Marco Aurélio
Meditações - Livro 10
No Livro 10, Marco Aurélio conversa diretamente com a própria alma. Ele pergunta quando ela será simples, boa, satisfeita e livre de queixas. O capítulo trata de transformação interior, tolerância, correção gentil dos outros e confiança na ordem da natureza.
1. Ó alma minha, será que nunca serás boa e sincera, una, aberta, mais visível ainda ao observador do que ao corpo que te envolve? Será que nunca irás conhecer o sabor da doçura de um coração amante e afectuoso? Será que nunca ficarás satisfeita e não carente, nunca suspirando por nada, nunca ansiando por pessoa ou coisa que te proporcione os teus prazeres, ou pelo prolongamento dos dias para os gozar, por um lugar ou país ou clima agradável, ou doce companhia humana? Quando é que ficarás satisfeita com o teu estado actual, feliz com tudo o que te rodeia, convencida de que todas as coisas são tuas, de que tudo deriva dos deuses, e que tudo está e estará bem contigo, desde que isso lhes dê prazer e seja destinado por eles para segurança e bem estar daquele Todo vivente e perfeito — tão bom, tão justo, tão belo — que dá a vida a todas as coisas, protegendo-as e abraçando-as, e, na sua dissolução, absorvendo-as em si próprio para que outras da sua espécie possam nascer? Será que nunca te adaptarás a um tal companheirismo com os deuses e com os homens de modo a não teres uma só palavra de queixa deles, uma só palavra de censura da parte deles?
2. Presta atenção àquilo que a tua natureza particular exige de ti, como alguém que está totalmente submetido ao governo da grande Natureza. Faz isso, e aceita-o, sempre na condição de que não venha a prejudicar a tua natureza física. Contudo, presta também atenção às exigências da tua natureza física e sanciona todas elas, a não ser que venham, por sua vez, a prejudicar a tua natureza racional (e o racional implica diretamente o social também). Segue estas regras e não desperdices esforços noutras coisas.
3. Aconteça-te o que acontecer, a Natureza ou te preparou para o enfrentar ou não te preparou. Se acontece alguma coisa desagradável que tens o poder de suportar, não fiques ressentido, mas suporta-o, antes, da maneira que ela te capacitou para o fazeres. Se essa coisa excede esse poder, mesmo assim, não cedas ao ressentimento; porque a sua vitória sobre ti porá fim à sua própria existência. Lembra-te, contudo, de que a Natureza te deu, de facto, a capacidade para suportar qualquer coisa que o teu julgamento consiga declarar suportável, considerando-a como uma coisa de interesse próprio e um dever a cumprir.
4. Se um homem tem um deslize, admoesta-o delicadamente e mostra-lhe o erro. Se não o conseguires convencer, lança as culpas sobre ti mesmo, ou então não culpes ninguém.
5. Todas as coisas que te possam acontecer, sejam elas quais forem, foram preparadas para ti antecipadamente desde o princípio dos tempos. Na tapeçaria da causação, o fio do teu ser foi entrelaçado desde sempre com esse particular incidente.
6. Independentemente do facto de o universo ser uma confusão de átomos ou um desenvolvimento natural, que a minha primeira convicção seja a de que faço parte de um Todo que está sob o governo da Natureza; e que a segunda, a de que existe um laço de parentesco entre mim próprio e todas as outras partes semelhantes. Se tiver em mente estas duas ideias, em primeiro lugar, sendo eu uma parte, não me sentirei magoado por uma qualquer disposição a mim destinada e vinda do Todo, uma vez que nada que seja bom para um qualquer todo pode ser mau para uma das partes, e neste caso não há nada no conteúdo deste Todo que seja prejudicial para ele próprio. (O mesmo, de facto, pode dizer- se em relação a todos os organismos naturais; mas a natureza do universo tem ainda a outra coisa que a distingue: que não há causa exterior a si que alguma vez a possa obrigar a produzir qualquer coisa de mau para si própria.) Então, lembrando que sou uma parte desse Todo, aceitarei alegremente seja o que for que me caiba em sorte. Em segundo lugar, dado que há este laço de parentesco entre mim e as outras partes minhas congéneres, não farei nada que possa vir a magoar o seu bem estar comum, mas, pelo contrário, terei sempre intencionalmente em vista essas partes minhas semelhantes, orientando todos os impulsos no sentido do seu bem e afastados de qualquer coisa que concorra contra isso. Fazendo assim, não poderei deixar de pensar que a corrente da minha vida flui tranquilamente, tão tranquilamente como podemos imaginar a de um homem público cujos atos estão consistentemente ao serviço dos seus concidadãos, e que está pronto a aceitar de bom grado qualquer tarefa que a cidade lhe atribua.
