Ozymandias

Percy Bysshe Shelley

Ozymandias

Publicado em 1818, "Ozymandias" é um dos grandes poemas sobre a vaidade do poder. Em poucos versos, Shelley transforma uma estátua arruinada no deserto em símbolo da queda de impérios, da fragilidade da glória e da ironia do tempo.

Ilustração em rabisco a lápis de uma estátua colossal destruída no deserto, inspirada no poema Ozymandias.
Imagem criada para este post em estilo de desenho a lápis com atmosfera gótica.

O poema em português

Eu encontrei um viajante de uma terra antiga

Que disse: "Duas gigantescas pernas de pedra, sem torso,

Erguem-se no deserto. Perto delas, na areia,

Meio afundado, jaz um rosto partido, cuja expressão,

Com lábios franzidos e escárnio de frio comando,

Diz que seu escultor bem leu aquelas paixões

Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas sem vida:

A mão que as zombava e o coração que as alimentava.

E no pedestal aparecem estas palavras:

'Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:

Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!'

Nada além resta. Ao redor da decadência

Daquela ruína colossal, ilimitadas e nuas,

As areias solitárias e planas se estendem ao longe."

Comentário

O impacto de "Ozymandias" vem da distância entre o que o rei dizia de si mesmo e o que restou dele. A inscrição no pedestal ordena que os poderosos contemplem suas obras e se desesperem; mas o leitor contempla justamente a ausência dessas obras. O império desapareceu, a estátua quebrou, o nome virou ruína, e o deserto ficou como resposta silenciosa à arrogância.

O poema não diz apenas que a morte vence os homens. Ele diz algo mais incômodo: também vencem a areia, o esquecimento e o ridículo. O poder que queria se apresentar como eterno sobrevive como fragmento. A obra humana, quando nasce da soberba, acaba dependendo de uma ironia cruel: aquilo que pretendia provar grandeza passa a provar limite.

Há ainda uma segunda camada: o escultor compreendeu melhor Ozymandias do que o próprio rei compreendia a si mesmo. A frieza, o comando e o desprezo foram preservados no rosto de pedra. O império caiu, mas a expressão moral do tirano permaneceu como denúncia.

Ozymandias em Breaking Bad

O episódio "Ozymandias", de Breaking Bad, usa o título do poema com precisão trágica. Na série, Walter White constrói seu próprio império a partir da inteligência, do orgulho e da vontade de controle. Como o rei do soneto, ele acredita que sua obra demonstrará poder; mas, no episódio, aquilo que ele ergueu começa a aparecer como ruína.

A ligação não depende apenas da ideia de queda. O episódio mostra o momento em que a fantasia de grandeza deixa de convencer até quem a criou. Família, dinheiro, autoridade, medo e reputação se desmancham em sequência. O "rei dos reis" de Shelley olha para o futuro esperando admiração; Walter olha para o que fez e encontra perda, isolamento e consequências irreversíveis.

Por isso o título funciona tão bem: tanto no poema quanto no episódio, a paisagem final é de deserto moral. O que parecia domínio absoluto se revela instável. O que parecia legado vira evidência de destruição. No fim, sobra menos a grandeza do homem poderoso do que o vazio deixado por sua ambição.

Original em inglês

I met a traveller from an antique land

Who said: "Two vast and trunkless legs of stone

Stand in the desert. Near them, on the sand,

Half sunk, a shattered visage lies, whose frown,

And wrinkled lip, and sneer of cold command,

Tell that its sculptor well those passions read

Which yet survive, stamped on these lifeless things,

The hand that mocked them and the heart that fed;

And on the pedestal, these words appear:

My name is Ozymandias, King of Kings;

Look on my Works, ye Mighty, and despair!

Nothing beside remains. Round the decay

Of that colossal Wreck, boundless and bare

The lone and level sands stretch far away."

Nota: "Ozymandias" é um soneto de Percy Bysshe Shelley. O comentário sobre Breaking Bad resume temas narrativos do episódio homônimo sem reproduzir diálogos ou cenas extensas.

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