento dos deveres Kshatriya como também com ajuda de Política, eu conquistei o mundo. Eu fui, no entanto, ó melhor dos reis, conquistado por ti com tuas boas qualidades. Sem nutrir nenhum sentimento de humilhação (se tu permaneceres ao meu lado), viva comigo como um vencedor. Eu respeito tua inteligência, e eu honro tua coragem. Eu não te desrespeito, dizendo que eu te derrotei. Por outro lado, viva comigo como um vitorioso. Honrado devidamente por mim, ó rei, tu irás para a minha residência.’ Ambos os reis então adoraram aquele Brahmana, e confiando um no outro, procederam para a capital de Mithila. O soberano dos Videhas, fazendo o príncipe de Kosala entrar em sua residência, honrou a ele que merecia todas as honras, com oferendas de água para lavar seus pés, mel e coalhos e os artigos usuais. O rei Janaka também entregou para seu convidado sua própria filha e diversos tipos de jóias e pedras preciosas. Este (o estabelecimento da paz) é o nobre dever dos reis; vitória e derrota são ambas incertas.'" "Yudhishthira disse, 'Tu, ó opressor de inimigos, descreveste o curso dos deveres, a conduta geral, os meios de vida, com seus resultados, de Brahmanas e Kshatriyas e Vaisyas e Sudras. Tu discursaste também sobre os deveres dos reis, o assunto de suas tesourarias, os meios de enchê-las, e o tópico de conquista e vitória. Tu falaste também das características dos ministros, as medidas que levam ao progresso dos súditos, as características dos seis membros de um reino, as qualidades dos exércitos, os meios de distinguir os maus, e os sinais daqueles que são bons, os atributos daqueles que são iguais, dos que são inferiores, e dos que são superiores, o comportamento que um rei desejoso de progresso deve adotar em direção às massas, e a maneira pela qual os fracos devem ser protegidos e cuidados. Tu falaste sobre todos estes assuntos, ó Bharata, dando instruções que são claras de acordo com o que foi inculcado em tratados sagrados. Tu falaste também do comportamento que deve ser adotado por reis desejosos de derrotar seus inimigos. Eu desejo agora, ó principal dos homens inteligentes, ouvir ao comportamento que alguém deve observar para com a multidão de homens corajosos que se reúnem em volta de um rei! Eu desejo saber como eles podem progredir, como eles podem ter afeição pelo rei, ó Bharata, e como eles podem conseguir subjugar seus inimigos e adquirir amigos. Me parece que só a desunião pode ocasionar sua destruição. Eu penso que é sempre difícil manter planos secretos quando muitos estão envolvidos. Eu desejo saber tudo isso em detalhes, ó opressor de inimigos! Diga-me também, ó rei, os meios pelos quais eles podem ser impedidos de romper com o rei.'” "Bhishma disse, 'Entre a aristocracia de um lado e o rei do outro, avareza e ira, ó monarca, são as causas que produzem inimizade. (Se o rei, movido por avareza, cobra impostos deles pesadamente, a aristocracia se ressente disto e procura derrubar o rei.) Um destes partidos (o rei) se entrega à avareza. Como uma consequência, a ira toma posse do outro (a aristocracia). Cada um planejando enfraquecer e arruinar o outro, ambos encontram a destruição. Por empregar espiões, artifícios de política, e força física, e adotar as artes de conciliação, presentes, e dissensões e aplicar outros métodos para produzir fraqueza, desgaste, e medo, os partidos atacam um ao outro. A aristocracia de um reino, tendo as características de um grupo compacto, se dissocia do rei se o último procura tirar demais deles. Dissociados do rei, todos eles ficam descontentes, e agindo por medo, tomam o partido dos inimigos de seu soberano. Se também os aristocratas de um reino são desunidos entre eles mesmos, eles encontram a destruição. Desunidos, eles são uma presa fácil para inimigos. Os nobres, portanto, devem sempre agir de comum acordo. Se eles forem unidos, eles podem ganhar aquisições de valor por meio de sua força e destreza. De fato, quando eles são assim unidos, muitos estrangeiros procuram sua aliança. Homens de conhecimento louvam aqueles nobres que estão unidos uns com os outros em vínculos de afeição. Se unidos em propósito, todos eles podem ser felizes. Eles podem (por seu exemplo) estabelecer rumos corretos de conduta. Por se comportarem apropriadamente, eles progridem em prosperidade. Por controlar seus filhos e irmãos e lhes ensinar seus deveres, e por se comportar bondosamente em direção a todas as pessoas cujo orgulho foi dominado pelo conhecimento (isto é, homens eruditos de humildade), a aristocracia progride em prosperidade. Por sempre se encarregar dos deveres de colocar espiões e planejar medidas de política, como também da questão de encher suas tesourarias, a aristocracia, ó tu de armas poderosas, progride em prosperidade. Por mostrar reverência apropriada por aqueles que possuem sabedoria e coragem e perseverança e que mostram destreza firme em todos os tipos de trabalho, a aristocracia progride em prosperidade. Possuidora de riqueza e recursos, de conhecimento das escrituras e todas as artes e ciências, a aristocracia salva as massas ignorantes de todos os tipos de infortúnio e perigo. Cólera (da parte do rei), ruptura, terror, punição, perseguição, opressão, e execuções, ó chefe dos Bharatas, fazem a aristocracia se afastar rapidamente do rei e tomar o partido dos inimigos dele. Aqueles, portanto, que são os líderes da aristocracia devem ser honrados pelo rei. Os negócios do reino, ó rei, dependem em grande parte deles. Conferências devem ser mantidas somente com aqueles que são os líderes da aristocracia, e agentes secretos devem ser colocados, ó destruidor de inimigos, com eles somente. O rei não deve, ó Bharata, consultar com todos os membros da aristocracia. O rei, agindo de comum acordo com os líderes, deve fazer o que for para o bem de toda a classe. Quando, no entanto, a aristocracia se torna separada e desunida e desprovida de líderes, outras atitudes devem ser tomadas. Se os membros da aristocracia disputam uns com os outros e agem, cada um de acordo com seus próprios recursos, sem combinação, sua prosperidade decresce e diversas espécies de males ocorrem. Aqueles entre eles que possuem erudição e sabedoria devem reprimir uma disputa tão logo ela aconteça. De fato, se os superiores de uma classe olham com indiferença, disputas irrompem entre os membros. Tais disputas ocasionam a destruição de uma classe e produzem desunião entre (a classe inteira) dos nobres. Proteja a ti mesmo, ó rei, de todos os temores que surgem de dentro. Os temores, no entanto, que surgem de fora são de pouca consequência. O primeiro tipo de medo, ó rei, pode cortar tuas raízes em um único dia. Pessoas que são iguais umas às outras em família e sangue, influenciadas por ira ou tolice ou cobiça provenientes de suas próprias naturezas, param de falar umas com as outras. Este é um indício de derrota. Não é por coragem, nem por inteligência, nem por beleza, nem por riqueza que inimigos conseguem destruir a aristocracia. É somente pela desunião e presentes que ela pode ser reduzida à subjugação. Por esta razão, a união é considerada o grande refúgio da aristocracia.'" 108 "Yudhishthira disse, 'O caminho do dever é longo. Ele tem também, ó Bharata, muitos ramos. Quais, no entanto, de acordo contigo, são aqueles deveres que mais merecem ser praticados? Quais atos, de acordo contigo, são os mais importantes entre todos os deveres, pela prática dos quais eu posso ganhar o maior mérito aqui e após a morte?'” "Bhishma disse, 'O culto de mãe, pai, e preceptor é o mais importante de acordo comigo. O homem que se encarrega deste dever aqui, consegue obter grande fama e muitas regiões de felicidade. Adorados com respeito por ti, o que quer que eles te ordenem, seja compatível com a virtude ou não compatível com ela, deve ser feito sem hesitar, ó Yudhishthira! Nunca se deve fazer o que eles proíbem. Sem dúvida, aquilo que eles ordenam deve sempre ser feito. Eles são os três mundos. Eles são os três modos de vida. Eles são os três Vedas. Eles são os três fogos sagrados. O pai é citado como o fogo Garhapatya; a mãe, o fogo Dakshina, e o preceptor é o fogo sobre o qual libações são despejadas. Estes três fogos são, é claro, os mais eminentes. Se tu cuidares com atenção destes três fogos, tu terás sucesso em conquistar os três mundos. Por servir o pai com regularidade, uma pessoa pode cruzar este mundo. Por servir a mãe da mesma maneira, pode-se alcançar regiões de felicidade no próximo. Por servir o preceptor com regularidade pode-se alcançar a região de Brahma. Te comporte adequadamente em direção a estes três, ó Bharata, e tu então obterás grande fama nos três mundos, e serás abençoado, e grandioso será teu mérito e recompensa. Nunca os contrarie em nenhuma ação. Nunca coma antes de eles comerem, nem coma nada que seja melhor do que o que eles comem. Nunca atribua qualquer defeito a eles. Deve-se sempre servi-los com humildade. Este é um ato de grande mérito. Por agir dessa maneira, ó melhor dos reis, tu poderás obter fama, mérito, honra, e regiões de felicidade após a morte. Aquele que honra estes três é honrado em todos os mundos. Aquele, por outro lado, que os desrespeita falha em obter algum mérito de algum de seus atos. Tal homem, ó opressor de inimigos, não adquire mérito nem neste mundo nem no próximo. Aquele que sempre desrespeita estes três superiores nunca obtém fama aqui ou após a morte. Tal homem nunca ganha algum bem no mundo seguinte. Tudo o que eu doei em honra daqueles três se multiplicou por cem ou por mil. É por causa daquele mérito que agora mesmo, ó Yudhishthira, os três mundos estão claramente diante dos meus olhos. Um Acharya é superior a dez Brahmanas versados nos Vedas. Um Upadhyaya é superior a dez Acharyas. O pai é superior a dez Upadhyayas. A mãe é superior a dez pais, ou talvez, ao mundo inteiro, em importância. Não há ninguém que mereça tal reverência como a mãe. Na minha opinião, no entanto, o preceptor é digno de maior reverência do que o pai ou até a mãe. O pai e a mãe são os criadores da constituição de uma pessoa. O pai e a mãe, ó Bharata, somente criam o corpo. A vida, por outro lado, que uma pessoa obtém de seu preceptor, é divina. Aquela vida não está sujeita à decadência e é imortal. O pai e a mãe, por mais que possam ofender, nunca devem ser mortos. Por não punir um pai e uma mãe, (mesmo que eles mereçam castigo), uma pessoa não incorre em pecado. De fato, tais pessoas veneráveis, por desfrutarem de impunidade, não maculam o rei. Os deuses e os Rishis não retiram seus favores de pessoas que se esforçam para cuidar até de seus pais pecaminosos com reverência. Aquele que favorece uma pessoa por lhe dar instrução verdadeira, por lhe comunicar os Vedas e dar conhecimento que é imortal, deve ser considerado como ambos, um pai e uma mãe. O discípulo, em grato reconhecimento pelo que o instrutor tem feito, nunca deve fazer algo que possa ofender o último. Aqueles que não reverenciam seus preceptores depois de receberem instrução deles por obedecê-los respeitosamente em pensamentos e ações, incorre no pecado de assassinar um feto. Não há pecador neste mundo como eles. Os preceptores sempre demonstram grande afeição por seus discípulos. Os últimos devem, portanto, mostrar por seus preceptores uma reverência proporcional. Quem, portanto, deseja ganhar aquele mérito excelente que tem existido desde os tempos antigos, deve cultuar e adorar seus preceptores e dividir alegremente com eles todos os objetos de prazer. Com aquele que agrada seu pai o próprio Prajapati está satisfeito. Aquele que agrada sua mãe gratifica a própria terra. Aquele que satisfaz seu preceptor gratifica Brahma por sua ação. Por esta razão, o preceptor é digno de maior reverência do que o pai ou a mãe. Se os preceptores são adorados, os próprios Rishis e os deuses, junto com os Pitris, são todos satisfeitos. Portanto, o preceptor é digno da maior reverência. O preceptor nunca deve ser desrespeitado de alguma maneira pelo discípulo. Nem a mãe nem o pai merecem tal respeito como o preceptor. O pai, a mãe, e o preceptor nunca devem ser insultados. Não deve ser encontrado defeito em alguma ação deles. Os deuses e os grandes Rishis estão satisfeitos com aquele que se comporta com reverência para com seus preceptores. Aqueles que ofendem em pensamentos e atos seus preceptores, ou pais, ou mães, incorrem no pecado de assassinar um feto. Não há pecadores no mundo iguais a eles. O filho gerado do pai e do útero da mãe e criado por eles que, quando eles chegam à idade avançada, não os sustenta em retorno, incorre no pecado de matar um feto. Não há pecador no mundo como ele. Nós nunca soubemos que estes quatro, isto é, aquele que fere um amigo, aquele que é ingrato, aquele que mata uma mulher, e aquele que mata um preceptor, alguma vez conseguiram se purificar. Eu agora te disse em geral tudo o que uma pessoa deve fazer neste mundo. Além desses deveres que eu indiquei, não há nada que produza maior felicidade. Pensando em todos os deveres, eu te disse sua essência.'" 109 "Yudhishthira disse, 'Como, ó Bharata, deve agir uma pessoa que deseja aderir à virtude? Ó touro da raça Bharata, possuidor como tu és de conhecimento, me diga isto, questionado por mim. Verdade e mentira existem, cobrindo todos os mundos. Qual destes dois, ó rei, uma pessoa que é firme em virtude deve adotar? O que também é a verdade? O que é a falsidade? E qual é a virtude eterna? Em quais ocasiões uma pessoa deve dizer a verdade, e em quais ocasiões ela deve dizer uma mentira?'” "Bhishma disse, 'Dizer a verdade é consistente com a virtude. Não há nada maior do que a verdade. Eu irei agora, ó Bharata, te dizer o que não é geralmente conhecido pelos homens. Onde a mentira assumiria o aspecto de verdade, a verdade não deve ser dita. E onde a verdade assumiria o aspecto de mentira, a mentira mesma deve ser dita. Incorre em pecado aquela pessoa ignorante que diz a verdade que é dissociada de retidão. É considerada conhecedora dos deveres a pessoa que pode distinguir a verdade da falsidade (isto é, que sabe quando a verdade se torna tão nociva quanto uma mentira, e quando a mentira se torna tão correta quanto a verdade). Mesmo uma pessoa que não é respeitável, de alma impura, e que é muito cruel, pode conseguir ganhar grande mérito como o caçador Valaka por matar a besta cega (que ameaçava destruir todas as criaturas, vide Karna Parva). Quão extraordinário é que uma pessoa de compreensão superficial, embora desejosa de adquirir mérito (por meio de penitências rígidas) ainda tenha cometido um ato pecaminoso! (Karna Parva, um Rishi, por apontar o local onde certas pessoas inocentes se escondiam de um grupo de ladrões, incorreu no pecado de assassinato). Uma coruja, certa vez, nas margens do Ganges, (por fazer um ato injusto) obteve grande mérito. (A alusão é à história de uma coruja indo para o céu por ter, com seu bico, quebrado mil ovos colocados por uma serpente de veneno mortal.) A pergunta que tu me fizeste é difícil, já que é difícil dizer o que é a justiça. Não é fácil indicá-la. Ninguém ao falar sobre justiça pode indicá-la exatamente. A justiça foi declarada (por Brahman) para a melhoria e crescimento de todas as criaturas. Portanto, o que leva à melhoria e crescimento é justiça. A justiça foi declarada para impedir as criaturas de ferirem umas às outras. Portanto, é a Justiça que impede os danos às criaturas. A Justiça (Dharma) é assim chamada porque sustém todas as criaturas. Realmente, todas as criaturas são mantidas pela justiça. Portanto, é a justiça que é capaz de preservar todas as criaturas. Alguns dizem que a justiça consiste no que foi inculcado nos Srutis. Outros não concordam com isto. Eu não criticaria aqueles que falam assim. Pois nem tudo foi declarado nos Srutis. (Isto se refere à bem conhecida definição de Dharma imputada a Vasishtha, isto é, "Aquilo que é declarado nos Srutis e Smritis é Dharma." O defeito dessa definição é que os Srutis e os Smritis não incluem todos os deveres. Então Vasishtha foi obrigado a adicionar que onde estes estão silenciosos, os exemplos e práticas dos bons devem ser os guias de homens, etc.) Às vezes homens (ladrões), desejosos de obter a riqueza de alguém, fazem perguntas (para facilitar o ato de saque). Nunca se deve responder a tais perguntas. Este é um dever estabelecido. Se por manter silêncio uma pessoa conseguir escapar, ela deve ficar calada. Se, por outro lado, o silêncio em uma hora quando se deveria falar despertar suspeitas, seria melhor em tal ocasião dizer o que é falso do que o que é verdadeiro. Esta é uma conclusão segura. Se alguém puder escapar de homens pecaminosos por meio de um juramento (falso), ele pode fazê-lo sem incorrer em pecado. Não se deve, mesmo que se possa, doar sua riqueza para homens pecaminosos. A riqueza dada para homens pecaminosos aflige até o doador. Se um credor deseja fazer seu devedor saldar o empréstimo por prestar serviço corpóreo, as testemunhas seriam todas mentirosas se, convocadas pelo credor para provar a verdade do contrato, elas não dissessem o que deve ser dito. Quando a vida está em risco ou em uma ocasião de casamento, pode-se dizer uma inverdade. Alguém que busca virtude não comete um pecado por dizer uma mentira, se aquela mentira for dita para salvar a riqueza e prosperidade de outros ou para propósitos religiosos. Tendo prometido pagar, uma pessoa se torna obrigada a cumprir sua promessa. No fracasso, que o próprio apropriador seja escravizado à força. Se uma pessoa, sem cumprir um compromisso justo, age com impropriedade, ela deve certamente ser afligida pela vara de castigo por ter adotado tal comportamento. Uma pessoa enganadora, se desviando de todos os deveres e abandonando aqueles de sua própria classe, sempre deseja se dirigir às práticas de Asuras para manter a vida. Tal canalha pecaminoso vivendo por fraude deve ser morto por todos os meios. Tais homens pecaminosos pensam que não há nada neste mundo superior à riqueza. Tais homens nunca devem ser tolerados. Ninguém deve comer com eles. Eles devem ser considerados como decaídos por causa de seus pecados. De fato, decaídos da condição de humanidade e excluídos da graça dos deuses, eles são como espíritos maus. Sem sacrifícios e sem penitências como eles são, te abstenha da companhia deles. Se a riqueza deles for perdida, eles até cometem suicídio, o que é extremamente deplorável. Entre aqueles homens pecaminosos não há um a quem tu possas dizer, 'Este é teu dever. Que teu coração se volte para isto.' Suas firmes convicções são de que não há nada neste mundo que seja igual à riqueza. A pessoa que matasse tal criatura não incorreria em pecado. Aquele que o mata, mata alguém que realmente já foi morto por suas próprias ações. Se morto, é o morto que é morto. Aquele que jura destruir aquelas pessoas de juízo perdido deve manter sua promessa. Tais pecadores, como o corvo e o urubu, dependem de fraude para viver. Depois da dissolução de seus corpos (humanos), eles renascem como corvos e urubus. Uma pessoa deve, em qualquer assunto, se comportar com outra como aquela outra se comporta naquele assunto. Aquele que pratica fraude deve ser repelido com fraude, enquanto alguém que é honesto deve ser tratado com honestidade.'" 110 "Yudhishthira disse, 'As criaturas são vistas serem afligidas de diversas maneiras e quase constantemente. Diga-me, ó avô, de que modo alguém pode vencer todas essas dificuldades.'” "Bhishma disse, 'Os membros da classe regenerada que praticam devidamente, com almas controladas, os deveres que foram prescritos nas escrituras para os vários modos de vida, conseguem vencer todas essas dificuldades. Aqueles que nunca praticam fraude, cujo comportamento é reprimido por restrições salutares, e aqueles que controlam todos os desejos mundanos, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que não falam quando endereçados em má linguagem, que não ofendem outros quando eles mesmos são ofendidos, aqueles que dão mas não tiram, conseguem vencer todas as dificuldades. Os que sempre dão abrigo hospitaleiro para os convidados, que não se entregam à malícia, que estão constantemente dedicados ao estudo dos Vedas, conseguem vencer todas as dificuldades. Aquelas pessoas que, estando familiarizadas com os deveres, adotam aquele comportamento que devem ter para com os pais, aqueles que se abstêm de dormir durante o dia, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que não cometem qualquer tipo de pecado em pensamento, palavra, e ação, que nunca ferem qualquer criatura, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles reis que, não estando sob a influência de paixão e avareza, não cobram impostos opressivos, e aqueles que protegem seus próprios domínios, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que vão até suas próprias esposas na época apropriada sem procurar a companhia de outras mulheres, aqueles que são honestos e atentos aos seus Agni-hotras, conseguem vencer todas as dificuldades. Os que possuem coragem e que, abandonando todo o medo da morte, se engajam em batalha, desejosos de vitória por meios honestos, conseguem vencer todas as dificuldades. Os que sempre falam a verdade neste mundo até quando a vida está em risco, e que são exemplos para todas as criaturas imitarem, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles cujos atos nunca enganam, cujas palavras são sempre agradáveis, e cuja riqueza é sempre bem gasta, conseguem vencer todas as dificuldades. Os Brahmanas que nunca estudam os Vedas em horas não destinadas para estudo, e aqueles que praticam penitências com devoção, conseguem vencer todas as dificuldades. Os brahmanas que se dirigem para uma vida de celibato e Brahmacharya, que realizam penitências, e que são purificados pela erudição, conhecimento Védico, e votos apropriados, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que controlaram todas as qualidades que pertencem à Paixão e Ignorância, que possuem almas nobres, e que praticam as qualidades que são chamadas de Bondade, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles de quem nenhuma criatura tem medo e que não temem nenhuma criatura, aqueles que consideram todas as criaturas como a si mesmos, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles touros entre homens que são bons, que nunca sentem mágoa ao verem a prosperidade de outras pessoas, e que se abstêm de todos os tipos de comportamento ignóbil, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que reverenciam todos os deuses, que ouvem as doutrinas de todos os credos, que têm fé, e que são dotados de almas tranquilas, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que não desejam honra para si mesmos, que dão honras a outros, que se curvam àqueles que merecem seu culto, conseguem vencer todas as dificuldades. Os que realizam Sraddhas nos dias lunares apropriados, com mentes puras, por desejo de filhos, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que reprimem sua própria ira e acalmam a ira de outros, e que nunca se zangam com nenhuma criatura, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que se abstêm, desde seu nascimento, de mel e carne e bebidas embriagantes, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que comem somente para manter a vida, que procuram a companhia de mulheres somente por causa de prole e que abrem seus lábios somente para falar o que é verdadeiro, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que adoram com devoção o deus Narayana, aquele Senhor Supremo de todas as criaturas, aquela origem e destruição do universo, conseguem vencer todas as dificuldades. Este Krishna aqui, de olhos vermelhos como o lótus, vestido em mantos amarelos, dotado de braços poderosos, este Krishna que é nosso benquerente, irmão, amigo, e parente, é Narayana de glória imperecível. Ele cobre todos os mundos como uma capa de couro, por sua própria vontade. Ele é o Senhor pujante, de alma inconcebível. Ele é Govinda, o principal de todos os seres. Este Krishna que está sempre empenhado em fazer o que é agradável e benéfico para Jishnu, como também para ti, ó rei, é aquele principal de todos os seres, irresistível, aquela residência de felicidade eterna. Aqueles que com devoção procuram a proteção deste Narayana, chamado também de Hari, conseguem vencer todas as dificuldades. Aqueles que lêem estes versos acerca do vencimento das dificuldades, aquele que os recita para outros, e que fala deles para Brahmanas, conseguem vencer todas as dificuldades. Eu agora, ó impecável, te disse todas aquelas ações pelas quais os homens podem superar todas as dificuldades aqui e após a morte.'" 