7. Todas as partes do Todo — e com isto quero significar tudo o que está naturalmente compreendido no universo — têm de, com o tempo, entrar em degradação; ou, para ser mais rigoroso, têm de sofrer uma mudança de forma. Se, pela sua natureza, esta mudança, além de inevitável, fosse positivamente um mal para elas, o regular trabalho do Todo não podia continuar; porque as suas partes encaminham-se sempre para uma mudança de forma, ou outra, e estão constitucionalmente sujeitas à deterioração nos seus caminhos respectivos. Então, a Natureza pretendeu deliberadamente infligir danos às coisas que são parte de si própria, tornando-as não só sujeitas ao mal, mas também inelutavelmente condenadas a ele? Ou será que isso acontece sem o seu conhecimento? Nenhuma destas suposições merece qualquer crédito. Mesmo que, por hipótese, deixemos a Natureza completamente fora da questão, e expliquemos tudo isto em termos de ordem normal de criação, continua a ser absurdo dizer que esta mutabilidade das partes do Todo é normal se, simultaneamente, vamos ficar espantados ou ressentidos como se se tratasse de uma ocorrência anti-natural; tanto mais que tudo aquilo que as partes estão a fazer é simplesmente dissolverem-se de novo nos constituintes da sua composição primitiva. Porque, afinal, se a dissolução não é simplesmente uma mera dispersão dos elementos de que sou formado, deve ser uma transformação das partículas mais grosseiras em forma terrena e das espirituais em forma etérea, para que todas sejam reabsorvidas na Razão universal (não importa se esta tem de ser periodicamente consumida em chamas, ou mantida em perpétua renovação, em eternos ciclos de mudança). Repara, contudo, que não podemos pensar que estas partículas, as grosseiras e as espirituais, são aquelas que recebemos ao nascer, quando vemos que a nossa completa estrutura actual derivou o seu incremento da carne comida e do ar respirado ontem ou no dia anterior. O que vai sofrer estas transformações não é, portanto, uma coisa que a nossa mãe primitivamente pariu, mas uma coisa que recebemos posteriormente. (Mesmo que admitamos que o nascimento realmente nos envolve em grande medida com estas partículas intrinsecamente mutáveis, penso que isso não altera o que acabei de dizer.)
8. Se reclamas para ti atributos como a bondade, a modéstia, a honestidade, a pureza, a rectidão e a elevação de espírito, tem cuidado, não os desmintas; e se acontecer ficares privado deles, não percas tempo a tentar recuperá-los. Mas lembra-te que “pureza de espírito” deve sugerir-te uma consideração discriminadora de cada pormenor separado e uma atenção cuidada a cada um; “rectidão” uma aceitação de tudo o que a Natureza te destinou; e “elevação de espírito” uma elevação do intelecto em relação aos trabalhos da carne, sejam eles suaves ou ásperos, e à vanglória, morte ou quaisquer outras alienações. Vive para estes desígnios — embora sem desejar que te sejam aplicados pelos outros — e serás um homem diferente e encetarás uma vida diferente. Continuar como estás agora, continuar a ser despedaçado e aviltado por uma existência como esta é o caminho de um insensato e de um fraco; faz lembrar o espadachim que foi retalhado pelos animais na arena e coberto de sangue e feridas, e contudo ainda pede para continuar até ao dia seguinte, para ser de novo atirado, com feridas e tudo, aos mesmos dentes e mandíbulas. Salta, pois, para bordo desta pequena jangada de atributos, e se o conseguires, fica aí como se fosses transportado para as Ilhas dos Bem-Aventurados. Mas se te sentires à deriva e incapaz de manter a rota, arranja coragem e faz-te a um porto de abrigo tranquilo onde possas firmar o teu caminho; ou diz mesmo adeus à vida, não num arrebatamento, mas simples, livre e despretensiosamente, com pelo menos esta vitória na tua conta, uma partida digna. Para teres sempre em mente estes atributos, muito ajudará não esqueceres os deuses; recordar que o que eles desejam não é serem lisonjeados, mas que tudo aquilo que tem o dom da razão se torne como eles próprios; e também lembrar que uma figueira é aquela que faz o trabalho da figueira, um cão é aquele que faz o de um cão, uma abelha, o de uma abelha — e um homem, o de um homem.
