Meditações - Livro 6

Marco Aurélio

Meditações - Livro 6

No Livro 6, a reflexão se amplia para o cosmos. Tudo muda, tudo se transforma, e a pessoa sábia aprende a ver os fatos sem ilusão. Marco Aurélio recomenda modéstia, justiça, benevolência e atenção ao presente, lembrando que cada indivíduo faz parte de uma ordem maior.

Ilustração em rabisco a lápis para o Livro 6 de Meditações, com tema de cosmos, mudança, justiça, modéstia e visão clara.
Imagem criada para este post em estilo de desenho a lápis com atmosfera gótica.

1. A matéria no universo é flexível e dócil, e a Razão que a controla não tem motivo para fazer mal; porque não tem maldade, e não faz nada com a intenção de magoar, nem nada é prejudicado por ela. É por sua determinação que todas as coisas nascem e se realizam.

2. Se estiveres a fazer o que está correto, não te importes se estás a gelar de frio ou junto de uma boa fogueira; a cair de sono ou fresco, depois de um bom sono; se és insultado ou aplaudido; se estás a morrer ou noutra qualquer situação. (Porque mesmo o morrer é parte das coisas da vida; e também aí nada mais se espera de nós do que «ver a obra do momento bem feita.»)

3. Olha por debaixo da camada superficial: nunca deixes que a qualidade intrínseca ou o valor de uma coisa te escapem.

4. Todos os objectos materiais mudam rapidamente: ou por sublimação (se a substância do universo for realmente una), ou então por dispersão.

5. A Razão, a controladora, tem um perfeito entendimento das condições, do fim e das matérias da sua obra.

6. Evitar a imitação é a melhor vingança.

7. Que o teu único deleite e refrigério seja passar de um serviço à comunidade para outro, sempre com Deus no pensamento.

8. A nossa razão-mestra é uma coisa que é auto-despertada e também auto- dirigida. Ela pode não só fazer-se o que quiser, como também impor o aspecto da sua escolha a qualquer coisa que experimente.

9. Todas as coisas atingem a sua realização como manda a Natureza universal única; porque não há uma natureza rival, quer contendo-a do exterior, quer ela própria contida dentro dela, ou mesmo existindo à parte e separada dela.

10. O mundo ou é uma simples salgalhada de aleatórias coesões e dispersões, ou então é uma unidade de ordem e providência. No primeiro caso, porquê desejar sobreviver numa tal confusão caótica sem qualquer sentido; porquê preocuparmo-nos com qualquer coisa a não ser com a maneira de regressar ao pó; porquê preocupar-me de todo; uma vez que, faça eu o que fizer, a dispersão tomará conta de mim mais tarde ou mais cedo? Mas se a contrária for verdadeira, então eu venero, mantenho-me firme e deposito toda a minha confiança no Poder director.

11. Quando a força das circunstâncias perturba a tua equanimidade, não percas tempo a recuperar o teu autocontrole e não fiques em dissonância senão durante o tempo que não possas evitar. O regresso habitual à harmonia aumentará a tua capacidade de a dominar.

12. Se tivesses uma madrasta e uma mãe simultaneamente, cumpririas o teu dever para com a primeira, mas recorrerias continuamente à tua mãe. Aqui tens as duas: a corte e a filosofia. Volta continuamente à filosofia por refrigério; e então mesmo a vida da corte, e tu nela, parecerão suportáveis.

13. Quando tiveres carne e outros petiscos à tua frente reflecte: Isto é peixe morto, ou aves, ou galináceos, ou porco; ou: Este Falerno 38 é uma parte do sumo de um punhado de cachos de uva; o meu manto purpúreo é lã tingida com um pouco de sangue de um marisco; a cópula é a fricção dos membros e uma ejaculação. Reflexões deste tipo vão ao fundo das coisas, penetrando nelas e expondo a sua verdadeira natureza. O mesmo processo deve ser aplicado a toda a vida. Quando as credenciais de uma coisa parecem muito plausíveis, desnuda-a, observa a sua trivialidade, e despe-a do manto de verborreia que lhe dá dignidade. A presunção é o que há de mais enganador, mas nunca ela é mais ilusória do que quando tu te convences de que o teu trabalho é muito meritório. Repara no que Crates tem a dizer sobre o próprio Xenocrates. 39