111 "Yudhishthira disse, 'Muitas pessoas aqui que não têm realmente almas tranquilas aparecem em forma externa como homens de almas tranquilas. Há também outros que são realmente de almas tranquilas mas que parecem ser o contrário. Como, ó senhor, nós conseguiremos reconhecer essas pessoas?'” "Bhishma disse, 'Em relação a isto é narrada a antiga história da conversa entre um tigre e um chacal. Escute-a, ó Yudhishthira! Nos tempos antigos, em uma cidade chamada Purika, cheia de riqueza, havia um rei chamado Paurika. Aquele pior dos seres era extremamente cruel e tinha prazer em ferir outros. Na expiração do período de sua vida ele obteve um fim indesejável. Realmente, maculado pelas más ações de sua vida humana, ele renasceu como um chacal. Lembrando-se de sua antiga prosperidade, ele ficou cheio de pesar e se abstinha de carne até quando trazida perante ele por outros. E ele se tornou compassivo para todas as criaturas, e verdadeiro em palavras, e firme na observância de votos rígidos. Na hora designada ele se alimentava de alimento que consistia em frutas que caíam das árvores. Aquele chacal morava em um vasto crematório e gostava de morar lá. E como aquele era seu local de nascimento, ele nunca desejou trocá-lo por localidade mais agradável. Incapazes de tolerar a pureza de seu comportamento, os outros membros de sua espécie se esforçaram para fazê-lo alterar sua resolução por se dirigirem a ele nas palavras seguintes repletas de humildade: ‘Embora residindo neste crematório terrível, tu ainda desejas viver em tal pureza de comportamento. Isto não é uma incorreção de compreensão da tua parte, já que tu és por natureza um comedor de carniça? Seja como nós. Todos nós te daremos comida. Coma aquilo que deve ser sempre teu alimento, abandonando tal pureza de conduta.’ Ouvindo estas palavras deles, o chacal respondeu para eles, com atenção concentrada, nestas palavras gentis repletas de razão e inculcando inofensividade para todos: 'Meu nascimento foi inferior. É a conduta, no entanto, que determina a classe. (Embora nascido em uma classe inferior, não há razão pela qual eu deva agir como uma pessoa inferior. É o comportamento que determina a classe e não a classe que determina o comportamento. Há pessoas virtuosas, portanto, em todas as classes.) Eu desejo me comportar de tal maneira que minha fama possa se espalhar. Embora minha habitação seja este crematório, contudo escutem aos meus votos em relação a comportamento. A própria pessoa é a causa de suas ações. O modo de vida para o qual alguém possa se dirigir não é a causa de suas ações religiosas. Se alguém, enquanto na observância de um modo específico de vida, mata um Brahmana, o pecado de Brahmanicídio não se vincula a ele? Se, por outro lado, alguém doa uma vaca enquanto não está na observância de algum modo de vida específico, aquela doação piedosa não produzirá mérito? Movidos pelo desejo de conseguir o que é agradável, vocês estão empenhados somente em encher seus estômagos. Estupefatos pela insensatez vocês não vêem as três falhas que estão no fim. Eu não gosto de adotar a vida levada por vocês, repleta como ela é de mal aqui e após a morte, e caracterizada como ela é por tal repreensível perda de virtude ocasionada pelo descontentamento e tentação.' Aconteceu de um tigre, célebre por bravura, ouvir por acaso essa conversação, e consequentemente, tomando o chacal por uma pessoa erudita de comportamento puro, ofereceu a ele tal culto respeitoso como o que era adequado para si mesmo e então expressou um desejo de nomeá-lo seu ministro.'” "O tigre disse, 'Ó personalidade virtuosa, eu sei o que tu és. Desempenhe os deveres de governo comigo. Desfrute de quaisquer artigos que possam ser desejados por ti, abandonando tudo o que possa não satisfazer o teu gosto. Em relação a nós, nós somos conhecidos por termos um temperamento feroz. Nós te informamos disto com antecedência. Se tu te comportares com brandura, tu serás beneficiado e colherás vantagens para ti mesmo.' Honrando estas palavras daquele senhor de grande alma de todos os animais, o chacal, baixando um pouco sua cabeça, disse estas palavras repletas de humildade.'” "O chacal disse, 'Ó rei dos animais, estas tuas palavras com referência a mim são tais que condizem contigo. É também digno de ti que tu devas procurar por ministros de comportamento puro e familiarizados com deveres e negócios mundanos. Tu não podes manter tua grandeza sem um ministro virtuoso, ó herói, ou com um ministro perverso que está em vigia para por um fim à própria vida. Tu deves, ó altamente abençoado, respeitar aqueles teus ministros que são devotados a ti, que são conhecedores da política, independentes uns dos outros, desejosos de te coroar com vitória, não maculados pela avareza, livres de falsidade, possuidores de sabedoria e sempre dedicados ao teu bem, e dotados de grande energia mental, assim como tu respeitas teus preceptores ou pais. Mas, ó rei dos animais, como eu estou perfeitamente contente com a minha posição atual, eu não desejo mudá-la por nada mais. Eu não cobiço prazeres luxuosos ou a felicidade que provém deles. A minha conduta, também, pode não estar de acordo com aquela de teus velhos empregados. Se ocorrer de eles serem de conduta pecaminosa, eles produzirão desunião entre nós dois. Dependência de outro, mesmo que esse outro seja possuidor de magnificência, não é desejável ou louvável. Eu sou de alma purificada, eu sou altamente abençoado. Eu sou incapaz de mostrar severidade mesmo para pecadores. Eu tenho grande previdência. Eu tenho capacidade para grande esforço. Eu não olho para coisas pequenas. Eu possuo grande força. Eu sou bem sucedido em ações. Eu nunca ajo inutilmente. Eu estou adornado com todos os objetos de prazer. Eu nunca estou satisfeito com pouco. Eu nunca servi a outro. Eu sou, além disso, inábil em servir. Eu vivo de acordo com a minha vontade nas florestas. Todos os que vivem ao lado de reis têm que suportar grande tormento por causa das más palavras contra eles mesmos. Aqueles, no entanto, que residem nas florestas passam seus dias, destemidamente e sem ansiedade, na observância de votos. O medo que surge no coração de uma pessoa que é convocada pelo rei é desconhecido para as pessoas que passam seus dias de modo contente nas florestas, vivendo de frutas e raízes. Alimento e bebida simples obtidos sem esforço, e alimento luxuoso obtido com medo, diferem muito uns dos outros. Refletindo sobre estes dois, eu sou de opinião que há felicidade onde não há ansiedade. Somente uns poucos entre aqueles que servem reis são justamente punidos por suas ofensas. Um grande número deles, no entanto, sofre morte sob acusações falsas. Se, apesar de tudo isso, tu me nomeares, ó rei dos animais, como teu ministro, eu desejo fazer um pacto contigo em relação ao comportamento que tu deves sempre adotar em direção a mim. Essas palavras que eu falarei para o teu bem devem ser escutadas e consideradas por ti. A provisão que tu farás para mim não será interferida por ti. Eu nunca consultarei com teus outros ministros. Se eu o fizer, desejosos de superioridade como eles são, eles irão então imputar diversas espécies de falhas a mim. Me encontrando contigo somente e em segredo eu te direi o que é para o teu bem. Em todas as questões ligadas com teus parentes, tu não me perguntarás o que é para o teu bem ou o que não é. Tendo consultado comigo tu não irás punir teus outros ministros depois, cedendo à raiva tu não punirás meus seguidores e dependentes.' Assim endereçado pelo chacal, o rei dos animais respondeu a ele, dizendo, 'Assim seja' e mostrou a ele todas as honras. O chacal então aceitou ser ministro do tigre. Vendo o chacal tratado com respeito e honrado em todas as suas ações, os velhos empregados do rei, conspirando juntos, começaram incessantemente a mostrar seu ódio por ele. Aquelas pessoas pecaminosas a princípio se esforçaram para gratificá-lo e conquistá-lo com comportamento amistoso e o fizeram suportar os diversos abusos que existiam na prova. Espoliadores das propriedades de outras pessoas, eles tinham vivido por muito tempo no desfrute de suas vantagens. Agora, no entanto, sendo governados pelo chacal, eles não podiam se apropriar de nada pertencente a outros. Desejosos de avanço e prosperidade, eles começaram a tentá-lo com palavras gentis. De fato, até grandes subornos foram oferecidos para cativar seu coração. Possuidor de grande sabedoria, o chacal não mostrou sinais de ceder àquelas tentações. Então alguns deles, fazendo um pacto entre eles mesmos para efetuarem sua destruição, roubaram a carne bem preparada que era destinada para o rei dos animais e muito desejada por ele, e a colocaram secretamente na casa do chacal. O chacal soube que tinham roubado a carne e que tinham conspirado para fazer aquilo. Mas embora ele soubesse de tudo, ele permitiu aquilo para um objetivo específico. Ele tinha feito um pacto com o rei na hora em que aceitou o ministério, dizendo, 'Tu desejas minha amizade, mas tu não irás, ó monarca, desconfiar de mim sem motivo.'” "Bhishma continuou, 'Quando o rei dos animais, sentindo-se faminto, foi comer, ele não viu a carne que tinha sido mantida pronta para seu jantar. O rei então ordenou, 'Que o ladrão seja descoberto'. Seus ministros desonestos então relataram para ele que a carne mantida para ele tinha sido roubada por seu ministro erudito, o chacal, que era tão orgulhoso da sua própria sabedoria. Ouvindo sobre aquele ato imprudente da parte do chacal, o tigre se encheu de raiva. De fato, o rei, cedendo à cólera, ordenou que seu ministro fosse morto. Vendo a oportunidade, os antigos ministros se dirigiram ao rei, dizendo, 'O chacal está até preparado para roubar de nós todos os meios de sustento.' Tendo revelado isto eles mais uma vez falaram da ação do chacal de roubar a comida do rei. E eles disseram, 'Tal então é seu ato! O que então ele não ousaria fazer? Ele não é como tu ouviste. Ele é correto em palavras mas sua real disposição é pecaminosa. Um canalha em realidade, ele se disfarçou por colocar um traje de virtude. Seu comportamento é realmente pecaminoso. Para servir aos seus próprios fins ele praticou austeridades na questão de dieta e de votos. Se tu duvidas disto, nós te daremos a prova ocular.' Tendo assim falado, eles imediatamente fizeram aquela carne ser descoberta por entrarem na residência do chacal. Averiguando que a carne tinha sido trazida de volta da casa do chacal e ouvindo todos aqueles relatos de seus antigos empregados, o rei ordenou, dizendo, 'Que o chacal seja morto.' Ouvindo estas palavras do tigre, a mãe dele foi àquele local para despertar o bom senso do filho com conselhos benéficos. A dama venerável disse, 'Ó filho, tu não deves aceitar essa acusação repleta de fraude. Indivíduos vis atribuem falhas até a uma pessoa honesta, movidas por inveja e rivalidade. Inimigos desejosos de uma disputa não podem suportar a elevação de um inimigo ocasionada por seus grandes feitos. Falhas são atribuídas até a uma pessoa de alma pura dedicada a penitências. Em relação até a um asceta que vive nas florestas e que está dedicado às suas próprias ações (inofensivas), surgem três partidos, isto é, amigos, neutros, e inimigos. Aqueles que são vorazes odeiam os que são puros. Os ociosos odeiam os ativos. Os incultos odeiam os eruditos. Os pobres odeiam os ricos. Os injustos odeiam os justos. Os feios odeiam os belos. Muitos entre os eruditos, os incultos, os ávidos, e os enganadores, acusariam falsamente uma pessoa inocente mesmo se acontecesse de a última ser possuidora das virtudes e inteligência do próprio Vrihaspati. Se a carne foi realmente roubada da tua casa na tua ausência, lembre que o chacal se recusa a aceitar qualquer carne que seja dada a ele. Que este fato seja bem considerado (em descobrir o ladrão). Pessoas más às vezes assumem a aparência das boas, e aquelas que são boas às vezes assumem a aparência das más. Diversos tipos de aspecto são visíveis nas criaturas. É, portanto, necessário examinar qual é qual. O firmamento parece ser como a base sólida de um recipiente. O pirilampo parece ser como a faísca real de fogo. Na verdade, no entanto, o céu não tem base e não há fogo no vaga-lume. Você vê, portanto, que há a necessidade de escrutínio a respeito até das coisas como são endereçadas para a visão. Se uma pessoa averigua tudo depois de um exame minucioso, ela nunca terá que se entregar a algum tipo de remorso depois. Não é difícil em absoluto, ó filho, para um mestre executar seu empregado. A bondade, no entanto, em pessoas possuidoras de poder, é sempre louvável e produtiva de renome. Tu fizeste do chacal teu primeiro ministro. Por causa daquele ato, tu ganhaste grande fama entre todos os chefes vizinhos. Um bom ministro não pode ser obtido facilmente. O chacal é teu benquerente. Que ele, portanto, seja mantido. O rei que considera culpada uma pessoa realmente inocente falsamente acusada por seus inimigos logo encontra a destruição por causa dos ministros vis que o levam àquela convicção.' Depois que a mãe do tigre tinha terminado seu discurso, um agente íntegro do chacal, se afastando daquela falange de seus inimigos, descobriu tudo acerca da maneira na qual aquela falsa acusação tinha sido feita. A inocência do chacal tendo sido demonstrada, ele foi absolvido e honrado por seu mestre. O rei dos animais o abraçou carinhosamente repetidas vezes. O chacal, no entanto, que conhecia a ciência de política, queimando de aflição, saudou o rei dos animais e pediu permissão para abandonar sua vida por praticar o voto Praya. O tigre, lançando sobre o chacal virtuoso seus olhos expandidos com afeição e honrando-o com culto respeitoso, procurou dissuadi-lo da realização de seus desejos. O chacal, vendo seu mestre agitado com afeição, se curvou a ele e em uma voz sufocada pelas lágrimas disse estas palavras: 'Honrado por ti primeiro, eu fui insultado por ti depois. Teu comportamento em direção a mim é calculado para me fazer um inimigo teu. Não é apropriado portanto, que eu deva continuar a morar contigo. Empregados que estão descontentes, que foram afastados de seus cargos, ou privados das honras que eram deles, que trouxeram destituição sobre si mesmos, ou que foram arruinados por seus inimigos (através da ira de seu mestre), que foram enfraquecidos, que são vorazes, ou enfurecidos, ou alarmados, ou enganados (em relação a seus empregadores), que sofreram confisco, que são orgulhosos e desejosos de realizar grandes feitos mas privados dos meios de ganhar riqueza, e que queimam de angústia ou raiva por causa de alguma injúria feita a eles, sempre esperam por calamidades para surpreender seus mestres. Enganados, eles deixam seus mestres e se tornam instrumentos efetivos nas mãos de inimigos. Eu fui insultado por ti e baixado do meu lugar. Como tu irás confiar em mim novamente? Como irei eu (de minha parte) continuar a morar contigo? Me achando competente tu me recebeste, e tendo me examinado tu me colocaste na posição. Violando o pacto então feito (entre nós) tu me insultaste. Se alguém fala de uma certa pessoa perante outros como possuidora de comportamento correto, ele não deve, se desejoso de manter sua coerência, depois descrever a mesma pessoa como pecaminosa. Eu que fui assim desrespeitado por ti não posso mais desfrutar da tua confiança. De minha parte, quando eu te vir retirar tua confiança de mim, eu ficarei alarmado e ansioso. Tu estando desconfiado e eu mesmo em alarme, nossos inimigos estarão alertas em busca de oportunidades para nos prejudicar. Teus súditos irão, como uma consequência, ficar ansiosos e descontentes. Tal estado de coisas tem muitos males. Os sábios não consideram feliz aquela situação na qual há honra primeiro e desonra depois. É difícil reunir os dois que foram separados, como, de fato, é difícil separar os dois que estão unidos. Se pessoas reunidas depois de separação se aproximam umas das outras novamente, seu comportamento não pode ser afetuoso. Não é visto um empregado que é movido (no que ele faz), somente pelo desejo de beneficiar seu mestre. O serviço procede do motivo de fazer bem para o mestre como também para si mesmo. Todas as ações são empreendidas por motivos egoístas. Atos ou motivos desinteressados são muito raros. Aqueles reis cujos corações são impacientes e inquietos não podem adquirir um verdadeiro conhecimento de homens. Só pode ser encontrado um em cem que é ou capaz ou destemido. A prosperidade de homens, como também sua queda, vem por si mesma. Prosperidade e adversidade, e grandeza, todas procedem da fraqueza de compreensão."’ "Bhishma continuou, 'Tendo dito estas palavras conciliadoras repletas de virtude, prazer, e lucro, e tendo gratificado o rei, o chacal se retirou para a floresta. Sem escutar aos rogos do rei dos animais, o chacal inteligente abandonou seu corpo por sentar-se em praya e procedeu para o céu (como recompensa de suas boas ações sobre a terra).'" "Yudhishthira disse, 'Quais atos devem ser feitos por um rei, e quais são aqueles atos pelos quais um rei pode se tornar feliz? Diga-me isto em detalhes, ó tu que és a principal de todas as pessoas conhecedoras dos deveres.'” "Bhishma disse, 'Eu te direi o que tu desejas saber. Escute a verdade segura sobre o que deve ser feito por um rei neste mundo e quais são aqueles atos por fazer os quais um rei pode vir a ser feliz. Um rei não deve se comportar da maneira revelada na grande história de um camelo do qual nós ouvimos. Ouça àquela história então, ó Yudhishthira! Havia, na era Krita, um camelo enorme que tinha recordação de todas as ações de sua vida anterior. Observando os votos mais rígidos, aquele camelo praticou austeridades muito severas na floresta. Perto da conclusão de suas penitências, o pujante Brahman ficou satisfeito com ele. O Avô, portanto, desejou conceder bênçãos a ele.'” "O camelo disse, 'Que meu pescoço, ó santo, se torne longo pela tua graça, para que, ó senhor poderoso, eu possa apanhar qualquer alimento que possa estar no fim de até cem Yojanas.' O concessor de bênçãos de grande alma disse, 'Que assim seja'. O camelo então, tendo obtido o benefício, voltou para sua própria floresta. O animal tolo, desde o dia em que obteve a bênção, ficou preguiçoso. De fato, o infeliz, estupefato pelo destino, desde aquele dia não saiu para pastar. Um dia, enquanto estendia seu longo pescoço de cem Yojanas, o animal estava ocupado em apanhar seu alimento sem nenhum trabalho, surgiu uma grande tempestade. O camelo, colocando sua cabeça e uma parte do pescoço dentro da caverna de uma montanha, resolveu esperar até que a tempestade acabasse. Enquanto isso a chuva começou a cair em torrentes, inundando toda a terra. Um chacal, com sua esposa, encharcado pela chuva e tremendo de frio, se arrastou com dificuldade em direção àquela mesma caverna e entrou nela rapidamente para se abrigar. Vivendo de carne como ele vivia, e extremamente faminto e cansado como estava, ó touro da raça Bharata, o chacal, vendo o pescoço do camelo, começou a comer tanto dele quanto ele podia. O camelo, quando percebeu que seu pescoço estava sendo comido, se esforçou em aflição para encurtá-lo. Mas quando ele o moveu para cima e para baixo, o chacal e sua esposa, sem largá-lo, continuaram a comê-lo. Dentro de pouco tempo o camelo estava privado de vida. O chacal então, tendo (assim) matado e comido o camelo, saiu da caverna depois que a tempestade e a chuva tinham parado. Assim aquele camelo tolo encontrou sua morte. Veja que um grande mal seguiu na sequência da ociosidade. Em relação a ti mesmo, evitando a ociosidade e reprimindo teus sentidos, faça tudo no mundo com meios apropriados. O próprio Manu disse que a vitória depende da inteligência. Todos os atos que são realizados com a ajuda da inteligência são considerados como os principais, os alcançados com a ajuda dos braços são medianos, os alcançados com a ajuda dos pés são inferiores, enquanto aqueles feitos por carregar cargas são os mais inferiores. Se o rei for inteligente nas transações de negócios e reprimir seus sentidos, o seu reino dura. O próprio Manu disse que é com a ajuda da inteligência que uma pessoa ambiciosa consegue alcançar vitórias. Neste mundo, ó Yudhishthira, aqueles que ouvem conselhos sábios que não são geralmente conhecidos, e, ó impecável, possuidores de aliados, e que agem depois de escrutínio apropriado, conseguem realizar todos os seus objetivos. Uma pessoa possuidora de tais ajudas consegue governar a terra inteira. Ó tu que és possuidor de destreza como aquela do próprio Indra, isto foi dito por homens sábios dos tempos antigos conhecedores das ordenanças declaradas nas escrituras. Eu, também, com a visão dirigida para as escrituras, tenho dito o mesmo para ti. Exercitando tua inteligência, aja neste mundo, ó rei!'" 113 "Yudhishthira disse, 'Diga-me, ó touro da raça Bharata, como um rei, sem as ajudas usuais, tendo obtido um reino que é uma posse tão preciosa, deve se comportar com um inimigo poderoso.'” "Bhishma disse, ‘Em relação a isto é citada a antiga história da conversa entre o Oceano e os Rios. Antigamente, o Oceano eterno, aquele senhor dos Rios, aquele refúgio dos inimigos dos celestiais, questionou todos os Rios para resolver esta dúvida que tinha surgido em sua mente.'” "O Oceano disse, 'Ó Rios, eu vejo que todos vocês, com suas correntes cheias, trazem árvores de troncos grandes, arrancando-as com suas raízes e ramos. Vocês, no entanto, nunca me trazem um junco. Os juncos que crescem em suas margens são de caules pobres e desprovidos de força. Vocês se recusam a arrastá-los por desprezo, ou eles são de alguma utilidade para vocês? Eu desejo, portanto, saber qual é o motivo que inspira todos vocês. De fato, por que é que os juncos não são arrastados por nenhum de vocês, arrancados das margens onde eles crescem?' Assim endereçado, o Rio Ganga respondeu ao Oceano, aquele senhor de todos os Rios, nestas palavras de grave importância, repletas de razão, e, portanto, aceitáveis para todos.'” "Ganga disse, 'As árvores ficam em um e no mesmo lugar e são inflexíveis em relação ao local onde elas ficam. Por causa dessa disposição delas para resistir a nossas correntes, elas são obrigadas a deixar o lugar de seu crescimento. Os juncos, no entanto, agem diferentemente. O junco, vendo a corrente avançando, se curva a ela. Os outros não agem deste modo. Depois que a corrente passa, o junco retoma sua postura anterior. O junco conhece as virtudes de Tempo e oportunidade. Ele é dócil e obediente. Ele é flexível, sem ser obstinado. Por estas razões, ele fica onde ele cresce, sem ter que vir conosco. Aquelas plantas, árvores, e trepadeiras que se dobram e erguem perante a força do vento e da água, nunca têm que sofrer derrota (por serem arrancadas pelas raízes).'” "Bhishma continuou, 'A pessoa que não se rende ao poder de um inimigo que avançou em poder e que é competente para encarcerar ou matar, logo encontra a destruição. (A verdadeira política, portanto, é esperar pela hora quando o inimigo se tornar fraco.) O homem de sabedoria que age depois de verificar completamente a força e a fraqueza, o poder e a energia, dele mesmo e de seu inimigo, nunca tem que sofrer derrota. Um homem inteligente, portanto, quando ele vê que seu inimigo é mais poderoso do que ele mesmo, deve adotar o comportamento do junco. Esta é uma indicação de sabedoria.'" 