Epicteto
O Manual de Epicteto - Parte 4
Nesta parte, o Manual se volta para conduta diária: reverência aos deuses, firmeza de caráter, fala moderada, cuidado com prazeres, convivência e simplicidade. Epicteto insiste que a filosofia aparece menos em discursos e mais na forma como alguém come, fala, visita, se contém e permanece inteiro diante das tentações.
XXXI. Quanto à piedade para com os deuses, você deve saber que isso é o principal: ter opiniões corretas sobre eles, pensar que eles existem e administram todas as coisas com bondade e com jus ça; e você deve fixar-se neste princípio ou dever: obedecê-los e ceder a eles em tudo o que acorre, e voluntariamente segui-los sabendo que se trata de uma inteligência maior. Pois, se isso fizer, nunca culpará os deuses, nem os acusará de negligenciarem a você. E não é possível que isso seja feito de outra maneira senão nos afastando das coisas que não estão em nosso poder e colocando o bem e o mal apenas nas coisas que estão em nosso poder. Pois se você acha que alguma das coisas que não estão em nosso poder são boas ou más, é absolutamente necessário que, quando você não obtenha o que deseja, encontre falhas e odeie aqueles que as originaram; pois todo animal é formado pela própria natureza para isso, para fugir e afastar-se das coisas que parecem prejudiciais e das coisas que são a causa do seu dano. E o contrário é verdadeiro: seguimos e admiramos apenas as coisas que são úteis e que geram u lidade. É impossível, então, para uma pessoa que pensa que é prejudicada, deliciar-se com o que ela pensa ser a causa do prejuízo, como também é impossível estar sa sfeita com o próprio dano.
Por esta razão também um pai é injuriado por seu filho, quando ele não dá parte a seu filho das coisas que são consideradas boas; e foi isso que tornou Polinices e Eteocles inimigos - a opinião de que a rania era um bem. É por isso que o lavrador da terra injuria os deuses, p o faz o marinheiro, e o comerciante, e por isso os que perdem suas mulheres e seus filhos. Para onde o ú l (seu interesse) é, também há piedade. Consequentemente, aquele que se preocupa em desejar “do jeito certo” e evitar situações do jeito certo, ao mesmo tempo também se preocupa com a piedade. Mas para fazer libações e sacrificar e oferecer os primeiros frutos de acordo com o costume de nosso pais, pura e não mesquinhamente, nem descuidadamente, nem escassamente, nem acima de nossa capacidade, é uma coisa que pertence a todos.
XXXII. Quando você recorrer a crenças como a adivinhação, lembre-se de que você não sabe o que acontecerá, mas veio perguntar exatamente sobre isso adivinho. Busque a informação já sabendo qual será a previsão, visto que és um filósofo. Pois se a previsão for de alguma das coisas que não estão em nosso poder, é absolutamente necessário que não seja nem um bem, nem um mau. Não traga para o adivinho seu desejo ou aversão: se você o fizer, você se aproximará dele com medo. Mas tendo determinado em sua mente que tudo o que for apresentado é indiferente, e não diz respeito a você, e seja lá o que for estará em seu poder usá-lo bem, e nenhum homem impedirá isso, vai confiante aos deuses tendo cada um deles como seus conselheiros. E então, quando qualquer conselho for dado, lembre-se que você tomou os deuses como conselheiros. E é a eles a quem você terá negligenciado, se não obedecer aos conselhos. Consulta o oráculo do mesmo modo que Sócrates atribuía-lhes valor: para os casos nos quais o exame como um todo se refere às consequências, e os pontos de par da para conhecer o assunto não são dados nem pela razão, nem por qualquer outra arte. Assim, quando precisares compartilhar um perigo com o amigo ou com a pátria, não consultes o oráculo se deves compartilhar o perigo.
Pois se o adivinho anunciar maus presságios, é evidente que isso significará a morte, ou a perda de alguma parte do corpo, ou o exílio. Mas a razão te impele, mesmo nessas situações, a ficar ao lado do amigo ou da pátria e expor-te ao perigo. Portanto, dá atenção ao maior dos adivinhos, Apolo Pí co, que expulsou do templo o homem que não socorreu o amigo que estava sendo assassinado.
XXXIII. Fixe em sua vida um caráter e alguma forma para si mesmo, que você possa observar tanto quando es ver sozinho quanto quando se encontrar acompanhado. E deixe o silêncio ser a regra geral, ou deixe apenas o necessário ser dito, e em poucas palavras. E raramente, quando a ocasião exigir, diga algo; mas sobre nenhum dos assuntos comuns, nem sobre gladiadores, nem corridas de cavalos, nem sobre atletas, nem sobre comer ou beber, que são os assuntos usuais; e especialmente não fale sobre os homens, culpando-os ou elogiando-os ou comparando- os. Se então você for capaz de fazer isso, conduza por meio de sua conversa, a prosa daqueles que te acompanham, atendo-se ao que é apropriado; mas se acontecer de você ficar confinado à companhia de estranhos, fique em silêncio. Não deixe seu riso ser largo, nem frequente nas diversas ocasiões, nem excessivo. Recuse-se totalmente a fazer um juramento, se for possível. Se não for possível, recuse tanto quanto você puder. Evite banquetes oferecidos por estranhos e por pessoas ignorantes. Mas se houver ocasião e coerência em se juntar a eles, deixe sua atenção estar cuidadosamente fixada, para que você não escorregue nos modos dos vulgares (dos não instruídos).
