O Manual de Epicteto - Parte 3

Epicteto

O Manual de Epicteto - Parte 3

Aqui, Epicteto recomenda manter a morte diante dos olhos e aceitar o ridículo que acompanha quem escolhe a filosofia. Ele fala sobre honra, favores, preço social, disciplina e compromisso. Antes de desejar uma grande meta, é preciso medir seu custo e decidir se estamos dispostos a treinar para ela.

Ilustração em rabisco a lápis para O Manual de Epicteto - Parte 3, com tema de morte, filosofia, honra, preço das escolhas e disciplina.
Imagem criada para este post em estilo de desenho a lápis com atmosfera gótica.

XXI. Permita que a morte e o exílio e todas as outras coisas que parecem terríveis estejam diariamente diante de seus olhos; mas, acima de tudo, a morte: assim você nunca pensará em nada mau, nem desejará nada de modo extravagante.

XXII. Se você deseja filosofia, prepare-se desde o início para ser ridicularizado, espere que muitos zombem de e digam: Ele voltou do nada para nós como um filósofo; e de onde ele tirou esse olhar arrogante? Você não possui um “olhar arrogante”; mas apegue-se aos adjetivos que lhe pareçam melhores, como, por exemplo, “alguém designado por Deus para esta posição”. E lembre-se de que, se você seguir os princípios que prega, esses homens que primeiramente ridicularizaram você, logo irão admirá-lo; mas se você se permitir ser dominado por eles, será duplamente ridicularizado.

XXIII. Se acontecer de você se voltar para as coisas exteriores (bens e aparências) para agradar a alguém, você deve saber que perdeu o propósito de sua vida. Satisfaça-se, então, por ser um pensador. Se você deseja parecer um pensador aos olhos de qualquer pessoa, pareça-o primeiramente para si mesmo, e, assim, você será capaz de fazer isso para terceiros.

XXIV. Não deixe pensamentos deste tipo afligirem você: “viverei sem honra e não serei alguém em lugar algum”. Pois se a falta de honra é um mal, você não pode estar envolvido com o mal por meio ou pela falha de outro mais do que você pode estar envolvido em qualquer coisa vil. É tarefa sua obter um cargo no magistrado ou ser convidado para um banquete? De modo algum! Como então (não obter um cargo ou não ser convidado para um banquete) pode tratar-se de falta de honra? Como é que você pode ser “ninguém” em tais ambientes, se você só pode ser “alguém” nas coisas que estão sob seu poder - onde você pode verdadeiramente ser um homem de maior valor? Então dirás: meus amigos ficarão sem ajuda! O que você quer dizer com “ficarão sem ajuda”? Dizes isso em relação a quem? Não terão de uns trocados, nem os farás cidadãos de Roma? Quem te disse que essas coisas estão sob teu encargo e que não são ações de outrem? Quem é capaz de dar a outro o que ele mesmo não possui? Então, adquira dinheiro, dizem seus amigos, para que também possamos ter alguma coisa. Se eu puder obter posses mantendo-me digno, leal e magnânimo, indicai-me o caminho e eu as obterei.

Mas se credes ser digno que eu perca meus bens – os que me são próprios – para que conserveis coisas que não são bens, atentai como sois iníquos e ignorantes. O que desejais mais: dinheiro ou um amigo leal e digno? Ajudai-me sobretudo nisso e não creiais ter valor que eu faça coisas pelas quais recusaria o que é propriedade minha. “Mas a pátria, no que depender de mim, estará desamparada”, diz alguém. Pelo contrário, pois de que po seria esse amparo? <A pátria> não terá por teu intermédio pór cos nem banhos públicos? E daí? Pois não há sapatos por intermédio do ferreiro, nem armas por intermédio do sapateiro, mas basta que cada um cumpra a ação que lhe é imputada. Se forneceres <para a pátria outro cidadão leal e digno em nada a beneficiarias? Digo que sim! Então tu mesmo não serias inú l à pátria. “Que lugar”, diz <alguém>, “terei na cidade?” Respondo: O que te for possível, mantendo-te, ao mesmo tempo, leal e digno. Mas se, desejando beneficiar a cidade, rejeitares essas qualidades, que bene cio serias tornando-te indigno e desleal?

XXV. Algum homem foi preferido em vez de você em um banquete, ou foi saudado, ou convidado para algo? Se essas coisas são boas, você deve se alegrar por tê-las obtido; mas se forem más, não se aflija porque não as obteve. E lembre-se que se você não fez as mesmas coisas que o outro fez para obtê-las, não pode ser considerado digno das mesmas coisas. Pois como pode um homem obter uma parte igual ao outro se ele não visita as portas de um homem como aquele outro faz; quando ele não acompanha do modo como o outro acompanha; quando ele não o elogia como o outro o faz? Você será injusto e insaciável, se não identificar o preço, em troca do qual essas coisas são obtidas, e será injusto desejar obtê-las a troco de nada. Por quanto é vendida uma alface? Que custe um óbolo! Então quem dispensa o óbolo toma a alface, e tu, que não o dispensaste, não a tomas. Não penses ter menos do que quem a tomou, pois do mesmo modo que ele possui a alface, tu possuis o óbolo que não entregaste. Da mesma forma, se você não foi convidado para o banquete de um homem, saiba que não pagou ao anfitrião o preço pelo qual a ceia está vendida; observe que ele a vende por elogios (lisonjas), o preço é atenção pessoal. Pague, então, o preço, se for do seu interesse, pelo qual ela será vendida.