114 "Yudhishthira disse, 'Como, ó Bharata, um homem erudito adornado com modéstia deve se comportar, ó castigador de inimigos, quando atacado com palavras duras no meio de assembléias por uma pessoa ignorante cheia de vaidade?'” "Bhishma disse, 'Ouça, ó senhor da terra, como o assunto foi tratado (nas escrituras), como uma pessoa de boa alma deve tolerar neste mundo as palavras ofensivas de pessoas de pouca inteligência. Se uma pessoa, quando maltratada por outra, não cede à raiva, ela então seguramente recebe (o mérito de) todos os bons atos que foram feitos pela pessoa que insulta. O sofredor, em tal caso, transfere o demérito de todas as suas próprias más ações para a pessoa que sob a influência da cólera se perde em insultos. Um homem inteligente deve desconsiderar uma linguagem ofensiva que parece, afinal, somente um Tittibha (ave) proferindo gritos dissonantes. Quem se entrega ao ódio é citado como vivendo em vão. Um tolo pode muitas vezes ser ouvido dizer, 'Tal homem respeitável foi endereçado por mim em tais palavras no meio de tal reunião de homens,' e para se gabar daquele ato pecaminoso, ele irá acrescentar, ‘Insultado por mim, o homem ficou calado como se morto de vergonha.’ Assim mesmo um homem sem vergonha conta vantagem de uma ação da qual ninguém deveria se vangloriar. Tal canalha entre homens deve ser cuidadosamente desprezado. O homem de sabedoria deve tolerar tudo o que tal pessoa de pouca inteligência possa dizer. O que um sujeito vulgar pode fazer ou por seu louvor ou sua crítica? Ele é assim como um corvo que grasna inutilmente nas florestas. Se aqueles que acusam outros somente por suas palavras pudessem provar aquelas acusações por tais meios, então, talvez, suas palavras seriam consideradas como de algum valor. Como um fato, no entanto, estas palavras são tão eficazes como aquelas proferidas por tolos invocando a morte sobre aqueles com quem elas brigam. (Na Índia, a forma de insulto verbal mais comum entre homens e mulheres ignorantes é 'Encontre a morte,' ou 'Vá para a casa de Yama.' O que Bhishma diz é que como estas palavras são proferidas em vão, exatamente assim as acusações de homens maus vêm a ser totalmente malogradas.) Simplesmente proclama sua inferioridade o homem que se entrega a tal conduta e palavras. De fato, ele é assim como um pavão que dança enquanto mostrando tal parte de seu corpo que deveria sempre ser escondida da visão. Uma pessoa de conduta pura não deve sequer falar com o indivíduo de conduta pecaminosa que não tem escrúpulo em proferir ou fazer qualquer coisa. O homem que fala dos méritos de uma pessoa quando os olhos dela estão sobre ele e que fala mal dela quando ela não está olhando, é realmente como um cão. (O cão é um animal impuro na avaliação Hindu.) Tal pessoa perde todas as suas regiões no céu e os frutos de qualquer conhecimento e virtude que ela possa ter. O homem que fala mal de alguém quando os olhos deste alguém não estão sobre ele, perde sem demora os frutos de todas as suas libações sobre o fogo e das doações que ele possa fazer mesmo para cem pessoas. Um homem de sabedoria, portanto, deve evitar firmemente uma pessoa de tal coração pecaminoso que merece ser evitada por todos os homens honestos, como ele evitaria a carne de cachorro. O patife de alma pecaminosa que proclama os defeitos de uma pessoa de grande alma, realmente divulga (por aquele ato) sua própria natureza má assim como uma cobra mostra seu capelo (quando mexem com ela). O homem de razão que procura contrariar tal caluniador sempre dedicado a uma ocupação apropriada para si mesmo, se encontra na condição dolorosa de um jumento estúpido afundado em uma pilha de cinzas. Um homem que está sempre ocupado em falar mal de outros deve ser evitado como um lobo furioso, ou um elefante enfurecido rugindo em loucura, ou um cão feroz. Que vergonha para o canalha pecaminoso que se dirigiu para o caminho dos tolos e abandonou todas as restrições saudáveis e modéstia, que está sempre empenhado em fazer o que é prejudicial para outros, e que não tem consideração por sua própria prosperidade. Se um homem honesto deseja trocar palavras com tais canalhas quando eles procuram humilhá-lo, ele deve ser aconselhado nestas palavras: Não te permita ser afligido. Um duelo de palavras entre uma pessoa superior e uma inferior é sempre desaprovado por pessoas de inteligência tranquila. Um patife calunioso, quando enfurecido, pode bater em outro com suas palmas, ou jogar pó ou resíduos, ou assustar outro por mostrar ou ranger seus dentes. Tudo isso é bem conhecido. O homem que suporta as repreensões e calúnias de indivíduos de alma pecaminosa proferidas em reuniões, ou que lê frequentemente estas instruções, nunca sofre alguma angústia ocasionada por palavras.'” 115 "Yudhishthira disse, 'Ó avô, ó tu que possuis grande sabedoria, eu tenho uma grande dúvida que me deixa confuso. Tu deves, ó rei, resolvê-la. Tu és um melhorador de nossa família. Tu nos falaste sobre as palavras caluniosas proferidas por canalhas de alma pecaminosa de má conduta. Eu desejo, no entanto, te questionar mais. Aquilo que é benéfico para um reino, o que produz a felicidade da linha real, o que produz o bem e o progresso no futuro e no presente, o que é bom em relação a alimento e bebida e em relação ao corpo também, são tópicos sobre os quais eu desejo que tu fales. Como um rei que foi colocado no trono e que continua a ocupá-lo, cercado por amigos, ministros, e empregados, deve satisfazer seu povo? O rei que, levado por suas afeições e predileções, se torna dedicado a maus associados, e que homenageia homens pecaminosos por estar escravizado por seus sentidos, encontra todos os empregados de bom nascimento e sangue descontentes com ele. Tal rei nunca consegue alcançar aqueles objetivos cuja realização depende de ele ter vários bons empregados em volta dele. Cabe a ti que és igual ao próprio Vrihaspati em inteligência me falar sobre estes deveres de reis os quais são difíceis de serem averiguados e assim remova minhas dúvidas. Tu, ó tigre entre homens, estás sempre dedicado a realizar o bem de nossa linhagem. Por esta razão tu sempre nos falaste sobre os deveres da arte de reinar. Kshatri (Vidura) também, possuidor de grande sabedoria, sempre nos dá instruções valiosas. Ouvindo instruções de ti que são produtivas de benefício para nossa linhagem e reino, eu poderei passar meus dias em felicidade como uma pessoa satisfeita por ter bebido o imortal Amrita. Quais classes de empregados devem ser consideradas como inferiores e quais são possuidoras de todas as habilidades? Ajudado por qual classe de servos ou por empregados de que tipo de nascimento, é aconselhável cumprir os deveres de governar? Se o rei opta por agir sozinho e sem empregados, ele nunca pode conseguir proteger seu povo. Todas as pessoas, no entanto, de nascimento nobre cobiçam a aquisição de soberania.'” "Bhishma disse, 'O rei, ó Bharata, não pode governar seu reino sozinho. Sem empregados para ajudá-lo, ele não pode conseguir realizar qualquer objetivo. Mesmo que ele consiga ganhar algum objeto, ele não pode (se sozinho), preservá- lo. O rei cujos empregados são todos possuidores de conhecimento e sabedoria, que são todos dedicados ao bem de seu mestre, e que são nobres de nascimento e temperamento tranquilo, conseguem desfrutar da felicidade ligada à soberania. Aquele rei cujos ministros são todos bem nascidos, incapazes de serem afastados dele (por meio de suborno e outras influências), que sempre vivem com ele, que estão empenhados em dar conselhos para seu mestre, que possuem sabedoria e bondade, que têm um conhecimento das relações das coisas, que podem se prevenir para acontecimentos e contingências futuros, que têm um bom conhecimento das virtudes do tempo, e que nunca se afligem pelo que já passou, consegue desfrutar da felicidade ligada à soberania. O rei cujos empregados compartilham com ele suas dores e alegrias, que sempre fazem o que é agradável para ele, que sempre dirigem sua atenção para a realização dos objetivos de seu mestre, e são todos fiéis, consegue desfrutar da felicidade ligada à soberania. O rei cujos súditos são sempre alegres, e generosos, e que sempre trilham o caminho da virtude, consegue desfrutar da felicidade ligada à soberania. É o melhor dos reis aquele cujas fontes de renda são gerenciadas e supervisionadas por homens contentes e dignos de confiança conhecedores dos meios de aumentar as finanças. Consegue obter riqueza e grande mérito o rei cujos repositórios e celeiros são supervisionados por empregados incorruptíveis, merecedores de confiança, dedicados, e não cobiçosos sempre inclinados à arrecadação. O rei em cuja cidade a justiça é administrada devidamente, com o resultado de tal administração levando aos bem conhecidos resultados de multar o querelante ou o acusado se o seu caso for falso, e na qual as leis criminais são administradas exatamente da mesma maneira de Sankha e Likhita, consegue ganhar o mérito ligado à soberania. O rei que conquista seus súditos para si mesmo pela bondade, que conhece os deveres de reis, e que se encarrega do agregado de seis consegue ganhar o mérito ligado à soberania.'" "Bhishma disse, 'Em relação a isto é citada a seguinte história dos tempos antigos. Esta história é considerada como um importante precedente entre homens bons e sábios. Esta história tem ligação com o tópico atual. Eu a ouvi no eremitério de Rama, o filho de Jamadagni, narrada por muitos dos principais Rishis. Em certa grande floresta inabitada por seres humanos, um asceta vivia de frutas e raízes e observava votos rígidos, e com seus sentidos sob controle. Observador também de regulamentos rigorosos e autodomínio, de alma tranquila e pura, sempre atento às recitações Védicas, e de coração purificado por jejuns, ele adotou uma vida de bondade em direção a todas as criaturas. Possuidor de grande inteligência, quando ele sentava em seu assento, a bondade de seu comportamento tendo sido conhecida por todas as criaturas que viviam naquela floresta, elas costumavam se aproximar dele com afeição. Leões e tigres ferozes, elefantes enfurecidos de tamanho enorme, leopardos, rinocerontes, ursos, e outros animais de aspecto feroz, subsistindo de sangue, costumavam se aproximar do Rishi e dirigir a ele as questões usuais de inquirição polida. De fato, todos eles se comportavam com ele como discípulos e escravos e sempre faziam para ele o que era agradável. Indo até ele eles lhe endereçavam as perguntas usuais, e então partiam para seus respectivos abrigos. Um animal doméstico, no entanto, vivia lá permanentemente, nunca deixando o Muni em qualquer momento. Ele era devotado ao sábio e extremamente apegado a ele. Fraco e emaciado com jejuns, ele subsistia de frutas e raízes e água, e era tranquilo e de aspecto inofensivo. Deitando-se aos pés daquele Rishi de grande alma quando o último se sentava, o cachorro, com um coração como aquele de um ser humano, se tornou extremamente ligado a ele por causa da afeição com a qual ele era tratado. Um dia um leopardo de grande força chegou lá, subsistindo de sangue. De uma disposição cruel e sempre cheio de deleite pela probabilidade de vitimar, o animal feroz parecia com um segundo Yama. Lambendo os cantos de sua boca com a língua, e movendo seu rabo furiosamente, o leopardo chegou lá, faminto e sedento, com mandíbulas escancaradas, desejoso de apanhar o cachorro como sua presa. Vendo aquele animal feroz se aproximando, ó rei, o cachorro, temendo por sua vida, se dirigiu ao Muni nestas palavras. Ouça-as, ó monarca! 'Ó santo, este leopardo é um inimigo dos cachorros. Ele deseja me matar. Ó grande sábio, aja de tal maneira que todos os meus medos deste animal possam ser dissipados pela tua graça. Ó tu de braços poderosos, sem dúvida tu és possuidor de onisciência.' Conhecedor dos pensamentos de todas as criaturas, o sábio sentiu que o cachorro tinha grande razão para temer. Possuidor dos seis atributos e capaz de interpretar as vozes de todos os animais, o sábio disse as seguintes palavras.'” "O sábio disse, 'Tu não terás mais medo da morte por causa de leopardos. Que tua forma natural desapareça e seja tu um leopardo, ó filho!' A estas palavras, o cachorro foi transformado em um leopardo com pele brilhante como ouro. Com listras em seu corpo e com dentes grandes, desde então ele começou a viver destemidamente naquela floresta. Enquanto isso, o leopardo, vendo à sua frente um animal de sua própria espécie, imediatamente abandonou todos os sentimentos de animosidade em direção a ele. Algum tempo depois, entrou no eremitério um tigre feroz e faminto com boca escancarada. Lambendo os cantos de sua boca com a língua, e avidamente desejoso de beber sangue, aquele tigre começou a se aproximar em direção ao animal que tinha sido transformado em um leopardo. Vendo o tigre faminto de dentes terríveis se aproximando daquela floresta, o leopardo (transformado) procurou a proteção do Rishi para salvar sua vida. O sábio, que mostrava grande afeição pelo leopardo pelo último viver no mesmo lugar com ele, em seguida transformou seu leopardo em um tigre poderoso para todos os inimigos. O tigre vendo uma fera de sua própria espécie não a feriu, ó rei. O cachorro, tendo no decorrer do tempo sido transformado em um tigre poderoso subsistindo de carne e sangue, se absteve de seu alimento anterior que consistia em frutas e raízes. De fato, desde aquele tempo, ó monarca, o tigre transformado vivia subsistindo dos outros animais da floresta, como um verdadeiro rei das feras.'” 117 "Bhishma disse, 'O cachorro transformado em um tigre, satisfeito com a carne de animais mortos, dormia tranquilamente. Um dia quando ele estava deitado no quintal do eremitério, um elefante enfurecido chegou lá, parecendo com uma nuvem surgida. De estatura enorme, com bochechas fendidas, tendo sinais do lótus em seu corpo, e com amplos globos frontais, o animal tinha presas longas e uma voz profunda como aquela das nuvens. Vendo aquele elefante enfurecido, orgulhoso de sua força, indo em sua direção, o tigre agitado com medo procurou a proteção do Rishi. Aquele melhor dos sábios então transformou o tigre em um elefante. O elefante verdadeiro, vendo um indivíduo de sua própria espécie, enorme como uma massa de nuvens, ficou apavorado. O elefante do Rishi então, pintalgado com o pó de filamentos de lótus, mergulhou alegremente em lagos cobertos com lotos e vagou por suas margens denteadas com tocas de coelho. Um tempo considerável passou desta maneira. Um dia quando o elefante estava andando alegremente pela vizinhança do eremitério, chegou diante dele naquele local um leão de juba nascido em uma caverna de montanha e acostumado a matar elefantes. Vendo o leão se aproximando, o elefante do Rishi, temendo pela vida, começou a tremer e procurou a proteção do sábio. O sábio então transformou aquele príncipe de elefantes em um leão. Como o leão selvagem era um animal da mesma espécie que ele, o leão do Rishi não mais o temeu. Por outro lado, o leão selvagem vendo uma fera mais forte de sua própria espécie diante ele, ficou apavorado. O leão do Rishi começou a morar naquele eremitério dentro da floresta. Por medo daquele animal, os outros animais não mais ousavam se aproximar do eremitério. De fato, todos eles pareciam estar inspirados com medo acerca da segurança de suas vidas. Algum tempo depois, um dia, um matador de todos os animais, possuidor de grande força e inspirando terror em todas as criaturas, tendo oito pernas e olhos na testa, isto é, um Sarabha, chegou àquele local. De fato ele foi àquele mesmo eremitério com o objetivo de matar o leão do Rishi. Vendo isto, o sábio transformou seu leão em um Sarabha de grande força. O Sarabha selvagem, vendo que o Sarabha do Rishi diante dele era mais feroz e mais poderoso, fugiu rapidamente daquela floresta. Tendo sido assim transformado em um Sarabha pelo sábio, o animal viveu felizmente ao lado de seu transformador. Todos os animais então que moravam na vizinhança ficaram com medo daquele Sarabha. Seu medo e o desejo de salvar suas vidas os levou todos a fugirem daquela floresta. Cheio de deleite, o Sarabha continuou todos os dias a matar animais para seu sustento. Transformado em uma besta carnívora, ele não mais gostava de frutas e raízes das quais ele viva antigamente. Um dia aquela besta ingrata que tinha primeiro sido um cachorro mas que estava agora transformado em um Sarabha, avidamente sedento de sangue, desejou matar o sábio. O último, pelo poder ascético, viu isso tudo por meio de seu conhecimento espiritual. Possuidor de grande sabedoria, o sábio, tendo averiguado as intenções da besta, se dirigiu a ela nestas palavras.'” "O sábio disse, 'Ó cachorro, tu foste primeiro transformado em um leopardo. De um leopardo tu foste então feito um tigre. De um tigre tu foste em seguida transformado em um elefante com o suco temporal escorrendo sobre tuas bochechas. Tua transformação seguinte foi para um leão. De um leão poderoso tu foste então transformado em um Sarabha. Cheio de afeição por ti, fui eu que te transformei naquelas diversas formas. Tu não pertenceste e não pertences, por nascimento, a qualquer uma daquelas espécies. Já que, no entanto, ó patife pecaminoso, tu desejas matar a mim que não te fiz dano, tu deves voltar para tua própria espécie e ser um cachorro novamente.' Depois disso, o animal desprezível e tolo de alma perversa transformado em um Sarabha assumiu mais uma vez, por causa da maldição do Rishi, sua própria forma de um cachorro.'" 118 "Bhishma disse, 'Tendo mais uma vez assumido sua própria forma, o cachorro ficou muito triste. O Rishi, repreendendo-o, expulsou a criatura pecaminosa de seu eremitério. Um rei inteligente deve, guiado por este precedente, nomear empregados, cada um apto para o cargo designado para ele, e exercer supervisão apropriada sobre eles, tendo primeiro averiguado suas qualificações em relação à veracidade e pureza, sinceridade, disposição geral, conhecimento da escritura, conduta, nascimento, autodomínio, compaixão, força, energia, dignidade, e bondade. Um rei nunca deve escolher um ministro sem tê-lo examinado primeiro. Se o rei reúne à sua volta pessoas de nascimento inferior, ele nunca pode ser feliz. Uma pessoa nobre de nascimento, mesmo se perseguida sem qualquer culpa por seu mestre real, nunca coloca seu coração, pela respeitabilidade de seu sangue, em prejudicar seu mestre. Um indivíduo, no entanto, que é vil e de nascimento inferior, mesmo tendo obtido grande riqueza de sua ligação com algum homem honesto, se torna um inimigo do último somente se ele é repreendido em palavras. Um ministro deve ser possuidor de nascimento nobre e força; ele deve ser bondoso e autocontrolado, e ter todos os seus sentidos sob controle; ele deve ser livre do vício da ganância, contente com suas aquisições justas, alegre com a prosperidade de seu mestre e amigos, conhecedor das necessidades de hora e lugar, sempre empenhado em conquistar homens para si mesmo ou seu mestre por fazer bons préstimos a eles, sempre atento aos seus deveres, desejando o bem de seu mestre, sempre cuidadoso, fiel no cumprimento de seus próprios deveres, um perfeito mestre na arte da guerra e paz, conhecedor das exigências do rei em relação ao grande conjunto de três, amado pelos cidadãos e habitantes das províncias, familiarizado com todos os tipos de formações de combate para perfurar e romper as tropas do inimigo, competente para inspirar as forças armadas de seu mestre com animação e alegria, capaz de interpretar sinais e gestos, conhecedor de todos os requisitos em relação à marcha, hábil na arte de treinar elefantes, livre de orgulho, confiante em seus próprios poderes, inteligente nas transações de negócios, sempre fazendo o que é direito, de conduta justa, cercado por amigos justos, de palavras gentis, possuidor de feições agradáveis, capaz de liderar homens, versado em política, possuidor de habilidades, energético em ação, ativo, possuidor de criatividade, de um temperamento gentil, de atitude modesta, paciente, corajoso, rico, e capaz de adaptar suas medidas às necessidades de hora e lugar. O rei que consegue obter tal ministro nunca pode ser humilhado ou dominado por ninguém. De fato, seu reino se expande gradualmente sobre a terra como a luz da lua. Um rei, também, que é familiarizado com as escrituras, que considera que a justiça é superior a tudo, que está sempre dedicado a proteger seus súditos, e que possui as seguintes virtudes, obtém o amor de todos. Ele deve ser paciente, bondoso, puro em conduta, severo quando a ocasião requer isto, conhecedor da eficácia do esforço, respeitoso em seu comportamento em direção a todos os seus superiores, possuidor de um conhecimento das escrituras, disposto a escutar as instruções e conselhos daqueles que são competentes para instruir e dar conselhos, capaz de julgar corretamente em meio a cursos de ação diferentes ou opostos sugeridos a ele, inteligente, de uma memória retentiva, preparado para fazer o que é justo, autocontrolado, sempre de palavras gentis, bondoso mesmo para inimigos, praticando caridade pessoalmente, possuidor de fé, de feições agradáveis, pronto para estender a mão em auxílio para pessoas mergulhadas em infortúnio, possuidor de ministros que sempre procuram seu bem, livre do defeito do egoísmo, nunca sem uma esposa, e não inclinado a fazer qualquer coisa com pressa. Ele deve sempre recompensar seus ministros quando eles realizam alguma coisa notável. Ele deve amar aqueles que são devotados a ele. Evitando a ociosidade, ele deve sempre atrair homens para si mesmo por fazer o bem para eles. Seu rosto deve ser sempre alegre. Ele deve sempre estar atento às necessidades de seus empregados e nunca ceder à cólera. Ele deve, além disso, ser magnânimo. Sem pôr de lado a vara de castigo, ele deve manejá-la com retidão. Ele deve fazer todos os homens ao seu redor agirem corretamente. Tendo espiões como seus olhos, ele deve sempre supervisionar os assuntos de seus súditos, e deve ser conhecedor de todas as questões ligadas com virtude e riqueza. Um rei que possui estas cem qualificações ganha o amor de todos. Todo soberano deve ser esforçar para ser assim. O rei deve também, ó monarca, procurar por bons guerreiros (para alistar em seu exército) que devem ser todos possuidores das qualificações necessárias, para ajudá-lo a proteger seu reino. Um rei que deseja seu próprio progresso nunca deve desconsiderar seu exército. Aquele rei cujos soldados são corajosos em batalha, gratos, e versados nas escrituras, cujo exército consiste em soldados de infantaria familiarizados com os tratados sobre religião e dever, cujos guerreiros em elefantes são destemidos, cujos guerreiros em carros são habilidosos em seu próprio modo de luta e bem versados em disparar setas e em manejar outras armas, consegue subjugar a terra inteira. O rei que está sempre empenhado em unir todos os homens a si mesmo, que está pronto para o esforço, que é rico em amigos e aliados, se torna o principal dos soberanos. Um rei que conseguiu unir todos os homens a si mesmo, pode, ó Bharata, com a ajuda de até mil cavaleiros de coragem, ter sucesso em conquistar a terra inteira.'" 