Meditações - Livro 2

Marco Aurélio

Meditações - Livro 2

No Livro 2, Marco Aurélio volta a atenção para o começo de cada dia. Ele recomenda esperar dificuldades humanas sem rancor, lembrar que a vida é breve e confiar a mente ao governo da razão. O centro do capítulo é a preparação interior: agir com firmeza, aceitar a natureza das coisas e não se deixar arrastar por queixas.

Ilustração em rabisco a lápis para o Livro 2 de Meditações, com tema de preparação diária, razão, morte e natureza humana.
Imagem criada para este post em estilo de desenho a lápis com atmosfera gótica.

1. Começa cada dia por dizer a ti próprio: Hoje vou deparar com a intromissão, a ingratidão, a insolência, a deslealdade, a má-vontade e o egoísmo — todos devidos à ignorância por parte do ofensor sobre o que é o bem e o mal. Mas, pela minha parte, já há muito percebi a natureza do bem e a sua nobreza, a natureza do mal e a sua mesquinhez, e também a natureza do próprio culpado, que é meu irmão (não no sentido físico, mas como meu semelhante, igualmente dotado de razão e de uma parcela do divino); portanto nenhuma destas coisas me ofende, porque ninguém pode envolver-me naquilo que é degradante. Nem eu posso ficar zangado com o meu irmão ou entrar em conflito com ele; porque ele e eu nascemos para trabalhar juntos, como, de um homem, as duas mãos, os dois pés, as duas pálpebras ou os dentes de cima e de baixo. Criar dificuldades uns aos outros é contra as leis da Natureza — e o que é a irritação, ou a aversão, senão uma forma de criar dificuldades aos outros?

2. Um pouco de matéria, um pouco de respiração e uma Razão para tudo dirigir — isto sou eu. (Esquece os teus livros; deixa de suspirar por eles; não faziam parte do teu equipamento.) Como alguém já à beira da morte, não penses na primeira — no seu sangue viscoso, nos seus ossos, na sua teia de nervos e veias e artérias. E a respiração, o que é? Uma lufada de ar; e nem sequer o mesmo ar, mas, antes, sempre diferente a cada inspiração e expiração. Mas a terceira, a Razão, a mestra — é nela que te deves concentrar. Agora que o teu cabelo já está grisalho, não deixes mais que ela tenha um papel de escrava, que se contorça, qual marioneta, a cada acesso de interesse pessoal; e deixa de te exasperares com o destino, resmungando com o hoje e queixando-te do amanhã.

3. Toda a organização divina está impregnada da Providência. Mesmo os caprichos do acaso têm o seu lugar no esquema da Natureza, isto é, no intricado tecido das disposições da Providência. A Providência é a fonte donde fluem todas as coisas; e a ela aliada, está a Necessidade, e o bem-estar do universo. Tu próprio és parte do universo; e para qualquer das partes da natureza, aquilo que lhe é atribuído pelo Mundo-Natureza, ou a ajuda a existir, é bom. Além disso, o que mantém todo o mundo em existência é a Mudança: não meramente a mudança dos elementos básicos, mas também a mudança das formações maiores que elas compõem. Contenta-te com estes pensamentos, e considera- os sempre como princípios. Esquece a tua sede de livros, para que, quando o teu fim chegar não resmungues, mas o encares com boa vontade e verdadeira gratidão aos deuses.

4. Pensa nos teus muitos anos de adiamento; como os deuses repetidamente te proporcionaram mais períodos de graça que não aproveitaste. Está na altura de te dares conta da natureza do universo a que pertences, e da daquele poder controlador de que és filho; e de compreenderes que o teu tempo tem um limite. Usa-o, portanto, para avançares no teu esclarecimento, senão ele vai-se e nunca mais voltará a estar de novo em teu poder.

5. Decide com firmeza, a todas as horas, como romano e como homem, fazer tudo aquilo que te chegar às mãos com dignidade, e com humanidade, independência e justiça. Liberta o espírito de todas as outras considerações. Isto podes tu fazer se abordares cada ação como se fosse a última, pondo de lado o pensamento indócil, o recuo emocional das ordens da razão, o desejo de causar uma boa impressão, a admiração por ti próprio, a insatisfação pelo que te calhou em sorte. Vê o pouco que um homem precisa de dominar para que os seus dias fluam calma e devotadamente: ele apenas tem de observar estes poucos conselhos, e os deuses nada mais lhe pedirão.

