Sêneca
Sobre a Brevidade da Vida - Parte 2
Nesta parte, Sêneca examina a vida dos ocupados: políticos, ambiciosos, ricos, bajuladores e pessoas presas aos negócios dos outros. Mesmo os mais poderosos desejam descanso, mas raramente sabem conquistá-lo. O ócio verdadeiro começa quando alguém deixa de ser arrastado por vaidades externas.
5 – 1: Marco Cícero, atirado entre homens como Catilina, Clódio, Pompeu e Crasso, uns, manifestos inimigos, outros, dúbios amigos, enquanto oscilava com a República e procurava sustentá- la no seu naufrágio, até finalmente afundar com ela, sempre inquieto na prosperidade e impaciente na adversidade, quantas vezes não amaldiçoou seu próprio consulado, que era louvado (2) não sem motivo, mas sem moderação. Que coisas lamentáveis ele diz numa carta a Ático, na época em que Pompeu, o Pai, já havia sido vencido, e seu filho restaurava na Espanha as armas despedaçadas! “Perguntas-me o que faço aqui?” – diz ele. “Semi-livre, quedo-me em minha vila de Túsculo.” Ainda acrescenta muitas outras palavras, nas quais lamenta a vida passada, queixa-se do presente e desespera-se do futuro. Cícero se diz semi-livre mas, por Júpiter!, nunca o sábio recorrerá a um termo tão baixo, nunca será semi-livre, mas será um homem de íntegra e sólida liberdade, desapegado, senhor de si e bem acima dos demais. Pois quem pode estar acima daquele que está acima da Fortuna?
6 – 1: Diz-se que Lívio Druso, homem violento e arrebatador, após ter dado curso a novas leis e às más medidas dos Gracos, com o apoio de uma vasta multidão de toda a Itália, não vendo uma saída para sua política, que já não mais podia levar adiante, nem, uma vez precipitada, abandonar, amaldiçoou sua vida agitada desde o princípio e declarou nunca ter tido férias, nem mesmo quando menino. Com efeito, adolescente ainda, trajando a toga pretexta, ousou fazer recomendações sobre os réus aos Juízes e fazer prevalecer tão eficazmente sua opinião no fórum, que é tido como certo que algumas causas foram por ele arrebatadas. (2) Em que não haveria de dar uma ambição tão prematura? Poder- se-ia imaginar que uma audácia tão precoce haveria de resultar em fonte de grande prejuízo público e particular. E, portanto, era tarde para se queixar de nunca ter tido férias, ele que, desde criança, já era um perturbador e um elemento nocivo ao fórum. Discute-se se ele teria se suicidado, pois sucumbiu de um ferimento recebido na virilha; há quem duvide se sua morte foi voluntária, mas ninguém, de (3) que foi oportuna.
Seria supérfluo mencionar os que, embora pareçam aos outros os mais felizes dos homens, declaram eles próprios que na verdade odeiam todas as ações de suas vidas, mas com essas declarações não mudaram nem a si próprios nem aos outros, pois mal pronunciavam essas palavras e as paixões faziam-nos (4) recair em seus hábitos. Mas, por Júpiter!, uma vida como a vossa, mesmo que dure mais de mil anos, será sempre determinada pelos mais estreitos limites: estes vícios podem devorar séculos e séculos. O espaço de tempo que temos, a razão pode na verdade dilatá-lo; e, embora a Natureza faça-o correr, necessariamente ele vos escapará, pois que não vos apossais dele, nem o retendes ou fazeis demorar a mais fugidia de todas as coisas, mas deixais que se perca como se fosse, uma coisa supérflua e substituível.
7 – 1: Conto entre os piores os que nunca estão disponíveis para nada, senão para o vinho e os prazeres sensuais, pois não há ocupação mais vergonhosa. Outros, embora se prendam à imagem vazia da glória, contudo erram honradamente; podes me enumerar os avarentos, os turbulentos, ou os que se entregam a ódios e guerras injustas: todos estes pecam de uma maneira mais viril. Mas os que se entregam à gula e aos prazeres sensuais ostentam uma degradação (2) desonrosa. Examina todo o tempo deles: verifica quanto gastam em cálculos avaros, quanto em preparar emboscadas, quanto temendo-as, quanto bajulando, quanto sendo bajulados; e quanto tempo ocupam em compromissos judiciários, seus ou alheios, ou com banquetes – que já se tornaram mesmo uma obrigação: verás que nem seus bens, nem seus males, os deixam respirar. (3) Finalmente, todos concordam que um homem ocupado não pode fazer nada bem: não pode se dedicar à eloquência, nem aos estudos liberais, uma vez que seu espírito, ocupado em coisas diversas, não se aprofunda em nada, mas, pelo contrário, tudo rejeita, pensando que tudo lhe é imposto. Nada é menos próprio do homem ocupado do que viver, pois não há outra coisa que seja mais difícil de aprender.