9. Dia a dia, a bufonaria, a querela, a timidez, a indolência e o servilismo que te rodeiam conspiram para te apagar do espírito aquelas máximas consagradas que ele apreende tão pouco filosoficamente e põe de lado tão descuidadamente. O que o dever exige de ti é observar cada simples coisa e realizar cada acto de tal maneira que, ao mesmo tempo que as exigências práticas de uma situação são satisfeitas, os poderes do pensamento sejam plenamente exercidos; e também manter (em reserva, mas nunca longe da vista) a autoconfiança própria de quem dominou todos os pormenores relevantes. Será que nunca irás atingir a felicidade de uma integridade e dignidade reais? De uma compreensão que abranja o mais íntimo ser de cada coisa, o seu lugar na ordem mundial, o prazo da sua existência natural, a estrutura da sua composição, e a quem pertence ou quem tem o poder de o outorgar ou de o retirar?
10. Uma aranha sente orgulho em apanhar uma mosca; e um homem, de caçar uma lebre, ou outro, de pescar um arenque, ou um terceiro, de capturar javalis ou ursos ou Samartianos. 68 Se entrares na questão dos princípios, não serão estes simplesmente ladrões?
11. Cria o hábito de observares regularmente o processo universal da mudança; fá-lo com frequência, e instrui-te plenamente neste ramo do estudo; não há nada que mais elevação dê ao espírito. Porque quando um homem compreende que em qualquer momento pode ter de deixar tudo para trás e deixar a companhia dos seus camaradas, ele põe o corpo de parte e, a partir de então, dedica-se totalmente ao serviço da justiça nas suas ações pessoais e à consonância com a natureza em tudo o mais. Não desperdiça um só pensamento sobre o que os outros podem dizer ou pensar dele ou fazer contra ele; apenas duas coisas lhe bastam, a justiça nas suas ações diárias e satisfação com tudo aquilo que do destino lhe coube. Todas as preocupações, todas as distrações são postas de parte; a sua única ambição é seguir os caminhos rectos da lei, e, ao proceder assim, tornar-se um seguidor de Deus.
12. Para quê o trabalho de tentar adivinhar, se o caminho do dever está ali diante dos teus olhos? Se a estrada for bem clara para a poderes ver, avança de boa vontade e sem olhares para trás; senão, espera e aconselha-te da melhor maneira possível. Se mais obstáculos se te depararem, avança discretamente até ao limite dos teus recursos, seguindo sempre o caminho que a justiça te aponta. Alcançar a justiça é o ponto mais alto do sucesso, uma vez que é aí que o fracasso mais frequentemente ocorre.
13. Começa o dia por te perguntar, Pode a conduta justa e recta de outrem ter alguma influência em mim próprio? Não. Lembra-te que os homens que estão arrogantemente prontos a elogiar ou a criticar, são o mesmo na sua vida privada, na cama e à mesa; recorda as coisas que eles fazem, as coisas que eles evitam e as coisas por que eles anseiam, e as ladroagens e depredações que eles cometem — não de facto com as mãos e os pés, mas com aquele mais precioso dos seus bens, que pode ser, e para isso basta que um homem queira, a fonte da fé, da modéstia, da verdade, da lei e do bem estar da divindade dentro de si.
14. Para a Natureza, donde procedem todas as coisas e para onde todas regressam, a exclamação do coração humilde e bem formado é, «Dai quando quiserdes, tomai de volta quando quiserdes»; porém, dito sem exagero, mas em pura obediência e com boa vontade.
15. Os anos que te faltam são já poucos. Vive-os, pois, como se estivesses no cimo de uma montanha. Se o destino atira um homem para este ou aquele lugar é irrelevante, desde que em todos os lugares ele veja o mundo como uma cidade e a si próprio como seu cidadão. Dá aos homens a oportunidade de verem e conhecerem um verdadeiro homem que vive segundo as leis da Natureza. Se eles não conseguem tolerar a vista, então que se livrem dele. É melhor assim do que viver como eles vivem.