14. As pessoas vulgares limitam a sua admiração principalmente às coisas de categoria elementar que existem em virtude de mera coesão ou de processos inorgânicos da natureza; coisas de madeira e pedra, por exemplo, ou arvoredos de figueiras ou videiras ou oliveiras. Espíritos com um grau de esclarecimento superior são atraídos por coisas que têm animação, como rebanhos ou manadas. Um grau de refinamento ainda mais elevado leva à admiração da alma racional: racional, mas ainda não no sentido de ser parte da Razão universal, mas simplesmente como possuidora de certas capacidades manuais ou outros talentos do género — ou até como mera detentora de grande número de escravos. Mas um homem que valoriza uma alma que é racional, e universal, e social, já não se interessa por nada mais, procura unicamente manter a serenidade da sua alma e todas as suas atividades racionais e sociais, e trabalha juntamente com os seus semelhantes nesse sentido.

15. Uma coisa apressa-se a entrar em existência, outra a sair dela. Mesmo enquanto uma coisa está em processo de nascimento, uma parte dela já deixou de existir. O fluxo e a mudança estão permanentemente a renovar a estrutura do universo, tal como a incessante passagem do tempo está sempre a renovar a face da eternidade. Num tal rio, onde não há qualquer ponto de apoio firme, o que é que há para um homem prezar de entre as muitas coisas que por ele passam a correr? Isso seria como afeiçoarmo-nos a um pardal que passa voando rapidamente e que no mesmo momento desaparece da nossa vista. A vida de um homem não é mais do que uma inalação do ar e uma exalação do sangue; 40 e não há verdadeira diferença entre inspirar o ar para logo o soprar para fora, como nós fazemos a cada instante, e receber a faculdade de respirar, como fizemos ainda ontem no nosso nascimento, para a devolver um dia à fonte onde a fomos buscar.

16. A transpiração não é coisa para prezar; partilhamo-la com as plantas. Nem a respiração; partilhamo-la com os animais dos campos e das florestas. Nem as percepções dos sentidos, nem os impulsos do instinto, nem o instinto gregário, nem o processo de nutrição — que de facto não é mais maravilhoso do que o da excreção. Então o que é que nós devemos prezar? O bater das palmas? Não; e também não o bater das línguas, que é tudo aquilo a que se limita o louvor das pessoas vulgares. Excluindo a ilusão da fama, o que é que resta para apreciar? Quanto a mim, isto: organizar, na ação, como na inacção, o objetivo das nossas estruturas naturais. Isso, ao fim e ao cabo, é o objetivo de todo o nosso adestramento e de todo o nosso trabalho; porque todas as obras têm como objetivo a adaptação de um produto ao fim para que foi produzido. O agricultor que trata da sua vinha, o moço de estrebaria que doma o cavalo, o empregado do canil que treina o seu cão, todos têm este propósito em vista. Os trabalhos dos tutores e dos professores dirigem-se, também, ao mesmo fim. Eis, pois, o galardão que procuramos. E se fizeres disto o teu próprio galardão, mais nenhum objetivo te tentará. Deixa todas as outras ambições que cultivas, senão nunca serás senhor de ti mesmo, nunca serás independente em relação aos outros, nem nunca estarás ao abrigo das paixões. Olharás com inveja, com ciúme e suspeição aqueles que possam desapossar-te dessas coisas, e intrigarás contra quem possa deter o mesmo que tu próprio cobiças. A crença de que as coisas deste género são indispensáveis vai seguramente provocar tumulto interiormente, e muitas vezes leva também ao murmúrio contra os deuses; enquanto que o respeito e a estima pela tua própria compreensão te manterá em paz contigo próprio, em unidade com a humanidade, e em harmonia com os deuses; isto é, de acordo com tudo o que eles distribuem e ordenam.

17. Por cima, por baixo, e à nossa volta, redemoinham os elementos nos seus cursos. Mas a virtude não conhece tais movimentos: ela é qualquer coisa mais divina que avança serenamente em caminhos que estão para além da compreensão.