Professores das outras artes, há vários e por toda parte, dentre algumas dessas, vemos crianças terem atingido tanta maestria, que chegam até a ensiná- las. Deve-se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que tu talvez te espantes, a vida (4) toda é um aprender a morrer. Muitos dos maiores homens, tendo afastado todos os obstáculos e renunciado às riquezas, a seus negócios e aos prazeres, empregaram até o último de seus dias para aprender a viver, contudo muitos deles deixaram a vida tendo confessado ainda não sabê-lo – e muito menos ainda (5) o sabem os que mencionei acima. Creia-me, é próprio de um grande homem e de quem se eleva acima dos erros humanos, não consentir que lhe tomem um instante sequer da vida, e assim toda sua vida é muito longa, uma vez que se dedicou todo a si próprio, não importa quanto ela tenha durado. Nem um instante dela permaneceu descuidado ou ocioso, ou esteve subordinado a um outro e, portanto, ele, seu guarda parcimonioso, não encontrará ninguém que julgue ter vivido dignamente a ponto de querer trocar sua vida com a dele. Portanto, a este seu tempo foi suficiente, mas àqueles que tiveram muito de sua vida subtraído (6) pelo povo, ela necessariamente faltou. E nem por isso há motivo para pensares que eles às vezes não compreendem seu erro.
Certamente ouvirás muitos dos que são esmagados por sua grande prosperidade, vez por outra, exclamar de entre a multidão de clientes, ou de seus processos jurídicos, ou de outras honoríficas misérias: “Não me deixam viver!” E haveriam de (7) deixar? Todos os que te reclamam para si te afastam de tuas ocupações. Quantos dias te tomou aquele réu? E aquele candidato? E a velha, já cansada de enterrar herdeiros? E aquele que finge ser doente para excitar a cobiça dos caçadores de testamentos? E aquele amigo poderoso, que te mantém, não em sua amizade, mas em seu cortejo? Faz o cômputo dos dias de tua vida: verás que restaram muito poucos dias para ti mesmo. (8) Tendo aquele obtido os cargos com que tanto sonhava, deseja abandoná-los e repete incessantemente: “Quando este ano passará?” Outro proporciona espetáculos públicos, que tanto desejou que lhe fossem cabidos por sorte, e agora diz: “quando me livrarei deles?” Disputa-se tanto para ouvir aquele advogado, que ele enche de uma grande multidão todo o fórum, até para além de onde pode ser ouvido. “Quando” – diz ele – “me livrarei disto?” Cada um faz precipitar sua vida e (9) padece da ânsia do futuro e de tédio do presente.
Mas o que emprega todo o tempo consigo próprio, que ordena cada dia como se fosse uma vida, nem deseja o amanhã, nem o teme. Pois que novo prazer há, que qualquer hora lhe possa imediatamente trazer? Tudo lhe é conhecido, tudo foi desfrutado até a saciedade. Do resto, que a Fortuna disponha como queira: a vida já lhe foi assegurada. Nada se lhe pode adicionar ou arrebatar, e, mesmo que algo se acrescente a ela, seria como se alimentassem alguém já farto de alimentos quaisquer: estará recebendo algo que nem mais (10) deseja. Portanto não há por que pensar que alguém tenha vivido muito, por causa de suas rugas ou cabelos brancos: ele não viveu por muito tempo, simplesmente foi por muito tempo. Pensarias ter navegado muito, aquele que, tendo se afastado do porto, foi apanhado por violenta tempestade, errou para cá e para lá e ficou a dar voltas, conforme a mudança dos ventos e o capricho dos furacões, sem contudo sair do lugar? Ele não navegou muito, mas foi muito acossado.
8 – 1: Costumo estranhar quando vejo alguns pedindo tempo, e aqueles a quem se pede mostrarem-se muito complacentes; ambos consideram aquilo pelo que se pede tempo, nenhum, o tempo mesmo: parece que nada se pede e que nada é dado. Brinca-se com a coisa mais preciosa de todas; contudo ela lhes escapa sem que percebam, pois é um incorporal e algo que não salta aos olhos, por isso é considerado muito desprezível, e em razão disto não lhes atribuem valor algum. (2) Os homens recebem pensões e aluguéis com muito prazer e concentram neles suas preocupações, esforços e cuidados, mas ninguém dá valor ao tempo; usa-se dele a rédeas soltas, como se nada custasse. Porém, quando doentes, se estão próximos do perigo de morte, prostram-se aos joelhos dos médicos; ou, se temem a pena capital, estão prontos a gastar todos os seus bens para viver. Tamanha é a discórdia de seus (3) sentimentos! Se fosse possível apresentar a cada um a conta dos anos futuros, da mesma forma que podemos fazer com os passados, como tremeriam aqueles que vissem restar-lhes poucos anos e como os poupariam! Pois, se é fácil administrar o que, embora curto, é certo, deve-se conservar com muito cuidado o que não se pode saber (4) quando há de acabar.
Contudo não há por que pensar que eles ignoram que coisa preciosa é o tempo: costumam dizer aos que amam muitíssimo que estão dispostos a lhes dar parte de seus dias. E realmente dão, sem se aperceberem disto, mas dão de forma a subtraírem vários anos a si, sem aumentar os daqueles. Mas ignoram o fato mesmo de estarem perdendo seus anos, por isso lhes é tolerável a perda de um bem que não é (5) notado. Ninguém devolverá teus anos, ninguém te fará voltar a ti mesmo. Uma vez principiada, a vida segue seu curso e não reverterá nem o interromperá, não se elevará, não te avisará de sua velocidade. Transcorrerá silenciosamente, não se prolongará por ordem de um rei, nem pelo apoio do povo. Correrá tal como foi impulsionada no primeiro dia, nunca desviará seu curso, nem o retardará. Que sucederá? Tu estás ocupado, e a vida se apressa; por sua vez virá a morte, à qual deverás te entregar, queiras ou não.
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