6. Ó alma minha, que mal, que mal vós estais a fazer a vós própria; e muito em breve vós já não tereis mais tempo para fazerdes justiça a vós própria. O homem não tem senão uma vida; e a vossa está já próxima do fim, contudo, continuais a não ter olhos para a vossa própria honra e estais a hipotecar a vossa felicidade às almas de outros homens. 16

7. A tua atenção é desviada para preocupações exteriores? Então, concede-te um espaço de sossego dentro do qual possas aumentar o conhecimento do bem e aprender a refrear a tua inquietação. Defende-te também de outro tipo de erro: a loucura daqueles que passam os seus dias com muita ocupação mas carecem de um qualquer objetivo em que concentrem todo o seu esforço, melhor, todo o seu pensamento.

8. Dificilmente encontrarás um homem a quem a indiferença pelas atividades de outra alma traga infelicidade; mas para aqueles que não prestam atenção aos movimentos da sua própria, a infelicidade é certamente a recompensa.

9. Tendo sempre em mente aquilo que o Mundo-Natureza é, e aquilo que a minha própria natureza é, e o que uma é em relação à outra — uma fracção tão pequena de um Todo tão vasto — lembra-te de que ninguém pode impedir-te de concertar cada palavra e cada ação com a Natureza de que és parte.

10. Quando Theophrasto compara os pecados — tanto quanto comummente se reconhece que são comparáveis — ele afirma a verdade filosófica de que os pecados do desejo são mais censuráveis do que os pecados da paixão. Porque na paixão, o afastamento da razão parece trazer consigo, pelo menos, um certo desconforto e uma impressão meio sentida de constrangimento; enquanto que os pecados do desejo, entre os quais predomina o prazer, revelam um carácter mais auto-indulgente e mais feminino. Tanto a experiência como a filosofia apoiam a alegação de que um pecado que dá prazer merece uma censura mais grave do que aquele que faz sofrer. Num caso, o prevaricador é como um homem amarrado a uma perda de controle involuntária; no outro, a ânsia de satisfazer o seu desejo leva-o a fazer o mal de sua própria vontade.

11. Em tudo o que fizeres, disseres ou pensares, lembra-te de que está sempre na tua mão o poder de te retirares da vida. Se os deuses existem, não tens nada a temer em te despedires da humanidade, pois eles não deixarão que te aconteça qualquer mal. Mas se não há deuses, ou se eles não se metem nos assuntos dos mortais, o que é a vida para mim, num mundo desprovido de deuses ou desprovido da Providência? Os deuses, contudo, existem, e preocupam-se com o mundo dos homens. Deram-nos o poder suficiente para não cairmos em qualquer dos males absolutos; e se houvesse verdadeiro mal nas outras experiências da vida, eles teriam providenciado nesse sentido também, para que estivesse na mão de todos os homens evitá-lo. Mas quando uma coisa não piora o próprio homem, como pode ela piorar a vida que ele vive? O Mundo-Natureza não pode ter sido tão ignorante a ponto de descurar um risco deste tipo, ou, dele conhecedor, não ser capaz de inventar uma salvaguarda ou um remédio. Nem a falta de poder, nem a falta de competência poderiam ter levado a Natureza a cair no erro de permitir que o bem e o mal visitassem indiscriminadamente o justo e o pecador. Contudo, viver e morrer, fama e descrédito, dor e prazer, riqueza e pobreza, e por aí adiante, são quotas- partes que cabem igualmente aos homens bons e maus. Coisas como estas não elevam nem aviltam; e portanto não são nem boas nem más.

12. Os nossos poderes mentais deviam permitir-nos perceber a rapidez com que todas as coisas se desvanecem; os corpos no mundo do espaço, e as lembranças no mundo do tempo. Devíamos também observar todos os objectos da percepção — particularmente aqueles que nos enchem de prazer ou nos afligem com sofrimento, ou são clamorosamente impelidos até nós pela voz da vaidade — a sua vulgaridade e baixeza, como são sórdidos, e como se desvanecem e morrem rapidamente. Devíamos distinguir o verdadeiro merecimento daqueles cuja palavra e opinião conferem reputação. Devíamos apreender, também, a natureza da morte; e que basta contemplá-la fixamente e dissecar as fantasias a ela mentalmente associadas, para acabarmos por pensar nela como nada mais do que um processo natural (e só as crianças se assustam com um processo natural) — ou melhor, como qualquer coisa mais do que um processo natural, uma contribuição positiva para o bem-estar da natureza. Também podemos aprender como o homem tem contato com Deus, e com que parte de si próprio esse contato se mantém, e como essa parte se comporta depois da sua remoção daqui.

