Sêneca
Sobre a Brevidade da Vida - Parte 4
Nesta parte, Sêneca defende o convívio com os grandes pensadores do passado. A filosofia amplia a vida porque permite dialogar com outras épocas, escolher mestres melhores e escapar da estreiteza das preocupações imediatas. O tempo bem usado torna-se mais largo.
13 – 1: Seria alongar demais percorrer todos os exemplos daqueles que desperdiçaram suas vidas em jogos de xadrez, bola, ou queimando-se ao sol. Não gozam de ócio aqueles cujos prazeres trazem muitas ocupações. Pois ninguém duvidará que muito se fatigam sem nada obrar, os que se prendem a inúteis questões de (2) literatura – e eles já são multidão entre os romanos! Foi um vício dos gregos investigar quantos remadores teve Ulisses, se a Ilíada ou a Odisséia foi escrita primeiro e, além disso, se eram de um mesmo autor, e outros conhecimentos dessa espécie, que, se os reservas para ti mesmo, em nada deleitam o intelecto, se os publicas, não serás tido por mais douto, mas por mais (3) enfadonho. E eis que esta frívola paixão de aprender inutilidades apossou-se também dos romanos. Há alguns dias ouvi certa pessoa relatando qual foi o primeiro dos generais a fazer tais e tais coisas; que Duílio foi o primeiro a vencer numa batalha naval, que Cúrio Dentato foi o primeiro a conduzir elefantes no seu cortejo triunfal. Mas esses assuntos, ainda que não conduzam à verdadeira glória, versam sobre exemplos de feitos cívicos; tal ciência não acarreta benefício algum, embora nos prenda a atenção pela futilidade dos feitos.
(4) Perdoemos também aos que pesquisam assuntos como este: quem foi o primeiro a persuadir os romanos a embarcar num navio. Foi Cláudio, e por este mesmo motivo cognominado “Caudex”, porque entre os antigos a reunião de várias tábuas chamava-se “caudex”; daí o nome de “codices” às tábuas da lei, e, ainda hoje, as naves que carregam provisões pelo Tibre são (5) chamadas, segundo a maneira antiga, de “codicariae”. Sem dúvida, isto pode ser de algum valor: que Valério Corvino foi o primeiro a subjugar Messina e, tendo tomado para si o nome da cidade conquistada, foi o primeiro da família dos Valérios a denominar- se Messana; e que, tendo sido trocadas as letras por uma gradual corruptela da linguagem popular, chamou-se (6) Messala. Porventura permitirás a alguém ocupar-se também disto: que Lúcio Sulla foi o primeiro a apresentar os leões soltos no Circo, enquanto que anteriormente eram apresentados acorrentados, e que foram enviados arqueiros pelo rei Boco para exterminá-los? Que seja! Façamos também essa concessão. Mas acaso há um mínimo de valor em saber que Pompeu foi o primeiro a proporcionar um combate no Circo com dezoito elefantes, tendo-se enviado criminosos para enfrentálos, como se fosse uma batalha?
O primeiro dos cidadãos e, segundo o que a fama nos legou, homem que sobressaiu entre os antigos líderes por sua bondade, julgou ser um novo tipo de espetáculo digno de memória matar homens de um modo novo. Combatem até a morte? – É pouco. Despedaçam-se? – É pouco. (7) Que sejam esmagados por uma enorme massa de animais! Seria suficiente que esses assuntos passassem ao esquecimento, para que posteriormente um prepotente qualquer não aprendesse e invejasse uma ação tão desumana. Quantas trevas uma grande fortuna causa às nossas mentes! Acreditou estar acima das leis da Natureza quando lançou aquele bando de miseráveis a feras nascidas sob outros céus, quando proporcionou um combate entre animais tão desiguais, quando fez verter tanto sangue diante dos olhos do povo romano – ele, que em breve seria forçado a verter mais ainda. Mas, logo em seguida, o mesmo Pompeu, traído pela deslealdade alexandrina, entregou-se ao último dos escravos para ser abatido; só então compreendeu a vã (8) ostentação de seu Cognome.