16. Não desperdices mais tempo a discutir sobre como um homem bom deve ser. Sê um deles.
17. Deixa que o teu espírito habite sempre em todo o Tempo e em todo o Ser, e assim aprenda que cada coisa separada não é mais do que um grão de areia em comparação com o Ser e uma simples volta de parafuso em comparação com o Tempo.
18. Compreende a natureza de todas as coisas materiais observando como cada uma delas está neste preciso momento a sofrer dissolução e mudança, e está já em processo de degradação, ou dispersão, ou o que quer que seja que o destino lhe tenha reservado.
19. A comer, a dormir, a copular, a excretar, e a fazer outras coisas do género; que turba que eles são! Tão pomposos na sua arrogância, tão autoritários e tirânicos, tão altivamente críticos dos outros! Quantas botas lambiam eles ainda há pouco — e com que fins! — e daqui a pouco estarão a fazer outra vez a mesma coisa.
20. Aquilo que a Natureza traz para cada homem e para cada coisa é para seu bem; mais ainda, é para o seu bem no preciso momento em que chega.
21. «A Terra está apaixonada pelos aguaceiros que vêm do céu, E o santificado Céu está, ele mesmo, apaixonado.» 69 — isto é, o universo está verdadeiramente apaixonado pela sua tarefa de talhar seja o que for que esteja para nascer; e para o universo, portanto, a minha resposta tem de ser, «Como vós amais, também eu amo.» (Não é esta a mesma ideia implícita na vulgar expressão que diz que tal ou tal coisa «gosta de acontecer»?)
22. Tu, ou continuas a viver aqui, hábito a que já estás suficientemente adaptado; ou mudas-te para qualquer outro sítio, o que farás por tua própria e livre iniciativa, ou morres, o que significa que o teu serviço acabou. Outra escolha não há, portanto, encara isto de boa mente.
23. Que para ti fique bem claro que a paz dos verdes campos pode ser tua, neste, naquele ou em qualquer outro lugar; e que nada aqui é diferente do que seria, quer lá em cima nos montes, quer cá em baixo junto ao mar, ou onde quer que queiras. Encontrarás esta mesma ideia em Platão, quando ele fala em viver dentro das muralhas da cidade «como se a ordenhar os rebanhos num redil da montanha.» 70
24. O que é para mim a minha razão-mestra? O que é que estou a fazer dela neste momento? Que uso estou eu a dar-lhe? Será que ela está a revelar-se uma tonta? Estará a ficar divorciada e separada dos laços da camaradagem? Terá ficado tão envolvida e tão identificada com a carne que reflecte as suas mudanças e vacilações?
25. Um servo que se liberta do seu amo é um desertor. Para nós, o amo é a lei; e consequentemente qualquer transgressor tem que ser um desertor. Mas o pesar, a cólera ou o medo são todos eles rejeições de qualquer coisa que no passado, no presente ou no futuro foi decretado pelo poder que rege o universo — por outras palavras, pela Lei, que atribui a cada criatura aquilo que lhe é devido. 71 Ceder ao medo, ao pesar ou à cólera é, portanto, ser um desertor.
26. Um homem deixa uma semente no útero e prossegue o seu caminho; depois outra causa pega nela, põe-se a trabalhar, e acaba a formar um bebé — que transformação! O mesmo homem ingere os alimentos e, uma vez mais, uma outra causa pega neles e converte-os em sensação e movimento e, em suma, em vida, vigor, e outros produtos, muitos e variados. Pensa nestes processos que são trabalhados de maneira tão misteriosa; e vê o poder a trabalhar ali da mesma maneira como vemos as forças que atraem os objectos para a terra e para cima — não com os olhos, quero dizer, mas não menos claramente.
27. Pensa muitas vezes como toda a vida de hoje é uma repetição do passado; e observa que ela também pressagia o que está para vir. Revê os muitos dramas acabados e os seus cenários, todos tão semelhantes, que tens conhecido na tua experiência, ou da história passada: todo o círculo da corte de Adriano, por exemplo, ou a corte de António, ou as cortes de Filipe, Alexandre e Cresus. A representação é sempre a mesma, só os actores mudam.
28. Quando vires um homem aborrecido ou ressentido com alguma coisa, pensa num porco a espernear e a grunhir sob a faca do sacrifício. Outro que se recolha na cama, em solidão, lamentando-se silenciosamente da nossa servidão, também não está em melhor situação. Só aos seres racionais é garantido o poder de uma conformidade voluntária com as circunstâncias; a simples conformidade em si mesma, que a implacável necessidade exige de cada criatura.