18. Que estranhos são os caminhos dos homens! Não poupam palavras de louvor aos seus contemporâneos que vivem mesmo no meio deles, e contudo cobiçam para si próprios o louvor das gerações futuras que nunca viram nem nunca verão. E mais ou menos da mesma maneira, queixam-se por não receberem os louvores dos antepassados!

19. Se uma coisa é difícil para ti, não concluas daí que ela está para além do poder dos mortais. Terás de admitir, pelo contrário, que, se uma coisa é possível, e própria para o homem fazer, tem de estar dentro das tuas próprias capacidades.

20. Quando um adversário, no ginásio nos fere com as unhas ou nos magoa a cabeça num choque, não protestamos nem ficamos ofendidos, nem passamos depois a desconfiar sempre das suas intenções. Contudo passamos a olhá-lo com cautela, não com inimizade ou suspeição, mas mantendo-o, com bonomia, à distância. Que assim seja também noutras situações da vida; concordemos em passar por cima de muitas coisas naqueles que são como que nossos competidores. O simples acto de evitar, como já tenho dito, está sempre, para nós, em aberto, sem suspeição ou má vontade.

21. Se alguém me consegue mostrar e provar que estou errado no pensamento ou na ação, eu mudo de bom grado. Eu procuro a verdade, o que ainda nunca magoou ninguém. Só a persistência na auto-ilusão e na ignorância é que magoa.

22. Eu faço aquilo que é meu dever fazer. Nada mais me distrai; porque certamente se trata de qualquer coisa inanimada e irracional, ou de alguém que está iludido ou não sabe o caminho.

23. Sê generoso e liberal na tua atitude em relação às criaturas irracionais e à generalidade das coisas materiais, porque tu tens uma razão e elas, não. Os seres humanos, por outro lado, têm uma razão; portanto trata-os com camaradagem. Pede, em tudo, o auxílio dos deuses — mas sem demasiada preocupação quanto à extensão das tuas preces; três horas chegam.

24. Na morte, o fim de Alexandre da Macedónia não foi minimamente diferente do do seu moço da estrebaria. Ou foram ambos recebidos no mesmo princípio generativo do universo, ou foram ambos igualmente dispersos em átomos.

25. Pensa em tudo aquilo, de ordem corpórea ou mental, que se está a passar ao mesmo tempo dentro de cada um de nós; e então não ficarás surpreendido que um número infinitamente maior de coisas — na realidade, tudo o que nasce neste vasto Único-e-Todo a que chamamos o universo — possa existir simultaneamente lá dentro.

26. Se te pedissem que soletrasses o nome António, soltarias cada uma das letras aos berros, e depois, se os teus ouvintes ficassem irritados tu, por tua vez, irritavas-te também? Ou começarias a enumerar as várias letras calmamente uma a uma? Bem, então lembra-te de que, aqui na vida, cada um dos deveres é também formado pelos seus elementos separados. Presta muita atenção a cada um deles sem espalhafato e sem responder à irritação com irritação, para assim assegurares a finalização da tarefa que te foi distribuída.

27. Como é bárbaro negar aos homens o privilégio de perseguirem aquilo que eles julgam ser as suas preocupações e interesses apropriados! E contudo, em certo sentido, é isso exactamente o que tu estás a fazer quando deixas que a tua indignação se manifeste perante os seus erros; porque, afinal, eles estão apenas a perseguir as suas aparentes preocupações e interesses. Tu dizes que eles estão enganados? Então diz-lhes isso, e explica-o a eles em vez de ficares indignado.

28. A morte: uma libertação das impressões sensoriais, dos impulsos do apetite, dos desvios do pensamento e do serviço da carne.