119 "Bhishma disse, 'O rei que, guiado pela lição tirada da história do cachorro, nomeia seus empregados para cargos para os quais cada um é apto, consegue desfrutar da felicidade que é ligada à soberania. Um cachorro não deve, com honras, ser colocado em uma posição acima daquela para a qual ele é apto. Se um cachorro for colocado acima da situação que é adequada para ele, ele se torna embriagado com orgulho. Ministros devem ser nomeados para cargos para os quais eles estão preparados e devem possuir as qualificações que são necessárias para suas respectivas ocupações. A nomeação de pessoas inadequadas não é aprovada em absoluto. O rei que dá para seus empregados cargos para os quais cada um é digno, consegue, por tal mérito, desfrutar da felicidade ligada à soberania. Um Sarabha deve ocupar a posição de um Sarabha; um leão deve crescer com o poder de um leão; um tigre deve ser colocado na posição de um tigre; e um leopardo deve ser colocado como um leopardo. Empregados devem, de acordo com a ordenança, ser designados para cargos para os quais cada um é habilitado. Se tu desejas alcançar sucesso, tu nunca deves colocar empregados em posições mais altas do que aquelas que eles merecem. O rei tolo que, contrariando o precedente, nomeia empregados para cargos para os quais eles não são adequados, fracassa em satisfazer seu povo. Um rei que deseja possuir empregados habilidosos nunca deve nomear pessoas que são desprovidas de inteligência, que são vulgares, sem sabedoria, que não são mestres de seus sentidos, e que não são nobres de nascimento. Homens que são honestos, possuidores de nascimento nobre, corajosos, eruditos, desprovidos de malícia e inveja, generosos, puros em comportamento, e inteligentes nas transações de negócios, merecem ser nomeados como ministros. Pessoas que possuem humildade, presteza no desempenho de suas funções, que são tranquilas em disposição, puras em mente, adornadas com diversos outros dons naturais e que nunca são objetos de calúnia em relação aos cargos que ocupam devem ser associadas íntimas do rei. Um leão deve sempre ter como companheiro um leão. Se um que não é um leão se torna o companheiro de um leão, ele ganha todas as vantagens que pertencem a um leão. Aquele leão, no entanto, que enquanto empenhado em cumprir os deveres de um leão, tem somente uma matilha de cães como seus associados, nunca consegue, por causa de tal companhia, realizar aqueles deveres. Assim, ó soberano de homens, um rei pode ter sucesso em subjugar a terra inteira se ele tiver como ministros homens possuidores de coragem, sabedoria, grande erudição, e nascimento nobre. Ó principal dos mestres reais, reis nunca devem acolher um empregado que não tenha erudição e sinceridade e sabedoria e grande riqueza. Esses homens que estão dedicados aos serviços de seu chefe nunca são parados por quaisquer obstáculos. Reis devem sempre falar calmamente àqueles empregados que estão sempre dedicados a fazer o bem para seus patrões. Reis devem sempre, com grande cuidado, cuidar de suas tesourarias. De fato, os reis têm suas bases em suas tesourarias. Um rei deve sempre procurar aumentar sua tesouraria. Que teus celeiros, ó rei, estejam providos de cereais. E que sua manutenção seja confiada a empregados honestos. Procure aumentar tua riqueza e cereais. Que teus empregados, habilidosos em batalha, estejam sempre atentos aos seus deveres. É desejável que eles também sejam habilidosos no manejo de corcéis. Ó alegrador dos Kurus, te encarregue das necessidades de teus parentes e amigos. Esteja cercado por amigos e parentes. Procure o bem da tua cidade. Por citar o precedente do cachorro eu te instruí sobre os deveres que tu deves adotar em direção aos teus súditos. O que mais tu desejas saber?'" 120 "Yudhishthira disse, 'Tu, ó Bharata, falaste sobre os muitos deveres da arte de reinar que foram praticados e declarados antigamente por pessoas dos tempos antigos conhecedoras dos deveres reais. Tu, de fato, falaste em detalhes sobre aqueles deveres como aprovado pelos sábios. No entanto, ó touro da raça Bharata, fale deles de tal maneira que alguém possa conseguir retê-los na memória. (Isto é, fale em síntese sobre eles ou nos dê um resumo dos teus discursos elaborados.)’" "Bhishma disse, 'A proteção de todas as criaturas é considerada como o maior dever do Kshatriya. Escute agora a mim, ó rei, quanto a como o dever de proteção deve ser exercido. Um rei conhecedor de seus deveres deve assumir muitas formas, assim como o pavão expõe plumas de diversas cores. Perspicácia, desonestidade, veracidade, e sinceridade, são as qualidades que devem estar presentes nele. Com total imparcialidade, ele deve praticar as qualidades de bondade para ganhar felicidade. Ele deve assumir aquela cor ou forma específica que será benéfica em vista do objetivo específico que ele procura realizar. (Isto é, agudeza, quando ele pune e inofensividade quando ele mostra favor.) Um rei que pode assumir diversas formas consegue realizar até o objetivo mais ardiloso. Calado como o pavão no outono, ele deve ocultar seus planos. Ele deve falar pouco, e o pouco que ele falar deve ser gentil. Ele deve ter bom aspecto e ser bem versado nas escrituras. Ele deve estar sempre atento em relação àqueles portões através dos quais perigos possam vir a alcançá-lo, como homens cuidando das rupturas em barragens pelas quais as águas de grandes reservatórios podem se precipitar e inundar seus campos e casas. Ele deve procurar a proteção de Brahmanas coroados com êxito ascético assim como homens procuram a proteção de rios sonoros gerados pela água da chuva coletada dentro de lados de montanhas. O rei que deseja acumular riquezas deve agir como hipócritas religiosos na questão de manter um tufo coronal. O rei deve ter sempre a vara de castigo erguida em suas mãos. Ele deve sempre agir com cautela (na questão da arrecadação de impostos) depois de examinar a renda e as despesas de seus súditos como homens indo até uma palmeira crescida para tirar seu suco. (Como homens sempre tiram suco de uma árvore totalmente crescida e não de uma jovem, assim mesmo o rei deve tomar cuidado quanto a como taxas devem ser impostas sobre súditos que são incapazes de arcar com elas.) Ele deve agir equitativamente em direção a todos os seus súditos; fazer as colheitas dos inimigos serem esmagadas pelo passo de sua cavalaria, marchar contra inimigos quando seu próprio lado se tornar forte; e observar todas as fontes de sua própria fraqueza. Ele deve proclamar os defeitos de seus inimigos; esmagar aqueles que são partidários deles; e coletar riqueza do exterior como uma pessoa colhendo flores dos bosques. Ele deve destruir aqueles principais dos monarcas que crescem com poder e permanecem com cabeças erguidas como montanhas, por procurar a proteção de sombras desconhecidas (isto é, por lidar com os governadores das fortalezas e guarnições de seus inimigos), e por emboscadas e ataques repentinos. Como o pavão na estação das chuvas, ele deve entrar em seus alojamentos noturnos sozinho e despercebido. De fato, ele deve desfrutar, seguindo a maneira do pavão, dentro de seus aposentos internos, da companhia de suas esposas. Ele não deve tirar sua cota de malha. Ele deve proteger a si mesmo, e evitar as redes espalhadas para ele por espiões e agentes secretos de seus inimigos. Ele deve também conquistar a simpatia dos espiões de seus inimigos, mas eliminá-los quando surgir a oportunidade. Como os pavões o rei deve matar seus inimigos poderosos e zangados de política desonesta, e destruir suas tropas e expulsá-los de casa. O rei deve também como o pavão fazer o que é bom para ele, e colher sabedoria de todos os lugares como eles coletam insetos da floresta. Um rei sábio e semelhante ao pavão deve governar seu reino dessa maneira e adotar uma política que lhe seja benéfica. Por exercitar sua própria inteligência, ele deve decidir o que ele tem que fazer. Por consultar com outros ele deve ou abandonar ou confirmar tal resolução. Ajudado por aquela inteligência que é afiada pelas escrituras, uma pessoa pode determinar seus rumos de ação. Nisto consiste a utilidade das escrituras. Por praticar as artes de conciliação, ele deve inspirar confiança nos corações de seus inimigos. Ele deve mostrar sua própria força. Por avaliar diferentes rumos de ação em sua própria mente ele deve, por exercer sua própria inteligência, chegar a conclusões. O rei deve ser bem versado nas artes de política conciliadora, ele deve possuir sabedoria; e deve ser capaz de fazer o que deve ser feito e evitar o que não deve. Uma pessoa de sabedoria e inteligência profunda não tem necessidade de conselhos ou instrução. Um homem sábio que é possuidor de inteligência como Vrihaspati, se ele incorre em infâmia, logo recupera sua disposição como ferro aquecido mergulhado em água. Um rei deve realizar todos os objetivos, seus ou de outros, de acordo com os meios declarados nas escrituras. Um rei conhecedor dos modos de adquirir riqueza deve sempre empregar em seus atos homens que são de disposição branda, possuidores de sabedoria e coragem e grande força. Vendo seus empregados ocupados em ações para as quais cada um é apto, o rei deve agir em conformidade com todos eles como as cordas de um instrumento musical, esticadas até a tensão apropriada, de acordo com as notas pretendidas. O rei deve fazer o bem para todas as pessoas sem contrariar os ditames de retidão. O rei que permanece imóvel como uma colina a quem todos consideram como 'Ele é meu'; tendo se aplicado à tarefa de julgar entre litigantes, o rei, sem fazer qualquer distinção entre pessoas das quais ele gosta e das quais ele não gosta, deve manter justiça. O rei deve designar em todos os seus trabalhos homens familiarizados com as características de famílias específicas, das massas do povo, e de diferentes países; gentis em palavras; de meia-idade; que não têm defeitos; que são dedicados a bons atos; que nunca são descuidados; livres de ganância; possuidores de erudição e autocontrole; firmes em virtude e sempre preparados para manter os interesses de virtude e lucro. Desta maneira, tendo determinado o rumo de ações e seus objetivos finais o rei deve realizá-los cuidadosamente; e informado em todas as questões por seus espiões, ele pode viver em alegria. O rei que nunca se entrega à ira e alegria sem causa suficiente, que supervisiona ele mesmo todos os seus próprios atos, e que cuida de suas rendas e gastos com seus próprios olhos, consegue obter grande riqueza da terra. É considerado conhecedor dos deveres da arte de reinar o rei que recompensa seus oficiais e súditos publicamente (por algum bem que eles tenham feito), que castiga aqueles que merecem punição, que se protege, e que protege seu reino de todos os males. Como o Sol derramando seus raios sobre tudo abaixo, o rei deve sempre cuidar ele mesmo de seu reino, e auxiliado por sua inteligência ele deve supervisionar todos os seus espiões e oficiais. O rei deve pegar a riqueza de seus súditos no tempo apropriado. Ele nunca deve proclamar o que ele faz. Como um homem inteligente ordenhando sua vaca todos os dias, o rei deve ordenhar seu reino todos os dias. Como a abelha coleta mel das flores gradualmente, o rei deve tirar riqueza gradualmente de seu reino para armazená-la. Tendo mantido à parte uma porção suficiente, aquilo que resta deve ser gasto na aquisição de mérito religioso e na satisfação do desejo por prazer. Aquele rei que conhece os deveres e que possui inteligência nunca esbanjara o que foi acumulado. O rei nunca deve desconsiderar alguma riqueza por sua pequenez; ele nunca deve desconsiderar inimigos por sua fraqueza; ele deve, por exercer sua própria inteligência, examinar a si mesmo; ele nunca deve depositar confiança em pessoas desprovidas de inteligência. Firmeza, habilidade, autodomínio, inteligência, saúde, paciência, coragem, e atenção às necessidades de hora e lugar, estas oito qualidades levam ao aumento de riqueza, seja esta pouca ou muita. Um pequeno fogo, alimentado com manteiga clarificada, pode resplandecer em uma conflagração. Uma única semente pode produzir mil árvores. Um rei, portanto, mesmo quando ele sabe que sua renda e gastos são grandes, não deve desconsiderar os itens menores. Um inimigo, seja ele uma criança, um homem jovem, ou um idoso, tem êxito em matar uma pessoa que é negligente. Um inimigo insignificante, quando ele se torna poderoso, pode exterminar um rei. Um rei, portanto, que esteja familiarizado com os requisitos de tempo é o principal de todos os soberanos. Um inimigo, forte ou fraco, guiado por malícia, pode logo destruir a fama de um rei, obstruir a aquisição de mérito religioso por ele; e privá-lo até de sua energia. Portanto, um rei de mente regulada nunca deve ser descuidado quando ele tem um inimigo. Se um rei possuidor de inteligência deseja riqueza e vitória, ele deve, depois de pesquisar seus gastos, renda, economias, e administração, fazer ou paz ou guerra. Por esta razão o rei deve procurar a ajuda de um ministro inteligente. Uma inteligência resplandecente enfraquece até uma pessoa poderosa; pela inteligência o poder que está crescendo pode ser protegido; um inimigo crescente é enfraquecido pela ajuda da inteligência; portanto, toda ação que é empreendida em conformidade com os ditames de inteligência é merecedora de louvor. Um rei possuidor de paciência e sem qualquer falha, pode, se ele quiser, obter a realização de todos os seus desejos, com a ajuda até de uma pequena tropa. O rei, no entanto, que deseja estar cercado por um séquito de bajuladores interesseiros; (isto é, aquele rei que é vaidoso e cobiçoso) nunca consegue ganhar nem o menor benefício. Por essas razões, o rei deve agir com suavidade ao tirar riqueza de seus súditos. Se um rei oprime continuamente seu povo, ele encontra com a extinção como uma luz de relâmpago que brilha somente por um segundo. Conhecimento, penitências, riqueza vasta, de fato, tudo, pode ser obtido por meio de esforço. O esforço, como ele se acha nas criaturas incorporadas, é governado pela inteligência. O esforço, portanto, deve ser considerado como a principal de todas as coisas. O corpo humano é a residência de muitas criaturas inteligentes de grande energia, de Sakra, de Vishnu, de Saraswati, e de outros seres. Um homem de conhecimento, portanto, nunca deve desrespeitar o corpo; (ele pertença a ele mesmo ou a alguma outra pessoa.) Um homem cobiçoso deve ser subjugado por meio de presentes constantes. Aquele que é cobiçoso nunca está saciado com apropriação da riqueza de outras pessoas. Todos, no entanto, se tornam cobiçosos na questão de desfrutar de felicidade. Se uma pessoa, portanto, fica desprovida de riqueza, ela fica desprovida de virtude e prazer (que são objetivos alcançáveis pela riqueza). Um homem avarento procura se apropriar da riqueza, dos prazeres, dos filhos e filhas, e da riqueza de outros. Nos homens avarentos todos os tipos de defeitos podem ser vistos. O rei, portanto, nunca deve aceitar um homem cobiçoso como seu ministro ou oficial. Um rei (na ausência de agentes apropriados) deve despachar até uma pessoa inferior para averiguar a disposição e atos de inimigos. Um soberano possuidor de sabedoria deve frustrar todos os esforços e objetivos de seus inimigos. O rei confiante e nobre de nascimento que procura instrução de Brahmanas eruditos e virtuosos e que é protegido por seus ministros, consegue manter todos os seus principais contribuintes sob controle apropriado. Ó príncipe de homens, eu te falei brevemente sobre todos os deveres declarados nas escrituras. Encarregue-te deles, ajudado por tua inteligência. Aquele rei que, em obediência a seu preceptor, se encarrega desses, consegue dominar a terra inteira. Aquele rei que desconsidera a felicidade que é derivável da política e procura por aquela que a sorte pode trazer, nunca consegue desfrutar da felicidade lidada à soberania ou ao alcançar regiões de bem-aventurança após a morte. (Isto é, um rei deve sempre ser guiado pelos preceptores da ciência da arte de reinar sem depender da sorte.) Um rei que é atento, por se encarregar devidamente dos requisitos de guerra e paz, consegue matar até os inimigos que são eminentes por riqueza, venerados por inteligência e boa conduta, possuidores de habilidades, corajosos em batalha, e prontos para esforço. O rei deve descobrir aqueles meios que são fornecidos por diferentes tipos de ações e medidas. Ele nunca deve depender do destino. Alguém que vê defeitos em pessoas impecáveis nunca consegue ganhar prosperidade e fama. Quando dois amigos se dedicam à realização de uma mesma ação, um homem sábio sempre louva aquele entre os dois que toma sobre si mesmo a parte mais pesada do trabalho. Pratique esses deveres de reis que eu tenho te indicado. Coloque teu coração no dever de proteger homens. Tu poderás então obter facilmente a recompensa da virtude. Todas as regiões de felicidade após a morte dependem do mérito!'" (Isto é, aquele que ganha mérito religioso com certeza obterá tais regiões; e como grande mérito pode ser adquirido por cumprir apropriadamente deveres reais um homem pode, por tal conduta, ganhar muita felicidade após a morte.) 121 "Yudhishthira disse, 'Ó avô, tu agora terminaste teu discurso sobre os deveres de reis. Do que tu disseste parece que o Castigo ocupa uma posição elevada e é o senhor de tudo pois tudo depende do Castigo. Parece, ó poderoso, que o Castigo, que possui grande energia e que está presente em todo lugar, é o principal de todos os seres mesmo entre os deuses e Rishis e Pitris de grande alma e Yakshas e Rakshasas e Pisachas e Sadhyas, ou seres vivos neste mundo inclusive feras e aves. Tu disseste que o universo inteiro, móvel e imóvel, incluindo os deuses, Asuras, e homens, pode ser visto como depende do Castigo. Eu agora desejo, ó touro da raça Bharata, saber realmente quem é o Castigo. De que tipo ele é? Qual é sua forma? Qual é a sua disposição? Do que ele é feito? De onde é sua origem? Quais são suas feições? Qual é seu esplendor? Como ele permanece vigilante entre as criaturas vivas tão cuidadosamente? Quem é ele que permanece eternamente vigilante, protegendo este universo? Quem é ele que é conhecido como a principal de todas as coisas? Quem, de fato, é aquele personagem nobre chamado Castigo? Do que é que o Castigo depende? E qual é sua direção?'” "Bhishma disse, 'Ouça, ó descendente de Kuru, quem é o Castigo e por que ele também é chamado de Vyavahara! Aquilo do qual todas as coisas dependem é chamado de Castigo. É pelo Castigo que a justiça é mantida. Ele é às vezes chamado de Vyavahara. A fim de que a justiça de um rei que é cuidadosamente vigilante não possa sofrer extinção (o Castigo veio a ser chamado por aquele nome). É por esta razão que o nome Vyavahara se torna aplicável a ele. (Vyavahara é vi e avahara, consequentemente aquilo através do qual todos os tipos de apropriação indevida são parados. Ele é um nome aplicado à Lei e administração de justiça.) Antigamente Manu, ó rei, declarou antes de tudo esta verdade, isto é, 'Aquele que protege todas as criaturas, as amadas e as odiosas igualmente, por manejar imparcialmente a vara de Castigo, é considerado como a encarnação da justiça.' Estas palavras que eu disse foram, ó principal dos reis, proferidas nos tempos passados por Manu. Elas representam as palavras sublimes de Brahman. E porque estas palavras foram faladas por primeiro, portanto, elas são conhecidas como as primeiras palavras. E já que é pelo Castigo que a apropriação indevida das posses de outras pessoas é reprimida, portanto o Castigo veio a ser chamado pelo nome de Vyavahara. O agregado de três sempre depende do Castigo bem aplicado. O Castigo é um grande deus. Em forma ele parece com um fogo ardente. Sua cor é escura como aquela das pétalas do lótus azul. Ele é equipado com quatro dentes, tem quatro braços e oito pernas e muitos olhos. Suas orelhas são pontudas como flechas e seu cabelo se mantém em pé. Ele tem cabelos emaranhados e duas línguas. Seu rosto tem a cor do cobre, e ele está vestido em uma pele de leão. Aquela divindade irresistível assume tal forma feroz. Ele assume também a forma da espada, do arco, da maça, do dardo, do tridente, do malho, da seta, da clava compacta e curta, do machado de batalha, do disco, do laço, da maça pesada, do espadim, da lança, e realmente de todas as espécies de armas que existem na terra. O Castigo se move no mundo. De fato, o Castigo se move sobre a terra, perfurando e ferindo e afligindo e cortando e dividindo e batendo e matando e avançando contra suas vítimas. Estes, ó Yudhishthira, são alguns dos nomes que o Castigo tem: Espada, Sabre, Justiça, Fúria, o Irresistível, o Pai da prosperidade, Vitória, Punidor, Controlador, o Eterno, as Escrituras, Brahmana, Mantra, Vingador, o Principal dos primeiros Legisladores, Juiz, o Imperecível, Deus, o indivíduo cujo rumo é irresistível, o sempre constante, o Primogênito, o indivíduo sem afeição, a Alma de Rudra, o Manu mais velho e o grande Castigo Benfeitor é o santo Vishnu. Ele é o pujante Narayana. E porque ele sempre assume uma forma terrível, portanto, ele é chamado de Mahapurusha. Sua esposa Moralidade é também conhecida pelos nomes de Filha de Brahmana, Lakshmi, Vriti, Saraswati, e Mãe do universo. O Castigo assim tem muitas formas. Bênção e maldição, prazer e dor, justiça e injustiça, força e fraqueza, sorte e desgraça, mérito e demérito, virtude e vício, desejo e aversão, estação e mês, noite e dia, e hora, atenção e negligência, alegria e raiva, paz e autodomínio, destino e esforço, salvação e condenação, medo e destemor, injúria e abstenção de injúria, penitências e sacrifícios e abstinência rígida, veneno e comida saudável, o início, o meio, e o fim, o resultado de todos os atos homicidas, insolência, insanidade, arrogância, orgulho, paciência, política, falta de diplomacia, fraqueza e poder, respeito, desrespeito, decadência e estabilidade, humildade, caridade, conveniência e inconveniência de hora, mentira, sabedoria, verdade, crença, incredulidade, impotência, comércio, lucro, perda, sucesso, derrota, violência, brandura, morte, aquisição e não aquisição, acordo e desacordo, o que deve e o que não deve ser feito, força e fraqueza, malícia e boa vontade, correção e incorreção, vergonha e falta de vergonha, modéstia, prosperidade e adversidade, energia, ações, conhecimento, eloquência, sutileza de Compreensão, todos esses, ó Yudhishthira, são formas do Castigo neste mundo. Então, o Castigo é extremamente multiforme. Se o Castigo não existisse, todas as criaturas teriam oprimido umas às outras. Pelo medo do Castigo, ó Yudhishthira, as criaturas vivas não matam umas às outras. Os súditos, ó rei, sempre protegidos pelo Castigo, aumentam o poder de seu soberano. É por isto que o Castigo é considerado como o principal amparo de todos. O Castigo, ó rei, coloca rapidamente o mundo no caminho da virtude. Dependente da verdade, a virtude existe nos Brahmanas. Dotados de virtude, os principais dos Brahmanas se tornaram apegados aos Vedas. Dos Vedas os sacrifícios fluem. Sacrifícios gratificam as divindades. As divindades, estando gratificadas, elogiam os habitantes da terra para Indra. Para beneficiar os habitantes da terra, Indra lhes dá alimento (na forma de chuva sem a qual as colheitas e a vegetação seriam insuficientes). A vida de todas as criaturas depende do alimento. Do alimento as criaturas derivam seu sustento e crescimento. O Castigo (na forma do soberano Kshatriya) permanece vigilante entre eles. Para servir a este propósito, o Castigo assume a forma de um Kshatriya entre homens. Protegendo os homens, ele permanece acordado, sempre vigilante e nunca enfraquecendo. O Castigo também tem estes outros oito nomes: Deus, Homem, Vida, Poder, Coração, o Senhor de todas as criaturas, a Alma de todas as coisas, e a Criatura Viva. Deus dá riqueza e a vara de castigo para o rei que possui força (na forma de tropas militares) e que é uma combinação de cinco ingredientes. (Estes são Justiça, Lei, Castigo, Deus e Criatura Viva.) Nobreza de sangue, ministros de grande riqueza, conhecimento, os diferentes tipos de força (tais como força de corpo, energia de mente, etc.), com os oito objetos mencionados abaixo, e a outra força (isto é, aquela que depende de uma tesouraria bem cheia), devem ser buscados pelo rei, ó Yudhishthira. Aqueles oito objetos são os elefantes, cavalos, carros, soldados de infantaria, barcos, operários recrutados (para seguir o acampamento e fazer outros trabalhos), aumento de população, e gados (tais como ovelhas, etc.). Do exército equipado com armaduras e outros equipamentos, os guerreiros em carros, guerreiros em elefantes, cavalaria, infantaria, oficiais, e médicos militares constituem os membros. Mendigos, juízes principais, astrólogos, realizadores de ritos propiciatórios e ritos Atharvan, tesouraria, aliados, cereais, e todos os outros requisitos, constituem