Mas, para que retorne ao ponto de onde me desviei e para que mostre a inutilíssima diligência de alguns nestes mesmos assuntos: aquele mesmo erudito contava que Metelo, tendo vencido os cartagineses na Sicília, foi o único de todos os romanos a conduzir em seu triunfo cento e vinte elefantes diante do carro, e que Sulla foi o último dos romanos a aumentar o “pomerium”, coisa que, segundo os costumes antigos, só se fazia após a conquista de territórios italianos, e nunca provinciais. Há alguma utilidade maior em saber que o monte Aventino, como assegurava aquele, situa-se para além do “pomerium” por uma dessas duas razões: ou porque a plebe tenha-se afastado daí, ou porque, quando Remo tomava os auspícios, o vôo das aves não foi favorável – e ainda outros inumeráveis conhecimentos, que, ou estão abarrotados de mentiras, ou são desta natureza? (9) Pois mesmo que se admita que eles contam essas coisas todas de boa fé e que se responsabilizam pelo que foi escrito, contudo esses conhecimentos servirão para minorar os erros de alguém? Refrearão as paixões de alguém? Farão alguém mais generoso, mais corajoso, mais justo? Às vezes meu caro Fabiano dizia duvidar se era melhor não empreender estudo algum do que se envolver com os deste gênero.
14 – 1: Dentre todos os homens, somente são ociosos os que estão disponíveis para a sabedoria; eles são os únicos a viver, pois, não apenas administram bem sua vida, mas acrescentam-lhe toda a eternidade. Todos os anos que se passaram antes deles são somados aos seus. A menos que sejamos os maiores dos ingratos, aqueles fundadores das sublimes filosofias nasceram para nós, e eles nos preparam o caminho para a vida. Graças aos seus esforços, conduzem-nos das trevas à luz, aos mais belos conhecimentos. Não nos é vedado o acesso a nenhum século, somos admitidos a todos; e se desejamos, pela grandeza da alma, ultrapassar os estreitos limites da fraqueza humana, há um vasto espaço de tempo a percorrer. (2) Poderemos discutir com Sócrates, duvidar com Carnéades, encontrar a paz com Epicuro, vencer a natureza humana com a ajuda dos estóicos, ultrapassá-la com os cínicos. Já que a Natureza nos permite entrar em comunhão com toda a eternidade, por que não nos desviarmos dessa estreita e curta passagem do tempo e nos entregarmos com todo nosso espírito àquilo que é ilimitado, eterno e partilhado com os (3) melhores?
Os que se desdobram em muitos compromissos sociais, que agitam a si mesmos e a outros, bem conscientes de suas tolices, após terem percorrido diariamente as soleiras de todos e não ter deixado de entrar em nenhuma porta aberta, após terem levado sua interesseira saudação à volta das mais remotas casas, quão pouco não terão eles visto numa cidade tão grande e dilacerada por várias paixões! (4) Quantos haverá cujo sono, dissolução ou grosseria não os afastará? Quantos, após os terem torturado com uma longa espera, não passarão por eles fingindo estarem apressados? Quantos não evitarão aparecer no átrio repleto de clientes, escapando por portas secretas, como se fosse menor descortesia enganar do que despedir! Quantos, ainda meio adormecidos e pesados devido à embriaguez da noite anterior, responderão, àqueles pobres coitados que interromperam seu sono para esperar o despertar de um outro, com o bocejo mais arrogante, mal levantando os (5) lábios! Podemos afirmar que se dedicam a verdadeiros deveres, somente aqueles que desejam estar cotidianamente na intimidade de Zenão, Pitágoras, Demócrito, Aristóteles, Teofrasto e os demais mestres de virtude. Nenhum deles deixará de estar à nossa disposição, nenhum despedirá o que o procurar, sem que o faça mais feliz e mais devotado a ele, nenhum permitirá a quem quer que seja partir de mãos vazias; e eles podem ser encontrados por qualquer homem, tanto durante o dia como à noite.
