Epicteto
O Manual de Epicteto - Parte 5
Na parte final, Epicteto reúne conselhos sobre ofensas, julgamento, progresso e prática real da filosofia. Ele ensina a pegar cada situação pela “alça” suportável, evitar ostentação intelectual e transformar princípios em atos. O fechamento pede obediência à razão e aceitação do destino.
XLI. É um sinal de uma capacidade mediana o ato de gastar muito tempo com as coisas que dizem respeito ao corpo, como fazer muitos exercícios, comer demais, beber exageradamente, evacuar demasiadamente e o sexo desmedido. Essas coisas devem ser feitas como coisas subordinadas, controladas; com toda a atenção aos pensamentos.
XLII. Quando qualquer pessoa te tratar mal ou falar mal de você, lembre-se de que ela faz isso ou diz isso porque acha que é um dever agir assim. Não é possível para ela seguir ou crer naquilo que parece certo para você. Deste modo, ela acredita naquilo que parece certo para ela. Consequentemente, se ela está errada em sua opinião, ela é a pessoa que está magoada, pois ela é a pessoa que viveu enganada. Com efeito, se alguém supuser falsa uma proposição conjuntiva verdadeira, não é a proposição conjuntiva que sofre o dano, mas quem se engana. Se você partir desta visão, terá um temperamento brando para com aqueles que o caluniam. Diga em cada uma destas ocasiões: “Se assim lhe parece...”
XLIII. Tudo tem duas alças, uma pela qual o peso pode ser suportado e a outra pela qual o peso não pode se suster. Se seu irmão agir injustamente, não agarre o ato por aquela alça por onde ele age injustamente, pois esta é exatamente a alça que não pode ser suportada; mas segure pela outra – desta forma você se lembrará de que ele é seu irmão, que ele foi criado con go, e você agarrará a situação pela alça pela qual se pode suportar.
XLIV. Esses raciocínios não são coerentes: Sou mais rico do que você, portanto, sou melhor do que você; Sou mais eloquente do que você, portanto sou melhor que você. Pelo contrário, são bastante coerentes: Eu sou mais rico do que você, portanto, “minhas posses” são maiores que as suas; Sou mais eloquente do que você, portanto “minha fala” é superior à sua. Mas lembre-se “você não é “posse” nem é “eloquência”.
XLV. Um homem toma banho rápido? Não diga que ele se banha mal, mas que se banha rapidamente. O homem bebe muito vinho? Não diga que ele faz isso mal, mas diga que ele bebe muito. Pois antes de discernir a opinião dele, como podes saber e julgar se ele está agindo errado? Agindo assim, não acontecerá a você de ser conivente com erros e rude com acertos.
XLVI. Em nenhuma ocasião se chame de filósofo, e não fale muito entre os não instruídos sobre teoremas (regras filosóficas, preceitos); mas aja de acordo com eles. Por exemplo, em um banquete, não diga como um homem deve comer, mas coma o que você deve comer. Lembre- se de que, dessa forma, Sócrates evitou totalmente a ostentação. Pessoas costumavam vir a ele e pedirem para ser recomendados aos filósofos, e ele costumava levá-los aos filósofos! E tão facilmente se submetia a ser esquecido. Consequentemente, se qualquer conversa surgir entre pessoas não instruídas sobre qualquer teorema, geralmente fique em silêncio; pois há grande perigo de que você vomitará imediatamente o que não digeriu. E quando um homem lhe disser que você não sabe nada e que não está aborrecido, então tenha certeza de que você começou o trabalho (de filosofia). Pois até as ovelhas não vomitam a erva e não mostram aos pastores quanto comeram; mas quando digerem internamente o pasto, produzem lã e leite externamente. Você também não mostra seus teoremas aos não instruídos, mas mostra os atos que vêm de sua digestão.
XLVII. Quando a um custo pequeno você recebe tudo para o corpo, não se orgulhe disso. Se você beber água, evite dizer em todas as ocasiões “eu bebo água”. Mas considere primeiro como os pobres são muito mais frugais do que nós, e quanto mais resistentes ao trabalho. E se você quiser se exercitar no trabalho e na resistência, faça por si mesmo, e não para os outros. Não abrace estátuas; mas se você ver muita sede, tome um gole de água fria e cuspa fora, sem contar a ninguém.