29. Em qualquer coisa de que te encarregues, seja ela qual for, pára a cada passo para te perguntares: «É a ideia de ser privado disto que me faz temer a morte?»
30. Quando a falta de outrem te magoa, volta-te para ti mesmo e pensa nos defeitos semelhantes que tu tens. Também encontras o teu bem estar na riqueza, no prazer, na reputação ou em coisas deste tipo? Pensa nisto, e a tua cólera logo será esquecida ao reflectires que ele está a agir sob pressão; que mais podia ele fazer? Em alternativa, arranja maneira de o libertar dessa pressão.
31. Que a vista de Satyricon te recorde os falecidos Socráticos ou Eutyches ou Hymen; a vista de Euphrates te lembre Eutychion ou Silvano; um olhar a Alciphron te sugira a memória de Tropaeophorus; um vislumbre de Severo, o de Crito ou Xenofonte; quando te olhares pensa nos imperadores que te precederam. Da mesma maneira, com cada homem imagina a sua contrapartida; e depois passa para a seguinte reflexão: «Onde estão eles agora?» Em parte nenhuma — ou algures. Desta maneira, ir-te-ás acostumando a olhar tudo o que é mortal como um vapor e um nada; e mais ainda, se te lembrares também de que as mudanças nas coisas, uma vez operadas, são para sempre irreversíveis. Então porquê lutar e esforçares-te em vez de ficares satisfeito em viver convenientemente a tua curta vida? Pensa no material e nas possibilidades para o bem que andas a rejeitar; uma vez que, o que são as tuas aflições senão exercícios para treino da tua razão, depois de ter aprendido a ver as verdades da vida a uma correta luz filosófica? Sê paciente, pois, até que, para ti, elas se tornem familiares e naturais, da mesma maneira que um estômago forte pode assimilar toda a espécie de alimentos, ou um fogo brilhante transforma qualquer coisa que se lhe atire em calor e chamas.
32. Não permitas que alguém se sinta no direito de dizer com verdade que te falta integridade e bondade; se alguém pensar tal coisa, trata de fazer com que isso não tenha fundamento. Tudo depende de ti, pois, quem mais te pode impedir de conseguir a integridade e a bondade? Se não consegues viver desta maneira, só tens de tomar a decisão de não continuar a viver; porque, nesse caso, nem a própria razão te pode exigir que continues.
33. Qual é a melhor coisa que pode ser dita ou feita com os materiais à tua disposição? Qualquer que ela seja, tu tens o poder de o dizer ou fazer; que não haja a pretensão de que não és um agente livre. Essas tuas lamentações nunca acabarão enquanto o cumprimento do dever natural de um homem, com quaisquer materiais que lhe venham ter às mãos, não representar tanto para ti como os prazeres para o sibarita. (De facto, todo o exercício dos nossos instintos naturais deve ser considerado como uma forma de prazer; e as oportunidades para isso estão presentes em toda a parte.) Um cilindro não tem sempre o privilégio, seguramente, de se mover à sua vontade, nem a água, nem o fogo, nem qualquer outra coisa que esteja submetida ao governo da sua própria natureza ou de uma alma sem razão; porque há muitos factores que intervêm para o evitar. Mas um espírito e uma razão podem avançar no meio de quaisquer obstáculos, porque a sua natureza para tal os capacita e a sua vontade para tal os incita. Imagina a maneira como a razão descobre um meio de ultrapassar todas as barreiras tão facilmente (tão sem esforço), como o fogo sobe ou uma pedra cai ou um cilindro desce uma encosta; e não queiras pedir mais. As interferências, em qualquer caso, ou devem afectar apenas o corpo — que não é senão uma coisa inanimada — ou então serem impotentes para nos aniquilar ou magoar, a menos que recebam a ajuda das nossas próprias ideias preconcebidas e da rendição da própria razão. Se assim não fosse, o seu efeito sobre o sujeito seria prejudicial; e, embora saibamos que em todo o resto da criação a ocorrência de qualquer revés envolve um agravamento da vítima, no caso de um homem podemos mesmo dizer que ele fica melhor e mais digno de louvor pelo correto uso que faz da adversidade. Em resumo, nunca te esqueças de que nada pode magoar o verdadeiro cidadão, se não magoar a própria cidade, e nada pode magoar a cidade a não ser que magoe a lei, e, portanto, não pode magoar nem a cidade nem o cidadão.