o corpo, composto de sete atributos e oito membros, de um reino. O Castigo é outro membro poderoso de um reino. O Castigo (na forma de um exército) é o criador de um reino. O próprio Deus, com grande cuidado, enviou o Castigo para o uso do Kshatriya. Este universo eterno é o próprio Castigo imparcial. Não há nada mais digno de respeito por reis do que o Castigo pelo qual os caminhos da Justiça são indicados. O próprio Brahman, para a proteção do mundo e para determinar os deveres de diferentes indivíduos, enviou (ou criou) o Castigo. Há outro tipo de Vyavahara proveniente da disputa de litigantes o qual também surgiu de Brahman. Principalmente caracterizado por uma crença em um dos dois partidos, aquele Vyavahara é considerado como produtivo de bem. (Este primeiro é a Lei comum, e inclui a lei civil e criminal. Quando um processo civil ou criminal é instituído, o rei ou aqueles que agem em nome do rei devem pedir Evidência e decidir a questão por acreditar em um dos dois partidos. Então segue- se restituição ou punição. Em qualquer um dos dois casos, ele é uma forma de Castigo.) Há outro tipo de Vyavahara que tem o Veda como sua alma. (Este é a lei eclesiástica dos Vedas. Há preceitos ou injunções declaradas naqueles livros sagrados para regular todas as partes do dever humano.) Ele é também citado como tendo o Veda como sua causa. Há, ó tigre entre reis, um (terceiro) tipo de Vyavahara que está relacionado com os costumes familiares mas que é consistente com a escrituras. (O terceiro tipo de Vyavahara ou Lei são os costumes específicos de famílias ou tribos. Aonde eles não são inconsistentes ou em evidente desarmonia com a Lei civil ou criminal estabelecida, ou não são contrários ao espírito da lei eclesiástica como prescrita nos Vedas, eles são mantidos.) Aquele Vyavahara que, como acima, foi citado como sendo caracterizado por uma crença em um de dois partidos litigantes, deve ser conhecido por nós como inerente ao rei. Ele deve também ser conhecido pelo nome de Castigo, como também pelo nome de Evidência. Embora o Castigo seja visto ser regulado pela Evidência, contudo ele é citado como tendo sua alma em Vyavahara. Aquilo que tem sido chamado de Vyavahara é realmente baseado em preceitos Védicos. (A lei civil ou criminal de um reino deve ser considerada como dependente do rei. Mas como este tipo de lei tem o Veda como sua alma e fluiu originalmente de Brahman, um rei não incorre em pecado por administrá-la e por infligir castigo em sua administração.) O Vyavahara que foi indicado como tendo os Vedas como sua alma é a Moralidade ou dever. Este também produz o bem para as pessoas crentes em dever e moralidade. Homens de almas purificadas falam daquele Vyavahara como eles falam da lei comum. (Isto é, ao falarem de Moralidade e dever dizem que ela é tão obrigatória quanto a lei comum administrada pelos reis.) O terceiro tipo de Vyavahara é também um preceptor de homens, e tem também seus fundamentos no Veda, ó Yudhishthira! Ele mantém os três mundos. Ele tem a Verdade como sua alma e é produtivo de prosperidade. Aquilo que é o Castigo é visto por nós como o eterno Vyavahara (Lei). Aquilo que é considerado como Vyavahara é em verdade o Veda. Aquilo que é o Veda é moralidade, dever. A moralidade e o dever são os caminhos da Justiça. Esta última é a que no início tinha sido o Avô Brahman, aquele Senhor de todas as criaturas. Brahman é o Criador do universo inteiro com os deuses e Asuras e Rakshasas e seres humanos e cobras, e todas as outras coisas. Então o Vyavahara que é caracterizado por uma crença em um dos dois partidos litigantes também fluiu dele. Por esta razão Ele declarou o seguinte a respeito de Vyavahara: Nem mãe, nem pai, nem irmão, nem esposa, nem sacerdote, são não puníveis por aquele rei que governa em conformidade com seu dever.’” 122 "Bhishma disse, 'Em relação a isto é citada a seguinte história antiga. Havia entre os Angas um rei de grande esplendor, chamado Vasuhoma. Aquele rei estava sempre dedicado a atos de piedade, e acompanhado por sua cônjuge ele sempre praticava as penitências mais rígidas. Ele foi ao local chamado Munjaprishtha considerado em alta estima pelos Pitris e Rishis celestes. Lá, naquele pico de Himavat, perto das montanhas douradas de Meru, (o grande Brahmana) Rama, sentado sob a sombra de uma figueira-de-bengala bem conhecida, tinha amarrado seus cabelos emaranhados, (ou, ordenou a remoção de seus cabelos emaranhados, em outras palavras, raspou a cabeça). Desde aquele tempo, ó monarca, o local, que é um retiro favorito de Rudra, veio a ser chamado de Munjaprishtha por Rishis de votos rígidos. O rei Vasuhoma, residindo naquele local, adquiriu muitos atributos pios e, tendo ganhado a estima dos Brahmanas, veio a ser considerado como um Rishi divino em santidade. Um dia, aquele destruidor de inimigos, aquele amigo de Sakra, isto é, o rei Mandhatri de grande alma, foi até Vasuhoma em seu retiro na montanha. Chegando lá, Mandhatri viu o rei Vasuhoma de penitências austeras diante dele em uma atitude de humildade. Vasuhoma ofereceu para seu convidado água para lavar seus pés, e o Arghya consistindo nos artigos costumeiros, e perguntou sobre o bem-estar de seu reino consistindo em sete membros. Depois disto, Vasuhoma se dirigiu a seu convidado real que seguia fielmente as práticas dos homens justos de antigamente, dizendo, 'O que, ó rei, eu farei por ti?' Assim endereçado, ó alegrador dos Kurus, Mandhatri, aquele melhor dos reis, muito satisfeito, respondeu para Vasuhoma de grande sabedoria sentado comodamente, nas seguintes palavras.'” "Mandhatri disse, 'Tu, ó rei, estudaste todas as doutrinas de Vrihaspati. Ó melhor dos homens, as doutrinas prescritas por Usanas também são conhecidas por ti. Eu desejo saber qual é a origem do Castigo. O que estava vigilante antes do Castigo? Qual também é considerado como seu fim? Como o Castigo veio a depender do Kshatriya? Diga-me tudo isso, ó tu de grande sabedoria! Eu vim a ti como um discípulo disposto a te dar a remuneração tutorial (isto é, a te reconhecer como tutor).'” "Vasuhoma disse, 'Escute, ó rei, como o Castigo, o sustentador do mundo, surgiu. A alma da justiça, ele é eterno, e foi criado para manter o devido controle de todas as criaturas. Foi ouvido por nós que uma vez, o Avô de todos os mundos, o divino Brahman, desejando realizar um sacrifício, fracassou em achar um sacerdote possuidor de qualificações como ele mesmo. Por esta razão ele o concebeu em seu cérebro e manteve o feto lá por muitos longos anos. Depois que mil anos tinham passado, o grande deus espirrou. Naquela ação, o feto caiu de sua cabeça. O ser divino, ó castigador de inimigos, que assim nasceu de Brahman foi chamado pelo nome de Kshupa. Possuidor de grandes poderes, ele se tornou um senhor de criaturas. Kshupa se tornou o sacerdote, ó rei, no sacrifício do Avô de grande alma. Após o começo daquele sacrifício de Brahman, ó melhor dos reis, o Castigo desapareceu por causa da forma visível que o Avô foi então obrigado a assumir. (Visto que o Avô, que era o governador do universo, assumiu o aspecto brando e pacífico de um sacrificador, o Castigo o qual tinha morado em sua forma furiosa não podia mais existir.) O Castigo tendo desaparecido, uma grande confusão surgiu entre todas as criaturas. Não havia mais nenhuma distinção entre o que devia e o que não devia ser feito. Toda distinção, também, entre alimento puro e impuro cessou. Os homens cessaram de distinguir entre qual bebida era permitida e qual não era. Todas as criaturas começaram a prejudicar umas às outras. Não haviam restrições na questão da união dos sexos. Toda a idéia de propriedade cessou. Todas as criaturas começaram a roubar, e apanhar carne umas das outras. Os fortes começaram a matar os fracos. Ninguém nutria a menor consideração por seu vizinho. O Avô então, tendo adorado o divino e eterno Vishnu, se dirigiu àquele grande deus concessor de bênçãos, dizendo, 'Cabe a ti, ó Kesava, mostrar piedade na presente ocasião. Que seja ordenado por ti de modo que a confusão que ocorreu possa desaparecer.' Assim endereçada, aquela principal das divindades, armada com um enorme Sula, tendo refletido muito, criou a si mesmo na forma de Castigo. Daquela forma, tendo a Justiça como suas pernas, a deusa Saraswati criou Danda-niti (Ciência de Castigo) a qual logo se tornou célebre pelo mundo. Depois disto o grande deus armado com a enorme Sula, tendo novamente refletido por algum tempo, nomeou uns poucos entre os deuses como os senhores ou soberanos de suas respectivas classes. Foi então que ele fez o divino Indra de mil olhos o soberano das divindades. Yama, o filho de Vivaswat, foi feito o senhor dos Pitris. Kuvera foi feito o senhor dos tesouros e de todos os Rakshasas. Meru foi feito o rei das montanhas, e Oceano foi feito o senhor dos rios. O poderoso Varuna foi instalado na soberania das águas e dos Asuras. A Morte foi feita o senhor da vida e de todas as coisas vivas, e o Fogo foi nomeado como o senhor de todas as coisas possuidoras de energia. O pujante Isana, o eterno Mahadeva de grande alma, de três olhos, foi feito o senhor dos Rudras. Vasishtha foi feito o senhor dos Brahmanas, e Jatavedas foi feito o chefe dos Vasus. Surya foi feito o senhor de todos os corpos luminosos, e Chandramas foi feito o rei das Estrelas e constelações. Ansumat foi feito o senhor de todas as ervas, e o pujante e principal das divindades, isto é, Kumara ou Skanda, de doze braços, foi feito o chefe de todos os espíritos e seres fantasmais (que servem Mahadeva). O Tempo, possuindo as sementes da destruição e do crescimento, foi feito o soberano de todas as criaturas como também das quatro partes da Morte (isto é, armas, doenças, Yama, e ações) e por fim da dor e da alegria. Os Srutis declaram que o deus supremo Mahadeva, o senhor dos senhores, ó rei, armado com Sula, é o chefe dos Rudras. A vara de castigo foi dada para o filho de Brahman de nascimento subsequente, isto é, Kshupa, aquele senhor de todas as criaturas e a principal de todas as pessoas virtuosas. Após a conclusão daquele sacrifício de acordo com os ritos devidos, Mahadeva, depois de fazer reverência apropriada transferiu o Castigo, aquele protetor da Justiça, para Vishnu. Vishnu o deu para Angiras; e Angiras, aquele principal dos ascetas, o transferiu para Indra e Marichi. Marichi o deu para Bhrigu. Bhrigu deu aquela vara destinada à proteção da justiça para todos os Rishis. Os Rishis a deram para os Regentes do mundo, e os Regentes a transferiram novamente para Kshupa. Kshupa então a transferiu para Manu, o filho de Surya. A divindade de Sraddhas (isto é, Manu), a deu para seus filhos por causa da justiça e riqueza verdadeiras. O Castigo deve ser infligido com discernimento, guiado pela justiça e não por capricho. Ele é destinado a reprimir os maus. Multas e confiscos são planejados para causar alarme, e não para encher a tesouraria do rei. A mutilação do corpo ou a imposição de morte não devem proceder de causas triviais. A imposição de dor física por diversos meios, o arremesso de topos de montanhas, e o banimento também, não devem proceder de causas similares. Manu, o filho de Surya deu a vara de castigo (para seus filhos) para a proteção do mundo. O Castigo, nas mãos de sucessivos portadores, permanece desperto, protegendo todas as criaturas. No topo da escala, o divino Indra está desperto (com a vara de castigo); depois dele, Agni de chamas ardentes; depois dele, Varuna; depois de Varuna, Prajapati; depois de Prajapati, a Justiça cuja essência consiste no controle (disciplina); depois da Justiça o filho de Brahman, isto é, a Lei eterna; depois da Lei, a Energia está desperta, empenhada no ato de proteção; depois da Energia, as ervas (oferecidas em sacrifícios para manter os deuses e usadas como alimento e remédios); depois das ervas, as montanhas; depois das montanhas, todas as espécies de sucos e seus atributos; depois destes, a deusa Niriti; depois de Niriti, os planetas e os corpos luminosos no céu; depois destes, os Vedas; depois dos Vedas, a poderosa forma de Vishnu com cabeça equina; depois dele, o onipotente e eterno Avô, isto é, Brahman; depois do Avô, o divino e abençoado Mahadeva; depois de Mahadeva, os Viswedevas; depois deles, os grandes Rishis; depois dos Rishis o divino Soma; depois de Soma, as divindades que são todas eternas; depois das divindades, saiba que os Brahmanas estão despertos. Depois dos Brahmanas, os Kshatriyas estão protegendo justamente todas as criaturas. O universo eterno, consistindo em criaturas móveis e imóveis, é mantido desperto pelos Kshatriyas. Criaturas são mantidas despertas neste mundo, e o Castigo está alerta entre elas. Possuidor de esplendor parecendo aquele do próprio Avô, o Castigo mantém junto e sustenta tudo. O Tempo, ó Bharata, está sempre desperto, no início, no meio, e no fim. O mestre de todos os mundos, o senhor de todas as criaturas, o poderoso e abençoado Mahadeva, o deus dos deuses, está sempre desperto. Ele é chamado por estes nomes também, Kapardin, Sankara, Rudra, Bhava, Sthanu e o marido de Uma. Assim o Castigo também se mantém desperto no início, no meio, e no fim. Um rei virtuoso deve governar devidamente, guiado pelo Castigo.'” "Bhishma continuou, 'A pessoa que escuta a este ensinamento de Vasuhoma, e tendo-o escutado se comporta de acordo com seu mandato, com certeza obterá a realização de todos os seus desejos. Eu agora, ó touro entre homens, te disse tudo sobre quem é o Castigo, aquele controlador do universo que é governado pela justiça.'" 123 "Yudhishthira disse, 'Eu desejo, ó senhor, ouvir as conclusões definitivas sobre o assunto de Virtude, Riqueza, e Prazer. Dependendo de qual destes o curso da vida procede? Quais são as respectivas bases de Virtude, Riqueza, e Prazer? Quais também são os resultados destes três? Eles são às vezes vistos se misturarem uns com os outros, e às vezes existir separadamente e independentemente uns dos outros.'” "Bhishma disse, 'Quando os homens neste mundo se esforçam com bons corações obter Riqueza com a ajuda da Virtude, então estes três, isto é, Virtude, Riqueza, e Prazer, podem ser vistos coexistindo em um estado de união em relação a tempo, causa, e ação. (Isso pode ser ilustrado pela ação de um marido virtuoso procurando ato sexual com sua esposa na época apropriada. Há mérito religioso na realização dos ritos conhecidos pelo nome de Garbhadhana; há prazer no próprio ato; e no fim, riqueza ou lucro na forma de um filho é também obtida.) A Riqueza tem sua base na Virtude, e o Prazer é considerado o fruto da Riqueza. Todos os três também têm sua base na Vontade. A Vontade tem relação com os objetos. Todos os objetos, também, em sua totalidade, existem para satisfazer o desejo de prazer. Destes então o agregado de três depende. Total abstração de todos os objetos é a Emancipação. É dito que a Virtude é buscada para a proteção do corpo, e a Riqueza é para aquisição de Virtude. Prazer é somente a satisfação dos sentidos. Todos os três têm, portanto, a qualidade de Paixão. (Há três qualidades ou atributos que caracterizam as ações humanas, isto é, Bondade, Paixão, e Ignorância. Desta maneira Virtude, Riqueza e Prazer, portanto, não são objetos de busca muito superiores. Somente as coisas que possuem o atributo de Bondade são dignas de busca.) Virtude, Riqueza, e Prazer, quando procurados por causa do céu ou outras recompensas, são citados como distantes porque as próprias recompensas estão distantes. Quando buscados, no entanto, por causa do Conhecimento do Eu, eles são citados como próximos. Uma pessoa deve buscá-los quando eles são de tal caráter. (Isto é, uma pessoa deve buscar virtude somente para atingir pureza de alma; Riqueza para que ela possa gastá-las em atos praticados sem desejo de resultado; e Prazer somente para sustentar o corpo.) Não se deve rejeitá-los nem mentalmente. Se Virtude, Riqueza, e Prazer devem ser abandonados, alguém deve abandoná-los quando já se libertou por meio de penitências ascéticas. O alvo do agregado triplo é em direção à emancipação. O homem pode obtê-la! As ações, empreendidas e completadas mesmo com a ajuda da inteligência, podem ou não podem levar aos resultados esperados. A Virtude não é sempre a base da Riqueza, pois outras coisas além da Virtude levam à Riqueza (tais como serviço, agricultura, etc.). Há também uma opinião contrária (pois alguns dizem que a Riqueza é ganha por sorte ou nascimento ou causas parecidas). Em alguns casos, a Riqueza adquirida foi produtiva de mal. Outras coisas também além da Riqueza (tais como jejuns e votos) têm levado à aquisição de Virtude. Em relação a este tópico, portanto, um estúpido cuja compreensão foi degradada pela ignorância, nunca consegue alcançar o mais alto objetivo da Virtude e da Riqueza, isto é, a Emancipação. A escória da Virtude consiste no desejo de recompensa; a escória da Riqueza consiste em somente acumulá-la; quando purgadas destas impurezas, elas produzem resultados grandiosos. Sobre isto é citada a narrativa da conversa que ocorreu antigamente entre Kamandaka e Angaristha. Um dia, o rei Angaristha, tendo esperado pela oportunidade, saudou o Rishi Kamandaka quando ele estava sentado comodamente e fez a ele as seguintes perguntas, 'Se um rei, forçado por luxúria e tolice, comete pecados dos quais ele se arrepende depois, por quais atos, ó Rishi, aqueles pecados podem ser destruídos? Se também um homem, impelido pela ignorância, faz o que é pecaminoso acreditando que está agindo corretamente, como o rei porá um fim naquele pecado que entrou em voga entre os homens?'” "Kamandaka disse, 'O homem que, abandonando Virtude e Riqueza busca somente o Prazer, colhe como a consequência de tal conduta a destruição de sua inteligência. A destruição da inteligência é seguida pela negligência que é destrutiva ao mesmo tempo de Virtude e Riqueza. De tal negligência procede o ateísmo terrível e a maldade sistemática de conduta. Se o rei não reprime aqueles homens vis de conduta pecaminosa, todos os bons súditos então vivem com medo como o ocupante de um quarto dentro do qual uma cobra se esconde. Os súditos não seguem tal rei. Os Brahmanas e todas as pessoas virtuosas também agem da mesma maneira. Como uma consequência o rei incorre em grande perigo, e enfim no risco da própria destruição. Alcançado por infâmia e insulto, ele tem que se arrastar em uma existência miserável. Uma vida de infâmia, no entanto, é igual à morte. Homens versados nas escrituras têm indicado os seguintes meios de controlar o pecado. O rei deve sempre se dedicar ao estudo dos três Vedas. Ele deve respeitar os Brahmanas e fazer bons préstimos a eles. Ele deve ser dedicado à justiça. Ele deve fazer alianças com famílias nobres. Ele deve visitar Brahmanas generosos adornados com a virtude de bondade. Ele deve realizar abluções e recitar mantras sagrados e assim passar seu tempo alegremente. Banindo todos os maus súditos para longe dele mesmo e de seu reino, ele deve procurar a companhia de homens virtuosos. Ele deve gratificar todas as pessoas por palavras ou boas ações. Ele deve dizer a todos, 'Eu sou seu,' e proclamar as virtudes até de seus inimigos. Por seguir tal conduta ele poderá logo se purificar de seus pecados e ganhar o maior respeito de todos. Sem dúvida, por tal conduta todos os seus pecados serão destruídos. Tu deves realizar todos aqueles deveres excelentes que teus superiores e preceptores indicarem. Tu com certeza obterás grandes bênçãos pela graça de teus superiores e preceptores.'" 124 "Yudhishthira disse, 'Todas as pessoas sobre a terra, ó principal dos homens, louvam o comportamento virtuoso. Eu tenho, no entanto, grandes dúvidas em relação a este objeto de seu louvor. Se o tópico puder ser compreendido por nós, ó principal dos homens virtuosos, eu desejo saber tudo sobre o modo pelo qual o comportamento virtuoso pode ser adquirido. Como de fato, aquele comportamento é adquirido, ó Bharata? Eu desejo saber isto. Diga-me também, ó principal dos oradores, quais são as características daquele comportamento.'” "Bhishma disse, ‘Antigamente, ó concessor de honras, Duryodhana enquanto queimava de angústia à visão daquela prosperidade bem conhecida pertencente a ti e a teus irmãos em Indraprastha e pelas zombarias que ele recebeu por causa de seus equívocos na grande mansão, fez para seu pai Dhritarashtra a mesma pergunta. Escute ao que ocorreu naquela ocasião, ó Bharata! Tendo visto aquela tua mansão grandiosa e aquela grande prosperidade da qual tu eras dono, Duryodhana, enquanto sentado diante de seu pai, falou do que ele tinha visto para o último. Tendo ouvido as palavras de Duryodhana, Dhritarashtra, dirigindo-se a seu filho e a Karna, respondeu a ele o seguinte.’” Dhritarashtra disse, 'Por que tu sofres, ó filho? Eu desejo saber a causa em detalhes. Se depois de averiguar as razões elas parecerem ser adequadas, eu então me esforçarei para te instruir. Ó subjugador de cidades hostis, tu também obtiveste grande riqueza. Todos os teus irmãos são sempre obedientes a ti, como também teus amigos e parentes. Tu cobres teus membros com as melhores vestes. Tu comes o mais rico alimento. Corcéis da melhor espécie te conduzem. Por que então tu te tornaste pálido e emaciado?'” Duryodhana disse, 'Dez milhares de Brahmanas Snataka de grande alma comem diariamente no palácio de Yudhishthira em pratos de ouro. Vendo sua mansão excelente adornada com flores e frutos excelentes, seus corcéis das raças Tittiri e Kalmasha, seus mantos de diversos tipos, de fato, contemplando a grande prosperidade de meus inimigos, os filhos de Pandu, uma prosperidade que parece com a grande riqueza do próprio Vaisravana, eu estou queimando de angústia, ó Bharata!'” Dhritarashtra disse, 'Se tu desejas, ó majestade, ganhar prosperidade como aquela de Yudhishthira ou até uma superior a ela, então, ó filho, te esforce para ter um comportamento virtuoso. Sem dúvida, alguém pode, só pelo comportamento, conquistar os três mundos. Não há nada impossível de ser alcançado por pessoas de comportamento virtuoso. Mandhatri conquistou o mundo inteiro no curso de uma única noite, Janamejaya, no curso de três; e Nabhaga, no curso de sete. Todos estes reis eram possuidores de compaixão e de comportamento virtuoso. Por esta razão a terra veio para eles por sua própria vontade, conquistada por sua virtude.’” "Duryodhana disse, 'Eu desejo saber, ó Bharata, como aquele comportamento pode ser adquirido, isto é, aquele comportamento pelo qual a terra foi conquistada tão depressa (pelos reis citados por ti).’” "'Dhritarashtra disse, 'Em relação a isto, a narrativa seguinte é citada. Ela foi recitada antigamente por Narada sobre o assunto do comportamento virtuoso. Nos tempos passados, o Daitya Prahlada, pelo mérito de seu comportamento, arrebatou de Indra de grande alma sua soberania e reduziu os três mundos à submissão. Sukra então, com mãos unidas, se aproximou de Vrihaspati. Possuidor de grande sabedoria, o chefe dos celestiais se dirigiu ao grande preceptor, dizendo, ‘Eu desejo que tu me digas qual é a fonte da felicidade’. Assim endereçado, Vrihaspati disse a ele que o Conhecimento (que leva à emancipação) é a fonte da maior felicidade. De fato, Vrihaspati indicou o Conhecimento como a fonte da felicidade suprema. Indra, no entanto, mais uma vez perguntou se não havia nada maior do que isto.’” "Vrihaspati disse, 'Há uma coisa, ó filho, que é ainda mais elevada. Bhargava de grande alma (Usanas) te instruirá melhor. Vá até ele, abençoado sejas, e pergunte para ele, ó chefe dos celestiais!' Possuidor de grande mérito ascético e dotado de grande esplendor, o chefe dos celestiais então foi até Bhargava e obteve dele com um coração ratificado, um conhecimento do que era para o seu maior bem. Obtendo a permissão de Bhargava de grande alma, o realizador de cem sacrifícios mais uma vez perguntou ao sábio se havia alguma coisa maior (como meio para a aquisição de felicidade) do que o sábio já tinha dito. O onisciente Bhargava disse, 'Prahlada de grande alma tem um conhecimento melhor.' Sabendo disto, Indra ficou muito satisfeito. O castigador de Paka, possuidor de grande inteligência, assumiu a forma de um Brahmana, e indo até Prahlada, o questionou dizendo, ‘Eu desejo saber o que leva à felicidade.’ Prahlada respondeu ao Brahmana, dizendo, 'Ó principal dos regenerados, eu não tenho tempo, estando totalmente ocupado na tarefa de governar os três mundos, eu não posso, portanto, te instruir.' O Brahmana disse, 'Ó rei, quando tu puderes ter um tempo livre, eu desejo escutar às tuas instruções sobre qual rumo de conduta produz o bem.’ A esta resposta, o rei Prahlada ficou encantado com aquele proferidor de Brahma. Dizendo, 'Assim seja' ele aproveitou uma oportunidade favorável para dar ao Brahmana as verdades de conhecimento. O Brahmana manteve devidamente em direção a Prahlada a conduta que um discípulo deveria manter para com seu preceptor, e começou com todo o seu coração a fazer o que Prahlada desejava. Várias vezes o Brahmana perguntou, dizendo, 'Ó castigador de inimigos, por quais meios tu foste capaz de ganhar a soberania dos três mundos? Diga-me, ó rei justo, quais são aqueles meios.' Prahlada, ó monarca, respondeu a pergunta do Brahmana.’” "Prahlada disse, 'Eu, ó regenerado, não sinto nenhum orgulho por ser um rei, nem tenho algum sentimento hostil pelos Brahmanas. Por outro lado, eu aceito e sigo os conselhos de política que eles me declaram baseados nos ensinos de Sukra. Em completa confiança eles me dizem o que eles desejam dizer, e me impedem de comportamentos que são injustos ou impróprios. Eu sou sempre obediente aos ensinos de Sukra. Eu visito e sirvo os Brahmanas e meus superiores. Eu não tenho malícia. Eu tenho uma alma virtuosa. Eu conquistei a ira. Eu tenho autodomínio, e todos os meus sentidos estão sob meu controle. Os regenerados que são meus instrutores despejam instruções benéficas sobre mim como abelhas colocando mel nas cavidades de seus favos. Eu provo o néctar derramado por aqueles homens eruditos, e como a Lua entre as constelações eu vivo entre os membros de minha raça. Isto mesmo é néctar sobre a terra, esta é a visão mais clara, isto é, escutar ao ensinamento de Sukra dos lábios de Brahmanas e agir de acordo com eles. Nisto consiste o bem de um homem.' Assim disse Prahlada para aquele proferidor de Brahma. Servido respeitosamente por ele, o chefe dos Daityas mais uma vez disse, 'Ó principal dos regenerados, eu estou extremamente satisfeito contigo por teu comportamento respeitoso para comigo. Peça de mim o benefício que desejas, abençoado sejas, pois em verdade eu concederei o que tu pedires.’ O Brahmana respondeu ao chefe dos Daityas dizendo, 'Muito bem. Eu te obedecerei.' Prahlada, satisfeito com ele, disse, ‘Pegue o que desejas.”’ "O Brahmana disse, 'Se, ó rei, tu estás satisfeito comigo e se tu desejas fazer o que é agradável para mim, eu desejo então adquirir o teu comportamento. É esta a bênção que eu peço.’ Nisto, embora encantado, Prahlada se encheu de grande medo. De fato, quando este benefício foi indicado pelo Brahmana, o chefe Daitya pensou que o solicitante não poderia ser uma pessoa de energia comum. Muito admirado, Prahlada finalmente disse, 'Assim seja'. Tendo, no entanto, concedido o benefício, o chefe Daitya se encheu de angústia. O Brahmana, tendo recebido o benefício, foi embora, mas Prahlada, ó rei, foi tomado por uma ansiedade profunda e não sabia o que fazer. Quanto o chefe Daitya sentou-se meditando sobre a questão, uma chama de luz saiu de seu corpo. Ela tinha uma forma indistinta de grande esplendor e proporções enormes. Prahlada questionou a forma, dizendo, 'Quem és tu?' A forma respondeu, dizendo, 'Eu sou a encarnação do teu Comportamento. Rejeitado por ti eu estou indo embora. Eu irei de agora em diante, ó rei, habitar naquele impecável e principal dos Brahmanas que se tornou teu discípulo devotado.' Tendo dito estas palavras, a forma desapareceu e logo depois entrou no corpo de Sakra. Depois do desaparecimento daquela forma, outra forma parecida saiu do corpo de Prahlada. O chefe Daitya se dirigiu a ela, dizendo, 'Quem és tu?' A forma respondeu, dizendo, 'Me conheça, ó Prahlada, como a encarnação da Justiça. Eu irei para lá onde aquele principal dos Brahmanas está, pois, ó chefe dos Daityas, eu resido onde o Comportamento mora.' Após o desaparecimento da Justiça, uma terceira forma, ó monarca, brilhante com esplendor, emergiu do corpo de Prahlada de grande alma. Questionada por Prahlada sobre quem ela era, aquela forma possuidora de grande refulgência respondeu, dizendo, 'Saiba, ó chefe dos Daityas, que eu sou a Verdade. Eu te deixarei, seguindo o caminho da Justiça.' Depois que a Verdade tinha deixado Prahlada, seguindo o mesmo caminho da Justiça, outra grande personalidade saiu do corpo de Prahlada. Questionado pelo rei dos Daityas, o ser poderoso respondeu, 'Eu sou a encarnação dos Bons atos. Saiba, ó Prahlada, que eu vivo onde a Verdade vive.' Depois que ele tinha deixado Prahlada, outro ser emergiu, proferindo gritos altos e profundos. Endereçado por Prahlada, ele respondeu, 'Saiba que eu sou o Poder. Eu moro onde os Bons atos estão.' Tendo dito essas palavras, o Poder partiu para o local onde os Bons atos tinham ido. Depois disto, uma deusa de grande refulgência saiu do corpo de Prahlada. O chefe Daitya lhe perguntou e ela respondeu dizendo que ela era a encarnação da Prosperidade, somando, 'Eu habitei em ti, ó herói, ó tu de destreza incapaz de ser frustrada! Rejeitada por ti, eu seguirei o mesmo caminho do Poder.' Prahlada de grande alma, dominado por um grande medo, mais uma vez questionou a deusa, dizendo, 'Aonde tu vais, ó deusa, ó tu que moras em meio a lotos? Tu és sempre dedicada à verdade, ó deusa, e és a principal das divindades. Quem é aquele principal dos Brahmanas (que foi meu discípulo)? Eu desejo saber a verdade.' A deusa da Prosperidade disse, 'Devotado ao voto de Brahmacharya, o Brahmana que foi instruído por ti era Sukra. Ó pujante, ele te roubou aquela soberania que tu tinhas sobre os três mundos. Ó justo, foi pelo teu comportamento que tu reduziste os três mundos à submissão. Sabendo disto, o chefe dos celestiais roubou o teu comportamento. A Justiça e a Verdade e os Bons atos e o Poder e eu mesma, ó tu de grande sabedoria, todos temos realmente as nossas bases no Comportamento.'” "Bhishma continuou, 'Tendo dito estas palavras, a deusa da Prosperidade foi embora, como também o resto, ó Yudhishthira! Duryodhana, mais uma vez se dirigindo a seu pai, disse estas palavras: 'Ó alegrador dos Kurus, eu desejo saber a verdade a respeito do Comportamento. Diga-me os meios pelos quais ele pode ser adquirido.'” "Dhritarashtra disse, 'Aqueles meios foram indicados por Prahlada de grande alma enquanto discursava para Indra. Escute, no entanto, ó soberano de homens, em resumo como o Comportamento pode ser adquirido. Abstenção de ferir por meio de ações, pensamentos, e palavras, em relação a todas as criaturas, compaixão, e caridade, constituem o comportamento que é digno de louvor. Aquele ato ou esforço pelo qual outros não são beneficiados, ou aquele ato pelo qual uma pessoa tem que sentir vergonha, nunca devem ser feitos. Deve ser feito, por outro lado, aquele ato pelo qual uma pessoa pode ganhar louvor em sociedade. Ó melhor dos Kurus, eu agora te disse em resumo o que é o Comportamento. Se, ó rei, pessoas de comportamento pecaminoso alguma vez ganham prosperidade, elas não desfrutam dela por muito tempo, ó filho, e são vistas serem exterminadas pela raiz.'” "Dhritarashtra continuou, 'Conhecendo tudo isto realmente, ó filho, tenha bom comportamento, se tu desejas obter uma prosperidade maior do que aquela de Yudhishthira.'” "Bhishma continuou, 'Foi isso mesmo que o rei Dhritarashtra disse para seu filho. Aja de acordo com estas instruções, ó filho de Kunti, e tu irás então sem dúvida obter seus resultados.'" 125 "Yudhishthira disse, 'Tu disseste, ó avô, que o comportamento é o primeiro (dos requisitos para um homem). De onde, no entanto, surge a Esperança? Diga-me o que ela é. Esta grande dúvida tomou posse da minha mente. Não há outra pessoa além de ti, ó subjugador de cidades hostis, que possa removê-la. Ó avô, eu tinha uma grande esperança em relação a Suyodhana, que quando uma batalha estivesse prestes a se seguir (por causa de sua própria teimosia), ele iria, ó senhor, fazer o que era apropriado. Em todo homem a esperança é grande. Quando aquela esperança é destruída, grande é a angústia que se sucede, a qual, sem dúvida, é quase igual à própria morte. Tolo que eu sou, o filho de Dhritarashtra de alma pecaminosa, Duryodhana, destruiu a esperança que eu nutria. Veja, ó rei, a tolice da minha mente! Eu penso que a esperança é mais vasta do que uma montanha com todas as suas árvores. Ou, talvez, ela é mais vasta do que o próprio firmamento. Ou, talvez, ó rei, ela seja realmente incomensurável. A Esperança, ó chefe dos Kurus, é extremamente difícil de ser entendida e igualmente difícil de ser subjugada. Vendo este último atributo da Esperança eu pergunto, o que mais é tão inconquistável quanto ela?'” "Bhishma disse, 'Eu narrarei para ti, ó Yudhishthira, sobre isto, a conversa entre Sumitra e Rishabha que ocorreu antigamente. Escute-a. Um sábio nobre da linhagem Haihaya, de nome Sumitra, saiu para caçar. Ele perseguia um veado, tendo-o perfurado com uma flecha reta. Possuidor de grande força, o veado correu adiante, com a seta fincada nele. O rei também era possuidor de grande força, e ele consequentemente perseguiu sua presa com grande velocidade. O animal, dotado de velocidade, rapidamente transpôs um terreno baixo e então uma planície nivelada. O rei, jovem, ativo e forte, e armado com arco e espada e envolvido em cota de malha, ainda o perseguiu. Desacompanhado, ao perseguir o animal através da floresta o rei cruzou muitos rios e correntes e lagos e matagais. Dotado de grande velocidade, o animal, à sua vontade, se mostrando ocasionalmente ao rei, corria adiante com grande rapidez. Perfurado com muitas flechas pelo rei, aquele habitante da selva, ó monarca, como se em esporte, repetidamente diminuía a distância entre si mesmo e o perseguidor. Repetidamente aplicando sua velocidade e atravessando uma floresta depois da outra, ele ocasionalmente se mostrava ao rei em um ponto próximo. Finalmente aquele destruidor de inimigos, pegando uma flecha muito superior, afiada, terrível, e capaz de penetrar nos próprios órgãos vitais, fixou-a na corda de seu arco. O animal então, de proporções enormes, como se risse dos esforços do perseguidor se distanciou dele de repente por alcançar um ponto quatro milhas completas à frente do alcance da flecha. Aquela flecha de esplendor brilhante consequentemente caiu ao chão. O veado entrou em uma grande floresta mas o rei ainda continuou a persegui-lo.'" 126 "Bhishma disse, 'O rei, tendo entrado naquela floresta grande, chegou a um retiro de ascetas. Fatigado com o esforço que ele tinha feito, ele se sentou para descansar. Vendo-o armado com arco, desgastado pelo esforço, e faminto, os ascetas se aproximaram e o honraram de forma apropriada. Aceitando as honras oferecidas pelos Rishis, o rei lhes perguntou sobre o progresso e avanço de suas penitências. Tendo respondido devidamente as perguntas do rei, aqueles Rishis dotados de riqueza de ascetismo perguntaram àquele tigre entre os soberanos sobre a razão que levou seus passos àquele retiro. E eles disseram, 'Abençoado sejas, em busca de qual objeto encantador, ó rei, tu vieste a este retiro, andando a pé e armado com espada e arco e setas? Nós desejamos saber de onde tu vens, ó dador de honras. Diga-nos também em que linhagem tu nasceste e qual é teu nome.' Assim endereçado, ó touro entre homens, o rei prosseguiu para dar devidamente a todos aqueles Brahmanas um relato sobre si mesmo, ó Bharata, dizendo, 'Eu nasci na linhagem dos Haihayas. Por nome eu sou Sumitra, e eu sou o filho de Mitra. Eu caço bandos de veados, matando-os aos milhares com minhas setas. Acompanhado por uma grande tropa e por meus ministros e pelas senhoras de minha família, eu saí em uma expedição de caça. Eu perfurei um veado com uma seta, mas o animal com a flecha fincada em seu corpo correu com grande velocidade. Ao persegui-lo eu cheguei, sem um propósito determinado, a esta floresta e me encontro em sua presença, desprovido de esplendor, cansado de me esforçar, e com esperança frustrada. O que pode ser mais deplorável do que isto, isto é, que eu tenha chegado a este retro, esgotado pela fadiga, desprovido dos sinais de realeza, e privado de minha esperança? Eu não estou arrependido em absoluto, ó ascetas, por estar agora desprovido dos sinais de realeza ou por estar agora longe da minha capital. Eu sinto, no entanto, uma dor pungente por minha esperança ter sido frustrada. O príncipe das montanhas, isto é, Himavat, e aquele vasto receptáculo de águas, o oceano, não podem, por sua imensidão, medir a extensão do firmamento. Ó ascetas, da mesma maneira, eu também não posso discernir o limite da esperança. Vocês que são dotados de riqueza de penitências são oniscientes. Não há nada desconhecido para vocês. Vocês são também altamente abençoados. Eu portanto, peço a vocês que esclareçam minha dúvida. Esperança como nutrida pelos homens, e o vasto firmamento, qual destes dois parece maior para vocês? Eu desejo saber em detalhes o que é tão inconquistável quanto a esperança. Se o tópico for um sobre o qual não lhes é impróprio discursar, então me digam tudo sobre isto sem demora. Eu não desejo, ó principais dos regenerados, ouvir qualquer coisa de vocês que possa ser um mistério impróprio para se falar. Se também o discurso for prejudicial para suas penitências, eu não desejo que vocês falem. Se a pergunta feita por mim for um tópico digno para se falar, eu então desejo ouvir a causa em detalhes. Dedicados a penitências como vocês são, vocês todos me instruam sobre o assunto.'" 127 "Bhishma disse, 'Então aquele melhor dos Rishis, isto é, o regenerado Rishabha, sentado no meio de todos aqueles Rishis, sorriu um pouco e disse estas palavras: 'Antigamente, ó tigre entre reis, enquanto viajava entre lugares sagrados, eu cheguei, ó senhor, no belo retiro de Nara e Narayana. Lá há um local encantador chamado Vadri, e lá também se encontra aquele lago no firmamento (à grande altura nos Himalayas, de onde a sagrada Ganga tem sua fonte). Lá o sábio Aswasiras, ó rei, (sempre) lê os Vedas eternos. Tendo realizado minhas abluções naquele lago e oferecido com os ritos devidos oblações de água aos Pitris e animais, eu entrei no retiro. Dentro daquele retiro os Rishis Nara e Narayana sempre passam seu tempo em verdadeira alegria. (Acredita-se que os espíritos daqueles dois sábios imortais moram para sempre naquele retiro no desfrute de verdadeira felicidade.) Não longe daquele local eu fui para outro retiro para fixar minha residência. Enquanto estava lá eu vi um Rishi muito alto e emaciado, vestido em trapos e peles, vindo em minha direção. Possuidor de riqueza de penitências, ele se chamava Tanu. Comparado, ó poderosamente armado, com outros homens, sua altura parecia ser oito vezes maior. Em relação à sua magreza, ó sábio real, eu posso dizer que eu nunca vi ninguém parecido. O corpo dele, ó rei, era tão magro quanto o dedo mínimo de uma pessoa. Seu pescoço e braços e pernas e cabelos eram todos de um aspecto extraordinário. Sua cabeça era proporcional ao seu corpo, e suas orelhas e olhos também eram o mesmo. Sua fala, ó melhor dos reis, e seus movimentos eram extremamente fracos. Contemplando aquele Brahmana extremamente emaciado eu fiquei muito triste e assustado. Saudando seus pés, eu fiquei perante ele com mãos unidas. Tendo-o informado de meu nome e família, e tendo dito a ele também o nome de meu pai, ó touro entre homens, eu me sentei lentamente em um assento que foi indicado por ele. Então, ó monarca, aquele principal dos homens virtuosos, isto é, Tanu, começou a falar no meio dos Rishis que moravam naquele retiro sobre tópicos ligados com Justiça e Lucro. Enquanto ele estava falando, um rei, possuidor de olhos como pétalas de lótus e acompanhado por suas tropas e as damas de sua família, chegou àquele local em um carro puxado por corcéis velozes. O nome daquele rei era Viradyumna. De belas feições, ele possuía grande fama. O nome do filho dele era Bhuridyumna. O filho tinha se perdido, e o pai, extremamente triste, chegou lá no decurso de suas viagens em meio à floresta à procura do desaparecido. 'Eu acharei meu filho aqui!' 'Eu acharei meu filho aqui!' Arrastado adiante pela esperança desta maneira, o rei vagava por aquela floresta naqueles dias. Dirigindo-se ao Rishi emaciado ele disse, 'Sem dúvida aquele meu filho altamente virtuoso é extremamente difícil de ser localizado por mim. Ai, ele era meu único filho. Ele está perdido e não pode ser achado em lugar nenhum! Embora incapaz de ser descoberto, minha esperança, no entanto, de achá-lo é muito grande. Cheio daquela esperança (a qual está sendo frustrada constantemente), eu estou em verdade prestes a morrer.' Ouvindo essas palavras do rei, aquele principal dos Munis, isto é, o santo Tanu, permaneceu por um tempo curto com a cabeça baixa e mergulhado em contemplação. Vendo-o mergulhado em contemplação, o rei ficou extremamente triste. Em grande angústia ele começou a dizer lentamente e suavemente, 'O que, ó Rishi celeste, é mais inconquistável e o que é maior do que a esperança? Ó santo, me diga isto se eu puder ouvi-lo sem impropriedade.'” "O Muni disse, ‘Um Rishi poderoso e santo foi insultado por teu filho. Ele fez isso por má sorte, movido por sua compreensão superficial. O Rishi tinha pedido ao teu filho um jarro dourado e cascas vegetais. Teu filho desdenhosamente se recusou a satisfazer o asceta. Tratado dessa maneira por teu filho, o grande sábio ficou desapontado.’ Assim endereçado, o rei adorou aquele asceta que era adorado por todo o mundo. De alma virtuosa, Viradyumna sentou-se lá, esgotado com fadiga assim como tu, ó melhor dos homens, agora estás. O grande Rishi, em retorno, ofereceu ao rei, segundo os ritos observados pelos habitantes das florestas, água para lavar seus pés e os ingredientes usuais que compõem o Arghya. Então todos os Rishis, ó tigre entre reis, sentaram-se lá, circundando aquele touro entre homens como as estrelas da constelação da Ursa Maior circundando a Estrela Polar. E eles perguntaram àquele rei invicto qual era a causa de sua chegada naquele retiro.'" 128 "O rei disse, 'Eu sou um rei chamado pelo nome de Viradyumna. Minha fama se espalhou em todas as direções. Meu filho Bhuridyumna está perdido. É em busca dele que eu cheguei a esta floresta. Ó principais dos Brahmanas, aquela criança era meu único filho e, ó impecáveis, ele é muito jovem. Ele não pode, no entanto, ser achado aqui. Eu estou vagando por todos os lugares para encontrá-lo.'” "Rishabha continuou, 'Depois que o rei tinha dito estas palavras, o asceta Tanu baixou sua cabeça. Ele permaneceu perfeitamente silencioso, sem proferir uma única palavra em resposta. No passado aquele Brahmana não tinha sido muito honrado pelo rei. Desapontado, ó monarca, ele tinha por aquela razão praticado penitências rígidas por um longo tempo, resolvendo em sua mente que ele nunca deveria aceitar nada em doação de reis ou membros de alguma outra classe. E ele disse a si mesmo, 'A esperança agita todos os homens de inteligência superficial. Eu expulsarei a esperança da minha mente.' Tal tinha sido sua determinação. Viradyumna mais uma vez questionou aquele principal dos ascetas nestas palavras: "O rei disse, 'Qual é a medida da finura da Esperança? O que sobre a terra é de aquisição extremamente difícil? Diga-me isto, ó santo, pois tu conheces bem moralidade e o lucro." "Rishabha continuou, 'Lembrando-se de todos os incidentes passados (acerca de sua própria desconsideração nas mãos do rei) e chamando-os de volta à recordação do rei também, aquele Brahmana santo de corpo emaciado se dirigiu ao rei e disse as seguintes palavras: O sábio disse, 'Não há nada, ó rei, que iguale a Esperança em delgadeza. Eu apelei a muitos reis e descobri que nada é de aquisição tão difícil quanto uma imagem que a Esperança coloca diante da mente.'” "O rei disse, 'Pelas tuas palavras, ó Brahmana, eu entendo o que é tênue e o que não é. (Isto é, a Esperança é tênue, enquanto as coisas não ligadas com a Esperança são o oposto.) Eu entendo também quão difícil de aquisição são as imagens colocadas pela Esperança diante da mente. Eu considero estas tuas palavras como declarações de Sruti. Ó tu de grande sabedoria, uma dúvida, no entanto, surgiu na minha mente. Cabe a ti, ó sábio, me explicar em detalhes o que eu te pergunto. O que é mais fino do que o teu corpo? Diga-me isto, ó santo, se, é claro, ó melhor dos sábios, o tópico for um que possa ser discorrido sem impropriedades.'” "O sábio emaciado disse, 'Um requerente satisfeito é extremamente difícil de se encontrar. Talvez, não haja ninguém assim no mundo. Um coisa ainda mais rara, ó majestade, é a pessoa que nunca desrespeita um suplicante. A esperança que depende de tais pessoas que, depois de pronunciarem suas promessas, não fazem o bem para outros segundo o melhor que podem e de acordo com o que os requerentes merecem, é mais fina até do que o meu corpo. (Tais pessoas devem sempre ser suspeitadas. Contudo há homens que esperam por coisas boas deles. Tal esperança, o sábio diz, é mais fina do que seu corpo fino.) A esperança que se baseia em um homem ingrato, ou em um que é cruel, ou um que é indolente, ou um que prejudica outros, é até mais fina do que o que o meu corpo. A esperança nutrida por um pai que só tem um filho, de ver mais uma vez aquele filho depois de ele estar perdido ou desaparecido, é mais fina até do que o meu corpo. A esperança que mulheres idosas nutrem de ter filhos, ó rei, e que é nutrida por homens ricos, é até mais fina do que o meu corpo. A esperança que nasce de repente nos corações de moças crescidas de se casarem quando elas ouvem alguém somente falar disto em sua presença, é mais fina até do que o meu corpo’. Ouvindo estas palavras, ó monarca, o rei Viradyumna, e as damas de sua família, se prostraram perante aquele touro entre Brahmanas e tocaram seus pés com suas cabeças inclinadas.'” "O rei disse, 'Eu suplico tua graça, ó santo! Eu desejo encontrar meu filho. O que tu disseste, ó melhor dos Brahmanas, é muito verdadeiro. Não há dúvida da verdade das tuas declarações.'” "Rishabha continuou, 'O santo Tanu, aquela principal das pessoas virtuosas, sorrindo, fez, por meio de seu conhecimento e suas penitências, o filho do rei ser levado àquele local. Tendo feito o príncipe ser levado lá, o sábio repreendeu o rei (seu pai, por seu desrespeito nos tempos passados). Aquela principal das pessoas virtuosas então se mostrou como o deus da justiça. De fato, tendo mostrado sua própria forma maravilhosa e celestial, ele entrou em uma floresta adjacente, com o coração livre de ira e de desejo de vingança. Eu vi tudo isso, ó rei, e ouvi as palavras que eu disse. Abandone tua esperança, que é até mais tênue (do que alguma daquelas que o sábio indicou).”' "Bhishma continuou 'Assim endereçado, ó monarca, por Rishabha de grande alma, o rei Sumitra rapidamente rejeitou a esperança que estava em seu coração e que era mais fraca (do que algum dos tipos de esperança indicados pelo Rishi emaciado). Tu também, ó filho de Kunti, ouvindo estas minhas palavras, fique calmo e sereno como Himavat. Dominado pela angústia (ao pensar na matança em batalha) tu me questionaste e ouviste minha resposta. Tendo-a ouvido, ó monarca, cabe a ti dissipar esses teus remorsos!'” 