Epicteto
O Manual de Epicteto - Parte 2
Nesta parte, Epicteto aprofunda a prática de perder sem se destruir por dentro. Ele propõe ver as coisas como “restituídas”, pagar o preço da tranquilidade, viver como em um banquete e cumprir o papel que nos coube. O ponto central é não entregar a paz aos insultos, às posses ou às expectativas dos outros.
XI. Nunca diga nada como “eu o perdi”, mas diga foi “restituído”. Por exemplo, seu filho está morto? Ele foi restituído aos céus. Sua esposa está morta? Ela foi restituída aos céus. Sua propriedade foi tirada de você? Diga que ela foi restituída ao credor. Mas observe as mãos do credor que a exigiu de volta. Veja que ele cuida da casa com distanciamento, como sendo coisa de outrem, como os viajantes fazem nas hospedagens.
XII. Se você pretende melhorar, jogue fora pensamentos como estes: se eu negligenciar meus negócios, não terei meios de viver: a menos que eu castigue meu escravo, ele será mau. Pois é melhor morrer de fome e assim ser libertado da tristeza e do medo do que viver em abundância e com perturbações; e é melhor que seu escravo seja mau do que você viver infeliz. Comece então com pequenas coisas. O que te incomoda? O óleo foi derramado pelo escravo? Um pouco de vinho foi roubado por ele? Digamos que este seja o preço para se viver livre de perturbação; por esse pequeno preço (um pouco de óleo derramado e um pouco de vinho roubado) você obtém a tranquilidade, pois saiba que “nada se ganha a troco de nada” na vida. E quando você der ordens a seu escravo, considere a possibilidade de que ele não te ouça; e se ele ouvir, talvez mesmo assim ele não faça nada daquilo que você deseja. Lembre-se de que a posição dele não é tão elevada que dele dependa a tua tranquilidade.
XIII. Se você deseja melhorar, submeta-se a ser considerado insensato e tolo com respeito às coisas exteriores. Deseje ser considerado como aquele que não sabe nada; e se para alguns você parecer uma pessoa importante, desconfie de si mesmo. Pois você deve saber que não é fácil lidar com as duas faces de nossas ações: administrar suas vontades naturais, mantendo os ritos sociais. Se um homem se preocupa muito com uma, é inevitável que negligencie a outra.
XIV. Se você deseja que seus filhos, sua esposa e seus amigos vivam para sempre, você é um tolo; pois você gostaria que as coisas (que não estão em seu poder) estivessem em seu poder e as coisas que pertencem a outras mãos estivessem sob seu controle. Então, se você deseja que seu escravo seja livre de falhas, você é um tolo; pois você deseja que a maldade deixe de existir. Mas se você não quer falhar em seus desejos, saiba que você é capaz de fazê-lo. Foque naquilo que você é capaz de fazer. O senhor de si mesmo é aquele que possui o poder de conservar ou repelir as coisas desejadas ou não desejadas. Então, aquele que deseja ser livre, nem queira, nem evite aquilo que depende de outros. Senão for assim, obrigatoriamente serás um escravo.
XV. Lembra-te de que na vida você deve se comportar como se estivesse num banquete. Suponha que algo seja colocado nesta mesa e esteja do lado oposto a você. Estique a mão e pegue uma porção com decência. Suponha que tal item passe por você. Não o detenha. Suponha que ainda não tenha chegado a você. Não demostre o desejo de saboreá- lo quando es ver em frente a ele, mas espere até que tal alimento chegue a você. Faça da mesma forma em relação aos filhos, assim como à sua esposa e aos oficiais, faça o mesmo com a riqueza, e você será por algum tempo um parceiro digno dos banquetes dos deuses. Mas se você não tomar nenhuma das coisas que estão diante de você, e até mesmo as desprezar, então você não será apenas um companheiro de banquete com os deuses, mas compartilhará do seu poder. Pois, agindo assim, Diógenes e Heráclito e outros como eles eram merecidamente divinos, e eram assim reconhecidos.
XVI. Quando você observar uma pessoa chorando de tristeza, seja pela morte de um filho ou por perder algo, tome cuidado para que a aparência não te apresse o julgamento, como se sofresse nas coisas externas. Imediatamente faça uma distinção em sua própria mente, e esteja pronto para dizer “não é o que aconteceu que aflige este homem, pois tal fato não aflige aos outros, mas é a forma de perceber e sentir que aflige o tal homem. No que diz respeito às palavras, então, não hesite em mostrar-lhe simpatia e, caso faça sen do, lamente junto com ele. Mas tome cuidado para não permitir que a lamentação seja interiorizada, quando ela não corresponde à sua crença ou sentimento.
XVII. Lembre-se de que você é um ator em uma peça, do po que o diretor cênico pode escolher. Se o diretor quiser uma peça curta, ela será curta; se ele quiser que a encenação seja longa, saiba que longa ela será. Se ele deseja que você faça o papel de um homem pobre, faça isso com desenvoltura; se é o papel de um coxo, de um magistrado ou de um homem comum (faça da mesma forma). Pois este é o seu dever, desempenhar bem a parte que lhe é dada. Escolher sua atuação, é algo que pertence a outra pessoa.
XVIII. Quando um corvo crocitar, sinalizando, assim, “mau agouro” – ou algo desfavorável - não deixe que a aparência o apresse; mas imediatamente faça uma distinção em sua mente e diga: Nenhuma dessas coisas é significativa para mim, mas para meu pobre corpo, ou para minha pequena propriedade, ou para minha reputação, ou para meus filhos, ou para minha esposa: para mim, todos os significados são esperançosos, se eu quiser que assim o sejam. Qualquer que seja o resultado dessas coisas, está em meu poder tirar proveito delas.
XIX. Você pode ser invencível, caso não entre em lutas onde vencer seja algo além do esforço próprio. Tome cuidado, então, ao observar um homem honrado perante os outros ou possuidor de grande poder ou que seja muito estimado por qualquer motivo, para não supor que ele seja feliz, e não se deixe levar pelas aparências. Pois se a natureza do bem permanece em nosso poder, nem a inveja, nem o ciúme terá lugar em nós. Você mesmo não desejará ser um general ou senador ou cônsul, mas apenas um homem livre: e só há um caminho para isso, desprezar essas coisas que não estão em nosso poder.
XX. Lembre-se de que não é aquele profere insultos ou agressões, quem o ofende. Você se ofende por meio de sua opinião sobre essas coisas – pois as considera como sendo insultos. Quando um homem o irritar, saiba que é sua própria opinião que gera a irritação. Portanto, tente não se deixar levar pela aparência, nem pela representação. Pois, se você ganhar tempo e prazo, será mais fácil dominar a si mesmo.
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