29. Que vergonha para a alma: hesitar na estrada da vida enquanto o corpo ainda persiste.

30. Tem cuidado, não assumas em demasia a qualidade de monarca, não te deixes tingir profundamente pela púrpura; porque isso pode acontecer. Conserva a simplicidade, a bondade, a pureza, a seriedade e a modéstia; o amor da justiça e da religiosidade; sê amável, afectuoso e resoluto na tua devoção ao dever. Esforça-te o máximo por seres sempre um homem como a Filosofia manda que sejas. Venera os deuses e ajuda os teus semelhantes mortais. A vida é curta, e essa curta existência terrena não tem senão um fruto para produzir — a santidade, interiormente, e, exteriormente, a ação desinteressada. Sê em todas as coisas discípulo de António; lembra-te da sua insistência no controle do comportamento pela razão, da sua postura tranquila em todas as ocasiões, e da sua própria santidade; da serenidade do seu aspecto e da doçura das suas maneiras; do seu desprezo pela notoriedade, e do seu zelo pelo domínio dos factos; e de como ele nunca punha de lado um assunto enquanto não o examinasse exaustivamente e o compreendesse claramente; de como ele era alvo de críticas injustas sem responder da mesma maneira; de como ele nunca tinha pressa e não tinha amigos mexeriqueiros; de como era astuto nos seus juízos sobre os homens e sobre as maneiras, mas nunca crítico; de como estava completamente liberto de nervosismos, suspeições e demasiadas subtilezas; de como facilmente se contentava em coisas como o alojamento, a cama, o vestuário, as refeições e o serviço; de como era trabalhador e paciente; de como conseguia, graças a uma dieta frugal, ficar a trabalhar de manhã à noite sem sequer atender aos apelos da natureza até à sua hora habitual; como era firme e constante nas amizades, tolerando as mais francas oposições às suas opiniões, e aceitando de bom grado qualquer correcção sugerida; da veneração, sem qualquer vestígio de superstição, que mostrava para com os deuses. Lembra-te de tudo isto para que, quando a tua hora chegar, a tua consciência esteja tão límpida como a dele.

31. Volta agora aos teus sóbrios sentidos; recorda o teu próprio eu; desperta do torpor e reconhece que foram apenas sonhos que te atormentaram; e exactamente como os olhaste, olha agora o que os teus olhos despertos vêem.

32. Um corpo e uma alma constituem a minha pessoa. Ao corpo tudo é indiferente, porque é incapaz de fazer distinções. Ao espírito, as únicas coisas que não são indiferentes são as suas próprias atividades, e estas estão todas sob o seu controle. Além disso, mesmo em relação a elas, a sua única preocupação são as do momento presente; uma vez passadas, ou quando ainda residem no futuro, elas mesmas passam imediatamente a ser indiferentes.

33. Uma dor numa mão ou num pé não é nada de anti-natural, desde que a mão ou o pé estejam a fazer o seu trabalho. Da mesma maneira, nenhuma dor é contra a natureza do homem, como homem, desde que ele esteja a fazer trabalho de homem. E se este estiver de acordo com a natureza, não pode ser um mal.

34. Em que invulgares prazeres vão os ladrões, os pervertidos, os parricidas e os tiranos buscar a sua satisfação!

35. Repara como vulgares artífices vão ao encontro dos desejos de um patrão até certo ponto inexperiente, mas, no entanto, seguem rigorosamente as regras do seu ofício e recusam desviar-se delas. Não é deplorável que um construtor ou um médico tenham mais respeito pelos cânones da sua arte do que um homem pelos seus próprios cânones que partilha com os deuses?

36. No universo, a Ásia e a Europa são apenas dois cantinhos, a água de todos os oceanos, uma gota, Athos, um insignificante pedaço de terra, a vastidão do tempo, um pequeno ponto na eternidade. Tudo é insignificante, inconstante e perecível. Tudo procede da única fonte, emergindo diretamente, ou por derivação, da soberana Razão universal. Mesmo as mandíbulas abertas do leão, o veneno mortal, ou todas as outras coisas que realmente ferem, até a roseira silvestre e o atoleiro, são subprodutos de qualquer outra coisa que em si própria é nobre e bela. Não penses nelas como estranhas a Aquele que veneras, mas lembra-te da origem única que é comum a todos eles.

37. Ver as coisas do momento presente é ver tudo o que agora existe, tudo o que existe desde o princípio do tempo e tudo o que existirá até ao fim do mundo; porque todas as coisas pertencem a uma só espécie e têm uma só forma.

38. Pensa com frequência nos laços que unem todas as coisas no universo, e na sua dependência umas das outras. Todas estão como que entrelaçadas e consequentemente ligadas por mútua afeição; porque a sua sucessão organizada é realizada por ação das correntes de tensão, 41 e pela unidade de toda a substância.