129 "Yudhishthira disse, 'Como alguém que bebe néctar eu nunca estou saciado com te escutar enquanto tu falas. Como uma pessoa possuidora de conhecimento do eu nunca está saciada com a meditação, assim mesmo eu nunca fico saciado com te escutar. Portanto, ó avô, fale mais uma vez sobre moralidade. Eu nunca fico saciado ao beber o néctar dos teus discursos sobre moralidade.'” "Bhishma disse, 'Sobre isto é citada a antiga narrativa da conversa entre Gotama e o ilustre Yama. Gotama possuía um grande retiro nas colinas Paripatra. Escute quantos anos ele morou naquela residência. Por sessenta mil anos aquele sábio passou por austeridades ascéticas naquele retiro. Um dia, o Regente do mundo, Yama, ó tigre entre homens, foi até aquele grande sábio de alma purificada enquanto ele estava empenhado nas austeridades mais severas. Yama viu o grande asceta Gotama de penitências rígidas. O sábio regenerado compreendendo que era Yama que tinha chegado, rapidamente o saudou e ficou com as mãos unidas em uma atitude atenta (esperando por suas ordens). O nobre Dharma, vendo aquele touro entre Brahmanas, devidamente o saudou (em retorno) e dirigindo-se a ele perguntou o que podia fazer por ele.'” "Gotama disse, "Por fazer quais atos uma pessoa se livra da dívida que tem para com a mãe e o pai? Como também alguém consegue alcançar regiões de pura felicidade que são tão difíceis de alcançar?'” "Yama disse, 'Dedicando-se ao dever da veracidade, e praticando pureza e penitências uma pessoa deve incessantemente venerar seu pai e mãe. Deve-se também realizar Sacrifícios de Cavalo com presentes em profusão para os Brahmanas. Por tais atos uma pessoa ganha muitas regiões (de felicidade) de aspecto maravilhoso.'" 130 "Yudhishthira disse, 'Qual rumo de conduta deve ser adotado por um rei sem amigos, que tem muitos inimigos, com a tesouraria esgotada, e desprovido de tropas, ó Bharata? Qual, de fato, deve ser sua conduta quando ele está cercado por ministros vis, quando seus planos são todos divulgados, quando ele não vê seu caminho claramente à sua frente, quando ele ataca outro reino, quando ele está empenhado em oprimir um reino hostil, e quando embora fraco ele está em guerra com um soberano mais forte? Qual, de fato, deve ser a conduta de um rei os negócios de cujo reino são mal regulados, e que desconsidera as necessidades de hora e lugar, que é incapaz, por suas opressões, de ocasionar a paz e causar desunião entre seus inimigos? Ele deve procurar a aquisição de riqueza por meios maus, ou ele deve sacrificar sua vida sem procurar riqueza?'” "Bhishma disse, 'Conhecedor dos deveres como és, tu, ó touro da raça Bharata, me fizeste uma pergunta relativa ao mistério (com relação aos deveres). (Isto é, este não é um assunto sobre o qual uma pessoa possa ou deva falar diante de audiências mistas.) Sem ser questionado, ó Yudhishthira, eu não ousaria falar sobre este dever. A moralidade é muito sutil. Pode-se compreendê-la, ó touro da raça Bharata, pela ajuda dos textos das escrituras. Por lembrar do que ouviu e por praticar boas ações, alguém em algum lugar pode se tornar uma pessoa virtuosa. Por agir com inteligência o rei pode ou não conseguir adquirir riqueza. (Isto é, por meio de artifícios engenhosos um rei pode conseguir encher sua tesouraria, ou sua melhor engenhosidade e cálculos podem falhar.) Ajudado por tua própria inteligência pense qual resposta deve ser dada à pergunta sobre este assunto. Escute, ó Bharata, aos meios, repletos de grande mérito, pelos quais reis podem se comportar (durante épocas de infortúnio). Por causa da moralidade verdadeira, no entanto, eu não chamaria de justos aqueles meios. Se a tesouraria for cheia pela opressão, tal conduta leva o rei para a beira da destruição. Esta é a conclusão de todos os homens inteligentes que têm pensado sobre o assunto. O tipo de escrituras ou ciência o qual uma pessoa sempre estuda dá a ela o tipo de conhecimento o qual ela é capaz de dar. Tal conhecimento realmente se torna agradável para ela. Ignorância leva à esterilidade de invenção em relação a meios. Habilidade de invenção de meios, através da ajuda do conhecimento, se torna fonte de grande felicidade. Sem nutrir quaisquer escrúpulos e qualquer malícia; (isto é, com um coração puro), ouça estas instruções. Pela diminuição da tesouraria, as forças do rei são diminuídas. O rei deve, portanto, encher sua tesouraria (por quaisquer meios) como alguém criando água em um ermo que não tem água. De acordo com este código de quase-moralidade praticado pelos antigos, o rei deve, quando chegar a hora para isso, (isto é, quando a época de miséria acaba), mostrar compaixão por seu povo. Este é o dever eterno. Para os homens que são capazes e competentes, (sob situações e circunstâncias comuns), os deveres são de um tipo. Em épocas de miséria, no entanto, os deveres são de um tipo diferente. Sem riqueza um rei pode (por penitências e semelhantes) adquirir mérito religioso. A vida, no entanto, é muito mais importante do que mérito religioso. (E como a vida não pode ser mantida sem riqueza, nenhum mérito que fique no caminho da aquisição da riqueza deve ser procurado). Um rei que é fraco, por adquirir somente mérito religioso, nunca consegue obter meios justos e apropriados para o sustento; e já que ele não pode, nem por seus melhores esforços, adquirir poder pela ajuda somente do mérito religioso, portanto, as práticas em épocas de necessidade são às vezes consideradas como não inconsistentes com a moralidade. Os eruditos, no entanto, são de opinião que aquelas práticas levam à pecaminosidade. Depois que acaba a época de miséria, o que deve fazer o Kshatriya? Ele deve (em tal momento) se comportar de tal maneira que seu mérito não possa ser destruído. Ele deve também agir de tal maneira que ele não tenha que sucumbir a seus inimigos. (Isto é, ele deve realizar expiações e fazer o bem àqueles a quem ele prejudicou, para que eles não possam permanecer descontentes com ele.) Estes foram declarados como seus deveres. Ele não deve cair em desânimo. Ele não deve (em épocas de infortúnio) procurar salvar (do perigo de destruição) o mérito de outros ou dele mesmo. Por outro lado, ele deve salvar a si mesmo. Esta é uma conclusão segura. (Ele não deve, em tais épocas, se abster de alguma ação que possa prejudicar seu próprio mérito ou aquele de outros; em outras palavras, ele pode desprezar todas as considerações sobre os méritos religiosos de outros e dele mesmo. Seu único interesse em tal época deve ser salvar a si mesmo, isto é, sua vida.) Há este Sruti, isto é, que está estabelecido que Brahmanas, que estão familiarizados com os deveres, devem ter competência em relação aos deveres. Similarmente, em relação ao Kshatriya, sua competência deve consistir em esforço, já que força de braços é sua grande posse. Quando os meios de sustento de um Kshatriya se acabam, o que ele não deve pegar exceto o que pertence aos ascetas e o que é possuído pelos Brahmanas? Assim como um Brahmana em uma época de necessidade pode oficiar no sacrifício de uma pessoa para quem ele nunca deveria oficiar (em outros tempos comuns) e comer alimento proibido, assim não há dúvida de que um Kshatriya (em infortúnio) pode pegar riqueza de todos exceto ascetas e Brahmanas. Para alguém afligido (por um inimigo e procurando os meios de fuga), o que pode ser uma saída imprópria? Para uma pessoa presa (dentro de um calabouço e procurando escapar) qual pode ser um caminho impróprio? Quando uma pessoa é afligida, ela escapa até por uma saída imprópria. Para um Kshatriya que, por causa da fraqueza de sua tesouraria e exército, vem a ser muito humilhado, nem uma vida de mendicância nem a profissão de um Vaisya ou aquela de um Sudra é prescrita. A profissão ordenada para um Kshatriya é a aquisição de riqueza por meio de batalha e vitória. Ele nunca deve mendigar de um membro de sua própria classe. A pessoa que se sustenta em tempos comuns por seguir as práticas originalmente declaradas para ela, pode em tempos de miséria se sustentar por seguir as práticas declaradas na alternativa. Em uma época de miséria, quando as práticas comuns não podem ser seguidas, um Kshatriya pode viver até por meios injustos e impróprios. Os próprios Brahmanas, isto é visto, fazem o mesmo quando seus meios de vida são destruídos. Quando até os Brahmanas (em tais épocas) se comportam assim, que dúvida há em relação aos Kshatriyas? Isto está, de fato, determinado. Sem afundar no desânimo nem se entregar à destruição, um Kshatriya pode (pela força) pegar o que puder de pessoas que são ricas. Saiba que o Kshatriya é o protetor e o destruidor das pessoas, Portanto, um Kshatriya em perigo deve pegar (à força) o que puder, com o objetivo de (no final) proteger as pessoas. Nenhuma pessoa neste mundo, ó rei, pode manter a vida sem prejudicar outras criaturas. O próprio asceta levando uma vida solitária nas profundidades da floresta não é exceção. Um Kshatriya não deve viver confiando na sorte, especialmente aquele, ó chefe dos Kurus, que deseja governar. O rei e o reino devem sempre proteger um ao outro mutuamente. Este é um dever eterno. Como o rei protege, por gastar todas as suas posses, o reino quando ele cai em desgraça, assim mesmo o reino deve proteger o rei quando ele cair em infortúnio. O rei, mesmo na extrema miséria, nunca deve desistir de sua tesouraria, de seu mecanismo para castigar os vis, de seu exército, de seus amigos e aliados, e de outras instituições necessárias e dos chefes existentes em seu reino. Homens conhecedores do dever dizem que alguém deve manter suas sementes, tirando-as do próprio alimento. Esta é uma verdade citada do tratado de Samvara bem conhecido por seus grandes poderes de ilusão. Vergonha para a vida daquele rei cujo reino definha. Vergonha para a vida daquele homem que por falta de meios vai para um país estrangeiro para viver. As bases do rei são sua tesouraria e exército. Seu exército, além disso, tem suas bases em sua tesouraria. Seu exército é a base de todos os seus méritos religiosos. Seus méritos religiosos são as bases de seus súditos. A tesouraria nunca pode ser cheia sem oprimir outros. Como então o exército pode ser mantido sem opressão? O rei, portanto, em épocas de necessidade, não incorre em falha por oprimir seus súditos para encher a tesouraria. Para realizar sacrifícios muitas ações impróprias são feitas. Por esta razão um rei não incorre em falha por fazer atos impróprios (quando o objetivo é encher sua tesouraria em uma época de necessidade). Por causa da riqueza outras práticas além das que são apropriadas são seguidas (em épocas de pobreza). Se (em tais tempos) tais práticas impróprias não forem adotadas, o mal certamente será o resultado. Todas as instituições que são mantidas para trabalhar destruição e miséria existem para reunir riqueza. (O exército e as cortes criminais.) Guiado por tais considerações, todo rei inteligente deve determinar seu rumo de ação (em tais épocas). Como animais e outras coisas são necessárias para sacrifícios, como sacrifícios são para purificar o coração, e como animais, sacrifícios, e pureza de coração são todos para a emancipação final, assim mesmo política e punição existem para a tesouraria, a tesouraria existe para o exército, e a política e a tesouraria e o exército, todos os três, existem para derrotar inimigos e proteger ou aumentar o reino. Eu citarei aqui um exemplo ilustrando os verdadeiros caminhos da moralidade. Uma árvore grande é derrubada para fazer dela uma estaca sacrifical. Ao cortá-la, outras árvores que ficam em seu caminho também têm que ser derrubadas. Estas também, ao caírem, matam outras que estão no local. Assim mesmo aqueles que ficam no caminho de fazer uma tesouraria bem cheia têm que ser mortos. Eu não vejo outra maneira do sucesso ser alcançado. Pela riqueza, ambos os mundos, este e o outro, podem ser tidos, como também Verdade e mérito religioso. Uma pessoa sem riqueza está mais morta do que viva. Riqueza para a realização de sacrifícios deve ser adquirida por todos os meios. O demérito atribuído a uma ação feita em uma época de miséria não é igual àquele atribuído à mesma ação se feita em outros tempos, ó Bharata! A aquisição de riqueza e seu abandono possivelmente não podem ser ambos vistos na mesma pessoa, ó rei! Eu não vejo um homem rico na floresta. Com relação a toda a riqueza que é vista neste mundo, todos discutem entre si, dizendo, 'Isto será meu!' 'Isto será meu!' Não há nada, ó opressor de inimigos, que seja tão meritório para um rei quanto a posse de um reino. É pecaminoso para um rei oprimir seus súditos com imposições pesadas em tempos comuns. Em uma época, no entanto, de necessidade, isto é muito diferente. Alguns adquirem riqueza por caridade e sacrifícios; alguns que têm preferência por penitências adquirem riqueza por penitências; alguns a adquirem pela ajuda de sua inteligência e esperteza. Uma pessoa sem riqueza é considerada fraca, enquanto aquela que tem riqueza se torna poderosa. Um homem de riqueza pode adquirir tudo. Um rei que tem a tesouraria bem cheia consegue realizar tudo. Por sua tesouraria um rei pode ganhar mérito religioso, satisfazer seu desejo por prazer, obter o mundo seguinte, e este também. A tesouraria, no entanto, deve ser cheia pela ajuda da justiça e nunca por práticas injustas, as quais passam por justas em épocas de infortúnio.’” 131 (Apaddharmanusasana Parva) "Yudhishthira disse, 'O que, além disso, deve ser feito por um rei que é fraco e procrastinador, que não se envolve em combate por ansiedade pelas vidas de seus amigos, que está sempre sob a influência do medo, e que não pode manter seus planos em segredo? O que, de fato, deve fazer aquele rei cuja cidade e reino foram divididos e apropriados por inimigos, que não tem riqueza, que é incapaz (por causa de tal pobreza) de honrar seus amigos e uni-los a si mesmo, cujos ministros são desunidos ou comprados por seus inimigos, que é obrigado a permanecer na presença de inimigos, cujo exército definhou, e cujo coração tem sido agitado por algum inimigo forte?'” "Bhishma disse, 'Se o inimigo invasor tiver um coração puro e se ele estiver familiarizado com moralidade e lucro, um rei do tipo que tu indicaste deve, sem perder tempo, fazer as pazes com o invasor e ocasionar a reintegração daquelas partes do reino que já tinham sido conquistadas. Se o invasor for forte e pecaminoso e procurar obter vitória por meios injustos, o rei deve fazer as pazes com ele também, por abandonar uma parte de seus territórios. Se o invasor estiver sem vontade de fazer as pazes, o rei deve então abandonar sua própria capital e todas as suas posses para escapar do perigo. Se ele puder salvar sua vida ele pode esperar por aquisições similares no futuro. Qual homem conhecedor da moralidade sacrificaria sua própria pessoa, a qual é uma posse mais valiosa, para enfrentar aquele perigo do qual se poderia escapar pelo abandono de sua tesouraria e exército? Um rei deve proteger as damas de sua família. Se estas caírem nas mãos do inimigo, ele não deve mostrar qualquer compaixão por elas (por incorrer no risco de sua própria prisão ao resgatá-las). Contanto que isto esteja em seu poder, ele nunca deve se entregar ao inimigo.'” "Yudhishthira disse, 'Quando seu próprio povo está descontente com ele, quando ele é oprimido por invasores, quando sua tesouraria está esgotada, e quando seus planos são divulgados, o que o rei deve fazer então?'” "Bhishma disse, 'Um rei, sob tais circunstâncias, deve (se seu inimigo for virtuoso) procurar fazer as pazes com ele. Se o inimigo for injusto, ele deve então aplicar sua bravura. Ele deve, por tais meios, procurar fazer o inimigo se retirar de seu reino; ou lutando valentemente, ele deve sacrificar sua vida e ascender para o céu. Um rei pode conquistar a terra inteira com a ajuda até de uma pequena tropa se aquela tropa for leal, alegre, e dedicada ao seu bem. Se morto em batalha, ele com certeza ascenderá ao céu. Se ele conseguir matar (seus inimigos), ele com certeza desfrutará da terra. Por sacrificar sua vida em batalha, uma pessoa obtém a companhia do próprio Indra.'" 132 "Yudhishthira disse, 'Quando as práticas repletas de moralidade superior e benéficas para o mundo, (aquelas que pertencem ao governo justo) desaparecem, quando todos os meios e recursos para o sustento da vida caem nas mãos de ladrões, quando, de fato, tal época calamitosa começa, por quais meios deve um Brahmana, ó avô, que por afeição é incapaz de abandonar seus filhos e netos, subsistir?'” "Bhishma disse, 'Quando tal período começa, o Brahmana deve viver pela ajuda do conhecimento. Tudo neste mundo é para aqueles que são bons. Nada aqui é para aqueles que são vis. Aquele que fazendo de si mesmo um instrumento de aquisição, pega riqueza dos maus e dá para aqueles que são bons, é considerado conhecedor da moralidade da adversidade. Desejoso de manter seu governo, o rei, ó monarca, sem levar seus súditos à indignação e rebelião, pode pegar o que não é livremente dado pelo dono, dizendo, 'Isto é meu!' O homem sábio que, purificado pela posse de conhecimento e poder e de conduta correta em outros tempos, age de modo repreensível em tal época, não merece realmente ser criticado. Aqueles que sempre se sustentam por aplicar sua força nunca gostam de algum outro modo de viver. Aqueles que são dotados de poder, ó Yudhishthira, sempre vivem pela ajuda da coragem. As escrituras comuns, que existem (para épocas de necessidade) sem exceções de nenhum tipo, devem ser praticadas por um rei (em tais épocas). Um rei, no entanto, que é dotado de inteligência, enquanto seguindo aquelas escrituras, fará alguma coisa a mais. (Os textos comuns, sem exceções de qualquer tipo, prescritos para épocas de infortúnio, permitem a um rei encher sua tesouraria por arrecadar contribuições pesadas de seus próprios súditos e daqueles de reinos hostis. Um rei comum, em tal época, age dessa maneira. Um rei, no entanto, que é dotado de inteligência, enquanto arrecadando tais contribuições, toma o cuidado de taxá-las sobre aqueles que são maus e puníveis entre seus próprios súditos e entre os súditos de outros reinos, e se abstém de molestar os bons.) Em tais tempos, no entanto, o rei não oprime Ritwijas, e Purohitas e preceptores e Brahmanas, todos os quais são honrados e tidos em alta estima. Por oprimi-los, mesmo que em tais épocas, ele incorre em censura e pecado. Isto que eu te digo é considerado como uma autoridade no mundo. De fato, este é o olho eterno (pelo qual as práticas em épocas de angústia devem ser olhadas). Uma pessoa deve ser guiada por sua autoridade. Por isto é para ser julgado se um rei é para ser chamado de bom ou mau. É visto que muitas pessoas residentes em aldeias e cidades, incitadas por ciúmes e cólera, acusam umas às outras. O rei nunca deve, em suas palavras, honrar ou punir alguém. Calúnia nunca deve ser falada. Se falada, ela nunca deve ser ouvida. Quando ocorre uma conversa caluniosa, uma pessoa deve tapar seus ouvidos ou deixar completamente o lugar. Conversa caluniosa é a característica de homens pecaminosos. Ela é uma indicação de depravação. Aqueles, por outro lado, ó rei, que falam das virtudes de outros em reuniões que são boas, são bons homens. Como um par de touros dóceis, governáveis, bem domesticados e usados para carregar cargas colocam seus pescoços para o jugo e arrastam a carroça de bom grado, assim mesmo o rei deve suportar suas cargas (em épocas de infortúnio). Outros dizem que um rei (em tais períodos) deve se comportar de tal maneira que ele possa conseguir ganhar um grande número de aliados. Alguns consideram o costume antigo como a mais alta indicação de virtude. Outros, isto é, aqueles que são a favor da conduta seguida por Sankha em direção a Likhita, não mantêm esta opinião. Eles não fomentam tal opinião nem por malícia nem por avareza. (Há pessoas que afirmam que sacerdotes e Brahmanas nunca devem ser punidos ou taxados. Este é o costume eterno, e, portanto, isto é moralidade. Outros que aprovam a conduta de Sankha em direção a seu irmão Likhita na ocasião do último se apropriando de umas poucas frutas pertencentes ao primeiro, são de uma opinião diferente. A última classe de pessoas é tão sincera quanto a primeira em sua opinião. Elas não podem ser acusadas por afirmarem que até sacerdotes e Brahmanas podem ser punidos quando pecam.) São vistos exemplos mesmo de grandes Rishis que declararam que até preceptores, se dedicados a práticas más, devem ser punidos. Mas não há autoridade aprovável para tal proposição. Os deuses podem ser deixados punirem tais homens quando acontecer de eles serem vis e culpados de práticas más. O rei que enche sua tesouraria por recorrer a estratagemas fraudulentos certamente abandona a virtude. O código de moralidade que é honrado em todos os aspectos por aqueles que são bons e em circunstâncias afluentes, e que é aprovado por todo coração honesto, deve ser seguido. É considerado como conhecedor do dever aquele que sabe que o dever depende ao todo de quatro alicerces. (Como declarado nos Vedas, como declarado nos Smritis, como sancionado pelos costumes antigos e como aprovado pelo coração ou pela consciência.) É difícil descobrir as razões nas quais o dever se mantém assim como é difícil descobrir as pernas da cobra. Como um caçador de animais descobre o rastro de um veado atingido por uma flecha por observar as manchas de sangue no chão, assim mesmo uma pessoa deve procurar descobrir as razões dos deveres. Um homem deve seguir com humildade o caminho trilhado pelos bons. Tal, de fato, era a conduta dos grandes sábios reais de antigamente, ó Yudhishthira!'" 