XLVIII. A condição e característica de uma pessoa não instruída é esta: ela nunca espera de si lucro (vantagem) nem dano, mas espera que isso venha das coisas externas. A condição e característica de um filósofo é esta: ele espera que todas as vantagens e todos os danos sejam provenientes de si mesmo. Os sinais (marcas) de quem está fazendo progresso são estes: ele não censura o homem, ele não elogia o homem, ele não acusa nenhum homem, ele não reclama de nenhum homem, ele não fala nada sobre si mesmo como se fosse ou soubesse de alguma coisa; quando ele é impedido ou obstado, ele se culpa; se um homem o elogia, ele ridiculariza o elogio feito a si mesmo; se um homem o censura, ele não faz defesa; ele anda como uma pessoa doente, tendo o cuidado de não mover nenhuma das talas que estão colocadas, antes de estarem firmemente fixadas; ele remove todo desejo de si mesmo, e ele transfere aversão para aquelas coisas em nosso poder que são contrárias à natureza; ele emprega um movimento moderado para tudo; se ele é considerado tolo ou ignorante, ele não se importa; e em suma: ele se observa como se fosse um inimigo à espreita.
XLIX. Quando um homem se orgulha porque pode entender e explicar os escritos de Crisipo, deveria dizer a si mesmo: Se Crisipo não vesse escrito de maneira obscura, este homem não teria nada de que se orgulhar. Mas o que é que eu desejo? Entender a natureza e segui-la. Eu pergunto, portanto, quem é o intérprete? Ouvindo que é Crisipo, vou a ele. Mas não compreendo seus escritos. Busco, então, quem os interprete – até este ponto, absolutamente nada há que mereça reverência. Quando eu encontro o intérprete, resta-me fazer uso das coisas prescritas – unicamente isso é digno de reverência. Ora, se admiro o próprio ato de interpretar, que outra coisa me torno senão gramá co ao invés de filósofo? Com a diferença que, no lugar de Homero, interpreto Crisipo. Deste modo, quando alguém me disser “Interpreta algo de Crisipo para mim”, antes de qualquer coisa, enrubescerei quando não for capaz de exibir ações semelhantes às palavras e condizentes com elas.
L. Respeite todas as coisas (regras) que são propostas a você (para a conduta da vida) cumprindo com elas, como se fossem leis, como se você fosse culpado de impiedade se transgredisse qualquer uma delas. E o que quer que alguém diga sobre você, não dê atenção a isso; pois isso não é problema seu. Por quanto tempo ainda esperarás para que te julgues merecedor das melhores coisas e para que em nada transgridas os ditames da razão? Recebeste os princípios filosóficos, com os quais foi preciso concordar, e concordaste. Por qual mestre ainda esperas para que confies a ele a correção de si mesmo? Não és mais um adolescente, já és um homem feito. Se nesta fase fores descuidado e preguiçoso, e sempre fizeres adiamentos e postergações, fixando um dia após o outro o dia depois do qual cuidarás de si mesmo, não perceberás que não progrides. E permanecerás, tanto durante a vida quanto na morte, um homem comum. Imediatamente, pense que é certo viver como um homem adulto, e alguém que está adquirindo proficiência, e que tudo o que parece ser o melhor para você torne-se uma lei que não possa ser transgredida.
E se algo trabalhoso, agradável, glorioso ou inglório lhe for apresentado, lembre-se de que agora é a competição, agora são os jogos olímpicos, e eles não podem ser adiados; e que depende de uma derrota e de uma desistência que o progresso seja perdido ou man do. Sócrates tornou-se assim perfeito, em todas as coisas melhorando a si mesmo, dando atenção a nada, exceto à razão. Mas você, embora ainda não seja um Sócrates, deve viver como alguém que deseja ser um Sócrates.
LI. O primeiro e mais necessário lugar na filosofia é o uso de aplicação de princípios, por exemplo, que “não devemos men r”; A segunda parte é a das demonstrações, por exemplo: “Como se prova que não devemos men r”? O terceiro é aquele que confirma e ar cula os dois anteriores, por exemplo: Porque isso é uma demonstração? Pois o que é demonstração, o que é consequência, o que é contradição, o que é verdade, o que é a men ra? A terceira parte (tópico) é necessária por conta da segunda, e a segunda por conta da primeira; mas o mais necessário e sobre o qual deveríamos descansar é o primeiro tópico. Mas fazemos justamente o contrário. Pois gastamos nosso tempo no terceiro tópico, e todo o nosso fervor está relacionado a ele; mas negligenciamos inteiramente o primeiro. Eis aí porque, por um lado, sustentamos men ras e, por outro, temos à mão como se demonstra que não é apropriado sustentar men ras.
LII. Em todas as coisas (circunstâncias), devemos ter estas máximas prontas à mão: Guia-me, ó Zeus, e tu, ó Destino, O caminho que você deve seguir: Para seguir estou pronto. Se eu não escolher, Eu me torno um desgraçado e ainda devo segui-lo. Mas quem nobremente cede à necessidade, Nós o consideramos sábio e habilidoso nas coisas divinas. E o terceiro também: Ó Crito, se assim agrada aos deuses, que assim seja; Anytus e Melitus são realmente capazes de me matar, mas eles não podem me machucar.
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