39. Adapta-te ao ambiente para onde o teu grupo foi atirado, e mostra um amor verdadeiro pelos teus semelhantes mortais de que o destino te rodeou.

40. Não há qualquer problema com uma ferramenta, um instrumento ou utensílio quando ele serve o fim para que foi feito, embora neste caso o seu construtor não esteja presente. Mas com as coisas feitas pela Natureza, o poder que as moldou ainda está com elas e nelas fica a residir. Mais uma razão para que a veneres e fiques com a certeza de que só vivendo de acordo com a sua vontade tu terás as coisas a teu gosto. É esta a maneira como também o universo tem todas as coisas a seu gosto.

41. Se tens a ideia de que uma coisa que está para além do teu controle pode ser boa ou má para ti, então o acidente de perder a primeira ou encontrar a segunda vai certamente fazer com que fiques ressentido com os deuses e amargo com os homens que sabes ou suspeitas serem responsáveis pelo teu fracasso ou infortúnio. Nós cometemos realmente muitas injustiças por darmos importância a coisas deste tipo. Mas quando limitamos as nossas noções de bem e mal estritamente àquilo que está no nosso poder, não resta qualquer razão quer para acusações contra Deus quer para desavenças com os homens.

42. Todos nós andamos a trabalhar para o mesmo fim; alguns consciente e intencionalmente, outros inconscientemente (como Heráclito, penso eu, observou que «mesmo durante o sono os homens estão a trabalhar» e a contribuir com o seu quinhão para o processo cósmico). A um calha esta parte da tarefa, a outro, aquela; na verdade não é pequena a parte desempenhada por aquele muito descontente que faz tudo quanto pode para impedir e desfazer o curso dos acontecimentos. O universo precisa até desses. Portanto é tua a decisão sobre com quem tu próprio vais enfileirar; porque, seja como for, aquele que tudo rege descobrirá uma qualquer utilidade para ti e atribuir-te-á um lugar entre os seus colaboradores e companheiros de trabalho. Só tens de cuidar que a tua não seja aquela lamentável função que, de acordo com Chrísipo, é desempenhada pelo palhaço no palco. 42

43. Será que o sol pensa fazer o trabalho da chuva? Ou Esculápio, o de Demétrio? E as estrelas? Não são elas todas diferentes, e, contudo, não trabalham todas elas concertadamente para o objetivo único?

44. Se os deuses discutiram e se aconselharam mutuamente sobre mim e sobre o que me aconteceria, então o conselho foi bom. Pois, seria difícil conceber um aconselhamento insensato da parte da divindade. Afinal, que razão teriam eles para me provocarem sofrimento? Que ganhariam eles, quer para si próprios quer para o universo, que é a sua principal preocupação? Mesmo que não tenham pensado especialmente em mim, pensaram pelo menos no universo; e eu tenho de dar as boas vindas e ser indulgente em relação a tudo o que aconteça em resultado disso. Se, claro, eles não pensaram mesmo em nada - coisa ímpia de acreditar — então, ponhamos fim ao sacrifício e à prece e ao voto, e a todas as outras ações pelas quais reconhecemos a presença de deuses vivos no meio de nós. Mas mesmo assim, e mesmo que seja verdade que eles não se interessam nada pelos nossos assuntos mortais, eu ainda sou capaz de tomar conta de mim próprio e de olhar pelos meus próprios interesses; e o interesse de todas as criaturas reside na conformidade com a sua própria constituição e natureza. A minha natureza é racional e cívica; tenho uma cidade e tenho um país; como Marco, tenho Roma, e como ser humano, o universo; e consequentemente, o que é bom para estas comunidades é o único bem para mim.

45. Tudo o que acontece ao indivíduo é para bem do todo. Isto é, só por si, garantia suficiente para nós; mas se olhares com atenção verás também que, em geral, o que é bom para um homem é também bom para os seus semelhantes. (Mas “bom” deve ser aqui tomado no sentido mais popular, incluindo as coisas que são moralmente indiferentes.)