13. Nada mais triste do que fazer o circuito de toda a criação, «esquadrinhando as profundezas da terra», como diz o poeta, e espreitando curiosamente os segredos das almas dos outros, sem por uma vez compreendermos que agarrar firmemente o espírito divino que neles reside e servi-lo lealmente é tudo aquilo de que precisamos. Tal serviço implica o mantê-lo livre da paixão, e da falta de objectivos, e da insatisfação com a obra dos deuses ou dos homens; porque a primeira merece o nosso respeito pela sua excelência; a segunda, a nossa boa- vontade, em nome da fraternidade, e por vezes também, a nossa piedade, por causa da ignorância dos homens a respeito do bem e do mal — uma fraqueza tão mutiladora como a incapacidade de distinguir o preto do branco.

14. Mesmo que vivesses três mil anos, ou até trinta mil, lembra-te que a única vida que um homem pode perder é aquela que está a viver no momento; e mais, que ele não pode ter qualquer outra vida a não ser aquela que ele perde. Isto significa que uma vida mais longa ou mais curta vão dar ao mesmo. Porque o minuto que passa é o bem igual de todos os homens, mas o que já passou não é nosso. A nossa perda, portanto, limita-se àquele momento fugaz, uma vez que ninguém pode perder o que já passou, nem o que está ainda para vir — porque como é que ele pode ser despojado daquilo que não tem? Assim, duas coisas temos de ter em atenção. Primeiro, que todos os ciclos da criação, desde o princípio do tempo, têm o mesmo padrão recorrente, de modo que não importa que o mesmo espectáculo se observe durante cem anos ou durante duzentos, ou para sempre. Segundo, que quando aqueles de nós que vivem mais, e os que vivem menos, morrem, as suas perdas são perfeitamente iguais. Porque a única coisa de que o homem pode ser despojado é o presente, uma vez que isso é tudo o que ele possui, e ninguém pode perder o que não é seu.

15. Há óbvias objecções à afirmação do cínico Mónimo de que «as coisas são determinadas pelo que vemos nelas»; mas o valor do seu aforismo é igualmente óbvio, se aceitarmos a sua substância até ao ponto de considerarmos que ela contém uma verdade.

16. Para uma alma humana, o maior dos males auto- infligidos é tornar-se (podendo) uma espécie de tumor ou abcesso no universo; porque contender com as circunstâncias é sempre uma rebelião contra a Natureza — e a Natureza inclui a natureza de cada parte individual. Outro mal é rejeitar um semelhante ou opor-se-lhe com más intenções, como os homens fazem quando estão zangados. Um terceiro, render-se ao prazer ou à dor. Um quarto, dissimular e mostrar insinceridade ou falsidade em palavras ou em atos. Um quinto, a alma não dirigir os seus atos e esforços para um objetivo determinado, e gastar as suas energias sem qualquer fim e sem o devido pensamento; porque mesmo a mais insignificante das nossas atividades deve ter um fim em vista — e para criaturas dotadas de razão, o fim é a conformidade com a razão e a lei da Cidade e Comunidade originais.

17. Na vida de um homem, o seu tempo é apenas um momento, o seu ser um fluxo incessante, os sentidos uma vela mortiça, o corpo uma presa dos vermes, a alma um turbilhão inquieto, o destino, negro, e a fama, duvidosa. Em resumo, tudo o que é do corpo, é como água corrente, tudo o que é da alma, como sonhos e vapores; a vida, uma guerra, uma curta estadia numa terra estranha; e depois da fama, o esquecimento. Onde, pois, poderá o homem encontrar o poder de guiar e salvaguardar os seus passos? Numa e só numa coisa apenas: a Filosofia. Ser filósofo é manter o espírito divino puro e incólume dentro de si, para que ele transcenda todo o prazer e toda a dor, não empreenda nada sem um objetivo, ou com falsidade ou dissimulação, não fique na dependência das ações ou inacções dos outros, aceite todas e cada uma das prescrições como vindas da mesma Fonte donde ele próprio veio — e final e principalmente, para que espere a morte com dignidade, como nada mais do que a simples dissolução dos elementos de que todo o organismo vivo é composto. Se esses próprios elementos não se danificam com a incessante formação e re-formação, porquê olhar com desconfiança a transformação e dissolução do todo? Trata-se apenas do curso da Natureza; e no curso da Natureza não se encontra mal nenhum.

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