34. Uma vez gravados no espírito os verdadeiros princípios, mesmo a mais ligeira trivialidade bastará para recordar a inutilidade das lamentações ou dos medos; como, por exemplo, «O que são os filhos dos homens senão folhas que caem ao sopro do vento?» 72 Tal como folhas eram aqueles teus queridos filhos; folhas também são as multidões, aquelas vozes pretensamente convincentes que gritam as suas aclamações, lançam as suas maldições ou zombam e escarnecem às escondidas; folhas também são todos aqueles em cujas mãos ficará a tua reputação daqui para a frente. Todos e cada um, eles «florescem na primavera», os ventos fazem-nos cair e logo a floresta põe nova verdura no seu lugar. A impermanência é o distintivo de todos e cada um; e, contudo, tu persegue-los ou foges deles, como se eles tivessem que sofrer para toda a eternidade. Dentro em pouco, os teus olhos fechar-se-ão; e pelo homem que te levar à sepultura, também pouco depois as lágrimas correrão.
35. A função de uns olhos sãos é ver tudo aquilo que é visível, e não exigir que tudo seja verde, porque isso é apenas sinal de uma visão doente. Da mesma maneira, a audição e o olfacto, se saudáveis, devem estar receptivos a todos os sons e cheiros, e um estômago são, a todos os tipos de carne, como um moinho que aceita qualquer cereal que esteja preparado para moer. Da mesma forma, portanto, um espírito são deve estar preparado para qualquer coisa que possa acontecer. Um espírito que exclame: «Oh, que os meus filhos sejam poupados!» ou «Oh, se o mundo ressoasse de aclamações a todos os meus atos», é uma vista anelando pelo verde, ou um dente por coisa tenra.
36. Não há ninguém tão afortunado que não tenha à cabeceira do leito da morte quem saúde a sua próxima perda com deleite. Digamos que ele era tão virtuoso, sábio até; e mesmo assim, haverá sempre alguém que no fim murmura baixinho: «Finalmente podemos outra vez respirar à vontade sem o nosso amo! Ele nunca foi certamente, severo connosco; mas tive sempre a impressão de que ele tinha um secreto desprezo por nós»? Tal é o destino dos virtuosos; quanto aos outros de nós, que quantidade de outras boas razões não há para alguns dos nossos amigos, e não tão poucos como isso, ficarem contentes por se verem livres de nós! Pensa nisto quando estiveres para morrer; isso tornará mais fácil a reflexão seguinte: «Vou deixar um mundo em que os meus próprios companheiros, por quem eu tanto trabalhei, tanto orei e tanto pensei, desejam a minha partida e esperam obter qualquer alívio com ela; então, como é que alguém pode desejar um prolongamento dos seus dias aqui?» Contudo, não te vás, por essa razão, com um espírito de menos bondade para com eles; conserva a tua amizade do costume, a boa vontade e a caridade; e não sintas a partida como uma separação dolorosa, antes deixa que a tua despedida seja como aquelas mortes indolores em que a alma desliza facilmente para fora do corpo. Antes, a Natureza juntou-te a esses homens e uniu-vos num só; agora ela desfaz o nó. Estou solto, pois, também dos meus próprios parentes; mas sem resistência, sem forçar; é apenas mais um dos processos da Natureza.
37. Em todos os atos, não importa por quem eles sejam praticados, habitua-te a perguntar-te: «Qual é o seu objetivo ao fazer isto?» Mas começa por ti mesmo; faz primeiro que tudo essa pergunta a ti mesmo.
38. Não te esqueças, é aquela força secreta e bem escondida dentro de nós que puxa os cordelinhos; aí reside a voz da persuasão, a própria vida, aí, poderíamos dizer, está o homem, ele mesmo. Nunca o confundas na tua imaginação com o seu invólucro de carne, ou com os órgãos a ele associados, que, salvo o facto de se desenvolverem sobre o corpo, são meros instrumentos, tal como o machado do carpinteiro. Sem o agente que impulsiona ou refreia os seus movimentos, as partes, por si só, não têm mais préstimo do que a lançadeira do tecelão, a caneta do escritor ou o chicote do carroceiro.
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