46. Tal como os espectáculos no circo, ou de outros locais de diversão, nos cansam com a sua perpétua repetição das mesmas coisas numa monotonia que torna o espectáculo enfadonho, também o mesmo se passa com toda a experiência da vida: na nossa caminhada para cima e para baixo todas as coisas acabam por ser sempre o mesmo — causas e efeitos por igual. Então quanto tempo…?

47. Pondera com frequência no teu espírito a enorme quantidade de mortos de todas as classes e nações, mesmo até Filistion, Febo e Origanio. 43 Destes últimos, deixa que os teus pensamentos passem para as hordas de outros; pensa como devemos seguir daqui, donde tantos oradores já se foram, tantos veneráveis sábios — Heráclito, Pitágoras, Sócrates — os heróis de outros tempos, os capitães e os reis de tempos posteriores, e com eles Endoxo, Hipparco, Arquimedes e muitos outros; espíritos penetrantes, sublimes, homens infatigáveis, cheios de recursos e decididos; também aqueles que gracejaram com a transitoriedade e brevidade desta vida mortal, como Menippo e os da sua escola. Medita muitas vezes sobre estes homens há muito desaparecidos. Como é que eles, digam-me, sofrem agora — mais especialmente aqueles cujos próprios nomes foram esquecidos? Nesta vida só uma coisa é preciosa: viver os nossos dias em verdade e em justiça, e em caridade, mesmo para com os falsos e os injustos.

48. Quando te apetecer um tónico para te animar, pensa nas boas qualidades dos teus amigos: a capacidade de um, a modéstia doutro, a generosidade de um terceiro, e por aí fora. Não há remédio mais seguro para o desânimo do que ver os exemplos das diferentes virtudes que os caracteres daqueles que nos rodeiam, tão claramente patenteiam. Mantém-nos bem diante dos olhos.

49. Aborrece-te o facto de pesares só uns tantos quilos em vez de oitenta? Porquê, então, afligirmo-nos por viver só uns tantos anos e não mais? Uma vez que estás satisfeito com a medida da substância que te foi concedida, faz o mesmo em relação à medida do tempo.

50. Tenta convencer os homens pela persuasão, mas age contra a sua vontade se os princípios da justiça assim mandarem. E se alguém usar da força para te impedir, segue uma via diferente; deves resignar-te sem angústia e transformar o obstáculo numa oportunidade para o exercício de outra virtude. Lembra-te de que a tua tentativa esteve sempre sujeita a reservas; tu não estavas a apontar para o impossível. Então para quê? Simplesmente para a tentativa, ela própria. Nisto conseguiste; e com isso atingiste o objetivo da tua existência.

51. O homem de ambição pensa encontrar o seu bem nas actuações dos outros; o homem do prazer nas suas próprias sensações; mas o homem de compreensão, nas suas ações.

52. Tu não és obrigado a formar um opinião sobre este assunto que tens pela frente, nem a perturbar a tua paz de espírito. As coisas em si mesmas não têm o poder de te arrancar um veredicto.

53. Habitua-te a prestar muita atenção ao que os outros dizem, e tenta o mais possível entrar no espírito de quem fala.

54. O que não é bom para a colmeia, também não o é para a abelha.

55. Se a tripulação resolveu caluniar o seu timoneiro, ou os doentes, o seu médico, haverá mais alguém a quem eles dêem ouvidos em seu lugar; e como é que esse outro seria capaz de garantir a segurança dos marinheiros, ou a saúde dos doentes?

56. Quantos daqueles que vieram ao mundo comigo não o deixaram já!

57. A um homem com icterícia, o mel parece amargo; a alguém mordido por um cão raivoso, a água causa horror; para as crianças, uma bola é um tesouro valioso. Então por que cedo eu à cólera? Porque, poder-se-á supor que o pensamento errado de um homem tem menos efeito sobre ele do que a bílis na icterícia ou o vírus na hidrofobia?

58. Ninguém te pode impedir de viver de acordo com as leis da tua natureza pessoal, e nada te pode acontecer que vá contra as leis da Natureza-Mundo.

59. Que tristes criaturas são os homens a quem o povo procura agradar! Que tristes fins eles perseguem, e por que tristes meios! Que depressa o tempo apagará todas as coisas! Quantas não apagou ele mesmo agora!

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