133 "Bhishma disse, 'O rei deve, por tirar riqueza de seu próprio reino como também dos reinos de seus inimigos, encher sua tesouraria. Da tesouraria provém seu mérito religioso, ó filho de Kunti, e é por causa da tesouraria que as bases de seu reino se estendem. Por estas razões a tesouraria deve ser cheia; e quando cheia; ela deve ser protegida com cuidado (por parar com todos os gastos inúteis), e até deve-se procurar aumentá-la. Esta é a prática eterna. A tesouraria não pode ser cheia por (agir com) pureza e justiça, nem por (agir com) crueldade desapiedada. Ela deve ser cheia por se adotar um comportamento intermediário (entre esses dois). Como um rei fraco pode ter uma tesouraria? Como também um rei que não tem uma tesouraria pode ter força? Como um homem fraco pode ter um reino? De onde também alguém sem um reino pode obter prosperidade? Para uma pessoa de posto alto, a adversidade é como a morte. Por esta razão o rei deve sempre aumentar sua tesouraria e exército, e aliados e amigos. Todos os homens desrespeitam um rei com uma tesouraria vazia. Sem estarem satisfeitos com o pouco que tal rei pode dar, seus empregados nunca expressam qualquer boa vontade em seu trabalho. Por sua riqueza, o rei consegue obter honras grandiosas. De fato, a riqueza oculta seus muitos pecados, como os mantos escondendo tais partes de uma forma feminina que não devem ser expostas para a visão. Aqueles com quem o rei tinha disputado antigamente se enchem de angústia ao verem sua nova riqueza. Como cachorros eles mais uma vez aceitam serviço sob ele, e embora esperem somente por uma oportunidade para matá-lo, ele os recebe como se nada tivesse acontecido. Como, ó Bharata, tal rei pode obter felicidade? O rei deve sempre se esforçar para adquirir grandeza. Ele nunca deve se curvar em humildade (isto é, se entregar com facilidade). Esforço é virilidade. Ele deve antes se quebrar em uma oportunidade desfavorável do que se curvar diante de alguém. Ele deve antes ir para a floresta e viver lá com os animais selvagens. Mas ele não deve viver calmo no meio de ministros e oficiais que como ladrões quebraram todas as restrições. Mesmo os ladrões da floresta podem fornecer um grande número de soldados para a realização dos atos mais violentos, ó Bharata! Se o rei transgride todas as restrições saudáveis todas as pessoas se enchem de alarme. Os próprios ladrões que não sabem o que é compaixão temem tal rei. Por esta razão, o rei deve sempre estabelecer regras e restrições para alegrar o coração de seu povo. Regras a respeito até de questões muito insignificantes são aclamadas com prazer pelo povo. Há homens que pensam que este mundo é nada e que o futuro também é um mito. Aquele que é um ateu deste tipo, embora seu coração seja agitado por medos secretos, nunca deve ser de confiança. Se os ladrões da floresta, enquanto observando outras virtudes, cometem depredações somente em relação a propriedade, aquelas depredações podem ser consideradas como inofensivas. As vidas de milhares de criaturas são protegidas pelos ladrões observarem tais restrições. Matar um inimigo que está fugindo da batalha, rapto de esposas, ingratidão, pilhar a propriedade de um Brahmana, privar uma pessoa de toda a sua propriedade, violação de donzelas, ocupação continuada de aldeias e cidades como seus senhores legais, e relações adúlteras com esposas de outros homens; estas são consideradas como ações perversas até entre ladrões, e os ladrões devem sempre se abster delas. É também certo que aqueles reis que se esforçam (por promover a paz) para inspirar confiança sobre eles mesmos nos corações dos ladrões, conseguem, depois de observar todas as vantagens e desvantagens deles, exterminá-los. Por esta razão, ao tratar com ladrões, é necessário que eles não sejam exterminados completamente. (Suas esposas e filhos devem ser salvos, e suas habitações e vestuário e posses e utensílios domésticos, etc., não devem ser destruídos.) Deve-se procurar trazê-los sob o domínio do rei. O rei nunca deve se comportar com crueldade em direção a eles, pensando que ele é mais poderoso do que eles. Os reis que não os exterminam completamente não têm medo de extermínio para si mesmos. Aqueles, no entanto, que os exterminam têm sempre que viver com medo da consequência daquele ato.'" 143 "Bhishma disse, 'Em relação a isto, pessoas conhecedoras das escrituras declaram este texto a respeito do dever, isto é, para um Kshatriya possuidor de inteligência e conhecimento, (o ganho de) mérito religioso e (a aquisição) de riqueza, constituem seus deveres óbvios. Ele não deve, por discussões sutis sobre o dever e consequências despercebidas em relação a um mundo futuro, se abster de realizar estes dois deveres. Como é inútil discutir, ao ver certas pegadas no chão, se elas são de lobo ou não, assim mesmo é toda a discussão sobre a natureza da virtude e o contrário. Ninguém neste mundo vê os frutos da justiça e da injustiça. Um Kshatriya, portanto, deve buscar a aquisição de poder. Aquele que é poderoso é mestre de todos. A riqueza leva à posse de um exército. Aquele que é poderoso; (isto é, aquele que tem riqueza e força militar) obtém conselheiros inteligentes. Aquele que não tem riqueza é realmente decaído. Um pouco (de qualquer coisa no mundo) é considerado como a sujeira restante de um banquete. (Um homem pobre pode ter somente um pouco de todas as coisas terrenas. Aquele pouco, no entanto, é como o resto do jantar de um homem forte.) Se um homem forte faz muitas ações más, ninguém, por medo, diz ou faz qualquer coisa (para criticá-lo ou detê-lo). Se virtude e Poder forem associados com Verdade, eles podem então salvar os homens de grandes perigos. Se, no entanto, os dois forem comparados, o Poder parecerá ser superior à Virtude. É do Poder que a Virtude provém. A Virtude se apóia sobre o Poder como todas as coisas imóveis sobre a terra. Como a fumaça depende do vento (para seu movimento), assim mesmo a Virtude depende do Poder. A Virtude a qual é a mais fraca dos dois depende (do Poder) para seu sustento (como uma trepadeira depende) de uma árvore. A Virtude é dependente daqueles que são poderosos assim como o prazer é dependente daqueles que são dados ao prazer. Não há nada que homens poderosos não possam fazer. Tudo é puro com aqueles que são poderosos. Um homem sem poder, por cometer más ações, nunca pode escapar. Homens se sentem alarmados pela sua conduta assim como eles ficam alarmados pelo aparecimento de um lobo. Alguém decaído de um estado de riqueza leva uma vida de humilhação e tristeza. Uma vida de humilhação e vergonha é como a própria morte. Os eruditos dizem que quando em consequência de uma conduta pecaminosa alguém é rejeitado por amigos e companheiros, ele é perfurado repetidamente pelos dardos verbais de outros e tem que queimar de aflição por causa disso. Professores de escrituras dizem com relação à expiação da pecaminosidade que um homem deve (se maculado pelo pecado) estudar os três Vedas, servir e adorar os Brahmanas, gratificar todos os homens por olhares, palavras, e ações, abandonar toda a baixeza, casar em famílias nobres, proclamar os louvores de outros enquanto confessa sua própria indignidade, recitar mantras, realizar os usuais ritos de água, assumir uma brandura de comportamento, se abster de falar muito, realizar penitências austeras, e procurar a proteção de Brahmanas e Kshatriyas. De fato, alguém que cometeu muitas más ações deve fazer tudo isso, sem ficar zangado pelas repreensões proferidas pelos homens. Por se conduzir desta maneira, uma pessoa pode logo se purificar de todos os seus pecados e recuperar o respeito do mundo. De fato, uma pessoa ganha grande respeito neste mundo e grandes recompensas no próximo, e desfruta de diversos tipos de felicidade aqui por seguir tal conduta e por partilhar sua riqueza com outros.'" 135 "Bhishma disse, 'Em relação a isto é citada a antiga história de um ladrão que tendo sido observador de restrições (neste mundo) não encontrou a destruição no próximo. Havia um ladrão de nome Kayavya, nascido de um pai Kshatriya e uma mãe Nishada. Kayavya praticava os deveres Kshatriya. Hábil para castigar, possuidor de inteligência e coragem, familiarizado com as escrituras, desprovido de crueldade, dedicado aos Brahmanas, e cultuando seus superiores e preceptores com reverência, ele protegia os ascetas na observância de suas práticas. Embora um ladrão, ele ainda conseguiu ganhar felicidade no céu. De manhã e à noite ele costumava excitar a ira dos veados por caçá-los. Ele conhecia todas as práticas dos Nishadas como também de todos os animais que viviam na floresta. Bom conhecedor dos requisitos de tempo e lugar, ele vagava pelas montanhas. Familiarizado como ele era com os hábitos de todos os animais, suas setas nunca pediam seus alvos e seus braços eram fortes. Sozinho, ele podia derrotar muitas centenas de tropas. Ele reverenciava seus pais idosos, cegos, e surdos na floresta todos os dias. Com mel e carne e frutas e raízes e outras espécies de alimento excelente, ele entretinha com hospitalidade todas as pessoas merecedoras de honra e lhes fazia muitos bons trabalhos. Ele demonstrava grande respeito por aqueles Brahmanas que tinham se afastado do mundo para residir nas florestas. Matando veados, ele muitas vezes obtinha carne para eles. Em relação àqueles que eram relutantes, por medo de outros, em aceitar presentes dele por causa da profissão que ele exercia, (pois é sempre repreensível aceitar doações de pessoas de caráter duvidoso) ele costumava ir às suas residências antes da alvorada e deixar a carne em suas portas. Um dia muitos milhares de ladrões, desprovidos de compaixão em sua conduta e que não respeitavam restrições, desejaram elegê-lo como seu líder.'” "Os ladrões disseram, 'Tu conheces os requisitos de tempo e lugar. Tu tens sabedoria e coragem. Tua firmeza também é grande em tudo o que tu empreendes. Seja tu nosso principal dos líderes, respeitado por nós todos. Nós faremos como tu mandares. Nos proteja devidamente, assim como um pai ou mãe.'” "Kayavya disse, 'Nunca matem uma mulher, ou alguém que por medo se mantém fora da briga, ou uma criança, ou um asceta. Quem se abstém de lutar nunca deve ser morto, nem as mulheres devem ser agarradas ou levadas à força. Nenhum de vocês deve matar uma mulher entre todas as criaturas. Que Brahmanas sejam sempre abençoados e vocês devem sempre lutar pelo seu bem. A Verdade nunca deve ser sacrificada. Os casamentos de homens nunca devem ser obstruídos. Nenhum dano deve ser infligido àquelas casas nas quais as divindades, os Pitris, e os convidados são cultuados. Entre as criaturas, os Brahmanas merecem ser dispensados por vocês em suas excursões de pilhagem. Por doar até vocês todos, vocês devem adorá-los. Aquele que incorre na ira dos Brahmanas, aquele para quem eles desejam derrota, fracassa em encontrar um salvador nos três mundos. Aquele que fala mal dos Brahmanas e deseja sua destruição, ele mesmo encontra a destruição como a escuridão ao nascer do sol. Residindo aqui, vocês obterão os frutos de sua bravura. Tropas serão enviadas contra aqueles que se recusarem a nos dar nossos tributos. A vara de castigo é destinada aos maus. Ela não é destinada à auto-exaltação. Aqueles que oprimem o deus merecem a morte, é dito. Aqueles que procuram aumentar suas fortunas por afligirem reinos de modos inescrupulosos, logo virão a ser considerados como bichos em um corpo morto. Os ladrões que se comportarem de acordo com estas restrições das escrituras, logo ganharão salvação embora levando uma vida de pilhagem.'” "Bhishma continuou, 'Aqueles ladrões, assim endereçados, obedeceram todas as ordens de Kayavya. Por desistirem do pecado, eles obtiveram grande prosperidade. Por se comportar de tal maneira por fazer o bem para os honestos e por reprimir os ladrões das práticas más, Kayavya alcançou grande sucesso (no mundo seguinte). Aquele que sempre pensa nesta narrativa de Kayavya não terá que ter medo dos habitantes da floresta, realmente, de nenhuma criatura terrestre. Tal homem não terá que temer nenhuma criatura, ó Bharata! Ele não terá que temer homens perversos. Se tal homem for para a floresta, ele poderá viver lá com a segurança de um rei.'" 136 "Bhishma disse, 'Em relação a isto, isto é, o método pelo qual um rei deve encher sua tesouraria, pessoas conhecedoras das escrituras dos tempos antigos citam os seguintes versos cantados pelo próprio Brahman. A riqueza de pessoas que são dadas à realização de sacrifícios, como também a riqueza dedicada às divindades, nunca deve ser tomada. Um Kshatriya deve tirar a riqueza de pessoas que nunca realizam ritos religiosos e sacrifícios, que são por causa disso consideradas como iguais aos ladrões. Todas as criaturas que habitam a terra e todos os prazeres que pertencem à soberania, ó Bharata, pertencem ao Kshatriya. Toda a riqueza da terra pertence ao Kshatriya, e não a alguma outra pessoa. Aquela riqueza o Kshatriya deve usar para manter seu exército e para a realização de sacrifícios. Arrancando plantas e trepadeiras que não são de alguma utilidade, homens as queimam para cozinhar vegetais que servem como alimento. (O rei deve similarmente, por punir os maus, nutrir os bons.) Homens familiarizados com dever dizem que sua riqueza é inútil quando ela não alimenta, com libações de manteiga clarificada, os deuses, os Pitris, e homens. Um soberano virtuoso, ó rei, deve tomar tal riqueza. Por meio daquela riqueza um grande número de boas pessoas pode ser satisfeito. Ele não deve, no entanto, acumular aquela riqueza em sua tesouraria. Aquele que faz de si mesmo um instrumento de aquisição e tirando a riqueza dos maus dá para aqueles que são bons é considerado familiarizado com toda a ciência de moralidade. Um rei deve estender suas conquistas no mundo seguinte de acordo com a medida de seu poder, e tão gradualmente como os produtos vegetais são vistos crescerem. Como algumas formigas são vistas aumentarem sem causa adequada, assim mesmo o sacrifício não provém de causa adequada. (O sacrifício procede mais de um desejo interno do que de uma grande soma de dinheiro na tesouraria. Se o desejo existe, o dinheiro vem gradualmente para realizá-lo. A força do símile consiste no fato de que formigas, provavelmente as formigas brancas, são vistas se reunirem e se multiplicarem de nenhuma causa ostensiva.) Como moscas e mosquitos e formigas são expulsos dos corpos das vacas e de outros gados domésticos (na hora de ordenhá-los), assim mesmo as pessoas que são contrárias à realização de sacrifícios devem ser expulsas do reino. Isso é consistente com moralidade. Como o pó que jaz sobre a terra, se socado entre duas pedras, se torna cada vez mais fino, assim as questões de moralidade, quanto mais forem refletidas e discutidas, se tornam cada vez mais refinadas.'" 137 "Bhishma disse, 'Estes dois, isto é, aquele que se previne para o futuro e aquele que possui presença de espírito, sempre desfrutam de felicidade. O homem de procrastinação, no entanto, está perdido. Em relação a isto, escute atentamente a seguinte história excelente de um indivíduo procrastinador na questão de determinar seu rumo de ação. Em um lago que não era muito profundo e cheio de peixes, viviam três peixes Sakula que eram amigos e companheiros constantes. Entre aqueles três um tinha muita prudência e sempre gostava de se precaver para o que estava vindo. Outro era possuidor de grande presença de espírito. O terceiro era procrastinador. Um dia certos pescadores chegando àquele lago começaram a transferir suas águas para um terreno mais baixo através de diversas saídas. Vendo a água do lago diminuindo gradualmente, o peixe que tinha muita previdência, dirigindo-se aos seus dois companheiros naquela ocasião de perigo, disse, 'Um grande perigo está prestes a alcançar todas as criaturas aquáticas que vivem neste lago. Vamos depressa para outro lugar antes que nosso caminho seja obstruído. Quem resiste ao futuro mal pela ajuda de boa política, nunca incorre em perigo sério. Que meus conselhos convençam vocês. Vamos deixar este lugar.' Aquele entre os três que era procrastinador então respondeu, 'Bem falado. No entanto, não há necessidade de tal pressa. Esta é a minha opinião deliberada.' Então o outro peixe, que era notável pela presença de espírito, se dirigiu ao seu companheiro procrastinador e disse, 'Quando chega a hora para alguma coisa, eu nunca falho em me preparar com antecedência de acordo com a política.' Ouvindo as respostas de seus dois companheiros, aquele de grande previdência e inteligência considerável imediatamente saiu por uma correnteza e alcançou outro lago profundo. Os pescadores, vendo que toda a água tinha sido baldeada, aprisionaram os peixes que permaneceram, por diversos meios. Então eles começaram a agitar a pouca água que restou, e quanto eles começaram a pegar os peixes, o Sakula procrastinador foi capturado com muitos outros. Quando os pescadores começaram a amarrar a um longo barbante os peixes que eles tinham pegado, o Sakula que era notável pela presença de espírito se empurrou para a companhia daqueles que tinham sido assim atados e permaneceu quietamente entre eles, mordendo o barbante, pois ele pensou que ele devia fazer isso para dar a impressão de ter sido apanhado. Os pescadores acreditaram que todos os peixes atados ao barbante tinham sido capturados. Eles então os removeram para uma parte de água profunda para lavá- los. Justamente naquela hora o Sakula eminente pela presença de espírito, deixando o barbante, escapou rapidamente. Aquele peixe, no entanto, que tinha sido procrastinador, tolo e insensato e sem inteligência como ele era, e, portanto, incapaz de fugir, encontrou a morte.’” "'Assim encontram a destruição, como o peixe procrastinador, todos os que por falta de inteligência não podem pressentir a hora de perigo. O homem, também, que se considerando esperto não procura o seu próprio bem na hora apropriada, incorre em grande perigo como o Sakula que tinha presença de espírito. Então somente estes dois, isto é, o que tem muita previdência e o que tem presença de espírito, conseguem obter felicidade. Aquele, no entanto, que é procrastinador, encontra a destruição. Diversas são as divisões de tempo, tais como Kashtha, Kala, Muhurta, dia, noite, Lava, mês, quinzena, as seis estações, Kalpa, ano. As divisões da terra são chamadas de lugares. O Tempo não pode ser visto. Com relação ao sucesso de qualquer objetivo ou propósito, ele é alcançado ou não de acordo com a maneira pela qual a mente é colocada para pensar nisto. Estes dois, o homem de previdência e o homem de presença de espírito, foram declarados pelos Rishis como os principais dos homens em todos os tratados sobre moralidade e lucro e naqueles que tratam de emancipação. Uma pessoa, no entanto, que faz tudo depois de reflexão e escrutínio, uma pessoa que se utiliza de meios apropriados para a realização de seus objetivos, sempre consegue alcançar muito. Aqueles também que agem com a devida consideração por hora e lugar conseguem alcançar resultados melhores do que o mero homem de previdência e o homem de presença de espírito.'" 138 "Yudhishthira disse, 'Tu, ó touro da raça Bharata, disseste que a inteligência que se prepara com antecedência para o futuro, assim como aquela que pode se opor a emergências atuais, são sempre superiores, enquanto a protelação ocasiona destruição. Eu desejo, ó avô, saber daquela inteligência superior ajudada pela qual um rei, conhecedor das escrituras e bem versado em moralidade e lucro, não pode ser entorpecido mesmo quando cercado por muitos inimigos. Eu te peço isso, ó chefe da linhagem de Kuru! Cabe a ti me falar sobre isso. Eu desejo ouvir tudo, em conformidade com o que foi declarado nas escrituras, sobre a maneira pela qual um rei deve se comportar quando ele é atacado por muitos inimigos. Quando um rei cai em infortúnio, um grande número de inimigos, provocados por suas ações passadas, se agrupam contra ele e procuram derrotá-lo. Como pode um rei, fraco e sozinho, conseguir manter sua cabeça erguida quando ele é desafiado de todos os lados por muitos reis poderosos juntos? Como um rei em tais tempos faz amigos e inimigos? Como ele deve, ó touro da raça Bharata, se comportar em tal época com os amigos e inimigos? Quando aqueles que têm indicações de amigos realmente se tornam seus inimigos, o que deve o rei então fazer se ele quer obter felicidade? Com quem ele deve fazer guerra e com quem ele deve fazer paz? Mesmo se ele ser forte, como ele deve se comportar no meio de inimigos? Ó opressor de inimigos, esta eu considero como a maior de todas as questões ligadas com o desempenho dos deveres reais. Há poucos homens para ouvirem a resposta desta questão e ninguém para respondê-la exceto o filho de Santanu, Bhishma, firmemente dedicado à verdade e tendo todos os seus sentidos sob controle. Ó tu que és altamente abençoado, reflita a respeito disso e discorra para mim sobre isso!'” "Bhishma disse, 'Ó Yudhishthira, esta pergunta é certamente digna de ti. Sua resposta é repleta de grande felicidade. Ouça-me, ó filho, enquanto eu te declaro, ó Bharata, todos os deveres geralmente conhecidos que devem ser praticados em épocas de dificuldade. Um inimigo se torna um amigo e um amigo também se torna um inimigo. O rumo das ações humanas, através da combinação de circunstâncias, se torna muito incerto. Com relação, portanto, ao que deve e ao que não deve ser feito, é necessário que, prestando atenção às necessidades de hora e lugar, se confie em inimigos ou se faça guerra. Um homem deve, enquanto se esforçando, o melhor que pode, fazer amizade com homens de inteligência e conhecimento que desejem seu bem-estar. Ele deve fazer as pazes até com seus inimigos, quando, ó Bharata, sua vida não puder ser salva de outro modo. O homem tolo que nunca faz as pazes com inimigos nunca consegue ganhar algum lucro ou alcançar alguns daqueles resultados pelos quais outros se esforçam. Aquele também que faz as pazes com inimigos e briga até com amigos depois de uma total consideração das circunstâncias, consegue obter grandes resultados. Em relação a isto é citada a antiga história da conversa entre um gato e um rato ao pé de uma figueira-de-bengala (banian).'” "Bhishma continuou, 'Havia uma grande banian no meio de uma floresta extensa. Coberta com muitas espécies de trepadeiras, ela era o refúgio de diversas espécies de aves. Ela tinha um tronco grande do qual numerosos ramos se estendiam em todas as direções. Encantadora de se olhar, a sombra que ela proporcionava era muito refrescante. Ela ficava no meio da floresta, e animais de diversas espécies viviam sobre ela. Um rato de grande sabedoria, chamado Palita, vivia no pé daquela árvore, tendo feito um buraco lá com cem saídas. Nos ramos da árvore vivia um gato, de nome Lomasa, em grande alegria, devorando diariamente um grande número de aves. Algum tempo depois, um Chandala entrou na floresta e construiu uma cabana para si mesmo. Toda noite depois do pôr do sol ele espalhava suas armadilhas. De fato, espalhando suas redes feitas de cordas de couro ele voltava para sua cabana, e passando uma noite de sono tranquilo, voltava ao local no amanhecer do dia. Diversas espécies de animais caíam em suas armadilhas todas as noites. E aconteceu um dia que o gato, em um momento de descuido, foi pego na armadilha. Ó tu de grande sabedoria, quando seu inimigo, o gato, que era sempre um inimigo da espécie do rato, foi assim apanhado na rede, o rato Palita saiu de sua toca e começou a vagar por lá destemidamente. Enquanto vagava confiantemente pela floresta à procura de comida, o rato depois de um momento viu a carne (que o Chandala tinha espalhado como isca). Subindo na armadilha, o pequeno animal começou a comer a carne. Rindo mentalmente, ele até ficou sobre seu inimigo envolvido na rede sem auxílio. Concentrado em comer a carne, ele não notou seu próprio perigo, pois quando ele levantou seus olhos de repente ele viu que um inimigo terrível tinha chegado àquele local. Aquele inimigo era ninguém mais do que um mangusto agitado de olhos acobreados, de nome Harita. Vivendo em buracos subterrâneos, seu corpo parecia com a flor de um junco. Atraído àquele local pelo cheiro do rato, o animal foi lá com grande velocidade para devorar sua presa. E ele ficou sobre suas ancas, com a cabeça erguida, lambendo os cantos da boca com a língua. O rato viu ao mesmo tempo outro inimigo que vivia nas árvores, então sobre um ramo da banian. Era uma coruja de rondas noturnas de nome Chandraka e bico afiado. Tendo sido visto pelo mangusto e pela coruja, o rato, muito alarmado, começou a pensar desta maneira: ‘Em tal hora de grande perigo, quando a própria morte está me olhando no rosto, quando há medo por todos os lados, como alguém deve agir para o seu próprio bem?’ Cercado pelo perigo por todos os lados, vendo medo em todas as direções, o rato, muito alarmado por sua segurança, tomou uma grande decisão: ‘Desviando-se até de inúmeros perigos por centenas de meios, uma pessoa deve sempre salvar a própria vida. O perigo, no momento presente, me cerca por todos os lados. Se eu descer desta armadilha para o chão, sem precauções suficientes, o mangusto certamente me agarrará e me devorará. Se eu permanecer sobre esta armadilha, a coruja certamente me agarrará. Se, também, aquele gato conseguir se desemaranhar da rede, ele também irá com certeza me devorar. Não é apropriado, no entanto, que um indivíduo da minha inteligência perca sua presença de espírito. Eu irei, portanto, me empenhar da melhor maneira para salvar minha vida, ajudado por meios e inteligência apropriados. Uma pessoa possuidora de inteligência e sabedoria e conhecedora da ciência de política nunca cai, mesmo que seja grande e terrível o perigo que a ameaça. No momento, no entanto, eu não vejo algum outro refúgio além deste gato. Ele é um inimigo. Mas ele está em perigo. O serviço que eu posso fazer para ele é muito grande. Procurado ser feito uma presa por três inimigos, como eu devo agir agora para salvar minha vida? Eu devo procurar a proteção de um destes inimigos, isto é, o gato. Com a ajuda da ciência de política, que eu aconselhe o gato para o seu bem, para que eu possa, com a minha inteligência, escapar de todos os três. O gato é meu grande inimigo, mas o perigo no qual ele caiu é muito grande. Que eu tente ver se eu consigo fazer esta criatura tola entender seus próprios interesses. Tendo caído em tal infortúnio, ele pode fazer as pazes comigo. Uma pessoa quando afligida por uma mais forte deve fazer as pazes até com um inimigo. Professores da ciência de política dizem que esta deve ser a conduta de uma pessoa que tendo caído em uma situação
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