15 – 1: Nenhum destes forçará tua morte, todos te ensinarão a morrer, nenhum dissipará teus anos, mas te oferecerá os seus. Nunca a conversação com eles será perigosa, fatal a amizade ou onerosa a deferência. Conseguirás deles tudo o que quiseres: não será deles a culpa (2) se não tiveres exaurido tudo o que desejas. Que felicidade, que bela velhice não aguarda o que se dispôs a ser seu cliente! Ele terá com quem discutir sobre as menores, bem como sobre as maiores, questões, a quem consultar diariamente sobre si mesmo, de quem ouvir a verdade sem ofensa e ser louvado sem adulação, a cuja (3) semelhança se possa moldar. Costumamos dizer que não está em nosso poder escolher os pais que a sorte nos destinou, mas que nos foram dados ao acaso; contudo é nos permitido ter um nascimento segundo a nossa escolha. Existem famílias dos mais nobres espíritos: escolhe a qual delas queres pertencer, e receberás não apenas seu nome, mas também seus próprios bens, que não terás de vigiar miserável e mesquinhamente, pois, quanto mais forem partilhados pelos homens, maiores (4) se tornarão. Estes te darão o acesso à eternidade, te elevarão àquelas alturas de onde ninguém se precipita. Esta é a única maneira de prolongara existência mortal e, até mais, de convertê-la em imortalidade.
As dignidades, os monumentos, tudo o que a ambição impôs por decretos, ou construiu com o suor, depressa há de cair em ruínas: não há nada que a longa passagem dos anos não destrua ou desordene. Mas ela não pode tocar nos conhecimentos que a sabedoria consagrou, nenhuma idade os destruirá ou diminuirá, a seguinte e as sucessivas sempre hão de aumentá-los ainda mais: pois a inveja tem olhos apenas para o que está próximo de si, e admiramos com menos malícia o que está (5) distante. Portanto a vida do filósofo estende-se por muito tempo, e ele não está confinado nos mesmos limites que os outros. É o único a não depender das leis do gênero humano: todos os séculos servem-no como a um deus. Algo distancia-se no passado? Ele recupera-o com a memória. Está no presente? Ele o desfruta. Há de vir no futuro? Ele o antecipa. A reunião de todos os momentos num só torna- lhe longa a vida.
16 – 1: É extremamente breve e agitada a vida dos que esquecem o passado, negligenciam o presente e receiam o futuro; quando chegam ao termo de suas existências, os pobres coitados compreendem tardiamente que (2) estiveram por longo tempo ocupados em nada fazer. E, pelo fato de fazerem freqüentes apelos à morte, não há por que pensar que fica provado que eles tenham usufruído duma longa existência. Sua cegueira os atormenta com emoções incertas e que os faz incidir nas próprias coisas que temem: desejam então muitas vezes a morte, (3) porque os aterroriza. Não há ainda razão para se pensar que isto também seja uma prova de uma vida longa: – o fato de muitas vezes os dias lhes parecerem longos, ou porque se queixam de as horas custarem a passar até que chegue o momento do jantar; pois, se porventura as ocupações os abandonam, sentem-se desertados e inquietam-se mesmo no lazer, nem sabem como dispor dele ou matá-lo. Portanto anseiam por uma ocupação qualquer, e todo intervalo de tempo entre duas ocupações lhes é um fardo. E – por Hércules – tal é o que acontece quando se fixa a data dos combates de gladiadores, ou quando se aguarda o dia de um outro gênero qualquer de espetáculo ou divertimento: (4) desejam saltar os dias intermediários!
A espera de qualquer coisa por que anseiam lhes é penosa, mas aquele instante que lhes é grato corre breve e rápido e torna-se muito mais breve por sua própria culpa, pois passam de um prazer a outro e não podem permanecer fixos num só desejo. Seus dias não são longos, mas detestáveis, e, por outro lado, quão curtas não lhes parecem as noites que passam nos braços das prostitutas ou (5) entregues ao vinho! Daí também resulta o delírio dos poetas, que nutrem os descaminhos dos homens com ficções nas quais se mostra Júpiter, inebriado do desejo de coito, duplicando a duração da noite. Que outra coisa é, senão inflamar nossos vícios, quando os imputamos aos deuses e se concede a deferência da divindade a um exemplo de fraqueza? Podem estes não achar muito curtas as noites pelas quais pagam tão caro? Perdem o dia na espera da noite, a noite, de medo da aurora.
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