Mas se você deseja não pagar o preço e ainda assim obter essas coisas, você é insaciável e tolo. Então nada tens no lugar do repasto? Com certeza! Não terás que elogiar quem não queres, nem aturar os que estão diante da porta dele.

XXVI. Podemos aprender sobre o desejo (vontade) da natureza das coisas em que não diferimos um do outro: por exemplo, quando o escravo do seu vizinho quebra sua taça, ou qualquer outra coisa, estamos prontos para dizer imediatamente: “é uma das coisas que acontecem”. Você deve saber então que, quando sua xícara também for quebrada, você deverá pensar do mesmo modo como quando a xícara de seu vizinho foi quebrada. Transfira esta reflexão para coisas maiores. O filho ou a esposa de outro homem morreu? Não há ninguém que não diga: “Este é um evento inevitável para a humanidade”. Mas quando o próprio filho ou esposa de um homem morre, imediatamente ele geme: “Ai de mim, como sou miserável!” Mas devemos lembrar como nos sen mos quando ouvimos que isso aconteceu a outras pessoas.

XXVII. Assim como um alvo não é colocado para não ser atingido, também não existe a natureza do mal no mundo.

XXVIII. Se qualquer pessoa pretendesse colocar seu corpo nas mãos de qualquer um com quem se deparasse no caminho, você se irritaria; mas, então, porque colocas teu entendimento nas mãos de qualquer homem que encontras, de modo que quando ele profere injúrias, ficas perturbado e abalado. Não te envergonhas disto?

XXIX. Em cada ato observe as coisas que o antecederam e aquelas coisas que vem depois; e então prossiga no ato. Se não o fizer, a princípio você se aproximará com entusiasmo, sem ter pensado nas coisas que se seguirão; mas depois, quando certas coisas básicas (e feias) aparecerem, você terá vergonha. Um homem deseja vencer nos Jogos Olímpicos. Eu também desejo isso, pois é uma coisa boa. Mas observe tanto as coisas que vêm primeiro quanto as que se seguem; e então aja. Você deverá fazer tudo de acordo com as regras, comer de acordo com ordens estritas, abster-se de iguarias, exercitar-se como lhe for pedido, nas horas marcadas, no calor e no frio, não deverá beber água fria, nem vinho; resumindo: você deverá se entregar ao mestre dos exercícios como confia no médico e então deverá prosseguir para a competição. E lembre-se de que às vezes você machucará a mão, torcerá o tornozelo, engolirá muito pó, algumas vezes será açoitado e depois de tudo isso pode vir a ser derrotado. Depois de ter considerado tudo isso, se ainda escolher prosseguir nesta meta, vá para a competição! Do contrário, você se comportará como uma criança, que às vezes brinca como lutador, outras vezes como flautista, depois novamente como gladiador, depois como um trompetista, e logo mais como um ator trágico.

Desta forma, você será em dado momento um atleta, mas em outro um gladiador, ora um retórico, outrora um filósofo, mas no fundo da alma você não será nada! Como um macaco você imitará tudo o que vê, uma coisa e depois a outra que mais te agrade. Porque? Pelo fato de você não ter empreendido nada com a devida consideração, sem examinar bem; agindo com descuido e com desejo frio. Deste modo, alguns que presenciaram um filósofo e o ouviram falar como o Eufrates fala (e quem pode falar como ele?) desejaram também ser filósofos. Meu bom homem, antes de tudo, considere que tipo de coisa é isso; e então examine sua própria natureza, se você é capaz de sustentar tal personagem. Você deseja ser um pentatleta ou um lutador? Olhe para seus braços, veja suas coxas, examine seus quadris. Pois diferentes homens são formados pela natureza para coisas diferentes. Você acha que, se fizer essas coisas, poderá comer da mesma maneira, beber da mesma maneira e, da mesma forma, ter nojo de certas coisas? Você deverá passar noites sem dormir, suportar labutas, se afastar de seus parentes, ser desprezado até mesmo por um escravo, em tudo ter a parte inferior, seja na honra, seja no cargo, nos tribunais de jus ça, em cada pequeno assunto.

Considere essas coisas, se você quiser abrir mão da liberdade, das paixões, da autonomia e da tranquilidade. Do contrário, tome cuidado para não agir como criança pequena. Que você não seja agora um filósofo, depois um serviçal, depois um retórico, depois um procurador. Tome rumo. Não seja inconsistente. Você deve ser um homem, bom ou mau. Você deve cul var sua própria capacidade de direção e reflexão ou cul var as tais coisas externas. Você deve exercitar sua habilidade em coisas internas (o que eu sou) ou externas (o que eu tenho). Resumindo: você deve manter a posição de um filósofo ou de uma pessoa comum.

XXX. Os deveres são universalmente medidos por relações. O homem é teu pai? O preceito é cuidar dele, ceder a ele em todas as coisas, submeter-se quando ele for acusador e quando ele te bater. Mas suponha que ele seja um pai ruim. Você foi unido pela natureza, a um bom pai? Não; mas foi unido a um pai. “Meu irmão é injusto”. Mantém o teu próprio posto em relação a ele. Não examines o que ele faz, mas o que te é dado fazer, e a tua escolha estará de acordo com a natureza. Pois se não quiseres, outro não te causará danos, mas sofrerás dano quando supuseres ter sofrido dano. Deste modo então descobrirás as ações convenientes para com o vizinho, para com o cidadão, para com o general: se te habituares a considerar as relações.

Comentários