Pois você deve saber que, se seu companheiro for impuro, também aquele que anda com ele deverá se tornar impuro, mesma que por ora seja puro. Tome as coisas que se relacionam com o corpo até o limite do uso básico, como comida, bebida, roupa, casa e escravos; mas exclua tudo o que é para exibição ou luxo. Quanto ao prazer com as mulheres, abstenha-se tanto quanto puder antes do casamento; mas se você se permitir isso, faça-o conforme ao costume. Não seja, entretanto, desagradável com aqueles que se entregam a esses prazeres, nem os reprove; e não se gabe de não se permitir isso. Se um homem relatou a você, que certa pessoa fala mal de você, não faça nenhuma defesa ao que lhe foi dito; mas responda: certamente o homem não conhecia o restante de minhas falhas, pois não teria mencionado apenas essas. Não é necessário ir frequentemente aos espetáculos, porém se surgir uma ocasião favorável, não mostres preocupação com ninguém senão con go mesmo – isto é: queira que aconteçam somente as coisas que vierem a acontecer e que vença somente o vencedor, pois assim tu não te frustrarás. E abstém-te por completo de gritar, rir de alguém ou comover-te. Uma vez tendo saído do espetáculo, não fales muito sobre o que lá se passou, pois será evidente que admiraste o espetáculo.
Não vá ouvir as palestras de certas pessoas, nem as visite prontamente. Mas se você comparecer, observe com reverência, equilíbrio e serenidade e também evite tornar-se desagradável. Quando você for se encontrar com qualquer pessoa, especialmente com aquelas que estão em uma condição superior, adote para si o que Sócrates ou Zenão teriam feito em tais circunstâncias, e você não terá dificuldade em fazer um uso adequado da ocasião. Quando você for a qualquer um dos que estão em grande poder, mentalize que você não encontrará o homem em casa, que você será excluído, que a porta não se abrirá para você, que o homem não dará atenção para você. E mesmo com tudo isso será seu dever visitá-lo, suportando o que acontece, e nunca dizendo a si mesmo que não valeu a pena. Pois isso é tolo e marca o caráter de um homem que se sente ofendido por “coisas externas”. Quando es ver acompanhado, tome cuidado para não falar muito e excessivamente sobre seus próprios atos ou a aventuras perigosas. Isso porque é agradável para si mesmo fazer menção aos desafios pessoais, mas não é tão agradável para os outros ouvir o que aconteceu com você. Cuidado também para não provocar risos; pois esse é um caminho escorregadio para hábitos vulgares e também diminui o respeito de seus vizinhos.
Também é um hábito perigoso abordar conversas obscenas. Quando, então, algo desse tipo acontecer, se houver uma boa oportunidade, repreenda o homem que deu con nuidade a essa conversa; mas se não houver uma oportunidade, pelo menos pelo seu silêncio, ou corando e usando a expressão de insa sfação em seu semblante, mostre a ele claramente que você está descontente com tal conversa.
XXXIV. Se você recebeu a impressão ou atenta-te para qualquer prazer, evite se deixar levar por isso; mas deixe a coisa esperar por você e permita-se um certo atraso. Então pense em ambas as ocasiões: - A hora em que você desfrutará do prazer e; - A hora após o prazer, quando você se arrependerá e se reprovará. E pense que ao contrariar esses desejos, você se alegrará grandemente, obterá tranquilidade por se abster do prazer, e vislumbre como você elogiará a si mesmo. Mas se lhe parece oportuno empreender no prazer, fazendo a coisa que deseja, cuide para que o encanto dela, e o prazer, e a atração dela não te conquistem; mas considere que é muito melhor estar ciente de que você obteve esta vitória.
XXXV. Quando você decidir que algo deve ser feito, e decide fazê-lo, nunca evite ser visto fazendo isso, embora muitos formem uma opinião desfavorável a respeito. Pois se não for certo fazer, evite fazer a tal coisa; mas se você está seguro, por que você tem medo daqueles que encontrarão falhas e defeitos?
XXXVI. Assim como as expressões “É dia” e “É noite” possuem pleno valor quando se trata de uma proposição disjun va, mas não em uma conjuntiva, assim também tomar a maior parte do alimento tem valor para o corpo, mas não o valor comunitário que é preciso observar em um banquete. Quando então comeres com alguém, lembra de não veres somente o valor para o corpo dos pratos postos à tua frente, mas que também é preciso que guardes o respeito para com o anfitrião.
XXXVII. Se aceitares um papel além de tua capacidade, tanto perderás a compostura quanto deixarás de lado aquele papel que possivelmente desempenharia com êxito.
XXXVIII. Ao caminhar, do mesmo modo como você toma cuidado para não pisar em um prego ou torcer o pé, tome também cuidado para não danificar sua própria capacidade de direção. Se observarmos essa regra em todos os atos, os realizaremos com mais segurança.
XXXIX. A medida da posse (propriedade) é para cada homem o corpo, assim como o pé é para o sapato. Se você seguir estas regras (as exigências do corpo), você manterá a medida; mas se você as ultrapassar, deverá necessariamente lançado como num precipício. Como também na questão do sapato, se for além das necessidades do pé, o sapato será dourado, depois roxo, depois bordado; pois não há limite para o que uma vez ultrapassou a medida da necessidade verdadeira.
XL. As mulheres, logo após os seus quatorze anos, são das como senhoras pelos homens. Vendo assim que nenhuma outra coisa lhes cabe, exceto se deitarem com eles, começam a se embelezar, e nisso confiam todas as esperanças. É importante, então, que cuidemos para que elas percebam que por nenhuma outra coisa são honradas, senão por se apresentarem disciplinadas e dignas
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